

  Plancie de Passagem 
  Vol. IV (Os Filhos da Terra)
  
   Jean M. Auel 
   
  
***  


   Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da internet! 
    
    
    ***
    

    Plancie de Passagem
    
    Este  o quarto volume da Saga dos FILHOS DA TERRA, de Jean M. Auel, que reconstitui com detalhes preciosos e autnticos o nosso passado pr-histrico. Fruto 
de exaustiva e minuciosa pesquisa, Plancie de Passagem continua as aventuras de Ayla, a Filha das Cavernas, a herona criada por homens de Neandertal que ousou 
sair em busca de seu destino ao lado do fiel companheiro Jondalar.
    Eles partem montados em seus cavalos pelos campos varridos da Europa da poca Glacial. Para os caadores daquele mundo, que nunca viram animais domesticados, 
Ayla e Jondalar parecem enigmticos e assustadores. O mistrio que envolve a mulher, que fala de uma forma estranha e conversa com os animais na linguagem deles, 
 intensificado por seu fantstico domnio sobre um grande lobo. O homem alto e louro que cavalga a seu lado tambm  visto com espanto, no s pelo magnfico garanho 
que ele domina, mas tambm por sua habilidade como arteso de utenslios de pedra e pela nova e poderosa arma que ele criou.
    No decorrer de sua odisseia atravs do continente, Ayla e Jondalar se deparam tanto com inimigos ferozes quanto com bravos amigos, e aprendem que o vasto e desconhecido 
mundo pode ser temvel e traioeiro, mas, ao mesmo tempo, de uma beleza e sabedoria extasiantes.
    
    OBRAS DA AUTORA
    __________________________________________________
    
    AYLA  A FILHA DAS CAVERNAS
    OS CAADORES DE MAMUTES
    O VALE DOS CAVALOS
    
    
    JEAN M. AUEL
    
    Plancie de Passagem
    Traduo de
    RAUL DE S BARBOSA 
    e
     HONALDSON GARSCHAGEN
    
    Ttulo original norte-americano
    
    THE PLAINS OF PASSAGE
    
    Para LENORE, a ltima a chegar, e cujo homnimo aparece nestas pginas,
    Para MICHAEL, que espera ansioso com ela, e para DUSTIN JOYCE e Wendy, com amor.
    
    Cada um dos livros da srie Os Filhos da Terra apresentou seus prprios desafios, mas, desde o incio, quando o antigo projeto de seis romances foi concebido, 
o quarto volume, o "livro da viagem", foi o que envolveu o trabalho de pesquisa e redao mais difcil e mais interessante. Para escrever Plancie de Passagem foi 
necessrio que a autora realizasse viagens extras, incluindo a volta  Checoslovquia e visitas  Hungria, ustria e Alemanha para seguir um trecho do Danbio (o 
Rio da Grande Me). No entanto, para fazer a ambientao na poca Glacial foi necessrio um tempo ainda maior de pesquisas em biblioteca.
    Agradeo novamente ao Dr. Jan Jelinek, diretor emrito do Anthropos Institute, em Brno, Checoslovquia, por sua constante gentileza, ajuda e pelas observaes 
e interpretaes sbias dos ricos artefatos do perodo Paleoltico Superior encontrados na regio.
    Sou grata tambm ao Dr. Bohuslav Klima, do Instituto de Arqueologia da Academia de Cincias da Checoslovquia, pelo excelente vinho de sua adega, produzido em 
seus prprios vinhedos, prximo a Dolni Vestonice, e ainda mais pela generosidade com que compartilhou seu vasto conhecimento e informaes sobre essa regio de 
extrema importncia em eras primitivas.
    Gostaria de agradecer tambm ao Dr. Jiri Svoboda, do Instituto de Arqueologia da Academia de Cincias da Checoslovquia, pelas informaes sobre suas surpreendentes 
descobertas que muito vm acrescentar ao conhecimento sobre nossos ancestrais dos princpios da Era Moderna que viveram h mais de duzentos e cinquenta sculos, 
quando o gelo cobria mais de um quarto do globo terrestre.
    A Dra. Olga Soffer, a maior especialista americana sobre os povos do centro e leste europeus do Perodo Paleoltico Superior, ofereo meus agradecimentos incomensurveis 
por me manter informada a respeito dos progressos mais recentes, enviando-me os ltimos documentos e publicaes, incluindo os resultados de um novo estudo sobre 
a arte cermica mais primitiva da histria da humanidade.
    Quero agradecer ao Dr. Milford Wolpoff, da Universidade de Michigan, por seus insights durante a discusso sobre a distribuio da populao nos continentes 
do hemisfrio norte na poca Glacial, quando nossos ancestrais humanos agrupavam-se em certas regies favorveis e deixavam a maior parte da terra, embora rica em 
vida animal, desabitada.
    Encontrar as peas do quebra-cabea necessrias  criao deste mundo ficcional do passado pr-histrico foi um desafio; uni-las foi uma outra aventura. Depois 
de estudar o material disponvel sobre as geleiras e o ambiente que as circundava, eu ainda no podia formar um quadro completo das terras do norte de modo a poder 
movimentar meus personagens em seu mundo. Havia interrogaes, teorias que contradiziam outras  algumas das quais no pareciam muito bem elaboradas , peas de 
quebra-cabea que no se encaixavam.
    Finalmente, com grande alvio e crescente entusiasmo, encontrei um estudo apresentado de forma clara e sria, que trouxe a poca Glacia!  luz. Nele pude descobrir 
respostas s perguntas que surgiam em minha mente e graas a ele pude encaixar peas encontradas em outras fontes e frutos de minha prpria especulao, a fim de 
montar um cenrio lgico. Serei eternamente grata a R. Dale Guthrie por seu artigo "Mammals of the Mammoth Steppe as Paleoenvironmental Indicators", pginas 307-326, 
de Paleoecology of Beringia (editado por David M. Hopkins, John V. Matthews Jr., Charles E. Schweger e Steven B. Young, Acade-mie Press, 1982). Mais do que qualquer 
outro trabalho, esse documento colaborou para que este livro se tornasse um todo coeso, abrangente e inteligvel.
    Como os mamutes lanferos simbolizam a poca Glacial, empreendeu-se um esforo considervel para trazer esses paquidermes pr-histricos de volta  vida. Minha 
pesquisa envolveu tudo o que pude encontrar a respeito de mamutes e, devido ao fato de estarem intimamente relaciona dos, dos elefantes modernos. Entre essas fontes, 
Elephant Memories: Thirteen Years in the Life of an Elephant Family, de autoria da Dra. Cynthia Moss (William Morrow & Co., Inc., 1988), destaca-se como uma obra 
definitiva. Agradeo  Dra. Moss por seus muitos anos de estudo e poi seu livro inteligente e de fcil leitura.
    Alm da pesquisa, um escritor preocupa-se com a forma de seu texto e com a qualidade do trabalho final. Serei para sempre grata a Laurie Stark, gerente editorial 
executiva do Crown Publishing Group, que cuida para que os manuscritos finais se transformem nas pginas impressas de livros bem acabados. Ela foi a responsvel 
pelos quatro livros e, nesse mundo em constante mudana, agradeo a continuidade e a consistncia do excelente trabalho que realizou.
    Sou grata tambm a Betty A. Prashker, vice-presidente e, mais importante ainda, eminente editora, que cuida, como uma me, para que o manuscrito que entrego 
chegue  forma final.
    Meus agradecimentos completos a Jean V. Naggar  nas Olimpadas Literrias, uma agente medalha de ouro!
    E, finalmente, a Ray Auel, meu amor e agradecimentos alm das palavras.
    
    Plancie de Passagem
    
    1
    ________________________________________________________________________
    

    A mulher percebeu de relance que havia movimento  frente, embora no pudesse ver muito bem atravs da poeira. Ficou pensando se no seria o lobo que vira correndo 
adiante deles, cedo.
    Lanou um olhar ao companheiro, com uma ruga de preocupao na testa. Depois, se esforou para divisar de novo o lobo, firmando a vista alm da poeira.
 Jondalar! Veja!  disse, apontando.
    Para a esquerda, o contorno impreciso de vrias tendas cnicas podia ser agora entrevisto, apesar do vento que levantava muita poeira.
    O lobo tocaiava algumas criaturas de duas pernas que tinham comeado a materializar-se no ar, portando lanas que apontavam diretamente para eles.
     Acho que alcanamos o rio, Ayla, mas temo que no sejamos os nicos com a inteno de acampar  margem dele  disse o homem, segurando o cavalo.
    A mulher parou a montaria com uma leve presso da coxa. O gesto era automtico, como um reflexo. Sequer precisava pensar para controlar o animal.
    Logo ouviu um rosnado de ameaa no fundo da garganta do lobo e sentiu que sua postura j no era de defesa. Ele estava pronto para o ataque! Ayla assoviou, um 
assovio agudo, caracterstico, semelhante a um pio de ave, mas de uma ave que ningum jamais escutara. O lobo deixou sua postura de combate e veio aos saltos em 
direo  mulher, escarranchada em cima da gua.
      Lobo, rente!  disse Ayla, mostrando com a mo. E o lobo se ps a trotar, obediente, ao lado da gua, de um pardo bao, tirante a amarelo. Mulher e homem, 
ento, emparelhados, avanaram devagarinho para os desconhecidos, postados entre eles e as barracas.
    Um vento forte e intermitente, cheio de fino loess em suspenso, rodopiava em torno deles, impedindo que vissem direito os homens das lanas. Ayla ergueu a perna 
e deixou-se escorregar por trs, pela anca da gua. No cho, ajoelhou-se junto do lobo, passou um brao por cima das costas dele e outro no peito, para acalm-lo, 
e det-lo, se preciso fosse. Podia sentir o rosnido surdo do animal e a tenso dos msculos prontos Para o salto. Olhou depois para Jondalar. Uma fina camada de 
p cobria os ombros do homem e seus cabelos da cor de linho e clareava o pelame castanho do cavalo, que ficava quase do tom mais comum na sua raa cor de canela. 
Ele e Huiin se pareciam. Embora estivessem ainda no comeo do vero, os fortes ventos do macio glaciar do norte j comeavam a ressecar a estepe numa larga faixa 
ao sul do gelo.
    Ela viu que o lobo se retesava contra o seu brao. Outra pessoa surgira por trs dos lanceiros, vestida como Mamute o faria para uma cerimnia importante, com 
mscara, chifres de auroque, e roupas pintada e decoradas com smbolos enigmticos.
    O Mamuti sacudiu um basto na cara deles e gritou:
 Vo embora, espritos maus! Deixem este lugar!
    Ayla achou que a voz era de mulher, falando atravs da mscara mas no podia ter certeza disso. As palavras, no entanto, haviam sido ditas em Mamuti. A figura 
adiantou-se de novo, brandindo o basto e Ayla segurou o lobo. Mas ento a criatura fantasiada se ps a salmodiar uma cantilena e a danar, sacudindo no ar o basto, 
correndo par; eles e retrocedendo rapidamente, como se quisesse assust-los ou expulsa los, e conseguindo, pelo menos, espantar os cavalos.
    Ela se surpreendia, vendo Lobo disposto a atacar. Os lobos no costumam atacar gente. Lembrando-se, porm, do comportamento observado antes, achou que entendia. 
Ayla muitas vezes estudara os lobos quando aprendia sozinha a caar. Sabia o quanto eles se afeioavam! o quanto eram leais com a sua prpria alcateia. Mas tambm 
sabia que ram rpidos quando se tratava de expulsar estranhos, e que at matavam outros lobos para proteger aqueles que consideravam como seus.
    Para o pequenino filhote que ela encontrara e levara consigo par; a caverna dos Mamuti, o Acampamento do Leo era a sua alcateia. Ou trs pessoas seriam como 
lobos estranhos para ele. J havia rosnado para gente que no conhecia e que viera de visita, ainda em pequeno. Agora, em territrio desconhecido, pertencente, talvez, 
a outra malta, era natural para ele uma atitude de defesa, sobretudo em face de estranhos armados de lanas. Por que a gente daquele acampamento usara lanas?
    Ayla notou algo de familiar na cantilena e logo descobriu o que era As palavras pertenciam  lngua sagrada e arcaica dos Mamuti, que s eles compreendiam. 
Ayla sabia pouco, Mamute apenas comeara a ensinar-lhe a lngua quando ela partira. Mas era capaz de perceber o sentido geral  canto, que era o mesmo do que fora 
dito antes, apenas vazado em termos mais persuasivos. Tratava-se, em suma, de uma exortao ao lobo estranho e aos espritos montados para que se fossem e os deixassem 
em paz. Para que regressassem ao reino dos espritos ao qual, a rigor, pertenciam.
    Falando em Zelandonii, para que os do Acampamento no entendessem, Ayla contou a Jondalar o que o Mamuti estava dizendo.
     Eles pensam que somos espritos? Naturalmente! Eu devia saber disso. Tm medo de ns.  por esse motivo que nos ameaam com lanas. Vamos ter esse problema, 
Ayla, sempre que encontrarmos algum no caminho. Estamos acostumados com animais agora, mas as pessoas s pensam em cavalos e lobos como comida ou peles.
     Os Mamuti da Reunio de Vero tambm se perturbaram no comeo. Levaram algum tempo para acostumar-se  ideia de ter cavalos e Lobo por perto, mas por fim 
conseguiram  disse Ayla.
     Quando abri os olhos pela primeira vez na caverna, em seu vale, e vi voc ajudando Huiin a parir Racer, pensei que o leo me havia matado e que acordara no 
mundo dos espritos  disse Jondalar.  Talvez eu deva apear tambm, e mostrar-lhes que sou um homem e no estou ligado a Racer como alguma espcie de esprito, 
metade homem metade cavalo.
    Jondalar desmontou, mas continuou segurando a corda que atara ao cabresto que tinha feito. Racer batia com a cabea, tentando recuar. O Mamuti avanava mais 
uma vez, acenando com o basto, e resmungando cantos. Huiin estava atrs da mulher ajoelhada, de cabea baixa, tocando-a. Ayla no usava rdeas nem brida para guiar 
sua gua. Fazia-o apenas com a presso das pernas e os movimentos do corpo.
    Ouvindo alguns sons da lngua que os espritos falavam e vendo que um deles pulava em terra, o Xam cantou mais alto, rogando que se fossem, prometendo cerimnias, 
procurando aplac-los com ofertas de presentes.
        Voc deveria explicar-lhes quem somos  disse Ayla.  Aquele Mamuti est ficando muito transtornado.
    Jondalar segurou a rdea bem junto da cabea do garanho. Racer estava alarmado e irritado, e o Mamuti, com o basto e gritos, no ajudava em nada. Mesmo Huiin 
parecia a ponto de espantar, e ela era muito mais tranquila que seu excitvel descendente.
     Ns no somos espritos  disse Jondalar em voz bem alta quando o Mamuti parou para respirar.  Sou um viajor, numa Jornada, e ela  apontou para Ayla   
Mamuti, de Lareira do Mamute.
    Os estranhos se entreolharam, e o Mamuti parou de cantar e danar, mas ainda brandiu o basto algumas vezes enquanto os estudava. Talvez fossem de fato espritos, 
que lhe pregavam uma pea, mas pelo menos haviam sido obrigados a expressar-se numa lngua que todo mundo entendia. Finalmente, o Mamuti falou:
     Por que acreditaria em vocs? Como vou saber que no esto procurando enganar a gente? Voc diz que ela pertence  Lareira do Mamute, mas onde est o sinal? 
Ela no tem a tatuagem no rosto.
     Eu no disse que era Mamuti  interveio Ayla. E o que ele disse foi que sou da Lareira do Mamute. O velho Mamute do Acampamento do Leo estava me dando aulas 
quando parti, de modo que no tenho um aprendizado completo.
    O Mamuti conferenciou com uma mulher e um homem, depois voltou.
     Este aqui  disse  afirma que  um visitante. Embora fale bem, tem um sotaque estrangeiro. Voc diz que  Mamuti, mas alguma coisa na sua maneira de falar 
a desmente.
        Jondalar prendeu a respirao e esperou. Ayla tinha, de fato, alguma coisa especial na voz. Havia certos sons que ela era quase incapaz de pronunciar, e 
a maneira como o fazia era, curiosamente, nica. Ficava perfeitamente claro o que ela queria dizer e nem um pouco desagradvel  ele, pelo menos, gostava , mas 
era perceptvel. No se parecia ao sotaque de nenhuma outra lngua, mas de uma lngua que a maior parti das pessoas nunca ouvira, ou sequer reconheceria como linguagem. 
Ayla falava com a pronncia da linguagem travada, gutural, vocalmente limitada do povo que a agasalhara como menina rf e a criara.
        Eu no nasci Mamuti  disse Ayla, segurando ainda Lobo pelo toutio, embora ele tivesse deixado de rosnar.  Fui adotada no Lar de Mamute pelo prprio 
Mamute.
        Seguiu-se uma certa comoo no grupo, e houve uma nova consulta particular entre o mamute, a mulher e o homem.
     Se voc no faz parte do mundo dos espritos, como se explica que domine esse lobo e faa com que os cavalos a levem s costas?  perguntou a mamute, decidindo 
ser objetiva.
 No  difcil quando a gente os apanha ainda jovens  explica Ayla.
 Voc faz a coisa parecer por demais simples. Deve haver mais nessa histria do que diz.  A mulher no iria enganar um Mamute que pertencia, ele tambm, ao Lar 
do Mamute.
     Eu estava l quando ela trouxe o filhote de lobo para a caverna  disse Jondalar.  Era to pequeno que no estava ainda desmamado Na minha opinio, no vingava. 
Mas ela lhe deu carne cortada em pedacinhos e caldo de carne, acordando no meio da noite para cuidar dele como se fosse um beb. Quando ele arribou, e comeou a 
crescer, todo mundo ficou surpreso, mas aquilo ainda no era nada. Ela o treinou para fazer o que mandasse  a no mijar dentro de casa, a no morde as crianas 
mesmo se lhe faziam maldades. Se eu no estivesse presente no acreditaria que se pudesse ensinar tanta coisa a um lobo ou que um lobo fosse capaz de aprender tudo 
aquilo. Ela diz a verdade, mas no basta peg-los quando filhotes, h que fazer muito mais. Ela cuidou desse bicho como se fosse uma criana. Foi me para o animal, 
e  por isso que ele faz tudo o que ela quer.
     E os cavalos?  perguntou o homem, que estava de p ao lado do Xam. Ele tinha os olhos pregados no fogoso garanho e no homem alto que o tinha pela brida.
      a mesma coisa com cavalos.  possvel trein-los se a gente comea cedo e cuidar bem deles. Leva tempo e  preciso ter pacincia, mas eles aprendem.
    Os homens tinham abaixado as lanas e escutavam com grande interesse. Era sabido que espritos podem falar lngua de vivente, embora toda aquela conversa de 
criar filhotes de bicho no fosse o que se teria esperado da boca de fantasmas  que falam, de regra, uma coisa para dizer outra.
            De criao de animais eu no entendo  falou a mulher do Campo  Mas sei que o Lar do Mamute no adota estranhos e os converte em Mamuti. Aquele no 
 um lar comum.  consagrado queles que Servem  Me. Ou as pessoas escolhem o Lar do Mamute ou so escolhidas por ele. Tenho parentes no Acampamento do Leo. Mamute 
 um homem muito velho, talvez o mais velho de todos os homens. Por que adotaria algum? Tambm no creio que Lutie o tivesse permitido. O que voc est contando 
 difcil de acreditar, e no sei por que lhe daramos f.
    Ayla sentiu uma ponta de ambiguidade no que a mulher dizia, ou talvez fossem s os sutis maneirismos com que acompanhava as palavras: o peito estufado para a 
frente, a tenso nos ombros, o cenho franzido. Ela parecia esperar alguma coisa desagradvel. Ento Ayla percebeu que aquilo no fora um lapso da lngua. A mulher 
misturara uma mentira no que dissera, armara uma cilada com a sua pergunta. Mas por causa do seu singular conhecimento, o truque ficava transparente.
    O povo que criara Ayla, conhecido como cabeas-chatas, mas que se diziam o Cl, comunicava-se com clareza e preciso, se bem que no primordialmente com palavras. 
Poucas pessoas percebiam que eles tivessem uma lngua. Sua faculdade de articular era limitada, e muitas vezes se viam insultados como infra-humanos, animais que 
no sabiam falar. Usavam uma linguagem de gestos e sinais, mas no menos complexa que uma lngua vocal.
    As palavras, relativamente escassas, que o Cl empregava  e que Jondalar no sabia reproduzir, assim como no era capaz de pronunciar certos sons em Zelandonii 
ou Mamuti  eram proferidas com uma espcie particular de vocalizao, e serviam, de regra, para dar nfase ou para nomear pessoas ou coisas. Qualquer matizada 
ou nuana mais delicada de sentido eram indicados por expresses fisionmicas, mudanas de porte e postura, que acrescentavam profundidade e variedade  linguagem 
da mesma forma como o tom e a inflexo alteram a linguagem verbal. Mas com um meio de comunicao assim to aberto, era quase impossvel dizer uma inverdade sem 
que isso fosse percebido. Os cabeas-chatas no podiam mentir.
    Ayla aprendera a perceber e entender esses sinais sutis de movimentos do corpo e expresses faciais ao mesmo tempo em que lhe ensinavam a falar por signos. Eram 
necessrios  compreenso total. Quando ela reaprendeu a falar verbalmente com Jondalar e ficou fluente em Mamuti, Ayla descobriu que era capaz de perceber os sinais 
do mesmo tipo em pequenas modificaes da expresso ou da postura das pessoas que falavam com palavras mas faziam isso por inadvertncia, uma vez que esse sistema 
de signos no fazia parte intencional da sua linguagem.
    Descobriu que entendia mais do que palavras, embora isso lhe causasse confuso e mgoa no princpio, pois as palavras ditas nem sempre correspondiam aos sinais 
feitos, e ela nunca ouvira falar da mentira. Morder a lngua e fechar a boca era o mximo que ela conhecia nesse terreno.
    Acabou por aprender que certas mentiras pequenas justificavam-se muitas vezes por consideraes de cortesia. Mas foi quando tomou conhecimento do humor  que, 
em geral, consistia em dizer uma coisa com outro sentido  que ela entendeu, de um golpe, a natureza da linguagem verbal, e as pessoas que se utilizavam dela. Ento, 
sua capacidade de interpretar signos inconscientes acrescentou uma dimenso inesperada aos progressos que vinha fazendo em matria de linguagem. Uma vantagem rara. 
Embora no soubesse mentir, exceto por omisso, sabia perfeitamente quando algum no estava dizendo a verdade.
            No havia ningum de nome Lutie no Acampamento do Leo quando eu vivia l.  Ayla decidira ser direta.  Tulie  a chefe das mulheres, e seu irmo Talut 
o dos homens.
    A mulher fez um aceno quase imperceptvel com a cabea. Ayla continuou.
     Sei que uma pessoa  habitualmente consagrada ao Lar do Mamute e no adotada. Talut e Nezzie foram os que me levaram para l. Talut at alargou a caverna para 
fazer um abrigo especial de inverno para os cavalos, mas o velho Mamute surpreendeu a todos. No curso da cerimnia, ele me adotou. Disse que eu pertencia ao Lar 
do Mamute, que nascera l.
     Se voc levou esses cavalos para o Acampamento do Leo, posso entender que o velho Mamute disse isso  retrucou o homem.
    A mulher o encarou aborrecida, e resmungou alguma coisa entre dentes. O homem se convencera de que os estranhos eram, provavelmente, gente, e no espritos pregando 
peas  ou se eram espritos, no seriam maus , mas no acreditava ainda que fossem exatamente o que pretendiam ser A explicao do homem alto para o estranho comportamento 
dos animais era simples demais, mas ele ficara interessado assim mesmo. Os cavalos e o lobo o intrigavam. A mulher sentia que eles falavam com demasiada volubilidade, 
contavam espontaneamente muita coisa, eram mais acessveis do que seria de esperar. Havia mais ali, estava certa disso, do que eles diziam. No confiava naqueles 
dois, e no queria nada com eles.
    A aceitao deles pelo Mamuti como seres humanos s veio depois de registrado outro pensamento capaz de explicar, se a pessoa entendia de tais coisas, o extraordinrio 
comportamento dos animais ou dar-lhe maior plausibilidade. Ela estava certa de que a loura era uma Visitante poderosa, e o velho Mamute teria percebido logo que 
ela nascera con aquele controle prodigioso sobre os animais. Talvez o homem tivesse a mesma origem e os mesmos atributos. Mais tarde, quando o Acampamento deles 
comparecesse  Reunio de Vero, seria interessante conversar com os do Leo, e os Mamuti certamente teriam algo a dizer sobre aqueles dois. Era mais fcil acreditar 
em magia que na grotesca noo que animais podiam ser domesticados.
    Durante a consulta l entre eles, houve um desacordo. A mulher no estava  vontade, os estrangeiros a inquietavam. Se ela se demorasse cogitando a respeito, 
talvez admitisse que tinha medo. No gostava de estar nas cercanias de uma demonstrao to aberta de poder oculto. Mas foi voto vencido. O homem falou.
     Esse lugar onde os rios se juntam  um terreno perfeito para acampar. Tivemos uma boa caada, e uma numerosa manada de veados gigantes est vindo nesta direo. 
Podero estar aqui dentro de poucos dias. No nos importaremos se vocs quiserem acampar nas vizinhanas e caarem conosco.
     Apreciamos a sua oferta  disse Jondalar.  Podemos acampar junto de vocs e passar a noite, mas temos de prosseguir viagem pela manh.
    A amabilidade fora medida, no era como a acolhida de que ele tantas vezes fora alvo, com o irmo, quando viajavam a p. A saudao formal, dada em nome da Me 
Terra, oferecia maior hospitalidade. Era considerada como um convite de unio de foras: que ficassem e vivessem com os demais por algum tempo. O convite do homem, 
mais cauteloso, mostrava a dvida em que estavam, mas pelo menos j no os ameaavam com lanas em riste.
     Pelo menos ento, em nome da Grande Me Terra, faam conosco a refeio da noite e a da manh tambm.  Essa amabilidade o velho podia fazer, e Jondalar sentiu 
que ele ofereceria mais se pudesse.
     Em nome da Grande Me Terra, teremos grande prazer em comer com vocs esta noite, depois de instalarmos o nosso acampamento  assentiu Jondalar , mas temos 
de partir cedo.
            Por que tanta pressa?
    Aquela franqueza, to tpica dos Mamuti, pegou Jondalar de surpresa, mesmo depois de tanto tempo de convivncia com eles, sobretudo vinda assim, de um estranho. 
A pergunta do chefe teria sido considerada impolida pelo povo de Jondalar. No como uma grosseria, mas como um sinal de imaturidade ou de falta de gosto pela maneira 
mais sutil e indireta de falar dos adultos que sabem das coisas.
    Mas, como Jondalar sabia, a franqueza era considerada correta entre os Mamuti, e a discrio, suspeita, embora suas maneiras no fossem to abertas assim. Havia 
sutilezas. Tudo era uma questo da maneira de dizer, da maneira de ouvir, e do que ficou nas entrelinhas. Mas entre os Mamuti a curiosidade do lder do Acampamento 
era perfeitamente aceitvel.
            Estou voltando para casa  disse Jondalar , e estou levando
esta mulher comigo.
            Um dia ou dois faro muita diferena?
            Minha casa fica longe, para o ocidente. E eu estive fora...  Jondalar fez uma pausa para calcular  quatro anos. Esta viagem levar mais um, se tivermos 
sorte. H uns cruzamentos perigosos... rios, gelo... pelo caminho, e no quero enfrent-los na estao errada.
            Ocidente? Mas vocs, ao que me parece, esto indo para o sul.
    Sim. Estamos indo para o Mar de Beran e para o Rio da Grande Me. Subiremos o rio.
     Meu primo foi para oeste numa viagem de negcios faz alguns anos. Contou que tem gente vivendo por l junto de um rio a que chamam tambm Rio da Grande Me 
 disse o homem.  Ele pensou que fosse o mesmo. Eles viajaram para o ocidente a partir daqui. Depende por quanto tempo voc queira subir a corrente, mas h uma 
passagem ao sul da Grande Geleira, mais ao norte das montanhas, para oeste. Voc pode encurtar a viagem se for por ali.
     Talut me falou nessa rota do norte, mas ningum tem certeza se o rio  o mesmo. Se no for, pode levar mais tempo para achar o verdadeiro. Eu vim pelo sul, 
por um caminho que conheo. Alm disso, tenha parentes entre o Povo do Rio. Meu irmo casou com uma Xaramudi e eu morei com eles. Gostaria de rev-los. Talvez no 
os encontre nunca mais.
     Temos comrcio com o Povo do Rio... parece-me ter ouvido falar de estrangeiros, h um ano ou dois, que viviam com esse grupo a quem se juntou a mulher Mamuti. 
Eram de fato dois irmos, agora que penso nisso. Os Xaramudi tm costumes matrimoniais diferentes dos nossos mas se bem me lembro ela e seu homem ficariam ligados 
a outro casa numa espcie de adoo, suponho. Eles mandaram convidar quaisquer conhecidos Mamuti que quisessem ir. Alguns foram e, at, um ou dois j estiveram 
l de novo.
     Trata-se de meu irmo, Thonolan  disse Jondalar, satisfeito po ver que a histria confirmava a sua, embora no pudesse ainda pronunciar o nome do irmo sem 
sofrer.  Aquelas eram suas npcias. Ele casou com Jetamio, e os dois se tornaram parentes de Markeno e Tholie que foi a primeira pessoa que me ensinou a falar mamuti.
     Tholie  minha prima, distante. E voc  o irmo de um dos seu homens?  O homem se voltou para a irm.  Thurie, este homem  nosso parente. Acho que temos 
de receb-los.  E sem esperar resposta foi logo se apresentando.  Eu sou Rutan, chefe do Acampamento do Falco. Em nome de Mut, a Grande Me, seja bem-vindo.
    A mulher no tinha escolha. No podia constranger o irmo recusando dar com ele as boas-vindas aos visitantes, embora pensasse em algumas coisas para dizer-lhe 
em particular.
            Eu sou Thurie, mulher chefe do Acampamento do Falco. Em nome da Grande Me, vocs so bem-vindos aqui. No vero ns nos chamamos Acampamento do Capim 
Estipa.
    No era tambm a mais calorosa recepo que ele recebera. Jondalar sentia uma ntida reserva e restrio. Ela lhe dava as boas-vindas "ali" especificamente, 
mas aquela era uma localizao temporria. Ele sabia que a denominao Acampamento do Capim Estipa se aplicava a qualquer acampamento de caa no vero. Os Mamuti 
eram sedentrios no inverno, e aquele grupo, como os demais, vivia num acampamento ou comunidade permanente de uma ou duas cavernas grandes comunicantes ou vria 
pequenas, todas subterrneas. Essa regio era conhecida por Acampamento do Falco. A mulher no dissera que eles seriam bem-vindos l.
            Sou Jondalar, dos Zelandonii. Sado-os em nome da Grande Me Terra, a quem denominamos Doni.
     Temos peles de dormir na tenda do mamute  continuou Thurie , mas no sei o que fazer... com os animais.
     Se no se importarem  disse Jondalar por cortesia , ser mais fcil para ns estabelecer nosso prprio acampamento perto, em vez de ficar no seu Acampamento. 
Agradecemos a hospitalidade, mas os cavalos precisam pastar, eles conhecem a nossa tenda, e sabero voltar para ela. Podem ficar agitados no acampamento de vocs.
     Naturalmente  disse Thurie, aliviada. Ela ficaria to nervosa quanto os bichos.
            Ayla sentiu que lhe cabia tambm apresentar-se. Lobo parecia menos assustado agora, e Ayla soltou-o devagar. "No posso ficar o tempo todo segurando 
Lobo", pensou. Quando se ps de p, o lobo comeou a saltar contra seu corpo mas ela o mandou sentar-se.
    Sem estender-lhe as mos ou fazendo meno de aproximar-se, Rutan saudou-a. Ela retribuiu a saudao na mesma moeda.
     Sou Ayla, dos Mamuti  disse. E acrescentou:  Do Lar do Mamute. Sado-os em nome de Mut.
    Thurie fez a sua saudao, restringindo-a tambm, como no caso de Jondalar, quele stio. Ayla respondeu formalmente. Ela gostaria de ver mais amabilidade do 
que lhe mostravam, mas achava que no podia culp-los. O conceito de animais viajando em companhia de pessoas era de assustar, nem todo mundo teria sido to compreensivo 
como Talut com uma inovao daquelas. Ayla percebeu, com um aperto no corao, que j sentia a perda daqueles que amava no Acampamento do Leo.
    Voltou-se para Jondalar.
     Lobo no est to cnscio agora de que precisa proteger-nos. Mas eu preciso de alguma coisa com que possa deix-lo preso agora, enquanto estiver neste Acampamento, 
e, depois, para segur-lo se encontrarmos outras pessoas  disse em Zelandonii, sentindo dificuldade em falar livremente naquele Acampamento de Mamuti desejando 
que no fosse assim.  Talvez como aquela rdea de corda que voc fez para Racer, Jondalar. H corda de sobra e correias de couro tambm em uma das minhas cestas, 
na bagagem. Temos de ensin-lo a no atacar estranhos dessa maneira. Ele tem de aprender a ficar quieto onde eu mandar.
    Lobo devia ter compreendido que pr as lanas em riste fora um gesto de ameaa. Ela no podia censur-lo por saltar em defesa das pessoas e dos cavalos que constituam 
aquela sua estranha alcateia. Do ponto de vista dele, era perfeitamente compreensvel, mas isso no queria dizer que tosse aceitvel. Ele no deveria tratar todas 
as pessoas que ainda encontrassem na viagem como lobos hostis. Ela teria de ensin-lo a modificar seu comportamento e a encontrar pessoas com maior discrio. Refletiu 
se haveria pessoas capazes de entender que um lobo obedecesse aos comandos de uma mulher ou que um cavalo carregasse um homem s costas.
     Fique com ele. Vou buscar a corda  disse Jondalar. Ainda com mo na brida de Racer, embora o cavalo estivesse tranquilo, ele procurou a corda nas cestas que 
Huiin levava. A hostilidade do acampamento amainara, as pessoas no pareciam mais em guarda do que estariam normalmente diante de qualquer estranho. A julgar pelo 
modo como olhavam, o medo parecia haver cedido lugar  curiosidade.
    Huiin tambm se acalmara. Jondalar coou-lhe o pescoo, deu-lhe umas palmadas afetuosas, enquanto mexia nas cestas. Gostava muito daquela gua forte. E embora 
estimasse o ardor de Racer, admirava a serenidade e a pacincia de Huiin. Ela parecia exercer um efeito calmante sobre o jovem garanho. Amarrou a ponta da rdea 
de Racer na correia que prendia as cestas da bagagem que Huiin levava. Jondalar desejaria muito ter sobre o cavalo o mesmo controle de Ayla sobre Huiin, com ou sem 
rdeas. Mas agora que cavalgava o animal, ia descobrindo a espantosa sensibilidade da sua pele, aprendia a montar confortavelmente, e comeava a guiar Racer com 
presso dos joelhos e simples postura.
    Ayla foi para o outro lado da gua com Lobo. Quando Jondalar lhe deu a corda, ele lhe disse ao ouvido:
     No temos de pernoitar aqui, Ayla. Ainda  cedo. Podemos encontrar outro lugar, neste rio, ou em outro.
      bom para Lobo acostumar-se s pessoas, principalmente pessoas estranhas, mesmo se no forem muito amveis. No me importaria at, de fazer visitas. Eles 
so Mamuti, Jondalar, meu povo. Esses podem ser os ltimos Mamuti que verei. Ser que estaro na Reunio de Vero? Talvez possamos enviar uma carta para o Acampamento 
do Lei por eles.
    Ayla e Jondalar instalaram seu prprio acampamento perto do Acampamento do Capim Estipa, rio acima, ao longo do grande tributrio. Tiraram as cestas e as selas 
dos cavalos e soltaram-nos para que pastassem. Ventava. E Ayla sentiu uma pontada de pnico vendo-os afastar-se e desaparecer na poeira.
    Mulher e homem tinham viajado ao longo da margem de um rio caudaloso, mas a alguma distncia dele. Embora corresse, em geral, para o sul, o rio, jovem, tinha 
meandros, e serpenteava pela paisagem, cavando uma funda trincheira na planura baixa. Ficando nas estepes, a cavaleiro do vale do rio, os viajantes podiam tomar 
uma estrada mais direta, mas ficavam expostos ao vento implacvel e aos efeitos do sol e da chuva no descampado.
             esse o rio de que Talut estava falando?  perguntou Ayla, desenrolando suas peles de dormir.
    O homem enfiou a mo num par de cestas de palha e apanhou um pedao de dente de mamute todo marcado de incises. Jondalar olhou a nesga do cu encardido que 
brilhava com uma luz insuportavelmente crua mas difusa, depois para a paisagem que escurecia. A tarde caa. Mais do que isso ele no saberia dizer.
            No h como saber, Ayla  disse, guardando o mapa.  No posso distinguir nenhum ponto de referncia, e estou acostumado a medir a distncia percorrida 
pelos meus passos. Racer se move em outro ritmo.
     Vamos levar mesmo um ano inteiro para chegar  sua casa?  perguntou a mulher.
      difcil dizer ao certo. Depende do que encontrarmos pelo caminho dos problemas que tivermos, de quantas vezes pararmos. Se estivermos com os Zelandonii ano 
que vem por esta poca, poderemos dizer que tivemos sorte. Ainda no alcanamos sequer o Mar de Beran, onde desemboca o Rio da Grande Me, e temos de subir o rio 
at a nascente, na geleira, e alm  disse Jondalar. Seus olhos, de um azul intenso, invulgarmente vvido, pareciam preocupados, e sua fronte se enrugava como quando 
estava, de fato, ansioso.
            Teremos de atravessar grandes rios, mas  a geleira que me assusta Ayla. Temos de passar quando o gelo estiver slido, o que significa que precisamos 
estar l antes da primavera, e isso  sempre imprevisvel. Naquela regio sopra sempre um forte vento do sul, capaz de aquecer o gelo mais frio a ponto de fundi-lo 
num dia s. Ento, a neve e o gelo da superfcie derretem e se partem como madeira podre. Abrem-se grandes fendas, e as pontes de neve que cruzam por cima delas 
se desmancham e afundam. Torrentes e, at, rios cuja gua  gelo derretido sulcam a geleira e muitas vezes se precipitam por ela adentro atravs de grandes buracos. 
 muito perigoso, e no, e pode acontecer de sbito.  vero agora, e o inverno pode parecer ainda remoto, mas temos de viajar muito mais do que voc pensa.
    A mulher concordou com um gesto de cabea. No adiantava pensar quanto tempo a viagem levaria, ou o que aconteceria quando chegassem ao destino. Era melhor pensar 
em cada dia  medida que ele viesse, e planejar apenas para dois ou trs dias. No devia apoquentar-se pensando no cl de Jondalar, e se ela seria aceita por eles 
como os Mamuti a tinham aceitado.
            Queria que o vento cessasse  comentou ela.
            Eu tambm estou cansado de comer saibro  disse Jondalar.  Por que no vamos visitar os vizinhos e comer alguma coisa melhor?
    Levaram Lobo quando foram ao Acampamento do Capim Estipa, mas Ayla cuidou que ele ficasse junto dela. Reuniram-se a um grupo que rodeava uma fogueira sobre a 
qual uma anca inteira de veado assava no espeto. A princpio, ningum se manifestou, mas no demorou muito para que a curiosidade se transformasse em vivo interesse, 
e a reserva temerosa do primeiro momento deu lugar a um animado falatrio. Os habitantes daquelas estepes periglaciais tinham poucas oportunidades de conhecer gente 
nova, e a excitao do encontro fortuito alimentaria durante muito tempo as discusses e histrias do Acampamento do Falco. Ayla fez amizade com vrias pessoas, 
principalmente com uma moa que tinha uma menina pequena. A criana estava na idade de sentar-se sem ajuda e dar risadas, o que encantava a todos, sobretudo o Lobo.
    A me mostrou-se temerosa a princpio, quando viu que o animal dava uma ateno especial  sua filha. Mas quando as lambidas dele a fizeram rir de prazer, e 
o animal se mostrou comedido, mesmo quando a menina lhe puxava o plo, todo mundo ficou surpreso.
    As outras crianas queriam, naturalmente, toc-lo, e Lobo se ps a brincar com elas. Ayla explicou que ele fora criado com as crianas do Acampamento do Leo 
e, com certeza, sentia sua falta. Lobo fora sempre delicado com as crianas ou os fracos, e parecia saber a diferena entre as demasias de carinho de um beb e a 
travessura de uma criana mais velha que lhe puxava o rabo ou a orelha. Deixava os menores fazerem o que quisessem com perfeita pacincia, mas reagia aos outros 
com um rosnado de advertncia ou uma leve mordida, que no rasgava a pele mas deixava claro que isso podia acontecer.
    Jondalar mencionou que tinham deixado havia pouco a Reunio de Vero, e Rutan lhes contou que os reparos na caverna lhes tinham atrasado a partida, seno teriam 
estado l. Fez perguntas a Jondalar sobre as suas viagens e sobre Racer, com um crculo atento de ouvintes. Pareciam relutantes em interrogar Ayla, e ela no falava 
muito espontaneamente embora a Mamuti desse mostras de que gostaria de conversar com ela em particular sobre assuntos mais esotricos, mas Ayla preferiu ficar na 
roda. At a mulher chefe j estava mais  vontade e amvel quando eles se despediram, e Ayla lhe pediu que desse lembranas suas ao Acampamento do Leo quando fossem, 
finalmente,  Reunio.
    Naquela noite, Ayla ficou muito tempo acordada, matutando Alegrava-se de no ter cedido a sua natural hesitao em ir ao Acampamento, de no ter deixado que 
a fria acolhida a intimidasse. Dada a oportunidade de vencer seu instintivo receio inicial do desconhecido ou do incomum, eles se tinham mostrado interessados e 
vidos por aprender Ela aprendera tambm que o fato de viajar com to estranhos companheiros poderia provocar reaes violentas por parte de quem quer que encontrassem 
pela frente. No sabia muito bem o que esperar, mas sentia que aquela viagem ia ser muito mais aventurosa do que havia imaginado
    
2
___________________________________________________________________________
    Jondalar estava ansioso para ir embora bem cedo no dia seguinte, mas Ayla quis voltar para ver os conhecidos que havia feito no Acampamento do Capim Estipa antes 
de partirem. Jondalar se mostrou impaciente, mas Ayla se demorou com as despedidas. Quando finalmente se foram, era quase meio-dia.
    A vasta pradaria, com pequenas colinas suaves e vastos horizontes abertos por onde viajavam desde que tinham deixado a Reunio de Vero, comeava a mudar. Havia 
agora elevaes. A corrente veloz do afluente nascida em terrenos mais altos, descia com mais vigor que o rio principal, sinuoso, e cortava um canal profundo, com 
barrancas a pique, no solo sedimentar amarelo do loess. Embora Jondalar quisesse ir para o sul, tinham de andar para oeste  espera de um ponto conveniente para 
atravessar.
    Quanto mais se afastavam do seu rumo, mais irritado ia ficando Jondalar. J questionava a sua deciso de tomar a estrada mais longa, do meridio, que a outra, 
do norte, como lhe fora sugerido, mais de uma vez e para onde o rio parecia determinado a lev-los. Sem dvida ele no estava familiarizado com o caminho, mas se 
era to mais curto talvez devessem tom-lo para estarem certos de alcanar o plat da geleira mais para oeste, na prpria nascente do Rio da Grande Me antes da 
primavera.
    Isso significaria que se perderia aquela ltima oportunidade de rever os Xaramudi. Mas teria isso tanta importncia? Ele tinha de admitir que queria v-los. 
Sonhara com isso. Nem mesmo estava certo de ter tomado a deciso de ir pelo sul por causa do seu desejo de viajar por caminho conhecido e, portanto, mais seguro, 
ou por causa dessa vontade de estar outra vez com pessoas que eram como uma famlia para ele. Afligia-se com as consequncias de escolher errado.
    Ayla interferiu na sua introspeco.
            Jondalar, acho que podemos atravessar aqui. A outra margem me parece fcil de atingir.
    Estavam numa curva do rio, e pararam para estudar a situao. A corrente, turbulenta e rpida, cortava fundo o solo na margem mais aberta da curva, onde eles 
estavam, e onde o declive era pronunciado. Mas do lado de dentro da curva, na outra margem, havia uma espcie de praia estreita de solo bem compactado e escuro, 
logo seguido de vegetao rasteira.
            Acha que os cavalos conseguem descer este barranco?
            Sim. A parte mais profunda do rio deve estar deste lado, onde a gua cavou mais fundo.  difcil dizer quo fundo ser ou se os animais tero de nadar. 
Talvez fosse melhor desmontar e nadar tambm  disse Ayla, e percebeu que Jondalar estava contrariado.  Mas se no for muito profundo, podemos atravessar a cavalo. 
Detesto molhar as roupas mas no gostaria de tir-las para nadar.
    Levaram os cavalos para o declive ngreme. Os cascos escorregavam no solo fino, e eles entraram na gua com um forte rudo. Logo foram apanhados pela correnteza 
e arrastados rio abaixo. Era mais fundo do que Ayla pensara. Os cavalos tiveram um momento de pnico antes de se acostumarem com a gua e comearem a nadar contra 
a corrente para chegar  margem oposta. Quando comearam a subir, do outro lado, Ayla olhou para trs, procurando Lobo. Ele estava ainda no alto do barranco, ganindo 
e correndo para l e para c.
            Ele tem medo de saltar  disse Jondalar.
     Vamos, Lobo!  gritou Ayla.  Voc sabe nadar.  Mas o filhote chorava, com o rabo entre as pernas.
     O que h com ele?  indagou Jondalar.  Lobo j atravessou rios antes. Aborrecia-o mais esse atraso. Tinha esperado cobrir uma grande distncia naquele dia, 
mas tudo parecia conspirar em contrrio.
    Tinham sado tarde, depois tinham sido forados a ir para o norte e para oeste, direes que ele no queria tomar. E agora Lobo no atravessava o rio. Sabia 
tambm, quela altura, que teriam de fazer uma parada para conferir o contedo das cestas de bagagem, depois do banho que elas tinham tomado, mesmo sendo bem-feitas 
e, praticamente, estanques. Para aumentar sua irritao, estava ensopado, e comeava a entardecer. Sentia que o vento esfriava, e precisavam trocar de roupa e pr 
as que vestiam para secar. Os dias de vero eram quentes, mas os ventos da noite traziam o sopro frio do gelo. Os efeitos da macia geleira que esmagava as terras 
do norte debaixo de camadas de gelo to altas quanto montanhas podiam ser sentidos por toda parte, mas em nenhum outro lugar to intensamente quanto nas estepes 
prximas da sua orla.
    Se fosse mais cedo, poderiam viajar com a roupa molhada. O vento e o sol logo as secariam no corpo. Estava tentado a prosseguir para o sul de qualquer maneira, 
apenas para poder adiantar-se um pouco... se pudessem ir andando!
            A correnteza deste rio est muito forte, e Lobo no pode aproximar-se dele e entrar na gua. Tem  de saltar, e ele nunca fez isso antes  disse Ayla.
     O que vai fazer?
     Se no consigo anim-lo a saltar, tenho de ir busc-lo.
            Ayla, acho que se seguirmos em frente ele saltar e vir atrs de voc. Mas se queremos fazer algum progresso hoje, temos de prosseguir O olhar de incredulidade 
e fria que se estampou no rosto de Ayla fez com que Jondalar desejasse no ter dito nada.
            Voc gostaria de ser deixado para trs s por ter medo? Ele no quer pular no rio porque nunca fez coisa igual antes. O que se poderia esperar?
            O que eu quis dizer  que ele  apenas um lobo, Ayla. Lobos atravessam rios todo o tempo. Ele s precisa de motivao. Se, depois, no nos alcanar, 
voltaremos para busc-lo. No quis dizer que deveramos deix-lo aqui.
            No precisa preocupar-se com isso de vir busc-lo. Vou peg-lo agora  disse Ayla, virando-lhe as costas e conduzindo Huiin para a gua O lobo ainda 
chorava e cheirava o cho por onde os cascos dos cavalos tinham marcado, e olhava cavalos e gente do outro lado da margem do rio. Ayla chamou-o de novo e entrou 
com a gua na correnteza. A meio caminho, Huiin sentiu que o cho lhe faltava debaixo das patas e demonstrou alarme.
            Lobo! Venha!  s gua. Vamos, salte!  dizia Ayla, procurando encorajar o animal. Depois desceu da montaria decidida a nadar at a margem. Lobo, finalmente, 
criou coragem e saltou. Logo se ps a nadar vigorosamente para ela.  Isso! Muito bem, Lobo!  disse Ayla.
    Huiin estava recuando, na tentativa de firmar-se, e Ayla, com um brao em torno do lobo, procurava alcan-la. Jondalar j estava l tambm com gua ate o peito, 
ajudando a gua a aproximar-se de Ayla. Todos chegaram juntos ao outro lado.
     Mas agora temos de andar depressa  disse Ayla, com os olhos ainda fuzilando de raiva, enquanto montava.
     No  disse Jondalar, segurando-a.  No vamos partir enquanto voc no mudar essas roupas molhadas. Acho tambm que devemos esfregar bem os cavalos para sec-los 
e, talvez, tambm o lobo. J viajamos muito por hoje. Acho que vamos acampar aqui mesmo. Levei quatro anos para chegar at aqui. No me importo se vou levar outros 
quatro para regressar. O importante  lev-la com segurana.
    Ela o olhou, e a expresso de preocupao e amor nos belos olhos azuis dele desmancharam seus ltimos vestgios de raiva. Ela ergueu o rosto, ele baixou a cabea, 
e Ayla sentiu de novo a mesma inacreditvel felicidade que sentira quando pela primeira vez ele pusera seus lbios nos dela e lhe ensinara como beijar. Sentiu tambm 
uma alegria inexprimvel por saber que estava viajando com ele, indo para casa com ele. Amava-o mais do que sabia expressar, mais agora ainda, depois do longo inverno, 
quando pensava que ele no gostava dela e que partiria s.
    Ele temera pela sua vida quando ela voltara ao rio atrs de Lobo, e agora a apertava contra o peito. Amava-a mais do que jamais imaginara que lhe fosse possvel 
amar algum. At o advento de Ayla, ele no sabia ser capaz de gostar tanto de algum. Estivera a ponto de perd-la, uma vez. Estivera certo de que ela ficaria com 
o homem de pele morena e olhos sorridentes, e no podia suportar a ideia de perd-la outra vez.
    Com dois cavalos e um lobo por companheiros, num mundo que jamais imaginara que tais bichos podiam ser domesticados, um homem se via sozinho com a mulher que 
amava em meio  vasta e fria campina, repleta dos mais diversos animais, mas com poucos seres humanos, e tinha pela frente uma Jornada que se estenderia de ponta 
a ponta de um continente. Havia momentos em que o simples pensamento de que algum mal podia acontecer a ela lhe dava tanto medo que quase perdia o flego. Nesses 
momentos, desejava poder ret-la para sempre.
    Jondalar sentiu o calor do corpo dela, do beijo, e sentiu crescer o desejo que tinha dela. Mas isso podia esperar. Ayla estava fria e molhada. Precisava de roupas 
secas e de um bom fogo. A margem do rio era um lugar to bom quanto qualquer outro para acampar, e se era um tanto cedo demais para parar, isso tinha compensaes: 
dava-lhes tempo de secar as roupas que vestiam, e podiam partir mais cedo, logo que amanhecesse.
     Lobo! Larga disso!  gritou Ayla, correndo para tomar dele o fardo empacotado em couro.  Pensei que voc j tivesse aprendido a guardar distncia de couro! 
 Mas quando tentou tirar-lhe o embrulho ele se recusou. brincalho, batendo com a cabea e rosnando. Ela soltou, interrompendo o jogo.  Larga!  disse, imperiosamente. 
E desceu a mo no ar como se fosse bater-lhe no focinho. Era uma simples ameaa. Mas  vista disso e da ordem de comando, Lobo ps o rabo entre as pernas avanou 
rastejando submisso para ela, soltou o embrulho a seus ps, ganindo para fazer as pazes.
             a segunda vez que ele mexe nessas coisas  disse Ayla, apanhando o embrulho e alguns outros em que ele havia tambm metido os dentes.  Ele sabe que 
no pode fazer isso, mas  como se no conseguisse deixar couro em paz.
    Jondalar veio em auxlio dela.
            No sei o que dizer. Ele obedece, quando voc lhe pede que solte o pacote, mas voc no pode dizer isso quando no est presente, pois  impossvel 
vigi-lo todo o tempo... E o que  isso? No me lembro de ter visto isso antes  disse, olhando com ar zombeteiro um pequeno volume cuidadosamente enrolado em pele 
macia e atado com toda a segurana.
    Corando um pouco, Ayla se apressou em tomar-lhe o volume.  Ʉ  s uma coisa que trouxe comigo... uma coisa... do Acampamento do Leo  disse, e guardou-o com 
as suas bagagens.
    Aquilo intrigou Jondalar. Eles tinham reduzido seus pertences e coisas de viagem ao mnimo, levando muito pouco que no fosse essencial Aquele embrulho no era 
grande, mas tambm no era pequeno. Ela teria podido levar outra coisa no espao que ele ocupava. O que seria?
            Lobo, pare com isso!
    Jondalar viu Ayla sair atrs do lobo outra vez e teve de sorrir. No estava certo disso, mas achava que o animal estava fazendo deliberadamente uma travessura 
para fazer com que Ayla brincasse com ele. Tinha encontrado um p de sapato dela, do tipo mocassim, macio e confortvel, que ela usava ocasionalmente depois de acamparem, 
sobretudo se solo estava gelado, ou mido e frio, e se ela desejava pr para secar arejar seus calados comuns, mais resistentes.
            No sei o que vou fazer com ele!  disse, exasperada, voltando para o homem. Segurava o mocassim e olhava severamente para o culpa do. Lobo rastejava, 
sorrateiro, para ela, aparentemente contrito, ganindo em abjeta misria diante da sua desaprovao, mas com uma ponta de malcia debaixo da tristeza. Sabia que ela 
o amava e, no momento em que Ayla se enternecesse, ele estaria abanando o rabo, latindo de alegria pronto para brincar outra vez.
    Embora j tivesse tamanho de adulto, s lhe faltava ganhar peso Lobo era pouco mais que um filhote. Nascera no inverno, fora de estao, de uma loba solitria 
cujo macho morrera. Sua pelagem era cinza pardo, a comum... resultado de faixas brancas, vermelhas, marrons e pretas que coloriam cada plo externo, criando esse 
padro indistinto que permitia aos lobos desaparecerem, invisveis, na paisagem agreste de vegetao raqutica, pedra, terra, e neve... mas sua me fora preta.
    Essa colorao incomum fez com que a loba principal da alcatia e outras fmeas a perseguissem sem trgua, rebaixando-a ao status mais inferior e banindo-a, 
por fim. Ela andou errante e sozinha, aprendendo '"sobreviver entre os territrios de um bando e outro durante uma estao,  at que encontrou outro pria, um velho 
macho que deixara sua alcatia por no ser mais capaz de acompanh-la. Viveram juntos muito bem por algum tempo. Ela era mais forte como caadora, mas ele tinha 
mais experincia, e tinham comeado a definir e defender como seu um pequeno trecho de terra. Talvez tivesse sido a melhor dieta que os dois conseguiram, por caarem 
juntos. Talvez a companhia e proximidade de um macho amigo; talvez a sua prpria predisposio gentica. Mas o fato  que ela entrou no cio extemporaneamente. O 
companheiro, embora velho, gostou disso, e, sem competio e de bom grado, correspondeu.
    Infelizmente, seus velhos ossos no resistiram s agruras de mais um inverno nas estepes periglaciais. Ele no chegou a atravessar a estao. Foi uma perda atroz 
para a fmea, deixada para parir sozinha... no inverno. O meio ambiente no aceita muito bem animais que se desviam muito da norma, e os ciclos sazonais se impem. 
Uma caadora negra numa paisagem de erva seca, terra parda e neve varridas de vento ou levada de arrasto  facilmente vista por presas espertas, escassas, alis, 
no inverno. Sem companheiro ou parentas  tias, tios, primos e outros parentes que ajudassem, a loba fmea perdeu, um por um, os filhotes que amamentava at ficar 
s com um.
    Ayla conhecia lobos. Ela os observava e estudava desde o tempo em que comeara a caar, mas no tinha elementos para saber que a loba negra que tentara furtar 
o arminho que ela caara com sua funda era uma fmea faminta que dava de mamar a um filhote. Aquela no era estao para lactentes. Quando ela tentou recuperar a
presa e a loba atacou  o que escapava  regra, matou-a em legtima defesa. Ento viu a condio em que o animal se encontrava e compreendeu que era uma loba solitria.
Sentindo uma estranha afinidade por uma loba expulsa da alcateia, Ayla decidiu encontrar os filhotes agora rfos, sem famlia para adot-los. Seguindo as pegadas 
da loba at a toca, entrou e encontrou o ltimo filhote, ainda no desmamado, e de olhos mal abertos. Levou-o consigo para o Acampamento do Leo.
    Foi uma surpresa para todo mundo quando Ayla lhes mostrou aquele minsculo filhote de lobo, mas ela havia chegado com cavalos que lhe obedeciam. As pessoas se 
acostumaram com os cavalos e com a mulher que tinha afinidade por animais, e ficaram curiosos com o lobo e com o que ela pretendia fazer com ele. Que fosse capaz 
de cri-lo e trein-lo era, para muitos, um portento. Jondalar ainda se surpreendia com a inteligncia que o animal demonstrava; inteligncia que parecia quase humana.
     Acho que ele est brincando com voc, Ayla  disse.
    Ela olhou para Lobo e no pde conter um sorriso, o que fez com que ele levantasse a cabea e comeasse a martelar o cho com o rabo, de prazer.
     Voc tem razo, mas isso no me vai impedir de proibi-lo de ficar mastigando tudo o que encontra  olhou para o sapato feito em tiras.  Talvez seja melhor 
dar-lhe o mocassim. J est destrudo, e isso ocupar por algum tempo. As outras coisas estaro a salvo.  Atirou-lhe o sapato, que o lobo apanhou no ar. Segundo 
Jondalar, com um sorriso de astcia recompensada.
     Devemos fazer as bagagens, disse ele, lembrando-se de que no tinham progredido muito na vspera rumo ao sul.
     Ayla correu os olhos em volta, fazendo uma viseira com a mo para  defender-se do sol que j subia, brilhante, no cu para o lado do nascente. Vendo Huiin 
e Racer no prado relvoso de vegetao rasteira que o rio contornava, ela deu um assovio, parecido com o que dera para chamar Lobo. A gua baia levantou a cabea, 
relinchou uma vez, e galopou pai ela. O jovem garanho a seguiu.
    Levantaram acampamento, carregaram os cavalos e estavam quase prontos para partir quando Jondalar decidiu reunir todos os mastros da barraca numa cesta e suas 
lanas em outra para equilibrar melhor a carga. Ayla recostou-se contra Huiin e esperou. Era uma postura confortvel e familiar para as duas, um modo de se tocarem 
que tinham inventado quando a gua era ainda nova e sua nica companhia naquele vale rico mas solitrio.
    Ela havia matado a me de Huiin tambm. Ela caava fazia anos mas s com a funda. Ayla aprendera a usar armas fceis de escamotear e quebrava os tabus do Cl 
de maneira inteligente caando principalmente predadores, que competiam pelos mesmos alimentos e s vezes furtavam carne. Mas a gua era o primeiro animal fornecedor 
de carne de grande porte que ela matara e a primeira vez em que usara a lana como arma.
    No Cl aquela teria sido contada como a sua primeira morte de verdade, se ela fosse um menino, e se tivesse permisso de caar com lana Como mulher, se usasse 
uma lana no lhe permitiriam viver. Matar a gua, no entanto, fora necessrio para a sua sobrevivncia. Se logo uma me e nutriz cara na sua armadilha, que culpa 
tinha? Ao ver a cria teve pena dela, sabendo que morreria, privada de sua me, mas a ideia de criar o animal no lhe ocorreu. Nem havia razo para isso. Ningum 
jamais agira assim.
    Mas quando as hienas saram no encalo da cria assustada, ela se lembrou da hiena que tentara levar o beb de Oga. Ayla tinha dio de hienas, talvez por causa 
do que sofrera quando matou aquela e viu seu segredo exposto aos olhos de todos. No que hienas fossem piores que outros predadores naturais e carniceiros, mas para 
Ayla representavam tudo o que era errado, vicioso, e cruel. Sua reao foi to espontnea como a daquele tempo, e as pedras que lanou com a funda foram to eficazes 
quanto as outras, antigas. Matou uma, espantou as outras, e salvou o jovem animalzinho inerte. Mas agora, em vez de uma ordlia, encontrou uma companhia para aliviar 
a sua solido, e alegria no extraordinrio relacionamento que se formou.
    Ayla gostava do lobinho como de uma criana inteligente e buliosa, mas seu sentimento pela gua era de outra natureza. Huiin partilhava o seu isolamento, ficaram 
to unidas quanto duas criaturas to diversas podem ser. Elas se conheciam, se entendiam, confiavam uma na outra. A gua parda no era apenas uma companhia animal 
til, ou um bicho de estimao, ou uma filha bem amada. Huiin fora sua nica companheira durante vrios anos. Era sua amiga.
    Fora um ato espontneo, irracional at, mont-la da primeira vez e e galopar com ela com a velocidade do vento. No comeo, ela no tentou conduzir o animal. 
Mas eram to unidas que o entendimento entre as duas cresceu a cada corrida.
    Agora, enquanto esperava que Jondalar terminasse, Ayla se distraa vendo Lobo brincar com o sapato. Quisera encontrar um meio de acabar comesses hbitos destrutivos 
que ele tinha. Seu olhar registrava sem esforo a vegetao naquela ponta de terra em que tinham acampado. Mais baixa que as terras do outro lado do rio, com suas 
barrancas a pique, a terra ali alagava todo ano, deixando um frtil hmus para alimentar uma rica variedade de ervas, plantas rasteiras, arbustos e o rico pasto 
da margem. Ayla sempre notava a vegetao de onde estava. Era uma segunda natureza para ela tomar conscincia de tudo o que crescia em torno e, com conhecimento 
to arraigado que era quase instintivo, catalogar e interpretar o que via.
    Viu, por exemplo, um p de uva-ursina, sempre verde e an, com folhas pequenas, verde-escuro, coriceas, e uma abundncia de flores midas, redondas, de um branco 
tocado de rosa, que prometia uma rica messe de bagas vermelhas. Embora azedas e adstringentes, eram gostosas guando cozinhadas com outras coisas. Mas Ayla sabia 
que o suco da fruta aliviava o ardor da urina, principalmente se a urina vinha com sangue.
    Perto dela, via-se um rbano-bastardo, com flores brancas, numerosas, grupadas em racemos, na ponta de longas hastes, e, muito mais embaixo, folhas compridas, 
pontudas, brilhantes, verde-escuro, brotando quase do cho. A raiz seria rombuda e longa, com aroma pungente gosto ardido. Em pequena quantidade, dava um sabor interessante 
 carne, mas a Ayla interessava mais seu uso medicinal como estimulante para o estmago e para a mico ou como alvio para juntas inchadas doloridas. Ficou tentada 
a colher alguma coisa, mas achou que no teria tempo.
    Apanhou sem hesitao sua bengala pontuda, de cavar, quando deu com a salva. A raiz era um dos ingredientes do ch especial que tomava de manh, quando ficava 
menstruada. Em outras ocasies, usava diferentes plantas para sua tisana, principalmente uma trepadeira amarela que sempre crescia agarrada a outras plantas e muitas 
vezes as matava. Iza lhe falara muito tempo atrs das plantas mgicas que fariam o esprito do seu totem suficientemente forte para derrotar o esprito do totem 
de qualquer homem, de modo que nenhum beb comeasse a crescer dentro dela. Iza sempre lhe dissera que no contasse essas coisas a ningum, muito menos a um homem.
    Ayla no estava muito segura se eram mesmo espritos que causavam bebs. Pensava que o homem tinha mais a ver com isso, mas as plantas secretas funcionavam, 
de qualquer maneira. Nenhuma vida nova comeara a pulsar nela quando tomava suas infuses especiais, quer tivesse estado com um homem, quer no. No que se importasse, 
mas era preciso que estivessem num lugar s. Mas Jondalar deixara muito claro que na Jornada to longa que tinham pela frente seria um risco engravidar pelo caminho.
    Quando puxou a raiz da salva e sacudiu a terra, viu as folhas em forma de corao e as compridas flores tubulares amarelas da serpentria ou dracnculo, boa 
para evitar os insucessos. Com um aperto no corao, lembrou-se de quando Iza fora apanhar aquela planta para ela. Quando se ps de p e guardou as razes que tinha 
colhido numa cesta especial amarrada no alto de uma das cestas de bagagem, viu Huiin comendo seletivamente as pontas das aveia bravas. Ela gostava das sementes tambm, 
pensou, quando cozidas, e sua mente, prosseguindo na catalogao automtica da flora medicinal, acrescentou a informao de que as flores e os talos ajudavam a digesto.
    A gua tinha soltado seus excrementos e observou que j havia moscas zumbindo em volta. Em certas estaes do ano, os insetos podiam ficar insuportveis, pensou, 
e decidiu procurar plantas capazes de espanta-los. Quem sabe por que terras passariam?
    Nessa revista sumria da vegetao local observou um arbusto espinhento que sabia ser uma variedade de losna, de gosto amargo e cheiro de cnfora. No era um 
repelente, pensou, mas tinha l suas utilidades. Nas imediaes cresciam malvas, gernios silvestres com folhas dentadas e flores de cor-de-rosa vivo e cinco ptalas,
que davam frutas alongadas, parecidas com bicos de grou. As folhas secas e reduzidas a p ajudavam a estancar o sangue e cicatrizar feridas. Tomada como ch, curavam 
feridas na boca e coceiras; e as razes eram excelentes para diarreias e problemas do estmago. O gosto era amargo e forte, mas o remdio podia ser tomado impunemente 
por crianas e pessoas idosas.
    Olhando para onde estava Jondalar, viu Lobo tambm, de relance Ele ainda roa o sapato. Interrompeu suas cogitaes e se concentrou de novo nas ltimas plantas 
que havia observado. Por que elas lhe tinham chamado a ateno? Alguma coisa nelas lhe parecera importante. Subitamente, lembrou-se. Logo pegou outra vez a vara 
de furar e comeou a cavar em torno da losna de gosto amargo e odor de cnfora e do adstringente, mas relativamente inofensivo, gernio.
    Jondalar, que havia montado e estava pronto para partir, voltou-se para ela e a interpelou:
     Ayla, por que est recolhendo plantas? Devemos partir. Precisa mesmo dessas coisas?
     Preciso, e no vai demorar  respondeu, apanhando a raiz do rbano-bastardo de gosto ardido.  Acho que sei como manter Lobo longe das nossas coisas.  Apontou 
para o animal, que ainda brincava com o resto do mocassim.  Vou fabricar um "repelente de Lobo".
    Dirigiram-se para o sudeste, a fim de voltar ao rio que vinham seguindo. A poeira assentara durante a noite, e no ar, agora claro e ntido, via-se agora a distante 
linha do horizonte, debaixo daquele vu sem fim. Cavalgando atravs do campo, tudo o que viam, de um extremo da terra ao outro, de norte a sul, de leste a oeste, 
ondulado, encapelado em vagalhes, sempre em movimento, era aquele imenso mar de relva: uma vasta abrangente, pastagem. As poucas rvores que existiam junto dos 
rios apenas serviam para acentuar a vegetao dominante, mas a magnitude daquelas plancies relvosas era muito maior do que imaginavam.
    Camadas macias de gelo, de dois, trs, oito quilmetros de espessura esmagavam os plos da terra e se espalhavam pelas terras do norte, comprimindo a crosta 
rochosa do continente e deprimindo o prprio fundamento rochoso debaixo do seu peso inconcebvel. Para o sul do gelo ficavam as estepes, plancies cobertas de gramneas, 
frias, secas, da largura do continente. Iam do oceano ocidental ao mar oriental. Toda a terra que bordejava o gelo era uma imensa plancie relvosa. E por toda parte, 
cobrindo a terra, do vale profundo  colina fustigada pelo vento, tudo era relva. Montanhas, rios, lagos e mares, que davam umidade maior e propiciavam o aparecimento 
de rvores, eram as nicas intruses no carter essencialmente herbceo das terras setentrionais durante a poca Glacial.
    Ayla e Jondalar sentiam que o solo comeava a descer para o vale do rio maior, embora estivessem ainda a alguma distncia da gua. Antes de muito tempo viram-se 
cercados de capim alto. Erguendo-se para ver acima dessa vegetao de 25 centmetros de altura, mesmo de cima de Huiin, Ayla pouco mais via que a cabea e os ombros 
de Jondalar entre os topos plumosos e talos balouantes azul-turquesa das plantas, coroadas por minsculos flotetes de um ouro avermelhado. Vislumbrava, de tempos 
em tempos, a montaria castanho-escuro, mas reconhecia Racer apenas por saber que era ele que estava l. Alegrava-se com a vantagem da altura que os cavalos lhes 
davam. Se estivessem a p, s com dificuldade poderiam passar por to densa floresta de capins gigantes agitados pelo vento.
    No que constitussem barreira, abriam-se com facilidade para dar-lhes passagem, mas podiam ver poucos passos adiante: e, atrs, os capins se fechavam como uma 
cortina, deixando poucos sinais do caminho por onde tinham vindo. Sua viso se limitava  rea imediatamente em torno eles, como se levassem consigo um bolso de 
seu prprio espao enquanto e deslocavam. Apenas com a brilhante incandescncia traando sua rota familiar atravs do claro cu azul profundo, e os talos altos das 
plantas mostrando com sua inclinao para que lado o vento soprava, teria sido to mais difcil para eles encontrarem seu caminho e muito fcil se perderem um do 
outro.
    Cavalgando, ela ouvia o murmrio do vento e o alto zumbido dos mosquitos, junto da sua orelha. Era quente e abafado no meio daquela vegetao to densa. Embora 
fosse visvel que as altas ervas se agitavam, no sentia no rosto nenhum vestgio do vento. O zunzum das moscas e um rastro fugaz de fedor lhe disseram que Racer 
tinha soltado seus excrementos havia pouco tempo. Mesmo que no soubesse que ele estava logo  frente, o odor do cavalo era para ela to distintivo quanto o do animal 
que estava montando ou o seu prprio. Em volta, tudo era o odor rico do solo, com seu hmus, os cheiros verdes da vegetao. Ela no classificava os cheiros como 
bons e maus. Usava o nariz como usava os olhos e ouvidos, com criteriosa discriminao, como instrumentos para investigar e analisar o mundo sensvel.
    Depois de algum tempo, a mesmice do cenrio, os talos de alto porte, um junto do outro, um depois do outro, o passo ritmado da montaria, e o sol, quente, quase 
a pino, tornavam Ayla letrgica. Estava acordada, mas no de todo alerta. As hastes repetitivas, altas, finas, reticuladas, faziam como que um borro, que ela j 
no via distintamente Em vez disso, comeou a notar o resto da vegetao. Muito mais que aquele capim gigante crescia por l e, como de hbito, ela tomou nota mentalmente 
de tudo, sem muita conscincia disso. Essa era apenas sua maneira de ver o que a cercava.
    Ali, pensava Ayla, naquele espao aberto... algum animal deve t-lo feito, rolando na erva... h uns ps daquilo a que Nezzie chamava p-de-ganso, que era como 
a erva-fedegosa da porta da caverna do Cl. Deveria apanhar umas duas mudas, refletiu, mas sem fazer qualquer esforo para ir peg-las. Era de fato o quenopdio, 
com suas pequeninas folhas rgidas. E, mais adiante: aquela planta, de flores amarelas, e folhas enroladas em torno do talo, aquela  a couve-do-mato. Seria boa 
de come no jantar. Mas passou por ela tambm. E aquelas flores azul-prpura as folhas midas, aquilo  astrgalo, e tem um monte de esporos. Estaro prontos? Duvido 
muito.  frente, a flor larga, branca, arredondada com rosa no meio,  a cenoura. Parece que Racer pisou em algumas das suas folhas. Preciso apanhar minha bengala 
de cavar. Mas h outras l adiante. Parece abundante por aqui. Posso esperar, depois, faz tanto calor! Ela tentou espantar duas moscas que zumbiam junto dos seus 
cabelos suados. No vejo Lobo h bastante tempo. Por onde andar?
    Voltou-se, procurando por ele com os olhos, e viu que estava logo atrs de Huiin, cheirando o cho. Ele parou, levantou a cabea para localizar outro cheiro, 
depois desapareceu nas ervas, para a esquerda. Ayla viu uma grande liblula azul com asas pintalgadas, que a passagem do lobo por aquela faixa densamente povoada 
perturbara, voejar baixo por cima de onde ele estivera como se quisesse marcar o terreno. Pouco depois, um grito curto e agudo seguido de um rumor farfalhante de 
asas precederam o sbito aparecimento de uma grande abetarda que levantava vo. Ayla pegou a funda, que trazia enrolada na cabea como uma fita. Era prtica: ficava 
 mo e ajudava a segurar o cabelo.
    Mas a gorda abetarda  com onze quilos,  a ave mais pesada das estepes  voava rpido para o seu tamanho e estava fora do alcance antes que ela pudesse tirar 
uma pedra da bolsa. Viu o pssaro, asas brancas molhadas de escuro nas pontas, ganhar velocidade, pescoo esticado para frente, pernas esticadas para trs, e lamentou 
no haver percebido em tempo o que Lobo tinha farejado. A abetarda teria sido um belo almoo para os trs e ainda sobraria muita carne.
     Pena que no fomos mais vivos  disse Jondalar.
    Ayla notou que estava guardando uma lana pequena e o atirador de lanas de volta na bagagem. Ela concordou enrolando a correia da funda outra vez em torno da 
testa.
     Quisera ter aprendido a lanar a vara de Brecie.  muito mais rpido. Quando paramos junto do charco onde havia todos aqueles pssaros, na caa aos mamutes, 
lembra-se, era inacreditvel a presteza com que ela agia. E pegava mais de uma ave de cada vez.
     Sim, Brecie era fantstica  concordou Jondalar.  Mas talvez ela tivesse praticado tanto com aquela vara quanto voc com a sua funda. No acredito que uma 
habilidade assim se consiga numa nica estao.
     Se esta vegetao no fosse to alta, eu poderia ter visto o que Lobo perseguia a tempo de preparar a funda e atirar algumas pedras. Pensei que talvez se tratasse 
de um rato-calunga.
     Temos de ficar de olhos atentos a tudo o que Lobo desentocar  disse Jondalar.
     Eu estava de olhos abertos. Mas no consigo ver nada!  disse Ayla. Ela mirou o cu para conferir a posio do sol e ergueu o corpo para ver por cima da erva 
crescida.
     Mas voc est certo. No faria mal irmos pensando em carne fresca para hoje  noite. Tenho visto pelo caminho toda espcie de plantas boas de comer. Ia, at, 
parar para colher algumas, mas parecem to abundantes por toda parte que  melhor deixar isso para o fim, ou ficaro murchas com o calor que est fazendo. Ainda 
temos um pouco do assado de bisonte que trouxemos do Acampamento do Capim Estipa, mas s d para mais uma refeio, e no h motivo para usarmos a carne-seca nesta 
poca do ano, com tanto alimento fresco a nossa volta. Quanto tempo falta Para acamparmos?
     No creio que estejamos longe do rio... est ficando mais fresco, e a erva alta em geral nasce em terras baixas, perto de gua. Uma vez alcanado o rio, comearemos 
a desc-lo e procuraremos um bom lugar  disse Jondalar, retomando a marcha.
    A alta vegetao ia at a borda do rio, embora j se misturasse a rvores junto da margem encharcada. Pararam para que os cavalos bebessem gua, e apearam para 
matar tambm a sede, usando uma pequena cesta de tranado bem apertado como caneca. Lobo logo apareceu, sado do mato, bebeu com rudo, depois se deixou cair de 
lngua de fora, respirando com esforo.
    Ayla sorriu.
     Lobo tambm est sentindo calor. Acho que ele andou explorando. Gostaria de saber o que descobriu. Ele v muito mais do que ns atravs dessa alta vegetao.
     Preferia deix-las para trs antes de acamparmos. Estou acostumado a ver a distncia e me sinto tolhido. No sei o que vamos encontra pela frente, e gosto 
sempre de saber por onde ando  disse Jondalar.
    Acercando-se do cavalo e apoiando a mo justamente na raiz da sua crina dura, espetada, ele lanou uma perna por cima do animal, firmou-se nos braos e montou. 
Pouco depois conduzia o animal para um terreno mais firme antes de comear a descer o rio.
    As grandes estepes no eram, de maneira nenhuma, uma paisagem s, desmesurada e indiferenciada, de altos colmos balouando graciosamente ao vento. Essa vegetao 
crescia em reas selecionadas de grande umidade, que continham tambm uma grande diversidade de outras plantas. Dominadas por capins gigantes, de mais de um metro 
e meio de altura, que chegavam, s vezes, a trs metros e meio  gramneas bulbosa de caule azul, estipas eretas, festucas grupadas em macegas , as campinas ricas 
em cor apresentavam uma diversidade de ervas floridas e de largas folhas: steres e unhas-de-cavalo, por exemplo; mulas-campanas amarelas, de muitas ptalas; daturas 
de grandes chifres brancos; tubrculos comestveis, cenouras bravas, nabos e couves; rbanos-bastardos, mostardas, cebolas pequenas, ris, lrios e botes-de-ouro; 
groselhas e morangos; e framboesas  das pretas e das vermelhas.
    Nas regies semi-ridas de pouca precipitao, vicejavam ervas rasteiras, no mais altas que meio metro. Ficavam rente ao solo, cobrindo a maior parte da vegetao 
rasteira, e brotavam vigorosamente, principalmente na poca da seca. Dividiam a terra com a macega baixa de arte-misas como a losna e a salva.
    Entre esses dois extremos viviam os capins de porte mdio, ocupando espaos frios demais para os capins rasteiros ou, secos demais para as altas vegetaes. 
Esses prados de umidade moderada podiam ser tambm variegados, com muitas plantas floridas misturadas ao capim-aveia, aos capins-rabo-de-raposa e, sobretudo, nos 
aclives e terrenos mais elevados, ao capim-azul. O capim-d'gua crescia onde o solo era mais molhado o capim-agulha onde era mais frio e a terra mais arenosa. Havia 
tambm uma abundncia de ciperceas, como o carrio  os talos eram lisos no carrio mas segmentados com folhas brotando das junes, como no eriforo, que parece 
algodo, nos solos de tundra, mais midos. Eram muitos os charcos, eriados de canios, capins-rabo-de-gato, e juncos de vrias espcies.
    Era mais fresco na orla do rio, e quando a tarde se fez noite Ayla se sentia dividida. Queria avanar rpido, sair daquela vegetao gigante que a sufocava, 
mas queria tambm deter-se e apanhar algumas das plantas  que encontrava pelo caminho para a refeio da noite. Mas no iria parar, no iria, repetia consigo mesma, 
num refro.
    Mas logo as palavras perderam o sentido, e s ficou o ritmo daquela espcie de bordo no fundo da sua mente, surdo, quando deveria ser mais alto. Era perturbador 
aquilo, aquele sentido de um som alto e profundo que ela no conseguia ouvir. O desconforto era agravado pela vegetao que a envolvia por todos os lados e que deixava 
perceber apenas o que estava perto. Ayla estava mais acostumada s vistas abertas, a enxergar pelo menos um pouco alm da vegetao circundante. Avanaram, e a estranha 
sensao ficou mais aguda, como se estivesse mais prxima, como se eles se acercassem da fonte daquele som que no se ouvia.
    Ayla percebeu que o solo parecia mexido recentemente em diversos lugares. Respirou fundo e sentiu um forte cheiro pungente almiscarado e procurou localiz-lo, 
aguando o nariz. Ento ouviu um rosnado na garganta de Lobo.
     Jondalar!  chamou, e viu que ele parara e lhe fazia sinal com a mo para que parasse tambm. Havia por certo algo  frente. De sbito o ar se fendeu num grande 
e penetrante berro.

3
___________________________________________________________________________

     Lobo! Parado!  ordenou Ayla ao filhote, que j avanava bem devagar, movido pela curiosidade. Deixou-se, depois, escorregar para o cho e tambm avanou com 
cautela em meio da vegetao que se tornava agora mais rala, aproximando-se dos gritos e estrondos que ouviam. Ayla se ajoelhou para conter Lobo, mas no podia despregar 
os olhos da cena que via na clareira.
    Uma agitada manada de mamutes lanosos pisoteava tudo em volta. Haviam sido eles que, comendo, tinham aberto aquele vazio no limite da regio da alta vegetao. 
Um mamute adulto precisava de mais de trezentos quilos de alimento todo dia, e um rebanho como aquele podia limpar uma rea considervel rapidamente. Havia ali animais 
de todas as idades e de todos os tamanhos, inclusive alguns que no podiam ter mais que algumas semanas de existncia. O que significava que a manada se compunha, 
primariamente, de fmeas aparentadas umas com as outras. Eram mes, filhas, irms, tias, com sua prognie. Uma vasta famlia dirigida por uma velha matriarca, sbia 
e astuta, e tambm muito maior em tamanho que o resto do grupo.
     Primeira vista, a cor dos mamutes era castanho-avermelhado, mas a um olhar mais atento se percebiam infinitas variaes do tom fundamental. Alguns dos animais 
eram mais vermelhos, outros mais castanhos, alguns tendiam para o amarelo e o ouro, e poucos eram quase negros a distncia. O plo grosso, em duas camadas, cobria-os 
inteiramente, das trombas fortes e grossas e orelhas excepcionalmente pequenas, s caudas curtas terminadas num tufo de l escura, e at as pernas curtas e grossos 
e os largos ps. As duas camadas de plos contribuam para as diferenas de cor.
    Embora a maior parte da l que tm por baixo, densa, quente, surpreendentemente sedosa e macia j tivesse cado no vero, a l do ano seguinte j comeava a 
aparecer e era mais clara na colorao que a camada externa, fofa embora mais grosseira, de proteo contra o vento e lhe dava mais espessura e realce. Os plos 
externos, mais escuros, e de diferentes tamanhos  alguns, at, com um metro , caam como uma saia ao longo dos flancos dos animais, e com grande abundncia do 
abdome e da barbela, que  a pele solta e pendente do pescoo e do peito formando uma almofada debaixo deles quando ficavam deitados em cho congelado.
    Ayla ficou encantada com um casal de jovens gmeos de belo plo entre o ouro e o vermelho realado por uma moldura de plos pretos, espetados, que espiavam por 
entre as fortes pernas e a saia cor de ocre da sua me extremosa. Os plos marrons, escuros, da velha matriarca tinham muitos fios brancos. Ayla notou tambm os 
pssaros brancos que eram companheiros inseparveis dos mamutes, tolerados ou ignorados por eles, quer se encarapitassem no alto de uma cabea lanosa quer se esquivassem 
habilmente de uma pata pesada, enquanto se banqueteavam com os insetos que os grandes animais deixavam alvoroados.
    Lobo manifestava ganindo sua vontade de investigar mais de perto aqueles interessantes animais, mas Ayla o continha, enquanto Jondalar tirava da cesta das bagagens, 
que Huiin levava, a corda com lao. A matriarca, grisalha, voltou-se uma vez para observ-los longamente  viram, ento, que uma de suas presas estava partida  
depois voltou a ateno para coisas mais importantes.
    S os machos ainda muito jovens ficavam com as fmeas. Costumavam deixar o rebanho natal quando atingiam a puberdade, por volta de doze anos, mas vrios jovens 
solteiros e at alguns um pouco mais velhos faziam parte daquele grupo. Haviam sido atrados por uma fmea de pelagem castanha. Ela estava no cio, e aquilo era a 
causa da comoo que Ayla e Jondalar tinham ouvido. Uma fmea no cio ou estro, o perodo em que as fmeas so capazes de conceber, era atraente para todos os machos, 
s vezes em nmero maior do que ela mesma teria desejado.
    Essa fmea castanha acabava de reunir-se a sua famlia, depois de deixar para trs trs machos jovens, de seus vinte anos, que a vinham perseguindo. Os machos, 
que tinham desistido, mas s temporariamente, estavam agora um tanto distanciados da manada, descansando, enquanto a fmea se refazia em meio s outras fmeas excitadas. 
Uma vitela de dois anos correu para o objeto da ateno dos machos, foi saudada por um toque afetuoso da tromba, encontrou um dos dois peitos entre as pernas dianteiras 
e comeou a mamar, enquanto a fmea apanhava um chumao de capim. Ela se vira perseguida por machos o dia todo e no tivera oportunidade de alimentar sua cria ou 
de comer e beber ela mesma. Pois no teria muita chance agora.
    Um macho de porte mdio acercou-se da manada e comeou a tocar as outras fmeas com a tromba, muito abaixo da cauda, entre as pernas traseiras delas, fungando 
e provando, a ver seu estado de prontido. Como mamutes crescem a vida inteira, o tamanho daquele animal indicava que ele era mais velho que os trs que haviam perseguido 
a fmea antes. Teria uns trinta anos, talvez. Quando se aproximou da fmea de plo avermelhado, ela se afastou num trote rpido. Ele imediatamente abandonou as demais 
e saiu atrs dela. Ayla ficou boquiaberta quando ele tirou seu gigantesco rgo da bainha e ele comeou a inchar numa forma alongada e curva de S.
    Jondalar viu que ela respirara fundo e lanou-lhe um olhar. Ayla se virou para olhar para ele, e os olhos dos dois, igualmente maravilhados e cheios de assombro, 
ficaram presos um ao outro por um momento. Embora ambos costumassem caar mamutes, nenhum dos dois tinha jamais observado grandes animais muitas vezes de to perto, 
e nenhum dos dois os vira jamais acasalar-se. Jondalar sentiu um aperto nos rins observando Ayla. Ela estava excitada, rubra, de boca entreaberta, respirando em 
haustos curtos, e tinha, nos olhos arregalados, uma fagulha de curiosidade. Fascinados pelo espetculo daquelas duas criaturas macias prestes a honrar a Grande 
Me Terra, de acordo com as exigncias d'Ela, eles se afastaram.
    Mas a fmea se pusera a correr, descrevendo um grande arco  frente do grande macho at encontrar-se de novo com a sua famlia e nela se integrando. Como se 
aquilo fosse fazer grande diferena. Logo era de novo objeto de perseguio. Um macho a alcanou e conseguiu mont-la, mas ela no se mostrou cooperativa e conseguiu 
escapar-lhe, embora ele lhe borrifasse as pernas de trs. De vez em quando, sua filha procurava segui-la nas suas galopadas de fuga at se deixar ficar com as outras 
fmeas. Jondalar se perguntava por que ela evitava os machos interessados com tanta insistncia. Ser que a Me no esperava que os mamutes fmeas A honrassem tambm?
    Como se os animais tivessem combinado parar e comer, tudo se aquietou por algum tempo, com todos os mamutes rumando devagar para o sul e consumindo a erva alta 
em grandes lotes num ritmo constante. Num raro instante de pausa, a fmea de pelagem vermelha ficou parada e de cabea baixa, parecendo muito cansada, e tentando 
comer.
    Os mamutes passaram a maior parte do dia e da noite pastando. Fossem fibras de to m qualidade quanto aquelas  eles so capazes de comer at casca de rvore 
arrancada com as presas, embora isso fosse mais comum no inverno , os mamutes precisam de enormes quantidades de massa para alimentar-se todo dia. Esse lastro no 
digervel lhes atravessava o corpo a cada doze horas, com a adio de uma pequena quantidade de plantas mais nutritivas e suculentas, de folhas largas, ou ocasionalmente, 
de espcies escolhidas de salgueiro, btula, ou amieiro muito mais ricas em nutrientes que a erva alta, mas txica para mamutes  quando ingeridas em grandes quantidades.
    Quando os grandes brutos lanosos se afastaram um pouco, Ayla atou a corda no pescoo do lobo, que estava ainda mais interessado do que eles nos mamutes. Ficava 
insistindo por chegar mais perto, mas ela no queria que ele aborrecesse a manada. Sentia que a velha matriarca lhes, dera uma permisso tcita de ficar, mas s 
se guardassem distncia. puxando os cavalos, que demonstravam tambm algum nervosismo e excitao, Ayla e Jondalar andaram em crculo por entre a erva alta e acompanharam 
o rebanho. Embora j os tivessem observado longamente, nenhum dos dois estava inclinado a partir. Havia ainda um clima de expectativa em torno dos mamutes. Alguma 
coisa devia acontecer. Talvez fosse apenas o fato de que o acasalamento que haviam visto, tinham sido quase convidados a ver, no se completara ainda. Mas era mais 
que isso.
    Enquanto iam, devagar, na esteira da manada, ambos estudavam os gigantescos animais detidamente, mas cada um de uma perspectiva independente. Ayla caara desde 
os seus verdes anos e observara animais com grande frequncia, mas suas presas eram, de costume, muito menores Mamutes no eram caados por indivduos e sim por 
grupos numerosos, organizados e coordenados. Ela j conhecia aqueles animais de perto, quando caara com os Mamuti. Mas na caa no h tempo para estudar e aprender, 
e Ayla no sabia quando teria outra oportunidade assim de v-los bem, machos e fmeas, outra vez.
    Embora j soubesse da diferena que apresentavam de perfil, percebeu bem isso agora. A cabea de um mamute era macia e arredondada como uma cpula  com grandes 
cavidades na altura dos sinos, que ajudavam a aquecer o ar frio do inverno no curso da respirao  e acentuada por uma bola de unto e por um farto chumao de plo 
escuro e armado. Logo abaixo da cabea, havia um sulco profundo na nuca, seguido de nova protuberncia de gordura no cangote. A partir da, o lombo descaa a pique 
para o plvis estreito e ancas quase graciosas. Ela sabia muito bem, por ter carneado e devorado mamutes, que o segundo cupim de gordura era diferente, em qualidade, 
dos dez centmetros de toucinho que ficava logo debaixo da pele rija, de um bom centmetro de espessura A gordura era mais delicada e saborosa.
    Mamutes lanudos tinham pernas relativamente curtas para o seu tamanho, o que de certo modo lhes facilitava a coleta de alimento, pois comiam principalmente capim 
e no folhas verdes de rvores como seus parentes de outras regies. Havia poucas rvores na estepe. Mas como as cabeas dos mamutes de lugares mais quentes, as 
desses estavam longe do solo e eram grandes e pesadas demais  sobretudo em virtude das enormes presas, para serem sustentadas por um pescoo comprido. Assim, no 
podiam alcanar o alimento ou a gua de maneira direta como fazem os cavalos ou os cervdeos. A evoluo da tromba resolveu esse problema de levar comida e bebida 
at a boca.
    As trombas sinuosas e peludas do mamute eram robustas o bastante para arrancar uma rvore pela raiz ou levantar um grande bloco de gelo e quebr-lo em blocos 
menores, que serviam para matar a sede no inverno. Eram tambm suficientemente destras para apanhar uma folha s de cada vez. Eram, sobretudo, maravilhosamente adaptadas 
para arrancar capim do cho. Tinham duas projees desiguais na extremidade. Uma superior, que era como um dedo, que o animal podia controlar com toda a delicadeza; 
e outra, inferior, uma estrutura mais larga, achatada, e flexvel que parecia uma mo, mas sem ossos ou dedos separados.
    Jondalar ficou assombrado com a habilidade e fora da tromba ao ver como um mamute enrolava essa mo em torno de talos da vegetao alta enquanto o dedo superior 
puxava outras mais para engrossar o feixe. Fechando, ento, o dedo em torno do feixe como um polegar humano, a tromba extraa as plantas do cho, com razes e tudo. 
Depois de sacudir aquilo no ar, para livrar-se da maior parte da terra, o mamute enfiava as ervas na boca e j colhia mais enquanto mastigava.
    A devastao que uma manada como aquela ia deixando para trs na estepe era considervel, ou assim parecia. Mas apesar das plantas arrancadas e das rvores sem 
casca, sua progresso era benfica  para a estepe e para os outros animais. Removendo a vegetao alta, de talos duros como madeira, e os arbustos, abria-se espao 
para o crescimento de espcimes mais ricos e a renovao do capim, alimentos essenciais a outros diversos habitantes da estepe.
    Ayla de sbito estremeceu e sentiu um frio at os ossos. Notou, ento, que os mamutes tinham parado de comer. Muitos deles haviam erguido a cabea e olhavam 
para o sul com as orelhas felpudas estendidas e as cabeas balanando para a frente e para trs. Jondalar observou uma alterao na atitude da fmea avermelhada 
que todos os machos perseguiam. Seu aspecto de fadiga desaparecera, e ela parecia antecipar alguma coisa iminente. De sbito, ela soltou um ronco profundo e vibrante. 
Uma surda ressonncia encheu a cabea de Ayla e ela se arrepiou toda. Um som como o de uma trovoada a distncia cresceu, vindo do sudoeste.
     Jondalar!  gritou ela, apontando.  Olhe!
    Ele olhou. Vindo na direo deles, a grande velocidade, levantando nuvens de poeira como se um redemoinho o acompanhasse, vinha um imenso mamute cor de ferrugem, 
do qual s se viam o lombo acima da crista da vegetao alta e as fantsticas presas curvadas para cima. Comeavam grossas, junto da mandbula superior. Abriam-se 
um pouco ao um descer, curvavam-se para cima, espiraladas, e afinavam at as pontas j um tanto gastas. Se no quebrassem, acabariam por formar um grande circulo, 
com as extremidades se cruzando no alto.
    Os elefantes peludos da poca Glacial eram compactos, poucas vezes excedendo trs metros medidos do lombo ao solo, mas suas presas tinham, por vezes, enormes 
dimenses, as mais espetaculares jamais vistas para a sua espcie. Quando um desses mamutes chegava ao trmino dos seus setenta anos, essas grandes peas de marfim 
podiam ter cinco metros de comprimento, pesando 130 quilos cada uma.
    Um odor opressivo, almiscarado o precedeu, provocando uma onda de excitao entre as fmeas. Quando o macho alcanou a clareira, elas correram para ele, oferecendo-lhe 
o seu cheiro com grandes jorros de urina, soltando guinchos, barrindo, trombeteando suas saudaes. Cercaram no em tumulto, aproximando-se dele fasto, ou procurando 
toc-lo com as trombas. Sentiam-se atradas, mas tambm esmagadas. Os machos, por sua vez, se retiraram para a beira do grupo.
    Quando o animal ficou suficientemente prximo para que Ayla e Jondalar pudessem v-lo bem, eles tambm ficaram tomados de estupor. O mamute carregava a cabea 
erguida e exibia suas espirais de marfim com o mximo de efeito. Muito mais compridas que as das fmeas, no s de menores propores como tambm mais retas, suas 
presas impressionantes superavam at os marfins mais respeitveis dos machos da horda. Suas orelhas pequenas e peludas, esticadas, seu tope escuro, ereto, sua pelagem 
castanho-avermelhada com os plos muito longos adejando, soltos, ao vento, acrescentavam volume ao seu tamanho j macio. Bem mais alto do que os machos maiores 
do bando, pesando duas vezes mais que as fmeas, era sem dvida nenhuma o animal mais gigantesco que Ayla e Jondalar jamais tinham visto. Tendo sobrevivido a duras 
peripcias seguramente, com mais de 45 anos, o animal estava no auge da sua forma, um magnfico mamute, em pleno apogeu.
    Mas no era apenas a predominncia natural do tamanho que fazia os outros machos recuarem. Ayla notou que ele tinha as tmporas bastante inchadas e que, entre 
os olhos e as orelhas, o plo ruivo parecia manchado em listas verticais por riscos de um fluido viscoso e escuro que corria sem parar. Ele pingava e, de vez em 
quando, esguichava uma urina de odor forte, que cobria o plo das pernas e do sexo de uma espuma esverdeada. Ayla se perguntou se ele estaria doente.
    Mas as glndulas temporais inchadas e os outros sintomas no eram uma doena. Entre os mamutes peludos, no s as fmeas ficavam no cio. Os mamutes machos, adultos, 
tambm passavam todo ano por um perodo de frenesi sexual. Embora um mamute macho atingisse a puberdade por volta dos doze anos, no tinha esse frenesi antes dos 
trinta e ento s por cerca de uma semana. Mas quando chegava aos quarenta e muitos anos, no auge da sua fora, esse frenesi podia durar de trs quatro meses. Embora 
qualquer macho, uma vez passada a puberdade fosse capaz de cruzar com qualquer fmea no cio, eram mais bem sucedidos quando estavam nesse perodo.
    O mamute cor de ferrugem no era apenas supremo ali, mas tambm um animal tomado de frenesi sexual, e tinha vindo em resposta ao chamado da fmea no cio, para 
cruzar com ela.
    De perto, os mamutes machos sabem quando as fmeas esto prontas para conceber pelo cheiro que exalam, como acontece com muitos quadrpedes. Mas os mamutes ocupavam 
territrios to vastos que tinham criado um meio adicional de fazerem saber estarem prontos para o acasalamento Quando uma fmea estava no cio e o macho no frenesi, 
o rudo que emitiam se tornava mais baixo. Sons muito graves no morrem a longas distncias como sons muito agudos, e os chamados feitos ento alcanavam muitos 
quilmetros.
    Jondalar e Ayla podiam ouvir com clareza os barridos surdos da fmea no cio, mas os do macho eram to discretos que eles mal os percebiam. Mesmo em circunstncias 
ordinrias, os mamutes se comunicavam a distncia atravs de roncos e apelos de que pouca gente tomava conhecimento. J o grito do mamute macho no cio era, de regra, 
extremamente alto como um bramido profundo; e o da fmea, ainda mais estridente. Embora poucas pessoas fossem capazes de detectar as vibraes snicas dos tons mais 
baixos, muitos dos seus elementos eram to graves que ficavam abaixo do registro da audio humana.
    A fmea avermelhada vinha mantendo a distncia o bando de jovens mamutes pretendentes, atrados pelos seus convidativos odores e pelo retumbante som dos seus 
chamados de baixo diapaso, que podiam ser ouvidos de longe por outros mamutes, se no por pessoas. Mas ela desejava um macho mais velho e dominador para gerar seus 
filhos, um macho cujos anos de vida j tivessem provado sua sade e seus instintos de sobrevivncia, algum que a seu ver fosse suficientemente viril para procriar. 
Em outras palavras, algum mamute em estado de frenesi. Ela no pensava nisso exatamente desse modo, mas seu corpo o sabia.
    Agora que ele chegara, a fmea estava pronta. Sua longa franja de plos danando a cada passo, ela correu para o grande animal trombeteando seus sonoros bramidos 
e mexendo com as pequenas orelhas peludas. Urinou, ento, estrepitosamente num grande jorro e, depois, estendendo a tromba para o comprido rgo do macho, sinuoso 
como um S, cheirou e provou a urina dele. Gemendo alto, ela fez uma pirueta, aproximou-se do macho de costas e se enfiou nele, de cabea erguida.
    O imenso mamute distendeu a tromba ao longo do dorso da fmea, acariciando-a e acalmando-a ao mesmo tempo. Em seguida empinou-se e montou-a, pondo as duas patas 
dianteiras bem para a frente no lombo dela. Era duas vezes maior que ela, to grande que parecia capaz de esmag-la, mas muito do seu peso descansava nas patas traseiras. 
Com a extremidade em gancho do seu rgo, duas vezes curvo e admiravelmente mvel, ele encontrou a abertura dela, que era como uma cutilada baixa, endireitou o rgo 
e penetrou-a fundo. Depois abriu a boca para soltar um berro.
    Esse berro que Jondalar ouviu parecia abafado e remoto, embora ele, sentisse um latejo forte. Ayla ouviu um pouco mais que ele, mas estremeceu violentamente, 
e uma sensao esquisita, de calafrio, percorreu seu corpo. A fmea avermelhada e o mamute cor de ferrugem se mantiveram na mesma Posio por muito tempo. Os compridos 
fios vermelhos da pelagem dele luziam com a intensidade do esforo, com a tenso, mas o movimento era quase imperceptvel. E quando ele desmontou, afinal, esguichava 
abundantemente. Ela avanou alguns passos e soltou um berro grave e prolongado que deu um frio na espinha de Ayla e lhe arrepiou a pele toda.
    A manada toda acorreu, trombeteando e barrindo, tocando-lhe a boca e o rgo sexual ainda molhado com as trombas, defecando e urinando ruidosamente de excitao. 
O mamute cor de ferrugem parecia indiferente ou cego a esse pandemnio de jbilo. Descansava de cabea baixa, finalmente todos se acalmaram e se afastaram para recomear 
a comer. S a filha da fmea se deixou ficar. A fmea barriu de novo, baixinho, esfregou a cabea contra um flanco cor de ferrugem.
    Nenhum dos machos se acercou do bando de fmeas com o grande mamute por perto, embora a fmea castanha no tivesse ficado menos tentadora. Alm de parecer irresistvel 
aos machos, o cio dava s fmeas domnio sobre os machos, tornando-as agressivas mesmo com os animais maiores, a no ser que eles tambm estivessem no mesmo estado 
de excitao. Os outros machos se afastavam, sabendo que o mamute cor de ferrugem se irritaria facilmente. S outro macho no cio teria ousado enfrent-lo e, assim 
mesmo, apenas se fosse do mesmo tamanho dele. Ento, se estivessem ambos desejando a mesma fmea, e estivessem perto um do outro, invariavelmente lutariam, com graves 
ferimentos ou a morte como possvel resultado.
    Quase como se soubessem as consequncias, faziam o possvel para no se aproximar um do outro e, assim, evitar confrontaes. Os chamados graves dos machos e 
seus pungentes rastros de urina faziam mais do que anunciar sua presena a fmeas no cio: anunciavam sua localizao aos outros machos. S trs ou quatro mamutes 
estavam no cio ao mesmo tempo no perodo de seis ou sete meses em que as fmeas podiam corresponder-lhes, mas era bastante improvvel que qualquer um deles desafiasse 
o gigantesco mamute cor de ferrugem pela posse da fmea castanha. Ele era o macho mais dominador de todos, estivesse ou no no cio, e os demais sabiam muito bem 
onde ele se encontrava.
    Ayla e Jondalar, que continuavam a observar a manada, viram que mesmo quando a fmea castanha e o macho mais claro comearam a comer permaneceram juntos. Em 
certo momento, a fmea se afastou um pouco em busca de plantas especialmente suculentas. Um jovem mamute, ainda quase adolescente, procurou aproximar-se dela, mas 
ela correu logo para o consorte, que avanou rosnando para o imprudente. Seu penetrante e diferente barrido impressionou o jovem macho, que logo fugiu, baixando 
a cabea com deferncia, e ficando longe do casal. Finalmente, ao lado do seu macho, a fmea castanha podia descansai alimentar-se em paz.
    Mulher e homem no se animaram a partir imediatamente, embora soubessem que o espetculo terminara, e Jondalar comeasse de novo a sentir a necessidade de prosseguirem 
viagem. Sentiam-se honrados, se bem que assustados, por aquela oportunidade de assistir ao acasalamento dos mamutes. No tinham sido simples espectadores, mas participantes 
de uma comovente e importante cerimnia. Ayla teria gostado de correr para os animais e toc-los, expressando sua apreciao e partilhando da sua alegria.
    Antes de seguirem caminho, Ayla notou que muitas das plantas que vinha admirando cresciam tambm nas proximidades e decidiu colher algumas usando seu podo. 
Jondalar se ajoelhou para ajud-la, embora tivesse de perguntar-lhe a cada passo o que queria.
    Aquilo ainda a surpreendia. No tempo em que vivera no Acampamento do Leo, aprendera os costumes e padres de comportamento dos Mamuti, que eram muito diferentes 
do que conhecera no Cl. Mesmo l no entanto, ela muitas vezes trabalhava com Deggie ou Nezzie, ou muitas pessoas trabalhavam juntas, e ela esquecera a disposio 
que ele tinha de fazer servios que o Cl teria considerado servios de mulher. Mas, desde seus primeiros dias no vale, Jondalar jamais hesitara em fazer alguma 
coisa que ela fazia, e se espantava que ela se surpreendesse com isso uma vez que o trabalho tinha de ser feito. Agora que estavam a ss, ela tomava de novo conscincia, 
e mais agudamente, dessa caracterstica dele.
    Quando, finalmente, partiram, cavalgaram em silncio por algum tempo. Ayla continuava com o pensamento nos mamutes. No conseguia tir-los da cabea. Pensava, 
tambm, nos Mamuti, que lhe tinham dado um lar quando no tinha nenhum. Eles se denominavam Caadores de Mamutes, embora caassem muitas outras espcies de animais, 
e davam queles animais gigantescos um lugar de honra mesmo quando os dizimavam. Alm de fornecer-lhes muito do que lhes era necessrio  vida  carne, gordura, 
couro, l para fibras e cordas, marfim para ferramentas e esculturas, ossos para moradia e, at, combustvel , a caa ao mamute tinha para eles um profundo sentido 
espiritual.
    Ela se sentia mais Mamuti do que nunca naquele momento, embora estivesse de partida. No era por acidente que tinham encontrado aquele bando. Estava convencida 
de que havia motivo para isso, e se perguntava se Mut, a Me Terra, ou talvez seu prprio totem, queria dizer-lhe alguma coisa. Muitas vezes se apanhava, nos ltimos 
tempos, pensando no esprito do Grande Leo da Caverna, que Creb lhe dera como totem. Imaginava se ele ainda a protegia, embora ela j no estivesse no Cl, e se 
algum esprito ou totem do Cl se encaixaria na sua nova vida com Jondalar.
    A vegetao alta comeava a ficar mais rala, e eles se aproximaram do rio procurando um bom lugar para acampar. Jondalar conferiu a posio do sol, que j descia 
para o poente, e decidiu que era tarde demais para caar naquele dia. Ele no lamentava que tivessem ficado tanto tempo perdidos na contemplao dos mamutes, mas 
tinha contado conseguir alguma carne, no s para a refeio daquela noite mas para as dos prximos dias. No queria usar a comida seca que traziam, a no ser que 
isso fosse indispensvel. Agora, tinham de arranjar tempo para caar de manh.
    O vale, com sua luxuriante terra de aluvio, mudara, e a vegetao tambm.  medida que as margens do rio se alteavam, a vegetao mudava e, para alvio de Jondalar, 
era agora muito mais baixa. Mal alcanava a barriga dos cavalos. Ele preferia ver aonde iam. Quando o terreno comeou a ficar plano depois de uma subida, a paisagem 
assumiu um aspecto familiar. No era como se j tivessem estado l, mas o stio lembrava a regio em torno do Acampamento do Leo, com altas barrancas e sulcos erodidos 
levando ao rio.
    Subiram por um aclive suave, e Jondalar observou que o rio infletia para a esquerda, isto , para o oriente. Era tempo de deixar aquele curso d'gua e seus meandros 
e cortar o campo rumo oeste. Parou para consultar o mapa que Talut havia entalhado numa placa de marfim para ele Quando ergueu os olhos, Ayla j desmontara e estava 
de p  beira do barranco, olhando o rio. Algo na sua atitude lhe deu a impresso de que ela estava preocupada ou infeliz.
    Desmontou e foi ter com Ayla. Viu, ento, do outro lado do rio, o que a tinha atrado at aquela margem. Encaixado no talude de um terrao, a meia altura, na 
margem oposta, havia um grande e largo cmoro com tufos de vegetao de um lado e de outro. Parecia parte da barranca do rio, mas a entrada em arco fechada por uma 
cortina pesada de couro de mamute revelava sua verdadeira natureza. Era um abrigo como aquele que o Acampamento do Leo chamava lar, e onde tinham morado durante 
o ltimo inverno.
    Enquanto contemplava a estrutura, de aspecto to familiar, Ayla tinha presente, vividamente, o interior do abrigo do Acampamento do Leo Aquela morada semi-subterrnea 
era espaosa e fora construda para durar muitos anos. O piso fora escavado no fino loess da margem do rio e ficava abaixo do nvel do solo. Suas paredes e seu teto 
abobadado de placas de relva consolidadas com argila do rio estavam firmemente sustentados por uma estrutura de mais de uma tonelada de grandes ossos de mamute, 
com galhadas de cervos entranadas e amarradas no teto e uma grossa camada de canios e capim entre os ossos e o entulho. Bancos de terra ao longo do muro se convertiam 
em camas quentes, e reas de depsito eram cavadas abaixo do nvel do subsolo frio. O arco da porta era feito com duas grandes presas de mamute, com as bases no 
solo e as pontas frente a frente e presas. Aquilo no era, de maneira nenhuma, uma construo temporria, mas uma habitao permanente, grande o bastante para abrigar 
diversas famlias numerosas debaixo de um s teto. Ayla estava segura de que os responsveis pela instalao tinham toda inteno de retornar a ela, assim como os 
do Acampamento do Leo faziam, todo inverno.
            Devem estar na Reunio de Vero  disse.  Imagino que acampamento ser esse.
            Talvez seja o Acampamento do Capim Estipa  disse Jondalar.
            Talvez  disse Ayla. E ficou a observar a caverna do outro lado do rio.  Parece to abandonada  acrescentou depois de algum tempo.  No imaginei, 
quando partimos, que eu nunca mais veria o Acampamento do Leo. Lembro-me de que quando separei coisas para levar para a reunio deixei algumas para trs. Se eu 
soubesse que no voltaria, teria trazido tudo comigo.
     Voc se arrepende de ter vindo, Ayla?  A ansiedade de Jondalar se traduzia, como sempre, em rugas na testa.  Eu lhe disse que poderia ficar com voc e tornar-me 
um mamuti, se fosse esse o seu desejo. Sei que eles lhe deram um lar e que estava feliz. No  tarde demais, podemos ainda voltar sobre os nossos passos.
     No. Fico triste por estar partindo, mas no infeliz. Quero ficar com voc.  o que sempre quis. Desde o princpio. Mas sei que voc quer ir para casa desde 
que o conheo. Voc poderia acostumar-se a viver aqui, mas no estaria jamais contente. Sentiria falta da sua gente, da sua famlia daqueles para os quais nasceu. 
Coisas que para mim no tm a mesma importncia. Jamais saberei para quem nasci. O Cl era meu povo.
    Os pensamentos de Ayla se voltaram para dentro, e Jondalar viu que um sorriso lhe adoava a fisionomia.
     Iza teria ficado feliz por mim sabendo que eu ia embora com voc. Ela teria gostado de voc. Ela me disse muito antes disso tudo que eu no fazia parte do 
Cl, embora no pudesse lembrar-me de qualquer pessoa ou qualquer coisa anterior a eles. Iza temia por mim. Pouco antes de morrer, me disse: "Encontre sua prpria 
gente, seu prprio homem." No um homem do Cl, um homem como eu. Algum que eu pudesse amar, que tomasse conta de mim. Mas vivi por tanto tempo sozinha no vale 
que no achei que fosse encontrar ningum. E ento voc surgiu. Iza tinha razo. Por difcil que tenha sido partir, eu tinha de encontrar minha gente. No fosse 
por Durc, e eu at poderia agradecer a Broud por me ter forado a sair. Eu jamais encontraria um homem para me amar se tivesse ficado no Cl. Ou algum de quem gostasse 
tanto.
     Ns no somos muito diferentes um do outro, Ayla. Eu tambm no achava que encontraria algum para amar, embora tivesse conhecido muitas mulheres entre os 
Zelandonii e tenhamos conhecido muitas mais na nossa Jornada. Thonolan fazia amigos com facilidade, mesmo entre estranhos, e isso me facilitava as coisas.  Jondalar 
fechou os olhos, angustiado, por um momento, como se quisesse escapar  memria, e uma grande tristeza se estampou no seu semblante. A dor era ainda muito viva. 
Ayla podia ver isso sempre que ele falava do irmo.
    Ela olhou Jondalar, seu corpo musculoso, excepcionalmente alto, os longos cabelos louros e lisos amarrados com uma correia na nuca, os traos finos e bem-feitos. 
Depois de t-lo visto em ao na Reunio de Vero duvidava que ele precisasse do irmo para fazer amigos, principalmente entre as mulheres, e ela sabia por qu. 
Mais ainda que o seu porte ou a beleza do seu rosto, eram os olhos, seus olhos incrivelmente vibrantes expressivos, que pareciam revelar o ntimo desse homem to 
fechado, que lhe davam um apelo magntico e uma presena que era quase irresistvel.
    Da mesma forma como ele a encarava agora, os olhos cheios de ardor e desejo. Podia sentir seu corpo responder ao simples contato do olhar dele. Pensou na fmea 
castanha, que recusava todos os machos,  espera do grande macho cor de ferrugem que viria e, depois, no querendo esperar mais. Havia prazer tambm em prolongar 
a antecipao.
    Ayla gostava de contempl-lo, de encher seus olhos com ele. Julgara-o belo desde que o vira, embora no tivesse termos de comparao. Depois percebera que outras 
mulheres tambm gostavam de v-lo, consideravam no atraente, de maneira especial, avassaladora. Essa beleza dele dava a Jondalar pelo menos tanto sofrimento quanto 
prazer. Representar uma qualidade com a qual ele no tinha nada a ver no lhe dava a satisfao de sentir-se realizado. Aqueles eram dons gratuitos da Me, no o 
resultado de seus prprios esforos.
    Mas a Grande Me Terra no se detivera nas simples aparncias externas. Ela o dotara de uma inteligncia muito viva, que tendia mais para a sensibilidade e a 
compreenso dos aspectos fsicos do seu mundo, e de uma natural destreza. Treinado pelo homem com quem sua me vivia quando ele nasceu, e que era, reconhecidamente, 
o melhor no seu campo, Jondalar era um hbil fabricante de ferramentas de pedra, que aperfeioara seu ofcio na Jornada, aprendendo as tcnicas de outros britadores.
    Para Ayla, porm, ele era belo no s por ser atraente segundo os padres do seu povo, mas por ter sido a primeira pessoa que vira que se parecia com ela mesma. 
Era um homem dos Outros, no do Cl. Quando aparecera no vale, ela estudara seu rosto minuciosamente, se no de maneira bvia, inclusive quando ele dormia. Era to 
maravilhoso ver uma face com o aspecto familiar da sua prpria face depois de tantos anos de ser a nica diferente, sem os pesados sobrolhos e a fronte fugidia dos 
demais; sem aquele nariz grande, de cavalete alto, numa face pontuada, em que a mandbula no tinha queixo.
    Como a fronte dela, a de Jondalar se erguia lisa e reta sem protuberncia acima dos olhos. O nariz e, at, os dentes eram pequenos em comparao, e ele tinha 
debaixo da boca um volume ossudo, um queixo, como seu. Depois de v-lo, ela compreendeu por que o Cl estranhava o seu rosto achatado, a testa vertical. Ayla vira 
seu prprio reflexo na gua e sabia que eles tinham razo quando lhe diziam isso. A despeito do fato de que Jondalar era mais alto do que ela, como os outros a achavam 
mais alta que eles; a despeito de ter ouvido de outros homens que era bonita no fundo Ayla ainda se achava alta demais, e feia.
    Mas por ser Jondalar um macho, com traos fortes e ngulos mais pronunciados, ele se parecia com os do Cl mais do que ela. Aquele era  o povo com que ela crescera, 
eram o padro de que dispunha, e ela os achava bonitos. Jondalar, com um rosto parecido com o seu, porm, assim mesmo, mais parecido com os rostos do Cl que o seu, 
era belo.
    A fronte alta de Jondalar alisou-se e ele sorriu.
     Fico feliz se voc acha que Iza teria gostado de mim. Quisera ter conhecido essa sua Iza, e o resto do seu Cl. Mas tinha de conhecer voc primeiro ou no 
entenderia que eles fossem gente e que eu pudesse tratar com eles. Ouvindo-a, vejo que so boa gente e gostaria de conhec-los, algum dia.
     Muita gente  boa. O Cl me acolheu depois do terremoto, quando eu era pequena. E quando Broud me expulsou do Cl, fiquei sem ningum. Era Ayla Sem-Famlia 
at que o Acampamento do Leo me aceitou, me deu o sentimento de pertencer a algum lugar, e fez de mim Ayla dos Mamuti.
     Os Mamuti e os Zelandonii no so muito diferentes. Acho que voc vai gostar do meu povo e que eles vo gostar de voc.
     Nem sempre voc esteve certo disso  disse Ayla.  Lembro-me de que voc achava que eles no me iam querer, por ter crescido com o Cl, e por causa de Durc.
    Jondalar ficou constrangido.
     Eles vo dizer que meu filho  uma abominao, uma criana nascida de uma mistura de espritos, em parte animal... voc mesmo disse isso dele, uma vez. E porque 
fui eu que o pari, vo pensar ainda pior de mim.
            Ayla, antes de sairmos da Reunio de Vero voc me fez prometer que eu lhe diria sempre a verdade e no guardaria nada para mim. A verdade  que eu 
me preocupava no comeo. Queria que viesse comigo, mas no queria que voc ficasse falando de si prpria com as pessoas. Queria que escondesse a sua infncia, que 
mentisse, embora eu odeie a mentira... e voc no saiba mentir. Tive medo de que eles a rejeitassem. Sei como  doloroso e no queria que voc sofresse com isso. 
Mas estava com medo por mim tambm. Temia que me repudiassem por ter trazido voc, no queria passar por todas essas coisas outra vez. Mas, por outro lado, no podia 
imaginar viver sem voc. No sabia o que fazer.
    Ayla se lembrava muito bem da confuso e desespero que sentira vendo a indeciso dele. Por feliz que tivesse sido com os Mamuti, foi tambm terrivelmente infeliz 
por causa de Jondalar.
     Agora eu sei, embora quase tivesse perdido voc para descobri-lo. Ningum  mais importante para mim do que voc, Ayla. Quero que seja voc mesma, que diga 
ou faa o que achar melhor, porque  isso que amo em voc, e acredito agora que a maior parte das pessoas ir receb- la bem. J vi isso. Aprendi algo da maior relevncia 
com o Acampamento do Leo e os Mamuti. Nem todos pensam da mesma maneira, e as opinies podem ser mudadas. Algumas pessoas tomaro o seu partido, as vezes as que 
a gente menos esperaria que o fizessem, e algumas tero compaixo necessria, e o amor, para criar uma criana que outros chamariam uma abominao.
     No gostei da maneira como trataram Rydag na Reunio de Vero  Alguns nem queriam dar-lhe um enterro decente.
    Jondalar sentiu a clera na voz dela, mas podia ver lgrimas por trs da clera.
     Tambm no gostei. Tem gente que no muda nunca. No querem abrir os olhos e ver o que est patente. Para mim mesmo, levou tempo. Posso prometer-lhe que os 
Zelandonii a aceitaro, Ayla, mas se no aceitarem, procuraremos outro lugar para viver. Quero voltar sim, quero voltar para meu povo, rever minha famlia, meus 
amigos. Quero contar para minha me sobre Thonolan, pedir aos Zelandonii que procurem seu esprito, caso ele no tenha encontrado ainda seu caminho no outro mundo. 
Espero que nos ajustemos l. Mas j no importa para mim se isso no acontecer. Essa foi outra coisa que aprendi. Foi por isso que lhe disse que estava disposto 
a ficar aqui com voc, se o desejasse. Fui sincero.
    Ele a segurava, tinha as mos nos ombros dela, e olhava dentro dos olhos de Ayla com uma feroz determinao. Queria ter certeza de que a companheira compreendia. 
Sentia essa convico, sentia o amor dele. Mas agora no estava segura se devia mesmo ter sado.
            Se o seu povo no nos aceitar, para onde iremos?
    Ele sorriu.
            Encontraremos outro lugar, Ayla, se for preciso. Mas no acredito que isso acontea. Eu j lhe disse, os Zelandonii no so muito diferentes dos Mamuti. 
Eles vo amar voc como eu a amo. J no me preocupo com isso. Nem sei bem se estive mesmo preocupado com isso algum dia.
    Ayla sorriu para ele, contente com aquela certeza. Queria poder sentir a mesma coisa. Talvez ele tivesse esquecido ou talvez no tivesse percebido que forte 
impresso causara nela, forte e duradoura, sua primeira reao ao saber do filho dela e dos seus antecedentes. Ele havia recuado e olhado para ela com tal repulsa 
que ela no podia deixar de lembrar-se Era como se ela fora alguma hiena suja e repelente.
    Quando recomearam a viagem, Ayla ainda pensava no que estaria a sua espera no fim da Jornada. Era verdade que as pessoas mudavam. Jondalar mudara completamente. 
Sabia que j no havia nele nem um pouco daquela averso inicial, mas e as pessoas que haviam incutido nele essa espcie de sentimento? Se sua reao fora to forte 
e imediata, o povo que o criara era responsvel por isso. Por que reagiriam de maneira diferente ao v-la? Por mais que quisesse ficar com Jondalar, por feliz que 
estivesse por ele querer lev-la, no estava ansiosa para encontrar os Zelandonii.

4
___________________________________________________________________________

    Permaneceram junto do rio. Jondalar estava quase certo de que o curso da corrente virava agora para leste, mas temia que aquilo fosse apenas um meandro dos muitos 
do seu longo curso. Mas se o rio mudava mesmo de direo, aquele seria o momento de abandon-lo  e a segurana de acompanhar uma rota definida  para seguir em 
campo aberto e ele queria estar seguro de que iam no caminho certo.
    Havia muitos lugares em que podiam pernoitar, mas, sempre consultando  mapa, Jondalar procurava um stio indicado por Talut. Era o ponto de referncia de que 
precisava para verificar se estavam no rumo certo O lugar era usado com alguma regularidade, e ele esperava que estivesse, como pensava, nas imediaes, mas o mapa 
mostrava apenas direes gerais e era impreciso, na melhor das hipteses. Fora gravado s carreias numa placa de marfim como um suplemento s indicaes que lhe 
tinham fornecido, e no pretendia ser, de modo algum, uma representao acurada do itinerrio.
    Quando a barranca continuou a subir e a empurr-los para trs, os dois continuaram nela, pelo maior descortino que tinham, embora estivessem agora se afastando 
do rio. L embaixo, junto da gua, um lago formado na curva do rio com a destruio do meandro e sua retificao j secava e se tornava em charco. Havia comeado 
como uma laada, pois que O rio, jovem, ia e vinha, serpenteante, como toda gua que corre faz, que corta campo aberto. A laada acabou por fechar sobre si mesma 
e formou um lago de pequenas dimenses, que ficou isolado quando o rio seguiu seu curso. Sem fonte de gua que o alimentasse, comeou a secar. A terra baixa e abrigada 
era agora um prado mido em que vicejavam canios e taboas, com plantas aquticas nas reas mais fundas. Com o tempo, o terreno pantanoso se converteria numa campina 
verdejante, com o solo enriquecido por esse estdio lacustre.
    Jondalar por pouco no apanhava uma lana ao ver que um grande alce saa da cobertura vegetal mais espessa do fim do lago e patinhava no alagadio, mas o animal 
estava fora do seu alcance, mesmo se lhe lanasse a lana, e seria difcil recuper-lo depois de engolido pelo lodaal. Ayla ficou olhando o desajeitado animal, 
com seu focinho dependurado e grandes chifres achatados imaturos. Ele erguia as largas patas, que o impediam de afundar no pntano, enfiando as pernas na vasa at 
a gua lhe chegar aos flancos. Ento enfiou a cabea e retirou-a com lentilhas-dgua e bistorta-d'gua. As aves aquticas que viviam entre canios ignoraram a sua 
presena.
    Para alm do charco, encostas com boa drenagem, sulcos e ribanceiras a pique ofereciam reentrncias protegidas para plantas como o quenopdio, com seus ps de 
ganso, a urtiga, e verdadeiras almofadas de alsina, cabeludas, com pequenas flores brancas. Ayla preparou a sua funda e atirou algumas pedras redondas de uma bolsa. 
No fim do seu vale de outrora havia um stio como aquele em que muitas vezes vira  e caara  os esquilos excepcionalmente grandes da estepe. Um ou dois bastavam 
para uma boa refeio.
    Aquele terreno acidentado, abrindo para campos abertos de relva, era para eles um habitat  ideal. As ricas sementes das pastagens vizinhas,armazenadas com toda 
a segurana em esconderijos onde os esquilos hibernavam, sustentavam-nos na primavera quando era tempo de procriar de modo que quando as novas plantas comeavam 
a surgir eles davam cria. Os alimentos ricos em protenas eram essenciais ao desenvolvimento dos filhotes  para que alcanassem a maturidade antes do inverno. Mas 
nenhum desses animaizinhos apareceu enquanto os dois passavam, e Lobo no se mostrou disposto a desentoc-lo, ou no soube faz-lo.
    Quando continuaram para o sul, a grande plataforma de granito abaixo da plancie que se estendia sem qualquer limite visvel para leste comeou a ceder lugar 
a colinas onduladas. Um dia, havia muito tempo, a terra por onde andavam fora toda coberta de montanhas, hoje erodidas. Seus testemunhos eram um renitente escudo 
rochoso que resistira s tremendas presses que enrugavam a crosta e criavam montanhas e s foras gneas capazes de sacudir a superfcie e torn-la instvel. Rochas 
novas haviam-se formado por cima do macio fundamental, mas, aqui e ali, afloramentos do relevo original perfuravam as camadas sedimentares.
    No tempo em que os mamutes pastavam na estepe, os capins e a vegetao, como os animais daquela terra antiga, floresciam no s em grande abundncia, mas com 
uma surpreendente variedade e em associaes inesperadas. Ao contrrio de prados mais recentes, aquelas estepes no estavam organizadas em largas faixas de limitadas 
espcies de vegetao, determinadas pela temperatura e pelo clima. Formavam, em vez disso um complexo mosaico, com uma rica diversidade de plantas, que incluam 
muitos tipos de capins e prolficas ervas e arbustos.
    Um vale bem irrigado, um planalto, uma pequena elevao ou uma depresso ligeira, cada uma dessas formas convidava sua vegetao especfica, que crescia ao lado 
de vegetao completamente diversa. Um talude voltado para o sul podia abrigar plantas de clima quente, em contraste com a cobertura vegetal adaptada ao frio boreal 
da face norte da mesma elevao.
    O solo do plat que Ayla e Jondalar atravessavam era pobre, e o mato que o cobria, fino e curto. O vento cavara sulcos profundos, e no vale elevado de uma velha 
torrente afluente do rio, o leito estava agora seco e, por falta de vegetao, apresentava at dunas de areia.
    Embora mais tarde isso s se encontrasse em altas montanhas, naquele terreno spero, no longe dos rios de plancie, embaixo, ratos - calungas e lagmios cortavam 
capim com grande diligncia para seca  lo e armazen-lo em seguida. Em vez de hibernarem no inverno, eles construam tneis e ninhos debaixo da neve acumulada nas 
cavidades e sulcos e na face das rochas voltada para sotavento, e viviam da forragem que tinham guardado. Lobo viu os roedores e saiu atrs deles. Mas Ayla no se 
importou em ca-los com a funda. Eram pequenos demais para servir como refeio, exceto em grande nmero.
    Ervas rticas, que prosperavam nas terras setentrionais alagadas, terras de charcos e pntanos, beneficiavam-se na primavera da umidade adicional da neve que 
derretia e cresciam, em associao incomum, ao lado de alpinos resistentes mas robustos em elevaes descobertas e colunas varridas pela ventania. O cinco-em-rama, 
com pequenas flores amarelas, encontrava proteo nas mesmas dobras protegidas do terreno e nas mesma covas preferidas pelos lagmios. J nas superfcies expostas, 
camadas de candelrias com flores rosa ou prpura formavam suas prprias redes de proteo de talos folgudos contra os ventos frios que tudo secavam. Ao lado deles, 
ervas-bentas da montanha agarravam-se s salincias rochosas ou s rugosidades das terras mais baixas, exatamente como faziam os flancos das montanhas. Sua ramagem 
baixa, sempre verde, de folhas pequenas e solitrias flores amarelas, havia formado, no curso dos anos, densas alfombras espalhadas.
    Ayla notou o perfume do pega-mosca, comeando a abrir seus botes cor-de-rosa. Percebeu ento que j estava ficando tarde, e conferiu o sol que de fato baixava 
para oeste. As flores grudentas do pega-mosca abrem  noite, oferecendo refgio aos insetos  mariposas e moscas  em trocada difuso do plen. Tinham pouco valor 
alimentcio ou medicinal mas as flores cheirosas a deliciavam e, por um momento fugaz, pensou em colher algumas. Mas j anoitecia, e Ayla no queria parar. Tinham 
de acampar logo, pensava, principalmente se fosse preparar a refeio que tinha em mente antes de escurecer.
    Viu pulsatilas azul-prpura, eretas e belas, saindo, cada uma, de uma roseta de folhas cobertas de finos cabelos e, espontneas, as associaes mdicas lhe vieram 
 mente  a planta, seca, era boa para dor de cabea e clicas menstruais , mas gostava das pulsatilas tanto pela formosura quanto pela utilidade. Quando avistou 
steres alpinas, de longas, finas ptalas amarelas e violeta saindo de rostas de folhas sedosas e peludas, sua vaga noo se tornou tentao consciente de colher 
algumas e tambm outras flores, sem outro motivo que o prazer de t-las consigo. Mas onde bot-las? Iriam logo murchar, pensou.
    Jondalar comeava a pensar se haviam passado inadvertidamente pelo stio de acampamento marcado no mapa ou se estavam mais longe dele do que imaginara. Chegava, 
relutantemente,  concluso que teriam de acampar logo, ali mesmo, e procurar pelo outro lugar no dia seguinte. Com isso, e a necessidade de caar, perderia, com 
toda a probabilidade, outro dia inteiro, e no podiam perder tantos dias. Estava ainda imerso nesses pensamentos, refletindo se teria tomado a deciso correta continuando 
para o sul, e imaginando as srias consequncias que adviriam de um erro de clculo, que no deu ateno a um tumulto numa colina que que ficava  direita deles. 
Notou, apenas, que pareciam ser hienas que tivessem apanhado alguma presa.
    Embora fossem, as mais das vezes, carniceiras, e se satisfizessem, sabidamente, quando famintas, com as mais imundas carcaas, as grandes hienas, com suas mandbulas 
capazes de moer qualquer osso, eram tambm temveis caadoras. Tinham derrubado um bisonte jovem, e ainda no desenvolvido. Sua falta de experincia com a maneira 
de ser dos predadores fora a sua desgraa. Outros poucos bisontes permaneciam por perto, aparentemente a salvo, agora que um deles havia sucumbido, e um deles berrava, 
aflito com o cheiro do sangue fresco.
    Ao contrrio dos mamutes e dos cavalos da estepe, que no eram excepcionalmente grandes para a sua espcie, os bisontes eram gigantescos. O mais prximo tinha 
cerca de dois metros de altura, medido a partir da espdua, e peito e ombros muito fortes, embora seus flancos fossem quase graciosos. Os cascos eram pequenos, apropriados 
para correr velozmente em solo duro e seco, e o bisonte evitava alagadios em que, pudesse atolar. A cabea macia era protegida por longos chifres pretos de dois 
metros de envergadura, que se curvavam para fora e, depois, para cima. A pelagem era marrom-escura e pesada, sobretudo no peito e nos ombros. Os bisontes costumavam 
fazer face a ventos frios e eram bem protegidos na frente, onde os plos caam numa franja cerrada de cerca de um metro de comprimento e at a cauda curta era bem 
guarnecida de plo.
    Embora fossem herbvoros, nem todos comiam exatamente as mesmas coisas. Tinham diferentes aparelhos digestivos ou hbitos alimentares diversos e faziam sutis 
adaptaes na dieta. Os talos altamente fibrosos que alimentavam cavalos e mamutes no bastavam para bisontes e outros ruminantes. Precisavam de capins e folhas 
ricas em protenas. E ou bisontes preferiam a vegetao rasteira, mais nutritiva, das regies secas S se aventuravam entre as vegetaes mdias e altas da estepe 
na primavera, principalmente, quando por toda parte havia pasto novo. Nessa poca do ano ocorre o crescimento dos ossos e chifres dos bisontes. A primavera prolongada, 
chuvosa e verde dos pastos periglaciais d aos bisontes, e a diversos outros animais, uma longa estao de desenvolvimento que explica suas grandes propores.
    Sombrio e introspectivo como estava, Jondalar levou algum tempo para tirar concluses da cena na colina. Quando o fez e apanhou o seu arremessador de lana e 
uma lana, para tentar derrubar um bisonte como as hienas tinham feito, Ayla j avaliara a situao mas se decidira por outro curso de ao.
            Vo embora! Vo embora daqui, bichos nojentos! Fora!  gritava, galopando, com Huiin, para as hienas e arremessando-lhes pedras com a funda. Lobo corria 
emparelhado com ela, satisfeito, rosnando e soltando latidos de filhote na direo do bando que batia em retirada.
    Uivos de dor mostravam que as pedras de Ayla tinham alcanado o alvo, embora ela tivesse atirado com cuidado evitando as partes vitais. Se pretendesse, suas 
pedras poderiam ser fatais. No seria a primeira vez que mataria uma hiena, mas sua inteno no era essa.
            O que est fazendo, Ayla?  perguntou Jondalar, indo ao seu encontro.
    Ayla estava junto do bisonte que as hienas haviam matado.
            Estou expulsando essas hienas nojentas  disse, embora aquilo fosse bvio.
     Por qu?
     Para que elas dividam conosco esta presa  respondeu ela.
     Pois eu j me preparava para ir no encalo de um dos que estavam por.
     No precisamos de um bisonte inteiro, a no ser que pretendamos defumar a carne. Este biso aqui  jovem e tenro. Os que estavam por perto eram, todos,  velhos 
e duros  disse ela, apeando para afastar Lobo do animal derrubado.
    Jondalar olhou na direo dos bisontes gigantes que tinham fugido diante de Ayla e depois observou o bisonte jovem, cado.
     Voc est certa. Era uma manada de machos, e esse a provavelmente deixou a manada da me recentemente para juntar-se a esta. Tinha ainda muito que aprender.
     Foi morto h pouco  disse Ayla, depois de examin-lo.  As hienas abriram-Ihe a garganta, o ventre, e tambm os flancos. Vamos tirar o Que nos interessa e 
deixar o resto para elas. No precisamos perder tempo caando. Eles so velozes, e j devem estar longe. Acho que perto do rio tem um lugar que serve para acamparmos. 
Se for o stio que estamos procurando, ainda temos tempo de preparar alguma coisa saborosa com o que colhemos pelo caminho mais esta carne.
    Ela j estava abrindo a pele, cortando para cima a partir da barriga, e Jondalar ainda digeria o que ela dissera. Tudo acontecera depressa, mas de sbito toda 
a sua preocupao com a possibilidade de perderem um dia por terem de caar e em busca do lugar para acampar desaparecera.
     Voc  maravilhosa, Ayla!  disse, sorrindo e desmontando. Tirou, em seguida, uma faca afiada de slex que fora adaptada a um cabo de marfim da bainha de couro 
presa ao seu cinto e foi ajudar a cortar os pedaos de carne que queriam.
      disso que gosto em voc. Est sempre cheia de surpresas, que acabam sendo ideias brilhantes. Vamos levar a lngua tambm.  pena que as hienas j tenham 
comido o fgado, mas, afinal, foram elas que o abateram.
     No me importo se foram elas  disse Ayla.  Vamos aproveitar que a carne est fresca. Hienas j me tiraram o bastante. So animais horrveis. Por que no 
tirar alguma coisa deles? Odeio hienas!
     Odeia mesmo, no ? Nunca a ouvi falar assim de outros animais, nem mesmo de carcajus, que tambm gostam de carnia, so mais cruis, as  vezes, que hienas, 
e chegam a feder mais.
    A matilha no se fora, vinha rosnando na direo do bisonte com que pretendia banquetear-se. Ayla lanou-lhes algumas pedras. Uma das hienas gritou e  as demais 
deram risadas que lhe arrepiaram a pele. Quando resolveram enfrentar  a funda outra vez, Ayla e Jondalar j haviam tirado o suficiente.
    Foram em frente, descendo por um sulco at o rio. Ayla ia  frente, depois de ter deixado o que restara da carcaa entregue s feras e seus rosnados. Elas haviam, 
de fato, retornado e recomeado a dilacerar o bisonte.
    Os sinais que eles tinham avistado no eram do prprio campo, mas de um marco  um monte de pedras  que mostrava o caminho. NO interior da pilha de pedras havia 
raes secas, de emergncia, algumas ferramentas, material para fazer fogo, como isca seca, e um agasalho de pele, muito duro, e do qual escapavam mechas de plo. 
Podia ainda oferecer abrigo contra o frio, mas devia ser substitudo. No alto do marco, firmemente ancorado por grandes pedras, estava uma presa quebrada de mamute 
com a ponta voltada para um grande mataco parcialmente submerso no rio. Nela via-se pintada em vermelho uma forma de losango com um ngulo em V  direita, repetido 
duas vezes de modo a formar um chevron que apontava rio abaixo.
    Depois de porem tudo de volta, exatamente como o tinham encontrado, acompanharam o curso do rio at chegarem a um segundo marco com uma pequena presa de marfim 
que apontava para uma agradvel clareira, recuada do rio, e cardada de btulas, amieiros e pinheiros. De la podiam avistar um terceiro marco: junto dele havia uma 
nascente de gua pura e cristalina. L havia, de novo, raes de emergncia e ferramentas escondidas nas pedras e um grande couro, tambm rijo, mas ainda utilizvel 
como barraca alpendre de meia-gua. Atrs do marco, perto de um crculo de pedras que marca os contornos de um fosso raso, preto de carvo, havia uma pilha de lenha 
 galhos cados e gravetos  que algum reunira ali.
      bom saber da existncia de um lugar como este  disse Jondalar.  Alegra-me que no tenhamos de usar nada disso, mas se eu vivesse na regio e precisasse 
dessas coisas seria um alvio saber que elas esto ai.
      uma boa ideia  disse Ayla, admirada com a previdncia daqueles que haviam planejado e instalado o acampamento.
    Logo retiraram as cestas e as cordas dos cavalos, enrolando-as e as pesadas correias, para que os animais ficassem livres para descansar e pastar. Sorrindo, 
viram que Racer imediatamente correu para a relva e se espojou nela, como se tivesse uma coceira nas costas que no pudesse esperar.
            Tambm estou com muito calor e meu corpo comicha  disse Ayla, tirando as sandlias e chutando-as para longe. Afrouxou, depois o cinto que tinha uma 
bainha com faca e pequenos bolsos, tirou do pescoo um colar de contas de marfim de que pendia uma bolsinha decorada, tirou a tnica e as perneiras, e correu para 
a gua. Lobo acompanhou-a aos saltos.
            Voc vem?
            Daqui a pouco  disse Jondalar.  Vou apanhar lenha primeiro para no me sujar depois do banho.
    Ayla voltou logo, vestiu a tnica que usava  noite, mas ps o colar e o cinto de volta. Jondalar desempacotara a bagagem, e ela o ajudou a arrumar o acampamento. 
J haviam criado uma rotina de trabalho em comum que dispensava maiores confabulaes. Armaram juntos a barraca, estendendo o pano oval para forrar o solo, fincando 
em seguida os tarugos de madeira na terra para esticarem a coberta de couro, feita de vrias peles de animais costuradas umas s outras. Essa tenda cnica era arredondada 
e tinha uma abertura no topo para deixar sair a fumaa se precisassem acender fogo, coisa que raramente faziam, e um tapume com o qual fechar a abertura, se fizesse 
frio.
    Ataram cordas em torno da tenda e junto do solo. No caso de fortes ventanias, podiam usar ainda outras cordas, e o tapume da entrada tambm podia ser fixado 
com toda segurana. Traziam com eles outra cobertura com a qual fazer uma tenda dupla, mais bem insulada, mas raras vezes precisaram us-la. Estenderam no cho as 
peles em que dormiam, de comprido no oval, o que deixava de um lado e de outro um espao exguo, apenas suficientes para as cestas da bagagem e outros pertences. 
Lobo se acomodava aos ps deles se o tempo era inclemente. No incio dormiam separados, mas logo juntaram as peles para que pudessem dormir juntos. Uma vez armada 
a tenda, Jondalar foi catar mais lenha, para substituir a que usassem, e Ayla comeou a preparar a comida.
    Embora Ayla soubesse como acender fogo com o material encontrado, esfregando a longa vara entre as palmas das mos contra a plataforma chata, de madeira, at 
conseguir uma brasa que pudesse soprar, ela tinha sua prpria caixinha de ferramentas, que era diferente de todas. Quando vivia sozinha no vale, fizera uma descoberta 
acidental. Apanhara uma pedra de pirita de ferro entre as pedras da borda do riacho para substituir a pedra que usava como martelo para fazer novas ferramentas de 
slex. J havia feito fogo muitas vezes, e logo percebeu as implicaes da frico da pirita e do slex quando uma fagulha mais prolongada lhe queimou a perna.
    Teve de fazer diversas experincias antes de saber como usar a pederneira. Agora era capaz de acender fogo mais depressa do que se poderia imaginar fosse possvel 
com aquele material. Jondalar mal acreditou nos prprios olhos ao ver o prodgio pela primeira vez. Aquela maravilha contribura para sua aceitao pelo Acampamento 
do Leo quando Talut a adotara. Todos haviam pensado que ela fizera fogo por artes mgicas.
    Ayla tambm acreditava na magia da coisa, mas achava que era devida  pedra refrataria e no a ela. Antes de deixarem seu vale, ela e Jondalar tinham recolhido 
o maior nmero possvel daquelas pedras de um amarelo acinzentado, por no saberem se encontrariam coisa igual em outros lugares. Deram algumas ao pessoal do Acampamento 
do Leo e a outros Mamuti, mas ainda tinham muitas. Jondalar queria partilhar a descoberta com seu povo. A possibilidade de fazer fogo rapidamente podia ser bastante 
til em diversas circunstncias.
    Dentro do crculo de pedras, a moa reuniu uma pequena pilha de cascas de rvore e colocou junto dela outra pilha de gravetos para avivar o fogo. Perto havia 
galhos secos da pilha do acampamento. Trabalhando bem junto das cascas de rvore, Ayla segurou uma pedra de pirita num ngulo que sabia por experincia ser o melhor, 
depois bateu a pedra mgica, amarela, no meio de um sulco que se estava formando com a sua manipulao, contra uma lasca de slex. Logo uma fagulha grande, brilhante 
pulou da pedra para a casca, mandando um fio de fumaa para o ar. Ayla ps a mo, depressa, em torno dela, e soprou de leve, um pequeno carvo  brilhou com uma luz 
vermelha e soltou minsculas fagulhas, brilhante, e douradas como o sol. Um segundo sopro resultou numa pequenina chama. Ayla reuniu gravetos e, quando o fogo pegou, 
um galho seco.
    Quando Jondalar regressou, Ayla j havia colocado diversas pedra chatas e arredondadas recolhidas da beira do rio aquecendo no fogo e um bom pedao de bisonte 
no espeto. A camada externa de gordura j chiava. Ela havia lavado e agora cortava razes de taboas e outro tubrculo amilceo e branco, de casca marrom-escuro, 
chamado noz-da-terra preparando-se para bot-los numa cesta bem tranada com gua pela metade, e na qual estava de molho e  espera a gorda e saborosa lngua. Ao
lado dela empilhavam-se cenouras silvestres, inteiras.
    Jondalar colocou a lenha perto do fogo.
            J est com um cheiro timo. O que voc est fazendo, Ayla
            Estou assando o bisonte, mais para a viagem.  fcil comer fatias de carne fria durante a viagem. Para esta noite e para amanh cedo estou fazendo uma 
sopa com a lngua e verduras. Temos tambm um pouco do que trouxemos do Acampamento do Capim Estipa.
    Com um pauzinho, ela tirou uma pedra quente do fogo e varreu as cinzas com um galho folhudo. Depois, apanhando outro pau e usando os dois como uma tenaz, ela 
ergueu a pedra e deixou-a cair na cesta onde a lngua estava de molho. A pedra ferveu, soltou fumaa e comunicou seu calor  gua. Logo ela ps mais pedras na cesta, 
acrescentou alguma folhas que havia colhido, e tampou o recipiente.
            O que voc ps na sopa?
    Ayla sorriu consigo mesma. Ele estava sempre querendo saber por menores da sua comida, inclusive os nomes das ervas que usava para fazer chs. Aquele era mais 
um dos traos que lhe causavam surpresa em Jondalar: no passaria pela cabea de nenhum outro homem do Cl mostrar tanto interesse, mesmo que estivesse to curioso, 
por coisas que eram exclusivas das mulheres.
            Alm dessas razes, vou acrescentar as pontas verdes das tbuas os bulbos, folhas, e flores dessas cebolas verdes, rodelas dos talos de cardos descascados, 
ervilhas de aspargos, e um pouco de slvia e tomilho como tempero. Talvez ponha tambm um pouco de unha-de-cavalo, pelo seu gosto salgado. Se vamos passar pelo Mar 
de Beran, talvez possamos conseguir mais sal.
    "Nunca faltou, quando eu vivia com o Cl. Acho que vou esmagar um pouco do rbano picante que encontrei esta manh, para comermos com o assado. Aprendi isso 
na Reunio de Vero. Arde, e a gente usa s um pouco, mas d um sabor interessante  comida. Quem sabe voc gosta?
            E as folhas, para que servem?  perguntou Jondalar, indicando um amarrado, que ela colhera mas no mencionara. Gostava de saber que usava e o que pensava 
sobre comida. Gostava do que Ayla preparava mas reconhecia que o tempero dela era incomum. Havia fragrncias e sabores verdadeiramente nicos, diferentes dos que 
conhecia desde meninos.
     Aquilo ali  quenopdio, para enrolar o assado quando eu for guard-lo. Vo muito bem juntos, quando frios.  Ayla fez uma pausa e careceu pensativa.  Talvez 
eu polvilhe um pouco de cinza de madeira no assado. A cinza  um pouquinho salgada tambm. E posso pr um pedao do assado na sopa depois que ele pegar cor, para 
melhorar o gosto Com a lngua e a carne assada, teremos um bom caldo. Para amanh de manh, podemos cozinhar alguns dos gros que trouxemos conosco. Haver sobra 
da lngua, naturalmente, mas posso envolv-la em capim seco e guardar na minha cesta de carne para depois. Tenho lugar, at, para o resto da nossa carne crua, inclusive 
o pedao que separamos para Lobo. Enquanto fizer frio de noite, ela conserva bem.
            Parece apetitoso. Mal posso esperar  disse Jondalar, sorrindo com antecipao, e mais alguma coisa, pensou Ayla.  Voc tem alguma cesta extra que 
eu possa utilizar?
     Sim, mas para qu?
     Eu lhe digo na volta  disse ele, sorrindo com o segredo.
    Ayla virou o assado, mexeu nas pedras, e ps mais algumas, quentes, na sopa. Enquanto a comida cozinhava, ela separou entre as ervas que tinha colhido as que 
se destinavam a Lobo, como repelentes, e a que colhera para seu prprio uso. Esmagou um pouco da raiz-forte, como dissera a Jondalar que ia fazer, para o jantar. 
Depois, comeou a esmagar o resto junto com as folhas pisadas de muitas plantas de cheiro forte que havia encontrado naquela manh, procurando conseguir a mais meftica 
combinao possvel. O rbano picante seria muito eficaz, mas o forte cheiro de cnfora da artemsia ajudaria.
    Mas era a planta que pusera de lado que ocupava os seus pensamentos.  bom que eu a tenha encontrado, pensava. Sei que no tenho estoque suficiente dela, talvez 
s d para o meu ch de amanh, mas hei de encontrar outros ps pelo caminho. O que no posso  ter um filho durante a viagem, e o risco  grande, estando tanto 
tempo junto com Jondalar. E, pensando isso, sorriu.
     No h dvida de que  assim que os bebs so concebidos, no importa o que diga o povo sobre espritos. Acho que  por isso que os homens pem os rgos deles 
naquele lugar de onde saem os bebs. E que e por isso que as mulheres querem que eles faam dessa forma. E que a me nos deu Seu Dom do Prazer. O Dom da Vida vem 
dela tambm, e Ela quer que os Seus filhos gostem de fazer novas vidas. Dar  luz no  nada fcil. As mulheres talvez no quisessem parir se a Me no tivesse Posto 
no comeo do processo o Seu Dom do Prazer. bebs so uma coisa maravilhosa, mas a gente no sabe disso at ter um. Ayla tinha cultivado essas noes pouco ortodoxas 
sobre a concepo durante o inverno, quando soube da existncia de Mut, a Grande Me Terra, por Mamute, o velho mestre do Acampamento do Leo, embora a ideia j 
lhe tivesse ocorrido havia muito tempo.
    Mas Broud no me dava prazer, lembrou-se. Eu detestava quando ele me forava, mas tenho certeza de que foi assim que Durc foi feito. Ningum achava que eu poderia 
ter um filho. Pensavam que meu totem do Acampamento do Leo era poderoso demais para que o esprito de um totem de homem o pudesse sobrepujar. Surpreendi a todos. 
Mas isso s aconteceu depois que Broud me obrigou a ficar com ele, e vi depois os traos dele na cara do meu beb. Fora ele, ento, tinha de ser, que fizera Dure 
crescer dentro de mim. Meu totem sabia o quanto eu desejava um filho  talvez a Me tambm soubesse disso. Talvez essa fosse a nica maneira. Mamut disse que sabemos 
que os Prazeres so um Dom da Me por serem eles to fortes.  muito difcil resistir-lhes. Ele disse que  ainda mais difcil para os homens que para as mulheres.
    Fora assim com aquela fmea mamute ruiva. Todos os machos a desejavam, mas ela no quis nenhum deles. Quis esperar pelo seu grande mamute. Seria por isso que 
Broud no me podia deixar em paz? Ele me detestava. Mas seria o Dom do Prazer da Grande Me mais poderoso que seu dio?
    Talvez. Mas no creio que ele fizesse aquilo s pelos Prazeres. Ele podia goz-los com sua mulher ou com outra mulher qualquer que quisesse. Creio que ele sabia 
o quanto eu odiava fazer amor com ele, e isso aumentava o seu Prazer. Broud pde ter comeado um beb em mim - ou talvez meu Leo da Caverna se tivesse deixado derrotar 
por saber o quanto eu desejava um filho , mas Broud s me podia dar seu rgo Ele no me podia dar o Dom dos Prazeres da Me. S Jondalar fez isso.
    Devia haver mais no tal Dom d'Ela que s os Prazeres. Se Ela tivesse querido apenas dar aos Seus Filhos um Dom de Prazer, por que Ela o localizaria logo ali 
naquele lugar de onde os bebs saem? Um stio de Prazeres podia estar em qualquer parte. Os meus no so exatamente onde esto os de Jondalar. O Prazer dele vem 
quando ele est dentro de mim mas o meu est naquele outro lugar. Quando ele me d Prazer l, tudo fica maravilhoso, dentro e por toda parte. Ento, eu desejo sentir 
ele dentro de mim. No gostaria de ter minha sede do Prazer dentro de mim. Quando estou muito sensvel, Jondalar tem de ter muito cuidado, ou pode doer e dar  luz 
di. Se o stio de Prazer da mulher estivesse dentro dela, dar  luz seria ainda mais penoso, e j  difcil assim, como  hoje.
    Como  que Jondalar sabe sempre to bem o que fazer? Ele sabia como me dar Prazeres antes mesmo que eu soubesse que eles existiam Penso que aquele mamute gigante 
tambm sabia como dar Prazeres quela fmea ruiva, to bonita. Acho que ela emitiu aquele som alto e profundo justamente porque ele a fez sentir os Prazeres, e foi 
por isso que toda a famlia dela ficou to feliz. Os pensamentos de Ayla lhe davam uns formigamentos esquisitos e uma espcie de calor. Ela olhou para a rea arborizada 
por onde Jondalar se metera e ficou pensando quando voltaria.
    Mas um beb no comea toda vez que duas pessoas partilham dos Prazeres. Talvez sejam necessrios espritos tambm. Sejam eles espritos totmicos dos homens 
do Cl ou a essncia de um esprito de homem que a Me retira e d a uma mulher, o fato  que a criana comea quando o homem pe seu rgo dentro da mulher e despeja 
sua essncia l. A coisa  essa. A Me d a criana a uma mulher no com espritos, mas com Seu Dom do Prazer. Mas Ela decide que essncia de que homem vai iniciar 
uma nova vida e quando essa nova vida comear.
    Se a Me decide, ento como  que a medicina de Iza impede uma mulher de engravidar? Talvez impea que a essncia do homem ou seu esprito se misturem com os 
da mulher. Iza no sabia por que o remdio funcionava, mas isso acontecia a maior parte das vezes.
    Eu gostaria de deixar que um beb comeasse quando Jondalar partilhasse Prazeres comigo. Quero tanto ter um filho, e que seja parte dele! Sua essncia ou seu 
esprito. Mas ele est certo. Devemos esperar. Foi to difcil para mim ter Dure. Se Iza no tivesse estado l, que teria sido de mim? Preciso ter certeza de que 
haja pessoas em volta que saibam o que fazer para ajudar.
    Vou continuar a tomar o ch de Iza toda manh sem dizer nada. Ela tinha razo. No devo falar tanto sobre bebs tendo origem no rgo do homem. Jondalar ficou 
to nervoso quando mencionei isso que at achou que devamos parar de ter Prazeres. Se no posso ter um beb por enquanto, quero pelo menos ter Prazeres com ele.
    Como aqueles mamutes estavam tendo. Era isso que o mamute gigante estava fazendo? Comeando um beb naquela fmea ruiva. Aquilo foi to maravilhoso, partilhar 
os Prazeres deles com o rebanho. Alegro-me que tenhamos ficado l. O fato de que ela fugisse de todos os outros machos me havia intrigado. No estava interessada 
neles. Queria escolher seu prprio parceiro e no ir com qualquer um que a desejasse. Esperava pelo grande macho cor de mel. E logo que ele surgiu, ela sabia que 
era o que lhe convinha. O certo. E no pde esperar: correu ao encontro dele. J esperara bastante. Sei como se sentia.
    Lobo saltou na clareira, exibindo, todo orgulhoso, um velho osso podre. Colocou-o aos ps de Ayla e olhou para ela, expectante.
     Que horror! Isso est podre e fede! Onde achou esse osso, Lobo? Provavelmente onde algum enterrou restos de acampamento. Talvez seja esta uma boa oportunidade 
para ver o que voc acha de alguma coisa mais forte e ardida.
    Dizendo isso, ela apanhou o osso e passou nele um pouco da mistura que vinha preparando. Depois, lanou-o de volta na clareira.
    O animal correu para ele, mas o cheirou antes de apanh-lo na boca. Tinha ainda o mesmo adorvel odor de carnia, mas havia outro cheiro tambm, duvidoso. Por 
fim, Lobo o pegou. Mas logo o soltou no cho e comeou a bufar e sacudir a cabea. Ayla no se conteve. A cena era to cmica que teve de rir alto. Lobo fungou mais 
uma vez, depois recuou, resfolegando, com ar muito contrariado, e correu para a nascente.
     Ah! Voc no gostou, hein, Lobo? Tanto melhor. No era para gostar mesmo  disse ela, rindo de novo. A gua no ajudou muito. Lobo levantou uma pata e limpou 
o focinho, como se pudesse desse modo  livrar-se do gosto. Estava ainda bufando e sacudindo a cabea quando entrou no mato.
    Jondalar cruzou com ele e quando chegou  clareira encontrou Ayla rindo tanto que tinha lgrimas nos olhos.
            Por que ri tanto?
     Voc precisava ver o Lobo  disse ela, ainda meio sufocada.  Pobre Lobo, estava to orgulhoso do osso podre que achou em algum lugar. No sabia o que acontecera 
e tentou de tudo para tirar o gosto ruim da boca. Se voc acha que  capaz de aguentar o cheiro de raiz-forte e cnfora, Jondalar, creio ter encontrado um jeito 
de manter Lobo longe das nossas coisas.  Mostrou-lhe o recipiente em que tinha misturado os ingredientes:  Aqui est: um repelente para Lobo!
     Que bom que funciona  disse Jondalar. Ele tambm sorria, mas o brilho nos seus olhos nada tinha a ver com Lobo. Ayla notou que ele tinha as mos atrs das 
costas.
     O que est escondendo de mim atrs das costas?  perguntou subitamente curiosa.
     Bem, quando procurava lenha encontrei outra coisa. E se voc prometer ser boazinha, talvez eu divida meu achado com voc.
            O que ?
    Jondalar apresentou-lhe uma cesta cheia.
     Framboesas. Vermelhas, grandes, docinhas!
    Os olhos de Ayla brilharam.
     Adoro framboesas!
            E voc acha que no sei disso? E o que vai me dar de prmio?  disse ele, com uma centelha de malcia no olhar.
    Ayla o encarou e aproximou-se dele, sorrindo. Era um largo sorriso, cheio do amor que tinha por ele, do ardor que vinha sentindo, do prazer que lhe dava aquele 
gesto dele: de fazer-lhe uma surpresa.
            Acho que descobri  disse ele, soltando o flego que s ento percebeu que tinha prendido.  Oh, Me, como voc  bonita quando sorri!  bonita sempre, 
mas principalmente quando sorri.
    De sbito, ele tomava conscincia de cada um dos seus traos, em detalhe. Os cabelos compridos, fartos, louros, com brilhos de ouro onde o sol os tocara e clareara, 
e presos por uma correia. Uma onda natural e alguns fios desgarrados lhe emolduravam o rosto bronzeado. Uma pequena madeixa caa na frente, e ele teve de conter-se 
para no tir-la da frente dos olhos de Ayla.
    Ayla tinha uma boa altura para a estrutura dele, de um metro e noventa centmetros. Os msculos flexveis, lisos, rijos apesar de magro eram visveis nos braos 
dela, nas suas pernas compridas. Ayla era uma das mulheres mais fortes que ele jamais conhecera. To forte fisicamente quanto muitos homens. O povo que a criara 
era muito mais robusto que aquele em que ela havia nascido. Embora Ayla no fosse considerada mais robusta que o normal das mulheres do Cl em que vivia, desenvolvera-se 
muito mais do que normalmente teria de desenvolver-se, s para no ficar para trs. Com isso, e com anos de observao, rastreamento, tocaia como caadora, ela sabia 
usar seu corpo com facilidade e mover-se com uma graa incomum.
    A tnica frouxa sem mangas que usava, apertada na cintura com um cinto, com perneiras de couro, era confortvel, mas no escondia os seios firmes, cheios, que 
poderiam parecer pesados, o que no ocorria, ou seus quadris muito femininos ou as ndegas arredondadas e slidas. Os cordes, na parte inferior das perneiras, eram 
soltos, e ela andava de ps descalos. Em torno do pescoo usava uma pequenina bolsa de couro, muito bem bordada e decorada, com penas de grou na parte de baixo, 
que mostrava os ressaltos dos misteriosos objetos que continha.
    Do cinto pendia uma bainha de faca feita de couro cru e rijo, feito com uma pele de animal que fora limpa e raspada, mas no processada de nenhuma maneira, de 
modo que secara, dura, na forma que lhe fora imposta, embora uma boa imerso em gua pudesse amolec-la outra vez. Ayla enfiava sua funda do lado direito do cinto, 
junto de uma bolsa em que guardava algumas pedras. Do lado esquerdo, tinha um objeto dos mais estranhos. Era outra bolsa. Embora velha e usada, fora feita de uma 
pele inteira de lontra, curada com os ps, o rabo e a cabea. A garganta do animal fora cortada, as entranhas removidas pelo pescoo. Uma corda, passada por pequenos 
cortes, podia ser puxada para fechar a bolsa. A cabea, achatada, funcionava como aba. Era a bolsa de remdio, a que ela trouxera do Cl, que Iza lhe dera.
    Ela no tem as feies de um Zelandonii, pensava Jondalar. Eles vo notar um ar estrangeiro, mas sua beleza era inconfundvel. Os olhos, grandes, tinham uma 
cor cinza-azulada  a cor de uma boa pederneira, pensou ele , eram espaados e delineados por clios um pouco mais escuros que o cabelo. As sobrancelhas j eram 
mais claras, entre um tom e outro. O rosto tinha a forma de um corao. Largo em cima, com ossos malares salientes, mandbulas bem definidas, e queixo fino. O nariz 
era reto e bem-feito, e os lbios cheios, curvados para cima nas comissuras, abriam-se mostrando os dentes num sorriso que lhe acendia os olhos e anunciava o prazer 
que sentia com o simples ato de sorrir.
    Embora sorrisos e risadas a tivessem assinalado, um dia, como diferente, e ela os contivesse por causa disso, Jondalar adorava quando ela sorria. E o prazer 
que Ayla tinha com o riso dele, seus gracejos, seu jeito brincalho, transformava de maneira mgica o arranjo j to satisfatrio dos seus traos. Ela ficava, de 
fato, mais bela ainda sorrindo. Ele se viu de sbito dominado pela viso dela, por seu amor por ela, e mentalmente rendeu outra vez graas  Me pela merc de ter-lhe 
restitudo Ayla.
     O que voc me pede pelas framboesas?  s dizer que eu dou.
     Quero voc mesma, Ayla  disse Jondalar, com a voz agora embargada. Ele ps a cesta no cho e , num instante, tinha tomado Ayla nos braos, e a beijava com 
forte emoo.  Eu a amo. No quero jamais perd-la  disse, num murmrio rouco, beijando-a de novo.
    Um calor a tomou e ela reagiu com um sentimento to forte quanto o dele.
            Eu o amo tambm, e desejo, mas posso tirar a carne do fogo primeiro? No quero que ela queime enquanto estamos... ocupados.
    Jondalar ficou olhando para ela como se no tivesse entendido as suas palavras, depois se descontraiu, deu-lhe um abrao, e recuou um passo, com um sorriso maroto.
            Eu no quis ser insistente.  que gostando tanto de voc, s vezes no sei conter-me. Mas podemos esperar at mais tarde.
    Ela sentia ainda a reao ao ardor de Jondalar e no estava certa se queria parar agora. Lamentava um pouco que seu comentrio tivesse interrompido o momento.
            No tenho de tirar a carne do fogo.
    Jondalar riu.
            Ayla, voc  uma mulher inacreditvel  disse, sacudindo a cabea e sorrindo.  Ser que sabe disso? De como  notvel? Voc est sempre disponvel 
para mim, sempre que eu a desejo. E sempre esteve No apenas disposta a me acompanhar, independente do seu desejo, mas est sempre pronta para interromper qualquer 
coisa se for isso que eu quiser.
            Mas  que eu o quero tambm, sempre que voc me quer.
     Pois isso no  nada comum. Muitas mulheres precisam ser persuadidas. E se esto fazendo alguma coisa, no gostam de ser interrompidas.
     As mulheres entre as quais me criei estavam sempre dispostas quando um homem lhes fazia sinal. Voc me deu o seu sinal, me beijou e com isso me fez ver.
     Talvez eu me arrependa de dizer isso, mas voc me pode recusar sabia?  A fronte dele se enrugara no esforo de explicar-se.  Espero que no pense que tem 
de estar pronta sempre que eu estiver. No esta mais vivendo no seio do Cl.
     Voc no entende  disse Ayla, abanando a cabea, e tentando tanto quanto ele fazer-se compreender.  No pense que tenho de estar pronta. Mas quando voc 
me d o seu sinal, eu estou pronta. Talvez seja porque era assim que as mulheres do Cl faziam. Talvez seja porque voc quem me ensinou como  maravilhoso partilhar 
Prazeres. Talvez seja porque o amo tanto. Mas quando voc me d o seu sinal, no pensou nisso, sinto-o l dentro de mim. Seu sinal, seu beijo, que dizem que voc 
me quer, me fazem querer tambm.
    Ele sorria agora, com alvio e prazer.
            Voc tambm me deixa preparado. Basta olhar para voc.  Ele curvou a cabea, ela elevou a sua, moldando-se contra o corpo dele quando Jondalar a estreitou 
nos braos.
    Ele conteve a sofreguido que sentia, e um pensamento lhe passou pela cabea. Como era estranho que sentisse tanto desejo por ela ainda. De muitas mulheres se 
cansara depois de uma nica experincia, mas com Ayla tudo parecia sempre novo. Podia sentir o corpo dela, firme, forte, contra o seu, os braos dela em torno do 
pescoo. Avanou com as mos para segurar-lhe os seios e se debruou mais fundo para beijar-lhe a curva do pescoo.
    Ayla soltou os braos do pescoo dele e comeou a tirar o cinto, que deixou cair no cho com toda a parafernlia que continha. Jondalar enfiou a mo debaixo 
da sua tnica, levantando-a ao encontrar as duas formas arredondadas com seus bicos firmes, empinados. Ergueu a tnica um pouco mais, expondo uma escura arola rosada 
em torno do ndulo alteado e sensvel. Sentindo o volume todo, quente, na mo, ele tocou o mamilo com a lngua, depois tomou-o na boca e sugou.
    Correntes de fogo, finas, formigantes, irradiaram dali para o mais ntimo do seu corpo e um gemido de prazer lhe escapou dos lbios. No imaginara estar to 
pronta assim. Como a fmea mamute de plo ruivo, sentia como se tivesse esperado o dia inteiro por aquilo e no pudesse mais esperar nem um momento. Uma viso fugaz 
do grande macho ruo, com seu rgo comprido e curvado, lhe passou pela mente. Jondalar a soltou, e ela tirou a tnica pela cabea num movimento s, macio.
    Ele prendeu a respirao ao v-la, acariciou-lhe a pele e estendeu as mos para tomar-lhe os dois seios tmidos. Afagou um deles, apertando-o e esfregando, enquanto 
chupava e mordiscava o outro. Ayla, que sentia choques sucessivos de excitao, fechou os olhos e se entregou de todo a eles. Mesmo quando ele interrompeu aquelas 
deliciosas carcias com a mo e com a boca nos seus seios, ela se conservou de olhos fechados, e logo sentiu que estava sendo beijada. Abriu ento os lbios para 
dar passagem a uma lngua, que sondava, hesitante e gentil. Quando ps os braos em volta do pescoo dele, sentiu as dobras da sua tnica de couro contra os bicos 
dos seios ainda machucados e sensveis.
    Ele lhe passou as mos pela pele lisa das costas e sentiu o movimento dos msculos. A resposta imediata que recebia acrescentava ao seu prprio ardor, e seu 
membro ereto j forava a roupa.
     Oh, mulher!  disse, num sopro.  Como eu a desejo.
     Estou pronta para voc.
            Espere apenas que eu me livre destas coisas.  Desapertou o cinto, depois puxou a tnica pela cabea.
    Ayla sentiu o volume que pulsava, acariciou-o, e se ps a desatar-lhe os atilhos das perneiras enquanto ele desatava os dela. Ento, livres, se abraaram e ficaram, 
assim, enlaados num beijo sensual, vagaroso, interminvel. Jondalar logo correu os olhos pela clareira. Mas Ayla se deixou cair ali mesmo de quatro, depois olhou 
para ele por cima do ombro com um sorriso matreiro.
     Sua pele pode ser amarela e no acobreada, mas  voc que eu prefiro  disse Ayla.
    Ele correspondeu ao sorriso e se deixou cair tambm, atrs dela.
     Seus plos tambm no so ruivos e sim da cor do feno maduro, mas guardam alguma coisa rubra, uma espcie de flor com muitas ptalas. Mas como no tenho uma 
tromba peluda para alcan-la, tenho de usar outra coisa  disse Jondalar.
    Empurrou-a um pouco para a frente, abriu-lhe as pernas um pouco para expor sua molhada abertura feminina, depois curvou-se para provar o sal quente. Estendeu 
a lngua para a frente e encontrou o ndulo duro escondido no fundo das suas dobras. Ela prendeu a respirao mexeu para dar-lhe melhor acesso, enquanto ele sondava 
com a cabea e com o nariz, depois mergulhava fundo na abertura convidativa para explorar e saborear. Ele sempre gostara do sabor de Ayla.
    Ela se movia agora numa onda de sensaes, cega a tudo que no fossem as pulsaes que corriam, queimando, dentro dela. Estava mais sensvel que de hbito, e 
todo lugar que ele tocava ou beijava reverberava at aquele ponto no mais fundo do seu corpo, que palpitava com fogo e desejo ardente. No ouvia sua prpria respirao, 
cada vez mais acelerada, ou os gritos de prazer que dava, mas Jondalar ouvia.
    Ele se acomodou por trs dela, acercou-se mais, e achou o poo profundo de Ayla com seu membro ansioso e teso. Quando comeou a penetr-la, ela empurrou o corpo 
para trs, enfiando-se nele at toma-lo todo. Ele gritou tambm, com aquela incrvel acolhida que ela lhe dava e ento, segurando-a pelos quadris, puxou-a com fora. 
Depois, achou o pequeno ndulo de prazer da frente e esfregou-o enquanto ela se enfiava mais nele. A sensao de Jondalar chegava quase ao alvo. Estreito-a de novo 
e, percebendo que tambm estava prxima do orgasmo, movimentou-se mais depressa e com mais fora, penetrando nela at o fundo. Ela gritou ao gozar, e a voz dele 
fez eco.
    Ayla estava agora de bruos, com o rosto enfiado na relva. O peso querido de Jondalar a esmagava, e sentia o hlito do amante no lado esquerdo das costas. Abriu 
os olhos e, sem o menor desejo de mudar de posio, ficou observando uma formiga que passava pelo cho em torno de um nico talo de erva. Jondalar se mexeu e rolou 
para o cho, conservando o brao em volta da sua cintura.
     Jondalar, voc  um homem incrvel. Ser que tem alguma idia do quanto  excepcional?  perguntou Ayla.
     No terei ouvido essas palavras antes? Parece-me que lhe disse a mesma coisa.
     Mas em relao a voc elas so a pura expresso da verdade. Como  que me conhece to bem? Eu me perco dentro de mim mesma vendo o que voc faz comigo.
            Pensava que estava preparada.
     Estava. E  sempre maravilhoso. Mas desta vez... No sei. Teriam sido os mamutes? Estive pensando naquela bela fmea ruiva, no seu maravilhoso e gigantesco 
macho... E em voc... o dia inteiro.
     Bom, talvez tenhamos de brincar outra vez de mamutes, disse ele, rindo e rolando para ficar de costas no capim.
    Ayla se sentou.
     Muito bem. Mas agora vou brincar um pouco no rio antes que escurea  Ela se curvou, beijou-o, sentindo o prprio gosto nele.  E, depois, vou ver a comida 
 avisou.
    Ela correu at o fogo, virou o assado de bisontes, ps mais duas pedras quentes na sopa, lanou uns galhos no fogo, e correu para o rio. Estava frio, quando 
entrou na gua, mas no fazia mal. Estava acostumada. Jondalar logo se reuniu a ela. Tinha trazido uma grande pele macia de veado. Deixou-a na margem e entrou na 
gua com cuidado, inspirando bem devagar, depois, com fora, antes de mergulhar. Logo saiu, afastando o cabelo do olhos.
     Que frio, Ayla!
    Ela se achegou e, com malcia, jogou-lhe gua. Ele lhe molhou as costa em represlia, e houve uma luta ruidosa. Com um ltimo chape na gua, Ayla pulou fora 
do rio, apanhou a pele e comeou a enxugar-se. Passou-a a Jondalar quando ele emergiu, depois correu para o acampamento e se vestiu rapidamente. J estava servindo 
a sopa nas tigelas individuais quando ele veio do rio.

5
___________________________________________________________________________

    Os ltimos raios do sol de vero luziram atravs da galhada, e ele mergulhou no horizonte por trs das elevaes que marcavam ali o poente. Sorrindo para Jondalar
com grande contentamento, Ayla meteu a mo na tigela em busca da ultima framboesa e meteu-a na boca. Depois se ergueu para arrumar as coisa a fim de que pudessem 
partir sem problemas pela manh.
    Deu a Lobo os restos das suas vasilhas e ps gros rachados e secos  o triga-bravo, a cevada, as sementes de quenopdio que Nezzie lhe dera quando partiram 
 na sopa quente e deixou-a  beira do fogo. O assado de bisonte e a lingua para a sua refeio foram guardados numa bolsa de couro cru em que ela armazenava comida. 
Dobrou o grande envelope duro de couro, atou-o firmemente com uma corda e suspendeu-o alto, no centro de uma trpode de longos mastros, para que ficasse a salvo 
de ladres noturnos.
    Os mastro, que afinavam para a ponta, eram feitos de arvorezinhas inteiras, altas, finas, retas, sem galhos, de que ela retirava a casca e que costumava levar 
enfiados num dos balaios de bagagem que Huiin carregava no lombo. O cavalo de Jondalar levava os mastro, mais curtos, da tenda. Os mastros compridos podiam ser usados 
tambm ocasionalmente para armar um tren que era arrastado pelos cavalos para transportar cargas pesadas ou volumosas. Eles levavam essas varas porque rvores apropriadas 
eram difceis de encontrar na estepe aberta. Mesmo  margem dos rios, pouco mais havia, as mais das vezes, que macega emaranhada.
    Quando ficou mais escuro, Jondalar ps mais lenha no fogo, depois apanhou a placa de marfim do mapa e se ps a estud-lo  luz das chamas. Quando Ayla acabou 
o que tinha a fazer e se sentou a seu lado, ele parecia perturbado e tinha aquele olhar ansioso que ela vinha notando nos ltimos dias. Ficou a observ-lo por algum 
tempo, ps algumas pedras no fogo para ferver gua para o ch que costumavam tomar  noitinha, mas em vez das ervas aromticas, mas inocentes, que geralmente usava, 
tirou alguns pacotes da sua bolsa de remdios. Talvez encontrasse alguma erva calmante. Matricria ou aquilgia, numa infuso de asprula, pensou, embora no soubesse 
que problema havia. Queria interroga-lo, mas no tinha certeza se convinha. Por fim, decidiu-se.
            Jondalar, voc se lembra do ltimo inverno, quando voc no estava muito seguro de como eu me sentia e eu no estava tambm muito certa de voc?
    Ele estava to absorto nos seus prprios pensamentos que alguns momentos se passaram antes que entendesse a pergunta.
     Claro que me lembro. Voc no tem dvidas quanto ao meu amor por voc, tem? Eu no duvido do seu amor por mim.
     No, no se trata disso. Mas pode haver mal-entendidos por muitos outros motivos, e no quero que alguma coisa como o inverno passado acontea outra vez. No 
suportaria ter de novo problemas s por no havermos discutido qualquer dificuldade. Antes de deixarmos a Reunio de Vero voc prometeu abrir-se comigo se algo 
o estivesse aborrecendo. Vejo que est preocupado, Jondalar, e gostaria de saber o que .
     No  nada, Ayla. Pelo menos nada com que voc deva preocupar-se.
     Mas se voc est preocupado com alguma coisa, no acha que eu deveria saber o motivo?  disse ela. Depois, tomando dois coadores de ch feitos de canios finos, 
rachados ao meio, e tecidos numa apertada malha... que tirou de uma cesta de vime em que guardava diversas tigelas e utenslios... ficou por um momento calada, pensando. 
Separou, depois, folhas secas de matricria e asprula para acrescentar ao ch de camomila de Jondalar (ela mesma tomaria s camomila) e serviu.
    "Se o problema diz respeito a voc, diz respeito a mim tambm. No viajamos juntos?
            Sim, mas cabe a mim tomar as decises, e no quero que fique inquieta desnecessariamente  disse Jondalar, levantando-se para apanhar a bolsa d'gua, 
que estava dependurada a um mastro perto da entrada da tenda e perto do fogo. Ps um pouco d'gua numa vasilha e acrescentou-lhe as pedras quentes.
            No sei se h necessidade ou no, mas o fato  que voc j deixou inquieta. Por que no diz o motivo?  Ayla ps os coadores dentro das tigelas individuais, 
despejou gua fervendo por cima deles e ps tudo de lado para descansar.
    Jondalar pegou a placa de marfim e ficou a contempl-la, querendo que o mapa ali gravado lhe dissesse o que vinha pela frente, e se ele estava tomando a deciso 
correta. Quando eram s ele e o irmo, no importava muito. Eles estavam numa Jornada, numa aventura, e tudo o que acontecesse era parte dela. No estava seguro, 
ento, de voltar; nem mesmo sabia se queria voltar. A mulher que ele estava impedido de amar escolhera um caminho que levava ainda mais longe, e a que se esperava 
que ele tomasse... no era a que ele queria. Mas esta Jornada agora era diferente. Desta vez ele estava com uma mulher que amava mais que a vida. No s queria voltar 
para casa, mas queria lev-la junto, e em segurana. Quanto mais pensava sobre os possveis perigos que poderiam encontrar pelo caminho, tanto mais imaginava riscos 
ainda maiores. Mas suas vagas apreenses no eram coisa que ele pudesse facilmente explicar.
     Preocupa-me o tempo que esta Jornada vai levar. Precisamos alcanar aquela geleira antes do fim do inverno.
     Voc j me falou nisso. Mas por qu? O que acontecer se no chegarmos l em tempo?
     O gelo comea a derreter na primavera, e fica muito perigoso tentar uma travessia.
     Bem, se  perigoso, no tentamos. Mas se no pudermos passar, o que faremos?  perguntou ela, para obrig-lo a pensar sobre as alternativas de que vinha fugindo. 
 H outro caminho?
     No tenho certeza. O gelo que temos de atravessar  apenas um pequeno plat ao norte das grandes montanhas. H terras do outro lado, mas ningum vai por l. 
Ficaramos ainda mais fora do nosso caminho, e faz muito frio. Dizem que as geleiras do norte so mais prximas, avanam para o sul naquele ponto. A terra entre 
as altas montanhas do sul e o grande gelo do norte so as mais frias que existem. Nunca faz calor ali, nem no vero  disse Jondalar.
     Mas no  frio tambm naquele plat que voc pretende atravessar?
     Naturalmente que sim, mas  o caminho mais curto, e uma vez do outro lado s precisamos de poucos dias at a Caverna de Dalanar.
    Jondalar largou o mapa para pegar a tigela de ch quente que Ayla lhe estendia e ficou contemplando o lquido fumegante por algum tempo.
     Suponho que podemos tentar a rota do norte, que contorna a geleira maior, mas eu no gostaria de tentar.  terra de cabeas-chatas, alm de tudo  acrescentou 
Jondalar.
     Voc quer dizer que gente do Cl mora ao norte dessa geleira que devemos atravessar?  perguntou Ayla, detendo-se justamente quando ia tirar o coador da tigela. 
Sentia uma estranha mistura de temor e de excitao.
            Desculpe. Talvez eu devesse cham-los gente do Cl, mas no so como os que voc conhece. Vivem muito longe daqui, voc nem pode imaginar quo longe. 
No so, absolutamente, como os daqui.
     Mas tm de ser, Jondalar!  disse Ayla, que em seguida sorveu um pouco do seu ch quente e perfumado.  Talvez sua maneira habitual de falar e de ser parea 
diferente, mas todos os membros do Cl tm a mesma memria, pelo menos os mais antigos. Mesmo na Reunio do Cl todo mundo conhecia a antiga linguagem de sinais 
usada para falar com os espritos. Muita gente conversou nessa lngua  disse Ayla.
     Mas eles no nos querem em seu territrio  disse Jondalar.  J nos fizeram ver isso, quando Thonolan e eu nos vimos inadvertidamente do lado errado do rio.
     Voc tem razo, estou certa disso. Os do Cl no gostam da vizinhana dos Outros. Assim, se no pudermos atravessar a geleira quando a alcanarmos e no pudermos 
dar-lhe a volta, o que vamos fazer?  perguntou Ayla, voltando ao problema original.  No podemos esperar at que a geleira fique segura de novo e possamos cruzar 
para o outro lado?
     Sim, talvez tenhamos de fazer isso, mas a espera ser de um ai at o outro inverno.
     E, se esperarmos um ano, poderemos passar? H um lugar ou possamos esperar?
     Sim, h gente com quem possamos ficar. Os Losadunai tm sido sempre cordiais. Mas quero ir para casa, Ayla  disse, com tal angstia na voz que ela viu o quanto 
aquilo lhe importava.  Quero que a gente se instale.
     Eu tambm desejo isso, Jondalar, e acho que devemos fazer o possvel para atingir a geleira enquanto  seguro passar para o outro lado. Mas, se for tarde demais, 
isso no significa que no vamos mais para casa. Mas apenas que a espera ser mais longa. De qualquer maneira, estaremos ainda juntos.
      verdade  disse Jondalar, aquiescente mas infeliz.  No importa tanto assim se chegarmos l com atraso, mas vai ser duro esperar um ano inteiro.  Ao dizer 
isso, sua fronte de novo se fechou.  Talvez se dermos a volta, cheguemos em tempo. No  tarde demais para isso.
            H ento outro caminho?
            H. Talut me disse que eu podia contornar a ponta norte da cadeia de montanhas que estamos prestes a atingir. E Rutan, do Acampamento do Capim Estipa, 
me disse que a rota fica a noroeste daqui. Talvez devssemos tomar esse caminho, mas eu esperara ver os Xaramudi uma vez mais. Se no os encontrar agora, nunca
mais os encontrarei, provavelmente, e eles vivem para o sul das montanhas, ao longo do Rio da Grande Me  explicou Jondalar.
    Ayla concordou com a cabea. Agora compreendo, pensava.
            Os Xaramudi so o povo com o qual voc viveu por algum tempo. Seu irmo casou com uma das mulheres deles, no foi?
            Sim. Eles so como uma famlia para mim.
     Ento, naturalmente, temos de rumar para o sul. Eles so o povo que voc ama. E se isso significa que no estaremos na geleira em tempo, ento teremos de esperar 
at a prxima estao para atravessar. Ser mais um ano, mas no vale a pena ver sua outra famlia outra vez? Se em parte voc quer ir para casa para contar a sua 
me sobre seu irmo, no acha que os Xaramudi tambm gostaro de saber o que aconteceu com ele? Afinal, eles so famlia dele tambm.
    Jondalar franziu a testa, depois se animou.
     Voc tem razo, Ayla. Eles vo querer saber de Thonolan. Andei to preocupado avaliando se tomara a deciso correta que no levei o raciocnio at o fim.  
Sorriu, aliviado. Depois ficou a ver as chamas que danavam sobre a lenha enegrecida, brincando buliosas na sua alegria to curta, e empurrando a treva para trs. 
Ele bebericou o ch bem devagar, pensando ainda na longa jornada que tinham pela frente. Mas j no se sentia to ansioso quanto antes.
    Ayla estava ao seu lado, em silncio.
     Foi uma boa ideia discutir o assunto  disse, olhando para Ayla.  Acho que no estou ainda acostumado a ter algum do lado com quem posso discutir... coisas. 
E acho que podemos estar l em tempo. Ou no teria vindo por este caminho, para comeo de conversa. Ser uma viagem mais longa mas, pelo menos, conheo o caminho.
     Voc tomou a deciso acertada, Jondalar. Se eu pudesse, se no estivesse ameaada de morte, iria visitar o Cl de Brun  disse Ayla. E acrescentou, to baixo 
que sua voz era quase inaudvel:  Se eu pudesse, ah, se pudesse, ia ver Dure uma ltima vez.
    O som da voz de Ayla, desamparado, vazio, mostrou-lhe o quanto ela sentia a sua perda.
            Voc quer procur-lo, Ayla?
            Sim, quero. Mas no posso. Apenas causaria aflio para todos. Eu fui amaldioada. Se me vissem agora, pensariam que eu era um esprito mau. Morri para 
eles, e no h nada que eu faa ou diga que possa convenc-los de que estou viva.
    Os olhos de Ayla pareciam perdidos no horizonte, mas, na verdade, estavam voltados para dentro, para uma viso interior, uma memria.
            Alm disso, Dure no ser mais o beb que deixei para trs. Ele j estar adolescente, embora eu mesma me tivesse atrasado um pouco, para uma mulher 
do meu Cl. Ele  meu filho, e talvez tenha ficado para trs dos outros meninos, ele tambm. Mas logo Ura vir viver com o Cl de Brun... no,  o Cl de Broud, 
agora  disse Ayla, franzindo a testa.  Este  o vero da Reunio do Cl, de modo que neste outono Ura deixar seu Cl e ira morar com Brun e Ebra, e quando ambos 
tiverem idade suficiente, ela ser a mulher de Dure.  Ayla fez uma pausa, depois concluiu.  Quisera estar l para receb-la, mas talvez ela julgue Dure sem sorte 
se o esprito da sua estranha me no ficar quieto em seu lugar, que  no outro mundo.
     Tem certeza disso, Ayla? Eu falava srio: podemos ir procurar por eles, se voc assim desejar  disse Jondalar.
            Mesmo se eu quisesse encontrar meu filho, no saberia onde procurar por ele. No sei onde fica a nova caverna deles, nem onde se realiza a Reunio do 
Cl. No est escrito que eu veja Dure. Ele  filho de Uba, hoje.  Ayla encarou Jondalar.
    Ele viu que havia lgrimas nos olhos dela, que ameaavam rolar.
            Eu sabia, quando Rydag morreu, que nunca mais veria Dure. Enterrei Rydag no grande manto em que carregara Dure, o manto que levei comigo ao deixar o 
Cl. E no meu corao enterrei Dure ao mesmo tempo. Sei que nunca mais o verei. Estou morta para ele, e  bom que esteja morto para mim.  As lgrimas lhe molhavam 
as faces, embora ela no parecesse not-las.  Tenho de fato muita sorte, sabe? Pense em Nezzie. Rydag era como um filho para ela, que o criou mesmo sem t-lo parido, 
e sabia que havia de perd-lo. Sabia, at, que, independente de quanto tempo ele vivesse, jamais teria uma vida normal. Outras mes que perdem os filhos podem apenas 
imagin-los em outro mundo, vivendo com espritos. Mas eu posso imaginar Dure aqui, sempre seguro, sempre afortunado, quase feliz. Posso pensar nele vivendo com 
Ura, tendo filhos no seu lar, mesmo que eu nunca os conhea.
    O soluo na voz dela abriu finalmente a porta para que a sua mgoa transbordasse. Jondalar tomou-a nos braos e a manteve assim. O pensamento de Rydag o entristecia 
tambm. No havia nada que se pudesse fazer por ele, embora todo mundo soubesse que Ayla havia tentado. Era uma criana frgil. Nezzie disse que sempre fora. Mas 
Ayla lhe dera algo que ningum mais podia ter-lhe dado. Depois que ela chegou e comeou a ensinar-lhe, e ao resto do Acampamento do Leo, a falar como se falava 
no Cl, por sinais, ela ficara mais feliz do que nunca. Era a primeira vez em toda a sua vida que conseguia comunicar-se com as pessoas que amava. Podia agora expressar 
suas necessidades e desejos, e tambm mostrar s pessoas o que sentia, sobretudo Nezzie, que tomara conta dele desde que sua me morrera, de parto. Podia finalmente 
dizer a Nezzie que amava.
    Fora uma surpresa para os membros do Acampamento do Leo, mas uma vez que eles ficaram sabendo que Rydag no era apenas um animal esperto, incapaz de falar, 
mas uma diferente espcie de pessoa, com uma diferente forma de linguagem, comearam a ver que ele era inteligente e aceit-lo como gente. No fora surpresa menor 
para Jondalar, se bem que ela tivesse procurado contar-lhe, depois que ele comeou a lhe ensinar a falar outra vez. Ele aprendera os sinais ao mesmo tempo que os 
outros e comeara a apreciar o suave humor daquele menino da raa antiga, e at onde ia sua compreenso.
    Jondalar mantinha nos braos a mulher que amava, e ela soluava para libertar sua tristeza. Ele sabia que Ayla guardava no peito sua tristeza com a morte da 
criana meio-Cl que Nezzie tinha adotado, que lhe lembrava tanto seu prprio filho, e entendia que se lamentava por aquelefilho tambm.
    Mas havia mais que Rydag ou Dure. Ayla chorava por todas as suas perdas: pelas pessoas do passado remoto, as pessoas que amava no Cl, e pela perda do prprio 
Cl. O Cl de Brun fora a sua famlia; Iza e Creb a tinham criado, cuidado dela. A despeito da sua diversidade, houve um tempo em que ela se considerava um membro 
do Cl. Embora tivesse decidido partir com Jondalar, porque o amava e queria estar com ele, aquela conversa a fizera agora compreender quo longe ele morava. Levariam 
um ano, talvez dois, para chegar l. A compreenso disso lhe viera, por fim: ela no voltaria nunca.
    No estava apenas renunciando  sua vida com os Mamuti, que lhe tinham oferecido um lugar em seu meio. Abandonava, ao mesmo tempo, qualquer tnue esperana 
que ainda tivesse de rever o povo do seu Cl ou o filho que com eles deixara. Ela vivia havia tanto tempo com as suas tristezas que eram menos doloridas um pouco, 
mas Rydag no morrera muito tempo antes da partida deles para a Reunio de Vero, e essa morte era ainda por demais recente, a dor de uma ferida aberta. Com ela 
vieram de roldo todas as outras perdas, e a percepo da distncia que ia agora pondo entre eles lhe dava a certeza de que s morrendo tambm receberia essa parte 
do seu passado.
    Ayla j perdera sua primeira vida. No sabia ao certo quem fora sua me ou sua gente, aqueles para os quais havia nascido. Afora recordaes fragmentadas e vagas... 
sentimentos mais que qualquer outra coisa... no se lembrava de nada at o terremoto ou de ningum antes do Cl. Mas o Cl a banira. Broud lanara a maldio sobre 
ela. Para eles Ayla estava morta, e agora ela compreendia que perdera tambm essa parte da sua vida quando fora mandada embora. Daquele momento em diante, ela nunca 
saberia de onde vinha, nunca encontraria uma amiga de infncia, nunca encontraria ningum, nem mesmo Jondalar, capaz de entender o histrico que a fizera a pessoa 
que era.
    Ayla aceitava a perda do passado, exceto a daquele que vivia na sua mente e no corao, mas chorava por ele e ficava a imaginar o que estaria pela frente quando 
chegasse ao fim da Jornada. Independente do que fosse, e como fosse o povo dele, ela no teria mais nada: s as suas memrias... e o futuro.
    Na clareira cercada de rvores era escuro agora. Nem o mais vago contorno de uma silhueta ou sombra mais escura podia ser percebido contra a uniformidade do 
fundo,  exceo do dbil e impreciso claro vermelho das brasas da fogueira e a epifania resplandecente das estrelas. Como so uma leve brisa penetrava a clareira 
protegida, os dois tinham puxado suas peles de dormir para fora da tenda. Ayla jazia acordada debaixo do cu estrelado, contemplando os variados desenhos das constelaes 
e escutando os rudos da noite: o vento esgueirando-se entre as rvores, a correnteza do rio passando, os rudos dos grilos e dos sapos. Houve um mergulho no rio, 
depois um pio de coruja e, na distncia, o rugido de um leo e o rudo da trombeta de um mamute.
    No comeo da noite, Lobo ficara excitado com as corujas e sara atrs delas. Mais tarde, Ayla ouvira um uivo dele seguido de um lamento de coruja muito mais 
perto. Ficou esperando que o animal voltasse. Quando ouviu sua respirao ofegante... ele deve ter corrido, pensou... e sentiu que ele se acomodava para dormir aos 
seus ps, sossegou.
    Tinha cochilado um pouco, mas, de repente, se viu acordada e alerta. Tensa, permaneceu imvel, procurando descobrir o que a despertara. Primeiro, sentiu o rosnado, 
surdo, quase silencioso, vibrando atravs das suas cobertas a partir daquele ponto quente aos seus ps. Depois ouviu fungadas discretas. Havia alguma coisa com eles 
no acampamento.
            Jondalar? tentou, em voz baixa.
            Acho que a carne atraiu alguma criatura. Pode ser um urso, mas  mais provvel que seja um gluto ou uma hiena  respondeu Jondalar num sussurro apenas 
audvel.
            O que vamos fazer? No quero que levem a nossa carne.
            Seja o que for, talvez no alcance o assado. Vamos esperar.
    Mas Lobo sabia exatamente o que estava farejando em volta e no tinha inteno de esperar. Sempre que eles montavam acampamento, Lobo definia o territrio como 
seu e assumia a responsabilidade de defend-lo Ayla o viu sair e, um instante depois, ouviu-o rosnar de forma ameaadora. O rosnado que recebeu como resposta era 
num tom muito diferente e parecia vir de um plano mais alto. Ela se sentou e estendeu a mo para a funda, mas Jondalar j estava de p com o longo fuste de uma lana 
j no arco, de prontido.
             um urso!  disse ele. Deve estar apoiado s nas patas traseiras, mas no consigo ver nada.
    Ouviram movimento, arrastado de algum lugar entre a fogueira e os mastros onde a carne estava suspensa, depois os rosnados dos animais que se arrastavam. De 
sbito, do outro lado, Huiin relinchou, e em seguida, mais alto ainda, Racer manifestou seu nervosismo. Houve mais rudos indistintos no escuro, e depois Ayla escutou 
o rosnado profundo e excitado que era sinal da inteno que Lobo tinha de atacar.
            Lobo!  chamou, para impedir uma confrontao perigosa.
    Por entre rosnados furiosos, ouviu-se um sonoro berro, depois um uivo de dor, e mil fagulhas voaram em torno de uma forma avantajada que tropeara nas pedras 
da fogueira. Ayla ouviu o assovio de um objeto cortando o ar rapidamente. Seguiu-se o som do impacto, um novo uivo e o rumor de algo que se afastava batendo contra 
as rvores. Ayla assoviou, como costumava fazer para Lobo. No queria que ele fosse atrs do urso.
    Quando Lobo voltou, ela se ajoelhou, com alvio, junto dele. Jondalar, por seu lado, reavivava o fogo. Viram ento a trilha de sangue deixada pelo animal ao 
retirar-se.
            Acho que acertei esse urso, mas no pude ver onde a lana o pegou. Tenho de dar uma busca amanh. Um urso ferido pode ser perigoso, e no sabemos quem 
vai usar este acampamento depois de ns.
    Ayla foi examinar as pegadas.
     Parece que est perdendo muito sangue. Talvez no v longe. Mas estava aflita com Lobo. Era um urso grande. Podia ter machucado Lobo.
     No sei se Lobo devia ter atacado dessa maneira. Ele poderia ter levado o urso a voltar-se contra outro objetivo. Mas foi um ato corajoso, e gostei de ver 
que ele est sempre preparado para defend-la. Imagino o que far se algum de fato atentar contra voc.
     Eu tambm no sei. Mas Huiin e Racer ficaram agitados com o urso. Vou ver como esto.
    Jondalar a acompanhou. Os cavalos estavam perto da fogueira. Huiin sabia havia muito tempo que fogo acendido por gente em geral significava segurana, e Racer 
ia aprendendo com a me e com a prpria experincia. Pareceram aquietar-se com as palavras e os afagos de gente em que confiavam, mas Ayla estava ansiosa e sabia 
que teria dificuldade em dormir outra vez. Decidiu tomar alguma infuso calmante e entrou na tenda para pegar a bolsa dos remdios.
    Enquanto as pedras esquentavam, ela ficou alisando a pele da velha bolsa, lembrando-se de quando Iza lhe dera aquilo, e rememorando sua vida com o Cl, principalmente 
o ltimo dia. Por que Creb achou de voltar  caverna?, pensou. Poderia estar ainda vivo, embora j fosse velho e doente. Mas no parecera fraco na noite anterior, 
durante aquela ltima cerimnia, quando fez de Goov o novo Mog-ur. Parecia forte como antes, o Mog-ur. Goov nunca seria to poderoso quanto Creb.
    Jondalar notou que ela estava pensativa. Achou que era ainda devido  histria da criana que morrera e do filho que no mais ia ver, e no sabia se era o caso 
de dizer alguma coisa. Queria ajudar, mas sem ser intruso. Estavam sentados lado a lado junto do fogo, tomando o ch, quando Ayla olhou para o cu e prendeu a respirao.
     Veja, Jondalar. No cu.  vermelho, como um incndio, mas muito alto e muito longe. O que ser?
     Fogo Polar!  disse ele.   o que dizemos quando o cu fica assim, vermelho. Dizemos tambm, s vezes, Luzes do Norte.
    Ficaram olhando o espetculo luminoso por algum tempo. Grandes cortinas difanas, em arco, que subiam e desciam no cu como que levadas por um vento csmico.
     Essa coisa tem faixas brancas, Jondalar, e  movedia como fumaa. Parece que tem gua branca passando por ela. E outras cores tambm.
     Fumaa de Estrelas  disse Jondalar.  Tem gente que lhe d esse nome. Ou Nuvens de Estrelas, quando  branca. Tem muitos nomes. E a maioria das pessoas sabe 
a que voc se refere quando usa qualquer deles.
     Por que no vi essa luz no cu antes?  disse Ayla. Sentia uma especie de temor respeitoso.
     Talvez por viver muito para o sul.  por isso que essas luzes se chamam Luzes do Norte. Eu mesmo no as vi muitas vezes e nunca to ntidas como esta noite, 
ou to vermelhas, mas os que viajam para o norte dizem que quanto mais se caminha para o norte, mais frequentes elas so.
            Mas no se pode ir alm da geleira.
            Pode-se sim, desde que por gua. A oeste do lugar onde nasci, a diversos dias de distncia, dependendo da estao do ano, a terra acaba e comeam as 
Grandes guas. Que so muito salgadas e no congelam nunca, embora se vejam, por vezes, grandes blocos flutuantes de gelo. J ouvi que h quem v alm da geleira 
de barco, quando caam animais que vivem na gua  disse Jondalar.
            Voc fala de barcos como os que os Mamuti usam para atravessar rios?
            S maiores e mais resistentes. Nunca vi esses barcos e no acreditava muito nas histrias at que conheci os Xaramudi e vi os barcos que eles fazem. 
H muitas rvores ao longo do Rio da Grande Me, perto do Acampamento deles. rvores grandes. Eles fazem barcos com elas. Espere at conhec-los. Voc no vai acreditar 
nos prprios olhos, Ayla. Eles no se limitam a atravessar o rio, viajam nele, tanto a favor quanto contra a corrente, nesses barcos.
    Ayla percebeu o entusiasmo dele. Jondalar de fato queria muito rever os barcos, agora que resolvera seu dilema. Mas ela no pensava nisso, no povo de Jondalar. 
Aquelas estranhas luzes boreais a perturbavam No sabia bem por qu. Eram enervantes, e ela gostaria de saber o que significavam, mas no lhe davam medo como outras 
perturbaes, terrestres. Sentia muito medo, por exemplo, de terremotos. E no apenas porque assusta ver sacudindo o que deve estar firme, mas porque o fenmeno 
sempre anunciava mudana drstica, violenta, na sua vida.
    Um terremoto a arrancou do seu povo, dando-lhe uma infncia alheia a tudo o que havia conhecido at ento, e outro terremoto levara ao seu ostracismo do Cl 
 ou, pelo menos, dera a Broud a desculpa de que ele precisava para exclu-la. Mesmo a erupo vulcnica longe, a sudeste, que fez chover cinza fina sobre eles, 
pareceu um pressgio da sua sada do meio dos Mamuti, embora nesse caso a escolha tivesse sido sua, e no imposta. Mas ela no sabia o que sinais no cu significavam, 
nem mesmo se aquilo era um sinal.
     Creb imaginaria que um cu assim teria algum significado. Estou segura disso  disse Ayla.  Ele era o mais poderoso Mog-ur de todos cls, e uma coisa dessas 
o faria certamente meditar at que entendesse o seu sentido secreto. Penso que Mamute tambm veria nisso um aviso O que pensa voc, Jondalar?  ou no sinal de algum 
portento? Talvez de algo... no muito bom?
     Eu... no sei, Ayla.  Ele hesitava em contar-lhe que para o seu povo se as Luzes do Norte fossem vermelhas isso era considerado um aviso, mas no sempre. 
s vezes apenas pressagiava algum acontecimento importante.  No sou Um que Serve  Me. Pode ser um pressgio bom.
     Mas esse Fogo Polar  um sinal poderoso ou no?
     De regra, . Pelo menos muita gente acredita que sim.
    Ayla misturou um pouco de raiz de aquilgia e losna com o seu ch de camomila, fazendo um calmante muito leve para ela mesma, mas estava inquieta com o episdio 
do urso no acampamento e aquela estranha aurora no cu. Mesmo com o sedativo, sentiu que o sono custava a chegar. Tentou todas as posies, deitando-se primeiro 
de lado, depois de costas depois do outro lado, e, at, de bruos, e estava certa de que toda aquela movimentao incomodava Jondalar. Quando, finalmente, dormiu 
o sono foi perturbado por sonhos muito vvidos.
    Um rugido feroz rompeu o silncio, e as pessoas que observavam recuaram de pavor. O gigantesco urso da caverna forou a porta da jaula, atirando-a para longe. 
O urso enlouquecido estava solto! Broud subiu para os ombros dele e dois outros homens o pegaram no plo. De repente, um deles se viu no poder do monstruoso animal, 
mas seu grito de agonia foi cortado, pois um poderoso abrao de urso partiu-lhe a espinha. Os Mogurs recolheram o corpo e, com uma dignidade solene, levaram-no para 
uma caverna. Creb, com seu manto de pele de urso, se foi, manquitolando,  frente deles.
    Ayla contemplou um lquido branco numa tigela rachada de madeira. O lquido ficou vermelho como sangue, depois se tornou espesso, quando mos, brancas e luminosas, 
mexeram nele fazendo ondas. Ela se afligiu. Fizera alguma coisa errada. No devia haver lquido nenhum na cuia. Ela a levou aos lbios e bebeu tudo.
    Sua perspectiva mudou, a luz branca estava agora dentro dela, e ela parecia crescer e olhar de muito alto para estrelas que abriam uma vereda. As estrelas transmudaram-se 
em pequeninas luzes que conduziam a uma caverna larga e sem fim. Ento uma luz rubra cresceu, vinda do fundo da caverna, enchendo sua viso, e com um sentimento 
de profunda angstia, ela viu os Mogurs sentados em crculo, meio escondidos pelos pilares de estalagmites.
    Ela se afundava mais e mais num abismo negro, petrificada de pavor. De sbito, Creb estava l com a luz brilhante dentro dela, para ajud-la, apoi-la, aliviar 
seus temores. Ele a guiou numa estranha viagem de volta aos seus comeos comuns, atravs de gua salgada e doloridos haustos de ar, terra, grandes rvores. Pisaram, 
depois, terra firme, e caminharam de p sobre duas pernas uma grande distncia, no rumo do oeste e de um grande mar salgado. Atingiram um paredo vertical que fazia 
frente a um rio e a uma plancie, e tinha uma caverna no centro. Era a caverna de um dos antigos ancestrais dele. Mas,  medida que se aproximam da caverna, Creb 
se dissolvia, deixando-a s.
    O cenrio ficou indistinto, Creb se esfumava rpido, j havia quase desaparecido, e ela sentiu um grande pnico.
     Creb! No v! Por favor, no v!
    Correu os olhos pela paisagem procurando v-lo, desesperada. Creb estava no alto de um penhasco, por cima da caverna do antepassado, junto de uma grande pedra, 
um longo pilar achatado, que se debruava sobre o abismo, como se tivesse congelado de repente e pudesse ruir a qualquer momento. Ela gritou por Creb mais uma vez, 
mas ele desaparecera dentro da rocha. Ayla se sentiu desolada. Creb se fora, e ela estava s, doeu. te de tristeza, desejando ter alguma coisa dele como recordao, 
alguma coisa que pudesse tocar, segurar. Mas tudo o que tinha era aquela tristeza esmagadora. E de sbito estava correndo, correndo o mais depressa possvel. Tinha 
de ir embora, tinha absolutamente de ir embora.
     Ayla! Ayla! Acorde!  falou Jondalar, sacudindo-a.
     Jondalar  disse ela, sentando-se. Depois, sentindo ainda a de solao, agarrou-se a ele e se ps a chorar.  Ele se foi... Oh, Jondalar.
     Tudo bem  disse ele, abraando-a.  Deve ter sido um pesadelo. Voc gritava e chorava. Ajudar se me contar?
     Era Creb. Sonhei com Creb e com aquele tempo da Reunio do Cl, quando entrei na caverna e aquelas coisas estranhas aconteceram. Por muito tempo ele ficou 
zangado comigo. Depois, quando estvamos voltando a ter um relacionamento normal, ele morreu. No tivemos tempo de conversar grande coisa. Ele me disse, porm, que 
Dure era o filhe do Cl. Eu nunca soube o que quis dizer com isso. Havia tanta coisa que eu teria gostado de esclarecer com ele, tanta coisa que eu lhe poderia perguntar.
    Muita gente o considerava um grande Mog-ur. A falta de um olho e de um brao o enfeavam e davam-lhe uma aparncia ainda mais assustadora. Ele entendia o mundo 
dos espritos, mas compreendia as pessoas tambm. Eu quis falar com ele no meu sonho, e acho que ele estava tentando comunicar-se comigo.
     Talvez estivesse  disse Jondalar.  Nunca fui muito bom para interpretar sonhos. Sente-se melhor, agora?
     Estou bem  respondeu Ayla.  Mas gostaria de saber mais sobre sonhos.
     Voc no deve ir sozinho procurar por aquele urso  disse Ayla, depois da refeio da manh.  Foi voc mesmo quem disse que um urso ferido  um animal perigoso.
     Terei cuidado.
            Se eu for com voc, ns dois teremos cuidado. Ficar no acampamento pode ser to arriscado quanto ir. E se o urso voltar quando voc estiver ausente?
            Tem razo. Vamos juntos.
    Partiram para a mata, seguindo o rastro do animal. Lobo decidiu achar o urso e foi  frente, pela vegetao rasteira, rio acima. Apressando-se, eles o alcanaram. 
Lobo estava todo arrepiado, com um rosnado preso na garganta, mas de cabea baixa e rabo entre as pernas, a uma distancia segura de uma pequena alcateia de lobos 
que montavam guarda entorno da carcaa marrom-escuro do urso.
     Pelo menos j no precisamos temer um perigoso urso ferido  disse Ayla, com a lana e arco em posio.
     S uma alcateia de lobos perigosos.  Ele estava tambm de arco assestado.  Voc quer um pouco da carne de urso?
     No. Temos bastante carne. No h mais lugar na bagagem. Vamos deixar o urso para eles.
     No fao questo da carne, mas gostaria de levar as patas e os grandes dentes  disse Jondalar.
     E por que no leva? So seus de pleno direito. Voc o matou. Posso espantar os lobos com a minha funda pelo menos at que voc os recolha.
    Aquilo no era coisa que ele tivesse tentado sozinho. A ideia de expulsar uma alcateia de lobos fazendo-os abandonar carne que j consideravam sua era algo arriscado, 
mas ele se lembrou do que Ayla fizera na vspera com as hienas.
            V em frente  disse, sacando a faca afiada.
    Lobo ficou muito excitado quando Ayla comeou a lanar pedras contra as feras e montou guarda  carcaa enquanto Jondalar decepava rapidamente as patas. Os dentes 
eram difceis de extrair das mandbulas, mas logo ele tinha todos os seus trofus. Ayla observava. Lobo sorria. Logo que a sua alcateia se impusera  outra, selvagem, 
ele mudara de atitude. Estava de cabea erguida, agora, cauda para trs, no ar, na postura herldica do lobo parado. Mas seu rosnado era mais agressivo, de lobo 
rompante. O lder da alcateia observava-o, atento, e parecia prestes a desafi-lo.
    Quando, afinal, abandonaram a carcaa e se afastaram, o lder lanou a cabea para trs e uivou. Era um uivo poderoso, do fundo da garganta. Lobo respondeu. 
Mas com pouca ressonncia. Era ainda jovem, nem chegara a adulto, e isso ficava patente, no tom.
            Vamos, Lobo. Aquele l  maior que voc, e tambm mais velho e mais sabido. Ele pode derrub-lo num abrir e fechar de olhos.
    Mas Lobo uivou de novo, no em desafio, mas por estar numa comunidade da sua espcie.
    Os outros fizeram-lhe coro, e Jondalar se viu em meio a uma cacofonia de ganidos e uivos. Ento, Ayla sentiu vontade de imit-los e tambm ergueu a cabea e 
uivou. Jondalar sentiu um frio percorrer-lhe a espinha, e ficou todo arrepiado. Aos ouvidos dele, a imitao fora perita. At Lobo virou a cabea para ela, depois 
respondeu, j num tom mais convincente. Os outros lobos uivaram em unssono e logo a mata encheu outra vez da voz dos lobos, que d calafrios, mas nem por isso deixou 
de ser bela.
    Quando voltaram ao acampamento, Jondalar limpou as patas do urso e os caninos, enquanto Ayla carregava Huiin. Ele ainda empacotava suas coisas quando Ayla deu 
tudo o que tinha que fazer por terminado. Estava recostada na gua, coando-a distrada, e sentindo o conforto da suapresena quando viu que Lobo tinha encontrado 
outro osso velho e podre. Dessa vez ele se deixara ficar do outro lado da clareira, todo orgulhoso do seu achado, mas de olho em Ayla. No foi lev-lo para ela como 
fizera com o outro.
            Lobo! Venha c!  chamou. Ele deixou o osso e obedeceu,  Acho que  tempo de ensinar-lhe alguma coisa nova.
    Queria que ele aprendesse a ficar num lugar quando ela mandasse mesmo que ela sasse de perto. Era importante que ele aprendesse, ao por mais tempo que levasse. 
A julgar pela recepo que tinham tido ate ento e pela reao de Lobo, temia que ele atacasse estranhos, gente de  outra "alcateia" humana.
    Ayla prometera a Talut muito tempo atrs que ela mesma sacrificaria o lobo se ele algum dia molestasse algum no Acampamento do Leo. Pois sentia ainda a responsabilidade 
de impedir que aquele carnvoro, que ela pusera em estreito contato com gente, fizesse mal a algum. Era uma responsabilidade sua. Alm disso, no queria que nada 
de mal acontecesse ao animal. Temia que algum caador assustado tentasse matar aquele estranho lobo que parecia ameaar seu acampamento antes que ela pudesse impedi-lo.
    Comeou por amarr-lo a uma rvore, dizendo-lhe que ficasse la enquanto ela se afastava. Mas o lao era frouxo, e ele conseguiu soltar-se Apertou-o mais, da 
segunda vez, com medo que a corda o estrangulasse se ficasse muito justa. Como imaginara, Lobo protestou e uivou e se ps a dar saltos, querendo segui-la. Quando 
estava distante dele, ordenou-lhe repetidamente que ficasse quieto, fazendo tambm com a mo um sinal de parar.
    Quando ele, por fim, se aquietou, Ayla aproximou-se dele e elogiou seu comportamento. Depois de mais algumas tentativas, vendo que Jondalar estava pronto, ela 
soltou o animal. J praticara bastante. Mas tendo lutado contra a corda, Lobo apertara demais os ns, Ayla no estava satisfeita com a corda. Devia ajust-la exatamente, 
nem muito apertada nem muito frouxa. Era difcil afrouxar o lao. Tinha de pensar no assunto.
     Voc acha que consegue ensinar Lobo a no atacar estranhos?  perguntou Jondalar, que assistira quelas primeiras tentativas, aparentemente fracassadas.  
Voc mesma no me disse que  natural para os lobos desconfiar dos outros? Como acha que pode ensinar-lhe algo que  contrrio  sua natureza?
     E  natural para o cavalo deixar que voc o monte?  perguntou  ela.
     No  a mesma coisa, Ayla  disse Jondalar, ao deixarem o acampamento, cavalgando lado a lado.  Os cavalos comem capim, no comem carne, e  da sua natureza 
evitar problemas. Quando eles vem estranhos ou alguma coisa que lhes parea ameaadora, sua reao  fugir. Um garanho pode lutar com outro, s vezes, ou com algo 
que o ameace diretamente, mas Racer e Huiin preferem fugir de uma situao de perigo, enquanto que Lobo fica na defensiva. Ele prefere lutar.
     Ele fugiria tambm, Jondalar, se o acompanhssemos. Assume essa postura defensiva para proteger-nos. Ele come carne, sim, e  capaz de matar um homem, mas 
no faz isso. No acho que o faria, s se um de ns lhe parecesse um perigo. Os animais aprendem, como as pessoas. No  natural para ele considerar pessoas e cavalos 
como sua alcateia. Mesmo Huiin tem assimilado coisas que no aprenderia se vivesse com outros cavalos.  natural para um cavalo ver no lobo um amigo? Pois ela j 
teve at um leo como companheiro de caverna. Ser isso uma inclinao natural?
     Talvez no  disse Jondalar, mas no me importo de dizer-lhe o quanto me assustei quando Nenm apareceu na Reunio de Vero e voc foi em direo a ele, montada 
em Huiin. Como podia ter certeza de que ele se lembraria de voc? Ou de Huiin? Ou que Huiin se lembraria dele?
     Eles cresceram cresceram juntos. Nenm... Quero dizer, Nenm...
    A palavra que usou queria dizer "beb", mas tinha uma inflexo bizarra diferente da lngua que ela e Jondalar costumavam falar, soava spera, gutural, como se 
viesse diretamente da garganta. Jondalar no era capaz de reproduzi-la, s com dificuldade emitia um som parecido. Era uma das palavras relativamente pouco usadas 
da lngua do Cl. Embora ela a pronunciasse to frequentemente que ele a reconhecia, Ayla criara o hbito de traduzir de imediato qualquer palavra da lngua do Cl 
que porventura dissesse para facilitar as coisas. Quando Jondalar se referira ao leo que Ayla criara desde pequena, ele usava a forma traduzida do nome que ela 
lhe dera, mas sempre lhe parecera imprprio que um gigantesco leo macho das cavernas tivesse o nome de "Nenm".
     ...Nenm era... um filhote quando o achei, um beb. No estava sequer desmamado. Levara uma pancada na cabea, dada por um cervo a galope, penso eu, e estava 
quase morto. Por isso a me o abandonara. Foi como um beb tambm para Huiin. Ela me ajudou a cri-lo... era to engraado quando comearam a brincar juntos, principalmente 
quando Nenm saa disfaradamente e tentava morder o rabo de Huiin. Havia ocasies em que ela abanava o rabo de propsito. Ou quando disputavam um pedao de couro, 
cada um puxando por um lado. Perdi muito couro assim, naquele ano, mas os dois me faziam rir.
    Ayla ficou pensativa.
     Eu no sabia rir at ento. O povo do Cl no ria alto. No gostavam de sons desnecessrio, e sons altos eram, em geral, de aviso. E aquela expresso de que 
voc gosta,com os dentes  mostra, e que chamamos de sorriso? Para eles isso queria dizer que estavam nervosos, ou na defensiva. Combinando com um certo sinal da 
me, era um gesto de ameaa. Quando eu era pequena, eles no gostavam quando eu ria, de modo que aprendi a no fazer isso com frequncia.
    Cavalgaram ao longo do rio por algum tempo, em terreno plano, de saibro.
     Tem gente que sorri quando est nervosa ou quando fala com estranhos  disse Jondalar.  Mas no  que estejam na defensiva ou queiram ameaar ningum. Acho 
que um sorriso serve para mostrar que a pessoa no tem medo.
    Ayla seguiu em frente, em fila indiana, e se inclinou para um lado, a fim de fazer com que sua montaria evitasse um arbusto que crescia junto de um riacho. Depois 
que Jondalar inventara a rdea, o que usava para guiar Racer, Ayla passara a usar uma igual para dar indicaes ocasionais a Huiin, ou para prend-la a alguma coisa 
quando paravam, mas mesmo quando a gua estava com a rdea, Ayla no apelava para esse recurso quando cavalgava. Nunca pretendera treinar o animal quando comeara 
a montar, e o processo de aprendizado mtuo fora gradual e, a princpio, no deliberado. E se ao perceber o que acontecia ela tivesse propositadamente ensinado o 
animal a fazer certas coisas, isso se dera sempre no quadro da afinidade profunda que crescera entre eles.
     Mas se um sorriso serve para mostrar que voc no est com medo, isso no quer dizer que voc no tem nada a temer? Que voc se sente forte e seguro?  disse 
Ayla quando ficaram outra vez lado a lado.
     Nunca pensei nisso antes. Thonolan sorria muito e parecia confiante quando encontrava desconhecidos, mas no se sentia sempre to seguro quanto parecia. Procurava 
dar essa impresso, de modo que imagino se poderia dizer que o gesto era defensivo, um modo de dizer "estou to forte que no tenho nada a recear de voc".
     E mostrar a sua fora no , de certo modo, ameaar? Quando Lobo arreganha os dentes para estranhos no est mostrando sua fora?  insistiu Ayla.
     Deve haver alguma coisa neles que  a mesma, mas h, assim mesmo, uma enorme diferena entre um sorriso de boas-vindas e Lobo mostrando os dentes e rosnando.
      verdade  concordou Ayla.  Um sorriso faz a gente feliz.
     Ou, pelo menos, aliviado. Se voc encontra um estranho e ele lhe sorri, isso em geral significa que voc foi bem-vinda, de modo que voc sabe onde est. Nem 
todos os sorrisos pretendem necessariamente fazer o outro feliz.
     Talvez o sentir-se aliviado seja o comeo de sentir-se feliz  disse Ayla.
    Cavalgaram em silncio por algum tempo. Depois, a mulher continuou.
            Acho que h alguma semelhana entre uma pessoa que sorrir em saudao quando se sente nervosa diante de estranhos, e as pessoas do Cl fazendo um gesto 
na sua lngua de mostrar os dentes, que significa que esto nervosas e tem uma conotao de ameaa. Quando Lobo mostra os dentes para estranhos, ele os ameaa por 
sentir-se nervoso e na defensiva.
            Ento quando ele mostra os dentes para ns, sua alcateia, aquilo  um sorriso  disse Jondalar.  Por vezes tenho a impresso de que ele est sorrindo, 
e sei que ele brinca com voc. Estou convencia tambm de que ele a ama, acontece que  natural para ele mostrar os dentes e ameaar os estranhos. Como poder voc 
ensin-lo a no atacar gente se ele decidir contrrio?  Jondalar parecia de fato preocupado. No sabia se levar o animal com eles era mesmo uma boa ideia. Lobo 
poderia criar muitas dificuldades.
     Lembre-se, lobos atacam para conseguir comida. Foi assim que a Me os fez. Lobo  um caador. Voc pode ensinar-lhe muitas coisas, mas como ensinar um caador 
a no caar? A no atacar estranhos?
     Voc era um  estranho quando chegou ao meu vale, Jondalar. Lembra-se de quando Nenm voltou para visitar-me e encontrou voc l?  perguntou Ayla, e os dois 
se separaram e seguiram em fila indiana para subir uma ravina que levava do rio para a terra mais alta.
    Jondalar sentiu um calor no rosto. No era exatamente enleio, mas emoo, com as fortes lembranas daquele encontro. Nunca passara tamanho susto na vida. Achou 
que ia morrer.
    Eles levaram algum tempo para subir a estreita ravina, entre blocos de pedra que tinham descido com as cheias da primavera e moitas de artemsia, com seus caules 
negros, que rebentavam em flores quando as chuvas chegavam, e se viam reduzidas a talos secos que pareciam mortos Quando elas cessavam. Ele pensou naquela ocasio 
em que Nenm tinha voltado para o lugar onde Ayla o criara e dera com um estranho na larga plataforma exterior da sua pequena caverna.
    Nenhum leo  pequeno, mas Nenm era o maior leo das cavernas que ele jamais tinha visto, quase to alto quanto Huiin, e mais forte. Jondalar ainda se recuperava 
dos maus-tratos que sofrera nas garras daquele mesmo bicho ou de outro da sua espcie quando ele e o irmo tinham rondado estupidamente um covil. Foi a ltima coisa 
que Thonolan fez. Jondalar achou que vivia seus ltimos momentos quando o leo rugiu e se preparou para saltar. De sbito, Ayla surgiu entre eles, levantando a mo 
num gesto que mandava parar. E o leo parou! Ele teria achado graa de como estacou e se torceu para evit-la, se no estivesse to petrificado. Pouco depois a mulher 
coava aquele gigante e brincava com ele.
     Sim, eu me lembro  disse, quando chegaram ao topo e de novo emparelharam um com o outro.  Ainda no sei como voc conseguiu fazer com que ele parasse em 
meio quele ataque.
     Quando Nenm era pequeno, ele brincava de me atacar, mas quando comeou a crescer ficou grande demais para que eu continuasse a brincar daquela maneira com 
ele. Era bruto demais. Tive de ensin-lo a parar  explicou Ayla. Agora tenho de ensinar Lobo a no atacar estranhos e a ficar trs quando eu desejar. Assim, ele 
no machuca ningum e ningum lhe faz mal.
     Se alguem  capaz de ensinar-lhe isso, esse algum  voc, Ayla  disse Jondalar. Ela fora convincente e tivesse xito, seria mais fcil viajar com Lobo. Mesmo 
assim, ele ainda imaginava os problemas que o lobo poderia causar. Ele j havia atrasado a travessia do rio e estragava as coisas deles, embora Ayla tivesse, aparentemente, 
resolvido esse problema. No que ele no gostasse do animal. Gostava. Era fascinante observar um lobo assim to de perto, e ficava surpreso vendo corno Lobo era 
afetuoso, mas o animal dava trabalho, exigia ateno, consumia provises. Os cavalos tambm davam trabalho, mas Racer era to seu amigo, e ele e Huiin ajudavam muito. 
A viagem de volta ia ser penosa. Podiam dispensar o peso extra de um animal que os ocupava quase tanto quanto uma criana.
    Uma criana seria coisa muito sria, pensava Jondalar, enquanto cavalgava. Queira a Grande Me Terra que Ayla no tenho um filho antes de chegarmos! Uma vez 
instalados, ser diferente. Ento podemos pensar em filhos. No que a gente faa algo para evitar um beb, exceto rezar. Como seria ter um beb por perto?
    E se Ayla tiver razo? Se as crianas forem desencadeadas pelos prazeres? Mas temos estado juntos e nenhum sinal de filho. Tem de ser Doni quem pe um beb no 
ventre de uma mulher. Mas e se a Me resolver dar uma criana a Ayla? Ela j teve uma, bem ou mal. Uma vez que Doni. Alguma d um filho, a Me, em geral, d outros. 
Ser que Ayla pode ter um filho nascido do meu esprito? Alguma mulher poder?
    J partilhei Prazeres com muitas mulheres e honrei Doni. Alguma delas ter tido um filho comeado por mim? Como pode um homem saber se isso aconteceu? Ranec 
sabia. Suas feies eram to incomuns, a tez to escura, que a gente podia ver a essncia dele estampada em algumas das crianas, na Reunio de Vero. J eu no 
tenho traos to marcantes nem cor diferente. Ou tenho?
    E aquela ocasio em que caadores Hadumai nos interceptaram no caminho para c? Aquele velho Haduma queria que Noria tivesse um beb de olhos azuis como os meus. 
E depois dos Primeiros Ritos Noria me disse que ia ter um filho do meu esprito com os meus olhos azuis. Haduma lhe comunicara isso. Ser que ela teve mesmo esse 
filho?
    Serenio achava que talvez ela estivesse grvida quando partimos. Ser que deu  luz uma criana com olhos da cor dos meus? Serenio teve um filho e mais nenhum 
depois desse, e Darvo j era quase rapaz. Imagino o que ela vai pensar de Ayla, ou o que Ayla achar dela?
    Talvez no estivesse de fato grvida. Talvez a Me ainda no tenha esquecido o que fiz e isso seja a Sua maneira de dizer que no mereo um filho junto do meu 
fogo. Mas Ela me devolveu Ayla. Zelandoni sempre me disse que Doni jamais recusaria o que eu pedisse a Ela, mas me avisou que tivesse cuidado com os meus pedidos: 
porque seriam atendidos. Foi por isso que me fez prometer no pedir por ela  Me quando era ainda Zolena.
    Por que algum pediria uma coisa que no deseja? Jamais entendi essa gente que fala com o mundo dos espritos. Eles tm sempre uma restrio na lngua. Costumavam 
dizer que Thonolan era um favorito de Doni, tal a sua facilidade em fazer amigos. Mas diziam tambm que ele tivesse cuidado com os favores de Doni. Quando so excessivos, 
Ela cobra: no permite que a gente se afaste dela por muito tempo. Foi por isso que Thonolan morreu? Que a Grande Me Terra o levou? O que querem dizer exatamente 
quando afirmam que algum  um "favorito" de Doni?
    No sei se Ela gosta especialmente de mim ou no. Mas agora sei que Zolena escolheu certo quando se decidiu pela zelandonia. Foi bom para mim tambm. O que fiz 
foi errado, mas nunca teria empreendido a viagem com Thonolan se ela no se tivesse tornado Zelandoni. E no teria encontrado Ayla. Talvez eu seja favorito dela, 
um pouco s, talvez, mas no vou tirar vantagem da generosidade de Doni para comigo. J pedi a Ela que nos leve em segurana para casa. No posso pedir-lhe que d 
a Ayla um filho do meu esprito. Agora ento  que no posso mesmo. Mas fico pensando se Ayla jamais ter um.

6
___________________________________________________________________________

    Ayla e Jondalar deram as costas ao rio que vinham acompanhando, virando para oeste na sua direo geral sul, e se puseram a cortar campo aberto. Chegaram, assim, 
a um vale de outro grande curso d'gua que corria para leste, a fim de encontrar, mais abaixo, o rio que tinham deixado para trs. Era um vale largo e relvoso, que 
subia suavemente para o rio, de forte correnteza, que dividia ao meio a plancie aluvial juncada de pedras de vrios tamanhos, desde mataces at cascalho mido. 
A no ser por alguns tufos e uma ocasional moita florida, o curso do rio, de fundo rochoso, tinha pouca vegetao. O dilvio da primavera levara tudo.
    Poucos troncos, rvores inteiras despidas de folhas ou de casca, atravancavam o terreno, com um entranado de amieiras e arbustos de folhas cabeludas, cor de 
cinza, pelos cantos. Um pequeno rebanho de gamos gigantes, cuja galhada palmada e extravagante faria os grandes chifres o alce parecerem pequenos, pastava ao longo 
da beira de salgueiros amontoados no solo baixo e mido que confinava com a gua.
    Lobo estava cheio de vida e vinha saltando por baixo e em torno dos cavalos, principalmente de Racer. Huiin parecia capaz de ignorar a exuberncia dele, mas 
excitvel. Ayla achava que o cavalo corresponderia, se pudesse, s brincadeiras de Lobo, mas com Jondalar aguiar-lhe os movimentos aquilo s servia para perturb-lo. 
Jondalar se aborrecia, pois ficava obrigado a vigiar o cavalo com mais ateno. Sua irritao crescia, e esteve a ponto de pedir a Ayla para manter Lobo longe de 
Racer.
    Mas logo, para alivio seu, Lobo saiu correndo. Ao farejar os gamos, fora investigar. A primeira viso das longas pernas de um gamo gigante foi irresistvel. 
Lobo concluiu que aquele era um novo animal grande e de quatro pernas para brincar com ele. Mas quando o veado de que ele se aproximou baixou a cabea para rechaar 
o animal que investia em sua direo, o lobo parou. Os magnficos chifres do possante quadrpede tinham cerca de trs metros de comprimento cada um! O animal mordiscava 
a grama de folha larga aos seus ps, sem perder de vista o carnvoro, mas indiferente a ele, como se soubesse que pouco tinha a temer de um lobo solitrio.
    Ayla, vendo a cena, sorriu.
            Olhe s, Jondalar. Lobo pensou que o megcero era outro cavalo para ele importunar.
    Jondalar sorriu tambm.
            Ele parece surpreso. Aqueles chifres so mais do que ele esperava.
    Cavalgaram lentamente para a gua como se, tacitamente, nenhum deles quisesse espantar os grandes veados. Ambos sentiam um certo respeito pelas enormes criaturas, 
eram mais altas que eles, mesmo a cavalo Com uma graa majestosa, o rebanho recuou, sem pressa, quando os dois e os cavalos se acercaram. No deram mostras de susto. 
Pareciam apenas cautelosos, e se afastaram, mordiscando folhas de salgueiro.
            So mais do que eu esperava tambm  disse Ayla.  Nunca tinha visto esses animais to de perto.
    Embora apenas um pouco maiores que o alce, os cervos gigante com seus chifres magnficos e elaborados, que se esgalham para cima e para os lados no alto da cabea, 
parecem gigantescos. Todo ano esses chifres fantsticos so trocados. O novo par que nasce para substituir o antigo  maior e mais complexo que o outro, chegando 
a medir trs metros ou mais em alguns machos velhos numa nica estao. Mesmo quando sem chifre, no entanto, esses grandes exemplares da famlia dos cervdeos so 
maiores que os demais. O plo forte, os msculos desenvolvidos do lombo e do pescoo, capazes de suportar o peso da galhada monumental, contribuem para o seu aspecto 
temvel. Os cervos gigantes habitam nas a plancies. Os prodigiosos chifres seriam um estorvo na floresta, e mesmo no campo eles evitam a vegetao mais alta que 
arbustiva. Alguns desses animais morrem de inanio quando seus chifres se engancham de maneira inextricvel em galhos de rvores.
    Quando alcanaram o rio, Ayla e Jondalar pararam para estudar a rea e determinar o melhor stio para atravessarem. O rio era profundo e com correnteza, e grandes 
pedras imersas criavam cachoeiras. Examinaram as condies rio acima e rio abaixo, mas concluram que a natureza do curso d'gua parecia consistente naquela extenso 
toda. Finalmente, decidiram passar por um lugar relativamente livre de pedras.
    Desmontaram, os dois, amarraram as cestas que vinham na garupa, e guardaram as protees dos ps e os agasalhos que tinham usado no frio da manh. Jondalar tirou 
a camisa sem mangas que usava, e Ayla chegou a pensar em despir-se inteiramente para no ter, depois, de secar as roupas. Mas, ao experimentar a temperatura da gua 
com o p, desistiu. Estava acostumada  gua fria, mas aquela correnteza era fria como a gua na noite anterior que pela manh ficara com uma fina camada de gelo 
na superfcie. Mesmo molhados, a tnica macia de pele de gamo e as perneiras dariam alguma proteo.
    Os dois cavalos se mostravam agitados, recuando da margem molhada com passo saltitante, relinchando e batendo com a cabea. Ayla ps o cabresto e rdea em Huiin 
para ajud-la na travessia. Depois, vendo a crescente aflio da gua, abraou-lhe o pescoo emaranhado e falou com ela na linguagem privada que inventara quando 
viviam juntas no vale.
    Criara essa lngua de ocasio inconscientemente, baseada nos sinais complexos, mas principalmente nas poucas palavras que eram parte da linguagem do Cl, a que 
acrescentara os sons arbitrrios e repetitivos especficos que ela e o filho costumavam usar e a que ela dera sentido. Inclura tambm sons de cavalo, que aprendera 
a conhecer e imitar, mais um ou outro rugido de leo e, at, alguns pios de pssaros.
    Jondalar se voltou para ouvir. Embora estivesse acostumado com aquilo, no tinha ideia do que ela dizia. Ayla tinha uma inacreditvel facilidade para a imitao 
dos sons emitidos pelos animais  aprendera a lngua deles quando vivia sozinha, antes que ele a tivesse ensinado a falar outra vez , e achava que aquela linguagem 
tinha um sabor estranho, parecia coisa de outro mundo.
    Racer mexia com as patas e meneava a cabea, protestando com sons inarticulados. Jondalar falou com ele em voz tranquila, alisando-o e coando-o para acalm-lo. 
Ayla observava, notando como as mos maravilhosamente sensveis do homem exerciam um efeito instantneo no jovem cavalo agitado. Agradava-lhe ver a intimidade que 
se criara entre eles. Ento seus pensamentos se voltaram por um momento para o efeito que aquelas mos tinham sobre ela mesma e corou. A ela Jondalar no acalmava.
    Os cavalos no eram os nicos animais agitados. Lobo sabia o que estava para acontecer e no via com prazer nadar na gua fria. Ganindo e correndo para l e 
para c na barranca, sentou-se por fim, apontou o nariz para cima, e queixou-se num uivo lamentoso.
     Venha c, Lobo  chamou Ayla, curvando-se para afag-lo.  Voc est com um pouco de medo, no ?
     Ele vai nos causar problemas de novo, atravessando o rio?  perguntou Jondalar, agastado ainda com o lobo por t-lo perturbado e a Racer no caminho.
     Para mim ele no  problema. Est um pouco agitado, s isso. Como os cavalos  disse Ayla. Por que os temores perfeitamente compreensveis de Lobo aborreciam 
Jondalar se ela era to compreensiva com os do seu cavalo?
    A gua estava fria, mas os cavalos eram bons nadadores, e uma vez dirigidos, no teriam dificuldade para alcanar a margem oposta. Mesmo com Lobo no havia motivo 
de preocupao. Ele agitava-se e gania na margem, avanando para a gua fria e recuando algumas vezes, para finalmente mergulhar. Com o nariz alto, entrou atrs 
dos cavalos, com sua carga de cestas e embrulhos.
    Uma vez do outro lado, fizeram uma pausa para trocar de roupa e enxugar os animais. Depois prosseguiram. Ayla se lembrava de outras travessias que fizera sozinha, 
depois de deixar o Cl, e dava graas pelos fortes cavalos. Passar de uma margem a outra de um rio no era tarefa fcil. Pelo menos, atravess-lo quando viajava 
a p implicava sempre molhar-se. Com os cavalos, porm, eles podiam cruzar rios pequenos com pouco mais que um respingo ou outro, e mesmo rios caudalosos eram muito 
menos difceis.
    Continuaram para sudoeste, o terreno mudava. As colinas das terras altas, que se iam convertendo em morros  medida que se aproximavam das montanhas do lado 
do poente, eram cortadas pelos vales estreitos dos rios que tinham de atravessar. Jondalar achava que perdiam tanto tempo indo para cima e para baixo, pouco progrediam 
para a frente, mas os vales ofereciam bons terrenos para acampamento, ao abrigo dos ventos, e os rios forneciam gua numa terra em que ela era escassa.
    Detiveram-se no topo de uma elevao maior na rea central do plat que corria paralelo aos rios. Dali comandavam uma ampla vista em todas as direes. A no 
ser pela vaga forma cinzenta de montanhas para oeste, tudo era plano e desimpedido.
    A terra, rida, batida de vento, no podia ter sido mais diferente, as estepes, que se estendiam debaixo dos olhos dos dois cavaleiros numa monotonia de relva 
e campo ondulado, evocavam o mar, na sua regularidade sem feies. A analogia era at mais profunda. Por toda aquela uniformidade igual, a pradaria antiga, que o 
vento ondulava, era rica e variada e, como o mar, sustentava uma profuso de vida extica e variada. Criaturas estranhas, exibindo exageros de ornatos sociais biologicamente 
suntuosos, sob a forma de exuberantes chifres, galhadas, guedelhas, rufos e corcovas, dividiam as grandes estepes com outros animais de propores magnficas.
    Os gigantes peludos, mamutes e rinocerontes, resplendentes em seus casacos duplos de pele  longos plos soltos por cima dos plos curtos e quentes , com grossas 
camadas de gordura como sustentao, exibiam extravagantes trombas e exagerados chifres plantados no nariz. Cervos gigantes, enfeitados com chifres imensos, pastavam 
lado a lado com auroques, os esplndidos antepassados selvagens dos rebanhos plcidos de gado domstico, quase to pesados quanto o bisonte, com to grandes chifres. 
Mesmo os animais pequenos mostravam um tamanho que era resultado da riqueza das estepes. Havia gerbos e cricetos gigantescos, e; quilos terrestres dos maiores que 
se possam encontrar.
    As vastas pastagens tambm alimentavam vrios outros animais, muitos dos quais de propores realmente notveis. Cavalos, asnos, onagros dividiam espao e forragem 
na plancie; carneiros selvagens, camuras, e cabritos-monteses, no terreno mais elevado. Antlopes Saiga galopam pela pradaria. Florestas ciliares nos vales dos 
rios ou junto de lagos e as estepes e tundras ocasionalmente arborizadas hospedam cervos de todas as variedades, desde gamos cor de mel  que tm pintas brancas 
no vero  e cabritos-monteses at alces, cervos e renas  ditas alces e caribus quando migram para outras terras. Lebres e coelhos, camundongos e ratos-calungas, 
marmotas, esquilos terrestres e lemingues abundam. H tambm sapos, rs, serpentes e lagartos em grande nmero. Pssaros de todas as formas e tamanhos, de grandes 
garas a minsculos caminheiros contribuem com suas vozes e cores para compor o quadro. At insetos tm, a, o seu papel.
    Os grandes rebanhos, que pastam, mordiscam folhas ou comem sementes, so mantidos a distncia e sob controle pelos que comem carne. Os carnvoros so mais adaptveis 
a diferentes espcies de meio ambiente e podem viver onde quer que suas presas vivam, e alcanam na tundra e na estepe propores surpreendentes, dada a qualidade 
e abundncia de alimentos disponveis. Gigantescos lees das cavernas, com o dobro do tamanho dos seus futuros descendentes do sul, caavam os filhotes e adultos 
at dos herbvoros de grande porte, embora um mamute lanudo em pleno apogeu tivesse pouco a temer. A escolha habitual dos grandes felinos eram os grandes felinos 
eram os bisontes, auroques e veados. J lobos e hienas imensas selecionavam suas vtimas entre animais menores. Dividiam essa populao numerosa com linces, leopardos 
e pequenos gatos selvagens.
    Monstruosos ursos das cavernas, essencialmente vegetarianos e caadores de ambies limitadas, tinham o dobro do tamanho dos ursos menores, castanhos ou negros, 
que tambm preferiam uma dieta onvora, que muitas vezes inclua capim, embora o urso branco dos litorais gelados subsistisse de animais marinhos. Carcajus cruis 
e fures bravos reivindicavam sua cota de animais pequenos, inclusive roedores, muito frequentes na estepe, e o mesmo faziam martas, fuinhas, lontras, doninhas e 
arminhos, de plo ruivo no vero e alvssimo no inverno. Algumas raposas tambm ficavam brancas ou desse cinza opulento conhecido por azul, para condizerem com a 
paisagem hibernal e caarem melhor. guias fulvas e douradas, falces, gavies, corvos e corujas arrebatavam presas de pequeno porte, confiantes ou azaradas, enquanto 
que abutres e milhares pretos se alimentavam das sobras abandonadas por outros predadores no solo.
    A grande diversidade de animais que habitavam as estepes antigas, com seu rico suprimento de recursos de toda ordem, s se poderia manter num um meio de qualidade 
assim excepcional. Mas se tratava de uma terra fria, agreste, exigente, cercada por barreiras de gelo altas como montanhas e de tristes oceanos de gua congelada. 
Parecia contraditrio que um habitat assim hostil fornecesse a abundncia necessria  proliferao de tantos animais, mas, na verdade, aquele meio ambiente era 
o mais indicado. O clima frio e seco favorecia o crescimento de relva e inibia o aparecimento de rvores.
    rvores como o carvalho ou o espruce so essncias luxuriantes, mas precisam de tempo e umidade para o seu desenvolvimento. Matas podem alimentar e sustentar 
plantas e animais em grande variedade, mas rvores tm de sustentar a si mesmas e no encorajam a apario de animais grandes em maior nmero. Poucos animais alimentam-se 
de nozes ou fruto; outros, de folhas ou brotos, mas casca e madeira no so, em geral, comestveis, e se recuperam lentamente uma vez destrudos. A mesma energia 
e os mesmos nutrientes de solo empregados num volume igual de pastagem podem alimentar um nmero muito maior de animais, e a relva sempre se renova por si mesma. 
Uma floresta pode ser o exemplo perfeito de vida vegetal abundante e produtiva, mas foi a forragem que deu origem  abundante vida animal, e foram os prados que 
a sustentaram.
    Ayla no se sentia bem, mas no sabia por qu. Nada de especfico, s um sentimento de inquietao difuso. Antes de comearem a descida de uma alta colina, tinham 
visto a concentrao de grandes nuvens negras nas montanhas para o lado oeste, assim como relmpagos, e ouvido distantes troves. O cu acima de suas cabeas era 
de um azul lmpido e claro, e o sol estava ainda alto, embora j tivesse passado o znite. Era improvvel que chovesse nas proximidades, mas Ayla no gostava de 
trovoadas. Lembravam-lhe terremotos.
    Talvez seja porque minha lua vai comear num dia ou dois, pensou ela para espantar a ansiedade. Tenho de ficar com minhas tiras de couro  mo e a l de muflo 
que Nezzie me deu. Ela me disse que era a melhor forrao para usar em viagem, e tinha razo. O sangue sai fcil, depois, com gua fria.
    Ayla nunca tinha visto onagros e, absorta como estava com os prprios pensamentos, ia distrada morro abaixo. Os animais que via ao longe pareciam cavalos. Mas 
quando se aproximaram comeou a notar as diferenas. Aqueles eram ligeiramente menores, tinham orelhas mais compridas, e as caudas no eram soltas, de muito plo, 
mas curtas e finas, feitas do mesmo plo do corpo, com um tufo mais escuro na ponta. Tanto cavalos quanto onagros tinham crinas eretas, mas as dos onagros eram mais 
irregulares. A pelagem dos animais daquele pequeno bando era castanho-claro, ligeiramente avermelhada, no dorso e nos flancos, e mais plida, quase branca, no ventre, 
pernas e boca, mas tinham uma lista escura ao longo da espinha, e outra nas espduas, e vrias listas do mesmo tom escuro nas pernas.
    Ayla comparou a cor deles com a dos cavalos. Embora o pardo de Huiin fosse mais claro que a usual, parecido com amarelo-ouro, muitos cavalos das estepes tinham 
cor neutra, castanho-acinzentado, e em geral se pareciam com a gua. J o castanho-escuro do potro era incomum para a sua raa. A crina farta de Huiin era cinza-escuro, 
e essa cor se estendia at o meio do lombo e a cauda, comprida e solta. As pernas eram escuras tambm, quase pretas, e acima do joelho via-se apenas uma vaga sugesto 
de listas. O potro era escuro demais para que se percebesse facilmente a faixa negra que lhe corria ao longo da espinha, mas crina, rabo e pernas acompanhavam o 
modelo tpico.
    Para algum que entendesse de cavalos, a conformao geral do cor-dos animais que tinham diante dos olhos era um tanto diversa tambm Mesmo assim, pareciam cavalos. 
Ayla notou que at Huiin mostrava ais interesse do que de hbito, quando encontravam animais pelo caminho O rebanho deixara de pastar e parecia observ-los. Lobo 
tambm se interessara e assumira a sua postura de espera, pronto para lanar-se atrs deles, mas Ayla mandou que ficasse. Ela queria observar os onagros. Um deles 
emitiu um som, e ela percebeu outra diferena. Aquilo no era um relincho, mas uma espcie de bramido, estridente.
    Racer levantou a cabea e relinchou em resposta, depois, cuidadoso, esticou o pescoo para cheirar estrume fresco. Parecia com excremento de cavalo e cheirava 
igual, percebeu, cavalgando lado a lado com Jondalar. Huiin tambm cheirou os excrementos, e como o odor ainda a alcanasse, Ayla pensou detectar outro elemento 
nele, devido, possivelmente,  diversidade nas preferncias alimentares.
            So cavalos?
            No exatamente, Ayla. Os onagros esto para os cavalos como o alce para a rena ou o megcero. So onagros  explicou Jondalar.
            Nunca encontrei bichos desse tipo.
            Parece que gostam desse tipo de lugar  disse Jondalar, mostrando com a cabea as colinas rochosas e a esparsa vegetao da plancie rida, semidesrtica 
e alta por onde passavam. Os onagros no vm do cruzamento entre cavalos e burros, como pode parecer, mas so uma espcie distinta e vivel, com algumas caractersticas 
das outras duas, e bastante robusta. Podem subsistir numa dieta ainda mais rgida que a dos cavalos, comendo inclusive casca de rvore, folhas e razes.
    Quando se acercaram do rebanho, Ayla percebeu dois onagros jovens e no pde deixar de sorrir. Pareciam com Huiin quando pequena. Foi nesse momento que Lobo 
latiu para chamar-lhe a ateno.
            Muito bem, Lobo. Pode correr atrs dos... onagros  disse. A palavra, com que no estava familiarizada, custou a sair.  V!
    Alegrava-se com os progressos que a educao dele ia fazendo, mas Lobo ainda no gostava de ficar por muito tempo no mesmo lugar. Estava ainda muito cheio de 
entusiasmo e curiosidade, como todo filhote.
    Lobo ladrou e saiu aos saltos na direo da manada. Assustados, os animais partiram num galope sustentado, que logo deixou o jovem aprendiz de caador para trs. 
Logo Ayla e Jondalar, que vinham a trote, o alcanaram. Aproximavam-se de um amplo vale.
    Embora os vales de rios que carreavam o aluvio de montanhas em lenta eroso ainda se atravessassem no caminho deles, o terreno descia gradualmente para o delta 
do Rio da Grande Me e para o Mar de Beran. Como viajavam para o sul, o vero era cada dia sensvel, e ventos quentes causados pela passagem de depresses atmosfrica 
pelo mar contribuam para o aumento da temperatura da estao e para as pertubaes meteorolgicas.
    Os dois viajantes j no usavam roupas, s as intimas. Nem mesmo quando se levantavam. Ayla achava o ar fresco da manh bem estimulante o melhor perodo do dia. 
Mas as tardes eram quentes, mais do que de costume, pensava ela, sonhando com um riacho de guas frias, em que pudesse banhar-se. Olhou o homem que cavalgava alguns 
passos  sua frente. Estava nu da cintura para cima, usava apenas uma tanga. Tambm no tinha nada nas pernas. Os cabelos compridos, presos na nuca por uma correia, 
tinham fios mais claros, desbotados pelo sol, e eram escuros onde o suor os molhava.
    Podia ver, de tempos em tempos, seu rosto sem barba, a mandbula forte, o queixo bem definido. Ela ainda tinha um sentimento residual de que era bizarro ver 
um homem feito sem barba na cara. Ele lhe explicara uma vez que gostava de deixar a barba crescer no inverno, para esquentar o rosto, mas que sempre a tirava no 
vero, por ser mais fresco. Usava, para barbear-se toda manh, uma lmina especial bem fina, de slex que ele mesmo fazia, e que substitua sempre que preciso.
    Ayla tambm reduzira a indumentria a uma pea to sumria quanto a tanga de Jondalar. Ambas eram basicamente pedaos de couro macio passados entre as pernas 
e presos por uma corda passada na cintura. Jondalar usava uma tanga com a ponta de trs virada para dentro e a da frente solta, numa aba curta. A dela, igualmente 
presa  cintura com uma corda, era mais comprida um pouco e as duas extremidades ficavam soltas e puxadas para os lados, de modo a carem como uma espcie de avental, 
na frente e atrs. Parecia uma minissaia aberta dos lados. Montar sentada no couro mole e poroso era mais confortvel. E a pele de gamo lanada sobre o cavalo suado 
tambm ajudava.
    Jondalar se aproveitara da colina elevada para verificar onde estavam. Sentia-se contente com os progressos feitos, e mais confiante na Jornada. Ayla viu que 
ele parecia mais despreocupado tambm. Em parte por ter aprendido como dominar o potro. Embora j o tivesse montado antes, e mais de uma vez viajar lhe dava uma 
compreenso melhor do carter de Racer, suas preferncias, e hbitos. Dava tambm ao cavalo a oportunidade de aprender os seus. Mesmo os msculos sabiam agora ajustar-se 
aos movimentos do animal, e ele se acomodava melhor, o que era bom para os dois.
    Mas Ayla queria crer que a maior facilidade de montar no era a nica explicao para a postura dele, mais calma e natural. Havia menos tenso nos movimentos 
dele, e ela sentia que a sua sinceridade diminura Sem poder ver-lhe a expresso, imaginava que as rugas da testa teriam desaparecido, e que talvez ele estivesse 
disposto a sorrir. Gostava muito quando ele sorria e se mostrava brincalho. Via a maneira pela qual seus msculos se mexiam por baixo da pele bronzeada para responder 
 marcha de Racer com uma leve moo para cima e para baixo, e sentia nas faces um calor que tambm s a temperatura no explicava. E sorria consigo mesma. Era um 
grande prazer observ-lo.
    Para o ocidente, podiam ver ainda as montanhas erguendo-se, purpreas, no horizonte, com cumes de um branco cintilante que furavam as nuvens pesadas e escuras. 
Era raro verem picos nevados, e Jondalar estava encantado com o espetculo. O mais das vezes os topos das montanhas ficavam escondidos por nuvens de neblina que 
pareciam abrigos de arminho escondendo um segredo cintilante de que s permitiam vislumbrar aqui e ali alguma coisa, o que tornava o mistrio ainda mais desejvel.
    Ele tambm sentia calor e desejaria que estivessem mais perto daqueles picos nevados, pelo menos to perto quanto as habitaes dos Xaramudi. Mas quando viu 
o brilho de gua no vale embaixo e olhou o cu para conferir a posio do sol, decidiu acampar, embora fosse mais cedo que de costume. Viajavam num bom ritmo, mais 
rpido do que ele tinha previsto, e no sabia quanto tempo levariam para chegar a outra fonte de gua.
    A encosta exibia uma rica vegetao rasteira, com gramneas como o capim estipa, festucas e ervas misturadas a variedades de capins anuais de crescimento rpido. 
O subsolo frtil, de loess, servia de suporte a uma frtil terra preta, rica em restos de vegetais em decomposio, o que ensejava, at, o aparecimento de rvores. 
Essas, a no ser um pinheiro mirrado e ocasional lutando pela gua do subsolo, eram incomuns para a estepe naquela rea. Uma floresta em que se misturavam btulas 
e larios, e conferas que perdiam todas as folhas no inverno, marchava morro abaixo com os dois, com amieiros e chores completando os claros, embaixo. No sop 
da elevao, onde o solo se aplainava a alguma distncia da corrente gorgolejante, Ayla ficou surpresa de ver um ou outro carvalho-ano, algumas faias, e poucas 
tlias nos lugares mais abertos. No via tantas essncias de folha larga desde que deixara a caverna do Cl de Brun, na ponta bem irrigada da pennsula que se enfiava 
no Mar de Beran, ao sul.
    O riacho abria caminho, serpenteando, no fundo do vale, mas uma das suas margens passava rente a alguns salgueiros altos e finos, que eram uma extenso da encosta 
mais densamente arborizada do outro lado. Ayla e Jondalar gostavam de atravessar os rios que encontravam pelo caminho antes de acampar. Assim, no ficavam molhados 
logo que encetavam a viagem, de manh. Decidiram acampar junto dos salgueiros-chores. Cavalgaram por algum tempo ao longo do rio e a favor da corrente,  procura 
de um lugar favorvel  travessia. Encontraram um stio largo, pedregoso, vadevel, e voltaram.
    Enquanto armavam a barraca, Jondalar se viu absorto na contemplao de Ayla, do seu corpo quente e moreno. Pensava na sorte que tinha. No s ela era bonita 
 sua graa elstica, sua fora, a segurana dos seus movimentos, tudo lhe agradava , como era tambm uma boa companheira de viagem, contribuindo em p de igualdade 
com ele para o bem-estar comum. Embora se sentisse responsvel pela segurana da mulher e quisesse proteg-la, era reconfortante saber que podia tambm contar com 
Ayla. De certo modo, viajar com ela era como viajar com o irmo, Thonolan. Sentia-se responsvel por ele, antes. Era da sua natureza preocupar-se com aqueles a quem 
queria bem.
    Mas s at certo ponto. Quando Ayla levantou os braos para sacudir as cobertas, ele viu que a pele dela era mais clara na parte de baixo dos seios arredondados 
e quis comparar sua cor com a dos braos. No se deu conta que tinha o olhar fixo, mas sentiu isso quando ela o encarou. E quando seus olhares cruzaram, Ayla sorriu 
para ele.
    De sbito sentiu que tinha de fazer mais que comparar tons de pele Agradava-lhe saber que se quisesse partilhar Prazeres com ela naquele momento ela estaria 
de acordo. Havia conforto nisso tambm. O sentimento era forte, mas a urgncia no to premente, e s vezes esperar um pouco acrescenta alguma coisa  realizao. 
Podia pensar apenas, antegozando momento que havia de vir. Jondalar correspondeu ao sorriso dela.
    Aps se instalarem, Ayla quis explorar o vale. No era comum que encontrassem uma rea assim to densamente arborizada no meio da estepe, e ela estava curiosa. 
No via vegetao igual fazia anos.
    Jondalar queria explorar tambm. Depois da experincia deles com o urso no acampamento anterior, do bosque, gostaria de examinar o solo e ver se havia pegadas 
ou outros indcios da presena de animais indesejveis por perto. Com Ayla armada de funda e cesta para recolher plan tas, com seu prprio arco e duas lanas, Jondalar 
se encaminhou para os chores. Os cavalos ficaram na clareira, pastando, mas Lobo quis acompanh-los. As florestas eram coisa nova para ele, cheias de odores fascinantes.
    Longe da gua, os chores cederam lugar a amieiros. Em seguida, btulas combinadas com larios se amiudaram. Surgiram ainda pinheiros de bom tamanho. Ayla apanhou 
avidamente algumas pinhas, quando viu que se tratava da espcie que d pinhes grandes e deliciosos, altamente comestveis. Mais inusitadas para ela eram, porm, 
as rvores de folhas largas. Em uma rea ao p do aclive que levava ao vasto descampado acima havia uma fileira de faias.
    Ayla as examinou atentamente, comparando-as com a memria que tinha de rvores do mesmo tipo que cresciam junto da caverna onde morara quando criana. A casca 
era lisa e acinzentada; e as folhas, de lmina oval, estreitando em ponta no pice. Os bordos eram fortemente serreados, e a face inferior, branca e sedosa. As nozes, 
pequenas e marrons, fechadas na sua casca seca, no estavam ainda maduras, mas as bolotas e cascas que juncavam o cho e datavam da ltima estao mostravam que 
a messe fora abundante. Ela se lembrava de que era difcil abrir os invlucros. As folhas no eram to largas quanto as de que se lembrava, mas tinham, mesmo assim, 
tamanho respeitvel. Notou, ento, as estranhas plantas que cresciam debaixo das rvores e se ajoelho-se para v-las de perto.
     Voc vai apanhar essas a?  perguntou Jondalar.  Parecem mortas. Nem tm mais folhas.
     No esto mortas.  assim que elas crescem. Veja como esto frescas  disse Ayla, quebrando a ponta superior de um dos talos, lisos e despidos, com pequeninos 
galhos em toda a sua extenso. A planta era avermelhada e sem brilho, inclusive nos botes. Nada havia nela de verde.
     Elas nascem da raiz de outras plantas  disse Ayla , como as que Iza costumava pr nos meus olhos quando eu chorava, s que as outras eram brancas e um tanto 
lustrosas. Havia gente que tinha medo delas, pois tinham a cor da pele de defunto. Eram at chamadas...  refletiu por um momento...  de alguma coisa como planta 
de defunto ou planta de cadver.
    Alguma coisa assim  disse ela.
    Ficou fitando o espao enquanto se lembrava.
            Iza pensava que meus olhos eram fracos porque lacrimejavam, e isso a aborrecia.  Ayla sorriu com a memria do fato.  Ela apanhava uma dessas plantas
brancas e espremia o suco do talo diretamente nos meus olhos. Se, por exemplo, eles ardiam por ter chorado muito, o remdio sempre os aliviava.  Ayla se calou por
alguns minutos, depois acrescentou, abanando a cabea de leve:  No estou segura de que estas plantas sejam mesmo boas para os olhos. Iza as usava para pequenos 
cortes e machucados. Para alguns tumores, tambm.
     Como se chamam?
     Acho que se chamam... Qual  o nome desta rvore, Jondalar?
     No sei com certeza. No acredito que cresam perto de onde nasci. Mas o nome dela em Xaramudi  "faia".
     Ento, poderiam ser chamadas "gotas de faia"  disse ela, pondo-se de p e esfregando as mos uma na outra para livr-las do p.
    Repentinamente, Lobo estacou, de focinho apontado para a mata espessa. Jondalar lembrou-se de que ele assumira essa mesma postura no episdio do urso, e estendeu 
a mo para pegar uma lana. Encaixou-a no sulco do seu arremessador, uma pea de madeira mais curta do que ela, que era mantida na horizontal com a mo direita. 
Ajustou o oco da extremidade mais grossa da lana no entalhe que havia na parte posterior do lanador. Depois, ps os dedos nas duas alas da frente da arma, um 
pouco aqum do meio da lana, para mant-la no lugar enquanto deitada na superfcie do lanador. Tudo isso foi feito bem rpido e sem esforo, e ele ficou com os 
joelhos ligeiramente flexionados, pronto para o arremesso. Ayla tambm tinha suas pedras  mo e estava preparada para usar a funda. Lamentava agora no ter trazido 
tambm seu prprio atirador de lanas.
    Abrindo caminho atravs da rala vegetao rasteira, Lobo correu para uma rvore. Houve uma comoo no p da faia e um pequeno animal correu tronco acima. Apoiado 
nas patas traseiras, como se pretendesse subir atrs dele, Lobo latia com vigor.
    Agora a comoo era na copa da rvore. Olhando para cima, viram a pelagem negra e brilhante e as longas formas sinuosas de uma marta das faias, que caava o 
esquilo. O pobre, que julgava ter escapado subindo na rvore, protestava aos gritos. Lobo no era, ento, o nico a julg-lo digno de interesse. O grande animal, 
parecido com a doninha, com meio metro de comprimento e uma cauda peluda que lhe acrescentava cerca de trinta centmetros s suas dimenses, tinha, porm, maiores 
chances de sucesso. Passando de galho em galho, na rama da rvore, era to gil e leve como a presa que caava.
            Acho que o esquilo no tem como se livrar dessa situao  disse Jondalar, vendo o desenrolar do drama.
     Talvez ainda escape  disse Ayla.
     Duvido muito. No apostaria nada nele.
    O esquilo fazia um barulho infernal. Os gritos roucos e excitados de um gaio aumentavam a confuso. E logo uma sombria estridente dos salgueiros lhe fez coro. 
Lobo no se continha, precisava entrar na refrega. Lanando a cabea para trs, soltou um longo uivo. O pequeno esquilo iou-se at a extremidade de um galho. Ento, 
para surpresa dos que o observavam, saltou no ar. Abrindo bem as pernas, esticou a larga aba de pele dos flancos do corpo, juntou as patinhas dianteiras e traseiras 
e desceu pairando no ar.
    Ayla prendeu a respirao ao v-lo desviar-se de galhos e rvores. A cauda felpuda funcionava como leme, e, mudando sua posio e a das pernas, o que alterava 
a tenso sobre a membrana com a qual planava, o esquilo conseguia manobrar de modo a no bater em nada e descia numa larga curva macia. Tinha por alvo uma rvore 
a alguma distncia e ao chegar perto dela, deu uma cambalhota, aterrissou no tronco e grinpou por ele a grande velocidade. Quando alcanou uns galhos altos, deu 
meia-volta, e desceu, de cabea para a frente, ancorando-se na casca com as unhas das patas traseiras. Parou, olhou em volta, depois enfiou-se num oco da rvore. 
O salto espetacular e a queda livre livraram-no da captura, embora nem sempre aquele processo surpreendente tivesse xito.
    Lobo permanecia apoiado com as patas dianteiras contra a rvore e procurava o esquilo que lhe escapara com tamanha habilidade. Deixou-se cair no cho, ps-se 
a farejar a vegetao rasteira, e logo saiu em perseguio de outra coisa.
     Jondalar! Eu no sabia que os esquilos voavam  disse Ayla com um sorriso maravilhado.
     Eu poderia ter ganhado uma aposta com voc, pois j ouvira falar disso. Mas nunca tinha visto o prodgio. No acreditava que fosse possvel. As pessoas sempre 
falam de esquilos voando  noite, mas para mim pensei que estivessem tomando morcegos por esquilos. Mas esse bicho ai no era, certamente, um morcego.  E com um 
sorriso enviesado.  Agora vou ser um dos contadores de histrias em que ningum acredita.
     Ainda bem que foi s um esquilo  disse Ayla, com um calafrio percorrendo-lhe o corpo. Olhando para cima, viu que uma nuvem escondia o sol. Sentiu um arrepio 
nas costas a despeito de no estar fazendo realmente frio.
     Lobo saiu correndo atrs do qu?
    Sentindo-se um tolo por reagir to vivamente a uma ameaa apenas imaginria, Jondalar relaxou um pouco a presso no arremessador de lanas que empunhava, mas 
no o soltou de todo.
     Podia ser um urso  disse ele.  Principalmente com toda essa mata a.
     E comum haver arvores nas cercanias de nos, mas no via arvores assim to grandes desde que deixei o Cl. No lhe parece estranha tamanha concentrao?
     Sim, no me parece comum. Este lugar me lembra a terra dos Xaramuidi, mas isso fica mais para o sul e para alm daquelas montanhas que vemos no rumo oeste, 
e junto do Donau, o Rio da Grande Me.
    De sbito Ayla estacou onde estava. Dando uma cotovelada em Jondalar, apontou em silncio. Ele no viu logo o que chamara a ateno dela, mas percebeu, depois, 
o ligeiro movimento de uma pelagem vermelha como a da raposa, e viu as pontas em tridente dos chifres de um veado. A agitao que Lobo fizera, e seu cheiro, tinham-no 
paralisado. Ficou escondido no mato, e imvel, a ver se havia motivo para temer um ataque do predador. Quando ele se fora, trotando, o veado avanara, com cautela. 
Jondalar tinha ainda a arma na mo. Ergueu-a bem devagar, mirou, e acertou a lana na garganta do animal. O perigo que ele temera surgiu de uma direo inesperada. 
A lana atingiu-o em cheio. Ele deu ainda alguns passos incertos, tentando fugir, mas tombou por terra.
    A fuga do esquilo e a viso da desastrada marta foram logo esquecidas. Jondalar atravessou o pequeno espao que o separava do veado, com Ayla o acompanhando. 
Ela virou o rosto quando ele cortou a garganta do animal para acabar com ele. Depois se ps de p.
     Que teu esprito, Veado-Mateiro, retorne  Grande Me Terra e Lhe d graas por nos ter dado um da tua espcie a comer  disse, com simplicidade.
    Ayla, a seu lado, aquiesceu de cabea. Depois, foi ajud-lo a esfolar e decepar a caa do jantar.

7
___________________________________________________________________________

     E uma pena deixar a pele. D um couro to macio  disse Ayla, depois de guardar o ltimo pedao de carne na sua bolsa de pele de bfalo.  E voc viu que beleza
a pele daquela marta?
     Mas no temos tempo para curtir couro nem podemos levar muito mais conosco do que j temos  disse Jondalar. Ele estava ocupado em armar a trpode na qual 
a bolsa com a carne ficaria suspensa.
     Eu sei. Mesmo assim,  uma pena.
    A carne foi iada e ficou em segurana. Depois Ayla se dirigiu  fogueira, pensando na comida que estava preparando, embora no se visse nada. A pea do veado, 
temperada com ervas, assava num forno enterrado, com cogumelos, folhas novas de samambaia em forma de bculo, e razes de tbuas que tinha colhido, tudo envolto 
em folhas de unha-de-cavalo. Ela ps mais pedras aquecidas em cima da camada de terra com que cobrira o buraco. Levaria tempo para assar, e ela se alegrava de que, 
tivessem conseguido carne fresca to cedo. Assim, podia prepar-la daquela forma, mtodo de sua preferncia, pois a comida ficava saborosa; e tenra.
            Faz calor, e o ar est pesado e mido. Acho que vou at o rio para me refrescar um pouco. Aproveitarei para lavar o cabelo. Vi umas razes na mata que 
funcionam como sabo. Voc vem nadar?
            Sim, mas s se voc me arranjar bastante dessas razes de sabo         disse Jondalar, com os olhos azuis apertados por um sorriso. Mostrava-lhe uns 
fios de cabelo louro sujo que lhe tinham cado na testa.
    Caminharam lado a lado pela margem larga e arenosa do rio, seguidos de Lobo, que entrava e saa do mato, a explorar novos odores. Depois passou-lhes a frente 
e desapareceu numa curva.
    Jondalar notou as marcas que os cascos dos cavalos e as patas de Lobo tinham deixado quando da primeira visita.
            Fico pensando que concluses tiraria uma pessoa dessas pegada         disse, rindo.
            O que pensaria voc?
     Se as marcas de Lobo estivessem ntidas, eu diria que um lobo estava seguindo dois cavalos, mas em alguns lugares  bvio que as pegadas dos cavalos se sobrepem 
s do lobo, de modo que ele no podia vir-lhes no encalo. Ia emparelhado com eles. Isso confundiria um rastreador, Ayla.
     Mesmo se as pegadas de Lobo estivessem bem ntidas  disse Ayla , eu me perguntaria por que um lobo estaria seguindo dois cavalos. As marcas indicam que so 
dois cavalos novos e fortes, mas veja como as impresses so fundas, veja a posio dos cascos. V-se que eles carregavam peso.
     Isso tambm confundiria um rastreador.
     Oh, l esto elas  disse Ayla, apontando para as plantas, altas e um tanto desgrenhadas, que vinha procurando. Tinham flores rosa plido e folhas mucronadas. 
Com a vara de cavar, logo soltou algumas razes que tirou da terra.
    A caminho da barraca, procurou uma pedra achatada e outra redonda para esmagar a raiz saponcea e libertar a saponina, que, na gua, produziria uma espuma leve 
e abundante. Numa de suas curvas, o rio havia formado, no muito longe do acampamento, uma piscina natural com gua fresca e agradvel. Depois de se lavarem, exploraram 
um pouco o rio, de leito rochoso, nadando ou caminhando dentro d'gua, rio acima, at serem obrigados a voltar. Uma pequena cachoeira espumejante e diversas corredeiras 
impediam o progresso rio acima. E nesse ponto paredes do vale se estreitavam e ficavam mais ngremes.
    Avia se lembrou do riacho do seu prprio vale, com uma queda- dgua semelhante quela. J as elevaes do resto da rea traziam-lhe  memria os contrafortes 
da montanha junto da caverna em que fora criada. Por  l tambm havia uma cascatinha menor, tranquila e musgosa, que a conduzira a uma gruta pequena. Ela passara 
a consider-la propriedade sua e, mais de uma vez, lhe oferecera refgio.
    Deixaram que a correnteza os levasse, jogando gua um no outro, e rindo todo o tempo. Ayla adorava o som do riso de Jondalar. Ele sorria muito, mas procurava 
manter sempre uma postura sria e composta. Mas quando o fazia, sua risada era to vigorosa, calorosa e exuberante que causava surpresa.
    Quando saram da gua e se secaram ainda fazia calor. A nuvem escura que Ayla vira antes desaparecera do cu acima das cabeas deles, mas o sol baixava em direo 
a uma escura massa acumulada para oeste e cujo movimento laborioso e pesado era posto em relevo por outra camada esfiapada e leve, que corria celeremente debaixo 
dela na direo oposta. Assim que a bola de fogo se escondesse por trs das nuvens escuras em camadas por cima da cadeia de montanhas do horizonte, esfriaria depressa. 
Ayla procurou pelos cavalos e os viu numa campina aberta no alto do aclive, a alguma distncia do acampamento, mas ao alcance de um assovio. Lobo no estava em lugar 
nenhum. Explorando ainda rio abaixo, pensou ela.
    Ayla tirou o pente de marfim de dentes compridos e uma escova feita das cerdas duras do mamute, que Deegie lhe dera, depois retirou a pele de dormir da tenda 
e estendeu-a do lado de fora, para sentar-se nela enquanto se penteava. Jondalar sentou-se ao lado dela e comeou a pentear os prprios cabelos embaraados com um 
pente de trs dentes, o que no era fcil.
     Deixe que eu faa isso, Jondalar  disse ela, ajoelhando-se por trs dele. Soltou os fios longos da sua cabeleira loura e lisa, um pouco mais clara que a sua, 
admirando-lhe a cor. Quando mais jovem, seu cabelo fora quase branco, mas ficara aos poucos mais escuro e parecido com o plo de Huiin, com seus brilhos de cinza 
e de ouro.
    Jondalar fechou os olhos enquanto Ayla o penteava, mas ciente da quente presena dela junto do seu corpo. A pele nua de Ayla roava contra a sua de vez em quando, 
e assim que ela deu o servio por terminado, ele sentia um calor que no provinha apenas do sol.
     Agora  a minha vez de pente-la  disse, pondo-se de p para Postar-se atrs dela. Ayla pensou em recusar-se. No era preciso. Ele no tinha de faz-lo s 
porque ela o penteara. Mas quando Jondalar lhe ergueu do pescoo a pesada trana e a deixou correr entre seus dedos, Ayla aquiesceu.
    Os cabelos dela tinham uma tendncia a enrolar-se em caracis e empacavam com facilidade, mas ele tinha cuidado, soltando cada n sem puxar muito. Depois escovou-lhe 
os cabelos at ficarem macios e quase secos. Ela tambm fechou os olhos, sentindo um deleite estranho que lhe dava arrepios. Iza costumava pente-la quando ela era 
pequena, desembaraando o emaranhado com um bastozinho comprido, liso, e pontudo, mas nenhum homem jamais o fizera. O fato de que Jondalar a penteasse fez com que 
se sentisse mimada e querida.
    E ele descobriu que gostava de fazer aquilo, de pentear e escovar os cabelos de Ayla. Aquele tom de ouro velho era como trigo maduro, mas com realces quase brancos, 
que o sol desbotara. Era uma bela cabeleira, to farta e macia que toc-la lhe dava um prazer sensual. Queria mais. E quando, por fim, acabou, e ps o pente no cho, 
tomou nas mos as tranas, ainda ligeiramente midas, e afastando-as para os lados, comeou a beijar os ombros de Ayla e a nuca.
    Ela continuou de olhos fechados, sentindo o formigamento provocado pelo hlito quente de Jondalar e pelos seus lbios quando lhe tocaram o pescoo. Ele lhe mordeu 
a nuca de leve, acariciou-lhe os braos, depois deu a volta para segurar os dois seios, sopesando-os um pouco para sentir seu peso gostoso e substancial e os firmes 
bicos duros na palma da mo.
    Quando se debruou para beijar-lhe tambm a garganta, Ayla levantou a cabea e se voltou um pouco. Sentiu ento o membro de Jondalar rijo e quente contra as 
suas costas. Virou-se, ento, de todo, e segurou-o nas mos, gozando a maciez da pele que o cobria. Pondo ento uma das mos adiante da outra, ficou a mov-las firmemente 
para cima e para baixo. Jondalar se viu tomado por um mundo de sensaes, que se intensificaram alm de qualquer medida quando sentiu a quentura molhada da boca 
de Ayla, que o engolia.
    Com um suspiro explosivo, ele cerrou os olhos, deixando que as sensaes corressem pelo seu corpo. Depois os entreabriu para observar, e no pde resistir  
tentao de alisar os belos cabelos que lhe cobriam o regao. Quando ela introduziu todo o pnis na boca, Jondalar achou que no conseguiria conter-se mais e teria 
de render-se num momento. Mas queria esperar, queria o requintado prazer que lhe dava dar Prazer a ela. Adorava faz-lo, adorava saber que era capaz disso. Estava 
quase disposto a desistir do seu prprio Prazer para dar Prazer a ela. Quase.
    Sem saber muito bem como aquilo acontecera, Ayla se viu deitada de costas sobre a pele em que dormiam, com Jondalar estirado ao seu lado. Ele a beijou. Ela abriu 
a boca um pouco, o bastante para permitir a penetrao da lngua dele, e lanou os braos em torno do pescoo dele. Gostava da sensao dos seus lbios colados firmes 
nos dela, com a lngua a lhe explorar delicadamente a boca.
    Ento, Jondalar se afastou um pouco e a encarou.
            Sabe o quanto a amo?
    Ayla sabia que aquilo era verdade. Estava estampado nos olhos incrivelmente azuis do olhar acariciante dele, que, mesmo de longe, lhe davam arrepios. Eles exprimiam 
a emoo que com tanto afinco Jondalar procurava manter sob controle.
            Sei o quanto eu o amo  respondeu.
     Ainda no acredito que voc esteja aqui comigo e no na Reunio de Vero, como companheira de Ranec.
    A esse pensamento... quase a perdera para o cativante escultor de le morena, que to bem trabalhava o marfim... apertou-a contra o peito com arrebatamento.
    Ayla tambm o apertou com fora, contente que seu longo inverno de mal-entendidos chegara ao fim. Amara Ranec, sim  ele era um homem bom e teria sido um bom 
companheiro , mas no era nenhum Jondalar. Seu amor por esse homem alto que a tinha nos braos agora era algo que seria incapaz de explicar.
    Com o temor de perd-la aliviado, e sentindo o corpo quente de Ayla a seu lado, foi invadido por um desejo to forte quanto o sentimento anterior. E logo a devorava 
de beijos, no pescoo, nos braos, nos seios, como se nunca pudesse saciar-se dela.
    Depois parou e respirou fundo. Queria que aquilo durasse, e queria usar toda a sua competncia para dar-lhe o melhor possvel  e era capaz disso. Aprendera 
com algum que sabia, e com mais amor do que a mulher devera ter sentido. Jondalar desejara agradar, e mais do que aprender. Aprendera to bem que no seio do seu 
povo corria uma pilhria a seu respeito: dizia-se que era perito em dois ofcios: era tambm um excelente fabricante de ferramentas de slex.
    Jondalar contemplou Ayla, embevecido com o ritmo da sua respirao, adorando a viso dela, feliz com o simples fato da existncia dela. Sua sombra a cobria, 
protegendo-a do calor do sol. Ayla abriu os olhos e viu o cu. O sol por trs dele brilhava atravs dos cabelos louros que lhe punham uma aurola em torno da cabea. 
Ayla o desejava, estava pronta para ele, mas quando Jondalar sorriu e se curvou para beijar-lhe o umbigo, ela fechou os olhos outra vez e se entregou, sabendo o 
que ele desejava e os Prazeres que era capaz de faz-la sentir.
    Ele acariciou-lhe os seios, depois correu as mos pelo seu corpo, at a cintura e a opulenta curva das cadeiras, descendo em seguida para a coxa. Ayla se arrepiou 
a esse toque. Ele foi com a mo  parte interna da coxa, apalpando a maciez especial ali plantada, e alisando os anis de pelo dourado da sua testa. Acariciou-lhe, 
depois, o ventre e beijou-lhe o umbigo outra vez, antes de voltar aos seios e chupar-lhe os dois mamilos. As mos dele pareciam um fogo brando, quente e maravilhoso, 
que a deixava arder de excitao. Ele a afagou toda de novo, e a sua pele se lembrava de todos os lugares que ele tocara.
    Ele a beijou na boca e, ento, bem devagar, beijou-a nas plpebras e as mas do rosto, no queixo e na curva da mandbula, depois beijou-lhe a orelha. Acariciou-lhe 
os seios de novo e depois segurou-os bem junto um do outro, deleitando-se com o suave volume deles, com o delicado sal da pele dela, com a sensao que essa pele 
lhe dava. E seu prprio desejo crescia. Lambeu um mamilo, depois o outro. Ayla sentia a pulsao crescer quando ele os sugava. Ele explorava cada bico de seio com 
a lngua, empurrando-o para dentro, puxando-o, mordiscando de leve, depois pegava o outro com a mo e fazia a mesma coisa.
    Ayla se apertava contra ele, entregando-se s sensaes que lhe percorriam o corpo e concentravam-se naquela sede do prazer profunda que sentia. Com a lngua 
quente, Jondalar encontrou mais uma vez o umbigo, e como se um vento leve soprasse na sua pele ele roou a barriga em volta e desceu para a macia l encaracolada 
do pbis, depois, por um rpido momento, tocou-lhe a fenda ardente e o ponto mximo do seu Prazer. Ayla ergueu os quadris e gritou.
    Ele se aninhou entre as suas pernas e abriu-a com as mos para ver  sua quente rosa, com suas ptalas e refolhas. Mergulhou nela com a boca para prov-la  conhecia 
aquele sabor e gostava dele , depois no esperou mais e cedeu ao desejo de explor-la fundo. Com a lngua encontrou as dobras que lhe eram familiares, enfiou-a 
na fonte, e alaria por fim, o boto pequeno e firme.
    Enquanto o mordia, lambia, e chupava, ela gritava vrias vezes, respirando cada vez mais depressa, com a sensao num crescendo. Todo sentimento se voltara para 
dentro. E no havia sol, nem vento, s a intensidade cada vez mais aguda dos sentidos. Ele sabia que o clmax se aproximava, e embora s a custo se contivesse, afrouxou 
a presso e recuou, esperando retirar-se em tempo. Mas Ayla o puxou, incapaz de suportar mais tempo aquela espera. Jondalar podia ouvir os gemidos de gozo que ela 
dava na antecipao da plenitude.
    De sbito, chegou, as ondas poderosas invadiram-na e sacudiram e com um grito convulsivo a engolfaram. Ela rebentou num espasmo de supremo alvio e com ele veio 
o indescritvel desejo de ter o membro; Jondalar dentro dela. Ento estendeu as mos para pux-lo.
    Ele sentiu o esguicho e a umidade, sentiu a urgncia em que ela estava e, dirigindo o membro com a mo enterrou-a no poo profundo e acolhedor. Ela o sentiu 
enfiar-se no seu ventre e soergueu-se um pouco para receb-lo melhor. As dobras quentes dela o envolveram, e Jondalar a penetrou at o fundo, sem temor de que as 
dimenses do seu membro fossem mais do que Ayla poderia receber.
    Retraiu-se, sentindo o requintado prazer do movimento, e, com completo abandono, penetrou-a de novo, profundamente, ao mesmo  tempo em que ela erguia a coxa 
contra o corpo dele. Por pouco no gozou. Mas a intensidade da sensao decresceu, ele pde retirar-se uma vez mais, e enfiar-se outra vez, e outras mais. E a cada 
investida a sensao aumentava. Pulsando ao ritmo dos movimentos dele, Ayla o sentia inteiro, saindo, entrando. E estava cega para qualquer outra sensao.
    Ouvia a respirao dele, e a sua, e os seus gritos misturados. Ento, ele proferiu o nome dela, ela ergueu o corpo para encontrar o dele, numa grande ruptura 
extravasante sentiram um orgasmo comparvel ao sol faiscante ao despejar seus ltimos raios sobre o vale, e tombar exausto atrs das nuvens escuras, debruadas de 
ouro brunido.
    Depois de mais algumas derradeiras investidas, ele se aquietou, sentindo as formas harmoniosas de Ayla debaixo do corpo. Ela gostava muito desse momento com 
ele, de sentir o peso dele. Que no achava nunca demasiado. Era apenas uma presso agradvel e uma proximidade que lhe aquecia o sangue enquanto descansavam.
    De sbito, uma lngua quente lambeu seu rosto e um nariz frio se ps a explorar a intimidade deles.
     V embora, Lobo!  disse, expulsando o animal.  Saia j daqui!
     Saia, Lobo!  disse Jondalar com aspereza, juntando seu comando ao de Ayla, e empurrando o focinho gelado. Mas o encanto fora rompido Saindo de cima dela e 
rolando para um lado, ele se sentia um tanto contrariado. Mas se sentia to bem que no podia zangar-se.
    Erguendo-se em um dos cotovelos, Jondalar ficou olhando o animal, que recuara alguns passos e estava sentado a observ-los, arfando, de lngua de fora. Podia 
jurar que Lobo sorria, e sorriu, por sua vez, para a mulher amada.
     Voc tem deixado que ele fique. Acha que ser capaz de ensin-lo a ir embora quando voc quiser?
     Vou tentar.
     D muito trabalho ter Lobo em volta da gente  disse Jondalar.
            Sim, custa algum esforo, principalmente por ser ele to jovem. Os cavalos tambm do trabalho, mas vale a pena. Eu gosto da companhia deles. So amigos 
muito especiais.
    Pelo menos, pensou o homem, os cavalos do algo em troca. Huiin e Racer os levavam s costas, e tambm a bagagem. Por causa deles, a Jornada no levaria tanto 
tempo. Mas, a no ser levantando alguma caa ou fazendo voar alguma ave, Lobo no contribua com grande coisa. Jondalar decidiu, porm, guardar esses pensamentos 
para si.
    Com o sol escondido agora por trs das nuvens negras e agitadas, que desmaiavam a olhos vistos, tornando-se lvidas, com um ligeiro toque de prpura, como se 
o movimento as tivesse contundido, esfriou rapidamente no vale umbroso. Ayla se ergueu e mergulhou no rio outra vez. Jondalar a acompanhou. Muito tempo atrs, quando 
menina, Iza, a curandeira do Cl, lhe ensinara os rituais de purificao da feminilidade, embora duvidasse que sua afilhada, estranha e... ela mesma o admitia... 
feia, viesse um dia a ter necessidade deles. No entanto, por obrigao, devia explicar-lhe, entre outras coisas, como fazer depois de ter estado com um homem. Salientou 
que, sempre que possvel, a purificao pela gua era muito importante para o totem da mulher. Lavar-se, por mais fria que fosse a gua, era um ritual de que Ayla 
jamais se esquecia.
    Os dois se enxugaram e se vestiram, puseram as peles de dormir de volta no interior da barraca, e reanimaram o fogo. Ayla removeu a terra e as pedras de cima 
do forno enterrado e, com pinas de madeira, tirou de l a comida. Depois, e enquanto Jondalar arrumava de novo sua bagagem, ela fez preparativos para facilitar 
a partida, neles incluindo os que diziam respeito a sua refeio matinal de alguma coisa da vspera, comida fria, e o ch quente de ervas. Ela fazia ch com frequncia, 
procurando variar os ingredientes, tendo em vista o gosto e a necessidade.
    Os cavalos retornaram quando os ltimos raios de sol coloriram o cu. Eles comiam durante parte da noite, uma vez que viajavam tanto de dia e precisavam de grandes 
quantidades do spero capim da estepe para aguentar-se. Mas a relva do prado fora especialmente substanciosa e verde, e eles gostavam de ficar junto do fogo  noite.
    Enquanto esperava que as pedras esquentassem, Ayla contemplava o vale  luz derradeira do crepsculo, acrescentando s suas observaes os conhecimentos adquiridos 
durante o dia: as encostas escarpadas que desciam abruptas para o vale aberto, com seu riacho serpenteando pelo  meio. Era um vale frtil, que lhe lembrava sua infncia 
com o Cl, mas no gostava do lugar. Alguma coisa a deixava inquieta, e essa impresso, se acentuou com a chegada da noite. Sentia-se um pouco indigesta, e tinha 
dores nas costas. Atribua sua inquietao aos ligeiros desconfortos que sentia quando o seu perodo lunar se aproximava. Gostaria de andar um pouco, o que em geral 
ajudava, mas j estava muito escuro.
    Ficou escutando o vento que suspirava e gemia e fazia oscilar os salgueiros esguios, recortados em silhueta contra as nuvens de prata. A lua cheia tinha um halo 
perfeitamente ntido e ora se escondia, ora iluminava brilhantemente o cu, de textura macia. Ayla resolveu que um pouco de ch de casca de salgueiro a aliviaria 
e logo se levantou para arranjar alguma. Enquanto se ocupava com isso, decidiu tambm que apanharia algumas varas flexveis de salgueiro, que so como o junco.
    Quando o ch ficou pronto e Jondalar se reuniu a ela, a noite esfriara. Estava mido tambm, a ponto de precisarem de agasalhos. Sentaram-se junto da fogueira, 
contentes de terem ch quente. Lobo rondara Ayla a tarde inteira, acompanhando cada passo dela, mas pareceu contente por enrodilhar-se aos seus ps quando ela se 
acomodou finalmente perto do fogo, como se tivesse dado por encerradas as exploraes do dia. Ayla apanhou as longas varas de salgueiro e comeou a tec-las.
            O que est fazendo?  perguntou Jondalar.
     Uma cobertura para a cabea. Proteo contra o sol. Tem feito  muito calor ao meio-dia  explicou Ayla. E, depois de uma curta pausa.  Achei que voc gostaria 
disso.
     Voc est fazendo o chapu para mim? Como descobriu que eu desejei o dia inteiro ter algo que me protegesse do sol?
     Uma mulher do Cl aprende a antecipar os desejos do seu homem.  Ayla sorriu.  Voc  o meu homem, no?
     Sem nenhuma dvida, minha mulher do Cl. E vamos anunciar isso a todos os Zelandonii na seo Matrimonial da primeira Reunio de Vero de que participarmos. 
Mas como  que voc sabe antecipar desejos? E por que as mulheres do Cl tm de aprender a fazer isso?
     No  difcil. Basta apenas pensar em algum. Fez calor hoje, e tive a ideia de fazer uma cobertura para a cabea... um chapu de sol...  para mim. Ento pensei 
que devia estar quente para voc tambm?disse, apanhando outro junco para acrescentar ao chapu cnico que comeava a tomar forma.
     Os homens do Cl no gostam de pedir nada, principalmente se  alguma coisa para o conforto deles. No  considerado msculo pensar em conforto, de modo que 
cabe  mulher adivinhar a necessidade do homem. Ele a protege dos perigos. Pois essa  a maneira que ela tem de proteg-lo, em retribuio. A mulher deve cuidar 
para que ele tenha roupa apropriada e que se alimente bem. Ela no deseja que qualquer mal lhe acontea. Quem a protegeria e aos filhos?
      isso que voc est fazendo? Protegendo-me para que a proteja? __ perguntou ele, rindo.  E aos seus filhos?   luz do fogo, os olhos azuis dele tinham uma 
tonalidade escura, violeta, e brilhavam de malcia.
     Bem, no exatamente  disse ela, baixando os olhos para as mos.  Acho que  assim que a mulher do Cl faz ver ao homem o quanto ela se importa com ele, quer 
tenha filhos, ou no.  Ela ficou olhando as prprias mos, no seu movimento rpido, embora Jondalar sentisse que poderia fazer aquilo de olhos vendados. Poderia 
fazer aquele chapu no escuro. Ayla pegou outra vara comprida, depois o olhou nos olhos.
            Mas eu quero ter outro filho antes de ficar velha demais.
     Pois tem ainda muito tempo pela frente  disse ele, pondo mais um pedao de madeira no fogo.  Voc  jovem.
     No, j estou ficando velha. J tenho...  Fechou os olhos para concentrar-se, apertando os dedos contra a perna, e recitando baixinho os nmeros que ele lhe 
havia ensinado, a fim de verificar consigo mesma a palavra correta para o nmero de anos que j vivera  ...dezoito!
     To velha assim!  Jondalar deu uma risada.  Eu tenho vinte e dois. Eu  que sou velho, ento.
     Se levarmos um ano viajando, j terei dezenove anos quando chegarmos a sua casa. No Cl, isso j seria quase velha demais para dar  luz um filho.
     Muitas mulheres Zelandonii tm filhos com essa idade. Talvez no o primeiro, mas o segundo ou terceiro. Voc  ainda forte e saudvel. No acho que esteja 
velha demais para ter filhos, Ayla. Mas vou dizer-lhe uma coisa. H momentos em que seus olhos parecem antigos, como se voc tivesse vivido muitas vidas nos seus 
dezoito anos.
    Era uma coisa to inusitada Jondalar dizer aquilo que ela interrompeu o trabalho para encar-lo. O sentimento que provocava nele, olhando-o assim, era quase 
assustador. Era to bela  luz do fogo, e ele a amava tanto, que no sabia o que haveria de fazer se alguma coisa lhe acontecesse algum dia. Aflito, ele desviou 
a vista. Depois, para aliviar a tenso do momento, tentou um assunto mais leve.
    Eu  que devo pensar em idade. Aposto que serei o mais velho dos homens no Matrimonial  disse. Depois riu.  Vinte e trs anos  muita idade para um homem 
se casar pela primeira vez. Muitos da minha idade j tm vrios filhos.
    Ele a encarou, e ela pde ver de novo aquele olhar de amor assoberbante e de temor tambm.
            Ayla, tambm quero um filho, mas no enquanto estamos viajando. No antes que estejamos de volta e seguros. No por enquanto.
            No por enquanto  repetiu Ayla.
    Ela trabalhou em silncio por algum tempo, pensando no filho que deixara com Uba, e em Rydag, que fora como seu filho sob muitos aspectos. Ambos perdidos para 
ela. Mesmo Nenm, que era, por estranho  que isso parecesse, uma espcie de filho tambm. Pelo menos, o leozinho fora o primeiro animal macho que ela encontrara 
e criara. Ele a deixar. Ela nunca mais o veria. Olhou com alarme para Lobo. Teve um medo repentino de vir a perd-lo tambm. Fico pensando, disse consigo mesma, 
por que o meu totem tira todos os meus filhos de mim? Talvez eu no tenha sorte com filhos.
     Jondalar, seu povo tem costumes especiais relacionados com o fato de desejar filhos? As mulheres do Cl querem filhos homens.
     No que eu saiba. Acho que as mulheres gostam de dar filhos  sua gente, mas parece que preferem ter filhas primeiro.
     E voc, de que gostaria? Um dia, no futuro?
    Ele se virou para estud-la  luz do fogo. Ayla lhe parecia apreensiva;
            No tenho preferncia. Ser como voc quiser, ou como a Grande Me determinar.
    Agora foi a vez de ela estud-lo. Queria ter certeza de que ele falava srio.
            Se  assim, vou querer uma menina. No desejo perder outro menino.
    Jondalar no sabia o que ela queria dizer com isso, e no respondeu.
            Tambm no quero que voc perca nenhum filho.
    Ficaram sentados, quietos, por algum tempo. Ela tecia os chapus. De repente, Jondalar perguntou.
     E se voc tiver razo? Se os filhos no forem dados por Doni? E se eles comearem, como voc acredita, com os Prazeres compartilhados? Voc poderia ter um 
beb comeado a no ventre agora mesmo, sem saber disso.
     No, Jondalar. No posso. Meu perodo est comeando, e voc sabe que nessas circunstncias os bebs no comeam  explicou.
    No costumava falar de coisas assim to ntimas com um homem mas Jondalar sempre fora natural com ela. No era como os homens Cl. L, uma mulher precisava ter 
o cuidado de no olhar diretamente para um homem quando passava pelo seu perodo de maldio. Mas mesmo que ela o quisesse, no poderia isolar-se ou evitar Jondalar 
enquanto viajavam, e sentiu que precisava tranquiliz-lo. Ficou tentada, por um momento, a contar-lhe do remdio secreto que vinha tomando para combater quaisquer 
essncias impregnadoras, mas se sentiu incapaz de faz-lo. Ayla era incapaz de mentir  como Iza tinha sido , mas. a no ser quando confrontada por uma pergunta 
direta, podia calar sobre o assunto. Se no provocasse o tema, era improvvel que um homem o fizesse ou imaginasse que ela estaria fazendo alguma coisa para no 
engravidar. Muita gente nem imaginaria que mgica to poderosa existisse.
     Est segura?
     Sim, estou. No tenho nenhum beb crescendo dentro de mim ou comeado.
    Ele pareceu aliviado. Ayla tinha os chapus quase prontos quando sentiu alguns chuviscos. Apressou-se para conclu-los. Levaram tudo para dentro da barraca, 
exceto a bolsa de couro cru de bfalo dependurada dos mastros. At Lobo, todo molhado, pareceu feliz de enrodilhar-se aos ps de Ayla. Ela deixou a parte de baixo 
da porta da barraca aberta para ele, se precisasse sair, mas fechou a abertura do teto por onde saa a fumaa porque chovia com maior intensidade. Eles se aconchegaram 
um ao outro no comeo, mas depois cada um rolou para o seu lado. Ambos dormiram mal.
    Ayla se sentia ansiosa e o corpo lhe doa. Procurou, assim mesmo, no se mexer muito para no incomodar Jondalar. Ouvia o tamborilar da chuva no couro da barraca, 
mas isso no a ajudou a conciliar o sono como em geral acontecia. Depois de muito tempo, comeou a desejar ardentemente que amanhecesse para poder levantar-se e 
partir.
    Jondalar, depois de saber com alvio que Ayla no fora abenoada por Doni com uma criana, comeou a imaginar se havia alguma coisa errada com ele. Ficou acordado 
pensando se o seu esprito ou qualquer outra essncia que Doni tirava dele no seria suficientemente forte, e se a Me lhe perdoara as indiscries da mocidade e 
permitiria que fizesse filhos.
    Talvez a culpa fosse dela. Ayla havia dito que queria uma filha. Mas depois de todo aquele tempo juntos no estava grvida. Talvez no pudesse conceber. Serenio 
nunca tivera outro... a no ser que estivesse esperando quando ele partiu... De olhos abertos, no escuro, ele ficou refletindo se alguma das mulheres que havia conhecido 
tinha dado  luz e se o beb nascera de olhos azuis.
    Ayla subia, subia, por um paredo de pedra, como o ngreme aclive que levava  sua caverna do vale. S que este era muito mais comprido que o outro, e ela tinha 
de correr. Olhou para baixo, para o pequeno rio que fazia uma curva naquele lugar, mas no era um rio, e sim uma queda-dgua, que tombava em cascata, espadanando 
gua para todos os lados por cima de rochas pontudas, cuja aspereza um rico limo verde amenizava.
    Ela olhou para cima, e l estava Creb! Ele acenava para ela, pedia que se apressasse. Depois voltou-lhe as costas e continuou a subir tambm apoiando-se pesadamente 
no seu cajado, conduzindo-a por um aclive quase vertical, mas praticvel para uma pequenina gruta encravada em uma parede de pedra escondida por moitas de aveleiras. 
Acima da gruta, no topo do penhasco escarpado, havia um bloco chato de pedra debruado sobre o abismo e pronto para cair.
    De sbito, ela se viu no interior da caverna, andando por um corredor comprido e estreito. Havia uma luz! Um archote com sua chama convidativa, depois outras, 
e outras mais e, em seguida, o bramido terrificante de um terremoto. Um lobo uivou. Ela sentiu uma vertigem, caiu, e Creb entrou na sua cabea.
            V embora!  Depressa! Saia agora mesmo!
    Ela se sentou na cama de um golpe, jogou as cobertas no cho e correu para a porta da barraca.
            Ayla! O que aconteceu?  perguntou Jondalar, procurando agarr-la.
    De sbito, houve um relmpago, to brilhante que pde ser visto atravs da pele da barraca, e no s no vo deixado aberto para Lobo ou no outro, destinado  
sada de fumaa. Foi seguido, quase que de imediato, por um enorme estrondo. Ayla deu um grito, e Lobo uivou, do lado de fora.
     Ayla, Ayla! Tudo bem  disse Jondalar, abraando-a.  Fe s um raio.
     Temos de ir embora! Ele disse que nos apressssemos. Ir embora j!
     Quem disse? No podemos sair daqui. Est escuro. E chove.
     Creb. No meu sonho. Tive aquele sonho outra vez, com Creb! Foi ele quem disse. Vamos, Jondalar. Temos de andar depressa.
     Ayla, acalme-se. Foi apenas um sonho e, provavelmente, a tempestade. Escute. Chove muito, l fora. Voc no vai querer sair numa chuva dessas. Vamos esperar 
at o amanhecer.
     No, Jondalar. Eu tenho de ir. Creb me disse isso, e no suporto este lugar. Por favor, Jondalar. Depressa.
    As lgrimas escorriam pelo rosto dela, embora Ayla no se desse conta disso, enquanto metia as coisas nas cestas.
    Ele decidiu fazer o mesmo. Por que no? Era bvio que ela no ia esperar at o amanhecer, e ele jamais conseguiria dormir de novo. Pegou suas roupas, enquanto 
Ayla abria o couro que servia de porta da barraca. A chuva caa como se algum a derramasse de uma bolsa d'gua. Ayla saiu e deu um assobio, alto, longo. Ele foi 
seguido de um uivo de lobo. Depois de esperar um pouco, ela comeou a arrancar do cho as estacas da barraca.
    Podia ouvir as patas dos cavalos e sentiu um grande alvio ao v-los. O sal das lgrimas era lavado pela forte chuva. Estendeu a mo para Huiin, sua amiga, que 
viera ter com ela, e abraou o pescoo forte e encharcado da gua, e sentiu que o animal, assustado, tremia. Ela sacudia o rabo e fazia pequenas evolues com passos 
curtos. Ao mesmo tempo, virava a cabea e apurava os ouvidos, tentando localizar e identificar a causa da sua apreenso. O medo do cavalo ajudou Ayla a controlar-se. 
Huiin precisava dela. Falou ao animal com voz medida, alisando-a e tentando tranquiliz-la. Depois sentiu que Racer se apoiava nelas, mais apavorado que a me.
    Procurou acalm-lo, mas ele comeou a recuar, com o mesmo passo curto e danante de Huiin. Ela os deixou e correu  barraca, para apanhar os arreios e a carga. 
Jondalar j havia enrolado as peles de dormir e preparado sua prpria bagagem quando ouviu o rudo dos cascos, e tinha  os arreios e o cabresto de Racer consigo.
     Os cavalos esto apavorados, Jondalar  disse Ayla, entrando.   Acho que Racer est a ponto de escapar. Huiin se acalmou um pouco, mas tambm ela tem medo, 
e Racer a deixa ainda mais nervosa.
    Jondalar apanhou o cabresto e saiu. O vento e a chuva torrencial envolveram-no e quase o derrubaram. Chovia tanto que era como se ele estivesse debaixo de uma 
cachoeira. Era ainda pior do que havia pensado. No demoraria muito e a barraca teria ficado inundada, o cho encharcado e as peles em que dormiam tambm. Ainda 
bem que Ayla havia insistido em que se levantassem e partissem.  luz de um novo relmpago, viu que ela lutava para colocar as cestas da bagagem no lombo de Huiin. 
O potro estava junto delas.
     Racer! Venha c  chamou. Um grande trovo soou, ribombante, como se os cus se partissem. O cavalo empinou e soltou um relincho, depois comeou a andar em 
crculos, errticos, no mesmo lugar. Rolavam os olhos, de que s se viam as esclerticas. As narinas vibravam, a cauda vergastava o ar violentamente, e ele virava 
as orelhas em todas as direes, procurando localizar a fonte dos seus temores, mas eles eram inexplicveis e estavam a toda volta, o que era terrvel.
    Embora alto, Jondalar teve dificuldade em pr os braos em torno do pescoo de Racer para faz-lo descer, falando todo o tempo a fim de acalm-lo. Havia uma 
grande confiana mtua entre eles, e suas mos e sua voz exerciam sobre o animal um efeito tranquilizante. Jondalar conseguiu pr-lhe o cabresto e, segurando as 
correias do arns, desejou que outro daqueles espantosos relmpagos seguidos de trovo esperasse um pouco pelo menos para cair sobre eles.
    Ayla foi apanhar o restante dos seus pertences na barraca. Lobo estava atrs dela, embora no o tivesse notado antes. Quando ela recuou para sair, Lobo ganiu, 
comeou a correr para a mata de salgueiros, depois voltou, e latiu outra vez.
     J vamos, Lobo  disse ela e, depois, para Jondalar.  J tirei tudo. Apressemo-nos!  E, correndo para Huiin, ps tudo o que carregava em uma das cestas.
    A aflio de Ayla era contagiosa, e ele tinha medo que Racer no aguentasse mais tempo quieto. No desmontou a barraca como costumava fazer. Arrancou simplesmente 
as estacas de madeira, puxando-as pela abertura de fumaa central, enfiou-as numa cesta, depois dobrou grosseiramente os couros ensopados e enfiou-os junto com as 
estacas. O cavalo continuava a rolar os olhos, assustado, e recuou quando Jondalar o pegou pela crina, a fim de montar. Isso dificultou a operao, mas Jondalar 
se instalou em cima dele e no se deixou derrubar quando o cavalo empinou. Agarrou-se com os dois braos em torno do pescoo de Racer e no caiu.
    Ayla ouviu um longo uivo de lobo e um estranho rumor surdo ao montar Huiin e se voltou para ver que Jondalar estava firme na sela. Logo que Racer se acalmou, 
ela se debruou para a frente, instando com Huiin para que partisse. A gua saiu logo, a galope, como se estivessem no seu encalo e como se, a exemplo de Ayla, 
quisesse sair o mais depressa possvel daquele lugar. Lobo ia  frente, aos saltos, rompendo atravs da macega, com Jondalar e Racer logo atrs. O ronco ameaador 
era agora mais forte.
    Huiin rompeu a toda brida atravs do vale, desviando-se de rvores saltando obstculos. De cabea baixa, com os braos em volta do pescoo da gua, Ayla deixava 
que ela escolhesse o caminho. No podia ver nada devido  escurido e  chuva, mas sentia que iam no rumo da encosta que levava  estepe acima. De repente, um relmpago 
clareou por um segundo o vale. Estavam nas florestas de faias, e o talude no ficava longe. Ela virou-se para ver Jondalar e ficou boquiaberta.
    As rvores por trs dele se moviam! Antes que a luz morresse vrios pinheiros altos se inclinaram precariamente, depois ficou escuro. Ela no percebera que o 
estrondo se fizera maior, mas agora via que o rudo da queda das rvores e, at, o dos troves era engolido pelo ronco terrvel, e nele se dissolvia.
    Estavam na encosta. Ayla sabia, pela alterao no passo de Huiin que galgavam um aclive, embora ainda no pudesse ver nada. Confiava-se aos instintos da gua. 
O animal tropeou uma vez, firmou-se. Depois saram da mata e alcanaram uma clareira. Havia nuvens passando velozes, na chuva. Deviam estar no prado onde os cavalos 
tinham pastado, pensou. Jondalar a alcanou e se emparelhou com ela. Tambm estava debruado sobre o pescoo do cavalo, embora fosse escuro demais para distinguir 
mais que a silhueta dos dois, negra contra um fundo escuro.
    Huiin diminuiu o passo, e Ayla sentiu a respirao ofegante da gua A mata do outro lado da campina era rala, e Huiin j no galopava como antes, esquivando-se 
das rvores numa velocidade infernal. Ayla se endireitou melhor em cima dela, mas sem deixar de segurar-se ao pescoo da montaria. Racer passara  frente, mas tambm 
diminuiu o passo agora, e logo estavam lado a lado outra vez. A chuva amainava. As rvores cediam lugar a arbustos, depois  vegetao rasteira. Ento a subida acabou, 
e a estepe se abriu  frente deles. A escurido era a mesma, porm apenas amenizada um pouco por nuvens que uma lua invisvel clareava por trs atravs das cortinas 
da chuva.
    Pararam, e Ayla desmontou para que Huiin descansasse. Jondalar se juntou a ela, e ficaram os dois, lado a lado, tentando em vo enxergar alguma coisa embaixo, 
na treva. Havia relmpagos, mas longnquos, e os troves que lhes sucediam tambm eram remotos, agora.
    Em estado de estupor, contemplavam o abismo negro do vale, sabendo que uma grande destruio estava em curso e que haviam escapado a um terrvel desastre, se 
bem que no soubessem ainda as suas propores.
    Ayla sentia um formigamento no couro cabeludo e ouvia pequeninos estalos. Sentia um cheiro acre de oznio. Era um odor peculiar de coisa queimada, mas no por 
fogo, no por coisa assim to terra-a-terra. De sbito lhe ocorreu que aquilo devia ser o cheiro dos riscos de fogo no cu. Abriu, ento, os olhos tomada de espanto 
e temor e, num momento de pnico, agarrou-se a Jondalar. Um pinheiro muito alto, com razes na encosta, embaixo, mas protegido da ventania por uma projeo do penhasco 
rochoso, e cujo topo via acima do nvel da estepe, brilhava com uma luz azul, fantasmagrica.
    Jondalar prendeu-a nos braos, querendo proteg-la, mas sentia as mesmas coisas que ela, os mesmos terrores, e sabia que esses fogos do outro mundo escapavam 
ao seu controle. Podia apenas apert-la contra o peito. E a, num espetculo aterrador, um raio dardejou pelas nuvens, dividiu-se numa rede de dardos flamejantes, 
desceu com um claro cegante e atingiu o pinheiro, iluminando o vale e a estepe como se fosse meio-dia. Ayla estremeceu com o estampido, to alto que lhe deixou 
os ouvidos tinindo. Encolheu-se toda quando o ronco do trovo reverberou no cu. Naquele momento de suprema claridade, viram a destruio de que tinham escapado 
por pouco.
    O verde vale estava devastado. Todo o nvel inferior era um turbilho confuso. Do outro lado, um deslizamento da encosta empilhara rochas e rvores arrancadas 
pela raiz por sobre as guas revoltas, deixando no flanco da colina uma ferida exposta de solo vermelho.
    A causa desse desastre torrencial era um conjunto de circunstncias no de todo incomuns. Comeara nas montanhas a oeste e com depresses atmosfricas sobre
o mar interior. Um ar quente, carregado de umidade, subira e se condensara em grandes nuvens bojudas debruadas de branco pelo vento, que tinham ficado estacionrias 
por cima das colinas rochosas. O ar quente se vira, ento, invadido por uma frente fria, e a turbulncia da combinao resultante criara uma tempestade acompanhada 
de troves e raios de intensidade excepcional.
    As chuvas caram dos cus intumescidos, derramando-se em declives e buracos que jorraram em riachos, saltaram por cima de rochas, e irromperam em torrentes de 
grande impetuosidade. Ganhando momentum, as aguas tumultuosas, alimentadas pelo dilvio ininterrupto, precipitaram-se das colinas a pique, caram por cima de barreiras, 
e tombaram sobre outras correntes, com elas formando verdadeiros muros de gua de uma violncia devastadora.
    Quando a massa de gua chegou  calha estreita e verdejante, cobriu a cachoeira e, com um rugido feroz, engolfou o vale inteiro. Mas a luxuriante depresso reservava 
uma surpresa para as guas escachoantes. Naquele perodo geolgico, vastos movimentos ssmicos estavam levantando a superfcie, elevando o nvel do pequeno mar interior 
e abrindo caminhos para um mar ainda maior, que se formaria para o sul. Nas ltimas dcadas, o soerguimento fechara o vale, formando uma bacia rasa, que o rio enchera, 
criando um pequeno lago para alm da represa natural.
    Um escoadouro se abrira, porm, havia poucos anos, e drenara o pequeno reservatrio, deixando hmus bastante para um vale luxuriante no meio da estepe seca.
    Um segundo deslizamento de lama, rio abaixo, danificara outra vez o escoadouro, represando as guas da inundao e confinando-as no vale, o que provocou uma 
gigantesca marola. Para Jondalar aquele espetculo mais parecia uma cena de pesadelo. No conseguia acreditar nos prprios olhos. O vale inteiro se convertera num 
redemoinho turbulento e selvagem de barro e pedras, que jogavam para a frente e para trs, carregando consigo pequenos arbustos e at rvores inteiras, arrancadas 
do cho, e estilhaadas pelo entrechoque.
    Nada poderia ter sobrevivido naquele lugar, e ele se arrepiou ao pensar o que teria acontecido se Ayla no acordasse e insistisse em partir de imediato. Duvidava 
que tivessem conseguido escapar, mesmo assim, sem os cavalos. Olhou em volta. Estavam, os dois, de p, cabea baixa, pernas abertas, to exaustos como imaginava 
que estariam. Lobo estava junto de Ayla. Quando sentiu que Jondalar o observava, levantou a cabea e soltou um uivo. Lembrou-se de que um uivo de lobo o tinha despertado 
pouco antes de Ayla.
    Houve um novo relmpago, seguido de trovo, e ela estremeceu violentamente nos seus braos. Ainda no estavam fora de perigo. E estavam molhados, com frio, tudo 
o que tinham ficara encharcado, e em meio daquela planura, acossados pela tempestade, no sabia onde encontrar abrigo.

8
___________________________________________________________________________

    O pinheiro grande, abatido pelo raio, ardia, mas a resina quente, que alimentava o fogo, tinha de enfrentar a chuva, e as chamas crepitavam, mas davam pouca 
luz. Bastante, no entanto, para clarear os contornos gerais da paisagem em volta. No havia muito onde se pudessem esconder, exceto no abrigo de poucos arbustos 
junto de uma vala transbordante que devia ficar seca a maior parte do ano.
    Ayla olhava a escurido do vale, embaixo, como que mesmerizada pela cena que tinham visto fugazmente. Mas a chuva recrudesceu encharcando-lhes as roupas j molhadas 
e levando a melhor, afinal, na luta contra o fogo da rvore.
     Vamos, Ayla  disse Jondalar.  Temos de encontrar algum refgio e sair desta chuva. Voc est com frio. Eu tambm. E estamos, os dois, molhados at os ossos.
    Ela continuou a olhar o vale, depois estremeceu.
     Ns estvamos l embaixo.  E, olhando para Jondalar.  Teramos morrido se fssemos apanhados no vale.
     Mas samos em tempo. Agora, precisamos achar um refgio. Se nos aquecermos logo, de nada adiantar termos escapado com vidaavisou ele.
    Com a ponta da rdea de Racer na mo, marchou para o matagal. Avia chamou Huiin e o seguiu, com Lobo trotando a seu lado. Quando chegaram  vala, viram que os 
arbustos baixos levavam a outros, mais altos que pareciam pequenas rvores, mais longe do vale, j na estepe, e caminharam para l.
    Abriram caminho pelo meio da densa concentrao de salgueiros. O solo em torno dos muitos troncos esguios das rvores, de um verde prateado, estava encharcado, 
e a chuva passava pelas folhas estreitas, mas no com tanta fora. Limparam um recanto, depois retiraram a carga dos cavalos. Jondalar tirou da cesta o grande volume 
da barraca molhada para sacudi-lo. Ayla disps as estacas em torno da minscula clareira e ajudou a esticar as peles que constituam a barraca por cima deles. Estavam 
ainda ligadas ao couro que servia para forrar o cho. Era uma construo improvisada, mas s desejavam isso naquele momento: um abrigo contra a chuva.
    Trouxeram a bagagem para o abrigo, forraram o cho com folhas e estenderam por cima das folhas as suas peles de dormir no muito secas. Tiraram ento a roupa, 
torcendo-a nas mos, e estendendo-a em galhos para secar. Por fim, deitaram-se agarrados um ao outro e aconchegaram as pelicas ao corpo. Lobo entrou, sacudiu-se 
vigorosamente, espirrando gua por toda parte. Mas isso pouco importava, nas circunstncias. Os cavalos da estepe, com sua pelagem farta e hirsuta, preferiam mais 
o inverno frio a uma tempestade de vero como aquela, mas estavam acostumados ao ar livre. Ficaram juntos um do outro, encostados s pequenas rvores, e deixaram 
que a gua lhes casse em cima.
    No interior do abrigo mido, molhados demais para pensar em acender um fogo, Ayla e Jondalar, embrulhados em pesadas peles, deixaram-se ficar, embolados. Lobo 
se enrodilhou em cima das pelicas, achegando-se o mais que pde a eles. Assim, seu calor combinado acabou por aquec-los. Ayla e Jondalar dormitaram um pouco, mas 
nenhum dos dois dormiu realmente. Pela madrugada a chuva diminuiu um pouco, e seu sono ento ficou mais profundo.
    Ayla ficou algum tempo  escuta, sorrindo consigo mesma, antes de abrir os olhos. Em meio  cacofonia de vozes de pssaros que a havia acordado, distinguira 
as notas agudas e elaboradas do canto de um sombrio. Ouviu em seguida um melodioso gorjeio que parecia ir ficando cada vez mais alto. Mas quando quis descobrir a 
fonte desse trinado, teve de procurar muito at dar com a pequenina cotovia discreta e castanha. Ayla virou-se na cama para observ-la.
    A cotovia caminhava pelo cho com naturalidade e rapidez, equilibrando-se muito bem nas suas grandes garras, depois balanava a cabea cristada e voltava com 
uma lagarta no bico. Com passos curtos, saltitantes, ela ia at uma parte nua do solo, junto de uma moita de salgueiros, e logo um grupo de recm-nascidos e filhotes 
camuflados aparecia, j de boca aberta para receber a delicada pitana. Logo outra ave, semelhante  primeira, porm mais sem-graa, e quase invisvel contra terra 
pardacenta da estepe, apareceu com um inseto de asas. Enquanto ela enfiava a presa numa das bocas abertas, a outra ave levantou vo em   crculos at quase se perder 
de vista. Mas sua presena no se perdeu. Ele subiu numa espiral esplndida de canto.
    Ayla assobiou baixinho a melodia, reproduzindo os sons com tal perfeio que a ave me parou de revolver o cho em busca de alimentos e se voltou na sua direo. 
Ayla assobiou de novo, aborrecida por no ter nada que oferecer ao pssaro, como costumava fazer quando vivia no vale e comeara a imitar cantos de aves. Quando 
se tornou perita, as aves vinham se ela chamava, quer lhes desse algumas sementes quer no, e lhe faziam companhia naqueles dias de solido. A me cotovia veio ver 
quem invadira seu territrio, mas como no encontrou nenhuma outra cotovia, voltou a dar comida aos filhotes.
    Frases assobiadas, repetitivas, mais harmoniosas ainda, e mais suaves, terminando com um som, uma espcie de cacarejo exultante, acirraram o interesse de Ayla 
ainda mais. Um galo silvestre j era de propores razoveis, e faria uma excelente refeio. O mesmo se podia dizer das pombas-rolas, pensou, observando essas aves, 
que muito fazem lembrar os tetrazes. Nos ramos mais baixos deu com um simples ninho de gravetos em que havia trs ovos brancos. S depois viu a rolinha, rechonchuda, 
de pernas curtas, cabea pequena, e bico curto. A densa plumagem macia, era marrom plido, quase rosa, e as asas e o dorso, riscados como um casco de tartaruga, 
luziam com pontos iridescentes.
    Jondalar rolou na cama, e Ayla se virou para admir-lo estendido a seu lado, respirando no ritmo profundo do sono. Conscientizou-se ento da necessidade que 
sentia de levantar-se para urinar. Tinha medo de acord-lo, e detestava fazer isso, mas quanto mais procurava pensar em outra coisa, mais urgente ficava a necessidade. 
Movendo-se devagar, pensou, talvez ele no despertasse, e procurou sair com cuidado das peles  quentes, se bem que ainda um pouco midas, em que se tinham enrolado. 
Ele fungou, bufou, e rolou sobre si mesmo. Mas s abriu os olhos quando procurou por ela com a mo e no a achou.
            Ayla? Ah, voc est a.
            Dorme, Jondalar.  cedo para levantar  disse, rastejando para fora, a fim de aliviar-se no mato.
    A manh era clara e fresca, e o cu, de um azul violeta, no tinha sinal de nuvem. Lobo se fora, em misso de caa ou de explorao. Os cavalos tambm se haviam 
afastado. Estavam na orla do vale, como observou. O sol estava ainda baixo, mas j subia vapor do cho molhado, e Avia sentiu a umidade quando se agachou para urinar. 
S ento notou as marcas vermelhas na parte interna das coxas. Era o perodo, pensou. Estava para acontecer. Teria de lavar-se e lavar as roupas de baixo, mas precisava 
antes de mais nada da l de muflo.
    O riacho estava cheio pela metade apenas, mas a gua era limpa. Lavou as mos, curvada, fez uma concha com elas para beber, mais de uma vez  a gua estava fria 
, e correu de volta para a barraca. Jondalar estava de p e sorriu quando ela foi apanhar uma das cestas, no lugar protegido em que estavam debaixo da fronde das 
pequenas rvores. Ayla puxou-a para fora e comeou a remexer nela. Jondalar tirou as suas, que eram duas, e foi apanhar o restante das coisas. Queria ver os estragos 
da chuva. Lobo reapareceu e foi direto at onde estava Ayla.
     Voc me parece muito contente  disse ela, afagando-lhe a l do pescoo, to farta que parecia uma juba. Quando parou, ele saltou no seu peito com as patas 
enlameadas. Alcanava-lhe quase os ombros e por pouco no a derrubou. Mas Ayla conseguiu equilibrar-se.
     Lobo! Olhe s todo esse barro!  disse ela, enquanto ele lhe lambia a garganta e o rosto. Depois, com um rosnado surdo, abriu a boca, prendendo-lhe o queixo. 
Malgrado toda essa impressionante exibio de ferocidade canina, fez aquilo com a maior delicadeza e cuidado, como se lidasse com um filhote. Os dentes no feriram. 
Sequer deixaram marca. Ela enfiou de novo as mos na sua coleira de plos, empurrou-lhe a cabea para trs, e respondeu  devoo que via nos olhos dele com tanto 
afeto quanto o animal demonstrava. Em seguida, pegando-lhe o focinho, deu-lhe uma mordida de brincadeira, imitando um rosnado.
     Agora, sente-se, Lobo! Veja a sujeira que fez. Vou ter de lavar mais isso.  Escovou a blusa de couro, solta e sem mangas, que usava por cima das perneiras.
     Se eu no conhecesse a situao, ficaria muito assustado quando ele faz isso com voc. Afinal, Lobo j est grande. E  um caador. Pode matar algum.
     No se preocupe porque Lobo faz isso comigo.  assim que os lobos se cumprimentam uns aos outros, e demonstram sua afeio. Acho que ele tambm se rejubila 
por termos sado do vale em tempo.
            Voc j olhou l para baixo?
            Ainda no... Lobo, saia da  disse, empurrando-o, quando ele comeou a cheirar entre suas pernas.   a lua.  E, desviando o rosto e corando:  Vim 
apanhar minha l, e no tive ainda tempo de olhar o vale.
    Enquanto Ayla se cuidava, lavando-se e s roupas no riacho, atando a l com as correias de couro que usava para isso, e  procura de outras roupas para vestir, 
Jondalar caminhou at a beira do vale, para urinar, e contemplou. No havia sinal do acampamento ou de qualquer lugar que pudesse servir para acampar. A bacia natural 
do vale estava parcialmente imunda. Arvores, troncos cados, e outros dbris boiavam e afundavam, enquanto o nvel das guas agitadas continuava a subir. O pequeno 
rio continuava bloqueado no escoadouro e ainda originava marolas, agora no mais com a violncia da noite anterior.
    Ayla se postou em silncio ao lado de Jondalar, que observava o vale e refletia. Levantou a vista quando sentiu a presena dela.
     Esse vale deve estreitar-se mais abaixo, e alguma coisa est bloqueando o rio, Ayla. Pedras provavelmente, ou um deslizamento de encosta.  isso que represa 
a gua aqui. Talvez por isso seja to verde o  vale. Isso deve ter acontecido antes.
    A simples inundao nos teria arrastado se continussemos acampados  disse Ayla.  Meu vale costumava ficar inundado toda primavera, e era bem ruim, mas isto 
aqui...  No pde completar o  pensamento por lhe faltarem palavras. De forma insensvel, recorreu a linguagem de sinais do Cl para expressar com maior eloquncia 
e exatido seus sentimentos de consternao e de alvio.
    Jondalar entendeu. Ele tambm no sabia o que dizer e partilhava dos sentimentos dela. Ambos quedaram, mudos, observando o movimento embaixo. Ayla percebeu que 
Jondalar parecia preocupado. Por fim, ele falou.
            Se a avalanche de lama, ou o que seja, ceder muito depressa, essa gua toda, descendo pelo rio, pode ser muito perigosa. Espero que no encontre gente 
pelo caminho.
            No pode ser mais perigosa do que na noite passada. No ?
            Chovia a noite passada, de modo que as pessoas podiam espera alguma coisa, como uma inundao, mas se esse dique se romper, sem o aviso prvio de uma 
tempestade, pode apanhar as pessoas de surpresa o que ser catastrfico.
    Ayla concordou, depois disse:
            Mas se as pessoas usam este rio no percebero que ele paro de correr? No iro investigar por qu?
    Jondalar se voltou para ela.
            E ns, Ayla? Ns estamos viajando, no tnhamos como saber que um rio deixara de correr. Poderamos estar rio abaixo em algum lugar como este e no 
teramos nenhum aviso.
    Ayla contemplou de novo a gua no vale e no respondeu de imediato.
            Tem razo, Jondalar  disse por fim.  Poderamos ser apanhados em outra inundao sem aviso. Ou o raio poderia ter cado sobre ns em vez de atingir 
aquele pinheiro. Ou um terremoto poderia abrir uma fenda no solo, engolindo todo mundo, menos uma menininha, deixando-a sozinha no mundo. Ou algum pode ficar doente, 
nascer com uma fraqueza ou deformidade. O Mamute disse que ningum pode saber quando a Me vai chamar para junto de Si um dos seus filhos. De nada adianta ficar 
refletindo sobre essas coisas. Cabe a Ela decidir.
    Jondalar ouvia, ainda de cenho cerrado. Depois, se descontraiu e ps os braos em torno dela.
            Eu me preocupo em excesso. Thonolan me dizia isso. Eu estava pensando no que aconteceria se estivssemos rio abaixo, para alm deste vale, e fiquei 
relembrando a noite passada. Ento pensei na possibilidade perder voc...  E, apertando os braos em volta de Ayla.  No sei o que seria de mim se a perdesse  
disse, com sbito fervor, apertando-a mais contra o peito.  Duvido que quisesse continuar vivo.
    Ayla se afligiu com a reao dele.
     No, Jondalar, espero que continuasse a viver, e que encontrasse outra pessoa que pudesse amar. Se alguma coisa lhe acontecer, uma parte de mim ir com voc, 
porque o amo, mas continuarei a viver, e uma parte do seu esprito ficar comigo.
     No ser fcil encontrar outra pessoa para amar, Ayla. Nunca pensei que encontraria voc. No sei nem se iria procurar...
    Os dois regressaram, ento, caminhando lado a lado.
     Fico a imaginar se  isso que acontece quando duas pessoas se amam. Ser que trocam partes do esprito um do outro? Talvez por isso a gente sofra tanto quando 
perde algum que ama.  Ayla fez uma pausa e depois continuou.   como os homens do Cl. So irmos na caa, e trocam parte do seu esprito entre si. Isso acontece 
principalmente se um salva a vida de outro. No  fcil viver quando falta uma parte do esprito. E todo caador sabe que um pedao do seu esprito ir para o outro 
mundo se o irmo se for, por isso o vigia e protege, e faz tudo o que pode para salvar-lhe a vida.  Ela se interrompeu para encar-lo.  Voc cr que ns tenhamos 
trocado pedaos dos nossos espritos, Jondalar? Afinal, somos parceiros de caa, no somos?
     E voc uma vez me salvou a vida. Mas voc representa muito mais para mim que um irmo na caa  disse ele, achando graa da ideia.  Eu a amo. Entendo agora 
por que Thonolan no queria continuar vivo quando Jetamio morreu. s vezes penso que ele cortejava o perigo, procurava um meio de passar ao outro mundo, a fim de 
encontrar Jetamio e o beb que jamais nasceu.
     Mas se alguma coisa um dia me acontecesse, eu no desejaria que voc me acompanhasse a nenhum mundo dos espritos. Gostaria que ficasse aqui mesmo e que encontrasse 
outra  disse Ayla, com convico. No gostava dessa conversa sobre outros mundos futuros. No sabia como seria um mundo desses ou, at, no fundo do corao, se 
existiria. Sabia apenas que para entrar no outro mundo havia que morrer primeiro neste, e no queria ouvir falar na morte de Jondalar nem antes nem depois da sua.
    Mas tratar de mundos futuros acarretou outros pensamentos.
     Talvez seja isso o que acontece quando a gente fica velho  disse ela.  se trocamos pedaos do esprito com aqueles que amamos, quando os perdemos, muitos 
deles tm j tantas peas no outro mundo que poucas restam neste para nos manter vivos.  como um buraco dentro de ns, que se faz cada vez maior. Por isso queremos 
ir para o outro mundo, onde esto a maior parte dos nossos espritos e as pessoas que amamos.
     Como Voc sabe tanto assim?  perguntou Jondalar, com um pequeno sorriso. Ela nada sabia do alm, mas suas observaes espontneas e inventivas faziam sentido 
para ele, de certo modo, e revelavam uma inteligncia genuna e profunda, embora ele no soubesse julgar se havia mrito naquelas ideias. Se Zelandoni estivesse 
l, ele poderia perguntar-lhe. Ento, de repente, conscientizou-se de que estava a caminho de casa, e que poderia consult-la sobre tudo aquilo, e muito breve.
     Perdi pedaos do meu esprito quando era pequena, e meu povo fora engolido pelo terremoto. Iza levou outro pedao quando morreu, depois Creb, depois Rydag. 
Embora ele no esteja morto, at Durc tem um pedao de mim, do meu esprito, que jamais vou rever. Seu irmo levou um fragmento seu quando se foi, no levou?
    Sim  disse Jondalar.  Vou sentir sempre a falta de Thonolan, vou sempre sofrer com isso. s vezes penso que foi minha culpa. No entanto, eu faria o possvel 
para salv-lo.
     No acho que tivesse podido fazer alguma coisa, Jondalar. A Me o queria, e cabe a Ela decidir, e no a qualquer de ns procurar um caminho para o outro mundo.
    Quando regressaram  capoeira de altos salgueiros onde tinham pernoitado, comearam a conferir as bagagens. Quase tudo estava pelo menos mido, e muita coisa 
permanecia decididamente molhada. Desataram os ns inchados que ainda prendiam o cho da barraca  sua parte superior e torceram as peas, segurando-as pelas pontas. 
Se forassem muito, poderiam romper as costuras. Quando decidiram erigir a barraca para que ela secasse melhor, descobriram que haviam perdido algumas das estacas.
    Estenderam a pele por cima das moitas, depois verificaram o estado das prprias roupas, ainda muito encharcadas. Os objetos guardados nas cestas tinham resistido 
um pouco mais. Muitas coisas estavam midas, mas secariam logo se tivessem um lugar quente e seco para arejar tudo. A estepe aberta seria ideal durante o dia, mas 
precisavam do dia para viajar, e o solo ficava mido e frio  noite. De qualquer maneira, a ideia de dormir numa barraca molhada no lhes agradava.
     Acho que  hora de um bom ch quente  disse Ayla, que sentia deprimida. J passava da hora da refeio matinal. Acendeu um fogo, ps pedras para esquentar 
nele, e comeou a pensar no desjejum. Foi quando verificou que no tinham os restos do jantar.
     Oh, Jondalar, no temos nada para comer agora de manh. Ficou tudo naquele vale. Deixei os gros na minha cesta boa de cozinhar junto das brasas da fogueira. 
A cesta tambm se foi. Tenho outras, mas aquela era a melhor. Pelo menos no perdemos os remdios  disse, com bvio alvio, ao encontr-los.  E a pele de lontra 
aguenta gua, apesar de velha. Tudo o que guardei nela est seco. Pelo menos, posso fazer ch para ns. Tenho algumas boas ervas aqui. Preciso arranjar gua.  olhando 
em volta  Onde est o meu coador? Ser que tambm se perdeu? Pensei que o tivesse guardado dentro da barraca quando comeou a chover. Deve ter cado na pressa.
     Pois voc ainda vai ficar mais infeliz com outra coisa que deixamos l  disse Jondalar.
     O qu?  indagou Ayla, j agoniada.
     A sua bolsa de couro cru e as varas compridas.
    Ela fechou os olhos e sacudiu a cabea, com desalento.
     Oh, no! No s era um bom guarda-comidas, mas estava cheio de carne de cervo. E aquelas varas! Tinham o tamanho certo. Vo ser difceis de substituir. Vamos 
verificar se mais alguma coisa se perdeu e ver se as raes de emergncia esto intactas  falou Ayla.
    Puxou a cesta em que guardava os poucos objetos pessoais que levava consigo mais roupa e equipamento para uso futuro. Embora todas as cestas estivessem molhadas, 
as cordas de reserva, postas no fundo, haviam preservado o seu contedo relativamente seco e em boas condies.  comida que iam consumindo pelo caminho estava por 
cima de tudo. Logo debaixo dela, o pacote da comida de emergncia continuava encapado e seco. Ayla achou que aquela era uma boa oportunidade para verificar o estado 
dos suprimentos e ver se algo se estragara e quanto tempo duraria o que estava em bom estado.
    Tirou as diversas espcies de alimentos secos que tinham em reserva, dispondo-os em cima do rolo de dormir. Havia bagas  amoras-pretas, framboesas, uvas-do-monte, 
bagas de sabugueiro, vacnios, morangos, separadas ou combinadas umas com as outras  esmagadas e postas para secar ao sol em pasta. Outras variedades doces eram 
cozidas, em seguida secadas at adquirir uma consistncia de couro, por vezes com pedaos de bagas ou mas duras, cidas, mas ricas em pectina. Bagas inteiras, 
mas silvestres e outros frutos, como peras e ameixas fatiadas ou inteiras, eram adoados ligeiramente e postos para secar ao sol. Podiam ser comidas como estavam 
ou deixadas de molho e cozidas. Muitas vezes eram usadas tambm para dar gosto em sopas e carnes. Havia ainda gros e sementes, alguns dos quais parcialmente cozidos 
antes de secados; avels descascadas e assadas, e pinhes colhidos no vale pouco antes da enchente.
    Levavam tambm legumes secos  talos, brotos, e, sobretudo, tubrculos ricos em amido, tais como tbua, cardo, alcauz e vrios bulbos de liliceas. Alguns eram 
cozidos no vapor em fornos subterrneos antes de secados, mas outros eram desenterrados, descascados, e enfiados imediatamente em cordes feitos da casca de certas 
plantas ou tendes da medula ou das pernas de vrios animais. Cogumelos tambm eram enfiados e, para melhor sabor, defumados. Certos liquens comestveis eram cozidos 
no vapor e depois compactados em pes muito nutritivos. As provises dos viajantes completavam-se com carne e peixe secos e defumados. Numa embalagem especial, posta 
 parte para emergncias, era uma combinao de carne-de-sol moda, banha clarificada, e frutas secas, moldada em pequenos bolos.
    A comida seca era compacta e se conservava bem. Parte dela tinha mais um ano e provinha dos suprimentos do ltimo inverno, mas de certos itens havia quantidade 
limitada. Nezzie reunira essas provises valendo-se dos estoques de amigos e parentes presentes  Reunio de Vero. Ayla lanava mo raramente dessas reservas. A 
maior parte do tempo comiam do que encontravam, e a estao era propcia. Se eles no conseguiam viver da munificncia da Grande Me Terra quando Ela havia tanto 
a oferecer, jamais poderiam sobreviver viajando em campo aberto sem ter o que comer.
    Ayla empacotou tudo de novo. No pretendia valer-se dos suprimentos de viagem para a refeio da manh, e a estepe tinha menos aves gordas para alimentar depois 
que eles comiam. Dois galos silvestres caram vtima da funda de Ayla e foram assados no espeto. Alguns ovos de pomba, que nunca chocariam, foram rachados de leve 
e postos diretamente no fogo em suas cascas. O achado fortuito de um depsito secreto de bulbos da planta que  hoje conhecida como beldroega ou espinafre-de-cuba 
veio contribuir para a riqueza e variedade do caf da manh. A cova, no solo, ficava exatamente debaixo das suas peles de dormir e estava abarrotada desses tubrculos 
suculentos e adocicados, ricos em polissacardeos, colhidos provavelmente por uma marmota quando estavam no ponto. Foram cozidos com os pinhes que Ayla recolhera 
na vspera, e que ela retirou das pinhas, pondo-as sobre as brasas e quebrando-as com uma pedra. Amoras silvestres maduras completaram a refeio.
    Ayla e Jondalar deixaram a regio do vale inundado, prosseguiram para o sul, mas viraram ligeiramente para oeste, e chegaram mais perto um pouco da cadeia de 
montanhas. No era muito elevada. Mesmo assim tinha neves eternas nos picos, muitas vezes escondidos por nevoeiros e nuvens.
    Estavam na regio meridional do continente frio, e o carter das pastagens se alterara de maneira sutil. J era mais, agora, que uma simples profuso de capins 
e ervas, responsvel pela diversidade de animais que se adaptavam s plancies frias. Os prprios animais mostravam diferenas de dieta, de hbitos migratrios, 
de separaes espaciais e variaes sazonais, e tudo isso contribua para a grande riqueza de vida. Como aconteceria mais tarde nas grandes plancies equatoriais, 
muito para o sul daquelas latitudes  nico lugar capaz de competir com a grande riqueza das estepes na poca Glacial , a abundncia e variedade de animais e a 
terra muito frtil interagiam de maneira complexa e mutuamente sustentvel.
    Alguns animais s comiam determinadas plantas; outros, alimentavam-se de partes especiais de plantas. Havia os que se alimentavam da mesma planta, mas em diferentes 
estgios de desenvolvimento. Uns comiam onde outros no iam, ou iam mais tarde, ou migravam de forma diferente. A diversidade era preservada porque os hbitos alimentares 
e de vida de uma espcie se ajustavam entre ou em torno dos hbitos de outra em nichos complementares.
    Mamutes lanosos precisavam de grandes quantidades de matria fibrosa, ervas duras, talos, carrios, e por tenderem a atolar na neve, quando abundante, em pntanos, 
e em turfeiras, deixavam-se ficar em terreno firme na planura varrida pelos ventos e prxima das geleiras. Faziam longas migraes horizontais, costeando o paredo 
de gelo, e s iam para o sul na primavera e no vero.
    Os cavalos da estepe tambm precisavam de grandes quantidades de alimentos. Como os mamutes, eles digeriam rapidamente talos e capins, mas eram um pouco mais 
seletivos, preferindo os capins mais altos. Tambm sabiam cavar a neve para encontrar alimento, mas nisso gastariam mais energia do que ganhariam, e era penosa para 
eles a movimentao quando a neve era alta. No podiam subsistir por muito tempo em neve profunda, e preferiam tambm a planura de solo duro e vento.
    Ao contrrio de mamutes e cavalos, os bises precisavam de folhas e bainhas de ervas pelo seu alto teor proteico e tendiam a preferir a erva rasteira, indo para 
as reas de erva mais alta apenas pelos brotos, na primavera. No vero, porm, surgia uma importante cooperao, se bem que inadvertida. Os cavalos usavam os dentes 
como tesouras de podar para abrir os talos duros. Depois de sua passagem, com os talos cortados, a relva de densas razes ficava estimulada a brotar. A migrao 
de cavalos era seguida muitas vezes, com um intervalo de alguns dias, pela dos bises gigantes, que se regalavam com a grama brotada.
    No vero, os bisontes iam para as montanhas do sul, de tempo varivel e neve abundante, que deixavam a vegetao rasteira mais mida e fresca que a das plancies 
secas do setentrio. Eram prticos em espalhar a neve com o nariz e a cara a fim de encontrar seu alimento favorito, rente ao solo. Mas as estepes nevadas do sul 
no deixavam de ter seus perigos.
    Apesar de os plos fartos, desgrenhados, dos bises e de outros animais to bem agasalhados quanto eles os conservar quentes no frio relativamente seco do norte 
e, mesmo, no sul, onde a neve caa com maior abundncia, essa proteo ficava perigosa e, at, fatal, quando o clima se fazia frio e mido, com frequentes mudanas 
entre congelamento e degelo. Se ficassem encharcados durante um desses perodos de degelo, eles corriam o risco de morrer no primeiro congelamento que sobreviesse, 
principalmente se a onda fria os pegasse descansando no solo. Ento, se seus longos plos congelassem, eles no podiam mais pr-se de p. Uma neve por demais densa 
ou crostas de gelo na superfcie da neve tambm podiam ser fatais, bem como as nevascas do inverno, ou a fragilidade da superfcie dos lagos congelados, atravs 
da qual era fcil cair  e afundar , ou as inundaes dos vales fluviais.
    Antlopes mufles ou da espcie conhecida como saiga tambm prosperavam alimentando-se seletivamente de plantas adaptadas a condies de extrema aridez, ervas 
pequenas, capim rasteiro, folhudo, rente ao cho. Mas a saiga no se adaptava em terreno muito irregular e acidentado ou em neve muito espessa, e no eram bons de 
salto. Eram velozes, no entanto, e eram capazes de deixar para trs qualquer predador, desde que em terreno firme e plano, como o da estepe varrida de vento. Os 
mufles, os carneiros selvagens, por seu lado, eram exmios trepadores, e usavam terreno ngreme para escapar, mas no sabiam cavar em neve espessa. Preferiam tambm 
o terreno alto, rochoso, e varrido de vento.
    As espcies caprinas aparentadas ao muflo,  camura, ao cabrito-monts se distribuam, de forma ordenada, segundo a altitude, as diferenas de terreno e de 
paisagem, com a cabra-antlope selvagem, o cabrito-monts, ocupando os terrenos mais elevados, de penhascos mais abruptos, seguidos, nos patamares ligeiramente inferiores, 
pela camura, menor e muito gil, com o muflo mais abaixo deles. Mas todos podiam ser encontrados em terreno acidentado, e at mesmo nos nveis mais baixos da estepe 
rida, uma vez que se adaptavam ao frio, desde que seco.
    Os bois-almiscarados tambm eram animais monteses, s que maiores, e seus casaces de pele, duplos, pesades, parecidos com os dos mamutes e os dos rinocerontes 
langeros, os faziam parecer mais volumoso e "bovdeos". Viviam mordiscando os arbustos mais baixos e as sebes, e eram feitos para temperaturas glaciais, preferindo 
as plancies mais prximas da geleira. Sua l mais fina era descartada no vero, mas assim mesmo os bois-almiscarados tinham reaes de estresse se a temperatura 
ambiente esquentava.
    Veados gigantes e renas ficavam confinados s pradarias, em rebanhos, mas muitos outros cervos, mordiscadores de folhas, procuravam as poucas manchas arborizadas 
da estepe. O alce solitrio, habitante das florestas, era aqui personagem rarssimo. Amante dos brotos estivais das rvores decduas, mas tambm das suculentas algas 
e plantas aquticas das piscinas naturais, eles se enfiavam com suas pernas compridas e cascos largos e achatados em tudo que era charco ou atoleiro. No inverno, 
os alces viviam dos capins menos digerveis e de galhos finos de rvores que cresciam nos baixios dos vales fluviais. Suas longas pernas, as patas esparramadas, 
levavam-nos sem esforo atravs da neve trazida pelo vento e empilhada nesses lugares.
    As renas adaptaram-se ao inverno, e subsistiam lambendo liquens nascidos em solo rido e fissuras de rocha. Podiam sentir o cheiro de suas plantas favoritas 
atravs da neve e a longa distncia, e seus cascos eram prprios para cavar, se necessrio. No vero comiam capim e tambm pequenos arbustos folhudos.
    Alces e renas preferiam os prados alpinos ou as regies montanhosas e relvosas na primavera e no vero, mas abaixo do nvel onde reinavam os carneiros. Burros 
e onagros gostavam mais, invariavelmente, das colinas elevadas e ridas, enquanto que os bises ficavam um patamar abaixo, apesar de serem melhores trepadores que 
os cavalos, que tinham maior escolha de terreno que mamutes ou rinocerontes.
    Essas plancies primevas, com pastagens variadas e complexas, sustentavam, em grandes multides, uma mistura fantstica de animais. Nenhum lugar da Terra, mais 
tarde, repetiria isso seno de maneira aproximada, seletiva e parcial. O meio frio e seco das altas montanhas no se podia comparar com o que ento reinava, mas 
havia semelhanas. Carneiros, cabras e antlopes, habitantes das montanhas, estendiam seus domnios tambm s plancies naquela ocasio. Mas grandes hordas de animais 
da plancie no podiam viver no terreno ngreme e pedregoso das altas montanhas quando o clima da baixada mudava.
    Os pntanos encharcados e frgeis do norte no eram a mesma coisa. Eram midos demais para que os capins pudessem medrar em quantidade, e seus solos cidos levavam 
as plantas a produzirem toxinas para no servirem de pasto aos herbvoros que destruiriam flora to delicada e de crescimento to lento. As variedades eram limitadas 
e ofereciam nutrientes pobres  diversidade de animais de grande parte das manadas. A forragem era insuficiente. S animais de casco largo e chato, como a rena. 
poderiam viver em tal meio. Criaturas enormes, de grande peso, pernas curtas e grossas, ou grandes corredores com cascos estreitos e delicados, atolavam na terra 
fofa e encharcada. Precisavam de solo firme, seco, slido.
    Mais tarde, os campos herbosos de zonas temperadas se cobririam de faixas distintas de uma vegetao limitada, controlada pela temperatura e pelo clima. Ofereciam 
pouca escolha no vero e um excesso de neve no inverno. A neve tambm atolava os animais de solo firme, e era difcil para muitos deles livrar-se e conseguir alimento. 
Os veados podiam viver em florestas em que a neve era espessa, mas isso porque apenas consumiam folhas e brotos da extremidade de galhos de rvores que cresciam 
acima da neve. As renas podiam cavar a neve at alcanar o lquen de que se alimentavam no inverno. Bisontes e auroques sobreviveram, mas diminuram de tamanho, 
sem alcanar mais a plenitude do seu potencial. Outros animais, como cavalos, ficaram reduzidos em nmero quando seu habitat preferido ficou reduzido.
    Foi a combinao singular de todos os elementos das estepes da poca Glacial que deu origem a multides de animais. Cada um desses elementos era essencial, inclusive 
o frio acerbo, os ventos devastadores, e o prprio gelo. E quando as vastas geleiras recuaram para as regies polares e desapareceram das latitudes mais baixas, 
desapareceram com elas as grandes manadas, e os animais gigantescos diminuram de tamanho ou deixaram de existir numa terra que mudara, uma terra que j no tinha 
como sustent-los.
    Enquanto cavalgavam, Ayla no tirava da cabea a bolsa de couro cru desaparecida e as varas compridas. Eram mais do que teis, talvez fossem necessrias durante 
a longa viagem que tinham pela frente. Ela desejava substitu-las, mais isso levaria mais tempo que um pernoite, e Jondalar, ansioso, queria prosseguir.
    Por outro lado, ele no estava nada satisfeito com a barraca molhada, nem com a ideia de depender dela como abrigo. Alm disso, no era bom para as peles molhadas 
ficarem dobradas e amarradas de maneira to apertada. Podiam apodrecer. Tinham de ser estendidas para secar, e talvez fosse preciso tratar delas enquanto secavam, 
para conserv-las maleveis, a despeito da defumao por que tinham passado quando o couro fora preparado. Isso lhes tomaria mais de um dia, achava ele.
     tarde chegaram s margens escarpadas de outro rio, que separava a plancie das montanhas. Do seu ponto privilegiado de observao, no plat da estepe aberta, 
que dominava o amplo vale com seu rio largo de grande correnteza, podiam ver o terreno do outro lado. Os contrafortes da margem oposta eram fraturados por muitas 
ravinas e sulcos secos, resultado de enchentes, e tambm por muitos afluentes, pois aquele era um rio grande, que canalizava uma boa poro do escoamento, drenando
a face oriental das montanhas no mar interior.
    Quando contornaram o lado do planalto  e da estepe  e desceram a encosta, Ayla se lembrou do territrio em volta do Acampamento  do Leo. Mas a paisagem do
outro lado do rio, fraturada, era diversa da outra. Mas, do lado em que se encontravam, via a mesma espcie de desbarrancados e sulcos, escavados no loess do solo 
pela chuva e pela neve ao derreter-se, e viram capim alto secando e se transformando em feno, s que ainda de p. Na plancie l embaixo, rvores isoladas  pinheiros, 
larios  erguiam-se aqui e ali espalhadas por entre arbusto folhudos. Formaes de tbuas, de varas altas, de juncos marcavam a orla do rio.
    Quando chegaram  fmbria da gua, os dois pararam. Tratava-se efetivamente de um largo curso d'gua, largo e profundo, intumescido ainda pelas chuvas recentes. 
No sabiam como atravess-lo. Aquilo demandaria algum planejamento.
      uma pena no termos um bote  disse Ayla, pensando nos braos redondos de pele que os membros do Acampamento do Leo usavam para cruzar o rio perto da sua 
sede.
     Tem razo. Vamos precisar de alguma espcie de barco para atravessar este rio sem molhar tudo o que temos outra vez. No me lembro de qualquer dificuldade 
na travessia de rios com Thonolan quando viajei com ele. Empilhvamos nosso equipamento em cima de troncos de rvores e nadvamos at a margem oposta  disse Jondalar. 
 Mas imagino que no levssemos grande coisa, s uma mochila cada um. Era tudo o que podamos levar. Com os cavalos podemos levar mais, em contrapartida, porm, 
temos mais em que pensar.
    Cavalgando rio abaixo, examinando a situao, Ayla notou uma fieira de btulas altas e esguias, que cresciam rente  gua. O lugar lhe parecia to familiar que 
no seria surpresa para ela se de sbito aparecesse  sua frente o comprido alojamento meio subterrneo do Acampamento do Leo, enterrado no flanco da montanha, 
atrs de um terrao de rio, com grama crescendo dos lados, teto arredondado, e uma entrada em arco, perfeitamente simtrica, que tanto a impressionara quando vista 
pela primeira vez. Quando, em seguida, viu um arco daqueles, teve um choque de dar calafrios pela espinha.
     Jondalar! Veja!
    Ele olhou para o alto da encosta, para onde ela apontava. Viu, ento, no apenas um, mas diversos arcos, perfeitamente simtricos. Cada um dava entrada a uma 
estrutura circular abobadada. Ambos desmontaram e, encontrando o caminho, que comeava no rio, subiram at o Acampamento.
    Ayla estava surpresa com a intensidade do seu desejo de encontrar gente, e percebeu havia quanto tempo no viam outras pessoas ou falavam com algum. Mas o lugar 
estava deserto. Plantada no cho, porm entre as duas gigantescas presas de mamute cujas pontas se juntavam no alto para formar a entrada de um dos pavilhes, havia 
a estatueta em marfim de uma fmea, com generosos seios e ndegas.
     Eles devem ter partido  disse Jondalar.  Deixaram um dormi para guardar cada alojamento.
     Estaro caando ou tomando parte em alguma Reunio de Vero. Ou fazendo uma visita  disse Ayla, desapontada por no haver qualquer pessoa no acampamento. 
  uma pena. Eu estava ansiosa por ver gente  disse, e se virou para ir embora.
     Espere, Ayla. Aonde vai?
     De volta ao rio.  Parecia intrigada com a pergunta de Jondalar.
     Mas isto aqui  timo  disse ele.  Podemos ficar.
     No podemos. Eles deixaram um muti... um donii... para guardar as casas. O esprito da Me os protege. No podemos ficar e perturbar o esprito Dela. Isso 
nos traria m sorte  disse ela, sabendo que ele tinha cincia de tudo aquilo.
     Podemos ficar, se necessrio. S no podemos tirar qualquer coisa de que no precisemos.  a regra. Ayla, precisamos de abrigo. Nossa barraca est encharcada. 
Precisamos de tempo para sec-la. Enquanto esperamos, podemos caar. Se encontrarmos o animal certo, sua pele pode servir para fazer um barco a fim de atravessar 
o rio.
    A expresso fechada de Ayla logo se abriu num sorriso, ao compreender o sentido do que ele dizia e suas implicaes. Eles precisavam efetivamente de alguns dias 
para se recuperarem do temporal e repor um pouco do que fora perdido.
            Talvez possamos conseguir pele suficiente para fazer tambm uma bolsa de couro cru nova  disse ela.  Uma vez limpo e pelado, um couro cru no leva 
tanto tempo para curtir. No mais do que para secar uma carne. Temos s que estic-lo e deixar que endurea.  E, com um olhar na direo do rio.  Veja aquelas 
btulas l embaixo. Podemos fazer umas boas estacas com elas. Voc est certo, Jondalar. Devemos parar aqui por alguns dias. A Me compreender. E podemos deixar 
alguma carne-seca para os donos do lugar, como forma de agradecimento pelo
uso do seu acampamento... se tivermos sorte na caa. Em que alojamento nos instalaremos?
     Na Lareira do Mamute.  onde ficam, em geral, os hspedes.
     Mas voc acha que existe uma Lareira do Mamute? Quero dizer, voc acha que este seja um Acampamento Mamuti?  perguntou Ayla.
     No sei. No  como no Acampamento do Leo, em que todo mundo morava junto  disse Jondalar, contemplando o agrupamento de sete estruturas iguais, cobertas 
com uma camada de terra endurecida e argila do rio. Ao invs de uma vasta e nica residncia multifamiliar, como no Acampamento do Leo, onde morara no inverno, 
ali havia residncias separadas, embora agrupadas num conjunto. O objetivo era o mesmo. Tratava-se de um s estabelecimento, uma comunidade de famlias mais ou menos 
aparentadas umas com as outras.
     No. Mais parece com o Acampamento do Lobo, onde se realizou a Reunio de Vero  disse Ayla, detendo-se  porta de uma das construes. Estava ainda relutante 
em erguer a pesada cortina que vedava a entrada e invadir a casa de estranhos sem ser convidada, a despeito da necessidade comum de sobreviver em tempo de dificuldades.
     Alguns dos jovens presentes  Reunio de Vero disseram que os grandes alojamentos coletivos eram coisa antiquada  disse Jondalar.  Aprovavam a ideia de 
casas individuais, para uma ou duas famlias.
     Voc acha que eles desejam viver por conta prpria? Uma casa com apenas uma ou duas famlias? Como acampamento de inverno?  perguntou Ayla.
     No. Ningum queria viver sozinho o inverno todo. Voc no v nunca um alojamento desses isolado. H sempre, pelo menos, cinco ou seis, s vezes mais. Essa 
a ideia. As pessoas com quem falei pensavam que era mais fcil construir uma habitao pequena, para uma famlia nova ou duas, em vez de ficarem todos apertados 
na casa comum, at construrem outra maior para todos. Mas queriam construir sua casa perto da famlia, ficarem no mesmo Acampamento, participar das atividades e 
comer da comida que juntos reunissem e estocassem para o inverno  explicou ele.
    Jondalar empurrou para o lado a pele que tombava das duas presas de mamute da porta, curvou-se, e entrou. Ayla ficou atrs dele, segurando a pele para que houvesse 
alguma luz l dentro.
            O que acha, Ayla? Isso se parece com um alojamento Mamuti?
             difcil dizer, mas bem que poderia ser. Lembra-se do Acampamento Sungaea, em que nos detivemos a caminho da Reunio de Vero?. No diferia muito de 
um Acampamento Mamuti. Seus costumes podem ter sido um pouco diferentes, mas eles eram, de maneira geral, como os Caadores de Mamutes. Mamute disse que at as 
cerimnias funerrias eram muito semelhantes. Pensava que teriam sido, na origem, aparentados aos Mamuti. Eu observei que seus padres de decorao no eram os 
mesmos.  Fez uma pausa, procurando lembrar-se de outras diferenas.  E algumas das roupas que usavam... como aquela bela manta de usar nos ombros feita de l de 
mamute e de outras ls, na garota que morreu. Mas o Acampamento Mamuti tambm tem mais de um padro. Nezzie sempre sabia a que Acampamento algum pertencia por 
ligeiras diferenas no estilo e forma de suas tnicas, embora eu mesma no visse grande diferena.
     luz que vinha da entrada, a construo parecia simples. O pavilho tinha pouca madeira, embora houvesse poucas colunas de btula estrategicamente colocadas. 
Fora construdo, de maneira geral, com ossos de mamute. Os grandes, fortes ossos dos gigantes animais eram o material de construo mais abundante e acessvel na 
estepe, onde quase no existia rvore.
    Muitos dos ossos de mamute usados como material de construo no provinham de animais abatidos com esse propsito, mas de animais mortos de causas naturais, 
reunidos dos stios em que tombaram, na estepe, ou, as mais das vezes, de pilhas levadas de roldo por ocasio de enchentes e depositadas ao longo do leito dos rios, 
em curvas ou barreiras como acontecia com as madeiras flutuantes. Abrigos permanentes de inverno eram muitas vezes levantados em terraos prximos a tais pilhas, 
porque presas e ossos de mamute eram pesados.
    Um nico osso exigia vrios carregadores, e ningum se dispunha a lev-lo muito longe. O peso total dos ossos de mamute usados para construir um abrigo pequeno 
era de uma tonelada ou tonelada e meia. A construo desses abrigos no era atividade para uma famlia, mas um esforo coletivo, dirigido por algum com conhecimento 
e experincia, e orientado por um chefe com a capacidade de mobilizar a comunidade.
    O lugar a que chamavam Acampamento era um aldeamento fixo, e os que l viviam no eram caadores nmades que acompanhassem animais itinerantes, mas essencialmente 
caadores sedentrios e coletores. O Acampamento podia ser abandonado por algum tempo no vero, quando seus habitantes caavam e colhiam produtos da estepe (levados 
de volta e conservados em depsitos subterrneos na vizinhana) ou visitavam parentes e amigos de outros aldeamentos, a fim de trocarem notcias e mercadorias, mas 
era um stio de habitao, permanente.
            No creio que se trate de uma Lareira de Mamute ou que nome tenha lareira por aqui  disse Jondalar, deixando cair a cortina da entrada. Uma nuvem de 
poeira encheu o cmodo.
    Ayla endireitou o dolo, que tinha deliberadamente apenas uma simples sugesto de ps. As pernas ficavam, assim, reduzidas a uma forma de estaca que fora enterrada 
no cho para montar guarda  porta da casa. Depois, acompanhou Jondalar na inspeo do alojamento seguinte.
            Este , com toda a probabilidade, o do chefe ou o do mamute, ou dos dois.
    Ayla notou que a casa era um pouco maior, e a figura feminina de guarda  porta um pouco mais elaborada. Assentiu com a cabea.
            De um mamute, acho eu, se forem, mesmo, Mamuti ou um povo parecido com eles. Tanto a chefe das mulheres quanto o chefe dos homens no Acampamento do 
Leo tinham alojamentos menores que o de Mamute, mas o dele era usado para hspedes e para reunies.
    Ficaram, ambos,  entrada, segurando a cortina, e esperando que que seus olhos se ajustassem  penumbra l dentro. Mas duas luzinhas continuaram a brilhar. Lobo 
rosnou, e o nariz de Ayla registrou um cheiro que a deixou nervosa.
     No entre, Jondalar! E voc, Lobo, quieto!  comandou, fazendo com a mo o sinal  correspondente, como reforo.
     O que , Ayla?  perguntou Jondalar.
     No sente o cheiro? H um animal a dentro, um animal de odor muito ativo, como um texugo. Se o assustarmos, ele reagir com um fedor que vai perdurar longamente. 
No poderemos usar o alojamento, e seus donos tero dificuldade para livrar-se dele. Talvez, Jondalar, se voc ficar segurando a cortina da porta, ele saia por si 
mesmo. Esses bichos cavam buracos e no gostam muito de luz, embora cacem durante o dia, s vezes.
    Lobo recomeou a toscar, surdo e prolongado dessa vez, e era bvio que estava louco para sair atrs da fascinante criatura. Mas como muitos  membros da famlia 
da doninha, o texugo era capaz de esguichar num atacante o contedo acre e fortssimo das suas glndulas anais. A ltima coisa que Ayla queria era ter  sua volta 
um bicho repelente daquele odor almiscarado. Mas no sabia quanto tempo mais conseguiria deter Lobo Se o texugo no sasse logo, ela seria obrigada a usar meio mais 
drstico para livrar o acampamento do animal.
    O texugo no via bem com seus olhinhos pequenos, quase imperceptveis, mas eles vigiavam a abertura iluminada da porta com uma ateno fixa. Quando ficou bvio 
que ele no saa, Ayla pegou a funda, que trazia enrolada na testa, e tirou uma pedra da bolsa que trazia presa  cintura. Depois, armando a atiradeira, mirou nos 
dois pontos de luz, e lanou o projtil. Ouviu o baque do impacto, e as luzes se apagaram.
            Acho que voc conseguiu acert-lo!  disse Jondalar, mas esperaram mais um pouco para entrar. Queriam estar certos de que no havia mais qualquer movimento 
no pavilho.
    Quando entraram, ficaram consternados. O animal, bastante grande... um metro, da ponta do nariz  ponta da cauda... estava esparramado no cho com uma ferida 
sangrando na cabea, mas era perfeitamente bvio que estivera bastante tempo na casa, explorando, de maneira destrutiva, tudo o que encontrava. O lugar estava arrasado! 
O cho de terra batida fora todo arranhado e havia covas nele, algumas das quais com excrementos. As esteiras de palha que cobriam o cho tinham sido feitas em pedaos 
e o mesmo acontecera com todos os tranados. Couros e peles das plataformas usadas como camas estavam estraalhados, a palha, as penas ou a l dos colches juncavam 
o piso. Mesmo uma poro da parede, de barro bem compactado, fora perfurada: o texugo abrira sua prpria entrada.
     Veja s!  disse Ayla.  Eu detestaria encontrar minha casai sim, na volta.
     H sempre o risco de uma coisa dessas quando a gente abandona assim um lugar. A Me no protege um acampamento de Suas prprias  criaturas. Seus filhos tm 
de propiciar os espritos dos animais e tratar com os animais vivos diretamente  disse Jondalar.  Talvez agente consiga limpar isso para os donos, mesmo que no 
possamos consertar ou substituir tudo o que foi destrudo.
     Vou esfolar esse texugo e deixar a pele para eles. Assim sabero  qual foi a causa de todo esse estrago. Alm disso, a pele ter serventia  concluiu Ayla, 
pegando o animal pelo rabo para lev-lo embora.
    Do lado de fora, com mais claridade, pde ver o contraste entre o dorso, com seus plos duros, de cor cinza, com a parte do ventre mais escura, e o caracterstico 
focinho listrado em branco e preto. Era, como haviam pensado, um texugo. Ela fez uma inciso na garganta com uma afiada faca de slex e deixou a carcaa no lugar 
para que sangrasse at o fim. Depois retornou  casa, no sem lanar antes um olhar em torno, imaginando como seria aquilo quando habitado. Lamentou-se de novo por 
no haver ningum. Podia ficar muito triste sozinha e deu graas por haver Jondalar. Por um momento, sentiu-se quase esmagada pelo amor que sentia por ele.
    Apertou na mo o amuleto que levava preso ao pescoo, sentiu o contato reconfortante dos objetos que a bolsinha de couro decorado continha, e pensou no seu totem. 
J no sentia tanto quanto antes o esprito do Leo da Caverna a proteg-la. Era um esprito do Cl, embora Mamute lhe tivesse dito que seu totem estaria sempre 
com ela. Jondalar toda vez se referia  Grande Me Terra quando mencionava o mundo dos espritos, e ela pensava mais na Me agora, depois da doutrinao que recebera 
de Mamute. Achava, mesmo assim, que fora o seu Leo da Caverna que lhe trouxera Jondalar, e sentiu vontade de comunicar-se com o esprito do seu totem.
    Usando a antiga linguagem sagrada de sinais das mos, sem palavras, de comunicao com o mundo dos espritos, ou com outros cls cujas palavras de uso dirio 
e gestos mais comuns eram diferentes, Ayla fechou os olhos e voltou os pensamentos para o totem.
     Grande Esprito do Leo da Caverna  disse, com gestos , esta mulher  grata por ser considerada merecedora. Grata por haver sido escolhida pelo poderoso 
Leo da Caverna. O Mog-ur sempre disse a esta mulher que era difcil viver com um esprito poderoso, mas que valia a pena, sempre. O Mog-ur tinha razo. Embora as 
provaes tenham sido muitas, as mercs recebidas compensaram as dificuldades. Esta mulher agradece pelos dons interiores, como a compreenso e o discernimento. 
Esta mulher agradece tambm ao grande Esprito do totem pelo homem Que Ele guiou at ela e que est a lev-la consigo para sua casa. O homem no conhece os Espritos 
do Cl e no entende completamente que ele tambm foi escolhido pelo Esprito do Grande Leo da Caverna, mas esta mulher aqui presente  grata por ele ter sido julgado 
merecedor  disse ela.
    J ia abrir os olhos quando outro pensamento lhe ocorreu.
     Grande Esprito do Leo da Caverna  continuou, na sua orao mental, ajudada por signos , o Mog-ur disse a esta mulher que os espritos do totem desejam 
sempre um lar, um lugar para onde possam retornar, onde sejam bem recebidos, e onde queiram permanecer. Esta viagem terminar, mas o povo do homem no conhece os 
espritos dos totens do Cl. A nova casa desta mulher no ser a mesma, mas o homem honra o esprito do animal de cada um. E o povo do homem precisa conhecer e honrar 
o Esprito do Leo da Caverna. Esta mulher deseja dizer que o Grande Esprito do Leo da Caverna ser sempre bem-vindo e ter sempre um lugar para Ele onde quer 
que esta mulher seja bem recebida.
    Quando abriu os olhos, viu que Jondalar a observava.
     Voc me pareceu... ocupada. No quis incomod-la.
     Eu estava pensando... no meu totem, no meu Leo da Caverna. Na sua casa tambm. Espero que a gente fique... bem, l.
            Os espritos dos animais esto sempre bem junto de Doni. A Grande Me Terra os criou. Foi Ela quem deu origem a todos eles. As lendas falam disso.
            Lendas? Histrias sobre os tempos antigos?
     Imagino que possam ser chamadas histrias. Mas so contadas de uma certa forma.
     Ns tambm temos lendas, no Cl. Eu gostava quando Dorv as contava. O nome de meu filho foi tirado por Mog-ur de uma das minhas histrias favoritas, A Lenda 
de Dure  disse Ayla.
    Jondalar ficou surpreso. Sentiu uma ponta de descrena. Ento aquela gente do Cl, aqueles cabeas-chatas, tinha tambm lendas e histrias? Era ainda difcil 
para ele superar certas ideias feitas com as quais crescera, mas j comeava a perceber que o mundo era muito mais complexo do que jamais imaginara. Por que no 
teriam histrias e lendas, eli tambm?
     Voc conhece alguma lenda sobre a Grande Me?  pergunto Ayla.
     Bem, acho que me lembro de parte de uma. Elas so narradas de modo a poderem ser lembradas com facilidade, mas s uma zelandnia muito especial conhece todas. 
 Jondalar fez uma pausa para lembra-se, depois comeou a salmodiar baixinho:
    
    Quando Ela nasceu, guas jorraram, enchendo rios e mares,
    Depois inundaram a terra e deram origem s rvores,
    De cada gota que espirrou nasceram ervas e folhas,
    At que tudo se cobriu de plantas verdes.
    
            Isso  maravilhoso, Jondalar!  disse Ayla, sorrindo. A histria! ganha um aspecto novo e um som muito bonito, como o das canes dos Mamuti. Deve 
ser fcil lembrar tudo.
            Essas histrias so cantadas com frequncia. Pessoas diferentes fazem msicas diferentes, mas as palavras no mudam muito. Tem gente que canta a histria 
toda, com todas as lendas.
            Voc conhece mais?
            Um pouco. J ouvi tudo, e em geral conheo a histria, mas os versos so longos, e  coisa demais para lembrar. A primeira parte  sobre a solido de 
Doni, que decide dar  luz o sol, Bali, "grande alegria da Me, um menino esperto, resplandecente". Depois se conta de como ela o perde e se sente solitria outra 
vez. A luz  seu amante, Lumi, mas Ela o criou tambm. Essa histria  mais uma lenda de mulher. Sobre perodos, sobre ficar mulher. E h outras histrias, de como 
Ela pariu todos os espritos animais e o esprito homem, o esprito mulher. Todos Filhos da Terra.
    Lobo latiu, nesse momento, para chamar a ateno de Ayla e de Jondalar. Descobrira que aquilo funcionava, e continuava a us-lo, embora j no fosse um filhote. 
Ambos olharam para ele e viram o motivo daquela excitao toda. L embaixo,  margem pouco arborizada do grande rio, uma manada de auroques irrompera. Era um gado 
selvagem e de porte avantajado, com chifres enormes e plo farto, todos de uma colorao igual, vermelha, mas to escura que era quase negra. No entanto, em meio 
aos outros, dois animais se destacavam, com grandes manchas brancas, principalmente na face e nos quartos dianteiros, aberraes genticas inofensivas que se viam, 
por vezes, sobretudo em auroques.
    Ayla e Jondalar se entreolharam, fizeram o mesmo sinal de cabea, quase simultaneamente, e chamaram os cavalos. Removendo rapidamente as cestas de carga, que 
levaram para dentro da habitao, e apanhando suas armas  lanas com os arremessadores , montaram e cavalgaram rumo ao rio. Ao se aproximarem, Jondalar sofreou 
seu animal para estudar a situao e decidir sobre o melhor curso de ao a seguir. Ayla tambm se deteve. A liderana cabia a ele. Ela conhecia os carnvoros, sobretudo 
os pequenos, embora j tivesse derrubado animais to grandes quanto o lince e a hiena das cavernas. J vivera com um leo e tinha agora um lobo por companhia. No 
tinha, porm, qualquer familiaridade com os grandes herbvoros, tanto os que pastavam quanto os que se alimentavam de folhas de rvores  e que se caavam, habitualmente, 
para comer. Embora ela tivesse aprendido a peg-los quando vivia sozinha, Jondalar se criara caando esses animais, e tinha muita experincia.
    Talvez por ter comungado to recentemente com seu totem e o outro mundo, Ayla estava num curioso estado de esprito. Parecia-lhe uma extraordinria coincidncia 
que, justamente quando haviam decidido que a Me no se importaria se ficassem ali alguns dias a fim de recuperar as suas perdas e caar algum animal com bom couro 
e boa carne, e abundante, um rebanho de auroques lhes aparecesse. Ayla se perguntava se aquilo no seria um sinal da Grande Me ou, quem sabe, do seu totem, de que 
eles tinham sido guiados at aquele lugar.
    No era coisa incomum, porm. Durante todo o ano, mas em especial no calor, vrios animais, em manadas ou individualmente, migravam, varando as florestas ciliares 
e as ricas pastagens dos vales dos grandes cursos d'gua. Em qualquer lugar, nas imediaes de um rio maior, era comum ver algum animal desses de passagem. s vezes 
apareciam com intervalo de poucos dias. E, conforme a estao do ano, verdadeiras procisses se sucediam diariamente. Daquela vez tinham ali uma manada de gado selvagem, 
exatamente da espcie de que precisavam, embora diversas espcies tivessem servido igualmente bem.
     Ayla, est vendo aquela grande vaca?  perguntou Jondalar.  A que tem focinho branco e mancha branca no dorso esquerdo?
            Estou, Jondalar.
            Vamos peg-la  disse Jondalar.  J alcanou seu desenvolvimento completo, mas, a julgar pelo comprimento dos chifres, ainda no  velha. E est num 
canto,  parte.
    Ayla sentiu um calafrio. Agora se convencia de que se tratava mesmo de um sinal! Jondalar havia escolhido o animal diferente dos outros O animal de pintas brancas. 
Sempre que ela se vira confrontada com uma escolha difcil na vida, sempre que tivera de tomar uma deciso, depois de muito pensar e racionalizar, seu totem se dignara 
confirmar que ela tomara a deciso acertada, mostrando-lhe um sinal, um objeto por algum motivo incomum. Quando criana, Creb lhe explicara esses sinais e lhe dissera 
que os conservasse como talisms. Muitos dos pequenos objetos que levava no pescoo eram sinais do totem. A sbita apario da manada de auroques depois de tomarem 
a deciso de ficar e a deciso de Jondalar, de caar o exemplar diferente dos demais, lhe pareciam ter a mesma natureza mirfica de sinais de um totem.
    Se bem que a deciso de se demorarem naquele acampamento no tivesse sido pessoal nem difcil, fora uma deciso importante e exigira madura considerao. Aquela 
era a residncia permanente de uma comunidade de pessoas que invocara o poder da Me para guard-la na sua ausncia. As necessidades de sobrevivncia permitiam a 
um estranho de passagem o uso do Acampamento, mas o motivo tinha de ser legtimo, e a necessidade, extrema. No se incorre na ira da Me com leviandade.
    A terra era ricamente povoada de seres vivos. Em suas viagens, eles tinham encontrado grande nmero de uma enorme variedade de animais. Mas pouca gente. Num 
mundo to vazio de vida humana, havia consolao na ideia de um reino invisvel de espritos que sabiam da sua existncia, que se importavam com os seus atos, e 
que talvez lhes conduzissem os passos. At um esprito severo ou mesmo hostil, que era preciso aplacar com oferendas, era melhor que a cega indiferena de um mundo
duro e frio, em que suas vidas estariam inteiramente em suas prprias mos, sem ningum para quem apelar numa necessidade maior, nem mesmo em pensamento.
    Ayla chegara  concluso que, se a caa deles tivesse xito, isso significava que era justo que estivessem usando o Acampamento. Se fracassassem, teriam de ir 
embora. Tinham visto o sinal, o animal aberrante, para terem sorte, precisavam guardar uma parte dele. Se no o conseguissem, isso seria m sorte, um sinal de que 
a Me no aprovava a sua estada ali. E teriam de partir de imediato. Ayla ficou pensando qual ia  ser o desfecho.

9
___________________________________________________________________________
    
    Jondalar estudou a disposio do rebanho dos auroques ao longo do rio. Eles se distribuam entre o sop da elevao e a fmbria da gua e ocupavam diversas pastagens 
pequenas de vioso capim verde, vegetao mais alta e rvores. A vaca malhada estava no centro de um prado, apartada de outros animais do rebanho por um denso conjunto 
de btulas e amieiros jovens amontoados a um canto do espao. Essa concentrao de pequenas rvores continuava por toda a base do outeiro, cedendo lugar a capes 
de ciperceas e canios espetados e folhudos na parte baixa e alagada da outra extremidade do terreno, que conduzia a uma enseada pantanosa, atulhada de juncos altos 
e tbuas.
    Ele se voltou para Ayla e apontou o charco.
            Se voc for costeando o rio para alm daqueles juncos e tbuas, e eu for atravs daquela brecha do capo de btulas, ela ficar encurralada entre ns, 
e poderemos peg-la.
    Ayla considerou a situao e assentiu com a cabea. Depois, desmontou.
            Quero amarrar bem a bainha da minha lana antes que a gente comece  disse, atando o longo tubo de couro cru s correias que prendiam a manta de montar. 
Era um cochinilho macio, feito de pele de gamo. No interior do tubo de couro duro havia diversas lanas, bem-feitas e graciosas, com pontas de osso, finas e bem 
torneadas, polidas at ficarem bem aceradas e depois fendidas na base, onde recebiam os cabos compridos, de madeira. Cada lana era guarnecida com duas penas retas 
e tinha um entalhe na base.
    Enquanto Ayla fixava aquela espcie de aljava, Jondalar retirou uma lana do estojo que levava s costas, preso por uma correia que passava por um dos seus ombros. 
Sempre usava assim o seu estojo de lanas quando caava a p, e estava acostumado com ele, embora, quando viajava contando apenas com as prprias pernas, com uma 
mochila, as lanas fossem guardadas num compartimento especial do lado de fora dela. Ps a lana no arremessador, para que ficasse de prontido.
    Jondalar mesmo inventara o arremessador de lanas no curso do vero que passara no vale de Ayla. Era uma inovao singular e surpreendente, uma inspirada criao 
de puro gnio, brotada da sua aptido natural e da sua intuio de princpios fsicos que seriam definidos e codificados centenas de anos depois dele. A idia era 
enganosa, mas o prprio objeto  enganosamente singelo.
    Feito de uma nica pea de madeira, tinha meio metro de comprimento e quatro centmetros de largura, estreitando para a ponta. Era usado na posio horizontal 
e tinha uma ranhura longitudinal no meio onde a lana descansava. Um gancho simples, lavrado na extremidade posterior do arremessador, encaixava-se no entalhe da 
haste, funcionando como uma espera e ajudando a manter a lana no lugar por ocasio do arremesso, o que contribua para a preciso da arma. Para a frente do lanador, 
havia duas alas de couro macio de veado.
    Para us-lo, a lana era posta com a extremidade da haste encostada ao gancho e sua espera. O primeiro e o segundo dedos eram enfiados nas alas de couro da 
frente, um pouco para trs do centro da lana, muito mais comprida, naturalmente, que o arremessador, num ponto bom de equilbrio, e mantinham a lana no lugar sem 
prend-la em demasia. Uma funo mais importante entrava em ao quando a lana era atirada. Firmando-se a frente do arremessador, a parte de trs se erguia, o que, 
como uma extenso do brao, acrescentava ao comprimento. O maior comprimento acrescentava ao efeito de alavanca e ao impulso, isso, por sua vez, aumentava a potncia 
e o alcance da arma.
    Arremessar uma lana com o arremessador era o mesmo que atira-la com a mo. A diferena era o resultado. Com o arremessador, a longa lana pontiaguda atingia 
o dobro da distncia que uma lana atirada com a mo e tinha muito maior potncia.
    A inveno de Jondalar punha a mecnica a servio da fora muscular, que ela transmitia e ampliava, mas no era o primeiro petrecho a utilizar esses princpios. 
Seu povo tinha uma tradio de inveno criativa e usara ideias semelhantes de outras maneiras variadas. Por exemplo, um pedao afiado de slex seguro na mo era 
uma boa ferramenta de cortar, mas preso a um cabo dava ao usurio grande aumento na fora e no controle. A ideia aparentemente simples de pr cabos nas coisas  
facas, machados, enxs, e outros instrumentos de cortar, talhar, furar; um cabo maior em ps e ancinhos; e, at, uma forma de cabo destacvel para arremessar uma 
lana  multiplicava sua eficcia vrias vezes. No era apenas uma ideia simples, mas uma inveno importante, que facilitou o trabalho e tornou a sobrevivncia 
mais provvel.
    Embora os que vieram antes deles tivessem lentamente aperfeioado diversos utenslios e ferramentas, pessoas como Jondalar e Ayla foram as primeiras a imaginar 
e inovar em escala to extravagante. Seus crebros faziam abstraes com facilidade. Eram capazes de conceber uma ideia e planejarem como implement-la. Comeando 
com pequenos objetos que usavam princpios avanados, intuitivamente compreendidos eles tiravam concluses e aplicavam-nas a outras circunstncias. Fizeram mais 
do que inventar objetos e utilidades, inventaram a cincia. E da mesma fonte de criatividade, utilizando a mesma faculdade de abstrao, foram os primeiros a ver 
o mundo em torno deles de forma simblica, extrair sua essncia, e reproduzi-la. Criaram a arte.
    Quando Ayla acabou de prender o arremessador, montou de novo. Depois, vendo que Jondalar tinha uma lana em riste, ps tambm uma no seu arremessador, e segurando 
a arma com naturalidade, mas tambm com cuidado, seguiu na direo que Jondalar lhe indicara. O gado selvagem se movia devagar ao longo do rio, pastando, e a vaca 
que haviam escolhido j estava em lugar diferente e no to isolado quanto antes. Um novilho macho e outra vaca andavam por perto. Ayla seguiu o rio, guiando Huiin 
com joelhos, coxas, o movimento do corpo. Quando se viu diante da presa desejada, avistou tambm o homem alto, que se aproximava no seu cavalo pelo vo entre as 
rvores. Os trs auroques estavam entre eles.
    Jondalar ergueu o brao que segurava a lana, esperando que Ayla entendesse que aquilo era um sinal para esperar. Talvez devesse ter combinado a estratgia com 
ela antes de se separarem, mas era difcil planejar com preciso as tticas de uma caada. Muita coisa dependia da situao e da reao da presa. Os dois animais 
que agora pastavam na vizinhana da vaca malhada de branco eram uma complicao adicional. Mas no havia pressa. Os animais no pareciam alarmados com a presena 
deles, e Jondalar queria ter um plano na cabea antes de atacar.
    Subitamente, as vacas levantaram as cabeas, e sua indiferena satisfeita se mudou em preocupao ansiosa. Jondalar olhou para alm dos animais e ficou irado: 
Lobo chegara, e vinha em direo ao gado, com a lngua de fora e uma expresso que conseguia ser ao mesmo tempo brincalhona e ameaadora. Ayla no o vira ainda, 
e Jondalar teve de sufocar uma vontade de gritar para dizer-lhe que tirasse o bicho de l. Um grito apenas serviria para assustar as vacas e, at, faz-las sair 
a trote. Em vez disso, quando um grande gesto com o brao chamou a ateno de Ayla, ele apontou para o lobo com a lana.
    S ento Ayla viu Lobo, mas no entendera bem o que Jondalar queria, e tentou responder, pedindo-lhe que se explicasse melhor, usando gestos do Cl. Mas Jondalar 
no estava pensando em gestos como linguagem no momento, embora tivesse um conhecimento rudimentar daquela forma de comunicao do Cl, e no reconheceu os sinais 
dela. Estava concentrado em salvar uma situao que se deteriorava. As vacas tinham comeado a mugir, e o vitelo, percebendo o medo de que estavam tomadas, se ps 
a berrar. Todos pareciam a ponto de sair em disparada. O que comeara como uma caada fcil, em condies quase perfeitas, parecia agora perdido.
    Antes que as coisas piorassem, Jondalar impeliu Racer para a frente, no momento exato em que a vaca se ps a fugir correndo para a proteo das rvores e da 
macega. O bezerro a seguiu, sempre berrando. Ayla esperou apenas o bastante para assegurar-se das intenes de Jondalar. Vendo que ele perseguia a vaca malhada, 
ela tambm saiu atrs do animal. Convergiam para os auroques, que permaneciam no prado, olhando para eles e mugindo nervosamente, quando a vaca malhada disparou 
na direo do alagado. Eles galoparam atrs dela, mas quando se aproximavam, a vaca se esquivou e galopou em sentido contrrio, passando entre os cavalos, e correu 
para as rvores do lado oposto da campina.
    Ayla jogou seu peso para o outro lado, e Huiin mudou rapidamente de direo. Estava acostumada a fazer isso. Ayla j caara a cavalo antes, embora o fizesse 
de regra abatendo pequenos animais com a sua funda. Um puxo na rdea no era to instantneo como comando quanto, uma alterao no peso do corpo. J Jondalar e 
seu jovem garanho tinham muito menos experincia de caadas juntos, mas, depois de uma, breve hesitao, logo se lanaram no encalo da vaca malhada.
    Esta ia a toda velocidade para o denso capo de mato  frente. Se o alcanasse, seria difcil acompanh-la atravs dele, e havia grande perigo de que ela lhes 
escapasse. Ayla e Huiin e, atrs, Jondalar e Racer ganhavam terreno, mas todo gado dependia da velocidade para escapar dos predadores, e gado selvagem como aquele 
era capaz de correr to depressa quanto cavalos, em caso de necessidade.
    Jondalar instigava Racer, e ele respondeu redobrando de velocidade. Procurando manter firme a lana, visando deter o animal, Jondalar emparelhou com Ayla, depois 
ultrapassou-a. Mas a um sinal sutil da mulher, a gua emparelhou outra vez com o filho. Ayla tinha tambm a lana em riste, mas mesmo a galope cavalgava com uma 
graa sem esforo no estudada e que era o resultado da prtica. Seu treinamento inicial da gua no fora intencional. Sentia que muitos dos sinais que transmitia
ao cavalo eram mais uma extenso do pensamento que atos de comando. Bastava pensar aonde queria ir, e Huiin j lhe obedecia. Tinham to ntima compreenso uma da
outra, ela e a gua, que Ayla j nem se dava conta de que em cada caso os movimentos do seu corpo, que acompanhavam o pensamento, davam direes ao animal, inteligente 
e sensvel.
    Enquanto Ayla fazia pontaria com a lana, Lobo se ps, de repente a correr ao lado da vaca em fuga. O grande auroque se deixou distrair por aquele predador com 
que estava mais familiarizado e se desviou um pouco para o lado, diminuindo a velocidade. Lobo saltou sobre ele, e a vaca malhada se virou para atac-lo com seus 
grandes chifres de pontas aceradas. Lobo saltou para trs, depois deu um novo bote e, procurando algum terreno vulnervel, enterrou os dentes no focinho macio e 
vulnervel s suas fortes mandbulas. A vaca, enorme, berrou e, levantando a cabea, ergueu Lobo do cho e o sacudiu, para livrar-se dele e da dor aguda que ele 
lhe causava. Suspenso no ar como uma bolsa murcha de pele, Lobo, embora aturdido, no caiu.
    Jondalar percebera logo a mudana de ritmo na corrida da vaca e estava preparado para tirar vantagem dela. Investiu a galope e arremessou a lana de perto com 
toda fora. A ponta de osso perfurou o lado palpitante da vaca, e penetrou fundo entre as costelas, atingindo rgos vitais. Ayla vinha logo atrs dele, e sua lana 
acertou do outro lado, tambm profundamente, logo atrs da caixa torcica. Lobo ficou dependurado no focinho da vaca at que ela tombou por terra. O peso do grande 
carnvoro contribuiu para a queda. Caiu de lado, pesadamente, quebrando a haste da lana de Jondalar.
     Mas ele ajudou  disse Ayla.  Ele deteve a vaca antes que ela alceasse as rvores.
    Os dois uniram suas foras para virar o animal, a fim de expor seu ventre patinhando na poa de sangue espesso que se formara debaixo do grande corte que Jondalar 
fizera no pescoo.
     Se Lobo no tivesse comeado a persegui-la, a vaca, provavelmente, no teria corrido at que a gente j estivesse em cima dela. E teria sido fcil abat-la 
 disse Jondalar. Pegou a haste da lana quebrada, lancando-se, depois, por terra outra vez e pensando que teria sido possvel salvar a arma se Lobo no tivesse 
feito a vaca cair. Uma boa lana demandava muito trabalho.
     Voc no pode ter certeza disso. A vaca se desviou de ns num abrir e fechar de olhos, e corria como o vento.
     Aquele gado no nos dava ateno at que Lobo apareceu. Eu queria dizer a voc que o espantasse, mas no podia gritar, pois podia assustar os animais.
     Eu no sabia o que voc desejava. Por que no usou os sinais do Cl? Eu lhe fiz perguntas, com gestos, mas voc no estava prestando ateno  disse Ayla.
    Gestos do Cl?, pensou Jondalar. No lhe ocorrera que ela estivesse usando a linguagem gestual do Cl. Seria uma boa maneira de dar sinais. Mas acabou sacudindo 
a cabea.
     Duvido que tivesse adiantado alguma coisa. Lobo no teria parado nem mesmo que voc o chamasse, Ayla.
     Talvez no. Mas ainda acho que posso ensinar muita coisa a Lobo para nos ajudar. Ele j levanta caa pequena para mim. Nenm aprendeu a caar comigo. Era um 
bom companheiro de caadas. Se um leo pode ser ensinado a caar com gente, o mesmo ocorre com Lobo  disse Ayla, defendendo o animal. Afinal, eles tinham matado 
a vaca auroque, e Lobo tinha ajudado.
    Jondalar achava que a confiana de Ayla na capacidade de aprender de um lobo era pouco realista, mas no valia a pena discutir aquilo com ela. Ayla tratava Lobo 
como uma criana, e discordar apenas serviria para fazer com que ela o defendesse ainda mais.
            Bem, ser melhor eviscerar esta vaca antes que ela comece a inchar. E temos de tirar-lhe o couro aqui mesmo e cortar a carne, para podermos lev-la 
aos poucos, para o acampamento  disse Jondalar. Ento outro pensamento lhe ocorreu.
     Mas o que vamos fazer com Lobo?
     O que  agora?
     Se retalharmos a vaca auroque e levarmos parte dela para o acampamento. Lobo pode devorar a carne que deixarmos aqui  disse o homem, j mais irritado.  E 
se voltarmos para buscar mais, ele come o que levamos para o acampamento. Um de ns ter de ficar aqui, montando guarda, e o outro ter de ficar l. Como levar toda 
a carne, ento? Vamos ter de armar uma barraca aqui para secar a carne em vez de usar a cabana do acampamento s por causa de Lobo?  reclamou ele.
    Estava exasperado com os problemas que Lobo causava e no pensava com clareza. Mas aquilo deixava Ayla irritada. Talvez Lobo pegasse a carne se ela no estivesse 
l, mas certamente no a tocaria se ela estivesse. No era problema nenhum. Por que Jondalar implicava tanto com ele? Comeou a responder-lhe, depois mudou de ideia, 
e chamou Huiin com um assobio. Montou de um salto e se voltou para Jondalar.
     No se preocupe. Eu levo essa vaca para o acampamento  disse, indo embora e levando Lobo.
    Galopou at a cabana, saltou do cavalo, correu para dentro, e voltou com a machadinha de pedra de cabo curto que Jondalar fizera para ela. Depois montou outra 
vez e tocou Huiin na direo da mata de btulas.
    Jondalar a viu chegar e se meter logo na floresta, sem saber o que a mulher tinha em mente. J comeara a remover os intestinos e estmago da vaca, mas pensava 
em outra coisa enquanto trabalhava. Achava que tinha razes de sobra para preocupar-se com o filhote de lobo, mas lamentava ter falado disso com Ayla. Sabia o quanto 
ela gostava do bicho. Uma queixa sua no mudaria as coisas, e tinha de reconhecer que o aprendizado a que ela havia submetido Lobo conseguira muito mas resultado 
do que ele imaginara possvel.
    Quando ouviu que ela cortava rvores, entendeu o que Ayla planejava fazer, e foi ter com ela. Viu-a dando ferozes machadadas numa btula alta e direita no centro 
da concentrao de rvores pouco espaadas umas das outras, la cozinhando sua raiva enquanto trabalhava.
    Lobo no  to mau quanto Jondalar pretende, dizia consigo mesma. Talvez quase tenha espantado os auroques, mas depois ajudou. Interrompeu o pensamento, descansou 
um pouco, franziu a testa. E se no tivessem obtido xito, isso significaria que no eram bem-vindos? Que o esprito da Grande Me no os queria no acampamento? 
Se Lobo tivesse estragado a caada, ela no estaria ocupada em pensar como transportar aquela vaca. Estariam de partida. Mas se pretendiam ficar, ento ele no poderia 
estragar a caada nem que quisesse, certo? Ayla recomeou a dar golpes na madeira. A coisa estava ficando complicada. Eles tinham matado a vaca, apesar de Lobo... 
e graas a ele, tambm, de modo que era correto usar a cabana. Talvez tivessem sido guiados at aquele lugar, afinal, concluiu ela.
    De sbito Jondalar apareceu. Tentou tomar-lhe a machadinha.
            Por que voc no procura outra rvore e me deixa acabar com esta?  disse ele.
    Ayla resistiu-lhe, mas sem raiva.
            Eu disse que levaria a vaca para o acampamento. Posso faz-lo sem sua ajuda.
            Sei que pode. Pois no me levou, sozinha, para a sua caverna no vale? Mas se trabalharmos juntos, voc ter a sua madeira muito mais depressa  disse 
ele. Depois acrescentou:  Ah, tenho de admitir que voc estava certa. Lobo ajudou.
    Ayla parou no meio de um golpe e olhou para ele. Sua fronte mostrava preocupao, mas os expressivos olhos azuis tinham uma expresso ambgua. Apesar de no 
entender muito bem as reservas dele com relao a Lobo, o ardente amor que tinha por ela era visvel nos seus olhos, tambm. Sentiu-se atrada pelos olhos, pelo 
msculo magnetismo de sua simples presena, pelo fascnio que Jondalar emanava, de que ele no se dava conta direito, e cuja fora ele nem imaginava. E sentiu que 
a resistncia dela evaporava.
     Voc tambm est certo  respondeu, contrita.  Ele os espantou antes que estivssemos prontos, e poderia ter arruinado a caada.
    As rugas desapareceram da testa de Jondalar, e ele sorriu, aliviado.
     Ns dois temos razo, portanto  disse Jondalar.
    Ela sorriu de volta, e no momento seguinte eles estavam nos braos um do outro, e Jondalar beijou-a com desejo. Deixaram-se ficar assim, abraados, satisfeitos 
com o fim da discusso, querendo anular a distncia espiritual que se criara entre eles com aquela proximidade fsica.
    Quando cessaram de demonstrar seu frvido alvio, continuaram enlaados por mais algum tempo. Ento Ayla disse:
     Estou convencida de que Lobo pode aprender a caar conosco. Temos s de ensin-lo.
     No sei.  possvel. Mas como ele vai viajar conosco, acho que voc deveria ensinar-lhe tudo o que ele for capaz de assimilar. S assim ele passar a no mais 
interferir quando estivermos caando.
     Voc poderia fazer a mesma coisa. Assim, ele obedecer a ns dois.
     Duvido que ele me d ateno  disse ele. E vendo que ia discordar, acrescentou logo que, se ela assim o desejasse, ele tentaria. Depois tomou-lhe a machadinha 
de pedra das mos e decidiu arriscar um comentrio sobre a outra ideia que ela mencionara.
     Voc disse qualquer coisa sobre usar sinais do Cl quando no quisermos gritar. Isso pode ser muito til.
    Ayla olhou em volta, procurando outra rvore de forma e tamanho apropriados. Mas agora sorria.
    Jondalar examinou a rvore que ela estava procurando derrubar para avaliar se ainda demoraria muito tempo para acabar o servio. Era difcil cortar madeira dura 
com machadinha de pedra. O slex quebradio a cabea da machadinha tinha de ser deixado grosso ou poderia partir-se facilmente com a fora do impacto, e um golpe 
com ele no cortava fundo, apenas tirava lascas, e a rvore parecia mais roda e mordida do que cortada. Ayla ouvia o ritmado som de pedra contra madeira enquanto 
estudava com cuidado as rvores do capo. Ao encontrar uma que lhe pareceu boa, marcou-lhe a casca e saiu em busca de uma terceira.
    Quando as trs rvores necessrias estavam no cho, Ayla e Jondalar arrastaram-nas para a clareira. Com a machadinha e facas pelaram os galhos, cortaram-nos 
e deixaram-nos alinhados no cho. Ayla comparou-os, marcou-os, depois cortou os que escolhera de igual tamanho. Enquanto Jondalar removia os rgos internos do auroque, 
ela foi at o acampamento apanhar cordas e um dispositivo que fizera de correias de couro e tiras tranadas. Levou tambm consigo um dos tapetes rasgados do cho 
quando voltou  clareira, depois chamou Huiin e ajustou nela aqueles arreios especiais.
    Usando duas das longas varas  a terceira s era necessria para a trpode que ela usava para pr suas reservas de alimento fora do alcance de animais famintos 
, atou as extremidades mais estreitas ao arns que pusera na gua, cruzando-as por cima das cestas de comida seca e defumada. As pontas pesadas ficaram arrastando 
no cho, uma de cada lado do animal. Prenderam com cordas o tapete de palha nos varais mais espaados do tren, junto ao solo, e prenderam nele cordas sobressalentes 
para amarrar o auroque.
    Considerando o tamanho da gigantesca vaca, Ayla temeu que fosse pesada demais mesmo para sua gua robusta das estepes. Ela e Jondalar tiveram de fazer grande 
esforo para iar a carga. O tapete era frgil e oferecia base mnima de apoio, mas amarrando a carcaa diretamente s varas ela no arrastaria no cho. Depois de 
fazer tanta fora, Ayla se convenceu ainda mais de que o peso seria excessivo para Huiin, e quase mudou de ideia. Jondalar j removera as entranhas. Talvez pudessem 
tirar tambm o couro ali mesmo e retalhar o auroque em peas mais fceis de transportar. A mulher j no sentia a necessidade de provar ao homem que era capaz de 
levar a presa sozinha para o acampamento, mas, com estava no tren, Huiin poderia pelo menos tentar pux-la.
    Ficou surpresa quando a gua comeou a fazer isso, apesar do terreno acidentado, e Jondalar ainda mais que ela. O auroque era maior e mais pesado que Huiin, 
e arrast-lo era um esforo, mas o peso recaa na maior parte nos varais que arrastavam no solo, e por isso era suportvel. O aclive foi o mais difcil, mas a gua 
conseguiu venc-lo. No terreno desigual de qualquer superfcie natural, o tren era, de longe, o mais eficiente veculo para o transporte de cargas.
    Fora uma inveno de Ayla, resultado da necessidade e da oportunidade, era um rasgo de intuio. Vivendo s, sem quem a ajudasse, muitas vezes tinha de mover 
coisas pesadas, que no podia nem carregar nem arrastar sozinha  como um animal adulto, inteiro , e se via obrigada a dividi-lo em pesos menores, tendo sempre 
de pensar como proteger o que ficava para trs dos animais  procura de comida. S a gua que criara poderia ser de algum auxlio. E ela possua a vantagem de um 
crebro capaz de reconhecer essa possibilidade e de inventar os meios de torn-la realidade.
    Uma vez alcanado o acampamento, ela e Jondalar desataram o auroque e depois de palavras de afeto e agradecimento a Huiin, levaram a gua de volta para apanhar 
as entranhas. Elas tambm lhes seriam teis. Na clareira, Jondalar apanhou sua lana quebrada. A ponta continuava enterrada na carcaa. A parte da frente estalara. 
Mas a parte de trs, mais longa, permanecia inteira. Talvez pudesse servir ainda para alguma  coisa, pensou ele, levando-a consigo.
    De volta ao acampamento, removeram o arns de Huiin. Lobo rondava as vsceras. Era louco por fressura. Ayla hesitou um momento. Poderia usar as entranhas para 
fazer uma reserva de gordura ou para deixar coisas  prova d'gua. Mas no era possvel transportar com eles muito mais do que j levavam.
    Por que seria que pelo simples fato de terem cavalos e poderem carregar mais achavam que precisavam mais? Lembrava-se de que quando deixou o Cl, a p, tudo 
aquilo de que precisava ia numa cesta s suas costas.  verdade que a barraca deles era muito mais confortvel que o pequeno abrigo de couro que ela usava ento. 
Tinham mudas de roupas, roupas de inverno que no estavam usando, mais comida, utenslios, e... Ela jamais seria capaz de levar tudo s costas, agora.
    Deu, por isso, os intestinos, teis mas no momento desnecessrios, a Lobo, e ela e Jondalar se puseram a retalhar a carne de vaca. Depois de vrias incises 
cirrgicas, comearam a puxar o couro, processo muito mais eficiente que esfolar com uma faca. Empregaram s um instrumento afiado para cortar alguns pontos de juno. 
Com pouco esforo, a membrana entre pele e msculo se soltava, e acabaram com um belo couro em que s havia os dois orifcios das pontas de lana. Um couro perfeito. 
Enrolaram-no para que no secasse depressa demais, e puseram a cabea de lado. A lngua e os miolos eram saborosos, e planejavam prepar-los naquela mesma noite. 
Quanto  caveira, com seus enormes chifres, deixariam para o Acampamento. Poderia ter um significado especial para algum. Se no, continha muitas partes teis.
    Em seguida, Ayla levou o estmago e a bexiga at o riacho perto do Acampamento para lav-los, e Jondalar desceu at o rio em busca de galhos e rvores finas 
que ele pudesse vergar para fazer uma armao arredondada para o pequeno barco. Tambm procuraram galhos cados e madeira flutuante. Precisavam acender do lado de 
fora diversas fogueiras para manter afastados animais e insetos atrados pela carne, bem como uma fogueira do lado de dentro, para combater o frio da noite.
    Trabalharam at o escurecer, dividindo a vaca em diversos segmentos, depois cortando a carne em pequenos pedaos alongados como a lngua e botando-os a secar 
em grades improvisadas com a galharia cortada. Mas o servio no estava ainda acabado. Levaram as grades para dentro de casa. A barraca estava ainda mida, mas foi 
tambm guardada. No dia seguinte, ela seria estendida de novo quando levassem a carne para acabar de secar, exposta ao vento e ao sol.
    De manh, quando acabaram de cortar a carne, Jondalar comeou a fazer o barco. Empregando ao mesmo tempo vapor e pedras aquecidas no fogo, ele vergou a madeira 
para a armao da embarcao. Ayla se interessou pelo processo e quis saber onde ele aprendera a fazer aquilo.
     Meu irmo Thonolan era armeiro: fazia lanas  explicou Jondalar, forando para baixo a ponta de um galho reto que envergara para amarr-la a uma seo circular 
com um fio feito do tendo das pernas traseiras do auroque.
            Mas o que tem a ver a fabricao de lanas com a de barcos?
            Thonolan sabia fazer uma haste de lana perfeitamente reta e exata. Mas para saber como tirar a curvatura de um pedao de pau voc tem de saber primeiro 
como envergar a madeira, e ele sabia fazer isso tambm  perfeio. Era muito melhor nisso do que eu. Tinha jeito. Seu oficio no era s fazer lanas, mas trabalhar 
a madeira. Thonolan fazia os melhores sapatos de neve, e isso significa pegar um galho reto ou qualquer rvore delgada e encurvar a madeira completamente. Talvez 
por isso ele se sentisse to  vontade entre os Xaramudi. Esses eram verdadeiros especialistas. Usavam gua quente e vapor d'gua para moldar seus dugouts da forma 
que queriam.
            E o que  um dugoutl  perguntou Ayla.
             um barco escavado de um lenho s. A proa e a popa so afinadas em ponta. Ele desliza to macio na gua que  como se estivesse cortando com uma faca 
afiada. So belos barcos os dugouts. Este que estamos fazendo  grosseiro em comparao, mas no temos rvores de maior porte por aqui. Bonitos dugouts voc ver 
quando chegarmos s terras dos Xaramudi.
            E quanto tempo falta para isso?
     Muito tempo ainda. Eles esto alm daquelas montanhas  disse ele, olhando no rumo do ocidente para os altos picos indistintos na neblina do vero.
     Oh  fez ela, desapontada.  Esperava que no fosse to longe. Seria agradvel encontrar gente. Gostaria que houvesse algum aqui, neste acampamento. Talvez 
os habitantes voltem, antes de partirmos.
    Jondalar percebeu uma nota de desejo na voz dela.
      Voc est com saudades de ver gente? Viveu tanto tempo s no seu vale. Pensei que estivesse acostumada.
     Talvez seja por isso mesmo. Vivi muito tempo sozinha. No me importo hoje com a solido por algum tempo, mas no encontramos ningum nunca  disse ela, encarando-o. 
 Fico to feliz de ter voc comigo, Jondalar! Seria muito triste sem voc.
     Tambm estou feliz, Ayla. Feliz por no ter de fazer esta viagem sozinho, mais feliz ainda do que seria capaz de dizer por ter a sua companhia. Eu tambm conto 
os dias de ver gente. Quando alcanarmos o Rio da Grande Me encontraremos algum por perto. As pessoas gostam de viver perto da gua, junto de rios e lagos, e no 
em campo aberto.
    Ayla concordou, depois segurou a ponta de outra rvore pequena  que estivera aquecendo por cima de pedra e vapor. Jondalar a encurvou, com cuidado, e Ayla o 
ajudou a amarr-la s outras. A julgar pelo tamanho da embarcao que ele armava, precisariam do couro inteiro do auroque para cobri-lo. No sobrariam mais que umas 
aparas, que no dariam para confeccionar um novo guardador de comidas de couro cru como o que ela perdera na inundao. Precisavam de uma canoa, porm, para atravessar 
o rio, e tinha de pensar em outro material que pudesse usar. Talvez uma cesta servisse, pensou, desde que de tranado bem mido, alongado e chata, com tampa. Havia 
nas vizinhanas muita tbua e canios, que serviam para cestaria, mas uma cesta daria certo?
    O problema com carne fresca era que o sangue continuava a pingar por algum tempo. E por mais bem tranada que fosse a cesta, acabaria por vazar. Era por isso 
que couro cru e grosso funcionava to bem. Absorvia o sangue, mas bem devagar, e no vazava nunca, e depois de um certo perodo de uso, podia ser lavado e posto 
de novo para secar. Precisava de algo que fizesse a mesma coisa. Cumpria dar tratos  bola.
    Esse problema de substituir a bolsa de couro cru perdida ficou martelando na cabea de Ayla, e quando a armao de canoa ficou pronta e foi deixada ao sol para 
que a fibra animal secasse at ficar dura e firme, Avia desceu at o rio a fim de colher material para a sua cesta. Jondalar a acompanhou, mas s at as btulas. 
Uma vez que estava trabalhando com madeira, resolveu fazer tambm algumas lanas para substituir as que estavam perdidas ou quebradas.
    Wymez lhe dera algumas boas peas de slex quando ele se despedira, alisadas sumariamente e pr-formadas, de modo a poderem ser acabadas como Jondalar quisesse. 
Ele havia feito as antigas, de ponta de osso, antes que deixassem a Reunio de Vero, para demonstrar como se fabricavam. Eram tpicos exemplares das que seu povo 
usava, mas ele aprendera como fazer lanas como os Mamuti, de ponta de slex. E como era muito hbil no trabalho da pedra, essas eram mais fceis de fazer para 
ele do que as outras, para as quais precisava conformar e polir pontas de osso.
     tarde, Ayla comeou a tecer a cesta destinada a guardar carne. Quando tinha vivido no vale passara muitas longas noites de inverno tecendo cestos e esteiras, 
entre outras coisas, e sabia faz-lo com rapidez e destreza. Era capaz de tecer no escuro, e a cesta para a carne ficou pronta antes da hora de ir para a cama. Estava 
muito bem-feita, a forma e as dimenses tinham sido cuidadosamente calculadas, bem como o material e tipo de tranado. Mesmo assim, ela no estava de todo satisfeita 
com o resultado obtido.
    Saiu. J escurecia, mas precisava trocar sua l absorvente e lavar no regato a pea que estava usando entre as pernas. Depois, botou-a para secar junto do fogo 
e longe dos olhos de Jondalar. Em seguida, sem olhar para ele, deitou-se ao lado dele nas peles que usavam como leito. As mulheres do Cl aprendiam que deviam evitar 
homens tanto quanto possvel quando estavam com as regras, e jamais olharem para eles diretamente. Os homens do Cl ficavam muito nervosos quando tinham de conviver 
com mulheres menstruadas, e ela se surpreendia ao ver que Jondalar no dava importncia quilo. Mesmo assim, sentia-se pouco  vontade com ele, e fazia o possvel 
para cuidar-se sem chamar a ateno.
    Jondalar sempre tivera a maior considerao com ela quando de lua, percebendo o desconforto em que ela estava. Mas uma vez na cama, inclinou-se para beij-la. 
Ayla conservou os olhos fechados, mas correspondeu-lhe com ardor. E quando ele rolou de volta para o seu lugar, e ficaram os dois, lado a lado, contemplando o jogo 
das sombras nas paredes e teto da confortvel estrutura que os abrigava, conversaram, embora ela tivesse o cuidado de no olhar para ele.
     Eu gostaria de impermeabilizar aquele couro depois de montado na armao  disse ele.  Se eu ferver os cascos e as aparas do prprio couro, e mais alguns 
ossos por muito tempo, obtenho uma espcie de caldo grosso pegajoso que endurece ao secar. Temos alguma coisa que eu possa usar para isso?
     Estou certa que podemos arranjar algo. Tem de cozinhar muito tempo?
     Tem. Seno no engrossa.
     Ento, seria melhor diretamente no fogo, como uma sopa...talvez em cima de um pedao de couro. Temos de vigiar o processo, juntando gua quando necessrio.
Enquanto estiver molhado, o couro no queima. Espere... Que tal o estmago maior deste auroque? Eu o tenho mantido com gua dentro para no secar, e poder us-lo
para cozinhar e lavar roupa, mas d uma excelente bolsa para cozinhar  disse Ayla.
     Acho que no, Ayla. No podemos ficar pondo gua, precisamos da sopa bem grossa.
     Nesse caso, uma cesta estanque e pedras quentes seriam o ideal. Posso fazer uma, de manh  disse Ayla. E embora ficasse quieta, e imvel, sua mente no a 
deixou dormir. Ficou pensando que havia um modo melhor de ferver a mistura que Jondalar desejava, mas no conseguia lembrar-se bem como era. Estava quase adormecendo 
quando se lembrou.
     Jondalar! Agora me lembro.
    Ele, que j cochilava, despertou e inquiriu:
            Como? O que foi?
     Nada de errado. S que me lembrei de como Nezzie clarificava gordura. Acho que  a melhor maneira de derreter esse troo que voc quer bem espesso. Voc faz 
um buraco no cho, na forma de uma tigela, e forra-o de couro. Devemos ter um pedao de couro deste auroque que d para isso. Quebra alguns ossos, pe os pedaos 
no fundo, e o mais que lhes deseje acrescentar. Pode ferv-lo pelo tempo necessrio se ficarmos esquentando pedras. Os pedaos de osso impediro que as pedras quentes 
encostem no couro e venham a perfur-lo.
     Muito bem, Ayla. Pois  o que faremos  disse Jondalar, ainda sonolento. E rolou para o outro lado. Logo estava roncando.
    Mas havia ainda alguma coisa na mente de Ayla que a impedia de conciliar o sono. Havia planejado reservar o rume do auroque para que os moradores do Acampamento 
o usassem como bolsa d'gua quando se fossem, mas era necessrio conserv-lo molhado. Uma vez seco, endureceria e no voltaria mais  sua condio original, elstica, 
e quase impermevel. Mesmo se o enchesse, a gua acabaria por ressudar, e ela no sabia quando aquela gente voltaria.
    De repente a soluo lhe ocorreu. Esteve a ponto de gritar outra vez, mas se conteve a tempo. Jondalar estava dormindo, e no queria acord-lo Deixaria que o 
estmago da vaca secasse e o empregaria como forro para o seu novo guarda-comida, modelando-o enquanto estava ainda fresco de modo a ajustar-se perfeitamente  cesta. 
Quando, afinal, adormeceu, na cabana escurecida, estava contente por haver encontrado soluo para aquele problema que a afligia tanto.
    Nos dias seguintes, enquanto a carne secava, os dois estavam muito ocupados. Acabaram de fazer a canoa e a revestiram com a cola que Jondalar fizera cozinhando 
cascos, osso e pedaos de couro. Enquanto secava, Avia fez cestas para a carne que iam deixar de presente para os donos do Acampamento, para cozinhar, em substituio 
 que se perdera; e para recolher plantas. Algumas dessas ela deixaria para trs. Recolheu tambm verduras e plantas medicinais, secando algumas para a viagem.
    Jondalar a acompanhou um dia  procura de alguma coisa a fim de fazer remos para o barco. Logo encontrou a caveira de um veado gigante que morrera antes de trocar 
as grandes aspas palmadas, o que lhe deu duas de tamanho igual. Embora fosse ainda cedo, ficou com Ayla pelo resto da manh. Estava aprendendo a identificar alimentos 
com ela, e, fazendo-o, comeava a entender o quanto Ayla sabia. Seu conhecimento de plantas e sua memria quanto ao uso delas eram incrveis. Quando regressaram 
ao Acampamento, Jondalar aparou os galhos dos grandes chifres largos e fixou-os em pedaos de madeira fortes e curtos, obtendo remos muito satisfatrios.
    No dia seguinte, decidiu usar a parafernlia que construra para curvar a madeira para a armao do barco e endireitar com ela hastes para as novas lanas. Levou 
tempo para form-las e alis-las: a maior parte de dois dias, mesmo com as ferramentas especiais que ele levava, num rolo de couro atado com tiras tambm de couro. 
Mas enquanto se ocupava com essas tarefas, Jondalar via, cada vez que passava pelo lado da cabana, onde a havia jogado, a haste quebrada que ele trouxera do vale 
e se enraivecia. Era uma vergonha que no pudesse aproveitar aquela haste reta, a no ser fazendo um chuo retaco e desproporcionado com ela. Qualquer das lanas 
que estava fazendo com tanto trabalho podia partir-se to facilmente quanto aquela.
    Quando se deu por satisfeito  as novas lanas cortariam o ar to bem quanto as antigas , ele usou mais um dos seus instrumentos, uma lmina estreita de slex 
com uma ponta semelhante a um formo e cabo de chifre para fazer um entalhe profundo na base das hastes. Ento, com os ndulos de slex, preparou novas lminas e 
fixou-as s hastes com a cola grossa que fizera para o barco e tendes frescos da vaca. Esses tendes encolhiam quando secavam, fazendo uma ligao slida e confivel. 
Completou a obra afixando em cada lana um par de penas compridas, achadas  beira do rio. Eram das muitas aves da regio  guias de rabo branco, faces, milhafres 
negros , que se alimentavam de esquilos e outros pequenos roedores.
    Tinham erguido um alvo, usando uma espcie de colcho de capim, grosso, mas sem utilidade  um texugo o rasgara. Reforando o recheio com aparas do couro da 
vaca, o alvo ficou capaz de absorver o impacto de uma lana sem danific-la. Tanto Jondalar quanto Ayla praticavam diariamente. Ayla o fazia para conservar a pontaria, 
mas Jondalar experimentava com diferentes tipos de ponta e tamanhos de haste, para ver quais as que funcionavam melhor com o arremessador.
    Quando as novas lanas ficaram secas e puderam ser consideradas prontas, ele e Ayla foram para o seu estande improvisado, a fim de testa-las e escolher, cada 
um, as que preferisse. Embora fossem peritos com aquele tipo de arma, vrias das lanas erravam o alvo e caam por terra, inofensivamente. Mas quando Jondalar lanou 
uma das novas com toda a fora, e ela no s errou o alvo mas atingiu um grande osso de mamute que era usado como banco ao ar livre, ele levou um susto. A lana 
estalou, infletiu, caiu para trs. Ela se partira num ponto fraco, bem perto da ponta.
    Quando ele a examinou detidamente, viu que a ponta de slex, frgil afinal de contas, lascara de um lado, de alto a baixo, ficando assimtrica e imprestvel. 
Jondalar ficou furioso consigo mesmo, por estragar uma lana que lhe custara tanto tempo e esforo, antes mesmo que tivesse servido para alguma coisa. Tomado de 
raiva, ele ps a haste contra o joelho e quebrou-a em duas.
    Quando ergueu os olhos, viu que Ayla o observava, e voltou-lhe as costas, envergonhado por haver perdido a cabea. Depois se abaixou, pegou as duas partes da 
lana, desejando dar-lhes sumio discretamente. Quando olhou de novo, Ayla se preparava para um novo arremesso, como se no tivesse visto nada. Jondalar foi para 
a cabana e deixou cair a lana quebrada junto da haste que se partira na caada. Depois ficou a contemplar as trs peas perdidas. Sentia-se como um tolo. Era ridculo 
ficar to irritado por motivo to insignificante.
    Mas fazer uma lana nova demandava trabalho, pensou. Era uma lstima que aquelas peas no pudessem ser juntadas para fazer uma lana inteira.
    E se pudessem? Apanhou os dois pedaos da lana que ele mesmo tinha quebrado e examinou em cada um a extremidade partida. Depois as juntou. As duas sees ajustaram-se 
perfeitamente, mas logo se soltaram de novo. Olhando ento a outra haste, inteira, mas sem ponta, notou a endentao que fizera na base para acomodar o gancho do 
arremessador, depois a inverteu para ver a extremidade quebrada.
    Se eu escavasse mais fundo deste lado da haste e afinasse a outra extremidade da pea que tem a ponta de slex lascada e juntasse uma  outra, elas se manteriam 
unidas? Excitado com a ideia, Jondalar foi buscar na cabana o seu rolo de couro. Sentado no cho, abriu-o, deixando  mostra a variedade de ferramentas de slex, 
feitas com tanto cuidado. Escolheu formo. Depositando-o no solo, a seu lado, tirou a faca de slex da bainha, no seu cinto, e comeou a cortar fora as lascas para 
fazer extremidade lisa.
    Ayla cessara de praticar arremessos e pusera suas lanas no carcs que adaptara para usar s costas, puxando para um ombro, como Jondalar fazia. Ela vinha para 
a cabana trazendo algumas plantas que arrancara com raiz e tudo, e Jondalar foi ao seu encontro com um grande sorriso na face.
    Veja, Ayla!  disse, mostrando-lhe a lana. A pea que tinha a ponta lascada estava encaixada agora na extremidade da outra haste, inteira.  Consertei a lana! 
Agora s falta ver se funciona.
    Ela o acompanhou at o alvo e ficou a observ-lo. Jondalar ps a lana no arremessador, fez mira, depois atirou-a com fora. A longa lana acertou o alvo e caiu 
para trs. Mas quando Jondalar foi conferir, viu que a ponta estava enterrada firmemente no alvo. Com o impacto, a haste se soltara e cara. Mas quando ele foi verificar, 
estava intacta. A lana em duas peas funcionava.
     Ayla! Percebe o que isso significa?  Jondalar falava alto, de tanta excitao.
            No tenho certeza  disse ela.
            Veja, a ponta encontrou o alvo, depois se separou da haste sem quebrar. Isso significa que tudo o que tenho de fazer da prxima vez  uma nova ponta 
e prend-la a uma haste curta, como esta aqui. No tenho de fazer um cabo comprido, uma nova haste inteira. Posso fazer duas pontas como esta, vrias pontas, a rigor, 
e s precisarei de poucas hastes. Podemos levar conosco maior nmero de hastes curtas, com ponta, e menor nmero de hastes longas. Se perdermos uma, no ser to 
difcil substitu-la. Aqui, experimente  disse, desprendendo a ponta do alvo.
    Ayla a examinou.
            No sou bastante hbil para fazer uma haste comprida e reta, e minhas pontas no ficam to bonitas quanto as suas. Mas uma destas at eu sou capaz de 
fazer, acho.
    Estava to excitada agora quanto Jondalar.
    Na vspera da partida, verificaram se haviam consertado bem os estragos do texugo, puseram a pele do animal  vista, para que ficasse bvio ter sido ele o autor 
da destruio, e ofereceram seus presentes: a cesta de carne-seca foi dependurada de um caibro do telhado, de osso de mamute, para dificultar a ao de possveis 
predadores. Ayla disps em torno as demais cestas, e deixou suspensas tambm nos caibros vrios molhos de ervas medicinais secas e plantas alimentcias, principalmente 
as de uso corrente entre os Mamuti. Jondalar deixou para o dono da cabana uma lana nova e especialmente bem-feita.
    Montaram ainda a caveira parcialmente seca do auroque, com seus chifres imensos, num poste na frente da casa, bem alto para que animais carniceiros no a viessem 
atacar. Os chifres e outras partes sseas da cabea podiam ter diferentes usos, e a caveira servia tambm para explicar que espcie de carne havia na cesta.
    Lobo e os cavalos pareciam sentir no ar a mudana iminente. Lobo saltava  volta deles, cheio de animao, e os cavalos pareciam desassossega dos. Racer, principalmente, 
pois dava corridas curtas. J Huiin ficava mais perto do Acampamento, vigiando Ayla e relinchando quando ela aparecia.
    Antes de dormir, os dois arrumaram as coisas para a viagem, empacotando tudo, exceto os rolos de dormir e o necessrio para uma refeio frugal ao amanhecer. 
Incluram na cesta a barraca j seca, embora difcil de dobrar e muito volumosa. O couro fora defumado antes de ser convertido em tenda, de modo que, depois de bem 
molhado, permaneceria razoavelmente flexvel. Mas a barraca estava ainda tesa. Ficaria mis flexvel com o uso.
    Na sua ltima noite no conforto da cabana, vendo a luz bruxuleante do fogo que morria danando nas paredes, Ayla sentia as emoes passarem rapidamente pela 
sua mente, num jogo semelhante de brilho e sombra. Estava aflita por continuar a viagem, mas triste tambm por deixar um lugar que se tornara para eles como um lar 
 s que deserto de pessoas. Nos ltimos dias, ela se dava conta de que muitas vezes espreitara do alto da colina a ver se os habitantes do lugar voltavam antes 
que os dois se fossem.
    Desejando ainda que isso acontecesse inesperadamente, ela j perdera de todo a esperana de encontrar gente. Talvez na altura do Rio da Grande Me. Talvez no 
caminho para l. Ayla adorava Jondalar, mas queria encontrar mulheres, crianas, velhos, para rir, conversar, conviver com pessoas da sua espcie. No queria, porm, 
pensar  frente, s no dia seguinte, ou no Acampamento seguinte. No queria pensar no povo de Jondalar ou na distncia que tinham ainda de cobrir para chega l, 
e no queria tambm encarar a necessidade de atravessar aquele rio to veloz e caudaloso num frgil bote redondo.
    Jondalar tambm no dormia. Preocupado com a Viagem deles, aflito para pr-se a caminho, mas contente com os resultados daquela estada ali. Tinham reposto o 
equipamento perdido ou danificado, sua barraca estava seca, e ele se rejubilava com a inveno da lana em duas sees. Estava satisfeito com a construo da canoa, 
mas temia, mesmo assim, a travessia do rio. Era largo e veloz. No estariam muito longe do mar, e era improvvel que o rio diminusse de porte. Tudo podia acontece. 
S estaria tranquilo quando se vissem na outra margem.

10
___________________________________________________________________________

    Ayla acordou muitas vezes durante a noite, e j estava de olhos abertos quando a primeira claridade da manh se insinuou atravs do orifcio do teto por onde 
saa a fumaa e estendeu os dedos finos nos cantos escuros para dissipar a treva e retirar as formas escondidas da sombra em que se dissimulavam. Quando a escurido 
ficou reduzida a um vago crepsculo, ela acordara de todo e no seria mais capaz de dormir.
    Afastando-se com jeito do calor de Jondalar, saiu. O frio da noite envolveu sua pele nua e, com a sugesto das macias camadas de gelo do norte, deixou-a toda 
arrepiada. Olhando para alm do vale do rio, que a cerrao velava, pde entrever as vagas formaes da terra ainda escura da margem oposta, projetada em silhueta 
contra o cu incandescente. Quisera estar l.
    Um plo quente e spero se esfregou na sua perna. Distrada, ela afagou e coou a cabea do lobo que surgira a seu lado. Ele cheirou o ar e tendo encontrado 
alguma coisa interessante, precipitou-se declive abaixo. Ela procurou ver os cavalos e conseguiu distinguir a pelagem amarelada da gua que pastava junto da gua. 
O cavalo, castanho-escuro, no era visvel, mas Ayla tinha certeza que ele andava por perto.
    Tiritando, caminhou pelo capim molhado at o pequeno riacho e percebeu o dia nascendo no oriente. Ficou olhando o cu do outro lado, vendo-o passar de gris a 
azul, um azul pastel, contra o qual passavam nuvens cor-de-rosa, refletindo a glria do sol da manh, oculto ainda pela corcova da colina.
    Ayla se sentiu tentada a andar mais um pouco para v-lo, mas se deteve, contida por um brilho ofuscante da direo oposta. Embora os taludes rasgados de sulcos 
profundos da outra margem do rio estivessem ainda envoltos num cinza uniforme e sombrio, as montanhas mais afastadas, para aquele lado, do poente, banhadas na luz 
clara do sol do novo dia, apareciam em ntido relevo como que gravadas em gua-forte e com tal detalhe que pareciam curiosamente prximas. Para Ayla, era como se 
lhe bastasse avanar a mo para toc-las. Coroando a cadeia de montanhas mais baixa, para o sul, os picos cobertos de gelo formavam uma tiara resplandescente. Ela 
ficou a contemplar, encantada, aquelas mudanas de feio e de cor, assombrada com a magnificncia do outro lado da aurora.
    Quando chegou  pequenina corrente de gua cristalina que se lanava, aos saltos, colina abaixo, j no mais sentia o frio da manh. Colocou na margem a bolsa 
de gua que trouxera e, verificando o estado da sua l, viu que o perodo parecia terminado. Isso a alegrou. Desatou as tiras, retirou pela cabea o amuleto, e entrou 
naquela rasa piscina natural para lavar-se. Quando acabou, encheu a bolsa de gua na cascata que caa na pequena presso da piscina natural, e saiu, tirando a gua 
do corpo primeiro com uma das mos depois com a outra. Ps de volta o amuleto em torno do pescoo, apanhou a l que lavara e as tiras, e foi correndo para casa.
    Jondalar acabava de atar as peles de dormir em rolo quando ela entrou no abrigo onde tinham vivido todos aqueles dias. Ele ergueu os olhos do que fazia e sorriu-lhe. 
Notando que ela j no usava suas tiras de couro, o sorriso se fez sugestivo.
            Talvez eu no devesse ter guardado nossas peles de dormir to depressa esta manh  disse.
    Ayla ficou ruborizada vendo que ele havia percebido que suas regras tinham acabado. Depois olhou diretamente os olhos dele, cheios de riso bem-humorado, amor, 
e uma semente de desejo, e sorriu de volta.
            Voc pode sempre desenrolar tudo de novo.
            L se vo meus planos de partir bem cedo  disse, puxando uma ponta da correia, a fim de desmanchar o n das peles de dormir. Ele, as estendeu por terra 
e permaneceu de p. Ayla foi ao seu encontro.
    Depois da refeio da manh, levaram algum tempo com os ltimos preparativos. Reunindo tudo o que tinham, e a canoa, caminharam declive abaixo para o rio, com 
seus trs companheiros de viagem  Racer, Huiin e Lobo. Difcil era decidir qual a melhor maneira de fazer a travessia. Ficaram olhando o volume de gua que passava 
com fora, to larga que os pormenores da barranca do outro lado eram difceis de ver. Com uma correnteza veloz, que se enroscava sobre si mesma, com redemoinhos 
e corredeiras, e pequenas ondulaes transitrias, que se formavam e desmanchavam todo o tempo, o ronco do rio profundo era quase mais revelador que seu aspecto. 
Falava de poder com um bramido surdo e gorgolejante de arrepiar os cabelos.
    Enquanto fabricava o bote, Jondalar muitas vezes refletira sobre o rio e de como passar ao outro lado. Jamais fizera um barco ante, e s estivera em uns poucos. 
Aprendera a conduzir, quando vivia com os Xaramudi, as canoas escavadas em troncos que eles usavam, mas quando tentara remar os botes redondos dos Mamuti, achou-os 
muito desajeitados. Flutuavam bem e dificilmente emborcavam, mas eram difceis de controlar.
    No s os dois povos tinham materiais diversos  disposio para construir embarcaes, mas tinham tambm diferentes destinaes para elas. Os Mamuti eram, 
sobretudo, caadores da estepe, do campo aberto. Pescar para eles era uma atividade secundria, ocasional. Seus barcos eram usados principalmente para cruzar rios, 
desde os pequenos afluentes at os grandes cursos d'gua que vinham, continente abaixo, das geleiras do norte para os mares interiores do sul.
    Os Ramudi, Povo do Rio, meeiros dos Xaramudi, pescavam no Rio da Grande Me  embora se referissem a essa atividade como caa quando o que pescavam era o grande 
esturjo de nove metros. Quanto aos Xaramudi, caavam sem maior convico a camura e outros animais monteses, que tinham por habitat os altos penhascos e picos 
debruados sobre o rio e, perto de casa, davam-se por satisfeitos com o grande desfiladeiro onde moravam. Os Ramudi viviam praticamente no rio durante as estaes 
calmas, aproveitando-se de todos os recursos ribeirinhos, inclusive os frondosos carvalhos sessilifloros que se enfileiravam s suas margens e cuja madeira usavam 
para fazer barcos, de bela construo e grande maneabilidade.
     Bem, acho que devemos botar tudo dentro  disse Jondalar, apanhando uma das cestas. Mas a deixou de novo no cho e pegou outra.  Talvez seja uma boa ideia 
pr as coisas mais pesadas primeiro. Esta aqui tem todo o meu slex e as minhas ferramentas.
    Ayla assentiu com a cabea. Ela tambm vinha pensando em como passariam para o outro lado da margem com tudo o que levavam intacto, e procurara antecipar os 
possveis problemas da travessia, lembrando as poucas excurses que fizera nos barcos redondos do Acampamento do Leo.
     Devemos ficar, os dois, em lados opostos, para no desequilibrar o bote. Lobo viaja comigo.
    Jondalar se perguntava como o animal se portaria numa frgil tigela flutuante como aquela, mas no disse nada. Ayla viu, porm, que ele franzira a testa. Mas 
tambm ela se absteve de dizer qualquer coisa.
     Devemos ter um remo cada um  disse Jondalar, dando-lhe um.
     Com toda essa carga, espero que sobre lugar para ns  comentou ela, pondo a barraca no barco e pensando que poderia talvez us-la como assento.
    Ficaram apertados, mas embarcaram tudo, exceto as estacas.
            Temos de abandon-las  disse Jondalar.  No h espao para elas.  uma pena, pois tinham acabado de substituir as antigas, perdidas.
    Ayla sorriu e lhe passou uma corda que tinha deixado de fora.
            No temos. Elas flutuaro. Ns as amarraremos ao bote com isto, de modo a no desgarrarem.
    Jondalar no estava muito certo de que aquela fosse uma boa ideia, e j preparava uma objeo, quando uma pergunta de Ayla o distraiu.
     O que vamos fazer com os cavalos?
     Os cavalos? Eles podem nadar, no podem?
            Sim, mas voc sabe o quanto eles podem ficar nervosos, principalmente em face de alguma coisa que nunca fizeram antes. E se alguma coisa na gua os 
assustar e eles resolverem voltar? Se fizerem isso, no vo tentar cruzar o rio depois, sozinhos. Sequer sabero que estamos na outra margem. Teramos de retornar 
para pux-los. Ento, por que no os puxamos agora?  explicou Ayla.
    Ela estava certa. Os cavalos ficariam apreensivos, provavelmente, e tanto poderiam ir para a frente como para trs  pensou Jondalar.
     Mas como poderemos gui-los de dentro do bote?
    Os cavalos complicavam a coisa. Dirigir o barco j era difcil. Como controlar cavalos em pnico ao mesmo tempo? Suas preocupaes com a travessia aumentavam.
     Vamos pux-los pelo cabresto com cordas. Eles viro amarrados ao barco  disse Ayla.
     No sei... Talvez essa no seja a melhor maneira. Talvez devamos pensar um pouco mais.
     Pensar sobre o qu?  indagou ela, enquanto prendia as trs estacas num feixe, que atou na ponta de uma corda presa ao barco. Assim, elas seriam rebocadas. 
 No era voc que queria partir cedo?  acrescentou, enquanto punha o cabresto em Huiin, passava outra corda por ela, e amarrava a corda ao barco, do lado oposto 
ao das estacas. Ento, de p ao lado do barco, ela encarou Jondalar.  Estou pronta.
    Ele hesitou, depois fez que sim com ar decidido.
            Muito bem  disse, apanhando o cabresto de Racer e chamado o cavalo. O jovem garanho levantou a cabea e protestou com um relincho quando Jondalar 
tentou passar-lhe as correias por cima da cabea, mas depois que Jondalar lhe falou e afagou o pescoo, Racer se acalmou. Jondalar prendeu a corda ao barco e olhou 
para Ayla.
            Vamos  disse.
    Ayla fez sinal a Lobo para que embarcasse. Depois, segurando a cordas para manter o controle dos cavalos, empurraram o bote para a gua e pularam dentro.
    Desde o comeo, tiveram problemas. A forte corrente logo se apoderou do barquinho e o arrastou com ela. Mas os cavalos no estavam preparados para enfrentar 
o rio. Recuaram juntos, enquanto o barcos seguia, sacudindo-o to violentamente que ele quase virou. Lobo teve dificuldade em manter-se de p e ficou olhando a situao, 
nervoso. Mas a carga era pesada, e isso endireitou o barco. Em contrapartida, fazia-o navegar muito baixo na gua. As estacas j boiavam, saltando para acompanhar 
a corrente.
    A fora do rio e os gritos de encorajamento de Ayla e Jondalar acabaram por fazer com que os cavalos entrassem na gua. Primeiro, Huiin arriscou uma pata. Depois 
foi a vez de Racer. Como o rio continuasse a puxar, entraram nele e logo estavam nadando. Ayla e Jondalar no tiveram opo seno deixar que o rio os levasse em 
frente, at que o improvvel conjunto de trs longas estacas, um barco redondo com um homem, uma mulher, e um lobo assustado, com dois cavalos a reboque, se estabilizou. 
Ayla e Jondalar pegaram os remos e tentaram mudar de direo, e ir em diagonal para a margem oposta.
    Ayla, que se sentava desse lado, no estava habituada a remar. Teve de recomear vrias vezes at acertar, procurando acompanhar as instrues de Jondalar, que 
remava vigorosamente, a fim de afastar o bote da margem. Mesmo depois que ela se acostumou e pde usar o remo em cooperao com ele para dirigir o barco, progrediram 
muito devagar, com as estacas boiando  frente e os cavalos na esteira, nos olhos estampado o terror de serem arrastados.
    Comearam a cruzar o rio, mas lentamente. Os dois viajavam muito mais rpido rio abaixo. Mas  frente, o largo curso d'gua, indo rumo do mar pelo terreno em 
declive, fazia uma acentuada curva para leste. Uma corrente que refluiu de uma ponta arenosa, que se projetava da margem para onde queriam ir, apanhou de lado as 
estacas, que vogavam  frente deles.
    Os compridos troncos de btula, que iam livres  tona, salvo pelas cordas que os prendiam, giraram e bateram no barco coberto de couro com tanta fora que Jondalar 
temeu tivessem feito um buraco. Eles foram sacudidos, e o barco girou sobre si mesmo, retesando perigosamente as cordas dos cavalos, que relincharam tomados de pnico, 
engoliram muita gua, e tentaram desesperadamente fugir, nadando, mas a corrente inexorvel, que puxava o barco a que estavam presos, os levou consigo.
    Seus esforos, porm, fizeram com que o barco girasse de novo, o que, por sua vez, deu um puxo nas estacas, que bateram mais uma vez na embarcao. Tudo isso 
junto  a corrente turbulenta, os safanes no barco sobrecarregado, as colises abruptas das estacas  fazia com que o barco jogasse e se enchesse de gua, o que 
acrescentava ao peso. Podiam afundar.
    Lobo, apavorado, se encolhia, o rabo entre as pernas, junto de Ayla na barraca dobrada. Ela procurava freneticamente firmar o barco com o remo, sem saber como 
control-lo. Jondalar continuava a dar-lhe instrues, mas ela no sabia como obedecer-lhe. O relincho dos cavalos chamou-lhe a ateno. Vendo o medo de que estavam 
possudos, compreendeu que tinha de solt-los. Deixando ento o remo no fundo do barco, pegou a faca que tinha  cinta e sabendo que Racer era o mais excitado dos 
dois cortou sua corda primeiro, sem maior esforo, porque a lmina de slex era afiada.
    A libertao do cavalo produziu mais solavancos e rodopios. Lobo no aguentou: pulou na gua. Ayla o viu nadar com fora. Cortou, ento, depressa, a corda de 
Huiin, e saltou atrs dele.
     Ayla!  gritou Jondalar, mas logo se viu a girar outra vez. O barquinho, leve e agora mais livre, comeou a rodopiar sobre si mesmo e a bater com estrpito 
nas estacas. Quando ele conseguiu olhar, Ayla procurava abrir caminho de volta ao barco, encorajando o lobo, que nadava em sua direo, a segui-la. Huiin e,  frente 
dela, Racer, j iam para a margem remota, e a correnteza o puxava cada vez mais veloz rio abaixo, para longe de Ayla.
    Ela olhou para trs e teve uma ltima viso de Jondalar e do barco quando os dois viraram a curva do rio, e sentiu um segundo de pavor como se o corao parasse: 
o medo de nunca mais o ver. O pensamento de que no devia ter deixado o barco lhe passou pela cabea, mas isso no adiantava agora, nem tinha tempo de se demorar 
nisso no momento. O lobo vinha chegando, lutando contra a corrente. Ayla avanou para ele com algumas braadas. Mas quando o alcanou, o animal tentou pr-lhe as 
patas no ombro e lamber-lhe o rosto. Mas na sua ansiedade fez com que ela afundasse. Ayla veio  tona cuspindo, engasgada, prendeu-o com um brao, e procurou ver 
os cavalos.
    A gua nadava no rumo da margem, afastando-se de onde ela mesma estava. Ayla respirou fundo e soltou um assobio, alto e demorado. A gua endireitou as orelhas 
e se voltou para a direo de onde vinha o som. Ayla assobiou de novo, e a gua mudou de direo, procurando alcan-la. Ayla ao mesmo tempo, nadou para o animal 
com fortes braadas. Nadava muito bem. Indo, agora em geral, com a corrente, se bem que em diagonal, s com esforo conseguiu chegar at Huiin. Quando a alcanou, 
quase chorou de alvio. O lobo se aproximou, mas continuou em frente.
    Ayla descansou um momento, agarrada  crina de Huiin, e s ento se deu conta de como a gua estava fria. Viu, ento, a corda, ainda presa ao cabresto, e lhe 
ocorreu como seria perigoso para o animal se ela se prendesse a algum entulho flutuante. Levou algum tempo desatando o n, que inchara, e ela tinha os dedos duros 
de frio. Procurou, ento, nadar de novo, para no sacrificar ainda mais o animal, e na esperana de que o exerccio a aquecesse.
    Quando, por fim, alcanaram a margem, ela saiu da gua exausta, tiritante, e se deixou cair por terra. O lobo e a gua pareciam em melhor estado. Os dois se 
sacudiram, jogando gua em torno, depois Lobo se deitou, arfando. Os plos compridos de Huiin j eram densos no vero, embora ficassem ainda mais espessos no inverno, 
quando a l protetora crescia. Ela ficara de p, com as pernas bem afastadas e o corpo tremendo, cabea baixa e orelhas cadas.
    Mas o sol do vero ia alto no cu, o dia esquentara, e uma vez descansada, Ayla parou de tremer. Levantou-se, e procurou por Racer, certa de que, se haviam conseguido 
atravessar o rio, ele tambm fora bem-sucedido. Assobiou. Primeiro, seu assobio especial para Huiin...Racer viria tambm se o ouvisse. Depois, chamou Jondalar com 
o assobio que usava para ele. Sentia um aperto no corao. Teria ele alcanado a margem no seu frgil barco? Em caso afirmativo, onde estava? Assobiou mais uma vez, 
esperando que ele a ouvisse e respondesse, mas no ficou infeliz quando foi o garanho que apareceu, marrom-escuro, a galope, ainda de cabresto, arrastando a corda.
     Racer! Viva, voc conseguiu. Eu sabia que era capaz disso.
    Huiin tambm o saudou com relincho festivo, e Lobo com entusisticos latidos de filhote coroados por um uivo cheio e prolongado. Racer respondeu com diversos 
relinchos altos. Ayla os interpretou como de alvio pelo reencontro dos amigos. Quando chegou perto, Racer esfregou o focinho no nariz de Lobo, depois se postou 
junto de Huiin com a cabea no pescoo dela, consolando-se da terrvel travessia.
    Ayla se juntou a eles, depois abraou o pescoo de Racer e afagou-o por algum tempo antes de libert-lo do cabresto. Ele estava to acostumado a usar aquilo 
que as correias no pareciam incomodar muito nem impedir que pastasse, mas Ayla achou que a corda comprida e solta poderia criar problemas. Ela mesma no gostaria 
de ter uma coisa daquelas pendurada no pescoo todo o tempo. Tirou tambm o cabresto de Huiin e enfiou tudo na cinta de couro que usava por baixo da tnica. Pensara 
em trocar de roupa, mas estava com pressa, e a roupa secaria no corpo.
     Bem, j encontramos Racer. Agora temos de achar Jondalar  disse em voz alta. Lobo a encarava como se esperasse ordens. Ayla ento se dirigiu diretamente a 
ele.
     Lobo, vamos encontrar Jondalar!
    Ento, montando Huiin, seguiu rio abaixo.
    Depois de muitas voltas e rodopios e saltos, o pequenino bote redondo, coberto de couro, acompanhava agora, tranquilamente, a correnteza sob o comando de Jondalar. 
As estacas na parte de trs, dessa vez. Ento, com um nico remo, e considervel esforo, ele comeou a impelir a embarcao de travs, contra a fora do largo rio. 
Descobriu que as trs estacas ajudavam a estabilizar o barco, impedindo que ele rodasse e facilitando o controle.
    Todo o tempo se acusava por no ter pulado atrs de Ayla. Mas tudo acontecera to depressa! Mal se dera conta do que acontecia, e ela j estava longe, arrastada 
pela correnteza. Teria sido intil pular na gua depois de perd-la de vista. No poderia nadar de volta, contra a corrente perderia o barco com tudo o que ele continha.
    Procurou consolar-se pensando que ela nadava bem. Mas sua preocupao o incentivava a persistir nos esforos para atravessar o rio. Quando por fim, alcanou 
a margem, muito longe do ponto de onde haviam partido; quando sentiu que o fundo do barco tocava a praia rochosa que tinha visto, projetando-se para dentro do rio 
numa curva, soltou um grande suspiro de alvio. Em seguida, desceu e puxou o pequeno barco com a carga pesada pelo aclive da praia. Descansou um pouco, de to exausto 
que estava, mas logo se ergueu e saiu, rio acima, a procurar Ayla.
    Manteve-se perto da gua e quando encontrou um pequenino afluente, vadeou-o sem maiores dificuldades. Mas algum tempo depois deu com um segundo afluente, de 
grandes propores. A, hesitou. Aquele no era rio que se pudesse vadear, e se tentasse pass-lo a nado, to perto do rio principal, corria o risco de ser arrastado 
para ele. Teria de caminhar ao longo da margem at encontrar um lugar mais favorvel a uma travessia.
    Ayla, montada em Huiin, chegou ao mesmo rio no muito depois dele. E tambm acompanhou seu curso na direo das cabeceiras por algum tempo. Mas atravessar a 
cavalo ou a p so coisas muito diferentes, e a escolha do melhor ponto para faz-Io depende de outras consideraes. No andou tanto quanto Jondalar. Logo entrou 
no rio. Racer e Lobo vieram atrs dela e logo estavam todos do outro lado. Ayla avanou, ento, para o rio principal, mas, olhando para trs, viu que Lobo enveredava 
na direo oposta.
     Venha, Lobo.  Por aqui! Depois assoviou, e disse a Huiin que seguissem em frente.
    Lobo hesitou, comeou a obedecer-Ihe, depois parou no meio do caminho, mas acabou por vir. Na margem, Ayla resolveu ir na direo da corrente e ps a gua a 
galope.
    Seu corao bateu forte quando julgou divisar, numa praia pedregosa a frente, um objeto arredondado e convexo.
     Jondalar, Jondalar!  gritou, cavalgando a toda brida. Apeou mesmo antes que a gua parasse e correu para o barco. Olhou dentro dele, olhou em volta. Tudo 
estava l, ao que parecia, inclusive as estacas. S faltava Jondalar.
            Eis o bote, mas onde est Jondalar?  perguntou alto. Lobo latiu, como que em resposta.  Por que no consigo achar Jondalar? Onde estar ele? Ser 
que o barco veio parar aqui sozinho? Ser que ele no conseguiu atravessar?
    Depois o pensamento lhe ocorreu. Talvez ele esteja procurando por mim, pensou. Mas se foi rio acima e eu vim rio abaixo, como nos desencontramos?
            O rio!  exclamou. Lobo latiu de novo. E ela se lembrou da hesitao do animal logo depois de cruzarem o grande afluente.
            Lobo!
    O animal veio correndo e saltou, pondo as patas dianteiras nos ombros de Ayla. Ela o pegou pelos plos do pescoo com as mos, olhando aquele focinho comprido, 
aqueles olhos inteligentes, e lembrando-se do filhote que ele havia sido, pequenino e frgil, a recordar-lhe tanto o filho. Rydag mandara que Lobo a fosse procurar 
um dia, e ele percorrera uma longa distncia para encontr-la. Sabia que ele era capaz de encontrar Jondalar se ela pudesse faz-lo entender o que queria.
            Lobo, encontre Jondalar!
    O animal se deixou cair, farejou em torno do barco, depois seguiu por onde tinham vindo, rio acima.
    Jondalar estava metido na gua at a cintura, e avanava com cuidado atravs do rio menor, quando ouviu um fraco pio de ave, que lhe pareceu, de certo modo, 
familiar... e impaciente. Parou, fechou os olhos, procurou localizar a origem do som. Depois, sacudiu a cabea. No podia estar certo, sequer, de ter mesmo ouvido 
alguma coisa. E prosseguiu. Quando alcanou a margem oposta e comeou a andar na direo do rio. principal, continuou com aquilo na cabea. Finalmente, sua obsesso 
de encontrar Ayla o fez esquecer um pouco o incidente, se bem que, de tempos em tempos, a lembrana voltasse.
    Caminhara bastante, com as roupas molhadas, sabendo que Ayla tambm estaria encharcada, quando lhe ocorreu que talvez devesse ter levado a barraca ou alguma 
outra coisa que lhe servisse de abrigo. Comeava ficar tarde, e tudo poderia ter acontecido com ela. O pensamento fez com que esquadrinhasse o rio, as margens, a 
vegetao em torno mais detidamente.
    De repente, ouviu de novo o assobio, dessa vez muito mais alto e mais perto, seguido de uma espcie de latido, e, por fim, de um uivo perfeitamente caracterizado 
de lobo, e o som de cascos de cavalo. Virando-se, seu rosto se abriu num largo sorriso de boas-vindas quando viu Lobo, que vinha como uma flecha em sua direo, 
com Racer logo atrs e melhor do que tudo isso, Ayla montada em Huiin.
    Lobo saltou-lhe no peito e se ps a lamber-lhe o queixo. Jondalar o pegou carinhosamente pelo plo do pescoo, como tinha visto Ayla fazer, e acabou dando um 
abrao no animal. Depois afastou-o, pois j vinha perto, saltava, e corria ao seu encontro.
     Jondalar! Jondalar  disse, quando ele a tomou nos braos
    Ayla! Oh, minha Ayla!  disse ele, estreitando-a contra o corao.
    O lobo saltou de novo e se ps a lamber o rosto dos dois, e nenhum deles pensou em expuls-lo.
    O grande rio, que tinham atravessado com os cavalos e o lobo, lanava-se se no mar interior de guas escuras que os Mamuti chamavam Mar de Beran, pouco ao norte 
do largo delta do Rio da Grande Me. Quando os dois viajantes se aproximaram da foz daquele imenso curso d'gua, que serpenteava por mais de trs mil quilmetros 
atravs do continente, terreno descendente se nivelou.
    As magnficas pastagens dessa regio meridional, plana, foram uma surpresa para Ayla e Jondalar. Uma rica vegetao, nova e fresca, era incomum para aquela poca 
tardia do ano, mas cobria toda a paisagem de campo aberto. A violenta tempestade, com suas chuvas torrenciais, excepcional, tambm, para a estao, e generalizada, 
era responsvel por todo aquele verde. Era como se a primavera renascesse na estepe, pois no havia apenas capim, mas flores de vrias cores: ris ans, cor de prpura 
e amarelas, penias de muitas ptalas, de um vermelho intenso, lrios cor-de-rosa, maculados, ervilhacas multicores, que iam do amarelo e do laranja at o vermelho 
vivo e o gren.
    Um grande alarido de pios e gritos chamou a ateno de Ayla para os vociferantes pssaros preto e rosa que voltejavam no alto e mergulhavam em seguida, separando-se 
uns dos outros ou juntando-se em grandes bandos, numa confuso de incessante atividade. Essa pesada concentrao de estorninhos, barulhentos, gregrios, rosados 
nas vizinhanas, deixava Ayla inquieta. Embora eles sempre vivessem em colnias, voassem em bandos, e dormissem amontoados  noite, ela no se lembrava de ter visto 
tantos deles ao mesmo tempo.
    Notou que francelhos e outros pssaros tambm comeavam a congregar-se ali. O rudo era cada vez mais estridente, e havia no ar um zumbido surdo contnuo, de 
expectao como fundo musical. Foi ento que ela divisou uma grande nuvem escura no cu  lmpido, curiosamente, a no ser por ela. Parecia mover-se com o vento 
e vinha na direo deles. De sbito, a imensa horda de pssaros pareceu ainda mais agitada.
     Jondalar  disse ela para o homem, que cavalgava  frente dela.  Olhe aquela estranha nuvem.
    O homem ergueu os olhos e, em seguida, parou o cavalo. Ayla emparelhou com ele. Enquanto observavam, a nuvem ficou perceptivelmente maior ou, talvez, mais prxima.
     No creio que se trate de uma nuvem de chuva  disse Jondalar.
     Eu tambm no. Mas que outra coisa pode ser?  Sentia de sbito e inexplicavelmente uma grande vontade de procurar abrigo em qualquer lugar.  Voc acha que 
deveramos armar a tenda e esperar que ela passasse?
            Prefiro ir em frente. Talvez possamos deix-la para trs, se nos apressarmos.
    Incitaram os cavalos a andar mais depressa pelo prado verdejante Mas tanto as aves quanto a estranha nuvem os ultrapassaram. O som, estridente, cresceu de intensidade, 
superando mesmo o grasnar frentico dos estorninhos.
            O que foi isso?  disse ela. Mas antes que as palavras lhe sassem da boca, ela foi atingida de novo, e outra vez mais. Algo aterrissou tambm em Huiin, 
depois pulou fora. Mas a coisa se repetiu. Quando Ayla olhou para Jondalar, que cavalgava  sua dianteira, viu mais daqueles insetos voadores e saltadores. Um pousou 
bem  sua frente, e antes que pudesse escapar ela o prendeu com a mo em concha.
    Examinou-o, em seguida, com todo o cuidado. Era, de fato, um inseto, do tamanho do seu dedo mdio, com as pernas traseiras compridas. Parecia um gafanhoto dos 
grandes, mas no era desse verde de folha seca que se confunde to bem com o terreno, como os que tinha visto saltando no cho. Aquele era notvel justamente por 
ter listas muito vivas, pretas, amarelas e cor de laranja.
    A diferena era produto da chuva. Na estao normalmente seca eles eram gafanhotos comuns, pequenos animais solitrios, tmidos, que s se reuniam a outros da 
mesma espcie para cruzar. Mas uma grande alterao se produzira depois da grande tempestade. As fmeas se aproveitaram do surgimento de nova relva fresca e da abundncia 
de alimentos para botarem muito mais ovos do que de hbito, e um nmero muito maior de larvas sobreviveu. Com esse aumento da populao, algumas extraordinrias 
mudanas ocorreram. Os pequenos gafanhotos ganharam cores novas, vivas, e comearam a procurar a companhia uns dos outros. No eram mais gafanhotos, e sim locustdeos.
    Em pouco tempo, grandes bandos de locustdeos multicores se juntavam a outros bandos e, uma vez exauridas as reservas locais de aliamento, empreendiam grandes 
voos de invaso a outras zonas, viajando em grandes massas. Uma nuvem de cinco bilhes de indivduos no era incomum, podendo cobrir 150 quilmetros quadrados, e 
devorar oitenta toneladas de vegetao numa s noite.
    Assim que a vanguarda da nuvem de locustas comeou a descer para cevar na relva fresca, Ayla e Jondalar se viram engolfados pelos insetos, que voejavam em torno, 
chocando-se contra eles e suas montarias. No foi difcil, nessas circunstncias, pr Huiin e Racer a galope. Impossvel teria sido cont-los. Enquanto fugiam, atingidos 
ainda, a todo momento, por aquele dilvio de insetos, em vo Ayla procurava Lobo com os olhos. O ar estava denso de insetos voando, saltando, ricocheteando uns contra 
os outros. Ela assobiou to alto quanto pde,  espera que ele conseguisse ouvi-la, apesar do zumbido ensurdecedor.
    Ela quase bateu contra um estorninho cor-de-rosa, que mergulhou logo em frente do seu rosto e pegou uma locusta no ar. Compreendeu ento por que os pssaros 
se haviam congregado ali em to grande nmero. Tinham sido atrados pelo imenso suprimento de comida, fcil de ver graas s cores vivas. Mas os ntidos contrastes 
que atraam as aves tambm serviam aos insetos para localizar uns aos outros quando tinham de levantar vo para outra regio, quando no havia ali mais comida. Nem 
mesmo a presena de tantas aves reduzia o nmero de insetos enquanto vegetao fosse suficiente para aliment-los e s novas geraes. S quanto as chuvas cessavam, 
e os prados retornavam  sua condio anterior, normal, seca, capaz de alimentar apenas um pequeno nmero de insetos, os locustdeos se tornavam outra vez incuos 
gafanhotos, com sua habitual camuflagem pardacenta.
    Lobo foi ach-los logo depois que deixaram a nuvem para trs. quela hora j os vorazes insetos se haviam acomodado no solo para passar a noite. Ayla e Jondalar 
acamparam a uma boa distncia deles. Quando partiram, na manh seguinte, seguiram rumo ao nordeste, para uma colina elevada, de onde poderiam ver toda a plancie 
e, talvez, ter uma ideia da distncia que os separava ainda do Rio da Grande Me. Para alm da crista da colina, e a uma distncia relativamente pequena, viram a 
regio da rea que fora visitada pela praga de gafanhotos predadores. A nuvem, revoluteante, j fora, quela altura, varrida para o mar pelos ventos fortes. Ficaram 
assombrados com a destruio.
    No campo, to belo antes, to cheio de flores coloridas e vio, a relva estava destruda at onde a vista alcanava. Nem uma folha, nem qualquer mancha de verdura. 
Tudo fora devorado pela horda faminta. Os nicos sinais de vida eram os estorninhos, caando insetos cados ou retardatrios. O solo fora raspado, violentado, e 
jazia exposto. Sem dvida, ficaria recuperado daquela devastao provocada por criaturas por ele mesmo criadas, no seu ciclo natural de vida, e das razes escondidas 
e das sementes trazidas pelo vento, ele se vestiria de verde outra vez.
    Quando Ayla e Jondalar olharam para outra direo, uma nova paisagem os saudou, e seu pulso bateu forte. Para leste, um vasto lenol d'gua luzia ao sol: era 
o Mar de Beran.
    Enquanto olhava, Ayla percebeu que era o mesmo mar que tinha conhecido na infncia. Na ponta mais meridional de uma pennsula que entrava na gua, do lado norte, 
ficava a caverna em que vivera com o Cl de Brun em criana. Morar ali, com o povo do Cl, fora muitas vezes difcil. Mas ela guardava ainda muitas memrias felizes 
desse tempo. S a  lembrana do filho que tivera de abandonar a entristecia inevitavelmente. Sabia que estava agora mais prxima dele do que jamais estaria  desse 
filho que nunca mais veria.
    Era melhor para ele viver com o Cl. Na companhia de Uba, sua me adotiva, com o velho Brun para ensinar-lhe o uso da lana, das bolas, da funda, das normas 
do Cl, Dure seria amado e aceito, e no se tornaria objeto de chalaas como Rydag o fora. Mas ela no podia deixar de pensar nele. Viveria ainda o Cl naquela mesma 
pennsula? Ou se teria mudado para mais perto de outros Cls, no interior do continente ou nas altas montanhas orientais?
            Ayla! Veja. L est o delta, e voc pode ver Donau, ou, pelo menos, parte dele. Do outro lado daquela grande ilha, aquela gua barrenta, marrom? Se 
no me engano, aquele  o brao principal do rio, o brao norte. L est ela: a foz do Rio da Grande Me!  disse Jondalar, com uma grande excitao na voz.
    Ele tambm estava esmagado de memrias, em que se mesclava uma certa tristeza. Da ltima vez que vira aquele rio estava com o irmo. E agora Thonolan se fora 
para o mundo dos espritos. De sbito ele se lembrou da pedra de superfcie opalescente que levara do stio onde Ayla havia sepultado, seu irmo. Ela dissera que 
a pedra continha a essncia do esprito de Thonolan, ele tinha a inteno de presentear com ela sua me e Zelandonii quando voltasse. Estava na sua cesta. Talvez 
devesse tir-la de l, carreg-la consigo.
            Oh, Jondalar! L, junto do rio, v? Aquilo no  fumaa? No haver gente vivendo junto daquele rio?  disse Ayla, animada com essa perspectiva.
            Pode ser  disse Jondalar.
      Vamos andar depressa, ento  disse ela. E comeou a descer a colina, com Jondalar cavalgando ao lado.  Quem poder ser? perguntou.  Algum que voc conhea?
     Pode ser. Os Xaramudi vm s vezes, at esta distncia, nos seus barcos, para comerciar. Foi assim que Markeno ficou conhecendo Tholie. Ela estava com um 
Acampamento Mamuti que viera em busca de sal e de conchas.  Ele se calou, olhou em volta, perscrutando com maior ateno o delta e a ilha do outro lado de um estreito 
canal. Depois estudou o terreno rio abaixo.
            Na verdade, acho que no estamos muito longe do lugar onde Brecie instalou o Acampamento do Salgueiro... no vero passado. Foi mesmo no vero passado? 
Ela nos levou para l, depois que o Acampamento salvou a mim e a Thonolan da areia movedia...
    Jondalar fechou os olhos, mas Ayla tinha visto a dor que havia neles.
            Eles foram as ltimas pessoas que meu irmo viu... alm de mim. Viajamos juntos um pouco mais. Eu tinha esperana que ele superasse aquilo, mas Thonolan 
no quis viver sem Jetamio. Quis que a Grande Me o levasse  disse Jondalar. E, ento, baixando os olhos, acrescentou.  E foi ento que encontramos Nenm.
    Jondalar encarou Ayla, e ela viu sua expresso mudar. A dor ainda estava presente, mas ela reconheceu aquele olhar especial que mostrava quando o seu amor por 
ela era tanto que ficava quase impossvel suportar para ele. Para ela tambm, pensou. Mas havia tambm outra coisa nele, algo que a deixava assustada.
            Nunca pude entender por que Thonolan quis morrer... naquela hora  disse ele.
    Depois, virando o rosto, fez com que Racer andasse mais depressa e disse por cima do ombro:
     Vamos. Voc no queria correr?
    Ayla fincou os calcanhares em Huiin, decidida a ser mais cuidadosa, e acompanhando o homem que galopava agora, em cima do garanho, rumo ao rio, embaixo. Mas 
o galope era excitante e serviu para espantar o clima estranho e triste que aquele terreno evocara para os dois. O lobo, excitado com o ritmo acelerado da marcha, 
corria com eles. E quando, finalmente, chegaram  fmbria da gua e pararam, Lobo levantou a cabea entoou uma melodiosa cano canina, feita de longos uivos tirados 
do fundo da garganta. Ayla e Jondalar se entreolharam e sorriram, imaginando qual seria a maneira mais apropriada de anunciarem que tinham alcanado o rio que ia 
ser seu companheiro pela maior parte do que  lhes restava a fazer como Jornada.
      este mesmo? Alcanamos o Rio da Grande Me?  disse Ayla os olhos brilhando.
     Sim.  este  disse Jondalar, e depois olhou para o acidente, rio acima. No queria desanimar Ayla, mas sabia o quanto tinham de viajar ainda.
    Tinham de cobrir de volta os passos dele atravs do continente at a geleira que cobria as montanhas nas cabeceiras desse longo rio, depois seguir mais alm,
quase que at a Grande gua do fim do mundo, bem para oeste. Ao longo do seu curso sinuoso de trs mil quilmetros, o Donau  o rio de Doni, a Grande Me Terra dos
Zelandonii  engrossava com a gua de mais de trezentos afluentes, com a drenagem de duas cadeias geladas de montanha, e arrastava consigo uma enorme carga de sedimentos.
    Dividindo-se, muitas vezes, em canais, quando serpenteava pelas plancies que encontrava no caminho, o grande curso d'gua transportava um prodigioso acmulo
de solo arenoso em suspenso. Mas antes de chegar ao fim do curso, todo esse saibro, todos esses detritos se acamavam num imenso depsito em leque, uma profuso
de ilhotas rasas e baixios, sufocados a meio de lodo e areia, e rodeados de lagos pouco profundos e tortuosos canais, como se a Grande Me dos rios estivesse to 
exausta da sua longa viagem que resolvia despejar aquela pesada carga de sedimento antes da sua destinao, para depois se arrastar, devagarinho, para o mar.
    O vasto delta que eles alcanaram, duas vezes mais longo do que largo, comeava a muitos quilmetros do mar. O rio, cheio demais para ser contido por um s canal 
na plancie achatada, que ficava entre o antigo macio de rocha fundamental que alguma convulso erguera a prumo do lado do oriente e o terreno suavemente ondulado 
em colinas que descia das montanhas para o lado do ocidente, dividia-se em quatro braos principais e cada um deles tomava uma direo diferente. Diversos canais 
comunicavam esses braos uns com os outros, criando um labirinto de meandros que por sua vez formavam pequenos lagos e lagunas. Grandes formao de juncos rodeavam 
terra firme que iam desde simples bancos de areias at ilhas de verdade, completas com florestas e estepes, povoadas  por auroques, veados e seus predadores.
     De onde vem aquela fumaa?  perguntou Ayla.  Deve haver um Acampamento por aqui.
     Creio que veio daquela ilha grande que vimos na foz, para alem do canal  disse Jondalar, apontando.
    Quando Ayla olhou, tudo o que viu de comeo foi uma cortina de altos juncos fragmticos, com seus pendes plumosos, cor prpura, balanando na brisa, mais de 
cinco metros acima do cho alagado de onde brotavam. Depois notou as belas folhas verde-prata dos salgueiros, por trs deles. Levou mais um momento para que ela 
fizesse outra observao que a deixou intrigada. O salgueiro, tanto quanto sabia, era um arbusto que crescia to junto da gua que suas razes ficavam muitas vezes 
cobertas na estao chuvosa. Jamais atingiam a altura de rvores. Ou poderia estar enganada? Seriam aquelas rvores salgueiros? Ela no costumava cometer erros dessa 
natureza.
    Comearam a descer o rio, e quando estavam j defronte da ilha entraram pelo canal. Ayla olhou para trs a fim de certificar-se de que  as traves do tren, com 
o barco amarrado, no se haviam enredado. De pois verificou se as pontas dianteiras, cruzadas  frente, se moviam, livremente como os mastros, que vinham agora arrastados 
pela gua. Quando arrumaram de novo a bagagem e deixaram o rio principal para trs, tinham pensado em abandonar o barco. Ele j cumprira sua misso, que era a de 
lev-los at ali, mas dera muito trabalho para fazer. E apesar de no ter servido to bem quanto haviam imaginado, tinham pena de abandonar o pequeno bote redondo.
    Foi Ayla quem teve a ideia de fixar o barco ao tren, mesmo que isso obrigasse Huiin a usar o arns de forma ininterrupta e arrastar o tren todo o tempo. Mas 
foi Jondalar quem pensou que ele facilitaria a passagem de rios. Poderiam carregar o barco com a bagagem, que assim no ficaria molhada. Huiin nadaria  vontade, 
puxando uma tralha leve que flutuasse. Quando experimentaram o processo no primeiro rio que tiveram de atravessar, verificaram que era at desnecessrio tirar o 
arns da gua.
    A correnteza tinha uma tendncia de puxar barco e mastros, o que preocupava Ayla sobremaneira, principalmente depois que vira como Huiin e Racer tinham entrado 
em pnico quando se viram, no outro rio numa situao que escapava ao seu controle. Decidiu refazer o arns de modo a poder cortar fora as correias se parecessem 
pr a gua em perigo. J o cavalo compensava a fora da correnteza e aceitava a carga sem dificuldade. Ayla ocupara-se, pacientemente, em familiarizar Racer com 
a nova ideia. Huiin estava habituada ao tren e confiava em Ayla.
    A larga tigela aberta do barco pedia enchimento. Comearam a  levar madeira, excrementos secos e outros materiais teis para acender fogo que iam apanhando pelo 
caminho, com vista  fogueira da noite. As vezes deixavam tambm suas cestas de bagagem no barco depois de atravessarem um rio. Tinham passado diversos cursos d'gua 
de diferentes tamanhos que demandavam, todos, o mar interior. E Jondalar sabia que teriam muitos outros ainda pela frente na sua Jornada ao longo do Rio da Grande 
Me.
    Quando entraram na gua limpa do canal mais exterior do delta, o garanho assustou-se e relinchou nervosamente. Racer no gostava de rios desde a sua desagradvel 
aventura, mas Jondalar vinha guiando o cavalo em todos os riachos e ele aos poucos vencia o medo. Isso era bom, pois haveria outros a cruzar antes de chegarem em 
casa.
    A gua movia-se vagarosa. E era to transparente que podiam ver peixes nadando entre as plantas aquticas. Depois de passarem os canios da margem, ganharam 
a ilha, comprida e estreita. Lobo foi o primeiro a alcanar aquela lngua de terra firme. Sacudiu-se vigorosamente, depois subiu correndo pela praia de areia molhada 
e compactada de mistura com argila que subia para uma pequena mata de salgueiros crescidos, de folhagem verde-prateada, to grandes quanto rvores.
     Eu sabia  disse Ayla.
     O que voc sabia?  indagou Jondalar, sorrindo diante da expresso de auto-suficincia que ela arvorava.
     Estas rvores so idnticas aos arbustos entre os quais dormimos naquela noite em que choveu tanto. Pensei que fossem salgueiros, mas nunca vira nenhum to 
grande assim. Salgueiros so em geral arbustos, mas estas rvores podem muito bem ser salgueiros.
    Desmontaram e conduziram os cavalos para a floresta, fresca e pouco cerrada. Marchando em silncio, observaram as sombras das folhas danando na brisa leve e 
mosqueando a alfombra do cho, relvoso, batido de sol. Pelos claros das rvores, viram auroques pastando, ao longe. Estavam a favor do vento, porm, e logo que o 
gado sentiu seu cheiro fugiu bem rpido. Aqueles animais j haviam passado pela experincia da caa, pensou Jondalar.
    Os cavalos comearam a cortar forragem com os dentes, avanando livremente por aquele delicioso terreno arborizado. Ayla parou e comeou a tirar os arreios de 
Huiin.
            Por que est parando aqui?  perguntou Jondalar.
            Os animais querem pastar. Pensei que podamos parar um instante.
    Jondalar pareceu preocupado.
            Acho que devemos andar mais um pouco. Estou seguro de que h gente nesta ilha, e gostaria de saber quem so antes de acamparmos.
    Ayla sorriu.
     Tem toda razo! Voc disse que a fumaa vinha daqui. Este lugar  to bonito que quase me esqueci disso.
    O terreno subia gradualmente, e mais para dentro comearam a aparecer amieiros, choupos e salgueiros brancos, o que variava a folhagem, em geral verde-acinzentada. 
Viram, depois, uns poucos pinheiros j antigos. Deviam estar naquela regio havia tanto tempo quanto as prprias montanhas. Isso acrescentava um fundo mais escuro 
ao mosaico de verdes. J o lario contribua com uma tonalidade mais clara, tudo valorizado pelos tufos de verde e ouro dos capins da estepe que acenavam ao vento. 
Eles subiam pelos troncos das rvores e havia cips pendentes dos ramos do dossel mais denso da floresta. Nas valas, iluminadas pelo sol, formaes de carvalho pubescente 
e aveleiras, um pouco mais altas, punham 
    A ilha no elevava cerca de um metro acima do nvel da gua e em seguida se aplainava num extenso campo, que era como que uma estepe em miniatura, com festucas 
e estipas alourando ao sol. Ayla e Jondalar atravessaram a ilha pelo meio e se viram diante de um talude mais abrupto de dunas arenosas, firmadas com couve-marinha, 
capim-da-praia, azevinho-do-mar. O declive levava a uma enseada curva, quase uma lagoa, bordada de altos canios de penacho purpreo, misturados a rabos-de-gato 
e juncos, alm de grande variedade de plantas aquticas menores. Na angra, as formaes de ninfias eram to densas que mal se via a gua. E empoleiradas nelas havia 
garas, em nmero incontvel.
    Para alm da ilha, ficava outro canal, largo, barrento, que era o brao mais setentrional do grande rio. Prximo da ponta da ilha depararam com um fio de gua 
cristalina que entrava no canal principal, e Ayla ficou pasma de ver as duas correntes, uma lmpida e a outra escura, de lodo correndo lado a lado com uma ntida 
diviso de cor. Por fim, no entanto, a gua suja dominava a limpa, pois o canal principal enlameava tudo.
     Veja s aquilo, Jondalar  disse Ayla, mostrando-lhe a clara definio das duas guas correndo paralelas.
      assim que a gente sabe que est no Rio da Grande Me. Aquele brao conduz diretamente ao mar. Mas olhe para o outro lado, Ayla.
    Para alm de um macio de rvores, fora da ilha, uma fumaa fina e retilnea subia para o cu. Ayla sorriu, antegozando o que estava para acontecer. Mas Jondalar 
tinha ainda suas dvidas. Se aquele fumo saa de uma lareira, por que no tinham visto ningum? Eles mesmos, com certeza, teriam sido vistos. E por que ningum viera 
encontr-los? Jondalar encurtou a rdea que lhe servia para comandar Racer e afagou-lhe o pescoo.
    Quando avistaram os contornos de uma tenda cnica, Ayla soube que haviam chegado a um Acampamento, e pensou, consigo mesma, de que povo seria. Podiam ser, at, 
Mamuti. Ps Huiin a passo e, vendo que Lobo assumira uma postura defensiva, assobiou o sinal que lhe ensinara. Assim, quando entraram no pequeno acampamento, ele 
estava a seu lado.

11
___________________________________________________________________________
    Huiin vinha logo atrs de Ayla quando ela adentrou o Acampamento e marchou para o fogo de onde saa ainda o penacho de fumo. Eram cinco os abrigos, arranjados 
em semicrculo, e o fogo, meio enterrado no cho, ficava defronte ao abrigo central. Ardia alegremente, de modo que o ACampamento fora usado recentemente, mas ningum 
assumiu sua posse vindo para saud-los. Ayla correu os olhos em torno. Alguns dos abrigos estavam abertos. Mas no viu ningum. Intrigada, estudou o conjunto mais 
detidamente, a ver se descobria alguma coisa sobre os habitantes  quem eram, e por que se tinham ido.
    A maior parte de cada uma das estruturas era semelhante  tenda cnica usada pelos Mamuti no vero. Mas havia algumas conspcuas diferenas. Os Caadores de 
Mamutes muitas vezes ampliavam seus alojamentos acrescentando tendas semicirculares feitas de peles  unidade principal de moradia, utilizando, at, um segundo mastro 
capaz de sustentar esses suplementos. J os abrigos daquele Acampamento tinham acrscimos feitos de canios e capim. Alguns no passavam de simples tetos inclinados 
montados sobre mastros finos. Outros eram adies arredondadas, completamente fechadas, feitas de esteiras ou colmo, e coladas  edificao principal.
    Do lado de fora da tenda mais prxima de onde ela estava, Ayla viu uma pilha de razes de tbuas, marrons, sobre uma esteira de juncos tranados. Perto da esteira 
estavam duas cestas. Uma delas era de tranado fino, e continha gua ligeiramente turva; a outra estava cheia pelo meio de razes novas, brancas, brilhantes, visivelmente 
peladas de fresco. Ayla avanou e pegou uma. Estava ainda molhada. Devia ter sido posta ali havia poucos instantes.
    Quando a devolveu ao cesto, notou um estranho objeto no cho. Era feito de folhas de tbua  imitao de uma pessoa, com braos saindo para os lados, duas pernas, 
e um pedao de couro macio enrolado para trazer de tnica. Na cabea, duas linhas curtas tinham sido desenhadas com carvo para representar os olhos, e outra linha 
marcara a boca, puxada para cima nas extremidades, como se sorrisse. Tufos de estipa serviam de cabelo.
    O povo com quem ela fora criada no fazia imagens, a no ser sinais totmicos muito sumrios, como as marcas que tinha na perna. Ela fora arranhada quando menina 
por um leo da caverna e ficava para sempre com quatro estrias retas na coxa esquerda. A mesma marca era de uso no Cl, para representar um totem do leo. Por isso, 
Creb tivera tanta certeza de que o Leo da Caverna era o seu totem, a despeito de ser ele considerado um totem masculino. O Espirito do Leo da Caverna escolhera-a 
e marcara pessoalmente. E assumira, assim, a sua proteo.
    Outros totens do Cl eram indicados do mesmo modo, com simples sinais, muitas vezes derivados de movimentos ou gestos da sua linguagem no-verbal. A primeira 
imagem verdadeiramente representativa que ela vira fora o desenho esquemtico de um animal que Jondalar fez num pedao de couro a ser usado como alvo. E ela ficara 
perplexa no primeiro momento olhando aquele objeto no cho. Ento, num timo, o identificara. Jamais tivera uma boneca quando pequena mas lembrava que as crianas 
Mamuti brincavam com coisas como aquela  e compreendeu o que era.
    Ficou, ento, bvio que uma mulher estivera sentada naquele lugar com uma criana momentos antes. E fora embora, ao que parece com grande pressa, pois abandonara 
a comida e nem mesmo levara a boneca da menina. Por que teria feito isso?
    Ayla se voltou e viu que Jondalar, ainda segurando a ponta da rdea de Racer, se ajoelhara em meio a estilhas de slex e examinava uma pedra arredondada.
            Algum estragou uma ponta bem-feita com um ltimo golpe desastrado. Talvez apenas um retoque, mas foi forte demais e errou o alvo... como se o escultor 
tivesse sido interrompido de repente. E aqui est o martelo de pedra! Ele o deixou cado no cho.
    As marcas na pedra oval e dura eram prova de longo uso, e ele, experimentado arteso, no podia imaginar que algum deixasse cair e abandonasse uma ferramenta 
de estimao.
    Ayla viu tambm peixe j limpo e posto para secar e outros, inteiros, no cho. Um deles j tivera o ventre aberto, mas fora deixado ali, com os demais. Havia 
outros indcios de atividade interrompida, mas nenhum sinal de gente.
     Jondalar, havia pessoas aqui e no faz muito tempo. Partiram s pressas. Mesmo o fogo foi deixado aceso. Onde estaro?
     No sei, mas voc est certa. Foram embora s carreiras. Deixaram tudo e fugiram. Como se estivessem... assustados.
    Mas, por qu?  disse Ayla.  No vejo nada que possa infundir temor.
    Jondalar comeou a sacudir a cabea, mas viu que Lobo farejava em roda do campo abandonado, metendo o focinho na entrada das tendas e em torno das coisas que 
os moradores tinham abandonado. Depois, sua ateno foi atrada para a gua cor de feno que pastava nas proximidades, arrastando ainda todo o arranjo de mastros 
e barco, mas curiosamente despreocupada tanto com seus donos quanto com o lobo. Ele se virou tambm para ver o jovem garanho castanho-escuro, que o seguia com tanta 
boa vontade. O animal, carregado de cestas e com o cochonilho no lombo, esperava, paciente, a seu lado, preso por uma simples corda presa  cabea com um lao de 
couro.
    Esse deve ser o problema, Ayla: ns no vemos nada  disse Jondalar. Lobo interrompeu a sua barulhenta explorao e ergueu os olhos para o homem, abanando o 
rabo.
    Ayla,  melhor cham-lo, ou ele encontrar os habitantes Acampamento, e os assustar ainda mais.
    Ayla assobiou, e o lobo correu para ela. Ela o afagou, mas voltou-se intrigada, para Jondalar.
     Voc quer dizer que fomos ns que os assustamos? Que eles fugiram com medo de ns?
     Lembra-se do Acampamento do Capim Estipa? De como eles se portaram quando nos viram? Pense que aspecto temos para quem nos encontra pela primeira vez. Viajamos 
com dois cavalos e um lobo. Animais no viajam com as pessoas, em geral as evitam. Mesmo os Mamuti do Acampamento de Vero levaram algum tempo para se acostumar 
conosco, e ns chegamos com a turma do Acampamento do Leo. Na verdade, Talut teve coragem quando nos convidou, de imediato, com os cavalos e tudo  disse Jondalar.
     O que devemos fazer?
            Acho que devemos ir embora. O povo deste Acampamento estar provavelmente escondido na mata e de l nos observa, pensando que devemos ter vindo de algum 
lugar como o mundo dos espritos.  o que eu pensaria nas mesmas circunstncias.
     Oh, Jondalar  gemeu Ayla, desapontada. Sentia uma grande solido, ali, de p, no meio do Acampamento abandonado.  Eu gostaria tanto de visitar outras pessoas. 
 Em seguida, correu os olhos pelo lugar, mais uma vez, antes de concordar de cabea.  Voc tm razo. Se eles se foram, se no nos quiseram receber,  melhor partir. 
Mas eu bem quisera conhecer a me da criana que deixou a boneca para trs e conversar com ela.
    Depois, indo pegar Huiin, que se afastara, acrescentou:
     No quero que as pessoas tenham medo de mim. Mas ser que conseguiremos falar com algum nesta Jornada?
    No sei dizer quanto a estranhos. Mas tenho certeza de que vamos cruzar com os Xaramudi. E eles podem ficar um tanto ariscos, de comeo, mas me conhecem. E 
voc sabe como . Passado o susto inicial, eles ficaro interessados nos animais.
    Lamento que tenhamos assustado essa gente daqui. Talvez devssemos deixar-lhes algum presente, mesmo que no tenhamos gozado da hospitalidade deles  disse Ayla, 
e se ps a procurar nas cestas.  Alguma coisa de comer seria apropriado. Carne, talvez.
            Sim,  uma boa ideia. Tenho tambm algumas pontas de lana. Posso deixar uma para substituir a que o fabricante daquela arruinou por nossa causa. Nada 
me deixa to desapontado quanto estragar um bom instrumento Quando falta to pouco para conclu-lo.
    Enquanto metia a mo na bagagem para tirar a bolsa de ferramentas, que era um rolo de couro, Jondalar se lembrou de que quando ele e Thonolan viajavam juntos 
encontravam muita gente pelo caminho e eram bem recebidos, e muitas vezes ajudados. Aconteceu, at, em duas ocasies, que suas vidas foram salvas por estranhos. 
Mas se o fato de andarem com os animais espantava as pessoas, o que aconteceria se ele e Ayla viessem a precisar de ajuda?
    Deixaram o Acampamento e galgaram outra vez as dunas em direo ao campo do topo da ilha, estreita e alongada, detendo-se quando a areia cedeu lugar  relva. 
Do alto contemplaram a fumaa do Acampamento e a fita pardacenta do rio assoreado a corre para o vasto desaguadouro do mar de Beran. Em mudo assentimento, montaram 
e seguiram para leste, a fim de terem uma viso melhor  a ltima  do grande mar interior.
    Quando chegaram  extremidade mais oriental da ilha, e embora estivessem ainda dentro das barrancas do rio, ficaram to perto das guas encapeladas do mar que 
podiam ver-lhe as ondas lavando bancos de areia com espuma salobra.
    Ayla olhou para alm da gua e pensou que quase podia ver os contornos de uma pennsula. A caverna do Cl de Brun, o lugar onde fora  criada, ficava na sua ponta 
mais meridional. L ela dera  luz seu filho,  e l mesmo tivera de deix-lo quando foi expulsa.
    Estar muito crescido?, perguntou a si mesma. Mais alto, certamente, que todos os rapazes da sua idade. Forte? Saudvel? Feliz? Lembrar-se- de mim? Duvido muito. 
Ah, se eu o pudesse ver pelo menos uma vez mais, pensou. E ento compreendeu que se fosse algum dia procur-lo, aquela era sua ltima oportunidade. Pois daquele 
ponto Jondalar pretendia virar para oeste. E ela nunca mais estaria to perto do seu Cl  ou de Dure  na vida. Por que no podiam ir para leste? S uma curta digresso. 
Se acompanhassem a costa norte do mar poderiam provavelmente atingir a pennsula em poucos dias. Jondalar j dissera que estava disposto a ir com Ayla se ela quisesse 
tentar achar Durc.
     Veja, Ayla! Eu no sabia que havia focas no Mar de Beran! No via esses animais desde que era menino, numa excurso com Willomar  disse Jondalar, com a voz 
cheia de excitao e saudade.  Ele nos levou, a mim e a Thonolan, para ver as Grandes guas, e depois o povo que vive no fim do mundo nos levou mais longe ainda, 
para o norte, de barco. Voc j tinha visto focas?
    Ayla olhou de novo para o mar, para mais perto agora, para onde ele mostrava. Uns poucos animais escuros, lustrosos, afuselados, de ventre cor de prola, se 
arrastavam, corcoveando, desajeitados, ao longo de um banco de areia que se formara por trs de algumas rochas parcialmente submersas. Enquanto as observavam, muitas 
das focas pularam na gua. Caavam um cardume de peixes. Viram as cabeas apontando da superfcie, viram quando o ltimo dos animais, menor e mais jovem que os outros, 
mergulhou por sua vez. E logo se foram, todos, desaparecendo to depressa quanto tinham surgido.
     S a distncia  disse Ayla , durante a estao fria. Elas gostavam do gelo que passava flutuando ao largo. O Cl de Brun no caava esses animais. Ningum 
era capaz de peg-los, embora Brun me tivesse contado ter visto alguns deles numas pedras perto de uma caverna do mar. Havia gente que os tinha na conta de espritos 
da gua e no animais, mas eu vi filhotes no gelo uma vez, e espritos no tm filhotes. Nunca soube para onde iam no vero. Talvez viessem para c.
    Quando estivermos em casa, eu a levarei at as grandes guas, Ayla.  uma coisa inacreditvel. Este aqui  um mar de grandes propores, maior que qualquer lago 
que eu conhea, mas no  nada comparado as Grandes guas. Elas so como o cu. Ningum jamais chegou ao outro lado.
    Ayla sentiu a impacincia e a animao na voz de Jondalar, sentiu a sua nsia por estar em casa. Sabia que no hesitaria em ir com ela procurar o Cl de Brun 
e Durc se ela expressasse esse desejo. Porque a amava. Mas ela o amava tambm, e sabia que ele iria ficar infeliz com o atraso. Limitou-se, ento, a olhar o grande 
lenol de gua, depois fechou os olhos, procurando conter as lgrimas.
    No saberia onde procurar pelo Cl, afinal de contas, pensou. E no era mais o Cl de Brun. Era o Cl de Broud, e ela no seria bem-vinda. Broud a excomungara 
e ela estava morta para todos eles, era um esprito. Se ela e Jondalar tinham assustado o Acampamento daquela ilha por causa dos animais, e sua capacidade de domin-los 
era tida como sobrenatural, no assustaria com muito mais razo o Cl? Inclusive Uba e Dure? Para eles ela estaria retornando do mundo dos espritos, e os animais 
adestrados eram prova disso. Acreditavam que um esprito que regressava do alm vinha para fazer-lhes mal.
    Uma vez, porm, que virassem de rumo, para oeste, estava tudo acabado. Dali por diante, e at o fim da vida, Dure seria s uma memria. No haveria esperana 
de rev-lo. Aquela era uma escolha que tinha de fazer. Pensara que estava feita havia muito tempo. No imaginara que a dor fosse ainda to viva. Voltando a cabea 
para o outro lado, para que Jondalar no visse seus olhos marejados, e fitando o mar azul profundo, Ayla deu um adeus sem palavras ao filho pela ltima vez. Uma 
pontada de dor a feriu, e ela soube que levaria aquela dor no corao para sempre.
    Deram s costas ao Mar de Beran e se puseram a caminhar por entre o alto capim-da-estepe, que revestia a grande ilha, deixando que os cavalos descansassem e 
pastassem um pouco. O sol j ia alto no cu, e o dia estava brilhante e quente. O ar danava com ondas de mormao que subiam do solo, trazendo odor de terra e de 
coisas em germinao. No plat alongado e sem rvores que constitua a cobertura da ilha, eles se protegiam com os chapus de palha que tinham feito, mas a intensa 
evaporao dos canais do rio que os circundavam gerava umidade, e o suor escorria pela pele coberta de p dos viajantes. Agradeciam ao mar a brisa fresca que dele 
vinha, ocasionalmente, uma brisa caprichosa mas cheia do cheiro de vida que subia das profundezas.
    Ayla parou para retirar a tira de couro que levava enrolada em torno da testa. Guardou-a no cinto. No queria que ficasse muito molhada. Substituiu-a por uma 
faixa de couro mais macio, que trazia num rolo, em tudo semelhante  que Jondalar usava na resta e prendia atrs da cabea para absorver a transpirao.
    Quando se ps de novo a caminho, viu um gafanhoto esverdeado dar um salto e esconder-se na sua camuflagem. Depois viu outro. Outros ainda guinchavam esporadicamente, 
recordando a nuvem de locustdeos. Mas aqui eles eram apenas mais uma de uma variedade de insetos, como as borboletas, que mostravam, de relance, suas cores vivas 
numa dana saltitante por cima das festucas ou os inofensivos mosces, que se parecem com abelhas melferas, adejando sobre um boto-de-ouro.
    Embora aquele campo elevado fosse diminuto em comparao com a estepe seca, a ela se assemelhava; mas quando chegaram  outra extremidade da ilha e olharam para 
alm dela, ficaram assombrados com o estranho mundo mido do vasto leque do delta. Para o norte,  direita deles, ficava o continente, para alm de uma fina mata 
ciliar, e pastagens de um verde-ouro atenuado. Para o sul e para oeste, porm, estendendo-se ininterruptamente at o horizonte, e parecendo, na distncia, to slida 
e substancial quanto a terra, havia a orla pantanosa do grande rio. Era um extenso estrato de canios de um verde vistoso balanando ao vento num ritmo to constante 
quanto o do mar. S de longe em longe uma rvore lanava sombra sobre o verde ondulante e os caminhos sinuosos dos rios.
    Descendo atravs da mata, Ayla ia prestando ateno s aves. Jamais vira tantas variedades juntas num local s, e algumas lhe eram desconhecidas. Gralhas, cucos, 
estorninhos, pombas-rolas soltavam seus pios prprios. Uma andorinha, perseguida por um falco, desviou-se dele para um lado, para o outro, depois deu um mergulho 
para esconder-se entre os canios. Milhafres negros, pairando muito alto, e gavies-do-mangue, de vo rasante, procuravam peixes mortos ou em vias de morre. Papa-moscas 
e pequenos pssaros canoros ocupavam todos os espaos, do matagal s rvores de certo porte, enquanto que maaricos-das-rochas, rabos-ruivos, pica-paus-verdes pulavam 
de galho em galho. Andorinhas-do-mar planavam nas correntes de ar sem mover uma pena, enquanto que pelicanos, de aspecto grave e vo majestoso, passavam no alto 
batendo as asas largas e potentes.
    Ayla e Jondalar emergiram da floresta num trecho diferente do rio quando alcanaram de novo o rio. Estavam agora junto de um capo de salgueiros-chores, em 
que se abrigava toda uma colnia de aves do pntano: garas-do-mar, de hbitos noturnos, pequeninas egretas, grous de plumagem purprea, cormores, bis, todos nidificando 
juntos. Na mesma rvore, o poleiro de uma espcie ficava s vezes  distncia de um galho do ninho de outra espcie completamente diversa, e vrios ninhos de pernaltas 
continham ovos ou filhotes de pssaros. Todas essas aves pareceram to indiferentes  passagem do homem, da mulher, dos cavalos e quanto  presena de aves de outras 
variedades. Mas lugar assim to fervilhante de vida e em to tremenda atividade era uma tentao irresistvel para o curioso filhote.
    Ele se aproximou sorrateiro, visando tocaiar uma presa, excesso de oferta o desnorteou. Por fim, investiu contra uma determinada arvorezinha. Com grande rudo 
de gritos e bater de asas, os pssaros ali pousados levantaram vo, seguidos de imediato por outros que tomaram aquilo como um aviso. O exemplo foi seguido nas rvores 
vizinhas. E logo o ar se encheu de aves do pntano, a espcie dominante no delta, at que mais de dez mil animais de variadas espcies daquela colnia ecumnica 
voltejavam em crculos frenticos numa fuga dramtica e precipitada.
    Lobo, de rabo entre as pernas, se escondeu na floresta, latindo e uivando de medo em face da comoo que causara. Para acrescentar ao tumulo, os cavalos nervosos 
e assustados comearam a empinar e soltar relinchos. Depois, partiram a galope para a gua.
    O tren funcionou como um freio para a gua, que tinha, alis, temperamento mais calmo. Logo se acalmou. Mas Jondalar teve grande trabalho para conter o jovem 
garanho. Entrou na gua atrs do cavalo, teve de nadar quando ficou fundo e logo sumiu de vista. Ayla conseguiu pegar Huiin no canal e traz-la de volta para a 
terra firme. Depois de tranquilizar e afagar o animal, desatou os mastros que ela vinha arrastando havia tanto tempo e removeu os arreios, para que a gua ficasse 
livre para descansar a seu modo. Depois assobiou chamando Lobo. Teve de repetir o assovio mais de uma vez para que ele voltasse, e viu que vinha de uma direo muito 
mais abaixo no rio, bem longe da rea dos pssaros.
    Ayla tirou as roupas molhadas, vestiu outras secas, que tirou da cesta da bagagem, depois apanhou madeira para fazer um fogo enquanto esperava Jondalar. Ele, 
tambm, teria de mudar de roupa. Por sorte, as cestas estavam no barco, e isso as conservara secas. Mas Jondalar levou algum tempo para achar o caminho de volta, 
vindo do oeste, guiado pela fogueira de Ayla. Racer galopara rio acima e cobrira uma boa distncia antes que ele o alcanasse.
    Jondalar estava ainda furioso com o lobo, o que ficou logo claro tanto para Ayla quanto para o prprio animal. Lobo esperou at que Jondalar se sentasse  beira 
do fogo, j de roupa seca, e com uma xcara de ch quente, para aproximar-se, curvado sobre as patas dianteiras, abanando o rabo e ganindo como um filhote que deseja 
brincar. Quando ficou bem perto, tentou lamber o rosto do homem, mas ele se furtou ao afago. Quando, por fim, permitiu que o animal se aproximasse, Lobo demonstrou 
tal alegria, que Jondalar cedeu.
      como se ele estivesse pedindo desculpas, mas isso  coisa difcil acreditar. Como poderia? No passa de um simples animal. Ayla, voc acha que Lobo  capaz 
de saber que andou errado e est aborrecido por causa disso?
    Ayla no se surpreendeu. Ela j vira o animal agir assim quando o ensinava a caar ou observando outros carnvoros que ela escolhera como presa. A atitude de 
Lobo diante do homem era semelhante  do filhote de lobo para com o lder de uma alcateia.
     No sei o que ele sabe ou o que sente, Jondalar. Posso apenas adivinhar pelo que faz. Mas no  assim tambm com as pessoas? A gente no sabe o que uma pessoa 
realmente sente ou pensa. Tem de guiar-se pelos atos dela, no  mesmo?
    Jondalar concordou. Ainda no estava seguro de si. Em que deveria acreditar? Para Ayla, Lobo estava arrependido e achava que aquilo no tinha muita importncia. 
Lobo costumava proceder do mesmo modo quando ela procurava ensin-lo a deixar em paz os sapatos de couro dos habitantes do Acampamento do Leo. Isso lhe dera muito 
trabalho, e ela achava que era ainda muito cedo para faz-lo desistir de apanhar pssaros.
    O sol tocava de leve o cimo serrilhado das montanhas na ponta sul da longa cadeia que ficava a oeste de onde estavam e fazia brilhar as facetas do gelo. A serra, 
muito alta ao sul, descia gradativamente para o norte, e os ngulos abruptos se transformavam em cristas arredondadas de um branco tremeluzente. Para o lado noroeste, 
os cumes das montanhas desapareciam por trs de uma cortina de nuvens.
    Ayla entrou numa abertura convidativa na fmbria arborizada do delta do rio e sofreou o animal. Jondalar fez o mesmo. A pequena alia relvada era pouco maior 
no meio de um trecho aprazvel de mata que conduzia diretamente a uma lagoa tranquila.
    Se os braos principais do grande rio eram cheios de sedimentos, a complexa rede de canais e regatos secundrios que serpenteavam por entre juncos do grande 
delta eram limpos; e sua gua, potvel. Ocasionalmente, os canais se alargavam em lagos ou plcidas lagoas, rodeados por uma profuso de canas, juncas, carrios 
e outras plantas aquticas, e muitas vezes cobertos de nenfares. Esses camalotes floridos eram resistente e ofereciam um lugar de repouso para os pernaltas menores 
e as inumerveis rs.
            Este lugar parece excelente  disse Jondalar, passando uma perna pela garupa de Racer e apeando sem esforo. Removeu, em seguida, as cestas da bagagem, 
a manta, o cabresto, e soltou o animal. O jovem cavalo foi direto para o rio e, logo, Huiin o seguiu.
    A gua entrou primeiro na corrente e comeou a beber. Depois de algum tempo, se ps a patear, espadanando gua para molhar-se e ao filhote, que bebia a seu lado. 
Mais algum tempo, e a gua baixou a cabea, fungou, de orelhas para a frente. Ento, dobrando as pernas dianteiras, abaixou-se e rolou, primeiro de lado, em seguida 
de costas. Com a cabea para cima e as pernas para o alto, espojou-se com delcias no leito raso da lagoa, depois deixou-se cair para o lado oposto e repetiu a operao. 
Racer, que a via rolar na gua fresca, no se conteve mais. Imitando-a, abaixou-se tambm para rolar nos baixios, rente  margem.
            Pensei que eles j estivessem fartos de gua por hoje  disse Ayla, aproximando-se de Jondalar.
    Ele se virou, tendo ainda no rosto o sorriso que a viso dos cavalos provocara.
            E eles adoram rolar na gua, para no falar em lama ou poeira. Eu no sabia disso antes.
     Mas sabe o quanto eles gostam de ser coados. Penso que espojar-se  maneira que tm de se coarem sozinhos  comentou a mulher.  E dizem um ao outro onde 
querem ser coados.
     Como podem fazer tal coisa, Ayla! s vezes penso que voc acha que cavalos so gente.
     No, cavalos no so gente. So animais, mas observe-os algum dia, quando esto de p, cada um com a cabea virada para o rabo do outro. Um coa o outro com 
os dentes e espera para ser coado no mesmo lugar  disse Ayla.  Talvez eu d uma boa coadela em Huiin com o cardo-penteador. Ela deve mesmo ficar quente e cheia 
de comiches, usando, aqueles arreios de couro o dia todo. s vezes acho que deveramos abandonar o barco, mas ele tem sido til.
     Estou com calor e cheio de comiches pelo corpo. Acho que vou tomar um banho tambm. E desta vez sem roupa  disse Jondalar.
     Eu vou, mas primeiro quero desempacotar. As roupas que ficaram molhadas ainda esto midas. Vou estend-las para secar em cima daquelas plantas ali  disse 
Ayla, e tirando uma trouxa de dentro de uma das cestas, comeou a distribuir as roupas pelos galhos de um grupo de amieiros baixos.  No achei ruim que as roupas 
tivessem ficado midas. Encontrei um pedao de raiz saponcea e ensaboei as minhas enquanto esperava por voc.
    Jondalar sacudiu uma das peas para ajud-la a dependur-la e viu que era a sua tnica. Segurou-a no ar para mostr-la  mulher.
            Entendi que voc havia lavado as suas roupas  disse.
            Lavei tambm as suas depois que se trocou  disse ela.  Muito suor seguido faz apodrecer o couro. Alm disso, as roupas esto ficando muito cheias 
de ndoas  explicou ela.
    Ele no se lembrava de ter-se importado muito com suor ou manchas quando viajara com o irmo, mas ficava satisfeito que Ayla se importasse.
    Quando ficaram prontos para entrar no rio, Huiin vinha saindo. Ela se postou na margem, com a pernas separadas, depois comeou a sacudir a cabea. Essas sacudidelas 
violentas se propagavam por todo o corpo da gua at o rabo. Jondalar levantou os braos para no ficar molhado. Ayla, rindo, correu para o rio e, com as mos, jogou 
rapidamente gua no homem que vinha entrando. Logo que ele estava com gua pelos joelhos, comeou a retribuir-lhe o favor. Racer, que terminara seu banho e estava 
ainda por perto, recebeu uma parte da ducha e se afastou, indo depois para a margem. Gostava de gua, mas em condies de sua prpria escolha.
    Depois que se cansaram de brincar e de nadar, Ayla comeou a atentar para as possibilidades que o lugar oferecia para a refeio da noite. Saindo da gua havia 
plantas com folhas lanceoladas e flores brancas, de trs ptalas, que tendiam para um prpura carregado no miolo, e ela sabia que os tubrculos dessa planta, ricos 
em amido, eram saborosos e bons para encher a barriga. Arrancou alguns do fundo lamacento com os dedos grandes dos ps. Os talos eram frgeis e se quebravam facilmente, 
de modo que no adiantava pux-los. A caminho da margem, apanhou tambm algumas folhas espatuladas da erva chamada tanchagem para cozinhar e tambm do picante agrio, 
bom para comer cru. Uma formao de folhas flutuantes, pequenas e arredondadas, a irradiar de um centro comum, lhe chamou a ateno.
     Cuidado, Jondalar, para no pisar nessas castanhas-d'gua  disse, apontando para os frutos, cheios de pontas, que juncavam a orla da praia arenosa.
    Ele apanhou uma para v-la mais de perto. Seus filamentos, em numero de quatro, eram dispostos de tal modo que enquanto um se fixava ao solo os outros apontavam 
invariavelmente para cima. Ele abanou a cabea e lanou a castanha fora. Ayla se curvou para apanh-la, junto com muitas outras.
            No so boas para pisar em cima delas  disse em resposta ao olhar interrogativo que ele lhe lanou , mas excelentes para comer.
    Na margem, na sombra junto da gua, viu ainda uma planta que Ihe era familiar, espigada, com folhas azul-verde, e olhou em volta  procura de alguma folha larga 
e flexvel com que pudesse proteger as mos para colh-las. Embora exigissem cuidado na manipulao por serem frescas, as folhas cheias de pontas eram deliciosas 
quanto fervidas. A labaa-aguada, que nascia no limite do rio, e era to alta quando uma pessoa tinha folhas de 90 centmetros de comprimento e serviria muito bem 
para isso. Essas folhas tambm eram comestveis. Perto delas havia tambm unhas-de-cavalo e diversas espcies de samambaias de razes fragrantes. O delta era rico 
em alimento.
    Ao longe, Ayla viu uma ilha de margens bordadas de canios e tabuas. Parecia que as tbuas  partasanas ou paus-de-lagoa  fariam sempre parte da sua rao. 
Encontradias por toda parte e prolficas, com tantas partes comestveis  os velhos rizomas, de amilo abundante, que se podiam moer para separar a parte feculenta 
das fibras, e esmagar para fazer um bolo doce, ou engrossar sopa; e as novas, que podiam ser comidas cruas ou cozidas, junto com a base dos pednculos das flores, 
para no falar da alta concentrao de plen, que podia ser amassado numa espcie de po  tudo nelas era delicioso. Quando novas, as flores, reunidas na extremidade 
do alto caule como a ponta peluda de um rabo de gato, eram igualmente saborosas.
    O festo da planta tinha outras utilidades: as folhas podiam ser tecidas para fazer esteiras e cestas. Os filamentos penugentos do invlucro das flores davam, 
depois das flores murchas, um bom estofamento absorvente e essa espcie de paina era tima tambm para acender fogo. Ayla, com suas pederneiras de pirita, no precisava 
dela para esse mister, mas sabia que tambm os caules lenhosos e secos do ano anterior podiam ser girados entre as palmas da mo para produzir fagulhas. Podiam, 
ademais, servir de combustvel.
            Jondalar, vamos de bote at aquela ilha apanhar algumas tabuas.
    H muita coisa boa de comer nascendo da gua, por l, como os pericarpos daqueles nenfares ou suas razes. Os rizomas dos juncos tambm no so de desprezar. 
Esto debaixo d'gua, mas como estamos molhados, isso no nos custa nada. Podemos pr tudo dentro do barco, na volta.
     Voc nunca esteve aqui. Como  que sabe que essas plantas todas so comestveis?  perguntou Jondalar, enquanto retiravam o barco do tren.
    Ayla sorriu.
     So muitos os lugares pantanosos como este perto do mar, no longe da nossa caverna, na pennsula. No to vastos quanto este, mas  to quente por l quanto 
aqui, no vero, e Iza conhecia as plantas e sabia onde encontr-las. Nezzie me fez conhecer vrias outras.
     Voc conhece todas as que existem, na minha opinio!
     Muitas, mas no todas, principalmente aqui. Seria bom se tivesse a quem perguntar. A mulher na ilha grande, a que estava pelando razes tuberosas, provavelmente 
saberia. Foi uma pena que no tivssemos encontrado aquela gente.
    Sua decepo era visvel, e Jondalar sabia o quanto ela sentia falta de contato com outras pessoas. Ele sentia o mesmo, se bem que em menor escala, e tambm 
lamentava no terem falado com os locais.
    Levaram o bote redondo para a beira da gua e se enfiaram nele. A corrente era vagarosa, mas a sentiam mais de dentro do frgil bote saltitante, e tiveram de 
manejar os remos com presteza para no serem arrastados rio abaixo. Longe da margem e das alteraes que eles tinham causado tomando banho, a gua era to limpa 
que se viam cardumes passando, velozes, por cima das plantas ou ao seu redor. Alguns peixes eram de bom tamanho e Ayla pensou em pegar alguns mais tarde.
    Pararam numa concentrao de bandejas de gua, to densa que no se podia ver, atravs delas, a superfcie da lagoa. Quando Ayla saiu do barco, Jondalar teve 
dificuldade em domin-lo sozinho. O barco mostrou uma tendncia a girar sobre si mesmo quando ele tentou remar ao contrrio, mas quando os ps de Ayla, que se segurava 
 borda, tocaram o fundo, ele se estabilizou. Usando os caules das flores como guia, ela encontrou as razes e afrouxou-as com os dedos dos ps naquele solo mole, 
recolhendo-as quando flutuavam numa nuvem de detritos.
    Quando ela se iou para o barco, ele se ps a girar outra vez, mas os dois, remando juntos, conseguiram control-lo e se foram para a ilha coberta de canios. 
Ao se aproximarem, Ayla notou que era a variedade menor de tbua que dava to bem ali, junto com uma variedade arbustiva mas grande, de choro-salgueiro. Alguns 
espcimes eram quase do tamanho de rvores.
    Penetraram, remando, naquela densa vegetao,  procura de um banco de areia ou alguma pequena praia. Mas no encontraram terra firme nem mesmo banco de areia 
submerso. Quando passavam, o caminho que tinham aberto se fechava logo atrs deles. Ayla viu naquilo um agouro e Jondalar se sentiu como se tivesse sido capturado 
por alguma presena invisvel quando a floresta de juncos os envolveu. Podiam ver, no alto, pelicanos em vo, mas tinham uma impresso vertiginosa de que o vo retilneo 
deles se encurvava, entortado. Quando olhavam para trs, por entre os talos altos das plantas aquticas, a margem oposta tambm parecia passar por onde estavam, 
girando.
            Ayla, ns estamos em movimento! Regirando!  disse Jondalar, percebendo que no era a terra, mas o barco e toda a ilha que giravam, puxados pela corrente 
em espiral.
            Vamos sair daqui  disse ela, pegando no remo.
    As ilhas do delta no eram permanentes, mas sujeitas, sempre, aos caprichos da Grande Me dos rios. Mesmo aquelas que davam origem a uma rica vegetao aqutica 
podiam ser solapadas de baixo para cima, ou a vegetao que comeava numa ilha rasa acabava ficando to espessa que lanava tentculos por cima da gua, parecendo 
coisa slida.
    Fosse qual fosse a causa inicial do fenmeno, as razes dos juncos flutuantes se entrelaavam e criavam uma plataforma de matria em decomposio  formada tanto 
de organismo da gua quanto de plantas  que contribua, fertilizante que era, para a rpida proliferao da vida vegetal. Com o tempo, o conjunto transformava-se 
numa verdadeira ilha flutuante, capaz de servir de base a toda uma variedade de outras plantas: macis; diversas variedades de tbuas, de porte reduzido e folha estreita; 
juncos; fetos; e, at, salgueiros menores da espcie arbustiva, dita sedosa, que d o vime. Todas essas plantas podiam ser encontradas na ourela dos canais, mas 
os capins juncosos, que chegavam a atingir trs metros de altura, eram a vegetao primria. Alguns dos charcos transformavam-se, ento, em grandes paisagens flutuantes, 
traioeiras na sua bem entranada iluso de solidez e de permanncia.
    Valendo-se dos pequenos remos, e no sem esforo, os dois conseguiram levar o barco de volta. Mas quando chegaram  periferia da sua instvel ilha flutuante 
verificaram, com espanto, que no estavam do lado da terra. Faziam frente, ao contrrio, a um lago e, do outro lado dele, a vista era to espetacular que lhes tirou 
o flego. Recortada contra o fundo verde-escuro, havia uma imensa concentrao de pelicanos brancos. Eram centenas e centenas de indivduos, milhares mesmo, imprensados 
uns contra os outros, de p, sentados, jacentes em grandes e arrepiados ninhos feitos de canios flutuantes. Uma parte da vasta colnia voejava por cima dela, em 
diferentes nveis, como se a base onde era possvel nidificar estivesse lotada e lhes fosse preciso esperar, voando em crculos, que houvesse vaga.
    Primariamente alvos, com uma leve tintura rosa; de asas brancas mas debruadas de rmiges e retrizes cinza-escuro, essas aves avantajadas, com seus longos bicos 
e suas bolsas guiares, dilatveis, murchas no momento, cuidavam de vrias ninhadas de filhotes penugentos ou esfiapados. Muito barulhentos, os filhotes de pelicano 
chiavam e grunhiam, e os adultos lhes respondiam com gritos roucos, tirados do fundo da garganta, e eram em to grande nmero, adultos e filhotes, que o rudo ficava 
ensurdecedor.
    Parcialmente ocultos pelas canas da margem, Ayla e Jondalar observam a colnia tomados de fascnio. Ouvindo um grito que vinha do alto, assistiram  aterrissagem 
de um pelicano que voava baixo e passou por cima deles sustentado por asas de trs metros de envergadura. A ave alcanou uma rea  perto do meio do lago, dobrou 
as asas para trs, e caiu verticalmente como uma pedra, tocando a gua com uma forte pancada. Foi uma aterrissagem deselegante. No muito longe, outro pelicano, 
de asas abertas, corria pela vasta extenso da gua, a fim de levantar vo Ayla comeou a entender por que eles gostavam de nidificar em lagos. Precisavam de muito 
espao para erguer-se no ar. Se bem que, uma vez no alto, seu vo fosse inteligente e gracioso.
    Jondalar lhe deu um tapinha no brao e apontou a parte mais rasa da gua, junto da ilha, onde vrios dos pssaros maiores nadavam lado alado, avanando devagar. 
Ayla ficou a observ-los por algum tempo, depois sorriu para o homem. Com pequenos intervalos, os pelicanos enfileirados mergulhavam a cabea na gua simultaneamente 
e, em seguida, como que em obedincia a um comando, erguiam a cabea ao mesmo tempo, deixando que a gua escorresse dos seus bicos compridos. Poucos tinham apanhado 
peixes. De outra feita, os infortunados teriam melhor sorte, mas todos continuavam a nadar em formao e a mergulhar, perfeitamente sincronizados uns com os outros.
    Pares de outra espcie de pelicano, com diferenas na padronagem das penas, e ainda jovens, embora j no fossem propriamente filhotes, ocupavam a periferia 
da colnia. E no interior dela bem como em torno, outras espcies de aves aquticas tambm viviam e procriavam: corvos-marinhos, por exemplo, mergulhes, e uma multiplicidade 
de patos  inclusive tarrantanas de crista vermelha e olho branco e patos selvagens do tipo mais comum. Todo aquele vasto charco fervia com uma profuso de aves, 
todas caando e comendo peixes.
    O gigantesco delta era, portanto, ele todo, uma ostentosa demonstrao de abundncia da natureza: uma pletora de vida que se mostrava sem o menor pudor. Intacta, 
indene, regida apenas pela lei natural e sujeita unicamente  sua prpria vontade, e a do grande vazio de onde ela provinha  a grande Me Terra tinha prazer em 
criar e alimentar a vida em toda a sua prolfica diversidade. Uma vez saqueada, porm, privada dos seus recursos, violentada, despojada por uma poluio descontrolada, 
maculada pela corrupo e pelos excessos, sua fecunda capacidade de fazer e de conservar podia ser destruda.
    Mas embora reduzida  esterilidade pela ocupao e explorao predatrias, com sua grande fertilidade exaurida, a ltima palavra, ironicamente, ainda seria dela. 
Pois embora nua e destituda, a me tinha ainda o poder de destruir o que ela mesma gerara. Nenhuma dominao lhe seria imposta nem suas suas riquezas podiam ser 
tiradas sem o seu consentimento, sua cooperao, ou ateno s suas necessidades. Seu desejo de viver no podia ser anulado impunemente. Sem ela, a vida que criara 
no poderia subsistir.
    Embora Ayla pudesse ter ficado a observar os pelicanos indefinidamente, teve de comear a colher as tbuas e bot-las no barco, pois tinham ido l com essa finalidade. 
Depois remaram de volta, contornando a massa dos camalotes. Quando se aproximaram da terra outra vez, estavam muito mais prximos do que antes do acampamento. Mal 
se aproximaram foram saudados por um longo uivo, cheio de notas de tristeza Depois de perambular um pouco, Lobo regressara, encontrando com facilidade o acampamento 
pelo cheiro dos donos. Mas no os encontrando, ficara aflito.
    A mulher assobiou em resposta, para tranquilizar o animal. Ele correu, chegou  orla da gua, uivou de novo. E depois de cheirar-lhe as pegadas, correndo para 
cima e para baixo, na margem, entrou no canal e nadou para o barco. Mas quando chegou perto, mudou de direo e rumou para o macio de ervas flutuantes, que tomou, 
erradamente, por uma ilha.
    Em vo, tentou subir para uma praia inexistente. Exatamente como Ayla e Jondalar tinham feito. Ficou a debater-se e a espirrar gua para todo lado em meio das 
ciperceas. Por fim, nadou outra vez para o barco. Com dificuldade, o homem e a mulher o puxaram para bordo pela pelagem molhada. Lobo estava to excitado e ficou 
to feliz que pulou em cima de Ayla, lambendo-lhe o rosto e, em seguida, o de Jondalar. Quando se deu por satisfeito, equilibrou-se no meio do barco, sacudiu-se 
todo e uivou.
    Para surpresa deles, ouviram um uivo em resposta, depois uns poucos latidos, depois outro uivo. Viram-se cercados por uma srie de uivos de lobo, cada vez mais 
prximos. Ayla e Jondalar se entreolharam com um arrepio de apreenso e ficaram onde estavam, nus, no interior do pequenino bote, escutando aquele coro de uma alcateia 
que no vinha, curiosamente, da terra, do outro lado da gua, mas da ilha flutuante e, a rigor, inexistente!
            Como pode haver lobos por l?  disse Jondalar.  Aquilo no  ilha nenhuma, no h terra, sequer um instvel banco de areia. Talvez no fossem lobos, 
pensou, com um frio na espinha. Talvez fossem...outra coisa...
    Firmando a vista atentamente por entre os canios eretos na direo do ltimo uivo de lobo, Ayla pensou ver plo de lobo e dois olhos amarelos que a fitavam. 
Depois, um movimento mais acima a fez erguer a vista. Ento viu, na forquilha de uma rvore, o que era indubitavelmente um lobo olhando para eles, de lngua de fora.
    Lobos no trepam em rvores! Pelo menos os lobos que ela conhecia. Cutucou Jondalar e apontou. Ele tambm viu o animal e prendeu a respirao. Parecia um lobo 
de verdade. Mas como teria subido naquele galho?
            Jondalar  disse ela, falando baixinho , vamos embora. No gosto nada desse lugar, com lobos que sobem em rvores e andam em terra que no existe.
    O homem estava to inquieto quanto ela. Remaram de volta, atravs do canal. Quando estavam perto da margem, Lobo saltou fora. Eles desceram, arrastaram a pequena 
embarcao para bot-la a seco e logo se armaram com suas lanas e arremessadores. Os dois cavalos estavam de frente para a ilha flutuante, as orelhas para a frente, 
e uma tenso visvel na postura. Os lobos so, normalmente, tmidos e no eram para eles motivo de preocupao. Sobretudo quando aquela mistura de cheiro de cavalos, 
seres humanos e outro lobo apresentava um quadro to pouco costumeiro. Mas no sabiam o que pensar daqueles lobos. Seriam lobos comuns ou alguma coisa... sobrenatural?
    Se o controle que tinham sobre animais no tivesse assustado os habitantes da grande ilha, teriam ouvido deles que os lobos no eram mais sobrenaturais que eles 
mesmos. A terra alagada do grande delta servia de lar a muitos animais, inclusive lobos de verdade. Habitavam, normalmente, as florestas das ilhas, mas se haviam 
adaptado to bem ao meio inundado no curso de milhares de anos que eram capazes de correr por cima dos camalotes com facilidade. Tinham tambm aprendido a subir 
em rvores, o que, numa paisagem movedia como aquela, lhes dava uma grande vantagem quando ficavam isolados pela enchente.
    Que lobos pudessem viver num habitat quase aqutico era prova da sua grande adaptabilidade, que lhes permitia aprender a viver na companhia do homem. E to bem 
que, com o tempo, embora capazes ainda de cruzar com os seus semelhantes da selva, ficariam to completamente domesticados que quase pareciam outra espcie animal. 
Muitos deixaram, mesmo, de parecer com lobos.
    Do outro lado do canal, na ilha flutuante, diversos lobos podiam ser vistos agora, dois dos quais em rvores. Lobo olhava, expectante, de Ayla para Jondalar, 
como que aguardando instrues dos dois lderes da sua prpria alcateia. Um dos lobos da ilha soltou um novo uivo. E os outros responderam. Ayla sentiu mais uma 
vez o frio na espinha. O som era diferente do que ela estava acostumada a ouvir, se bem que no fosse capaz de precisar em qu. Talvez as reverberaes da gua alterassem 
o som... De qualquer maneira, a coisa acrescentou  inquietude que j sentia.
    A expectao acabou de sbito quando os lobos desapareceram, to silenciosamente como tinham vindo. Num momento, o homem e a mulher, com seus arremessadores 
e Lobo, enfrentavam um bando de lobos de que os separava um canal. No momento seguinte, os animais j no atavam l. Ayla e Jondalar, ainda empunhando as armas, 
viram-se diante de inofensivas tbuas e canios, sentindo-se vagamente como tolos e transtornados.
    Uma brisa fresca, que lhes arrepiou a pele, lembrou-lhes que o sol j se deitava por trs das montanhas, a oeste, e que a noite vinha perto. Depuseram as armas, 
vestiram-se bem rpido, fizeram logo uma fogueira e acabararn de instalar o acampamento. Mas estavam um tanto esvaziados. Ayla foi ver os cavalos mais de uma vez 
e alegrou-se quando eles resolveram pastar no prprio campo em que estavam acampados.
    Quando a noite se fechou em torno do claro do fogo, ficaram sentados, e quietos, lado a lado, escutando os rudos da noite no delta do rio, que aos poucos iam 
enchendo o ar. Garas noturnas ficavam ativas ao escurecer e soltavam guinchos. Depois vinham os grilos, cricrilando. Uma coruja piou vrias vezes de forma lgubre. 
Ayla ouviu fungadelas na mata vizinha e achou que fosse um urso. Perscrutando a distncia, ficou estupefata ao ouvir o riso de uma hiena e, em seguida, mais perto, 
o grito de um grande feldeo que deixara fugir sua presa. Perguntou-se se poderia ser um lince, ou talvez um leopardo das neves. Ficou, depois,  espera dos uivos 
de lobos. Mas nenhum se ouviu.
    Depois, com uma treva de veludo cobrindo e igualando toda silhueta e toda sombra, surgiu em crescendo o acompanhamento da orquestra, enchendo os intervalos dos 
instrumentos principais. Do leito do rio e de todos os canais vizinhos, do lago e da lagoa coberta de lrios-d'gua, um coro de sapos se ergueu. As vozes profundas 
dos sapos do brejo e das rs comestveis dominaram a serenata anfbia, a que outros sapos, maiores, marcavam compasso com tons graves de sinos. Em contraponto vieram, 
por fim, os trilados de flauta de outros muitos sapos e a cano murmurante dos sapos que cavucam com o p, todos na base do velho refro cr-cr-cr-coach-coach.
    Quando Ayla e Jondalar se meteram na sua pele de dormir, o incessante canto dos sapos j se dilura no conjunto de sons mais familiares. Mas os uivos de lobo, 
percebidos, finalmente, a distncia, ainda deram a Ayla alguns arrepios. Lobo se acomodou nas patas traseiras e respondeu.
     Eu me pergunto se ele sente falta de uma alcateia  disse Jondalar, enlaando Ayla com o brao. Ela se aconchegou a ele, contente com o calor do seu corpo 
e com a proximidade.
     No sei, mas s vezes isso me faz pensar. Nenm me deixou para encontrar uma companheira, mas lees machos sempre abandonam os seus territrios para procurar 
parceiras em outro bando.
            Voc acha que Racer ir deixar-nos?  perguntou o homem.
     Huiin fez isso, por algum tempo, e viveu com um bando de cavalos. Mas sei o que tero pensado as outras guas a respeito dela, mas voltou quando seu garanho 
morreu. Nem todos os cavalos vivem com hordas de fmeas. Cada horda escolhe apenas um, e ento esse tem de lutar com os demais e expuls-los. Garanhes jovens e 
velhos vivem juntos, de regra, em suas prprias hordas, mas so todos atrados pelas fmeas quando chega a hora de partilhar Prazeres. Estou certa de que Racer vai 
fazer a mesma coisa, mas ento ele ter de lutar com o garanho lder.
     Talvez eu o possa manter quieto na rdea at que passe o cio  disse Jondalar.
      cedo para pensar nisso, a meu ver. Em geral, os cavalos vo atrs de Prazeres na primavera. Preocupo-me  com as pessoas que possamos encontrar no curso 
da nossa Jornada. Elas no sabero que Huiin e Racer so casos especiais. Algum pode tentar feri-los. Ns mesmos no seremos aceitos com tanta facilidade.
    E o que achariam dela mesma?, pensou Ayla, nos braos de Jondalar. O que pensaria dela seu povo? Ele notou que ela estava calada e pensativa. Talvez fosse fadiga, 
pensou. Ele mesmo estava cansado. O coro dos sapos lhe dava sono. Acordou com a agitao e os gemidos da mulher que tinha enlaada.
     Ayla! Ayla! Acorde! Est tudo bem.
     Jondalar! Oh, Jondalar!  exclamou ela, agarrando-o com fora.  Eu estava sonhando... com o Cl. Creb estava tentando dizer-me alguma coisa importante, mas 
ns estvamos no fundo de uma caverna escura. Eu no podia vero que ele dizia.
     Voc pensou neles durante o dia, provavelmente. Falou sobre eles quando estvamos na grande ilha, olhando para o mar. Achei que parecia triste. Pelo fato de 
deix-los para trs?
    Ela fechou os olhos e concordou. No sabia se seria capaz de falar sobre aquilo sem chorar, e hesitava em mencionar a preocupao que tinha com o povo dele, 
se iriam aceit-la, e aos cavalos e ao lobo. O Cl e seu filho estavam agora perdidos para sempre. No queria perder tambm sua famlia de animais, se conseguissem 
chegar com eles. Sos e salvos. Ah, se soubesse o que Creb tinha querido dizer-lhe!
    Jondalar a apertou ao peito, confortando-a com seu calor e carinho, compreendendo o que ela sentia, mas sem saber o que dizer. Aquela proximidade lhe parecia 
bastante.

12
___________________________________________________________________________

    O brao setentrional do Rio da Grande Me, com seu conjunto labirntico de canais, era o limite tortuoso e serpenteante do extenso delta. Vegetao baixa e rvores
acompanhavam o limite do rio, mas para l da margem estreita, para alm da fonte imediata de umidade, a floresta ciliar cedia lugar rapidamente aos capins da estepe. 
Cavalgando para oeste pela pastagem seca, costeando a faixa arborizada, mas evitando reproduzir sinuosidades do rio, Ayla e Jondalar seguiram pela margem esquerda, 
rio no acima.
    Aventuraram-se, frequentemente, nos banhados, acampando o mais das vezes perto do rio. Ficavam muitas vezes surpresos com a diversidade que encontravam. A foz 
macia lhes parecera to uniforme de longe, quando a viram da grande ilha, mas de perto ela revelava uma grande variedade na paisagem como na vegetao, que ia desde 
a areia nua  floresta cerrada.
    Um dia passavam por campos e mais campos de tbuas, com as flores marrons agrupadas numa espiga cilndrica como uma salsicha, eriada de pontas cobertas por 
massas de plen amarelo. No dia seguinte, viam enormes massas de juncos fragmticos, duas vezes mais altos que Jondalar e que cresciam combinados com as variedades 
mais curtas e mais graciosas da mesma planta. Essas brotavam mais perto da gua que as outras e cresciam em moitas mais densas.
    As ilhas formadas pelo assoreamento da foz eram, em geral, alongadas como estreitas lnguas de terra, ou mais exatamente, de areia e argilas, batidas pelas guas 
impetuosas do rio e pelas correntes opostas do mar. O resultado era um variegado mosaico de reas cobertas de juncos, banhados, estepes e florestas, em diferentes 
estados de desenvolvimento, sujeitos, todos, a rpidas alteraes e cheios de surpresas. A diversidade sempre em mutao estendia-se, at, para alm da divisa. Os 
viajantes se viam, de sbito, diante de lagos formados em cotovelos do rio e completamente separados do delta, apertados entre margens que tinham comeado como ilhas 
de sedimentao.
    Essas ilhas haviam sido originariamente estabilizadas por plantas de praia e capins-elimo que alcanavam quase um metro e meio e que os cavalos adoravam  o 
alto teor de sal atraa muitos outros animais. Mas a paisagem podia mudar to rpido que eles por vezes encontravam ilhas dentro dos limites da imensa foz do rio, 
com plantas de praia ainda viosas em dunas ilhadas ao lado de floresas j consolidadas, em que havia at lianas.
    Como o homem e a mulher viajavam costeando o grande rio, muitas vezes se viam obrigados a atravessar pequenos afluentes, mas os regatos tinham to pouca importncia 
que os cavalos chapinhavam por eles e os rios pequenos no apresentavam maior dificuldade: eram fceis de vadear. Os baixios encharcados de canais que secavam em 
ritmo acelerado e tinham mudado de curso eram coisa muito diferente. Jondalar preferia contorn-los. Tinha plena conscincia do perigo que um terreno assim pantanoso 
representava, com o solo movedio que em tais lugares se formava, e isso por causa de uma infortunada experincia por que haviam passado, ele e o rio, quando passaram 
por ali antes. Mas no sabia dos perigos escondidos, s vezes, na vegetao mais cerrada.
    Aquele fora um dia longo e quente. Jondalar e Ayla,  procura de um terreno para pernoitar, acreditaram ver perto do rio um lugar que lhes pareceu apropriado.
Desceram ento para uma pequena ravina, fresca e convidativa, em que altos salgueiros sombreavam uma alameda especialmente verdejante. De sbito, uma grande lebre 
marrom cruzou a frente deles, do outro lado do campo, e Ayla mandou que Huiin avanasse, enquanto procurava a funda no cinto. Mas depois de alguns passos a gua 
hesitou quando o slido terreno debaixo dos seus cascos se fez esponjoso.
    A mulher sentiu a mudana do passo imediatamente, e foi uma sorte que sua primeira reao, instintiva, tivesse sido obedecer ao animal, embora tivesse a mente 
preocupada com o jantar. Ela puxou as rdeas justamente quando Jondalar e Racer apareceram. O cavalo tambm percebeu o cho mole, mas sua velocidade era maior, e 
ele chegou a dar alguns passos.
    O homem quase foi derrubado quando as patas do cavalo afundaram na lama espessa e arenosa, mas ele se aprumou logo e saltou. Com um relincho e uma toro do 
corpo, o jovem garanho, que tinha ainda as patas traseiras em terreno firme, conseguiu extrair uma perna do paul que a sugava. Recuando um passo e achando apoio, 
Racer fez fora at que o outro p de repente se soltou da areia movedia com um estalo.
    0 cavalo ficou abalado, e Jondalar teve de acalm-lo afagando-lhe o pescoo. Depois, com um galho, explorou o terreno  frente. Quando o galho foi engolido, 
ele apanhou o terceiro mastro, que no era usado para o tren, e explorou com ele. Embora coberto de canios, o pequeno campo era um sumidouro de argila e lodo. 
O recuo gil da montaria conjurara um possvel desastre, mas dali por diante eles se aproximavam do Rio da Grande Me com maior cautela do que antes. Sua caprichosa 
diversidade podia esconder surpresas indesejveis.
    As aves continuavam a ser a forma dominante de vida no delta. Principalmente garas, egretas e patos. Havia tambm um grande nmero de pelicanos, cisnes, gansos, 
grous, e, nas rvores, umas poucas cegonhas negras e bis coloridas, de plumagem brilhante. A fase de nidificao variava com as espcies, mas todas tinham de reproduzir-se 
durante o calor. Os viajantes recolheram ovos de todos aqueles pssaros para refeies ligeiras e fceis de preparar, e at Lobo aprendeu a quebrar as cascas e a 
gostar das variedades que tinham um leve sabor de peixe.
    Depois de algum tempo, acostumaram-se s aves do delta. Sabiam agora o que esperar e tinham poucas surpresas. Uma tarde, porm, quando cavalgavam ao longo de 
uma floresta de salgueiros paralela ao rio, deram com uma cena impressionante. As rvores abriam para uma laguna, quase um lago, embora no primeiro momento julgassem 
que se tratava de terra firme, a tal ponto as ninfias cobriam tudo. O que lhes chamou a ateno foram as centenas de garas pequenas, encarapitadas  com os pescoos 
compridos curvados em S e os bicos pontudos prontos para fisgar peixes  em todos os camalotes floridos de ninfias.
    Fascinados, eles quedaram em contemplao por algum tempo, depois decidiram partir, com medo que Lobo aparecesse aos saltos e espantasse as aves dos seus poleiros. 
Estavam a pequena distncia do local, fiando seu acampamento, quando viram que centenas das aves haviam levantado vo. Jondalar e Ayla interromperam o que estavam 
fazendo e ficaram vendo as cegonhas, com seus longos pescoos e suas grandes asas desfraldadas batendo, at que se tornaram silhuetas escuras contra as nuvens cor-de-rosa 
do lado do oriente. O lobo veio logo reunir-se a eles, todo lampeiro, e Ayla desconfiou que ele as tivesse posto em fuga. Mas como ele no fazia nenhuma tentativa 
sria de pegar uma ave, gostava tanto de persegui-las que ela ficou imaginando se no seria pelo prazer v-las voar. Para ela, aquele era um grande espetculo. Ayla 
acordou na manh seguinte sentindo-se quente e suada. O calor  aumentara, e ela teve preguia de levantar. Gostaria muito se pudessem descansar um dia. No que se 
sentisse to fatigada. Estava farta de viajar. At os cavalos precisavam de algum repouso, pensou. Jondalar vinha fazendo presso para que continuassem, e ela sabia 
os motivos que o levam a isso, mas se um dia fizesse tanta diferena assim para a travessia da geleira de que ele ficava falando, ento j estavam irremediavelmente 
atrasados. Precisariam de mais de um dia do tempo firme necessrio  segurana da viagem. Mas quando ele se levantou e comeou a arrumar suas coisas, ela fez o mesmo.
     medida que a manh avanava, o calor e a umidade, mesmo em campo aberto, foram ficando opressivos. Quando Jondalar sugeriu que se detivessem para nadar um 
pouco, Ayla de imediato concordou. Levaram os cavalos para o rio e viram com prazer uma clareira abrindo para a gua. Um leito seco de rio sazonal, ainda um tanto 
encharcado e sujo de folhas em decomposio, deixava apenas um pequeno espao coberto de relva, mas criava uma espcie de bolso aconchegante rodeado de pinheiros 
e chores. A vala era barrenta, mas um pouco mais atrs, na curva do rio, havia uma praia estreita de seixos rolados e uma piscina natural, mosqueada de sol que 
as rvores filtravam.
            Perfeito!  disse Ayla, com um grande sorriso.
    E comeou a desatar o tren.
    Voc acha necessrio fazer isso?  perguntou Jondalar.  Afinal, no nos vamos demorar.
     Os cavalos precisam descansar tambm, e ns podemos nada um pouco  disse ela, retirando as cestas e a manta de Huiin.  Precisamos tambm esperar por Lobo. 
No o vi a manh toda. Deve ter sentido algum cheiro irresistvel e estar em plena caada.
     Muito bem  disse Jondalar, que, por sua vez, desatou as correias que prendiam as cestas de Racer. Guardou-as no barco, ao lado de Ayla, e deu uma palmada 
afetuosa na garupa do cavalo, para indicar que ele podia acompanhar Huiin.
    Ayla logo tirou a roupa e mergulhou no rio, enquanto Jondalar urinava. Ele a seguiu com os olhos e no pde mais desviar a vista. Ayla estava com gua tremeluzente 
at a altura dos joelhos, e um raio de sol que passava por um vo na copa das rvores punha-lhe um halo dourado nos cabelos e fazia luzir a pele nua do seu corpo 
elstico.
    Contemplando-a, Jondalar comoveu-se de novo com a sua beleza. Por um momento, o amor que tinha por ela o sufocou. Ela se curvou, para apanhar gua nas mos em 
concha, acentuando as curvas das ndegas e expondo a pele mais clara do lado interno da coxa. Isso lhe fez subir um calor ao rosto e acendeu nele o desejo. Jondalar 
baixou os olhos para o membro que ainda segurava na mo e sorriu, pensando agora em fazer mais do que nadar simplesmente.
    Ela o olhou tambm quando ele entrou na gua, viu seu sorriso, e um olhar conhecido, imperioso, nos seus olhos azuis. Notou tambm que seu membro ia mudando 
de forma. A reao que teve foi imediata: uma instigao intensa. Depois, acalmou-se, e a tenso, que no havia detectado antes, se foi. No iam mesmo viajar mais 
naquele dia, se dependesse dela. E ambos precisavam de uma mudana de ritmo, de uma diverso gostosa, excitante.
    Ele percebera o olhar de relance que ela lhe dera e tomou nota da reao favorvel e de uma ligeira mudana na atitude de Ayla. Sem na verdade trocar de posio, 
sua postura se fizera, de certo modo, mais convidativa A reao dele foi bvia. No poderia escond-la nem que o quisesse.
     A gua est maravilhosa  disse ela.  Foi uma boa ideia que voc teve, nadar um pouco. Eu estava com muito calor.
     Sim, eu tambm estou quente  respondeu ele, sorrindo, e avanando devagar na gua em direo  mulher.  No sei como so as coisas com voc, mas eu no tenho 
nenhum controle sobre mim quando estou a seu lado.
     E por que se controlaria? Eu no me controlo. Basta que voc me olhe desse jeito para que eu esteja pronta  disse ela, e seu rosto se abriu num sorriso... 
Aquele belo sorriso de que ele tanto gostava.
            Ah, mulher!  disse ele, num sopro, pegando-a nos braos. Ela ergueu os seus para enla-lo, e ele se curvou para beijar-lhe os lbios macios. Jondalar 
passou-lhe as mos pelas costas, sentindo-lhe a pele que o sol aquecera. Ela gostava quando ele a tocava dessa maneira e respondeu  carcia com uma antecipao 
instantnea e surpreendente.
    Jondalar tateou mais embaixo, pegou-a pelos seios redondos e lisos, e puxou-a com fora. Ela sentiu toda a extenso do seu membro quente contra o estmago, mas 
o movimento a fizera perder o equilbrio. Procurou firmar-se, mas uma pedra cedeu debaixo de seu p. Ela se apoiou nele mas isso o desequilibrou. Jondalar escorregou, 
e os dois caram na gua com um grande chape. Depois, sentaram-se, rindo.
            Voc se machucou?  perguntou Jondalar.
            No, mas a gua est fria, e eu pretendia entrar na gua bem devagar. Mas agora que estou molhada, vou nadar. No foi isso que viemos fazer aqui?
     Sim, o que no quer dizer que no possamos fazer outras coisas tambm  disse ele. Via que a gua chegava apenas at debaixo dos braos de Ayla. Seus seios 
tmidos flutuavam, e ele pensou nas proas abauladas de dois barcos, com pontas rosadas e duras. Debruou-se, e lambeu um dos mamilos, sentindo seu calor na gua 
fria.
    Ela se arrepiou toda e jogou a cabea para trs, a fim de deixar que a sensao se comunicasse ao corpo todo. Ele aninhou o outro seio na mo em concha, depois 
passou-lhe a mo pelo lado, puxando-a. Ela estava to sensvel que s a presso da palma da mo dele no bico do seio, endurecido, desencadeava novas ondas de prazer. 
Ele sugou o outro seio, depois se deixou ir e beijou-a ao longo do seio e, para cima, no pescoo. Alcanando a orelha, soprou de leve, em seguida encontrou os lbios. 
Ela abriu a boca de leve e sentiu o toque da sua lngua, depois o beijo.
            Vamos  disse ele, quando se separaram, pondo-se de p, e estendendo a mo para ajud-la , vamos nadar.
    Conduziu-a, ento, mais para dentro da gua, at que lhe chegasse pela cintura, depois puxou-a para perto, a fim de beij-la mais uma vez. Ela sentiu a mo dele 
entre as pernas, o frio da gua quando ele lhe abriu as pregas, e uma sensao mais forte quando ele achou com os dedos o pequeno boto duro e o esfregou.
    Ayla deixou que a sensao a dominasse toda. Em seguida, pensou, isto est acontecendo depressa demais. Estou quase gozando! Respirou fundo, soltou-se dos braos 
dele, e, com uma risada, jogou-lhe gua.
            Acho que devemos nadar, disse, e ensaiou algumas braadas.
    O espao era exguo, fechado, do outro lado, por uma ilha submersa coberta com uma densa concentrao de canios. Uma vez passado esse obstculo, ela pisou o 
fundo e o encarou. Ele sorriu, e Ayla sentiu a fora do magnetismo de Jondalar, do seu desejou-o do seu amor, e desejou-o tambm. Comeou a nadar de volta para a 
margem e ele a seguiu.
    Quando a gua ficou de novo rasa, ele se aprumou e disse.
            Muito bem, j nadamos.  Ento tomou-a pela mo, tirando-a da gua para a margem. Beijou-a, sentiu que ela o puxava, que parecia fundir-se nos seus 
braos. Os seios, o ventre e as coxas de Ayla se colaram ao seu corpo.
            Agora  hora de outras coisas, Ayla.
    Ela estava com a garganta presa e os olhos dilatados. Sua voz ficou trmula quando tentou responder.
     Que outras coisas?  disse, procurando brincar e sorrir.
    Ele se deixou cair na relva, estendeu-lhe a mo, e disse:
     Venha c que eu lhe mostro.
    Ela se sentou a seu lado. Ele a forou para trs, beijando-a, e sem outras preliminares, cobriu-a, depois desceu, abriu-lhe as pernas e fez correr sua lngua 
quente nas pregas molhadas e frias. Os olhos de Ayla se abriram por um momento. Ela estremeceu com a fora da pulsao que lhe percorria o corpo, sentindo-a intensamente. 
Logo ele se ps a chupar na sua rea dos Prazeres.
    Queria prov-la, sorv-la, e sabia que estava pronta. Sua prpria excitao cresceu vendo que ela respondia, e seus rins lhe doeram, com a urgncia da necessidade, 
e o seu membro, grande e levemente encurvado, inchou ao mximo. Ele lhe esfregou o nariz, mordiscou, sugou, e manipulou com a lngua. Por fim, enfiou-a nela para 
saborear por dentro. Malgrado o desejo que sentia, queria que aquilo se pudesse prolongar para sempre. Adorava dar a Ayla os Prazeres.
    Ayla sentia o frenesi crescendo dentro dela, e gemeu, depois gritou quando sentiu que o ponto culminante se aproximava.
    Se ele no se policiasse, poderia gozar at sem penetr-la, mas gostava da sensao de estar dentro dela tambm. Bom seria se pudesse fazer tudo ao mesmo tempo.
    Ela se alou para alcan-lo. empinou-se, sentindo que a clamorosa tormenta crescia dentro dela e que de repente, quase sem aviso, explodia. Ele sentiu a umidade 
dela, o seu calor, e, subindo um pouco, achou a entrada e de um s golpe, encheu-a completamente. Seu membro estava a ponto de explodir tambm, e ele no sabia quanto 
tempo seria capaz de resistir ainda.
    Ela gritou seu nome, agarrou-o, desejando-o, com o corpo em arco para encontrar o dele. Ele se enfiou de novo, sentindo-a de todo. E em seguida, tremendo e gemendo, 
recuou, com os rins apertados, pois seu orgo incitava poderosas sensaes por toda parte. Ento, de chofre, o auge estava s portas, no podia esperar mais, e ele 
se afundou de novo e sentiu que os Prazeres o tomavam. Ela gritou com Jondalar, e o terrvel deleite a inundou.
    Ele deu mais algumas estocadas. Depois, deixou-se tombar por cima da mulher, e ambos descansaram da excitao e do tempestuoso alvio. Depois de algum tempo, 
ele ergueu a cabea, e ela o beijou, cnscia do seu gosto e cheiro nele, o que sempre lhe recordava os incrveis sentimentos que Jondalar era capaz de evocar nela.
     Eu bem que quis fazer que isto durasse, levasse muito tempo, mas no deu: eu estava pronta demais para voc.
     O que no quer dizer que no possa durar  disse ele, e viu que ela sorria.
    Jondalar rolou de lado e disse, sentando-se:
     Esta margem de seixos no  muito confortvel. Por que no reclamou?
     No percebi, mas agora que voc o menciona, h uma pedra me machucando as cadeiras, outra aqui, debaixo do ombro. Acho que devamos procurar um lugar mais 
macio... para voc descansar  disse ela, com um risinho maroto e um brilho no olho.  Mas, primeiro, gostaria de nadar um pouco de verdade. Talvez haja um canal 
mais fundo aqui por perto.
    Relaxaram um pouco, nadaram um pouco, depois continuaram, rio acima, rompendo o camalote raso e barrento dos canios. Do outro lado a gua era inesperadamente 
mais fria; depois ficou fundo, e eles se viram num canal aberto que corria entre os canios. A me do rio.
    Ayla tomou a dianteira, mas logo Jondalar fez um esforo e emparelhou com ela. Eram bons nadadores, os dois, e logo se acharam numa espcie de amigvel competio, 
apostando corrida ao longo do canal que serpeava entre os canios. Eram preo um para o outro, de modo que qualquer vantagem pequena logo punha um  frente. Ayla 
estava mais adiantada quando alcanaram um ponto em que o canal se bifurcava, mas num ngulo to acentuado que quando Jondalar ergueu os olhos Ayla estava mais  
vista.
     Ayla! Ayla! Onde est voc?  gritou.
    Nenhuma resposta. Ele chamou de novo, e entrou nadando por um dos canais. Ele se torcia sobre si mesmo e tudo que se via eram canios. Para onde quer que se 
virasse, havia paredes de canios altos. Tomado de pnico, ele chamou de novo:
            Ayla, em que parte do frio mundo subterrneo da Me voc se meteu?
    Ouviu ento, um assovio, dos que Ayla usava para chamar Lobo. Sentiu um grande alvio, mas o assovio vinha de longe, mais longe do que ele imaginava que deveria 
vir. Assoviou em resposta, e ela respondeu. Ele ento nadou de volta, alcanou a forquilha e seguiu pelo outro canal.
    Esse canal tambm era sinuoso e se abria num terceiro. Nesse ponto, Jondalar sentiu que uma forte corrente o arrastava, e logo se viu, com surpresa, levado rio 
abaixo. Mais adiante viu Ayla, que resistia  foa da gua e nadou para encontr-la. Ela continuou a nadar contra a corrente, mesmo quando ele chegou perto, com 
medo de ser arrastada outra vez para o canal errado se parasse de lutar. Ele fez meia-volta e nadou com ela, rio acima. Na bifurcao, descansaram um pouco, mexendo 
apenas com as pernas, para ficarem  tona.
            Ayla! Onde tinha a cabea? Por que no se certificou se eu sabia para onde estava indo?  reclamou.
    Ela sorriu, ciente de que aquela fria era o resultado da tenso causada pelo medo que ele tivera.
            Eu estava querendo apenas ir em frente. No podia saber que o canal mudava de direo to depressa ou que a correnteza fosse to forte. Fui arrastada 
antes de me dar conta do que se passava. Por que  to forte assim?
    Passada a aflio, feliz por v-la a salvo, a raiva de Jondalar logo acabou.
     No sei.  muito estranho. Talvez estejamos perto do canal principal, ou ento a terra mole, no fundo, est sendo levada de roldo.
     Vamos voltar. Esta gua est muito fria, e mal posso esperar por aquela praia ensolarada  disse Ayla.
    Deixando que a corrente os ajudasse, os dois nadaram de volta, relaxados. Embora a gua no puxasse com tanta fora, levava-os. Ayla ia de costas, boiando. Contemplava 
as canas verdes que passavam e a lmpida abbada azul. O sol estava ainda a oriente, mas j ia alto no cu.
     Lembra-se do lugar onde pegamos este canal, Ayla?  Todos me parecem iguais.
     Havia trs grandes pinheiros juntos, na margem. E o do meio era maior que os outros. Atrs deles havia chores de compridas hastes pendentes  disse ela, virando-se 
para nadar outra vez.
     So tantos os pinheiros na margem. Talvez devssemos sair. Talvez j tenhamos passado o lugar, Ayla.
     No creio. O pinheiro  direita do pinheiro grande tinha uma forma engraada, meio torta. No o vi, at agora, espere... L est ele, veja... para cima um 
pouco  disse Ayla, rumando para a margem.
     Voc est certa. Viemos por aqui. Os canios esto pisados.
    Passaram por eles e pela piscina natural, onde agora fazia calor. Pisaram a pequena rea de seixos rolados com a sensao de ter voltado para casa.
     Vou fazer uma fogueira e preparar ch, disse Ayla, raspando os braos com a mo para livrar-se da gua. Espremeu, em seguida, a gua dos  cabelos, depois foi 
at as cestas da bagagem, recolhendo gravetos pelo caminho.
            Quer suas roupas?  perguntou Jondalar, despejando no cho mais uma braada de lenha.
     Prefiro secar-me um pouco mais  disse ela, vendo que os cavalos pastavam tranquilamente na estepe vizinha, mas Lobo no estava por perto. Ficou um pouco apreensiva, 
mas no era a primeira vez que ele saa sozinho e se demorava metade do dia.
            Por que no estende a manta de forrar o cho naquela parte da relva onde o sol est batendo? Pode descansar um pouco enquanto fao o nosso ch.
    Ayla fez um bom fogo enquanto Jondalar apanhava gua. Escolheu, depois, no seu estoque de ervas secas, estudando-as com cuidado. Uma tisana de alfafa seria tima, 
pois era ao mesmo tempo refrescante e estimulante, mas com algumas flores e folhas de borragem, um bom tnico, e flores de goivo para adoar a infuso e dar-lhe 
um leve gostinho picante. Para Jondalar, selecionou uns poucos amentilhos masculinos de amieiro, vermelho-escuro, que apanhara no comeo da primavera. Lembrava-se 
da ocasio: fizera-o pensando na sua promessa de se unir a Ranec, mas todo o tempo desejando que fosse com Jondalar. Foi com um calor de felicidade que juntou os 
amieiros ao restante das ervas.
    Quando o cozimento ficou pronto, levou duas xcaras para a grama em que Jondalar repousava. Parte da manta j estava na sombra, mas no fazia mal. O calor do 
dia j esquentara a friagem da natao. Ela deu uma xcara a Jondalar e sentou-se com a outra na mo. Ficaram juntos, ali, desfrutando da companhia um do outro, 
sorvendo a bebida, com poucas palavras, e contemplando os cavalos, de p, lado a lado, mas voltados para direes opostas, espanando moscas da cara um do outro com 
os rabos.
    Quando acabou de beber, Jondalar se deitou com as mos atrs da cabea. Ayla ficou contente vendo que estava mais tranquilo e no mais sfrego para partir como 
de hbito. Colocou sua xcara tambm na grama e deitou-se de comprido junto dele. Fechou os olhos e ficou respirando o Cheiro bom do seu homem e sentindo que a mo 
dele alisava seu quadril, num gesto doce e inconsciente de carinho.
    Virando a cabea, ela beijou a pele quente de Jondalar, depois soprou em direo ao seu pescoo. Ele estremeceu e fechou os olhos. Ela o beijou de novo, depois 
soergueu um pouco o corpo e comeou a dar-lhe pequeninas mordidas no pescoo e no ombro. Aquilo lhe dava ccegas quase insuportveis, mas tambm uma tal excitao 
que ele resistiu idia de mexer-se e aguentou firme.
    Ayla beijou-lhe o pescoo, o queixo, a face, sentindo os plos duros no rosto. Depois procurou a boca e se ps tambm a mordisc-la de leve, de uma comissura 
 outra. Feito isso, olhou-o fixamente. Ele tinha os olhos fechados, mas uma expresso expectante. Finalmente, abriu-os e viu-a debruada sobre seu corpo com um 
sorriso de completo deleite. Os cabelos, ainda molhados, caam-lhe, pesados, sobre um ombro. Ele queria agarr-la, esmag-la contra o peito, mas limitou-se a corresponder 
ao sorriso da mulher.
    Ela baixou mais um pouco, explorou-lhe a boca com a ponta da lngua, to de leve que ele mal o sentiu. Mas a brisa que ento soprava riscando a gua lhe causava 
inacreditveis arrepios. Sentiu que a lngua de Ayla procurava uma passagem e abriu a boca para receb-la. Devagarinho, ela explorou o interior dos lbios dele, 
o soalho bucal e na orla do palato, testando, tocando, provocando. Depois, beijou-lhe os lbios com os seus pequenos beijos-mordidas, e isso foi mais do que pde 
suportar. Jondalar estendeu o brao, agarrou-lhe a cabea e trouxe-a para baixo, erguendo ao mesmo tempo a sua para um beijo firme, forte e satisfatrio.
    Quando a soltou, Ayla sorria com malcia. Obrigara-o a reagir, os dois sabiam disso. Enquanto a observava, to contente consigo mesma, ele tambm se felicitava. 
Estava inovativa, brincalhona. Que outras delcias teria guardadas para ele? Uma onda de excitao o tomou a esse pensamento. Aquilo podia ficar interessante. Jondalar 
sorriu e esperou, fitando nela os olhos azuis, surpreendentemente belos.
    Ayla se inclinou para ele e beijou-lhe a boca mais uma vez, e o pescoo, e os ombros, e o peito. E ento, numa sbita mudana de posio, ela se ajoelhou ao 
lado dele, debruou-se em direo contrria, abaixou-se e abocanhou seu rgo intumescido. Tomou tanto quanto podia, e ele sentiu aquele calor mido envolver a ponta 
sensvel do seu membro e ir ainda mais longe. Ela puxou para trs lentamente, criando uma suco, que ele sentiu em todas as partes do corpo. Fechou os olhos e se 
deixou sentir o crescente deleite, porque a mulher agora movia as mos e a boca para cima e para baixo da sua comprida vara.
    Ayla explorou a cabea com a lngua, fez, depois, pequenos crculos em torno dela, e comeou a desej-la com uma urgncia maior. Estendeu a mo para tomar a 
bolsa mole abaixo do membro e, delicadamente  ele lhe dissera que tivesse sempre cuidado ali , sentiu os dois misteriosos calhaus que ela continha, macios e arredondados. 
Ficou imaginando para que, de fato, serviam, e sentiu que eram muito importantes, por algum motivo. Quando as mos dela se fecharam em concha em torno do seu saco 
tenro, ele sentiu uma sensao diferente, agradvel, porm mesclada de um gro de ansiedade com aquela parte to frgil, que parecia estimul-lo de outra maneira.
    Ela o soltou e depois olhou para ele. O intenso prazer que Jondalar tinha nela e no que ela fazia estava estampado no seu rosto e refletido nos seus olhos. E 
ele lhe sorriu, encorajando-a. Ela se deleitava com o processo de dar-lhe os Prazeres. Aquilo a estimulava de um modo diverso mas profundo e excitante, e ela compreendeu 
um pouco por que ele gostava de causar-lhe Prazer tambm. Ela o beijou, longamente, depois passou uma perna por cima dele, cavalgando-o, de frente para os ps.
    Sentada no seu peito, ela se dobrou, tomou o membro duro e palpitante nas mos, postas uma acima da outra. Embora ele estivesse rijo, distendido, a pele era 
macia, e quando ela o guardava na boca, era liso e quente. Ayla o cobriu de beijos e leves, pequeninas mordidas. Quando alcanou a base, foi mais longe, at a bolsa, 
tomou-a, com cautela, para sentir sua firme redondeza dentro da boca.
    Ele estremeceu com choques de um Prazer inesperado. Aquilo era quase demais. No s as tumultuosas sensaes que o dominavam, mas a vista de Ayla, que se erguera 
um pouco no ar para melhor alcan-lo. Escarranchada como estava, deixava expostas suas ptalas e pregas de um rosa carregado e, at, a sua deliciosa abertura. Ela 
deixara de lado os testculos e voltara atrs, para pr de novo na boca o seu excitante e latejante pnis para outra vez chup-lo, quando percebeu que ele a puxava 
um pouco mais para trs e  com um choque imprevisto  que a lngua dele encontrara as suas pregas, e a sede dos Prazeres.
    Ele a explorou sfrega, completamente, usando as mos e a boca, sugando, manipulando, sentindo alegria de dar-lhe Prazer, e, ao mesmo tempo, a excitao que 
ela causava dentro dele esfregando-lhe o membro para a frente e para trs enquanto o chupava.
    Ayla estava prestes a gozar e j no podia conter-se, mas Jondalar procurava ainda adiar o clmax, esforando-se para no acabar. Podia facilmente deixar-se 
ir, porm queria mais, de modo que quando ela parou, arqueou o corpo para trs, e soltou um grito, ele ficou contente. Sentiu-lhe a umidade, depois rilhou os dentes 
para controlar-se. Sem os Prazeres que haviam gozado antes, no teria conseguido, mas se refreou, ficando num plat logo abaixo da crista.
     Ayla, vire-se para o outro lado. Quero possu-la toda!
    Ela fez que sim de cabea. Podia compreend-lo. E querendo tambm todo ele montou-o no outro sentido. Erguendo-se, ele se inseriu nela e deixou-se cair, outra 
vez, de costas, repetindo o nome dela, sentindo que o ventre de Ayla se abria, quente, para receb-lo. Quanto a ela, sentia presses em diferentes partes sensveis 
ao mover-se para cima e para baixo, guiando a direo daquela rija plenitude que a enfiava.
    No plat que ele alcanara a necessidade no era to premente. Ele podia aguentar um pouco. Ela se curvou para a frente, em mais uma posio ligeiramente diversa 
da anterior. Ele a puxou de modo a poder roar seus seios tentadores, ps um na boca, e sugou-o com fora. Depois fez o mesmo com o outro. Por fim, beijou e chupou 
os dois ao mesmo tempo. E como sempre, quando fazia aquilo, sentia a excitao em que ela ficava.
    Ela via, por sua vez, crescer dentro dela o desejo, movendo-se para a frente e para trs, para cima e para baixo, em cima dele. Ele j se elevava acima do plat, 
sentindo recrudescer a urgncia, e quando ela se sentou, exausta, ele agarrou-lhe as cadeiras e ajudou-a, dirigindo seus movimentos, empurrando-a para o alto e puxando-a 
outra vez. Sentiu que ia explodir quando a ergueu e, de sbito, o gozo chegou. Ele a apertou para baixo e gritou com o tremor convulso que vinha dos seus rins numa 
poderosa erupo. Ela gemeu e estremeceu com o surto que rebentava dentro dela.
    Jondalar a fez mexer-se mais algumas vezes, para cima, para baixo, depois enlaou-a para beijar-lhe os seios. Ayla teve uma derradeira estremeo, depois desabou 
por cima dele. E ficaram os dois imveis, respirando laboriosamente, procurando recuperar o flego.
    Ayla comeava a respirar normalmente quando sentiu alguma coisa molhada na face. Pensou, por um momento, que fosse Jondalar, mas aqui-lo era frio alm de molhado, 
e havia um cheiro diferente, mas no estranho, no ar. Abriu os olhos e deu com os dentes de um lobo que sorria Lobo esfregou-lhe o nariz outra vez, depois meteu 
o focinho entre os dois.
            Lobo! Vai embora!  disse Ayla, livrando-se daquele nariz gelado, daquele bafo de lobo.
    Depois rolou de cima de Jondalar e ficou estendida ao lado dele. Estendendo a mo, meteu os dedos no plo do pescoo do animal.
            Mas estou contente em ver voc. Por onde andou o dia inteiro? J estava preocupada.
    Sentou-se, ps a cabea de Lobo entre as mos, encostou a testa na dele, depois se voltou para o homem:
            No posso imaginar  h quanto tempo ele ter voltado.
            Bem. Alegro-me de que voc o tenha ensinado a no aborrecer a gente. Se ele nos tivesse interrompido agora, no sei o que eu teria feito com ele  disse 
Jondalar.
    Levantou-se, e ajudou-a com a mo a levantar-se tambm. Depois, tomando-a nos braos, ficou olhando para ela.
            Ayla, isso foi... o que posso dizer? No tenho as palavras...
    Mas ela viu uma tal expresso de adorao e amor nos olhos dele que teve de conter as lgrimas.
     Jondalar, tambm eu quisera ter palavras, mas no sei nem mesmo na linguagem gestual do Cl dizer como me sinto. Talvez nem haja sinais para isso.
     Voc me mostrou o que sente em muito mais que palavras. Voc me mostra isso todos os dias, de muitas maneiras.  Puxou-a contra o peito, com um n na garganta. 
 Minha mulher, minha Ayla. Se eu a perdesse um dia...
    Ayla sentiu um arrepio a essas palavras, mas isso fez apenas com que ela o apertasse com mais fora.
     Jondalar, como voc sempre sabe o que eu realmente quero?
    Estavam sentados no crculo dourado da fogueira, tomando ch. e contemplando as chamas da acha betuminosa de pinheiro, que estalava  e lanava um chuveiro de 
fascas no ar noturno.
    Havia muito tempo que Jondalar no se sentia to descansado, to contente, e to a vontade. Tinham pescado,  tarde  Ayla o ensinara como pegar um peixe com 
a mo , depois ela achou um p de erva-saboeira e os dois tomaram banho e lavaram o cabelo. Jondalar acabara de comer uma deliciosa refeio de peixe com ovos de 
pssaros do pntano, legumes variados, um biscoito de massa de tbua assado em cima de pedras quentes, e algumas bagas silvestres.
    Ele sorriu.
     Apenas presto ateno ao que voc me diz.
     Jondalar, da primeira vez, pensei que queria que aquilo durasse mas voc sabia melhor do que eu, o que eu, na verdade, desejava. Depois voc viu que queria 
dar-lhe os Prazeres, e me deixou fazer, at que estivesse de novo pronta para voc. E sabia quando eu estava pronta. No fui eu que lhe disse.
     Sim, disse. No com palavras. Voc me ensinou a falar como a gente do Cl, por sinais e movimentos. Agora procuro entender o sentido dos seus outros sinais.
     Mas eu no lhe ensinei nenhum sinal desse tipo. No conheo nenhum. E voc soube como me dar os Prazeres antes de aprender os sinais do Cl.
    Ela estava de testa franzida. Procurava, com toda a seriedade, entender o que fez com que Jondalar sorrisse.
      verdade. Mas h uma linguagem muda das pessoas que falam e que  muito mais visvel e eloquente do que elas pensam.
     Sim, j notei isso  disse Ayla, pensando o quanto ela mesma era capaz de compreender sobre as pessoas que eles acabam de conhecer simplesmente prestando ateno 
aos sinais que faziam sem se darem conta disso.
     E, s vezes, voc aprende a fazer... coisas s por desejar faz-las, de modo que faz com ateno.
    Ayla estivera todo o tempo olhando dentro dos olhos dele, vendo o amor que tinha por ela e o deleite que parecia sentir com as perguntas que ela lhe fazia. Notou 
tambm o olhar perdido de Jondalar quando se punha a falar. Ele fitava o espao como se visse alguma coisa longe por um momento, e Ayla sabia que ele estava pensando 
em outra pessoa.
            Principalmente quando a pessoa com quem voc quer aprender esta disposta a servir de professora. Zolena o ensinou muito bem.
    Ele corou, encarou-a com choque e surpresa, depois olhou para outra direo.
     Aprendi muito com voc tambm  acrescentou, cnscio de que observao dela o perturbara.
    Parecia incapaz de encar-la outra vez. Quando finalmente o fez, tinha o cenho franzido.
     Ayla, como sabia o que eu estava pensando? Sei que voc tem um Dom especial. Foi por isso que o Mamute levou voc para o Lar dos Mamutes quando foi adotada. 
Mas s vezes voc parece ler meus pensamentos. Voc tirou o que disse da minha cabea?
    Ela percebeu a preocupao dele e algo mais contristador: um quase temor dela. J percebera em outros a mesma espcie de medo, como entre alguns dos Mamuti 
da Reunio de Vero, quando a julgaram possuidora de faculdades misteriosas, mas aquilo era, na maior parte, fruto de mal-entendidos. Como pensar que ela possua 
algum domnio especial sobre os animais quando tudo o que ela fizera fora apanh-los enquanto filhotes e cri-los maternalmente.
    Mas, desde a Reunio dos Cls, alguma coisa mudara. Ela no tivera a inteno de tomar da mistura especial de razes que preparara para os mog-urs, mas no pudera 
evitar faz-lo. Tambm no pretendera entrar naquela caverna e encontrar os mog-urs. A coisa simplesmente acontecera. Quando os viu, a todos, sentados em crculo 
naquela alcova, nas profundezas da caverna e... caiu no vazio negro que estava dentro dela pensou que estava perdida para sempre e que jamais encontraria o caminho 
de volta. Ento, de algum modo, Creb conseguira alcanar dentro dela e lhe falar. Desde ento, havia ocasies em que sabia coisas que no podia explicar. Como quando 
o Mamute a levou consigo na sua Busca, e ela sentiu que se erguia no ar e o acompanhava atravs das estepes. Mas quando olhou para Jondalar,  luz da fogueira, e 
viu a maneira esquisita com que ele a olhava, sentiu medo: medo de que pudesse perd-lo. Baixou, ento, os olhos.
    No podia haver inverdades entre os dois. Nem mentira. No que ela no pudesse dizer, deliberadamente, algo que no fosse exato, mas nem mesmo o habitual "abster-se
de falar", que o Cl permitia no interesse da privacidade, poderia interpor-se entre os dois agora. Mesmo com o risco de perd-lo se lhe contasse a verdade, tinha
de dizer tudo e de descobrir o que o afligia. Encarou-o, ento, diretamente, e procurou palavras para comear.
            No li seus pensamentos, Jondalar, mas no foi difcil adivinh-los. No estvamos discutindo os gestos mudos feitos por pessoas com o dom da palavra? 
Voc os faz tambm. Sabia? Talvez por am-lo tanto, e querer tanto conhec-lo, presto ateno a voc todo o tempo  disse, tirando os olhos dele.  As mulheres do 
Cl aprendem a fazer isso. So ensinadas  falou Ayla.
    S ento o encarou de novo. Viu algum alvio na expresso dele, e tambm curiosidade, e continuou:
     Isso no acontece s com voc. Fui criada com gente da minha espcie, estou acostumada a descobrir sentido nos gestos que as pessoas fazem. Isso j me tem 
ajudado a conhecer melhor as pessoas que encontro, e que dizem uma coisa da boca para fora e outra muito diferente com os gestos inconscientes que fazem. Comecei, 
assim, a entender mais do que o que se contm nas palavras. Foi por isso que Crozei deixou de jogar o jogo-do-osso comigo. Eu sempre sabia em que mo ela escondia 
o tento marcado pela maneira como o segurava.
     Sempre quis saber como voc conseguia isso. Crozei era considerada muito boa nesse jogo.
     E era.
     Mas, agora, como voc pde saber que eu estava pensando em Zolena? Ela  uma Zelandonii hoje. E  assim que penso nela, no sob o nome que tinha quando jovem.
     Eu o observava, seus olhos diziam que voc me amava, que estava feliz comigo, e eu me sentia feliz tambm. Mas quando comeou a falar em aprender certas coisas, 
por um momento deixou de ver-me. Era como se estivesse olhando para muito longe. Voc j me falou de Zolena, da mulher que o ensinou... esse dom... a maneira que 
tem de fazer a mulher sentir. Tnhamos conversado sobre isso antes, e foi assim que percebi que devia estar pensando nela.
            Extraordinrio, Ayla!  disse ele, com um sorriso aberto, aliviado.  No terei segredos para voc. Talvez no tire pensamentos de dentro da cabea 
de uma pessoa, mas o que faz no fica longe disso.
            H outra coisa que precisa saber.
    Jondalar enrugou de novo a testa.
     E o que ?
            s vezes penso que tenho... alguma espcie de Dom. Algo me aconteceu quando eu estava na Reunio dos Cls, uma a que compareci com o Cl de Brun, quando 
Dure era um beb. Fiz alguma coisa que no devia ter feito. Bebi da poo que tinha preparado para os mog-urs, e acabei dando com eles numa caverna. No estava procurando 
por eles, nem sei como fui parar naquela caverna. Eles estavam...  Ela estremeceu e no pde continuar.
    "Algo aconteceu comigo. Fiquei perdida na escurido. No a da caverna, mas uma treva interior. Pensei que fosse morrer, mas Creb me ajudou. Ele ps seus prprios 
pensamentos dentro da minha cabea...
            Ele o qu?
            No sei como explicar isso de outra maneira. Ele ps seus pensamentos na minha cabea e, desde ento... s vezes...  como se ele tivesse mudado alguma 
coisa em mim. s vezes imagino que tenho alguma espcie de... Dom. Acontecem coisas que no entendo nem posso explicar. Acho que Mamute sabia disso.
    Jondalar permaneceu calado por algum tempo.
            Ele ter, ento, adotado voc no Lar do Mamute por outros motivos alm do conhecido de suas habilidades curativas.
     Pode ser. Acho que sim.
     Mas voc no leu meus pensamentos, h pouco?
     No. O Dom no funciona desse jeito. No exatamente.  mais como aquela histria de viajar com o Mamute, na Busca. Ou ir a profundezas. Ou a lugares longnquos.
     Mundos de espritos?
     No sei.
    Jondalar olhou para o alto e considerou as implicaes do que acabava de ouvir. Depois abanou a cabea, olhando-a com um sorriso duro.
     Acho que  alguma pilhria da Grande Me comigo. A primeira mulher que amei foi chamada para servi-La, e pensei que no amaria mais ningum. E agora que encontrei 
outra mulher para amar, tambm esta parece destinada a servi-La. Ser que vou perder voc tambm?
    Por que me perderia? No sei se estou destinada a servir  Grande de Me. No quero servir a ningum. Quero apenas ficar com voc, viver na sua casa, ter os 
seus filhos  objetou Ayla, energicamente.
     Ter meus filhos?  disse Jondalar, perplexo com as palavras que ela usara.  Como pode ter meus filhos? No terei filhos, homens no tm filhos. A Grande Me 
s d filhos s mulheres. Talvez ela use um esprito de homem para cri-los, mas os filhos no so dele. So responsabilidade dele apenas, no que diz respeito a 
prov-los, quando sua companheira os tem. Sero, no mximo, os filhos do seu lar.
    Ayla j conversara sobre aquilo, sobre homens deslanchando a nova vida crescendo dentro da mulher, mas ele no percebera completamente ento que ela era, deveras, 
uma filha do Lar do Mamute. Que tinha a faculdade de visitar mundos de espritos e podia estar destinada ao servio de Doni. Talvez ela soubesse de fato alguma coisa.
     Voc pode chamar aos meus bebes filhos do seu lar. Quero que sejam mesmo filhos do seu lar. Quanto a mim, tudo o que desejo  ficar com voc, sempre.
      o que desejo tambm, Ayla. Desejei voc e desejei seus filhos antes mesmo de encontr-la. S no sabia onde iria descobrir voc. Apenas espero que a Me 
no ponha nada germinando dentro de voc at voltarmos.
            Eu sei, Jondalar. Eu tambm prefiro esperar  disse ela.
    Ayla apanhou as xcaras que tinham usado e foi lav-las. Depois, enquanto acabou seus preparativos para que pudessem partir bem cedo, enquanto Jondalar empacotava 
tudo, menos as peles de dormir. Deitaram-se aconchegados um ao outro, agradavelmente fatigados. O homem Zelandonii ficou contemplando a mulher deitada ao seu lado, 
respirando tranquilamente, mas ele mesmo no conseguiu dormir.
    Meus filhos, pensava. Ayla disse que os bebs dela sero meus filhos. Ser que estvamos dando incio a uma vida quando partilhamos Prazeres hoje? Se alguma 
vida comeou daquilo, ento ter de ser muito especial, por que esses Prazeres foram... melhores... do que nunca...
    E por que foram melhores? No que eu no tivesse feito todas essas coisas antes, mas com Ayla  diferente... No me canso dela. E mais... s de pensar nela, 
a desejo outra vez... e ela acha que sei como satisfaz-la...
    Mas e se Ayla engravidar? Ela no engravidou at agora... talvez no seja capaz de engravidar. H mulheres que no tm filhos. Mas ela j teve um. O problema 
serei eu, ento?
    Vivi com Serenio muito tempo. Ela no engravidou todo o tempo em que esteve comigo, e j tivera filho antes. Talvez eu tivesse ficado com os Xaramudi se ela 
tivesse tido filhos. Talvez. Pouco antes da minha partida, ela disse que talvez estivesse grvida. Por que no fiquei, ento? Ela disse que no queria ficar comigo, 
embora me amasse, por que eu no a amava do mesmo modo. Ela disse que eu amava meu irmo mais do que a qualquer mulher. Mas eu me importava com ela, no, possivelmente 
como me importo hoje com Ayla, mas se eu tivesse de fato querido, penso que ela teria concordado em ser minha companheira. E eu sabia disso. Usei o que Serenio me 
disse como desculpa? Por que fui embora? Porque Thonolan nos ia deixar, e eu me preocupava com ele. Teria sido esse o nico motivo?
    Se Serenio estava mesmo grvida quando eu me fui, se ela teve mesmo um segundo filho, esse filho se teria originado da essncia do meu membro? Seria... meu filho? 
 o que Ayla diria. No, tal coisa no  possvel. Homens no tm filhos, a no ser que a Grande Me use o esprito de um homem para fazer um. Filho do meu esprito, 
ento?
    Quando chegarmos l, saberei finalmente se ela teve um beb. E o que achar Ayla disso? Que Serenio tivera um filho que possa, de algum modo, ter algo a ver 
comigo? E o que achar Serenio quando se deparar com Ayla? E o que vai pensar Ayla de Serenio?

13
___________________________________________________________________________

    Na manh seguinte, Ayla estava aflita para levantar-se e ir embora, se bem que o dia ainda estivesse to abafado quanto na vspera. Ao tirar fascas com a pederneira 
para acender fogo, ficou pensando como seria bom que no tivesse de ocupar-se daquilo. A comida que ela deixara de lado na noite anterior e um pouco d'gua teriam 
sido o suficiente para a primeira refeio. Lembrando os Prazeres que havia partilhado com Jondalar, desejou poder no ter mais de pensar no remdio mgico de Iza. 
Se no tomasse o seu ch especial, talvez viessem a descobrir que tinham comeado a fazer um beb. Mas Jondalar ficava to transtornado com a ideia de uma gravidez 
durante a Jornada que ela tinha de usar o ch.
    A jovem mulher no sabia como aquilo operava. Sabia apenas que no ficaria grvida se tomasse todo dia, at o seu perodo, uns dois goles de um forte cozimento 
de brotos de accia mais uma pequena tigela da infuso de razes de slvia, durante os dias em que sangrasse.
    No seria to difcil assim cuidar de menino novo durante a viagem, mas no queria estar sozinha na hora do parto. No sabia se teria sobrevivido ao nascimento 
de Dure se Iza no estivesse l.
     Ayla matou um mosquito que pousara no seu brao, depois conferiu o suprimento de ervas enquanto a gua fervia. Tinha o bastante em matria de ingredientes para 
o ch matinal, o que era bom, pois no vira nenhuma daquelas plantas nas imediaes. Eram ervas que gostavam de lugares mais altos e mais secos. Verificando, em 
seguida, a sua bolsa de remdios, de pele de lontra, j bem usada, viu que tinha quantidades adequadas da maior parte das ervas medicinais de que precisaria numa 
emergncia, embora tivesse preferido substituir algumas do ano anterior por outras, frescas. Felizmente, no tinham tido muita ocasio de usar plantas curativas 
at aquele momento.
    Partiram, e logo alcanaram um rio bastante largo e de correnteza veloz. Jondalar desatou os cestos de carga que pendiam, baixos, dos dois flancos de Racer e 
os acomodou no bote, sobre o tren. Enquanto fazia isso, estudava os rios. Aquele desaguava no Rio da Grande Me num ngulo agudo, vindo da direo das cabeceiras.
     Ayla, j viu como este afluente desagua no Rio da Grande Me? De uma vez s, sem qualquer leque. Isso talvez explique aquela corrente rpida com que tivemos 
de lutar ontem.
     Acho que voc tem razo  disse ela, compreendendo o que ele queria dizer. E acrescentou sorrindo:  Voc gosta de saber o porqu das coisas, no ?
     Bem, um rio no se pe a correr depressa, de repente, sem motivo. Deve haver uma explicao.
            Pois encontrou-a.
    Ayla achava que Jondalar estava com uma boa disposio aquela manh, quando prosseguiram viagem, depois de cruzar o rio. Isso a alegrou Lobo ficara junto deles, 
sem dar suas habituais escapadelas, e isso tambm a deixava feliz. At os cavalos pareciam mais animados. O descanso lhes fizera bem. Ela mesma se sentia mais alerta, 
com as foras recuperadas. Talvez pelo fato de ter verificado o suprimento de plantas medicinais, prestava maior ateno do que de costume  vida vegetal e animal 
da regio que atravessavam. Eram sutis as diferenas entre a foz do rio e o prado por onde cavalgavam agora, mas ela notou algumas.
    As aves eram ainda a forma de vida animal dominante. As ciconiformes eram as mais frequentes, mas as outras espcies no lhes ficavam muitos distanciadas. Bandos 
de pelicanos e belos cisnes brancos passavam voando, e muitas espcies de aves de rapina, inclusive milhafres-pretos, guias-do-mar, de rabo branco, bzios, pequenos 
falces tagarotes. Viu grande nmero de pssaros, voando, pipilando, ostentando suas cores brilhantes: rouxinis e outros pssaros canoros, toutinegras, papa-amoras, 
papa-moscas-de-peito-vermelho, papa-figos dourados, e muitas outras variedades.
    Os pequenos abetoudos eram raros no delta, mas os esquivos e bem camuflados pssaros do pntano eram ouvidos mais frequentemente do que vistos. Cantavam suas 
notas caractersticas, um tanto cavernosas, resmungando notas o dia inteiro e mais intensamente com a aproximao da noite. Mas quando algum se aproximava, eles 
apontavam os longos bicos verticalmente para cima e se confundiam to perfeitamente com os colmos entre os quais faziam seus ninhos que era como se tivessem desaparecido. 
Viu muitos, no entanto, voando baixo sobre as guas, caando peixes. O abetouro ou touro-paul era inconfundvel em vo: as tectrizes da parte frontal das asas e 
da base da cauda, que cobriam os clamos das rmiges primrias, eram to plidas que faziam grandes contrastes com as suas asas escuras e o dorso escuro.
    Mas os alagados tambm alojavam um surpreendente nmero de animais, que exigiam uma grande diversidade de ambientes: veados e javalis, no mais espesso das florestas; 
lebres, hamsters gigantes e veados gigantes, na orla. Dos cavalos os dois iam vendo animais que havia muito no viam, como, por exemplo, saigas ariscos e auroques 
pesades; um gato-do-mato pequeno de pelame chamalotado, tocaiando um pssaro e vigiado de cima de uma rvore por um leopardo; um casal de raposas com seus filhotinhos; 
um casal de gordos texugos; e alguns cangambs de aspecto incomum, marmoreando, com manchas amarelas, brancas e marrons. Viam lontras na gua, e martas, juntamente 
com seu pitu favorito: o rato-almiscarado.
    E como havia insetos! Grandes liblulas amarelas, que passavam por eles  toute allure, e delicadas lavadeiras em cintilantes roupagens verdes e azuis que decoravam 
as inflorescncias inspidas das bananeiras-do-mato eram as belas excees aos irritantes enxames que apareciam de repente. Era como se eles nascessem todos naquela 
hora, num dia s, mas a umidade e o calor naqueles preguiosos cursos d'gua e ftidas lagoas eram os responsveis, no tempo devido, pela maturao dos ovos. As 
primeiras nuvens de borrachudos e trombeteiros tinham surgido logo de manh, pairando por cima da gua, mas o campo seco das vizinhanas ainda estava livre deles, 
e foram logo esquecidos.
    Mas  noite era impossvel esquec-los. Os mosquitos enfurnavam-se na pelagem pesada, encharcada de suor, dos cavalos, zumbiam em torno dos olhos deles, enfiavam-se 
nas suas narinas e bocas. Os pobres animais ficavam agoniados com aqueles milhes de mosquitos. O lobo tinha mais sorte. Mas at Ayla e Jondalar se viam obrigados 
a cuspir e esfregar os olhos para se livrar daquela praga. Os enxames eram mais densos no delta, e eles se perguntavam onde poderiam acampar com algum sossego.
    Jondalar descobriu uma colina relvosa  direita de onde estavam, e achou que a elevao lhes daria uma viso melhor dos arredores. Subiram ao topo e se viram 
a cavaleiro da gua reluzente de um lago em anfiteatro. No tinha a luxuriante vegetao da foz  e as poas podres que facilitavam a criao das larvas , mas poucas 
rvores e alguma vegetao arbustiva protegiam uma praia larga e tentadora.
    Lobo correu morro abaixo, e os cavalos dispararam atrs dele sem qualquer comando. Tudo o que o homem e a mulher puderam fazer foi desatar s pressas o tren 
de Huiin e tirar a carga do lombo dela e do lombo de Racer. Eles tambm pularam na gua com uma pressa que s a resistncia da gua conteve. Mesmo o nervoso Lobo, 
que no gostava de  atravessar rios, no hesitou em meter-se no lago.
            Voc acha que ele est comeando a gostar da gua?  perguntou Avia.
            Espero que sim. Tenho muitos rios ainda para atravessar.
    Os cavalos baixaram a cabea para beber, fungaram, sopraram gua pelas narinas e pela boca, depois saram para a margem. Deitaram-se ento, na margem enlameada 
para rolarem pelo cho e se coarem. Ayla no pde conter o riso diante das caras que eles faziam, rolando os olhos, de puro deleite. Quando se levantaram, estavam 
cobertos de barro, mas quando secaram, suor, clulas mortas da pele, ovos de insetos e outras causas de coceiras caram com o p.
    Acamparam na orla do lago e partiram ao alvorecer.  noite, desejaram encontrar terreno to bom quanto aquele para pernoitarem. Uma nuvem de mosquitos fez sua 
apario logo que os ovos dos borrachudos chocaram. Suas picadas resultavam em marcas vermelhas que coavam e inchavam. Ayla e Jondalar tiveram de pr roupas mais 
grossas e mais fechadas, embora sentissem calor e estivessem mais acostumados ao mnimo de vestimentas. Nenhum dos dois seria capaz de dizer quando as moscas chegaram. 
Havia sempre algumas mutucas importunando os cavalos, mas agora eram as moscas pequenas, que picavam, que de sbito pareciam estar em toda parte. A noite era quente, 
mas eles tiveram de meter-se cedo na cama, protegidos pelas peles, para escapar daquelas hordas voadoras.
    No levantaram acampamento at bem tarde, no dia seguinte, e s depois que Ayla procurara ervas que pudessem aliviar a coceira das mordidas ou servir de base 
para repelentes. Ela achou, por sorte, a betnica-de-gua, com sua inflorescncia em captulos de flores castanhas de forma estranha, num lugar sombreado e mido 
junto do lago. Apanhou as plantas inteiras para fazer uma soluo benfica para a pele e antipruriginosa. Quando viu bananeiras, apanhou tambm algumas folhas largas 
para acrescent-las ao cozimento. Eram excelentes para curar desde picadas at furnculos, e mesmo feridas e lceras de carter mais srio. Da estepe, mais longe, 
e mais seca, trouxe flores de losna, boas como um antdoto de largo espectro contra venenos e reaes txicas em geral.
    Ficou muito feliz quando encontrou cravos-de-defunto, de um amarelo vivo, por suas qualidades anti-spticas e curativas. A planta era tima para aliviar a queimadura 
de picadas e para manter os insetos a distncia quando preparada em soluo e aplicada generosamente. Na orla ensolarada da mata ela achou manjerona, que no s 
era um bom repelente para insetos, quando cozida para uso externo, como era excelente para fazer ch. O suor da pessoa que o tomava ficava com um odor picante que 
borrachudos, moscas e pulgas abominavam. Ela tentou fazer com que Lobo e os cavalos tambm tomassem do preparado, mas no ficou segura de que lhe tivessem obedecido.
    Jondalar assistia a essas atividades, fazendo perguntas e ouvindo as explicaes dela com interesse. Quando suas mordidas melhoraram, felicitou-se pela sorte 
que tinha de viajar com algum que sabia o que fazer com insetos. Sozinho, estaria perdido.
    L pelo meio da manh, j estavam os dois outra vez a caminho, e as modificaes que Ayla observara na paisagem eram, agora, espetaculares. Viam menos pntano 
e mais gua, com um nmero menor de ilhas. O brao mais setentrional do delta perdia sua rede de sinuosos canais, que, todos, se reuniam em um s. Ento, sem aviso 
prvio, esse canal do norte e um dos canais do meio do grande delta do rio se juntaram num s curso d'gua duplamente caudaloso. Um pouco mais adiante, o rio aumentou 
ainda mais: o brao meridional, que se unia tambm, pelo caminho, com o outro maior canal do sul, se reuniu ao resto  e os quatro grandes braos formaram um s 
rio profundo.
    Esse gigantesco curso d'gua j recebera centenas de afluentes e as guas de duas cadeias de montanhas cobertas de gelo no inverno. Varara o continente de oeste 
para leste, mas os restos granticos de antigas montanhas lhe haviam bloqueado a passagem para o sul. Por fim, e incapaz de resistir s presses do rio que avanava 
de forma inexorvel, a montanha cedeu e uma brecha se abriu. Mas o leito de rocha firme relutou mais um pouco. O Rio da Grande Me, comprimido numa passagem por 
de mais estreita, espraiou-se primeiro e depois infletiu, para desembocar, por um delta macio, no mar expectante.
    Pela primeira vez Ayla via a verdadeira magnitude do enorme rio de Doni. E embora j tivesse estado l antes, Jondalar tinha agora uma perspectiva diferente. 
Ficaram ambos tomados de espanto, imobilizados por aquela estupenda viso. A grande massa d'gua parecia mais um mar em trnsito que um rio. A rebrilhante superfcie, 
movedia, dava apenas uma fraca ideia do grande poder que escondia nas suas profundezas.
    Ayla viu um galho arrancado e folhudo que vinha na direo deles, e que era como um leve basto arrastado pela correnteza. Mas alguma coisa esquisita nele chamou-lhe 
a ateno. Levou mais tempo do que pensara para alcan-los e ir adiante, mas quando estava perto ela prendeu a respirao de espanto. No era um ramo de rvore, 
mas uma rvore inteira! Quando passou, serenamente, Ayla se deu conta de que era uma das maiores rvores que jamais tinha visto.
     Esse  o Rio da Grande Me  disse Jondalar.
    Ele j havia viajado toda a extenso dele antes e sabia a distncia que o rio cobrira, o terreno que atravessara, e a Jornada que tinham ainda, ele e Ayla, pela 
frente. Ela no compreendia inteiramente as implicaes,  mas sabia que, reunido em um nico lugar pela ltima vez, ao fim do seu longo curso, o vasto profundo e 
poderoso Rio da Grande Me atingira sua plenitude: no seria maior do que ali, naquele momento.
    Prosseguiram rio acima, acompanhando a margem e deixando para trs a foz fervilhante e escumosa e, com ela, a maior parte daquela mirade de insetos que os tinham 
infernizado. Descobriram que deixavam tambm a estepe  retaguarda. As extensas campinas e os planos encharcados cediam lugar a colinas ondulantes cobertas de mata, 
que alternavam com verdes prados.
    Era mais fresco  sombra da mata. E fez uma grande diferena para eles chegar a um lago cercado de rvores ao lado de um belo campo relvoso e verdejante. Ficaram 
tentados a parar e acampar, mas o dia ia ainda pelo meio. Costearam um regato na direo de uma praia de areia mas ao se aproximarem, Lobo soltou um uivo prolongado 
e assumiu uma postura defensiva. Tanto Ayla quando Jondalar esquadrinharam a rea  procura do que poderia estar perturbando o animal.
            No vejo nada de estranho, Jondalar. Mas h, sem dvida, alguma coisa que desagrada a Lobo.
    Jondalar contemplou o lago mais uma vez.
             cedo para acampar, de qualquer maneira. Vamos em frente  disse, virando a cabea de Racer para o lado e rumando de volta para o rio. Lobo ficou para 
trs mais um pouco, depois os alcanou.
    Viajando por aquelas regies arborizadas e to aprazveis, Jondalar se sentia to feliz que resolveram no parar cedo no lago. No curso da tarde passaram por 
diversos outros lagos, de vrios tamanhos. A rea estava cheia deles. Jondalar pensou que deveria ter sabido desse fato por causa da sua passagem anterior pelo rio, 
mas se lembrou de que ele e Thonolan tinham vindo rio abaixo em um barco Ramudi. S ocasionalmente desciam para a margem.
    Pensou, alm disso, que devia haver gente morando num lugar to ideal, e procurou lembrar-se se algum dos Ramudi teria falado de outro Povo do Rio vivendo mais 
abaixo. No partilhou qualquer desses pensamentos com Ayla. Se no se manifestavam, no queriam ser vistos. No podia esquecer, porm, que Lobo se mostrara defensivo. 
Poderia ter sido pelo cheiro do medo humano? Hostilidade?
    Como o sol comeava a cair para trs das montanhas, que cresciam aos olhos deles, detiveram-se num pequeno lago que servia de esturio a diversos regatos, que 
vinham de terrenos mais altos. Um escoadouro despejava diretamente no rio, e no s a truta de bom tamanho, mas tambm o salmo, tinha passado do rio para o lago.
    Desde que comearam a acompanhar o rio, acrescentaram peixe  sua dieta. Ayla tecera uma rede como a que o Cl de Brun costumava usar para pescar peixes de grande 
porte no mar. Ela precisava fazer o cordame primeiro, e experimentou diversas espcies de plantas que tinham partes fibrosas. O cnhamo e o linho se revelaram melhores 
que as demais. O cnhamo era mais grosseiro, o linho, mais fino.
    Quando teve pronto um pedao suficientemente grande, decidiu experiment-lo no lago. Pegou de uma ponta, Jondalar de outra, meteram se na gua e caminharam de 
volta para a margem, puxando a rede entre eles. Quando pegaram duas trutas, Jondalar ficou ainda mais interessado no processo e imaginou se no haveria um jeito 
de pr um cabo naquilo, de modo a que uma pessoa pudesse pescar sem ter de ficar dentro d'gua. A ideia ficou na cabea dele.
    Pela manh, dirigiram-se para a cadeia de montanhas que ficava   frente, como uma cortina, viajando atravs de um bosque rico em essncias raras. As rvores 
 de variedades conferas e decduas  distribuam-se, como plantas da estepe, num mosaico de matas distintas entremeadas de prados e lagos e, na parte mais baixa, 
de pntanos e turfeiras. As rvores cresciam isoladas, ou em associao com outras rvores e diferentes espcies de vegetao, segundo as variaes menores de clima, 
altitude disponibilidade de gua, de solo  que podia ser argiloso, rico em marga, ou arenoso, ou constitudo de areia misturada com argilia, ou de diversas combinaes 
mais.
    Sempre-verdes preferiam encostas voltadas para o norte e solos mais arenosos. Onde a umidade era suficiente, cresciam at ficar bem altas. Uma floresta densa, 
de grandes espruces, de at cinquenta metros, ocupava um talude mais baixo e se misturava com pinheiros, que pareciam ter a mesma altura mas que, embora altos para 
a sua espcie, com quarenta metros, nasciam efetivamente no nvel imediatamente acima. Fieiras de abetos verde-escuro abriam caminho para concentrao de gordas 
btulas de casca branca, apertadas umas contra as outras. At os salgueiros daquela rea teriam mais de vinte metros.
    Quando as colinas davam para o sul, e o solo era mido e frtil, essncias de folhas largas atingiam tambm alturas extraordinrias. Carvalhos gigantes, de tronco 
perfeitamente reto e sem galhos,  exceo da coroa de folhas verdes do topo, alcanavam quarenta metros. Tlias imensas e freixos chegavam  mesma altura, e os 
magnficos bordos no lhes ficavam a dever nada.
    Longe,  frente, os viajantes podiam divisar a folhagem prateada de choupos-brancos entremeados de carvalho. Quando chegaram l, viram que a floresta de carvalhos 
estava fervilhante de pardais, que haviam feito ninhos em todos os lugares possveis. Ayla encontrou mesmo ninhos de pardais, com ovos e filhotes, dentro de ninhos 
de pegas e busardos, esses tambm com filhotes e ovos ainda por chocar. Havia tambm uma profuso de tordos naquelas matas, mas os seus filhotes j estavam emplumados.
    Nos flancos inclinados das colinas, onde brechas no dossel da mata permitiam a penetrao do sol at o cho, a mata era luxuriante, com clematites em flor e 
outras lianas que desciam, por vezes, dos altos galhos plios da floresta. Os viajantes alcanaram uma formao de olmos e salgueiros-brancos cobertos de trepadeiras, 
que lhes subiam pelos troncos ou ficavam penduradas da rama. Encontraram os ninhos de muitas guias-pintadas e cegonhas-negras. Passaram por lamos-tremedores e 
amoreiras silvestres e grossos chores debruados sobre uma torrente. Uma formao mista de majestosos olmos, elegantes btulas e fragrantes faias, que subiam uma 
colina acima, sombreava moitas de bagas e frutas que eles se detiveram para colher: framboesas, urtigas-mansas, avels ainda por madurar inteiramente  mas Ayla 
gostava delas assim , pinhas, com seus suculentos pinhes dentro.
     Mais  frente, betulceas do gnero carpino comprimiam pela fora do nmero um bosquete de faias, mas eram logo adiante dominadas por elas  em um tronco gigante, 
derrubado, e coberto de cogumelos comestveis amarelo-laranja, que Ayla identificou e correu a apanhar. Jondalar ajudou-a a colher esses deliciosos fungos, mas foi 
ele quem descobriu a rvore das abelhas. Com a ajuda de uma tocha fumacenta e do seu machado, ele trepou por uma escada natural, composta de um abeto derribado, 
que tinha ainda as bases dos galhos presas ao tronco, levou algumas picadas, mas recolheu alguns favos. Devoraram a maior parte daquela rara guloseima ali mesmo, 
comendo alguma cera e algumas abelhas com o mel, e rindo como crianas quando se viram, ao fim, de dedos e cara lambuzados.
    Aquelas regies meridionais tinham sido, desde muito tempo, reservas naturais de rvores, plantas e animais, empurrados para l pelas condies frias e secas 
do resto do continente. Algumas espcies de pinheiros eram to antigas que tinham visto at as montanhas crescer. Preservadas em reas pequenas, prprias para a 
sua cultura, as espcies relictas estavam prontas para se espalharem, rapidamente, quando o clima de novo mudasse, para terras abertas para elas pela primeira vez.
    O homem e a mulher, com os dois cavalos e o lobo, continuaram na direo oeste, costeando o largo rio e dirigindo-se para as montanhas. Elas j lhes apareciam 
agora em maior detalhe, mas os cumes nevados eram uma presena contnua, e seu progresso em direo a eles to gradual que quase no percebiam a aproximao. Faziam 
incurses espordicas pelas colinas cobertas de bosques do lado norte, que podiam ser escarpadas e de difcil acesso, mas em geral se mantinham na plancie, que 
tinha vegetao e rvores semelhantes s das montanhas.
    Os viajantes sabiam haver chegado a uma alterao maior no carater do rio quando alcanaram um grande afluente que vinha do planalto. Atravessaram-no com a ajuda 
do pequeno barco redondo, mas logo depois se viram diante de outro rio rpido justamente quando faziam um desvio para o sul, de onde o Rio da Grande Me provinha, 
depois de haver costeado os contrafortes da cadeia. O rio, incapaz de subir ao plat norte, fizera uma curva abrupta e bordejava as elevaes para chegar ao mar.
    O barco provou sua utilidade mais uma vez para a travessia do segundo afluente, se bem que eles fossem obrigados a subir um pouco alm da confluncia e ao longo 
do afluente at encontrar um lugar menos turbulento para o cruzamento. Vrios outros rios menores desaguavam no Rio da Grande Me logo abaixo da curva. Ento, seguindo 
a curva da margem esquerda, eles fizeram uma ligeira mudana de direo para oeste e outra  roda, de modo que, se o Grande Rio estava ainda  sua esquerda, eles 
j no tinham as montanhas em frente. A cadeia ficava agora  direita deles, que olhavam agora para o sul, para a estepe, campo aberto. Ao longe, distantes proeminncias 
purpreas fechavam o horizonte.
    Ayla vigiava o rio. Sabia que todos os afluentes despejavam suas aguas rio abaixo, e que o rio estava menos cheio do que de costume. No havia mudana aparente 
no aspecto do rio, largo e caudaloso, mas ela sentia que essas guas eram, agora, de menor volume. Era uma certeza que escapava ao conhecimento, mas continuou atenta, 
procurando confirmar se o imenso rio estava de fato modificado de maneira significativa.
    No levou muito tempo e, com efeito, o aspecto do grande rio mudou. Soterrado fundo, debaixo do loess, o solo frtil que comeara produto da decomposio da 
rocha, p modo fino pelas imensas geleiras e espalhado pelo vento, e as argilas, as areias, os saibros depositados durante milnios pela gua corrente, era o antigo 
macio. As razes permanentes das montanhas antiqussimas haviam formado um escudo estvel to impenetrvel que a intratvel crosta grantica, empurrada contra ele 
pelos inexorveis movimentos da terra, se encurvara para fora e constitua as montanhas cujas calotas de gelo brilhavam ao sol.
    O macio subterrneo, invisvel, se estendia por baixo do rio, mas um espinhao exposto e desgastado pelo tempo ainda era elevado o suficiente para bloquear 
a passagem do rio para o mar, forara o Rio da Grande Me a infletir para o norte, em busca de uma sada. Finalmente, a rocha irredutvel cedeu a custo uma estreita 
passagem. Antes que isso tivesse acontecido, no entanto, o grande rio correra paralelo ao mar pela planura horizontal e languidamente se dividira em dois braos 
ligados por muitos e sinuosos canais.
    A floresta relicta foi deixada para trs, e Ayla e Jondalar se dirigiram para o sul, por uma regio de plancie e suaves colinas ondulantes cobertas de forragem 
verde e ainda direita, no p, junto de um vasto charco ribeirinho. O campo, ali, parecia-se com as estepes vizinhas do delta, mas era terra mais quente e mais seca, 
reas de dunas arenosas, estabilizadas, na maior parte, por capins robustos, resistentes  seca. Havia poucas rvores, mesmo  beira d'gua. Macega cerrada, em que 
as ervas mais comuns eram o absinto, a salva-do-mato, e o aromtico estrago, que procuravam arrancar um magro sustento do solo agreste, empurrando s vezes para 
as barrancas do rio pinheiros ou chores enfezados e contorcidos, que ficavam dependurados sobre a gua.
    O charco, a rea muitas vezes inundada entre os braos do rio, s era menor que o prprio delta e to rica quanto ele em canios, plantas aquticas e vida selvagem. 
Ilhas rasas, com rvores e pequenos prados verdes, surgiam aqui e ali, encerradas pelos canais mais importantes, amarelos e barrentos, ou canais secundrios, de 
gua limpa, povoados de peixes por vezes surpreendentemente grandes.
     Atravessavam um campo aberto, perto do rio, quando Jondalar encurtou a rdea e fez com que Racer parasse. Ayla parou junto dele. O homem sorriu vendo a expresso 
de perplexidade no rosto da mulher, mas antes que ela falasse silenciou-a pondo um dedo nos lbios e apontou uma piscina de gua cristalina, em que plantas submersas 
se mexiam com o movimento de correntes invisveis. De comeo ela no viu nada de extraordinrio. Depois, saindo sem esforo das profundezas tingidas de verde, surgiu 
uma bela e enorme carpa dourada.
    Outro dia tinham visto diversos esturjes numa laguna. Eram gigantescos, com nove metros de comprimento. Jondalar se lembrou de um incidente embaraoso em que 
figurava um peixe de imensas dimenses. Pensou em contar a histria a Ayla, mas depois mudou de ideia.
    Juncais, lagos e lagoas ao longo do curso sinuoso do rio eram um permanente convite s aves, que neles nidificavam. Grandes bandos de pelicanos passavam planando, 
levados por correntes de ar quente, s de longe em longe batendo as largas asas. Rs comestveis e sapos cantavam em coro  noitinha e forneciam, ocasionalmente, 
uma refeio. pequenos lagartos dardejando pelas margens lodosas eram ignorados pelos viajantes; e as cobras, evitadas.
    Parecia haver mais sanguessugas naquelas guas, o que os obrigava a escolherem com maior cuidado os lugares em que nadavam, se bem que a curiosidade de Ayla 
se sentisse atrada por essas estranhas criaturas que se grudavam s pessoas e lhes sugavam o sangue sem que elas o percebessem. Mas, de todos os bichos, os que
mais os atormentavam eram os menores. Com o pntano to perto, havia mirades de insetos, mais, ao que parecia, do que anteriormente, eles se viam forados a entrar 
no rio com os animais para ter algum alvio.
    As montanhas para o lado do poente recuaram quando eles alcanaram os primeiros contrafortes da cadeia, pondo assim uma larga sucesso de plancies entre o grande 
rio que vinham acompanhando e a linha alcantilada de cristas que marchavam para o sul com eles no seu flanco esquerdo. A serra, com seus capuchos de neve, terminava 
bruscamente depois de infletir um pouco. Outro ramo da mesma cadeia, indo de leste para oeste e definindo o horizonte para o sul, encontrava-se com o primeiro. E 
no canto mais remoto, para sudeste, dois altos picos dominavam todo o resto.
    Continuando para o sul, ao longo do rio, e afastando-se cada vez mais da cadeia principal de montanhas, eles ganharam a perspectivada da distncia. Olhando para 
trs, comearam a ver a verdadeira extenso da longa linha de picos elevados que iam para oeste. O gelo brilhava nas torres rochosas mais elevadas, e a neve vestia 
suas vertentes e cobria de branco os cumes adjacentes  permanente lembrete de que a curta estao de calor do vero nas plancies do sul era apenas um breve interldio 
numa terra governada pelo gelo.
    Deixando as montanhas  retaguarda, a paisagem que tinham para oeste parecia devoluta: estepes ridas e ininterruptas e sem feies caractersticas, tanto quanto 
podiam ver. Sem colinas cobertas de rvores que servissem como pontos de referncia, ou de morros escarpados que barrassem a vista, um dia se seguia ao outro com 
uma uniformidade sempre igual. Acompanhavam a margem esquerda, pantanosa, do brao sul do rio. Em certo ponto os diversos cursos se reuniram por algum tempo, e eles 
puderam ver a estepe e uma rica mata ciliar na outra margem. Havia ainda ilhas e formaes de canios dentro do rio.
    Antes do fim do dia, porm, j ele se espraiava de novo. Os viajantes continuaram para o sul, com uma ligeira inclinao para oeste. Mais prximas agora, as 
montanhas cor de prpura, antes to remotas, ganhavam altitude e comeavam a revelar seu verdadeiro carter. Em contraste com os picos agudos do norte, as montanhas 
do sul, embora alcanando altura suficiente para terem tambm suas coroas de neve e gelo at boa parte do vero, eram achatadas no topo, o que lhes dava uma aparncia 
de planaltos.
    Mas elas tambm afetavam o curso do rio. Quando os viajantes ficaram ainda mais perto delas, viram que o grande curso d'gua mudava, apresentando um aspecto 
que eles tinham visto. Canais sinuosos confluam e endireitavam, juntavam-se a outros, e, finalmente, com os braos principais. Desapareceram as ilhas e as grandes 
concentraes de juncos e os diversos canais formaram um s canal largo e profundo que veio, depois de uma larga curva, na direo deles.
    Jondalar e Ayla acompanharam o movimento pelo lado interior da curva at ficarem outra vez de frente para oeste, isto , para o sol que se punha num cu vermelho, 
um tanto indistinto. No havia nuvens, tanto quanto Jondalar era capaz de ver, e ele se perguntou o que poderia estar causando aquela cor uniforme e vibrante, que 
se refletia nos pinculos speros do norte, nas penhas da outra banda do rio, e tingia a gua de sangue.
    Continuaram cavalgando rio acima, sempre pela margem esquerda,  procura de um local para acampar. Ayla se deu conta de que estudava outra vez o rio, que muito 
a intrigava. Vrios afluentes, de importncia desigual, alguns de grande porte, haviam contribudo, vindos de um lado e de outro, para o seu prodigioso volume de 
gua. Ayla compreendeu que o Rio da Grande Me era menor agora, se comparado em volume a todos os rios que tinham encontrado pelo caminho, mas era to vasto assim 
mesmo que se tornava difcil perceber qualquer diminuio da sua imensa capacidade. E, no entanto, num nvel mais profundo, a mulher sentia isso.
    Ayla acordou antes da aurora. Ela adorava as madrugadas, quando ainda era fresco. Preparou sua amarga poo anticoncepcional, depois aprontou uma xcara de ch 
de estrago e salva para Jondalar, que ainda estava dormindo, e outra para si prpria. Bebeu-a devagar, vendo o sol nascente clarear aos poucos as montanhas do norte. 
Comeou com o primeiro rosa da aurora definindo os dois picos cobertos de gelo, depois se espalhando, lentamente a princpio, e em seguida esbraseado, no oriente. 
Por fim, de sbito, mesmo antes que o crculo da bola incandescente lanasse raio experimental acima do horizonte, os cimos das montanhas, flamejantes, j anunciavam 
a sua vinda.
    Quando a mulher e o homem prosseguiram viagem, esperavam que o rio voltasse a se dividir em braos. Mas no, permaneceu com um s, e largo, um grande canal. 
Viram poucas ilhas formadas no seu seio e cobertas de vegetao, mas nem por isso o rio de Doni se cindiu. Os dois estavam to acostumados a ver aquelas divises 
atravs das plancies infindveis que lhes parecia estranho contemplar o enorme fluxo contido assim tanto tempo. Mas o Rio da Grande Me escolhia invariavelmente 
a rota mais baixa ao serpentear por entre as altas montanhas atravs do continente. De modo que o rio corria atravs das plancies mais meridionais da sua longa 
trajetria. A terra baixa ficava ao sop das montanhas erodidas, que confinavam e definiam sua margem direita.
    Na margem esquerda, entre o rio e as cintilantes escarpas de granito e ardsia, dobradas sobre si mesmas, para o norte, jazia uma plataforma, um promontrio 
 calcrio, coberto por uma camada de loess Era uma terra acidentada e spera, sujeita a violentos extremos. No vero, fortes ventos do sul a deixavam dessecada; 
no inverno, altas presses da geleira do norte lanavam rajadas de ar glacial por sobre aqueles descampados indefesos; ferozes tempestades originadas no mar muitas 
vezes vinham do leste. As chuvas torrenciais, e os fortes ventos, que tudo crestavam, bem como as temperaturas extremas, fraturavam a base calcria do solo poroso 
de loess, o que fazia aparecer faces talhadas a pique nos plats expostos.
    Capins resistentes sobreviviam na paisagem seca, batida de vento, mas no se viam quase rvores. A nica vegetao maior eram certas espcies arbustivas capazes 
de suportar tanto o calor rido quanto o frio cortante. Um p ocasional de cedro-mimoso, com seus ramos delgados, folhagem leve e pequeninas flores cor de rosa; 
ou um espinheiro-cerval, com bagas pretas, esfricas, e acleos acerados, pontilhavam a paisagem, e at groselheiras-negras podiam ser vistas, mas em pequena quantidade. 
Encontradias eram as variedades de artemsia, inclusive uma que Ayla nunca tinha visto.
    Seus galhos pretos pareciam nus e secos, mas quando ela apanhou alguns como gravetos, para fazer fogo, descobriu que no estavam secos nem quebradios, mas verdes, 
com vida. Depois de uma boa rega, por breve que fosse, folhas denteadas, com uma lanugem prateada na face inferior, dorsal, se desfraldaram e brotaram dos talos, 
e numerosas pequenas flores amareladas, apertadas umas contra as outras como miolos de margaridas, surgiram nos galhos espetados. Exceto por esses gaite mais escuros, 
eram parecidas com as espcies mais conhecidas, e mais claras, que nascem geralmente associadas a festucas e  relva cristada at que o vento e o sol secassem os 
campos. Ento, uma vez mais, tinham a aparncia de secas e fanadas.
    Com essa variedade de capins e arbustos, as plancies meridionais proviam o sustento de muitos animais. Nenhum que eles no tivessem visto nas estepes mais ao 
norte, mas em propores diferentes, e algumas das espcies mais amigas do frio, como o boi-almiscarado, jamais se aventuravam to ao sul. Por outro lado, Ayla jamais 
avistara tantos antlopes num lugar s. Eram muito difundidos nas estepes, estavam praticamente por toda parte, se bem que no em grupos numerosos.
    Ayla parou e se entregou  contemplao desses animais, de aspecto to estranho e deselegante. Jondalar fora investigar uma ilhota no rio, em que havia alguns 
troncos de rvores enfiados na margem e que lhe pareciam deslocados. No havia rvores daquele lado do rio, e o arranjo lhe parecia fora de propsito. Quando ele 
foi ter com ela, a mulher parecia ter os olhos perdidos na distncia.
     Eu no podia ter certeza, aqui de longe. Aqueles toros podiam ter sido postos l por elementos do Povo do Rio. Algum podia amarrar um barco neles. Mas eles 
podiam ser tambm madeira trazida pela correnteza das cabeceiras.
    Ayla concordou de cabea, depois apontou para a estepe.
     Veja quantos saigas.
    Jondalar no conseguiu v-los imediatamente. Os animais tinham a cor do solo. Depois ele viu o contorno dos chifres retos, com as pontas encurvadas em lira e 
inclinadas ligeiramente para a frente.
     Eles me lembram Iza. O esprito do Antlope era o seu totem  disse Ayla, sorrindo.
    Os antlopes sempre provocavam risos na mulher, que achava graa nos seus focinhos inchados e projetados para a frente como uma aba de telhado, e no seu andar 
desajeitado, que em nada os atrapalhava em matria de velocidade. Lobo gostava de correr atrs deles, mas eram to velozes que poucas vezes chegou perto deles, e 
nunca por muito tempo.
    Aqueles antlopes pareciam gostar da losna de talos pretos mais do que das outras plantas e se juntavam em nmero muito superior ao das hordas habituais. Uma 
pequena horda de dez ou quinze animais era comum, e se compunha, em geral, de fmeas com um ou, s vezes, dois filhotes. Algumas das mes no tinham mais de um ano 
de idade. Mas naquela regio as hordas tinham mais de cinquenta animais. Ayla ficou imaginando por onde andariam os machos. S os vira, numerosos, uma vez, durante 
a estao do acasalamento, quando cada um procura dar os Prazeres a tantas fmeas quantas possa satisfazer e tantas vezes quantas seja possvel. Depois, h sempre 
carcaas de antlopes pela estepe.  como se eles se esgotassem com os Prazeres, e pelo resto do ano deixassem a magra rao que de hbito consumiam para as fmeas 
e os filhotes.
    Havia tambm, nas plancies, exemplares do cabrito-monts e do carneiro selvagem, que preferiam, no entanto, ficar junto das faces verticais dos penhascos, que 
podiam galgar com facilidade ao menor sinal de perigo. Grandes hordas de auroques corriam a plancie, muitos deles de pelame de um vermelho escuro, quase negro, 
mas um nmero surpreendentemente grande deles tinha pintas brancas, por vezes grandes. Ayla e Jondalar viram gamos malhados, veados-vermelhos, bisontes e inmeros 
onagros. Huiin e Racer observavam a maior parte desses quadrpedes, mas os onagros, especialmente, lhes mereciam a maior ateno. Eles ficavam contemplando aquelas 
dezenas de traseiros de cavalo e cheiravam longamente aqueles excrementos parecidos com os seus.
    Havia o complemento natural de pequenos animais herbvoros: susliks, marmotas, gerbos, cricetos, e uma espcie de porco-espinho cristado Ayla no conhecia. Mantendo 
seu nmero sob controle havia os animais predadores das outras espcies. Viram pequenos gatos-do-mato, linces um pouco maiores, grandes lees das cavernas. E ouviram 
a risada da hiena.
    Nos dias que se seguiram, muitas vezes o rio mudou de curso e de direo. Enquanto que a paisagem na margem esquerda, por onde iam, permanecia aproximadamente 
a mesma  colinas arredondadas, cobertas de vegetao rasteira e plancies chatas com elevaes escaradas e montanhas recortadas e pontudas  retaguarda , viram 
que a margem oposta ficava a cada passo mais enrugada e diversa. Os afluentes cortavam agora vales profundos, rvores subiam pelas montanhas erodidas, cobrindo, 
s vezes, um talude inteiro at a margem da gua. Os recortados contra-fortes e o terreno acidentado que definiam a margem esquerda eram responsveis em grande parte 
pelas curvas muito abertas que viravam para todo lado e at mesmo sobre si mesmas, mas o curso geral do rio era o mesmo: para leste, para o mar.
    No interior das muitas voltas e desvios que ia fazendo, a grande massa d'gua que flua em direo a eles se multiplicava outra vez em canais separados, mas 
no degenerava em pntanos como no delta. Era, simplesmente, um rio imenso, ou, melhor, uma srie de caudalosos cursos d'gua paralelos e sinuosos, com vegetao 
mais rica e mais verde onde a terra confinava com eles.
    Embora as rs lhe tivessem parecido frequentemente insuportveis, Ayla sentia saudades do seu coro noturno, se bem,  verdade, que o coaxar aflautado de uma 
infinidade de sapos fosse ainda um refro na aleatria miscelnea de msica noturna. Lagartos e vboras-da-estepe tomavam o lugar delas e, em sua companhia, as liblulas, 
de beleza singular, que se alimentavam de rpteis e tambm de insetos e caracis. Ayla gostou de ver um casal desses pernaltas, gris, de cabea preta e tufos de 
penas brancas atrs dos olhos alimentando os filhotes.
    Dos mosquitos no sentia falta. Sem os charcos para se reproduzir, esses incmodos insetos haviam desaparecido na maior parte. O mesmo no se podia dizer dos 
trombeteiros e borrachudos. Nuvens deles ainda atormentavam os viajantes, principalmente os peludos.
     Ayla! Veja! Aquilo  um desembarcadouro  disse, apontando uma construo singela, de toras e pranchas na margem.  Aquilo foi feito pelo Povo do Rio.
    Ela no sabia o que era um desembarcadouro, mas o que Jondalar lhe mostrava no era, obviamente, um arranjo acidental de materiais de construo. Fora feito 
para ser usado por homens. Ayla ficou animada.
            Isso significa que pode haver gente por aqui?
            No no momento, provavelmente. No h barco  vista. Mas no andaro muito longe. Este deve ser um lugar usado com frequncia. Eles no teriam tido 
o trabalho de construir uma plataforma dessas se no se servissem dela com frequncia, e no usariam com frequncia alguma coisa assim se morassem longe.
    Jondalar estudou a construo por um momento, depois olhou rio acima.
     No posso ter certeza, mas quem ps o desembarcadouro nesse lugar vive na margem oposta e atraca nele quando passam para este lado.  Talvez venham caar, colher 
razes, ou fazer alguma outra coisa.
    Continuando rio acima, ambos prestaram redobrada ateno no rio.
    A no ser de maneira geral, no tinham atentado para as terras da outra margem at ento. Ocorreu a Ayla que talvez elas fossem habitadas e isso lhe tivesse 
passado despercebido. No haviam progredido muito quando   Jondalar notou um movimento na gua, a alguma distncia a montante. Parou para verificar.
            L, Ayla. Olhe!  disse, quando ela o alcanou.  Aquilo pode ser um barco Ramudi.
    Ela viu o que ele mostrava, mas ficou segura do que fosse. Acelerarmos cavalos. Quando chegaram mais perto, Ayla viu um barco de modelo desconhecido para ela. 
S estava familiarizada com embarcaes de estilo Mamuti, armaes cobertas de couro e redondas, como a que eles mesmos traziam no tren. A que descia o rio era 
feita de madeira, tinha vrias pessoas dentro, e veio ter a um ponto bem diante deles. Quando se aproximaram da margem, Ayla viu que havia mais gente na outra margem.
            Ol!  gritou Jondalar, acenando com o brao, em saudao. Gritou, depois, algumas palavras numa lngua que ela no conhecia, embora tivesse alguma 
vaga semelhana com Mamuti.
    O pessoal do barco no respondeu. Talvez no tivessem ouvido, embora ele achasse que fora visto. Gritou de novo e achou que o ouviram, mas no acenaram. Eles 
se puseram a remar com toda a fora para a margem oposta.
    Ayla observou que um dos que estavam l tambm os tinha avistado. Ele correu para os outros, apontou-os, e ele e mais alguns fugiram. Alguns outros ficaram at 
que o barco chegasse, depois se foram tambm.
            Foram os cavalos de novo, no foram?  disse Ayla.
    Jondalar julgou ver uma lgrima.
     No seria boa ideia atravessar o rio, de qualquer maneira. A Caverna dos Xaramudi que conheo fica deste lado.
     Acho que sim  disse ela, pondo Huiin em marcha.  Mas eles podiam ter vindo no barco. Podiam ter respondido  sua saudao.
     Ayla, pense de como devemos parecer estranhos, em cima destes cavalos. Seremos para eles como espritos, com duas cabeas e quatro pernas. Voc no pode culp-los 
por terem medo de algo que desconhecem.
    Os dois avistaram, do outro lado, um vale espaoso, que descia da montanha at o nvel de um rio de grande porte e que cortava o vale pelo meio e se precipitava 
no Rio da Grande Me com um mpeto que fazia a gua espadanar para um lado e para o outro, dando a impresso de que o leito ficara mais largo. Acrescentando a esse 
embate de correntes opostas, logo abaixo da confluncia a cadeia de montanhas que confinava com a margem direita do rio infletia para trs.
    No vale, perto da confluncia dos dois rios, mas no topo de urna elevao, viram diversas habitaes de madeira. Diante das casas postaram se os seus moradores, 
olhando com espanto os viajantes, do outro lado.
     Jondalar  disse Avia , vamos descer.
     Para qu?
            Para que aquela gente veja, pelo menos, que somos como eles e que os cavalos no so monstros de duas cabeas  disse Ayla. Em seguida desmontou e ficou 
andando diante da gua.
    Jondalar concordou e saltou do cavalo. Segurando-o pela rdea, acompanhou-a. Mas Ayla apenas comeara a andar quando o lobo correu para ela e comeou a brincar 
da maneira habitual, pondo as patas no seu ombro, lambendo-lhe o rosto, esfregando-lhe o focinho no queixo. Quando terminou, alguma coisa, talvez um cheiro vindo 
pelo ar atravs do rio, o fez tomar conscincia das pessoas que assistiam quilo. Ele foi para a margem, levantou a cabea, comeou uma srie de ganidos, e terminou 
o concerto com um uivo prolongado de esfriar qualquer corao.
            Por que ele est fazendo isso?  disse Jondalar.
            No sei. Ele tambm no v gente h muito tempo. Talvez esteja contente e deseje cumpriment-los  disse Ayla.  Eu tambm gostaria de fazer isso, mas 
no  fcil para ns cruzar o rio, e eles no viro para este lado.
    Depois de ultrapassarem a profunda curva do rio, que mudara o rumo deles para oeste, os viajantes haviam-se desviado ligeiramente para o sul. Mas para alm do 
vale, onde as montanhas recuavam um pouco, eles retomaram a direo oeste. Estavam to ao sul agora como jamais estariam na sua Jornada, e aquela era a estao mais 
quente do ano.
    No auge do vero, com um sol incandescente e uma plancie desprovida de rvores, mesmo com gelo da espessura de montanhas cobrindo um quarto da terra, o calor 
podia ser opressivo na poro meridional do continente. Um vento forte, abrasador, e incessante, que os enervava, agravava ainda mais a situao. Cavalgando lado 
a lado, ou andando a p pela estepe para descansar os cavalos, o homem e a mulher caram numa rotina que fazia a viagem, seno mais fcil, pelo menos possvel.
    Acordavam ao primeiro claro da madrugada nos altos picos do norte. Depois de uma primeira refeio de ch quente e alguma coisa slida, mas fria, os dois se 
punham a caminho antes do dia clarear. Quando o sol subia no cu, castigava a estepe descampada com tal intensidade que ondas de calor subiam da terra. Uma patina 
de suor desidratante cobria a pele bronzeada do homem e da mulher e ensopava o plo do lobo e dos cavalos. A lngua do lobo ficava dependurada para fora da boca, 
e ele arfava o tempo todo. No tinha vontade de correr ou de explorar e caar por conta prpria, mas ficava marcando passo com Huiin e Racer, que iam em frente, 
de cabea baixa. Ayla e Jondalar, cados, descorooados, davam liberdade s montarias de fazerem o ritmo que bem quisessem, e conversavam pouco no calor sufocante 
do meio-dia.
    Quando no podiam mais, procuravam uma praia tranquila em algum remanso ou algum canal de gua mais calma do Rio da Grande Me. At lobo no resistia  tentao 
de uma gua quieta, por mais medo que tivesse de rios. Bastava Ayla e Jondalar dirigirem os cavalos para a margem, desmontarem e comearem a desatar as cestas para 
que ele entrasse na gua, antecipando-se a eles. Se era um afluente, em geral mergulhavam na gua fresca antes de tratar das bagagens ou do tren.
    Uma vez reanimados pelo banho, Ayla e Jondalar procuravam alguma coisa de comer, se no tinham restos do dia anterior nem tinham recolhido nada pelo caminho. 
A comida era abundante, mesmo na estepe poeirenta e castigada pelo sol, sobretudo na gua  se o viajante soubesse onde e como procurar.
    Os dois quase sempre conseguiam pegar o peixe que desejavam, usando o mtodo de Ayla, o de Jondalar, ou uma combinao dos dois. Se a situao aconselhasse o 
primeiro, lanavam no rio a longa rede de Ayla e puxavam-na devagar entre eles. Jondalar inventara um cabo para algumas das redes de Ayla, o que a transformava numa 
espcie de saco de malha. Embora ele no estivesse de todo satisfeito com o resultado, a coisa funcionava conforme as circunstncias. Jondalar tambm pescava com 
linha e anzol  um pedao de osso em U que ele limara at fazer uma ponta fina em cada extremidade e que era preso no meio por uma corda forte. Pedaos de peixe, 
de carne, ou minhocas eram amarrados nele como isca. Uma vez engolida, bastava puxar a corda para que o anzol se alojasse de atravessado na garganta do peixe, com 
uma ponta saindo de cada lado.
    s vezes Jondalar apanhava peixes grandes, mas uma vez perdeu um depois de fisgado. Inventou, ento, um arpo forcado para que isso no acontecesse outra vez. 
Comeou com uma forquilha de rvore, cortada logo abaixo da bifurcao. O brao mais comprido do garfo era usado como cabo; o mais curto era desbastado em ponta 
virada para trs e usado como anzol para capturar o peixe. Havia algumas arvorezinhas e arbustos crescidos junto do rio, e os primeiros arpes que ele fez funcionaram, 
mas no conseguia madeira suficientemente forte, que durasse muito tempo. Os peixes grandes eram pesados e se debatiam, e isso acabava quebrando o instrumento. Jondalar 
continuou procurando material melhor.
    Da primeira vez que viu o chifre no cho limitou-se a passar por ele, registrando-lhe a presena. Teria sido largado por um veado-vermelho de trs anos de idade. 
Jondalar no prestou ateno  sua forma. Mas aquela galhada ficou na sua memria, e um dia lembrou o dente que apontava para trs e foi apanh-lo. Chifres so duros 
e resistentes, difceis de quebrar, e aquele tinha o tamanho e a forma apropriados. Uma vez afiado, daria um excelente arpo.
    Ayla pescava s vezes com a mo, como Iza lhe ensinara. Jondalar ficava pasmo vendo aquilo. O processo era simples, pensava ele, mas no conseguia aprend-lo. 
Exigia prtica, habilidade e pacincia  infinita pacincia. Ayla procurava razes, madeiras levadas pela corrente, ou rochas debruadas sobre o rio  e peixes que 
gostassem de lugares assim. Eles ficavam sempre voltados para a nascente do rio, e moviam os msculos e as nadadeiras o suficiente para no serem arrastados pela 
correnteza.
    Quando via uma truta ou um pequeno salmo, Ayla entrava na gua um pouco mais abaixo, deixava cair a mo, depois caminhava devagar rio acima. Movia-se ainda 
mais lentamente quando chegava perto dele, procurando no agitar o lodo ou a gua, o que faria com que o peixe, que descansava, fugisse. Com cautela, de trs para 
a frente, deslocava a mo para debaixo do peixe, tocando-o de leve ou fazendo ccegas, coisas que ele no parecia notar. Quando alcanava as guelras, ela as agarrava 
de um golpe e jogava o peixe na margem. Jondalar ento ia busc-lo, antes que ele pulasse de volta no rio.
    Ayla tambm descobriu mexilhes de gua doce, semelhantes aos que havia no mar perto da caverna do Cl de Brun. Ela procurava plantas como fedegosa, ou unha-de-cavalo, 
de alto contedo de sal natural para reabastecer suas reservas j reduzidas, juntamente com outras razes, folhas, e gros que comeavam a amadurecer. As perdizes 
eram comuns no campo aberto e na vegetao enfezada, rente  gua. Era comum que as ninhadas se reunissem, formando grandes bandos. Essas aves, pesadas e lerdas, 
eram boas de comer e fceis de capturar.
    Os viajantes faziam a sesta no pior do calor, ao meio-dia, enquanto seu almoo cozinhava. Como s havia rvores pequenas e raquticas junto do rio, os dois faziam 
um toldo com o couro da tenda para terem alguma sombra. No fim da tarde, quando comeava a refrescar, os dois prosseguiam viagem. Cavalgando contra o sol poente, 
usavam seus chapus cnicos, de palha tranada, para defender os olhos. E comeavam a procurar um stio para o pernoite logo que a bola de fogo mergulhava no horizonte, 
armando o acampamento ao crepsculo. s vezes, quando havia lua cheia, e a estepe toda resplandecia com um claro suave, eles no acampavam, seguiam viagem noite 
adentro.
    Sua refeio da tarde era ligeira e consistia, em geral, em restos da refeio do meio-dia, a que acrescentavam sempre alguma coisa, verduras frescas, legumes, 
ou carne, se alguma fora encontrada pelo caminho. De manh comiam coisas frias preparadas de vspera e que no tomassem muito tempo. Em geral davam tambm de comer 
a Lobo. Ele caava por conta prpria,  noite, mas j gostava de carne assada e, at, de legumes. Raramente agora erguiam a tenda. Mas as peles de dormir eram bem 
vindas. As noites esfriavam depressa e a manh trazia com frequncia alguma cerrao.
    As tempestades de vero, com grandes aguaceiros, eram encaradas como um inesperado mas agradvel banho, se bem que a atmosfera ficasse mais opressiva depois 
e Ayla tivesse horror a trovoadas. Aquilo lhe lembrava terremotos. Os relmpagos, que riscavam o cu e acendiam a noite, eram recebidos por eles com um temor respeitoso, 
mas os raios que caam perto deixavam Jondalar nervoso. Ele detestava estar em campo aberto quando havia fascas. Tinha vontade de meter-se entre as peles de dormir 
e puxar a tenda por cima, embora jamais fizesse isso ou admitisse que gostaria de faz-lo.
    Alm do calor, o que mais os incomodava eram os insetos. Borboletas, abelhas, vespas, at moscas e algumas espcies de mosquitos no eram to difceis assim 
de suportar. Mas os mosquitinhos que vinham em nuvens, os menores de todos, esses eram insuportveis. Se os dois se sentiam mal, os animais se sentiam pior. Os mosquitos 
entravam-lhes no nariz, na boca, nos olhos, ou se colavam  pele suada debaixo dos plos.
    Os cavalos da estepe costumavam emigrar para o norte no vero. Sua pelagem grossa e seu corpo compacto eram adaptados ao frio. Embora houvesse lobos nas plancies 
meridionais  nenhum predador era mais difundido , Lobo provinha de estirpes do norte. Com o tempo, os lobos que viviam no sul fizeram diversas adaptaes s condies 
a reinantes, aos veres quentes e secos, aos invernos quase to rigorosos como os das regies mais prximas das geleiras. Mas viam tambm muito mais neve. Perdiam, 
por exemplo, a l em muito maior quantidade, quando o tempo esquentava, e suas lnguas ofegantes resfriavam-nos com muito maior eficincia.
    Ayla fazia o possvel para aliviar o sofrimento dos animais, mas nem o mergulho dirio no rio nem os diversos medicamentos que ela aplicava conseguiam livr-los 
de todo de trombeteiros e borrachudos. Feridas abertase infectadas com os ovos, de rpida maturao  alargavam-se a despeito das ministraes da mulher. Os cavalos 
e Lobo tambm ficavam com a bela pelagem emaranhada e sem brilho e cheia de peladas.
    Lavando uma ferida aberta e pegajosa na orelha de Huiin, Ayla disse:
            Estou cansada desse calor e desses mosquitos. Ser que vai resfriar de novo um dia?
            Voc ainda vai ter saudades do calor antes do fim da viagem.
    Aos poucos,  medida que eles avanavam na direo das cabeceiras do grande rio, os severos plats e os altos picos do norte ficavam mais prximos, e as cadeias 
do sul, que a eroso desgastara, ficavam mais elevadas. Em todas as voltas e desvios da sua direo, no rumo geral do ocidente, eles se viram agora um pouco voltados 
para o norte. Infletiram, ento, para o sul, fazendo uma ntida virada que comeou por lev-los para noroeste, depois para o norte outra vez, para leste por algum 
tempo antes de girar sobre um ponto e ir na direo noroeste de novo.
    Embora ele no soubesse explicar exatamente por que  no havendo pontos de referncia que pudesse identificar com preciso , Jondalar sentia curiosa familiaridade 
com a paisagem. Acompanhar o rio os levaria para noroeste, mas ele estava certo de que havia outra curva a seguir e que corrigiriam a direo. Resolveu, pela primeira 
vez desde o grande delta, abandonar a segurana representada pelo Rio da Grande Me e rumar para o norte ao longo de um afluente, em direo aos contrafortes das 
altas montanhas, agora muito mais prximas da gua. Essa rota, que costeava o afluente, se voltava aos poucos para noroeste.
     frente, as montanhas se juntavam. Uma cadeia ligada ao longo arco de cumes nevados da cordilheira setentrional avanava para os plats desgastados do sul, 
agora mais agudos, mais altos, mais cobertos de gelo do que antes, at que s uma estreita garganta as separava. A cadeia encerrara, em tempos idos, um profundo 
mar interior, murado entre altssimas serras. Mas, atravs dos milnios, o escoadouro por onde saia a acumulao anual de gua comeou a gastar o calcrio, o arenito 
e a argila das montanhas. O nvel da bacia interior baixou devagarinho para ficar  altura do corredor que vinha sendo escavado na rocha, at que, um dia, o mar 
secou, deixando a cu aberto o fundo plano que se tornaria um mar de relva.
    A estreita garganta aprisionou o Rio da Grande Me entre paredes verticais de granito cristalino e escarpado. E a rocha vulcnica, que apontara em afloramentos 
e intruses na pedra mais frgil das montanhas, elevou-se dos dois lados. Era um porto monumental que abria, atravs das montanhas, para as plancies do sul e, 
em ltima instncia, para o Mar de Beran, e Jondalar sabia que no seria possvel ir com o rio por dentro do desfiladeiro. No havia outra escolha: tinha de contornar 
a montanha.

14
___________________________________________________________________________

    A no ser pela ausncia do volumoso curso d'gua, o terreno no mudara quando eles mudaram de direo e se puseram a seguir a pequena corrente  pastagens secas, 
descampadas, com vegetao arbustiva mas enfezada junto da gua. Mas Ayla experimentava um sentimento de privao. O largo Rio da Grande Me fora, por tanto tempo, 
uma espcie de companheiro de viagem que era desconcertante no ter mais a sua confortadora presena lado a lado com eles, mostrando-lhes o caminho que deviam seguir. 
Ao infletirem para as colinas e ganharem altitude, a vegetao ficava mais encorpada e mais alta e avanava, at, plancie adentro.
    A ausncia do grande rio afetava tambm Jondalar. Um dia se seguia a outro com animadora monotonia enquanto eles acompanhavam suas guas piscosas no calor natural 
do vero. A profecia de sua grande abundncia os levara  complacncia e embotara a ansiedade que ele sentia com relao a Ayla: tinha de lev-la s e salva para 
casa. Mas uma vez abandonada aquela prdiga Me dos rios, suas preocupaes de novo o assaltaram e a mudana de paisagem o fazia pensar no que viria  frente. Comeou 
a considerar as reservas de comida que levavam e a indagar se teriam o bastante. No tinha certeza se achariam peixe nos rios menores e estava menos certo ainda 
de encontrar provises de boca nas montanhas cobertas de rvores.
    Jondalar no tinha nenhuma familiaridade com a vida selvagem nas matas Os animais da plancie congregavam-se em manadas e podiam ser visto a distncia, mas a 
fauna que tinha a floresta por habitat era mais solitria, e havia rvores e arbustos que a escondiam. Quando tinha vivido com os Xaramudi, caara sempre com algum 
conhecedor da regio.
    A metade Xaramudi da populao gostava de caar a camura nos altos cimos e sabia como apanhar o urso, o javali, o biso e outros animais mais ariscos da floresta. 
Jondalar se lembrava que Thonolan preferia caar com eles nas montanhas. A poro Ramudi, por seu lado, conhecia melhor o rio e ia  caa dos animais que o habitavam, 
principalmente o esturjo gigante. Jondalar se interessara mais pelos barcos e se ocupara em aprender as artimanhas do rio. Embora subisse as montanhas, ocasionalmente, 
com os caadores de camura, no gostava muito das alturas.
    Avistando, agora, um pequeno rebanho de veados, Jondalar decidiu que havia ali uma boa oportunidade de conseguir carne, um suprimento que atendesse s necessidades 
dos prximos dias, ou seja, at que encontrassem os Xaramudi. Talvez devessem, at, levar alguma carne para dividir com eles. Ayla se mostrou animada com a sugesto. 
Ela gostava de caar e no tinha caado muito, recentemente, a no ser algumas perdizes e outros animais pequenos, que abatia com a funda. O Rio da Grande Me fora 
to dadivoso que eles no tinham tido necessidade de caar.
    Encontraram um bom lugar para acampar s margens do pequeno rio, deixaram l as cestas e o tren, e saram em direo aos veados com seus lanadores e lanas. 
Lobo estava excitadssimo. A rotina fora quebrada, e as lanas no deixavam dvida quanto s intenes dos seus donos. Huiin e Racer pareciam tambm mais brincalhes 
agora, por se verem livres dos balaios da bagagem e do tren.
    Aquele grupo de veados era constitudo exclusivamente de machos, e os cornos de seu lder, o alce velho, estavam cobertos de espesso veludo. No outono, poca
do cio, quando a galhada alcanara seu mximo crescimento para aquele ano, a cobertura de pele, rica em vasos sanguneos, secaria e se desprenderia  um processo 
que os prprios animais aceleravam esfregando a galhada contra rvores ou rochedos.
    A mulher e o homem se detiveram para avaliar a situao. Lobo mal se continha, na antecipao da caa. Gania e fazia sadas falsas. Ayla tinha de cont-lo ou 
ele se precipitaria e espantaria os animais. Jondalar, contente de v-lo obedecer a Ayla, pensou, de passagem, com admirao, na maneira com que o bicho fora treinado 
por ela, mas logo se ps a estudar o rebanho. Do alto do cavalo tinha uma viso geral e outras vantagens que no teria a p. Vrios dos veados tinham parado de pastar, 
cientes da presena deles, mas cavalos no representavam ameaa. Eram tambm herbvoros, ignorados o mais das vezes, ou tolerados, se no demonstravam medo. Mesmo 
o fato de verem tambm o homem, a mulher e o lobo no os alarmou o suficiente para que pensassem em fugir.
    Correndo os olhos pelo grupo, a fim de escolher uma presa, Jondalar se viu tentado por um macho magnfico, de chifres imponentes, que parecia olhar diretamente 
para ele, como se tambm o avaliasse. Se estivesse com um bando de caadores em busca de carne para toda uma Caverna, e desejoso de exibir sua percia, talvez ele 
investisse contra o majestoso animal. Mas estava certo de que quando o outono chegasse, com a estao dos Prazeres, muitas fmeas estariam ansiosas por juntar-se 
ao rebanho por causa dele. No teve coragem de sacrificar um animal to belo e altivo s por um pouco de carne. Escolheu ento outro.
            Ayla, est vendo aquele junto do arbusto mais alto, na orlado rebanho?
    Ela fez que sim, de cabea.
            Pois ele me parece numa posio ideal para ficar separado dos outros. Vamos tentar esse.
    Combinaram a estratgia que iriam adotar, depois se separaram. Lobo ficou de olho na mulher e em sua gua. Quando Ayla deu o sinal, ele saiu, veloz, na direo 
do veado que ela apontou. Ayla, montada em Huiin, foi atrs dele. Quanto a Jondalar, avanou pelo lado oposto, lana e lanador em riste.
    O veado sentiu o perigo  como o resto do bando, que fugiu em todas as direes. O animal que eles tinham escolhido fugiu aos saltos do lobo e da mulher que 
investiam contra ele e avanou para o homem a cavalo. Chegou to perto que Racer recuou, assustado.
    Jondalar estava pronto com a lana, mas a reao do veado o distraiu e ele perdeu o alvo. O veado mudou bruscamente de rumo, procurando escapar do homem do cavalo, 
mas se viu confrontado por um grande lobo. Pulou de lado, ento, para escapar ao predador que lhe mostrava os dentes e disparou entre Jondalar e Ayla.
    Ayla jogou o corpo para o outro lado e mirou. Entendendo o sinal, Huiin galopou atrs do veado. Jondalar recuperou o equilbrio e atirou a lana, justamente 
quando Ayla atirava a sua.
    A orgulhosa galhada estremeceu uma vez, depois outra. As duas lanas acertaram o alvo com grande fora e quase ao mesmo tempo. O veado tentou ainda saltar, mas 
era tarde. As lanas tinham-no pegado em cheio. Ele vacilou, depois caiu, em plena corrida.
    O campo estava deserto. O rebanho desaparecera, mas os caadores nem viram isso, ao apear das montarias, junto do veado. Jondalar empunhou sua faca de cabo de 
osso, agarrou o veado pelos chifres cobertos de veludo, empurrou a cabea para trs e cortou a garganta do grande alce adulto. Ficaram de p, silenciosos, ao lado 
dele enquanto o sangue jorrava em volta da cabea do animal. A terra seca o absorveu todo.
            Quando estiver de volta  Grande Me Terra agradealhe por ns  disse Jondalar ao veado, que jazia morto no cho.
    Ayla inclinou a cabea, assentindo. O gesto era tambm um cumprimento Estava habituada quele ritual de Jondalar. Ele dizia sempre as mesmas palavras quando 
matavam um animal, mesmo pequeno, e ela sentia que havia que rotina ali. Havia sentimento e reverncia nas palavras dele. Seu agradecimento era sincero.
    s plancies ondulantes sucederam colinas escarpadas, e comearam a aparecer rvores por entre a macega  btulas, em geral , depois bosques de faias e carvalhos 
misturados. Nas elevaes mais discretas, a regio lembrava as colinas arborizadas, que tinham costeado perto do delta o Rio da Grande Me. Subindo mais, comearam 
a encontrar abetos e espruces e poucos larios e pinheiros em meio s grandes rvores de folhas caducas.
    Chegaram a uma clareira, um outeiro arredondado, mais elevado um pouco que a floresta circundante. Jondalar sofreou o cavalo para se orientar, enquanto Ayla 
se extasiava com a vista. Estavam mais alto do que ela havia imaginado. Para oeste, olhando por cima do topo das rvores, ela podia ver o Rio da Grande Me a distncia, 
com todos os seus canais reunidos outra vez, serpenteando por um desfiladeiro profundo de paredes rochosos. Entendia agora por que Jondalar mudara de direo, procurando 
um caminho que contornasse o obstculo.
            J atravessei aquela passagem de barco.  chamada o Porto.
     O Porto? Voc quer dizer um porto que a gente pe numa paliada? Para fechar a abertura e prender animais dentro?  perguntou Ayla.
     No sei. Nunca perguntei, mas talvez o nome venha da. Embora o lugar se parea mais com a cerca que a gente fez de um lado e de outro, conduzindo ao porto. 
E cobre uma grande distncia. Gostaria de lev-la at l.  E, sorrindo:  Talvez eu o faa algum dia.
    Rumaram para o norte, descendo a colina e depois seguindo em terreno plano, em direo  montanha.  sua frente, como um imenso paredo, havia uma longa formao 
de rvores de grande porte, primeira linha de uma floresta densa e profunda, de rvores de madeira rija e sempre-verdes.
    No momento em que entraram para a sombra do alto dossel de folhas os dois se viram num mundo diferente. Seus olhos levaram algum tempo at se ajustarem da claridade 
do sol a essa penumbra silente da floresta primeva, mas logo sentiram o ar mido e o cheiro forte das plangem decomposio.
    O cho era revestido de uma espessa camada de limo, que parecia um absurdo tapete, cobrindo mataces e se estendendo por cima das formas arredondadas de velhas 
rvores de h muito cadas, e rodeava imparcialmente rvores virentes e troncos ainda de p mas j em desintegrao. O grande lobo, que corria  frente, saltou sobre 
uma tora envolta em musgo. Seu peso rompeu o velho cerne podre, que se dissolvia lentamente para volta ao solo de onde provinha, e ps  mostra uma chusma de vermes 
brancos que se retorciam l dentro e que a luz do dia apanhara de surpresa. O homem e a mulher logo desmontaram para achar com maior facilidade o caminho numa floresta 
cujo cho estava juncado de restos e brotos de vida em regenerao.
    Novas plantas apontavam de velhos troncos musgosos e apodrecidos, arvorezinhas adolescentes lutavam por um lugar ao sol num stio em que uma rvore ferida pelo 
raio arrastara vrias outras na sua queda. Moscas zumbiam em torno das inflorescncias rosadas de uma pirola, que cabeceavam de leve, iluminadas pelos feixes de 
sol coado por aberturas na abbada da floresta. O silncio era incomum, raiava pelo sobrenatural. Os menores sons ali se amplificavam de forma misteriosa. Ayla e 
Jondalar se puseram a falar em voz baixa.
    Os fungos eram viosos. Havia cogumelos de toda variedade e em quase todos os lugares para onde olhavam; e, por toda parte, ervas sem folhas verdes, como a lavanda 
dentilria, e diversas espcies de orqudeas pequenas, de pequenas flores multicores. Nasciam das razes expostas de plantas vivas ou de seus restos em decomposio. 
Quando Ayla notou vrios talos pequenos, plidos, sem folhas, e cerosos, com cabeas oscilantes, comeou logo a colher alguns.
            Estes vo ser bons para os olhos de Lobo e dos cavalos  explicou.
    Jondalar viu que um sorriso triste, mas cheio de ternura, lhe passava pelo rosto.
            Era o que Iza usava nos meus olhos quando eu chorava.
    E j que estava apanhando plantas, recolheu tambm cogumelos que sabia com certeza tratar-se de comestveis. Ayla no arriscava nunca. Tinha o mximo cuidado 
com cogumelos. Muitas variedades eram deliciosas; outras no tinham tanto sabor mas tambm no faziam mal; algumas podiam ser usadas como remdio; umas poucas levavam 
quem as ingerisse a ver os mundos dos espritos. Mas havia tambm as que deixavam uma pessoa nauseada e doente, e as mais raras, que eram mortais. E era fcil confundi-las 
umas com as outras.
    Tiveram grande dificuldade para passar com o tren e seus mastros espaados pela floresta. As rvores cresciam muito juntas e eles se enganchavam nos troncos. 
Quando Ayla inventara um mtodo simples e eficiente de usar a fora de Huiin para ajud-la a transportar objetos pesados demais para ela mesma carregar, inventou 
tambm um modo de fazer com que a gua subisse o ngreme caminho para a sua caverna, amarrando os mastros bem apertados. Mas com o bote montado em cima deles era 
impossvel mov-los, e difcil contornar obstculos arrastando aqueles trambolhos. O tren era muito eficaz em terreno acidentado, no se enfiava em buracos, valas 
ou lama, mas precisava de um lugar aberto.
    Lutaram o resto da tarde. Jondalar acabou por desamarrar o barco e arrast-lo ele mesmo. Comeavam a pensar seriamente em deix-lo para trs. Fora mais do que 
til na travessia dos muitos rios e pequenos afluentes da Grande Me, mas no tinham certeza se valia a pena lev-lo atravs daquela floresta, to espessa. Se houvesse 
outros rios no caminho, podiam muito bem pass-los sem o barco, que os atrasava sobremaneira, agora.
    A escurido apanhou-os ainda na mata. Acamparam para passar a noite, mas ambos se sentiram mais inseguros e mais expostos que no meio das vasta estepes. Em campo 
aberto, mesmo na treva, podiam ver alguma coisa: nuvens, estrelas, silhuetas, formas em movimento. Na floresta espessa, com os troncos macios de rvores altssimas, 
capazes de esconder at animais muito grandes, o escuro era absoluto. O silncio amplificador, que j lhes parecera um tanto sinistro ao entrarem naquele mundo denso 
arvoredo, era terrificante na profundeza da floresta,  noite, embora os dois procurassem no demonstrar que sentiam isso.
    Os cavalos estavam tensos tambm, e ficavam juntos do conforto conhecido do fogo. Lobo tambm no saiu do acampamento. Ayla ficou contente com isso, e quando 
lhe serviu um pouco da refeio que preparara para Jondalar, pensou que teria procurado guard-lo junto deles de qualquer maneira, nas circunstncias. At Jondalar 
demonstrou satisfao: ter por perto um lobo grande e amigo era tranquilizador. Ele podia farejar perigos e sentir coisas que escapavam a um ser humano.
    A noite era mais fria no interior da floresta mida, de uma espcie pegajosa, grudenta, de umidade, to pesada que parecia chuva. Eles se enfiaram muito cedo 
nas suas peles de dormir e, embora estivessem fatigados, conversaram at tarde, sem saber se podiam mesmo entregar-se, confiantes, ao sono.
     Ser que devemos conservar mesmo esse barco?  perguntou Jondalar, em tom retrico.  Os cavalos podem vadear os rios pequenos sem molhar nossas coisas. Com 
rios mais profundos, podemos pr os balaios em cima deles em vez de deix-los dependurados, como costumam ficar.
     Uma vez atei minhas coisas num tronco de rvore. Depois de ter deixado o Cl, quando procurava gente como eu mesma, encontrei um rio largo. Atravessei-o a 
nado, empurrando o tronco  disse Ayla.
     Deve ter sido difcil. E perigoso tambm, com os braos assim presos.
     Difcil foi. Mas eu tinha de cruzar o rio e no imaginei nenhum outro meio  disse Ayla.
    Ficou, em seguida, calada, refletindo. O homem, estirado a seu lado, pensou que ela tivesse adormecido. At que revelou a direo que seus Pensamentos tinham 
tomado.
     Jondalar, estou certa de que viajamos muito mais do que eu viajei sozinha, quela altura. J cobrimos muito do caminho, no?
            Sim  respondeu ele, um pouco receoso. Depois virou-se e se apoiou num cotovelo para poder v-la melhor.  Mas estamos ainda muito longe de casa. Voc 
j se cansou, Ayla?
     Um pouco. Seria bom fazer uma pausa. Ento, estarei pronta para outra estirada. Ao seu lado, no me importa o tempo que a viagem leve. Apenas no sabia que 
o mundo fosse assim to grande. Voc acredita que ele tenha fim?
     Para oeste da minha terra, o que h so as Grandes guas, ningum sabe o que haver depois delas. Conheo um homem que diz ter ido ainda mais longe e que fala 
em Grandes guas para o lado do oriente. Muita gente, no entanto, no acredita nele. Muita gente viaja um pouco, mas pouca gente vai muito longe, da a incredulidade 
em torno de longas Jornadas, a no ser que haja alguma coisa que os convena. Mas h sempre alguns que vo longe.  Jondalar fez um muxoxo.  Eu  que nunca pensei 
em ser um deles. Wymez andou pelos Mares do Sul e descobriu que havia ainda terras, do outro lado, para o sul.
            Ele tambm encontrou a me de Ranec e trouxe a mulher de volta.  difcil duvidar de Wymez. Voc j viu alguma vez uma pessoa com a pele to escura 
quanto Ranec? Wymez tinha mesmo de ir muito longe para achar uma velha assim.
    Jondalar olhou o rosto que a luz da fogueira iluminava e sentiu um grande amor pela mulher que tinha a seu lado, e tambm uma grande angstia. Aquela conversa 
sobre longas Jornadas fazia-o pensar no caminho que ainda lhes faltava percorrer.
     Para o norte, a terra esbarra no gelo  continuou ela.  ningum pode ir alm da geleira.
     A no ser de barco  disse Jondalar.  Mas j me contaram que tudo o que a gente encontra  uma terra de gelo e neve, onde vivem espritos brancos de ursos. 
Dizem tambm que por l existem peixes maiores que mamutes. Algumas pessoas, no oeste, dizem que eles tm Xams com fora suficiente para atrair gente para l. E 
uma vez desembarcados, no voltam mais...
    Ouviram um repentino rumor de movimento entre as rvores. O homem e a mulher tiveram um sobressalto, depois ficaram imveis e mudos. Mal respiravam. Lobo rosnou, 
mas Ayla tinha um brao em torno dele e no o deixou sair. Houve mais alguns rudos confusos nas imediaes, depois silncio. Lobo deixou de roncar no peito. Jondalar 
no estava certo de poder dormir de novo naquela noite. Esperou um pouco, levantou, ps uma acha de lenha na fogueira, contente de ter encontrado de tarde certo 
nmero de galhos quebrados de bom tamanho que ele partira em pedaos com seu pequeno machado de slex e cabo de osso.
     A geleira que temos de atravessar no fica ao norte, certo?  perguntou Ayla quando ele voltou para a cama. Estava ainda pensando na Jornada.
     Bem, fica ao norte daqui, mas no to ao norte quanto a muralha de gelo. H outra cadeia de montanhas para oeste destas, e o gelo que temos de passar fica 
um pouco ao norte dela.
      difcil atravessar o gelo?
             muito frio, e pode haver terrveis nevascas. Na primavera e no vero o gelo derrete um pouco e abrem-se grandes fissuras; se cairmos dentro de uma, 
ningum consegue nos tirar. No inverno, muitas dessas brechas se enchem de neve e de gelo, mas assim mesmo podem ser perigosas.
    Ayla sentiu um calafrio.
            Voc disse que h um caminho ao redor... Por que temos de passar pelo gelo?
      a nica maneira de evitar cabe... gente do Cl.
     Voc ia dizer cabeas-chatas.
     Sempre os conheci por esse nome, Ayla  disse Jondalar, procurando explicar-se.   assim que todo mundo diz. Voc vai ter de acostumar-se com o termo, sabia? 
 assim que eles so chamados.
    Ela ignorou o comentrio e continuou.
     Mas por que temos de evit-los?
     Tm havido problemas  disse ele, franzindo a testa.  No sei mesmo se esses cabeas-chatas do norte so os mesmos do seu Cl.  Jondalar fez uma curta pausa, 
depois continuou.  Mas no foram eles que comearam. No caminho para c ouvimos falar de jovens... provocadores. Jovens Losadunai, o povo que vive perto daquela 
geleira do plat.
     E por que os Losadunai querem brigar com o Cl?  perguntou Ayla.
            No se pode dizer que sejam os Losadunai. Mas alguns, apenas. Os Losadunai em geral no querem confuso, s esse bando de moos. Imagino que achem isso 
divertido. Pelo menos foi assim que tudo comeou, de brincadeira.
    Ayla pensou que a ideia que certas pessoas tm de brincadeira no combinava com a sua. Mas era a Jornada que no conseguia tirar da cabea, quanto tempo ainda 
faltava para chegarem. Pela maneira como Jondalar falava no estavam nem perto ainda de casa. Resolveu que no seria bom ficar pensando nisso com tanta antecedncia. 
Tentou esquecer o assunto.
    Ficou olhando a noite. Quisera ver o cu atravs do dossel da mata.
            Jondalar, acho que estou vendo estrelas, l no alto. Voc as v tambm?
            Onde?  disse ele, olhando para cima.
     L! Voc tem apenas de olhar bem direito para cima e para trs, depois, um pouco. V?
     Sim, sim, acho que vejo. No  como o caminho de leite da Grande Me, mas vejo algumas estrelas.
     O que  esse caminho de leite?
     E parte da histria da Me com Seu filho  explicou ele.
     Conte.
     No sei se me lembro. Vejamos.  alguma coisa assim...  E Jondalar se ps a controlar a melodia sem palavras, depois com alguns versos.
    O sangue Dela coalhou e secou numa terra cor de ocre avermelhado,
    Mas o menino luminoso fazia o sacrifcio valer a pena.
    A grande alegria da Me, Um menino que brilhava como o sol.
    As montanhas se ergueram cuspindo fogo das cristas, E Ela deu de mamar ao filho com Seus seios enormes.
    Ele sugou to forte, e as fagulhas voaram to alto
    Que o leite quente da Grande Me riscou uma trilha no cu.
      isso, acho  concluiu Jondalar. Zelandoni ficaria feliz se soubesse que me lembrei.
            Maravilha, Jondalar. Adorei o som e o sentimento por trs das palavras.  Ayla fechou os olhos e ficou repetindo os versos para si mesma, em voz alta.
    Jondalar escutava e se admirava da facilidade que a mulher tinha para memorizar as coisas. Ela repetia tudo exatamente e lhe bastava ter ouvido uma vez. Quisera 
ele ter memria igual e a facilidade que Ayla tinha para lnguas.
     Isso, no entanto, no  verdade. Ou ?  perguntou ela.
     O que no  verdade?
     Que as estrelas sejam o leite da Grande Me.
            No creio que sejam feitas de leite  disse Jondalar.  Mas acho que h muito de verdade no sentido geral da histria. Da histria inteira.
            E como  a histria?
            Conta o comeo das coisas, de como tudo surgiu. Que ns fomos feitos pela Grande Me terra, com a matria do Seu prprio corpo. Que Ela vive no mesmo 
lugar onde vivem o sol e a lua, e que a Grande Me terra representa para eles o mesmo que para ns. E as estrelas so parte
do mundo deles.
    Ayla concordou.
     Sim, deve haver alguma parcela de verdade nisso tudo  disse Gostava do que ele dissera e pensou que, um dia, ela gostaria de conhecer essa tal de Zelandoni 
para saber dela a histria toda direitinho. Creb me disse que as estrelas so os fogos acesos das pessoas que moram no mundo dos espritos. Todas as pessoas que 
para l regressaram e todas as que ainda no nasceram. E tambm o lar dos espritos dos totens.
     Pode haver muita verdade nisso tambm  disse Jondalar. E pensou: os cabeas-chatas realmente so quase humanos. Nenhum animal seria capaz de pensar essas 
coisas.
     Creb uma vez me mostrou onde era o lar do meu totem, o Grande Leo da Caverna  disse Ayla, com um bocejo, e se virou de lado.
    Ayla tentou ver o caminho  frente, mas imensos troncos de rvores, vestidos de musgo, bloqueavam a vista. Ela continuou a subir, sem saber muito bem aonde ia, 
apenas desejando poder parar e descansar. Estava to fatigada! Ah, se pudesse, pelo menos, sentar-se. O tronco cado que via  frente parecia convidativo. Se pudesse 
alcan-lo, mas ele sempre parecia estar ainda um passo mais adiante. Afinal, conseguiu chegar, mas ele cedeu ao seu peso, desfazendo-se em madeira podre e vermes 
coleantes. E ela comeou a cair atravs do tronco, segurando-se  terra, do voltar.
    Depois, a densa floresta esfumou-se, e ela se viu galgando o flanco escarpado de uma montanha atravs de uma abertura na floresta, por um atalho que era familiar.
No topo havia uma campina, onde pastava uma pequena famlia de veados. Contra a rocha de um talude cresciam aveleiras. Ela tinha medo, e estaria segura atrs dos
arbustos, mas como passar? O caminho estava bloqueado pelas aveleiras, que cresciam, cresciam, ficavam do tamanho de rvores, e se cobriam de barba-de-pau. Procurou 
ver o caminho  frente, mas tudo o que via eram rvores, e estava ficando escuro. Ela estava assustada, mas ento, ao longe, viu algum que se movia na sombra profunda.
    Era Creb. Ele estava de p diante da entrada de uma pequena caverna, fechando essa entrada e dizendo, por sinais da mo, que ela no podia ficar. Ali no era 
o seu lugar. Tinha de ir embora, de procurar outro lugar, o seu lugar. Ele procurou ensinar-lhe o caminho, mas estava escuro e ela no podia ver direito o que ele 
dizia, s que tinha de continuar. E ento ele estendeu o seu brao bom e apontou.
    Quando ela olhou, as rvores haviam desaparecido. Recomeou a subir, para a abertura de outra caverna. Embora soubesse que jamais a tinha visto, aquela era uma 
caverna estranhamente familiar, com um rochedo curiosamente mal posto projetado em silhueta contra o cu. Quando olhou para trs, Creb estava indo embora. Ela chamou, 
implorou:
            Creb! Creb! Ajude-me! No se v!
     Ayla! Acorde! Voc est sonhando  disse Jondalar, sacudindo-a com delicadeza.
    Ela abriu os olhos, mas o fogo se apagara, e estava escuro. Ela se agarrou a Jondalar.
            Oh, Jondalar, era Creb. Ele fechava o caminho. No me deixava entrar... no me deixava ficar. Procurava dizer-me alguma coisa, mas estava to escuro 
que eu no podia ver. Ele apontava para uma determinada caverna, e alguma coisa nela me parecia familiar, mas ele no quis ficar.
    Jondalar sentia que ela estava toda trmula nos seus braos, e apertou-a com fora, procurando confort-la com sua presena. De sbito Ayla se sentou.
            A caverna! Aquela que ele bloqueava com o corpo era a minha caverna. Foi para l que eu fui quando Dure nasceu, quando tive medo que no me deixassem 
conserv-lo.
     Sonhos so difceis de entender. s vezes um Zelandoni sabe decifr-los para voc. Talvez voc se sinta ainda culpada por ter deixado seu filho.
     Talvez  disse ela.
    Sentia-se culpada, sim, por ter abandonado Dure, mas se era esse o significado do sonho, por que o sonhava agora? Por que no quando estava na ilha, contemplando 
o Mar de Beran, procurando ver a pennsula, e dando seu ltimo e lacrimoso adeus a Dure. Havia algo que lhe dizia que o sentido do sonho era mais que isso. Finalmente, 
acalmou-se, e os dois cochilaram por algum tempo. Quando ela acordou de novo, era dia, se bem que estivessem ainda na obscuridade da floresta.
    Ayla e Jondalar seguiram para o norte a p, de manh, com os mastros do tren juntos num amarrado e presos ao barco redondo. Cada um deles pegou uma ponta. Assim 
podiam passar com a carga por cima e por entre obstculos mais facilmente do que se ela viesse  retaguarda, arrastada pelo cavalo. Com isso, os cavalos podiam descansar 
um pouco, s com os balaios para carregar e tendo de cuidar apenas de onde pr as patas. Mas depois de algum tempo verificaram que Racer, sem a mo do homem para 
gui-lo, tendia a sair do caminho para beliscar folhas de rvores, pois no vinha pastando a contento desde algum tempo. Ele fazia desvios para os lados e para trs 
quando cheirava a relva de uma clareira ou quando via um claro na mata, onde algum vento forte derrubara arvorezinhas.
    Cansado de ir atrs dele, Jondalar tentou segurar ao mesmo tempo as rdeas do cavalo e sua ponta dos mastros, mas teve dificuldade em ver aonde Ayla estava indo, 
para tirar os mastros do caminho, vigiar onde punha os ps, e cuidar de que o cavalo no metesse a pata num buraco ou coisa pior. Quisera que Racer o seguisse sem 
rdea nem arreios, como Huiin seguia Ayla. Finalmente, quando se distraiu e bateu acidentalmente com um dos postes nas costas de Ayla, ela fez uma sugesto.
            Por que voc no prende a rdea de Racer em Huiin? Voc sabe que ela me acompanha, que sabe onde anda e no vai deixar que Racer se perca. Alm disso, 
ele est acostumado a segui-la. Ento voc ter de preocupar-se apenas com os mastros.
    Ele parou, franziu o cenho, depois deu uma risada.
            Como foi que no pensei nisso?  disse.
    Vinham ganhando altitude devagar. E quando o terreno comeou a ficar visivelmente ngreme, a floresta mudou de carter de forma abrupta. A mata ficou mais rala, 
e logo as grandes rvores de folhas decduas rarearam. Abetos e espruces tornaram-se as essncias mais frequentes, e todas as rvores, mesmo as dessas duas espcies, 
ficaram menores do que as que tinham encontrado at ento.
    Alcanaram a crista de uma serra e se viram diante de um largo plat quase plano, que se estendia  frente. Era dominado por outra floresta, em geral confera, 
de abetos verde-escuro, espruces e pinheirinhos. Uns poucos larios espaados faziam o contraste de cor, com suas agulhas j douradas, ou quase. Outro contraste 
era o prado, verde-amarelo, semeado de pequenos lagos azuis e brancos, que refletiam o cu acima e as nuvens distantes. Um rio de correnteza rpida dividia o espao, 
alimentado por uma cascata que caa do flanco da montanha,  frente. No fundo do chapado, dominando a linha do horizonte, erguia-se um alto pico coberto de branco 
e parcialmente escondido por nuvens. Era uma vista empolgante.
    A montanha parecia to prxima que Ayla pensou que poderia toc-la, se apenas estendesse a mo. O sol, que batia de frente no morro, valorizava as cores e formas 
da pedra: rochas amareladas projetando-se de paredes cinza plido. Faces lisas, muito brancas, alternando com colunas escuras, estranhamente regulares, que tinham 
emergido como lava do centro da terra e esfriado nas formas angulosas da sua estrutura fundamental cristalina. Luzindo acima de tudo isso, via-se o gelo verde-azul 
de um glaciar verdadeiro que uma glace de neve, visvel ainda nos pontos mais altos, enfeitava. E enquanto olhavam, como que por mgica, o sol e as nuvens de chuva 
criaram um deslumbrante arco-ris e estenderam no   num grande arco, acima da montanha.
    O homem e a mulher ficaram a ver aquilo, extticos, absorvendo a beleza e serenidade do espetculo. Ayla se perguntou se no haveria uma mensagem no arco-ris 
nem que fosse apenas a de que eram bem-vindos ali. Observou que o ar que respirava era deliciosamente puro e fresco. Um alvio depois do calor aflitivo da plancie. 
Percebeu tambm, de chofre, que os insuportveis mosquitos haviam desaparecido. Para ela, no precisava dar mais nem um passo. Estaria feliz morando ali.
    Voltou-se sorrindo para o homem. Jondalar ficou estupefato por um momento com a fora da emoo refletida no rosto dela, do seu visvel prazer com a beleza daquela 
regio, da sua vontade de ficar no local para sempre. Mas sentiu tudo isso como alegria de ter aquela mulher e desejo dela. Queria-a naquele instante, e isso se 
refletiu nos seus olhos azuis, na sua expresso de amor e ternura. Ayla sentiu a fora dele, projeo da sua, mas transmudada e amplificada atravs dele.
    Do alto dos seus cavalos, eles olharam nos olhos um do outro, transfixos. O que sentiam era algo impossvel de explicar. Suas emoes, embora distintas, individuais, 
se correspondiam e combinavam. Era o poder de um carisma que cada um deles tinha e dirigia para o outro. E a fora da sua mtua devoo. Sem pensar, mexeram-na em 
direo um do outro  movimento que os cavalos interpretaram erradamente. Huiin comeou a descer a colina e Racer a seguiu. Isso fez com que o homem e a mulher voltassem 
 realidade. Possudos de um indizvel ardor, de um inexplicvel afeto, sentindo-se um pouco tolos por no saberem exatamente o que lhes acontecera, sorriram um 
para o outro com um olhar cheio de promessas e prosseguiram colina abaixo, virando para noroeste, rumo ao plat.
    A manh em que Jondalar achou que poderiam alcanar a colnia Xaramudi trouxe consigo um revigorante sopro de frio no ar, que anunciava mudana da estao, 
e Ayla o recebeu com jbilo. Cavalgando por entre os flancos arborizados daquelas colinas, ela se sentia como se j tivesse estado ali antes, embora soubesse que 
isso no era verdade. Por algum motivo obscuro, esperava a cada passo reconhecer algum marco. Tudo lhe parecia familiar: as rvores, as plantas, as encostas, a prpria 
configurao do terreno. Quanto mais via, mais se sentia em casa.
    Quando viu avels, ainda no p, em seus invlucros verdes, espinhentos, mas quase maduras, exatamente como gostava, ela desceu do e colheu algumas. Ao quebrar 
duas ou trs com os dentes, teve urna iluminao: a razo pela qual achava que conhecia a rea, que se sentia em casa, era que o lugar se parecia com a regio montanhosa 
da extremidade da pennsula, perto da caverna do Cl de Brun. Ela fora criada numa regio muito semelhante quela.
    A rea ia ficando tambm familiar para o homem, e por bons motivos. Quando encontrou uma trilha bem marcada, que reconheceu perfeitamente, e que descia para 
um caminho que dava para a face externa de um paredo de rocha que ele conhecia muito bem, viu que no estavam longe. Sentia que ia ficando cada vez mais excitado. 
A tal ponto que quando Ayla deu com uma urze branca, espinhosa, bem na frente deles, no alto, com estolhos compridos e espinhosos e galhos vergados ao peso de amoras-pretas 
maduras, suculentas, e quis apanhar algumas, ele se irritou. Aquilo os atrasaria.
            Alto, Jondalar! Veja: amoras-pretas!  exclamou Ayla, escorregando de Huiin e correndo para o capo das urzes.
            Estamos chegando.
            Podemos levar amoras para eles  disse Ayla, de boca cheia.  No vejo amoras desde que sa do Cl. Prove-as, Jondalar! J ter provado coisa to doce 
e to gostosa?
    As mos dela estavam tingidas de prpura de tanto apanhar as frutinhas e enfi-las na boca, muitas de uma s vez.
    Vendo aquilo, Jondalar acabou rindo.
            Voc precisava ver-se num espelho de gua! Parece uma meninazinha, cheia de ndas de fruta e toda excitada.  Abanou a cabea e fez um muxoxo. Ela no 
respondeu. No podia falar, de tantas amoras que tinha na boca.
    Ele colheu algumas, viu que eram mesmo excelentes, e apanhou mais algumas. Depois parou.
            Voc pretende levar amoras para eles. Mas no temos nem onde bot-las.
    Ayla parou, depois sorriu.
            Temos sim  disse, tirando da cabea o chapu de palha, manchado de suor, e procurando algumas folhas largas para forr-lo.  Use o seu tambm.
    Tinham enchido dois teros de cada chapu quando Lobo rosnou. Uma advertncia.
    Ergueram os olhos e viram um jovem alto, quase um homem, que viera pela trilha e agora os olhava boquiaberto e olhava o lobo, to perto, com os olhos arregalados 
de medo.
    Jondalar reparou no rapaz.
            Darvo?  voc mesmo, Darvo? Sou eu, Jondalar. Jondalar, dos Zelandonii  disse ele, caminhando para o outro a passos largos.
    Jondalar falava numa lngua que Ayla no entendia, se bem que houvesse palavras e sons reminiscentes de Mamuti. Ela viu a expresso do desconhecido passar do 
temor para a estupefao, para o reconhecimento.
     Jondalar? Jondalar! O que est fazendo aqui? Eu pensava que voc tivesse ido embora para no mais voltar  disse Darvo.
    Correram um para o outro e se abraaram. Depois, o homem recuou e encarou o rapaz, segurando-o pelos ombros.
     Deixe-me v-lo bem!  difcil acreditar que tenha crescido tanto!
    Ayla tinha os olhos fixos nele, na reao dele diante de uma pessoa que no via fazia muito tempo.
    Jondalar o abraou de novo. Ayla podia ver a sincera afeio que eles tinham um pelo outro, mas depois da primeira efuso Darvo pareceu um tanto constrangido. 
Jondalar compreendeu aquela reticncia repentina. Darvo era quase um homem agora, afinal de contas. Abraos formais de saudao eram uma coisa, mas exibies exuberantes 
de afeto, mesmo por algum que pertencera  sua gente por algum tempo, era coisa muito diferente. Darvo olhou para Ayla. Depois para o lobo que ela continha, e seus 
olhos se arregalaram outra vez. Viu, em seguida, os cavalos, um pouco para trs, mas tranquilos, com cestas e mastros nas costas, e seus olhos se abriram ainda mais.
            Acho que devo apresent-lo aos meus... amigos  disse Jondalar.  Darvo dos Xaramudi, esta  Ayla, dos Mamuti.
    Ayla reconheceu a cadncia da apresentao formal e um pouco das palavras. Mandou que Lobo ficasse quieto e avanou, com as mos estendidas, palmas para cima.
     Eu sou Darvalo, dos Xaramudi  disse o moo, tomando as mos dela, e falando em Mamuti.  Seja bem-vinda, Ayla dos Mamuti.
    Tholie o ensinou muito bem! Voc fala Mamuti como se fosse sua lngua nativa, Darvo. Ou devo dizer Darvalo, agora?  disse Jondalar.
     Todos me chamam Darvalo, agora. Darvo  nome de criana  disse o adolescente. Depois corou.  Mas voc pode dizer Darvo, se assim o desejar. Afinal,  o nome 
que conhece.
     Acho Darvalo um bonito nome  disse Jondalar.  E alegro-me que no tenha abandonado as aulas de Tholie.
     Dolando julgou que seria uma boa ideia. Ele disse que eu iria precisar da lngua para negociar com os Mamuti na prxima primavera.
            Voc gostaria de conhecer Lobo?  perguntou Ayla.
    O rapaz franziu a testa com certa consternao. Jamais havia pensando que encontraria um lobo cara a cara, e jamais desejara que isso acontecesse. Mas Jondalar 
no tem medo dele, pensou, e a mulher tambm no...  mulher muito estranha... e fala muito esquisito tambm. No que fale errado, mas no fala como Tholie.
     Se voc puser a mo assim, mais perto, Lobo poder cheir-la e ficar conhecendo voc  disse Ayla.
    Darvalo no estava muito certo se queria que a mo ficasse ao alcance dos dentes do lobo, mas no havia meio de escapar quela altura. Estendeu, ento, brao. 
Lobo farejou-lhe a mo e, em seguida, inesperadamente, lambeu-a. Tinha uma lngua quente e molhada, mas de modo nenhum o machucou. A sensao foi, na verdade, agradvel. 
Darvalo olhou para a mulher e para o animal. Ela passara o brao com naturalidade pelo pescoo do bicho e lhe afagava a cabea com a outra mo. Que sensao se poderia 
ter acariciando um lobo na cabea?  pensou.
            Voc gostaria de sentir o plo dele?  perguntou Ayla.
    Darvalo se mostrou surpreso. Depois avanou a mo, mas Lobo quis cheir-lo, e ele recuou.
            Aqui  disse Ayla, pegando a mo dele e pousando-a firmemente na cabea do lobo.  Ele gosta de ser coado. Assim.
    Lobo sentiu a picada de uma pulga ou o agrado fizera-o lembrar-se de pulgas. Sentou-se e com movimentos rpidos se ps a coar atrs da orelha com uma das pernas 
traseiras. Darvalo sorriu. Nunca tinha visto um lobo em posio to cmica, a se coar com tanta disposio.
     Eu disse que ele gosta disso. Os cavalos tambm  disse Ayla, mandando que Huiin se aproximasse.
    Darvalo olhou para Jondalar. Mas ele estava sorrindo apenas, como se no houvesse nada de estranho no fato de uma mulher coar lobos e cavalos.
     Darvalo dos Xaramudi, esta aqui  Huiin  disse Ayla, pronunciando o nome da gua como quando o inventara, como a onomatopeia de um pequeno relincho. Fez 
tal qual um cavalo.   esse o nome dela, mas Jondalar o pronuncia de maneira um pouco diferente. Acha mais fcil.
     Voc sabe conversar com cavalos?  perguntou Darvalo, que j no sabia mais o que pensar.
     Todo mundo pode conversar com um cavalo, mas os cavalos no do ateno a qualquer um.  preciso que os dois se conheam. Racer obedece a Jondalar, que o conheceu 
pequeno.
    Darvalo girou sobre os calcanhares para ver Jondalar e deu dois passos para trs.
            Voc est sentado no cavalo!  disse.
            Sim, estou.  porque ele me conhece, Darvo. Quero dizer, Darvalo. Ele me deixa fazer isso mesmo quando galopa, e podemos ir, os dois, muito depressa.
    Darvalo parecia estar prestes a correr tambm. Jondalar saltou do cavalo.
            Com respeito a esses animais, Darvalo, voc nos pode ajudar, Darvo. Se quiser, naturalmente.
    O rapaz parecia petrificado e pronto para fugir.
            Estamos viajando h muito tempo, e estou de fato ansioso para ver Dolando, Roshario, e todo mundo. Mas muitas pessoas ficam um pouco nervosas quando 
vem os animais pela primeira vez. No esto acostumadas com eles. Voc nos acompanharia? Vendo que voc no tem medo, talvez eles no se assustem.
    O rapaz pareceu mais  vontade. Aquilo no era to difcil. de contas, ele j estava junto dos animais. Todo mundo ficaria pasmo vendo-o chegar com Jondalar 
e aqueles bichos... Sobretudo Dolando e Roshario.
     J me ia esquecendo  disse Darvalo.  Eu disse a Roshario que vinha apanhar amoras-pretas para ela, uma vez que no pode mais colh-las.
     Ns temos amoras-pretas  disse Ayla.
    Jondalar perguntou ao mesmo tempo.
     Por que ela no pode mais colher amoras?
    Darvalo olhou de Ayla para Jondalar.
     Ela caiu do barranco no cais dos barcos e quebrou o brao. Acho que nunca vai sarar. No foi encanado.
     E por que no?  perguntaram os dois.
     No havia quem soubesse fazer isso.
    E Xam? E sua me?
     Xam morreu, no inverno passado.
            Lamento ouvir isso  disse Jondalar.
     E minha me foi embora. Um homem Mamuti veio visitar Tholie no muito tempo depois da sua partida, Jondalar. Um primo nosso. Acho que ele gostou de minha 
me. Convidou-a para ser sua companheira. Ela deixou todo mundo surpreso aceitando e indo viver com os Mamuti. Ele me convidou para ir tambm, mas Dolando e Roshario 
me pediram que ficasse. Fiquei. Eu sou um Xaramudi, no sou Mamuti  explicou Darvalo. Depois corou e disse para Ayla:  No que seja ruim ser Mamuti.
     No, claro que no  disse Jondalar, com uma ruga de aborrecimento na testa.  Entendo como se sente, Darvalo. Eu sou ainda Jondalar dos Zelandonii. Quando 
foi que Roshario caiu?
            Na Lua do Vero, mais ou menos agora.
    Ayla interrogou o homem com o olhar.
            Nesta mesma fase da lua, o ms passado  explicou ele.  Voc acha que ser tarde demais?
            No sei. Tenho de v-la primeiro  disse Ayla.
     Ayla entende dessas coisas, Darvalo  disse Jondalar.  uma excelente curandeira. Talvez possa ajudar.
     Desconfiei que ela fosse Xam. Com esses animais, e tudo.  Darvalo ficou pensativo por um momento, atentando para os cavalos e o lobo.  Deve ser muito boa. 
 O menino parecia mais alto que os seus treze anos.  Vou chegar com vocs e ningum ter medo dos animais.
     Pode carregar as amoras-pretas para mim? Assim eu fico perto de Lobo e de Huiin. s vezes eles tm medo de gente.

15
___________________________________________________________________________

    Darvalo foi na frente, para mostrar a direo. Desceram a colina por um caminho que cortava a paisagem de campo aberto, com rvores. No sop da elevao eles 
chegaram a outro sendeiro e viraram  direita. A inclinao do terreno era agora mais gradual. Essa nova trilha servia de escoadouro ao excesso de gua dos degelos 
da primavera e da estao chuvosa. Conquanto esse leito temporrio de rio estivesse seco no fim do ardente vero, era pedregoso, o que dificultava a marcha.
    Cavalos so animais das plancies. Mesmo assim, Huiin e Racer iam sem dificuldade pelo terreno montanhoso. Tinham aprendido, quando jovens, a andar na picada 
ngreme que levava  caverna de Ayla no vale. Ela ainda se preocupava com medo que se ferissem por causa da base insegura e ficou contente quando tomaram outro caminho 
que vinha de baixo e continuava. Esse era muito usado e permitia, em alguns lugares, que duas pessoas andassem lado a lado, se bem que no dois cavalos.
    Depois de passarem por uma rampa muito ngreme e dobrarem  direita, alcanaram um paredo rochoso. Veio, em seguida, um talude, e Ayla se sentiu em casa. Ela 
j vira acumulaes semelhantes de detritos rochosos na base de paredes verticais nas montanhas onde fora criada. Notou, at, a presena de grandes flores brancas 
em forma de chifre de uma planta robusta de folhas recortadas. Os membros da Lareira do Mamute que ela conhecera chamavam essa planta, de cheiro desagradvel, de 
figueira-brava, por causa dos frutos espinhemos, mas ela lhe trazia de volta lembranas da infncia. Tanto Creb quanto Iza usavam a planta para diversos fins.
    O lugar era conhecido de Jondalar, que havia apanhado saibro ali de uma acumulao de seixos, para a margem de caminhos e de lareiras. Sabia, agora, que estavam 
perto, e sua excitao aumentou.
    Uma vez passado o trecho mais acidentado, o caminho era plano e tinha um revestimento de lascas de pedra. Rodeava a base de uma encosta abrupta.  frente, podiam 
ver o cu por entre as rvores e a vegetao de menor porte, e Jondalar sabia que se aproximavam da borda do penhasco.
     Ayla, acho que devemos tirar as varas e as cestas dos cavalos aqui  disse Jondalar.  O caminho que contorna esse paredo no  to largo assim. Podemos voltar 
para apanh-los.
    Depois que tudo foi descarregado, Ayla, seguindo o adolescente, caminhou um pouco ao longo do paredo de pedra em direo ao cu aberto. Jondalar, que ia atrs 
dela, sorriu quando ela chegou  bordo do precipcio, olhou para baixo, depois deu um passo para trs, apoiando-se  parede. Sentira vertigem. Mas olhou de novo 
e ficou de boca aberta.
    L embaixo, no sop do paredo a prumo, estava o mesmo Rio da Grande Me cujo curso eles tinham acompanhado, mas Ayla nunca o tinha visto de tal perspectiva, 
Vira todos os braos do rio contidos num s canal, mas fora sempre da altura de uma ribanceira no muito mais alta que o nvel da gua. O desejo de olhar para o 
abismo e contemplar a paisagem daquela altura era incoercvel.
    O rio, que tantas vezes se alargava e serpenteava, era reunido e contido entre paredes de rocha que se elevam diretamente da gua, e tinham alicerce no seio 
da terra. Enquanto a corrente mais profunda se movia lanando elementos seus contra a rocha, a fora contida do Rio da Grande Me rolava com uma potncia silenciosa, 
ondulando com oleosa fluncia de ondas que se dobravam sobre si mesmas e seguiam em frente, crescidas, arfando. Muitos afluentes se somariam ainda ao magnfico rio 
antes que ele atingisse sua capacidade total, mas j quela altura, to longe do delta, ele alcanara propores to gigantescas que a diminuio no se notava, 
principalmente daquela altura, de onde se via toda a massa da gua em movimento.
    Um ocasional pinculo de pedra rompia a superfcie de espao em espao, partindo as guas com espirais de espuma. Enquanto Avia olhava, um tronco, encontrando 
o caminho bloqueado, passou, contornando um desses obstculos, aos solavancos. Diretamente abaixo dela, e apoiada ao penhasco, havia uma construo de madeira que 
no se via bem. Quando, finalmente, ergueu os olhos, Ayla estudou as montanhas da margem oposta. Embora ainda arredondadas, eram mais altas e mais abruptas que as 
que tinham encontrado rio abaixo. Quase se equiparavam aos picos pontiagudos da margem em que se encontravam. Separadas apenas pela largura do rio, as duas cadeias 
haviam sido unidas at que a faca do tempo e da corrente tinham aberto aquele caminho.
    Darvalo esperava pacientemente que Ayla assimilasse aquela primeira viso da entrada teatral aos domnios do seu povo. Ele vivera ali toda a vida e no lhe dava 
mais um valor especial, mas conhecia a reao de estranhos. Sentia grande orgulho com a admirao dos forasteiros e era levado a atentar de novo para a paisagem, 
vendo-a atravs dos olhos deles. Quando a mulher finalmente se voltou, sorriu para ela e conduziu-a ao longo da face da montanha por uma passagem laboriosamente 
alargada. Fora apenas uma estreita salincia do rochedo. Dava passagem agora duas pessoas de cada vez, se caminhassem bem juntas uma da outra. Dava passagem a algum 
que levasse lenha, um animal caado, ou outros suprimentos com relativa facilidade, e dava passagem a cavalos.
    Quando Jondalar se acercou da borda do precipcio, sentiu aquele frio na barriga que era a sua reao habitual em face de espaos vazios. Sentira sempre isso 
quando morara ali. No era coisa to sria que ele no pudesse controlar, e sabia apreciar a vista espetacular e o trabalho dos que tinham de escavar o flanco da 
montanha com pedras grandes e pesados machados de slex, mas isso no aliviava a sensao que tinha invariavelmente. Mesmo assim, aquela entrada era melhor que a 
outra, mais usadas.
    Mantendo Lobo junto de si e puxando Huiin, Ayla acompanhou o adolescente, encostada ao paredo.  frente havia uma rea plana, em anfiteatro, de propores apreciveis. 
Outrora, quando a grande bacia interior do lado oeste era um mar que comeava a esvaziar-se pela garganta, que se ia abrindo na cadeia de montanhas, o nvel da gua 
era muito mais alto e uma espcie de angra protegida se formara. Era agora enseada seca, protegida, sobranceira ao rio.
    O primeiro plano era um tapete de relva, que crescia at quase a borda do despenhadeiro. Mais alm, havia vegetao arbustiva, agarrada  rocha, e, at, rvores 
pequenas que subiam pela escarpa. Jondalar sabia ser possvel escalar a parede do fundo, embora pouca gente o fizesse. Era uma sada inconveniente, que s raramente 
se usava. Mais  frente, projetando-se da montanha, havia um rebordo de arenito, largo o suficiente para abrigar confortavelmente diversas habitaes de madeira.
    Do outro lado, numa parte verde de limo, ficava o tesouro principal daquele terreno privilegiado: uma nascente de gua, que vinha do alto, escorria pelas rochas, 
caa de salincias e tombava de outro rebordo, menor, de arenito, numa cascata estreita, sobre uma piscina natural, embaixo. A gua corria, depois, rente ao penhasco 
at a beira do abismo e caa no rio.
    Diversas pessoas interromperam o que estavam fazendo quando a pequena procisso, com um lobo e um cavalo, surgiu na dobra da montanha. Quando Jondalar chegou 
viu apreenso e estupefao em todos os rostos.
     Darvo! O que  isso que voc traz para c?  disse uma voz.
            Hola!  disse Jondalar, saudando o povo na lngua deles. Depois, vendo Dolando, entregou a rdea de Racer a Ayla e, com um brao em torno dos ombros 
de Darvalo, dirigiu-se ao encontro do chefe da Caverna.
            Dolando! Sou eu, Jondalar  disse quando chegou mais perto.
            Jondalar? Ser voc mesmo?  disse Dolando, reconhecendo-o, mas ainda hesitante.  De onde vem?
     Do leste. Passei o inverno com os Mamuti.
     E quem  essa?
    Jondalar percebeu que o homem devia estar muito perturbado por ter esquecido a forma normal de cortesia.
            O nome dela  Ayla. Ayla dos Mamuti. Os animais viajam conosco. Eles obedecem a ela, a mim, e no faro mal a ningum  disse Jondalar.
            Inclusive o lobo?  perguntou Dolando.
            Eu toquei na cabea dele e apalpei seu plo  disse Darvalo.  E ele nem tentou morder-me.
    Dolando olhou o rapaz.
            Voc o... tocou?
     Sim. Ela diz que a gente tem s de conhec-los.
     Ele tem razo, Dolando. Eu no viria aqui com qualquer pessoa ou qualquer coisa que representasse algum perigo. Venha e trave conhecimento com Avia e com os 
animais. Voc ver.
    Jondalar conduziu o homem para o centro do campo. Diversas outras pessoas os acompanharam. Os cavalos tinham comeado a pastar mas pararam  aproximao do grupo. 
Huiin se acercou da mulher postando-se ao lado de Racer, cuja rdea Ayla ainda segurava numa das mos. A outra estava pousada na cabea de Lobo. O grande lobo do 
norte se mantinha junto dela, atento, em postura defensiva, mas no abertamente ameaadora.
     Como ela consegue fazer com que os cavalos no tenham medo do lobo?  perguntou Dolando.
            Eles sabem que no tm nada a temer. Eles o conhecem desde lobinho  explicou Jondalar.
     E por que no fogem de ns?  perguntou em seguida o chefe.
    Esto acostumados s pessoas. Eu estava presente quando o garanho nasceu  respondeu Jondalar.  Eu me feri gravemente, e Ayla salvou minha vida.
    Dolando se formalizou e olhou firme nos olhos de Jondalar.
     Ela  uma Xam?
      um membro da Lareira do Mamute.
     Uma jovem gorda tomou a palavra.
     Se ela  Mamute, onde est sua tatuagem?
            Ns partimos antes que ela completasse o aprendizado, Tholie  disse Jondalar. E depois sorriu para a mulher Mamuti. Ela no mudar nada. Era ainda 
to franca e direta quanto antes.
    Dolando fechou os olhos e abanou a cabea.
            Que pena!  disse, com desespero.  Roshario levou uma queda e se feriu.
            Darvo me contou. Disse que Xam est morto.
     Sim, ele morreu no inverno passado. Desejaria que essa mulher fosse uma curandeira competente. Ns enviamos mensageiro a uma Caverna, mas o Xam de l tinha 
viajado. Outro mensageiro foi a uma segunda caverna, rio acima, mas essa fica longe, e receio que j seja tarde para fazer alguma coisa.
     O aprendizado que ela no concluiu, Dolando, nada tem a ver com prticas de medicina. Ayla  uma curandeira. E das boas. Ela aprendeu com...  De sbito Jondalar 
lembrou-se de uma das poucas cegueiras de Dolando e emendou  ...a mulher que a criou.  uma longa histria, mas pode crer em mim. Ela  competente.
    Eles haviam alcanado Ayla e os animais. Ela ouviu e observou Jondalar atentamente enquanto ele falava. Havia semelhana entre a lngua que ele usava e Mamuti. 
Mas ele j comeava a falar na lngua de Dolando.
     Ayla dos Mamuti, este  Dolando, lder dos Xamudi, o ramo dos Xaramudi que vive aqui  disse Jondalar, em Mamuti. E, na lngua de Dolando:  Dolando dos 
Xaramudi, esta  Ayla, Filha da Lareira do Mamute, dos Mamuti.
    Dolando hesitou um momento, de olho nos cavalos e no Lobo. Este era sem dvida um belo animal, tranquilo, mas atento, e postado ao lado daquela mulher alta. 
Ficou intrigado. Nunca estivera to prximo assim de um daqueles bichos, s de algumas peles. No costumavam caar lobos, e s os vira a distncia, correndo para 
esconder-se. Lobo o olhava de um jeito que fez Dolando pensar que estava sendo, por sua vez, avaliado. Depois desviou os olhos dele. Os animais no representavam 
qualquer animais fosse mesmo perita em xamanismo, com ou sem treinamento. Ofereceu-lhe, ento, as duas mos, espalmadas, para cima.
     Em nome da Grande Me, Mudo, eu lhe dou as boas-vindas. Ayla dos Mamuti.
     Em nome de Mut, a Grande Me Terra, eu lhe agradeo, Dolando dos Xaramudi  disse Ayla, tomando as mos dele.
    A mulher tem um sotaque dos mais curiosos, pensou Dolando. Fala Mamuti, mas com uma nota diferente. No fala como Tholie. Talvez seja de outra regio. Dolando 
conhecia suficientemente a lngua para entender o que os Mamuti diziam. Muitas vezes viajara at a foz do grande rio para negociar com eles. Ajudara a trazer de 
l Tholie, a mulher Mamuti. Era o mnimo que podia fazer pelo lder Ramudi, contribuir para que o filho da sua lareira casasse com a mulher que estava decidido 
a ter. Tholie se esforara para que muitos aprendessem a sua lngua e isso fora til em expedies subsequentes de comrcio.
    A aceitao de Ayla por Dolando foi o sinal para que todos dessem as boas-vindas a Jondalar e  mulher que ele trouxera. Tholie deu um passo  frente, e Jondalar 
sorriu. De um modo complexo, atravs do casamento com o irmo, eles eram afins, e ele gostava dela.
    Tholie!  disse, com um largo sorriso, tomando as mos dela nas suas.  No tenho palavras para dizer-lhe o quanto fico contente de v-la.
     maravilhoso ver voc tambm. E no h dvida de que aprendeu a falar Mamuti muito bem. Devo confessar que muitas vezes duvidei que voc um dia ficasse to 
fluente.
    Ela soltou-lhe as mos, ps-se nas pontas dos ps, e deu-lhe um abrao. Ele se curvou e, impulsivamente, por sentir-se feliz de estar l, levantou no ar a mulher 
para abra-la direito. Tholie corou, um tanto desconcertada, pensando que aquele homem alto, bonito, imprevisvel, certamente mudara. No se lembrava de que ele 
fosse to espontneo em demonstrar seus afetos no passado. Quando ele a colocou no cho, ela o estudou e tambm  mulher que viera com ele, e que devia ter alguma 
coisa a ver com aquilo.
     Ayla do Acampamento do Leo dos Mamuti, apresento-lhe Tholie, dos Xaramudi e, antes, dos Mamuti.
     Em nome de Mut ou Mudo, ou que nome seja que voc Lhe d eu lhe dou as boas-vindas, Ayla dos Mamuti.
     Em nome da Me Comum, eu lhe agradeo, Tholie dos Xaramudi. Fico muito feliz em conhec-la. Tinha ouvido falar muito de voc. No tem parentes no Acampamento 
do Leo? Penso que Talut disse que vocs eram aparentados quando Jondalar mencionou seu nome  disse Ayla. Sentia que aquela mulher to perspicaz a estudava. Se 
ela ainda no soubesse disso, logo descobriria que Ayla no era Mamuti de nascena.
     Sim, somos parentes. No parentes prximos. Eu provenho de um acampamento do sul. O Campo do Leo fica mais para o norte  disse Tholie.  Eu os conheo. Todo 
mundo conhece Talut. E a irm dele, Tulie,  muito respeitada  disse Tholie.
    Esse sotaque no  Mamuti, pensava, nem Ayla  um nome Mamuti. Talvez nem seja o sotaque, mas um modo estranho de pronunciar algumas palavras. Ela fala bem. 
Talut sempre foi bom nisso, de aceitar pessoas. Ele at adotou aquela velha resmungona, e a filha, que casou mal, muito abaixo do seu nvel. Gostaria de saber mais 
sobre essa Ayla e sobre os animais, pensou, depois olhou para Jondalar.
     E Thonolan? Est com os Mamuti?
    A dor nos olhos dele lhe disse o que acontecera antes que ele falasse.
            Thonolan morreu.
            Lamento ouvir isso. Markeno vai pelo mesmo caminho. No posso dizer que isso seja, para mim. inesperado. Sua alegria de viver morreu com Jetamio. Algumas 
pessoas se recuperam de uma tragdia, outras no conseguem fazer isso  disse Tholie.
    Ayla gostava da maneira como a mulher se expressava. No sem sentimento, mas de modo aberto e direto. Ela era ainda muito Mamuti.
    Os outros membros presentes da Caverna saudaram Ayla. Ela percebeu alguma reserva. Mas estavam todos curiosos. Com Jondalar eram muito mais naturais. Ele era 
da famlia. No havia dvida de que o consideravam como tal e que o recebiam de volta com os braos abertos.
    Darvalo ainda tinha nas mos o chapu com as amoras-pretas e esperava que os cumprimentos terminassem. Entregou o presente a Dolando.
            A tem algumas amoras para Roshario.
    Dolando notou aquela estranha cesta. No era feita como as cestas da Caverna.
            Ayla me deu as amoras  continuou Darvalo.  Eles as colhiam quando nos encontramos. Essas j estavam catadas.
    Vendo o rapaz, Jondalar pensou de repente na me de Darvo. Ele no pensara que Serenio poderia no estar l e ficara desapontado. Ele a amara certo modo, de 
forma sincera, e agora se dava conta de que quisera muito rev-la. Estaria gravida Quando partiu? Grvida de um filho do seu esprito? Talvez pudesse perguntar isso 
a Roshario. Ela saberia de algo.
     Vamos entregar-Ihe as amoras  disse Dolando, com um mudo agradecimento de cabea para Ayla.  Estou certo de Que ficar feliz. Se voc quiser vir, Jondalar, 
acho que ela est acordada, e gostar de v-lo. Chame Ayla, Roshario vai querer conhec-la.  duro para ela. Voc sabe como sempre foi, sempre atarefada, sempre 
a primeira a saudar visitantes.
    Jondalar traduziu as palavras deles, e Ayla disse que entraria com eles. Deixaram os cavalos para pastar, mas ele disse a Lobo que no a deixasse. Percebia que 
a presena do carnvoro ainda assustava os outros. Cavalos domesticados eram coisa estranha, mas no perigosa. Um lobo era um predador e podia fazer-lhes mal.
            Acho melhor, Jondalar, que Lobo fique comigo por enquanto. Pergunte a Dolando se ele concorda que ele me acompanhe. Diga que Lobo est acostumado a 
ficar dentro de casa  disse Ayla, em Mamuti.
    Jondalar repetiu o pedido, embora Dolando tivesse entendido tudo. Vendo no rosto dele as suas reaes, Ayla tinha certeza disso. Lembra se-ia disso, no futuro.
    Caminharam de volta em direo a uma escultura de madeira, que parecia uma tenda oblqua, localizada debaixo do ressalto protetor da rocha, depois de uma lareira 
central, que era, obviamente, um local de reunio.
    Ayla distinguiu as caractersticas da construo quando se aproximaram. O pau de cumeeira fora fincado no cho atrs e outro se apoiava na frente. Tbuas de 
carvalho, afinadas numa ponta, tiradas radialmente de um grosso tronco de rvore, haviam sido encostadas  trave, mais curtas no fundo, mais longas na frente. Viu, 
quando chegou ainda mais perto, que essas tbuas estavam fixadas umas s outras com tiras de salgueiro-choro, passadas por orifcios feitos de antemo.
    Dolando ergueu uma cortina de couro macio, amarelo, e segurou-a at que todos entrassem. Prendeu-a, depois, para que houvesse mais claridade. L dentro, havia 
frestas entre algumas das pranchas, que permitiam a passagem da luz do dia, mas as paredes estavam recobertas de peles em certos lugares para impedir correntes de 
ar, se bem que no houvesse muito vento naquele nicho encravado na montanha. Perto da entrada via-se uma pequena lareira. A prancha que ficava imediatamente por 
cima dela, no teto, tinha uma sada circular para a fumaa, mas nenhuma defesa contra a chuva. A cortina da porta protegia a casa contra chuva e neve. Ao longo de 
uma das paredes havia uma cama, uma larga prateleira de madeira presa na parede por um dos lados e sustentada, do outro, por pernas. A tbua tinha almofadas de couro 
cheias de palha e algumas peles. Na luz precria, Ayla custou a distinguir a figura de uma pessoa reclinada.
    Darvalo se ajoelhou junto do leito, com as frutas.
            Trouxe-lhe as amoras que prometi, Roshario, mas no fui eu quem as apanhou. Foi Ayla.
    A mulher abriu os olhos. No tinha dormido, estava apenas repousando, e no sabia da chegada de visitas. Estranhou o nome mencionado por Darvalo.
     Quem apanhou as amoras?
    Dolando se debruou sobre a cama e ps a mo na testa da mulher.
     Roshario! Veja quem est aqui! Jondalar voltou.
            Jondalar?  disse ela, olhando o homem que se ajoelhava agora ao lado de Darvalo. Ele ficou impressionado com a dor que marcava o rosto da doente.  
E mesmo voc? s vezes sonho e penso que vejo meu filho, ou Jetamio, e depois verifico que no era verdade. Ser voc mesmo, Jondalar, ou no passa de outro sonho?
     No  sonho, Rosh  disse Dolando, e Jondalar viu que ele tinha os olhos marejados.  Ele est mesmo aqui. Trouxe algum junto. Uma mulher Mamuti. O nome 
dela  Ayla.  Ao dizer isso, fez um sinal a Ayla para que se aproximasse.
    Ayla mandou que Lobo ficasse quieto e avanou sozinha para a mulher. Que tinha grandes dores, ficou logo aparente. Os olhos dela estavam como que vidrados e 
as olheiras escuras faziam com que parecessem fundos. O rosto estava avermelhado de febre. Mesmo a distncia e debaixo da coberta leve, pde ver que o brao, entre 
o ombro e o cotovelo, estava virado num ngulo grotesco.
     Ayla dos Mamuti, esta  Roshario dos Xaramudi  disse Jondalar.
    Darvalo cedeu-lhe o lugar, e Ayla se postou junto do leito.
     Em nome da Me, voc  bem-vinda, Ayla dos Mamuti  disse Roshario, tentando erguer-se, mas desistindo em seguida e se recostando outra vez nas almofadas. 
 Desculpe no poder saud-la da forma correta.
     Em nome da Me, agradeo  disse Ayla.  No precisa se levantar.
    Jondalar traduziu, mas Tholie inclura praticamente todo mundo nas suas aulas, e muitos tinham uma boa base para entender Mamuti. Roshario inclusive, que fez 
um sinal afirmativo de cabea.
     Jondalar, ela est sofrendo muito. Temo que a fratura tenha sido muito sria. Quero examinar-lhe o brao  disse Ayla, falando em Zelandonii para que a doente 
no entendesse a gravidade do ferimento. Mas isso no escondeu o tom de urgncia na sua voz.
     Roshario, Ayla  uma curandeira, uma filha da Lareira do Mamute. Ela gostaria de ver o seu brao  disse Jondalar, e olhou para Dolando, a fim de certificar-se 
de que ele no se opunha. O chefe estava disposto a tentar tudo o que pudesse ajudar, desde que Roshario concordasse.
     Uma curandeira?  disse a mulher.  Xam?
     Sim, como uma Xam. Ela pode examinar o brao?
            Receio que seja tarde demais para fazer alguma coisa, mas pode examinar.
    Ayla descobriu o brao. Alguma tentativa fora feita, evidentemente, para endireit-lo, a ferida fora limpa, e comeava a cicatrizar, mas o brao estava inchado 
e o osso saltado debaixo da pele num ngulo forado. Ayla apalpou o brao, procurando ser to delicada quanto possvel. A mulher apenas estremeceu uma vez, quando 
ela levantou o brao para ver o lado de baixo, mas no gemeu. Ayla sabia que o exame era doloroso, mas precisava encontrar o osso debaixo da pele. Ayla examinou 
os olhos de Roshario, cheirou-lhe o hlito, tirou-lhe o pulso, no pescoo e no punho, depois ficou de ccoras.
     Est cicatrizando, mas no encanado como deveria. Ela pode sarar, mas no creio que venha a recobrar o uso do brao ou da mo, e vai sentir sempre alguma dor 
 disse Ayla, falando na lngua que todos entendiam at certo ponto. Fez uma pausa, para que Jondalar traduzisse.
            Voc pode fazer alguma coisa?  perguntou Jondalar.
            Acho que sim. Talvez j seja tarde, mas eu gostaria de quebrar o brao de novo onde a fratura est ficando consolidada erradamente e endireit-lo. O 
problema  que onde um osso foi emendado ele fica muitas vezes mais forte do que antes. Pode quebrar errado. E a ela ter duas fraturas, e mais dor, inutilmente.
    Houve um silncio depois que Jondalar traduziu. Finalmente, a prpria Roshario falou.
            Se ele quebrar errado, no ficar pior em nada do que est agora, no  mesmo?  Aquilo era mais uma declarao do que uma pergunta.  Quero dizer, 
no poderei us-lo nas condies em que se encontra, de modo que outra fratura no vai agravar a situao.
    Jondalar traduziu as palavras dela, mas Ayla j estava aprendendo os sons e entonaes da lngua Xaramudi e comparando-a com o Mamuti. O tom e a expresso 
da doente transmitiam-lhe ainda mais. Ayla compreendia o sentido do que Roshario dissera.
     Mas voc poderia sofrer mais sem qualquer benefcio em troca.  disse, sabendo qual seria a deciso de Roshario, mas querendo que ela ficasse ciente de todas 
as implicaes.
     No tenho nada no momento  disse a mulher, sem esperar pela traduo.  Se voc conseguir encanar o brao direito, poderei us-lo depois?
    Ayla esperou que Jondalar desse a sua verso das palavras da mulher na lngua que ela sabia para estar segura de ter o sentido bem claro.
            No creio que poder moviment-lo inteiramente, mas ter pelo menos alguns movimentos. Ningum pode ter certeza disso.
    Roshario no hesitou.
            Se houver alguma chance de que possa usar meu brao outra vez, quero fazer a operao. Uma Xaramudi precisa de dois bons braos para descer pela trilha 
at o rio. De que serve uma Xamudi se sequer pode descer at a doca Ramudi?
    Ayla ouviu a traduo dessas palavras. Depois, olhando diretamente para a mulher, disse:
            Jondalar, diga-lhe que vou procurar ajud-la, mas diga-lhe tambm que no  o fato de ter uma pessoa dois braos perfeitos a coisa mais importante. 
Conheci um homem que tinha s um brao e um olho, e levava uma vida til, sendo amado e respeitado por todo o seu povo. Roshario no far menos que ele. No  mulher 
que se deixe abater. Qualquer que seja o resultado da minha interveno, ela continuar a ter uma vida til. Achar um jeito, e ser sempre querida e respeitada.
    Roshario ficou olhando para Ayla enquanto ouvia as palavras dela pela boca de Jondalar. Depois, apertou os lbios e assentiu de cabea. Em seguida, respirou 
fundo e cerrou os olhos.
    Ayla se ps de p, j pensando no que tinha a fazer.
     Jondalar, preciso da minha cesta, a da direita. E diga a Dolando que me arranje alguns pedaos finos de madeira para as talas. E lenha, e uma vasilha grande, 
que ele no se importe, depois, de jogar fora. No deve ser usada outra vez para cozinhar. Pretendo fazer nela um remdio forte para a dor.
    A mente dela continuou a trabalhar, antecipando coisas. Preciso faz-la dormir quando o brao for quebrado, pensava. Iza usaria datura.  forte mas tira a dor 
e funciona como narctico. Tenho ainda um pouco, mas fresca seria melhor. Espera... no vi alguma, recentemente? Concentrou-se, depois exclamou. Vi, sim!
     Jondalar, enquanto voc apanha a minha cesta, vou colher um pouco daquela ma-espinhosa que vi no caminho  disse, alcanando a entrada em duas passadas.
     Lobo, venha comigo!  comandou.
    J estava no meio do campo quando Jondalar a alcanou.
    Dolando ficou na porta da casa, olhando-os e ao lobo. Embora no tivesse dito nada, pensava sempre no animal. Notara que ele permanecia o tempo todo ao lado 
da mulher, e que procurava andar no ritmo dos passos dela. Observara tambm os gestos sutis que Ayla fizera quando foi at a cama de Roshario; e de como o lobo se 
deitara no cho, embora continuasse de cabea alta e orelhas em p, atento a cada movimento da mulher. Quando Ayla saiu, ele se levantou obedecendo a um comando, 
pronto para segui-la.
    Ficou de olhos neles at que Ayla e o lobo, que controlava com tamanha segurana, desapareceram no fim do paredo de pedra. Depois contemplou a mulher na cama. 
Pela primeira vez desde aquele horrvel momento em que Roshario tinha escorregado e cado, Dolando ousava ter uma centelha de esperana.
    Quando Ayla voltou, trazendo uma cesta e uma braada da planta conhecida por datura ou ma-espinhosa que ela havia lavado na piscina natural, j encontrou  
sua espera um caixote quadrado, de cozinhar, que resolveu examinar mais detidamente depois, um outro cheio d'gua, um fogo aceso na lareira, com diversas pedras 
arredondadas postas nele para esquentarem, e alguns pedaos chatos de madeira. Fez um sinal de aprovao dirigido a Dolando. Em seguida, remexeu na sua cesta e tirou 
dela vrias tigelas e sua velha bolsa de remdios, feita de pele de lontra.
    Mediu, usando uma tigela pequena, certa quantidade de gua, que despejou na caixa de cozinhar, juntou-lhe diversas das plantas datura, inteiras, razes inclusive, 
depois borrifou de gua as pedras quentes. Deixando-as no fogo, para esquentarem ainda mais, esvaziou o contedo de sua bolsa de remdios e escolheu alguns artigos. 
Quando guardava o resto, Jondalar entrou.
     Os cavalos esto bem, Ayla, gostando do capim no campo, mas recomendei a todos que se mantenham longe deles por enquanto.  E, dirigindo-se a Dolando:  Eles 
podem ficar nervosos com estranhos, e quero evitar algum acidente.
    O lder da comunidade concordou. Ele no tinha muito a dizer, pr ou contra, no momento.
     Lobo no parece muito feliz do lado de fora, Ayla, e tem gente com medo dele. Acho que voc devia traz-lo para c.
     Eu tambm preferia t-lo aqui dentro comigo, mas pensei que Dolando e Roshario talvez achassem que ele devia esperar l fora.
     Deixe que eu consulte Roshario. Depois, acho que Ayla poder traz-lo  disse Dolando, sem esperar por traduo e falando numa salada de Mamuti e Xaramudi 
que Ayla teve dificuldade de entender. Jondalar olhou para ele com alguma surpresa, mas Ayla continuou a conversa com naturalidade.
            Tenho de medir essas talas em Roshario  disse, com os pedaos chatos de madeira na mo.  Depois, Dolando, quero que voc raspe cada um deles at ficarem 
sem farpas.  Em seguida, apanhou um pedao de pedra frivel que estava perto da lareira.  Esfregue-as com este
fragmento de arenito at ficarem bem lisas. Voc ter alguma pele macia que eu possa cortar?
    Dolando sorriu, embora fosse um sorriso um tanto amargo.
            Somos famosos justamente por isso, Ayla. Ns preparamos apele da camura e ningum faz couro mais macio que os Xamudi.
    Jondalar via os dois conversando um com o outro e se entendendo, embora a linguagem que usavam a rigor no existisse, e abanava a cabea, tomado de espanto. 
Ayla devia ter percebido que Dolando entendia um pouco de Mamuti, e ela mesma j estava usando expresses Xaramudi. Mas onde teria aprendido as palavras para "talas" 
e "arenito"?
            Eu lhe trago camura depois de falar com Roshario  disse Dolando.
    Foram juntos ter com a mulher na cama. Dolando e Jondalar explicaram que Ayla viajava com um lobo como companhia  no falaram dos cavalos ainda , e que gostaria 
de lev-lo para dentro de casa.
            Ela tem um controle perfeito sobre o animal  disse Dolando. Ele obedece as suas ordens e no representa ameaa para ningum.
    Jondalar olhou-o com surpresa. De algum modo, houvera maior troca de informaes entre Ayla e Dolando do que ele podia explicar.
    Roshario concordou rapidamente. Embora estivesse curiosa, no se admirava de que uma mulher pudesse ser capaz de controlar um lobo. Aquilo at a tranquilizava.
Jondalar, obviamente, trouxera uma Xam poderosa que sabia que ela precisava de ajuda, exatamente como o seu velho Xam soubera um dia, muitos anos antes, que o 
irmo de Jondalar, que levara uma chifrada de rinoceronte, precisava dele. Ela no podia explicar como Aqueles que Serviam A Me sabiam de tais coisas. Mas sabiam 
 e isso lhe bastava.
    Ayla foi at a porta e chamou Lobo. Depois levou-o para conhecer Roshario.
    O nome dele  Lobo  disse.
    De algum modo, ao olhar nos olhos aquela bela criatura selvagem, ela se deu maior conta da sua prpria angstia e vulnerabilidade. Lobo ps uma pata na beirada 
da cama. Depois, baixando as orelhas, avanou com a cabea, sem qualquer mostra de ameaa, e lambeu o rosto dela, ganindo de leve como se estivesse sentindo a dor 
que ela sentia. Ayla se lembrou de Rydag e do entendimento que nascera entre a criana doente e o lobinho que crescia. Teria essa experincia ensinado o animal a 
compreender a carncia e o sofrimento dos humanos?
    Ficaram todos surpresos com a atitude afetuosa do bicho, mas Roshario ficou emocionada. Sentiu que alguma coisa de verdadeiramente miraculoso acontecera, e que 
aquilo era um bom augrio. Estendeu, ento, sem medo, seu brao bom para afag-lo.
            Obrigada, Lobo  disse.
    Ayla disps os pedaos de madeira junto do brao de Roshario, depois passou-os a Dolando, indicando as medidas que deviam ter. Quando Dolando saiu, ela conduziu 
Lobo para um canto da casa de madeira, depois verificou a temperatura das pedras quentes e viu que estavam prontas. Comeou a retirar uma delas do fogo com a ajuda 
de dois gravetos, mas Jondalar apareceu com um engenho de madeira curva, feito especialmente para segurar pedras de cozinhar com perfeita segurana, e lhe ensinou 
como se usava. Quando Ayla ps vrias pedras quentes na caixa de cozinhar para ferver as daturas, examinou aquele estranho recipiente com maior ateno.
    Nunca vira nada igual. A caixa, quadrada, fora feita de uma nica pea de madeira, envergada em torno de sulcos entalhados  no at o fim  em trs dos cantos. 
No quarto ela estava presa com tarugos. Ao ser encurvado, o fundo, quadrado, fora ajustado numa inciso cortada ao longo da prancha. O exterior fora ornamentado 
com incises, e uma tampa com ala fechava o topo.
    Aquele povo criava em madeira as coisas mais inesperadas. Ayla pensou que seria interessante ver como eram feitas.
    Nesse momento Dolando regressou, com algumas peles amarelas, que lhe deu.
            Bastam estas?  perguntou.
            Estas so muito finas  disse Ayla.  Precisamos de peles macias, absorventes, mas no tm de ser da sua melhor qualidade.
    Jondalar e Dolando sorriram.
     Essas no so as melhores  disse Dolando.  Nunca peles como essas seriam postas  venda por ns. Tm muitos defeitos. So para uso dirio.
    Ayla sabia alguma coisa sobre a arte de curtir couro e preparar peles, e aquele material era malevel e macio, com uma textura delicada, de grande requinte. 
Ficou impressionada e quis saber mais sobre o assunto, mas a hora no era propcia. Usando a faca que Jondalar fizera para ela, uma lamina fina de slex montada 
num cabo de marfim tirado de um dente de mamute, ela cortou a camura em largas tiras.
    Depois abriu um dos seus pacotes e despejou em uma tigela pequena um p grosso de razes piladas e secas de nardo-indiano cujas folhas se parecem com as da dedaleira, 
mas com flores amarelas semelhantes s do dente-de-leo. Depois misturou ao p um pouco de gua quente da caixa de cozinhar. Uma vez que estava preparando um cataplasma 
para ajudar o osso a emendar, um pouco de datura no faria mal, e suas qualidades entorpecentes poderiam at contribuir para a cura. Mas tambm acrescentou mileflio 
pulverizado, por suas propriedades analgsicas e curativas. Retirou as pedras da vasilha e ps em seu lugar outras mais quentes para que o decocto ficasse fervendo 
em fogo brando, cheirando-o para ver se estava suficientemente forte.
    Quando achou que j estava bom, Ayla tirou uma poro da beberagem, deixou-a esfriar um pouco, e levou-a para Roshario. Dolando estava sentado com ela. Ayla 
pediu a Jondalar que traduzisse exatamente o que tinha a dizer para que no houvesse mal-entendidos.
            Este remdio vai suavizar a dor e faz-la dormir  disse Avia , mas  muito forte e, por isso, perigoso. Algumas pessoas no suportam essa dosagem 
a. Vai deixar seus msculos relaxados, de modo que poderei tocar os ossos. Mas voc pode tambm urinar sem querer ou, at, evacuar, porque certos msculos estaro 
relaxados. H at quem pare de respirar. Se isso acontecer, voc morre, Roshario.
    Ayla esperou calada que Jondalar repetisse a sua declarao, e mais um pouco para ter certeza de que a coisa estava entendida. Dolando ficou visivelmente perturbado.
     Voc tem de empregar isso? No pode quebrar o brao dela sem esse remdio?
     No. Seria por demais doloroso, os msculos de Roshario esto excessivamente rijos. Resistiro, e ficar muito mais difcil quebrar o osso no lugar certo. 
No tenho outro recurso to bom quanto este para amortecer a dor. No posso partir o osso e emend-lo sem isto, mas o risco  esse, que voc agora conhece. Se eu 
no fizer nada, ela provavelmente viver, Dolando.
     Mas serei intil e viverei em dores. O que no  viver  disse Roshario.
     Ter dores, sim, mas isso no quer dizer que ficar inutilizada. Existem remdios para aliviar a dor, embora eles possam subtrair alguma coisa de voc. Talvez 
no consiga pensar com a mesma clareza, por exemplo  explicou Ayla.
     A escolha , ento, entre ficar intil e idiota  disse Roshario  E se eu morrer, ser morte indolor?
     Voc adormece e no acorda mais, mas ningum sabe o que pode acontecer nos seus sonhos. Sua dor pode at ir com voc para o outro mundo.
     Voc acredita que a dor possa acompanhar algum no outro mundo?  perguntou Roshario.
     No, no acredito  respondeu Ayla abanando a cabea.  Mas no sei.
     Acha que vou morrer se tomar isso?
     Eu no lhe daria isso para beber se achasse. Poder, no entanto, ter sonhos estranhssimos. Alguns usam essa erva, preparada de outro modo, para viajar por 
mundos do esprito.
    Jondalar traduzia tudo, mas havia entre as duas mulheres uma dose de compreenso que as palavras dele apenas esclareciam. Ayla e Roshario sentiam como se estivessem 
falando diretamente uma com a outra.
     Talvez voc no deva correr o risco, Roshario  disse Dolando.  No quero perd-la.
    Ela voltou os olhos para o homem com ternura.
     A Me vai chamar um de ns para o Seu seio quando chegar a hora, e no os dois ao mesmo tempo. Ou voc chora a minha perda ou choro a sua. Ningum pode impedir 
que seja assim. Mas se Ela quiser que eu passe mais tempo com voc, meu Dolando, no desejo pass-lo Sofrendo e imprestvel. Prefiro morrer agora, tranquilamente. 
Voc ouviu o que Ayla disse:  improvvel que eu morra. E se a operao no funcionar e eu no ficar melhor, pelo menos saberei que fiz uma tentativa e isso me dar 
foras para continuar.
    Dolando, sentado na cama ao lado dela, segurando-lhe o brao bom, olhou para a mulher com quem partilhara tanta coisa da sua vida. Viu a determinao nos olhos 
dela. E, por fim, assentiu com a cabea. Depois voltou-se para Ayla.
     Voc foi honesta. Agora eu serei honesto. No vou recrimin-la se no fizer nada por ela. Mas se ela morrer nas suas mos, ter de sair daqui imediatamente. 
No posso garantir que no vou responsabilizar voc, e no sei qual ser a minha reao. Considere isso antes de comear.
    Jondalar traduziu pensando nas perdas sucessivas que Dolando sofrera: o filho de Roshario  filho do seu lar, do seu corao  morto logo ao fazer-se homem; 
e Jetamio, a menina que fora como uma filha para Roshario e que conquistara tambm o corao de Dolando. Ela crescera para preencher o vazio deixado pela morte do 
primognito depois que sua prpria me morrera. Sua luta para andar de novo, para superar a paralisia que j levara tantos, a fizera querida de todos, inclusive 
Thonolan. Parecia injusto que ela tivesse de sucumbir s agonias do parto. Jondalar podia compreender se Dolando culpasse Ayla pela morte de Roshario, mas ele o 
mataria antes que o chefe pudesse fazer-lhe mal. Ficou pesando se Ayla no estaria assumindo uma responsabilidade sria demais.
     Talvez voc devesse pensar duas vezes, Ayla  disse, falando em Zelandonii.
     Roshario est sofrendo muito, Jondalar. Tenho de ajud-la, se ela o desejar. E se ela aceita os riscos, tambm aceito os meus. H sempre um risco  a correr. 
E eu sou uma curandeira.  o que sou. No posso fazer nada contra isso, como lza tambm no podia.  Em seguida, olhou para a mulher estendida na cama.  Estou pronta, 
Roshario, se voc estiver.

16
___________________________________________________________________________


    Ayla se debruou sobre o leito da paciente, segurando a tigela com o liquido que amornava. Mergulhou nele o dedo mnimo para testar a temperatura, colocou a 
tigela no cho, e sentou-se por terra, de pernas cruzadas na posio da flor de ltus, por um momento.
    Seus pensamentos recuaram para o tempo em que vivia com o Cl, principalmente para o perodo de treinamento que recebera da curandeira altamente capacitada que 
a criara. Iza cuidava da maior parte das doenas comuns e ferimentos pequenos, mas quando tinha de tratar de um problema srio  um acidente de caa mais grave, 
uma doena que ameaava ser mortal , recorria a Creb, na sua capacidade de Mo-gur. Pedia que ele invocasse os poderes do alto. Iza era uma curandeira, mas no mbito 
do Cl. Creb era o mago, o Xam, Creb tinha acesso ao mundo dos espritos.
    Entre os Mamuti e, a julgar pelo que Jondalar dizia, entre os do seu povo tambm, as funes de curandeira e Mog-ur no eram, necessariamente, distintas. Aqueles 
que curavam intercediam, muitas vezes, junto ao mundo dos espritos, embora nem Todos os que Serviam  Me fossem igualmente versados em todas as matrias que sua 
carreira oferecia. O Mamute do Acampamento do Leo era muito mais como Creb. Seu interesse eram as coisas do esprito e da mente. Conhecia certos remdios e tratamentos, 
mas seus dotes de curandeiro eram relativamente primrios, e cabia, muitas vezes, a Nezzie, companheira de Talut, tratar de doenas e acidentes menores do Acampamento. 
Na Reunio de Vero, porm, Ayla ficara conhecendo muitos curandeiros de grande sabedoria e habilidade entre os Mamuti e trocara ideias com eles.
    Mas o aprendizado de Ayla fora de ordem prtica. Como Iza, ela no era rezadeira, mas uma curandeira. No se sentia  vontade com assuntos do mundo dos espritos 
e desejava, num momento como aquele, ter algum como Creb para quem apelar. Queria a assistncia de poderes
superiores, dispostos a vir em seu auxlio. Sentia que precisava deles. E se Mamute a iniciara na compreenso dos domnios espirituais da Grande Me, ela ainda estava 
mais familiarizada com o mundo espiritual em que fora criada, principalmente com seu prprio totem, o esprito do Grande Leo da Caverna.
    Tratava-se de um esprito do Cl, mas ela sabia que era um esprito poderoso. Alis, Mamute dissera que os espritos de todos os animais e, na verdade, todos 
os espritos existentes eram parte da Grande Me Terra. Ele at inclura o totem protetor dela, o Leo da Caverna, na cerimnia em que ela fora adotada. E ela sabia 
como pedir o auxlio do seu totem. Roshario no pertencia ao Cl, pensou, mas talvez o esprito do Leo da Caverna estivesse disposto a ajud-la, assim mesmo.
    Ayla fechou os olhos e comeou a fazer os belos movimentos ondulatrios da mais antiga, sagrada e silente linguagem gestual do Cl, a que todos os cls conheciam 
e usavam para falar com o mundo dos espritos.
     Grande Leo da Caverna, esta mulher aqui presente, escolhida pelo poderoso espirito do totem,  grata por ter sido escolhida.  grata pelos Dons que foram 
dados, grata, sobretudo, pelos Dons interiores, pelas lies aprendidas e pela sabedoria adquirida.
    "Grande e Poderoso Protetor, conhecido por escolher machos de valor e carentes de grande proteo, mas que escolheu esta mulher e marcou-a com o sinal do totem 
quando ela ainda era menina, esta mulher  grata. Esta mulher no sabe por que o Grande Leo da Caverna do Cl escolheu uma criana do sexo feminino, e uma dos Outros, 
mas  grata por ter sido achada digna dessa honra e grata pela proteo do grande totem.
    "Grande Esprito do Totem, essa mulher que pediu antes orientao pede agora assistncia. O Grande Leo da Caverna guiou esta mulher e ela aprendeu as artes 
de uma curandeira. Esta mulher sabe curar. Esta mulher conhece remdios para doenas e ferimentos, conhece mezinhas e lavagens, emplastros e outros remdios feitos 
de plantas. Esta mulher conhece tratamentos e prticas medicinais. Esta mulher  grata por tais conhecimentos e grata pelo conhecimento ainda desconhecido que o 
Esprito do Totem lhe possa fazer chegar. Mas esta mulher no conhece os caminhos do mundo do espritos.
    "Grande Esprito do Leo da Caverna, que habita as estrelas no mundo dos espritos, a mulher que aqui jaz no  do Cl. A mulher pertence aos Outros, como esta 
mulher que o Grande Esprito escolheu um dia e que pede agora ajuda para a Outra. Essa que sofre grandes dores, mas a dor pior  a ntima. A mulher est disposta 
a sofrer a dor fsica, mas achaque sem os dois braos ficar imprestvel. A mulher pode ser uma boa mulher, uma mulher til. Esta curandeira pode ajud-la, mas a 
ajuda  prenhe de riscos. Esta mulher pede a assistncia do esprito do Grande Leo da Caverna e de quaisquer espritos que o Grande Totem eleja para gui-la e para 
socorrer a mulher que jaz aqui, enferma.
    Roshario, Dolando e Jondalar estavam to mudos quanto Ayla, enquanto ela executava aqueles gestos incomuns. Dos trs, Jondalar era o nico que sabia o que ela 
estava fazendo, e ficou observando os outros com a mesma ateno com que a observava. Se bem que seu conhecimento linguagem do Cl fosse rudimentar  a coisa era 
muito mais complexa do que havia imaginado , entendia que ela estava pedindo auxlio imundo dos espritos.
    Jondalar simplesmente no via algumas das nuances mais sutis de um sistema de comunicao que se desenvolvera em bases inteiramente diversas de qualquer linguagem 
vocal. E era impossvel de traduzir completamente. Por menor que fosse, a traduo em palavras parecia pobre e simplista, enquanto que os gestos de Ayla tinham grande 
beleza. Ele se deu conta de que,em certa poca, teria ficado embaraado com a atitude dela e sorriu consigo mesmo dessa tolice. Estava curioso, no entanto, para 
ver interpretao que Roshario e Dolando dariam ao comportamento de Ayla.
    Dolando parecia perplexo e um tanto inquieto, pois o que ela fazia era de todo inusitado. Preocupado como estava com Roshario, tudo o que fosse estranho, embora 
feito com boas intenes, encerrava um gro de ameaa. Quando Ayla terminou, ele encarou Jondalar com uma expresso interrogativa. Mas Jondalar apenas sorriu.
    O ferimento deixara Roshario debilitada, fraca e febril, no tanto que lhe causasse delrio, mas esgotada e desorientada, mais aberta  sugesto. Concentrara-se 
naquela mulher desconhecida e se via estranhamente comovida. No tinha a menor ideia do que os movimentos de Ayla significavam, mas admirava sua fluncia e graciosidade. 
Era como se a curandeira danasse com as mos, mais do que com as mos, na verdade Ela evocava uma beleza incorprea com aqueles movimentos. Seus braos e ombros, 
mesmo seu tronco, pareciam partes integrantes das suas mos danarinas, correspondendo a algum ritmo interno que tinha decididamente um propsito. Embora no entendesse 
mais aquilo do que o fato de que Ayla tivesse sabido que ela precisava de sua ajuda, Roshario estava segura de que aquilo era relevante e que tinha algo a ver coma 
a vocao da estranha. Ela era Xam. Isso bastava. Ela sabia mais que as pessoas comuns, e tudo que fizesse de misterioso apenas acrescentava a sua credibilidade.
    Ayla apanhou a tigela e se ajoelhou junto da cama. Testou mais uma vez o lquido com o dedo mnimo, depois sorriu para Roshario.
            Que a Grande Me de Todos zele por voc, Roshario  disse. Levantou a cabea e os ombros da mulher o bastante para que bebesse confortavelmente, e levou 
a pequena tigela at sua boca.
    Era um preparado amargo e bastante ftido, e Roshario fez uma careta, mas Ayla a encorajou at que ela consumisse todo o contedo da tigela. Ayla ps a cabea 
da mulher de volta  almofada e sorriu outra vez, mas vigiava para ver os primeiros sinais de efeito.
            Avise-me quando se sentir sonolenta  disse, embora aquilo fosse apenas confirmar outras indicaes que j via: mudana no tamanho das pupilas, ritmo 
da respirao.
    A curandeira no teria sido capaz de dizer que ministrara  doente uma droga que inibia o sistema nervoso parassimptico e paralisava as terminaes nervosas. 
Mas podia observar os resultados da poo, e tinha bastante experincia para saber se eram os apropriados. Quando percebeu que as plpebras de Roshario estavam pesadas 
de sono, palpou trax e o estmago para monitorar a relaxao dos msculos elsticos do seu trato digestivo, embora no tivesse descrito o que acontecia nesses termos. 
Observou a respirao da paciente, a fim de saber a reao dos pulmes e dos brnquios. Quando se convenceu de que Roshario do tranquilamente e no parecia em perigo, 
ps-se de p.
     Dolando,  melhor que saia agora. Jondalar fica para ajudar-me,  disse com voz baixa mas firme. Suas maneiras competentes lhe davam autoridade.
    O lder comeou a objetar, mas se lembrou de que Xam jamais permitia a presena nem mesmo de parentes prximos num caso daqueles, e no oficiava at que se 
retirassem. Talvez todos procedessem assim, pensou. Com um ltimo olhar para a mulher adormecida, deixou a casa.
    Jondalar j vira Ayla assumir assim o comando em outras ocasies. Ela parecia esquecer de si mesma em sua concentrao numa pessoa doente ou sofredora e, sem 
faz-lo deliberadamente, dava ordens aos outros para executarem o que julgasse necessrio. No lhe ocorria que algum fosse questionar seu direito de ajudar quem 
precisava de ajuda. Em consequncia, ningum questionava mesmo.
     Mesmo com ela dormindo, no  fcil ver algum quebrar o osso de uma pessoa que a gente ama  disse Ayla para o homem alto que a amava.
    Jondalar concordou e se perguntou se no fora por isso que Xam no o deixara ficar quando Thonolan fora escornado. A ferida era terrvel aberta, de bordas irregulares. 
Ele quase vomitara ao v-la. E embora tivesse querido ficar, talvez no fosse fcil assistir s ministraes de Xam. Agora mesmo, no estava seguro de querer ajudar 
Ayla, mas no havia quem o substitusse. Respirou fundo. Se ela era capaz de fazer aquilo, ele poderia pelo menos tentar ajudar.
            O que devo fazer?  perguntou.
    Ayla estava examinando o brao de Roshario, vendo at onde era possvel mov-lo, e como a paciente reagia  manipulao. Ela resmungou alguma coisa e virou a 
cabea de um lado para outro, mas aquilo parecia ser o efeito de algum sonho ou comando interno, e no diretamente resultado de dor. Ayla calcou, ento, os dedos 
no msculo flcido, tentando localizar o osso. Quando se deu por satisfeita, chamou Jondalar, notando, de passagem, que Lobo atentava para tudo do seu lugar no canto 
do aposento.
            Primeiro, quero que segure o brao na altura do cotovelo, enquanto tento quebr-lo onde est emendado de forma errada. Uma vez quebrado, tenho de puxar 
com fora para endireit-lo e fix-lo na posio correta. Com os msculos to moles, os ossos de uma articulao podem ser separados, e corro o risco de deslocar 
um cotovelo ou um ombro, de modo que voc ter de segur-la com firmeza e talvez puxar tambm, na direo oposta.
     Compreendo  disse ele. Pelo menos achava que compreendera.
      Fique voc mesmo numa posio cmoda, estvel, estique o brao dela e apoie o cotovelo at mais ou menos esta altura. Avise-me quando estiver pronto  disse 
Ayla.
    Ele obedeceu.
     Muito bem. Estou pronto.
    Com as mos, uma de cada lado da fratura que dava ao brao aquele ngulo pouco Pouco natural, Ayla segurou o brao de Roshario experimentalmente em diversos 
lugares,  procura das extremidades salientes do osso mal colado debaixo da pele e dos msculos. Se a junta se tivesse consolidado, ela nunca seria capaz de parti-la 
com as mos e teria de tentar outro meio mais difcil de controlar. Talvez nem fosse capaz de quebrar direito o osso pela segunda vez. De p a sobranceiro do leito, 
para ter mais fora, inspirou profundo, depois exerceu uma presso poderosa e rpida sobre a curvatura com suas fortes mos.
    Ayla sentiu o osso estalar. Para Jondalar o estalo foi de arrepiar os cabelos. Roshario mexeu-se espasmodicamente no sono, depois se aquietou. Ayla sondou o 
msculo para achar a ponta do osso que acabara de quebrar. O tecido na rea no cimentara ainda a fratura muito bem talvez pelo fato de que na posio pouco natural 
em que se encontrava, o osso no se juntara de um modo que encorajasse a cicatrizao. Era uma fratura boa e ntida. Ayla deu um suspiro de alvio. A primeira parte 
estava feita. Limpou o suor da fronte com as costas da mo.
    Jondalar a observava com assombro. Embora a fratura estivesse apenas parcialmente consolidada, muita fora era necessria para partir um osso daqueles. Ele sempre 
gostara de ver a fora fsica da mulher desde o tempo em que se conheceram no vale dos cavalos. Entendera que ela precisava de fora para viver s, como vivia. O 
fato de ter de fazer tudo por si mesma levara ao desenvolvimento dos msculos. Mas no sabia , at aquele momento, quo forte ela era realmente.
    Essa fora no vinha apenas disso. J vinha progredindo desde criana, desde o tempo em que fora adotada por lza. As tarefas comuns, que se esperavam dela, tornaram-se 
um processo de condicionamento. S para alcanar um nvel mnimo de competncia para uma mulher do Cl, ela se tornara uma mulher extraordinariamente forte dos Outros.
            Deu certo, Jondalar. Agora, quero que segure o brao dela aqui em cima, no ombro  disse, mostrando-lhe o que desejava.  No pode soltar o brao. Se 
comear a escorregar, avise na hora.
    Ayla sabia que o osso resistira a consolidar-se na posio errada e que por isso fora mais fcil parti-lo do que se tivesse sido encanado direito pelo mesmo 
espao de tempo, mas msculos e tendes tinham cicatrizado muito mais.
            Quando eu endireitar o brao, algum msculo vai rasgar, como aconteceu quando o brao quebrou da primeira vez, e os tendes ficaro retesados.  difcil 
forar tendo e msculo, e ela vai ter dores depois, em consequncia, mas tem de ser feito. Diga-me quando estiver pronto.
     Como  que voc sabe fazer isso, Ayla?
     Iza me ensinou.
     Eu sei que ela ensinou, mas como aprendeu isso, de quebra pela segunda vez um osso que j comeou a colar?
     Uma vez Brun levou seus caadores para um lugar distante. Estiveram muito tempo por l. No me lembro quanto tempo. Um dos homens quebrou o brao logo no comeou 
da caada, mas no quis voltar, Amarrou o brao no tronco e prosseguiu com um brao s. Quando regressaram, Iza teve de encanar o brao quebrado  explicou Ayla, 
falando depressa.
     Mas como o homem aguentou? Caar, quero dizer, com um brao quebrado. No sentia muitas dores?
     Claro que sentia muitas dores, mas nem ele fez conta disso, nem os demais. Homens do Cl preferem morrei a admitir fraqueza.  assim que so. Ou  assim que 
so treinados  disse Ayla.  Voc est pronto?
    Jondalar queria perguntar mais coisas, mas no podiam perder tempo.
     Estou pronto.
    Ayla segurou o brao de Roshario com fora, imediatamente acima do cotovelo, enquanto Jondalar o segurava logo abaixo do ombro. Com fora, mas devagarinho, ela 
foi puxando para trs, no s corrigindo a direo do brao, mas virando-o um pouco para que osso no esfregasse contra osso, esmagando alguma coisa, e para que 
os ligamentos no se rompessem. Em certo momento, foi preciso esticar o brao um pouco alm da sua forma original para que ele pudesse ser posto numa posio normal.
    Jondalar no sabia como ela suportava aquela tenso quando ele j mal se aguentava. Ayla dava mostras de fadiga, o suor escorria-lhe pelo rosto, mas ela no 
podia parar quela altura. Para que o osso ficasse no lugar, tinha de ser endireitado num movimento contnuo e suave. Mas uma vez passada aquela esticao forada, 
para alm da extremidade quebrada do osso, o brao acomodou-se na posio correta quase que por conta prpria. Ayla sentiu que ele chegava no lugar, baixou o brao 
com cuidado para a cama e, finalmente, soltou-o.
    Quando Jondalar a olhou, viu que ela estava trmula, de olhos fechados, e respirao curta. Conseguir controlar-se debaixo daquela forte tenso, todo o tempo, 
fora a parte mais difcil da operao, e ela agora lutava para controlar os prprios msculos.
            Acho que voc conseguiu, Ayla.
    Ela respirou, exausta, mais algumas vezes, depois o encarou, e sorriu. Um largo sorriso, feliz, vitorioso.
            Acho que sim. Agora tenho que pr as talas.  Passou a mo de leve, ao longo do brao. Tinha aspecto normal agora.  Se ele emendar direito se no causei 
nenhum dano ao brao enquanto ele estava insensvel,  ela poder us-lo depois, mas vai ficar uma grande equimose, e vai inchar muito.
    Ayla mergulhou as tiras de camura na gua Quente, ps nardo-da-ndia e mileflio junto, enrolou-as em torno do brao sem apertar muito, e pediu a Jondalar que 
fosse  ver se Dolando j preparara as talas.
    Quando Jondalar saiu, um mar de rosto o esperava. No s Dolando, mas todos os moradores da Caverna, Xamudi e Ramudi por igual, tinham feito uma viglia em 
torno da lareira central.
            Ayla precisa das talas agora, Dolando  disse ele.
     Foi bem?  perguntou o lder Xamudi, entregando-lhe os pedaos de madeira.
    Jondalar achou que ele devia esperar por Ayla, mas sorriu. Dolando fechou os olhos, deu um fundo suspiro, estremeceu de alvio.
    Ayla ajustou as talas no brao e enrolou mais tiras de camura em torno delas. O brao incharia e o cataplasma teria de ser trocado. As talas imobilizariam o 
brao, de modo que os movimentos de Roshario no ameaariam a nova fratura. Mais tarde, quando o inchao amainasse, e ela quisesse andar, casca de btula, molhada 
em gua quente, se 
    Ayla verificou mais uma vez se a mulher estava respirando normalmente, conferiu o batimento das artrias no pulso e no pescoo, auscultou-lhe o peito, arregaou-lhe 
as plpebras, depois foi at a porta.
            Voc pode entrar agora, Dolando  disse ao homem que estava do lado de fora.
    Ela est bem?
     Venha ver voc mesmo.
    Dolando entrou e se ajoelhou no cho, olhando para a mulher adormecida. Observou a respirao dela por algum tempo, assegurando-se de que o ritmo era normal, 
depois olhou o brao. Debaixo do curativo pareceu-lhe reto e normal.
            Est perfeito! Acha que ela vai poder usar o brao outra vez?
     Fiz o que pude. Com a ajuda dos espritos e da Grande Me Terra, poder, sim. Talvez no fique to bom quanto era antes. Mas agora ela precisa dormir.
     Vou ficar com ela  disse Dolando, procurando convenc-la com sua autoridade, embora soubesse que se Ayla insistisse ele iria embora.
     Imaginei que gostaria de fazer isso  disse Ayla.  Mas agora que fiz o que tinha de fazer, gostaria de pedir-lhe uma coisa.
     Pea tudo o que quiser  disse ele, sem hesitao, mas imaginando o que poderia ser.
     Gostaria de tomar um banho. A gua do lago pode ser usada para nadar e lavar roupa?
    No era o que ele havia esperado ouvir, e Dolando ficou perplexo por um momento. E s ento notou que o rosto de Ayla estava manchado de suco de amoras-pretas, 
seus braos arranhados por espinhos, as roupas rasgadas e sujas, os cabelos em desordem. Com uma expresso de culpa e um sorriso amarelo, ele disse:
            Roshario jamais me perdoaria essa falta de hospitalidade. Ningum lhe ofereceu um pouco d'gua. E voc deve estar exausta depois de uma viagem to longa. 
Vou chamar Tholie. Tudo o que voc quiser, e estiver a nosso alcance,  seu.
    Ayla esfregou as flores ricas em saponina entre as mos molhadas at que se formasse alguma espuma. Depois, esfregou a espuma nos cabelos. Essa espuma de ceanoto 
no era to boa quanto a da raiz saponcea, mas afinal estava s enxaguando os cabelos, e as ptalas azul-plido deixavam um perfume suave. A rea em torno do acampamento 
e as plantas da regio lhe pareciam to familiares que estava certa de encontrar alguma planta que pudessem usar como sabo. Teve o prazer de encontrar ao mesmo 
tempo ceanoto e a raiz quando foram recolher bagagem, bote e tren. Os dois tinham ido ver como estavam os cavalos, e Ayla tomou nota mentalmente de que precisava 
pentear Huiin mais tarde, para cuidar da sua pelagem, mas em parte tambm por garantia.
     Sobrou alguma dessas flores que do espuma?  perguntou Jondalar.
     Sim, em cima daquela pedra, perto de Lobo  disse Ayla.  Mas so as ltimas. Podemos apanhar outras, e mais algumas para secar e levar conosco. Eu gostaria 
disso  e mergulhou para enxaguar os cabelos.
     Aqui tm algumas peles de camura para se enxugarem  disse Tholie, acercando-se da gua. Tinha diversas das peles amarelas nas mos.
    Ayla no a vira chegar. A mulher Mamuti procurara ficar to longe do lobo quanto possvel, fazendo desvios para evit-lo e indo agora pelo outro lado. Uma meninazinha 
de trs ou quatro anos, que viera atrs dela agarrava-se agora s pernas da me, e fitava os estrangeiros de olhos arregalados, chupando o dedo.
            Deixei um lanche para vocs l dentro  disse, colocando as peles no cho. Jondalar e Ayla tinham recebido uma cama na construo que Tholie e Markeno 
usavam quando em terra firme. Era o mesmo abrigo que Thonolan e Jetamio tinham dividido com o casal, e Jondalar passou por maus momentos quando entrou na casa, lembrando-se 
da tragdia que levara seu irmo a ir-se e, em ltima anlise, a morrer.
    Mas no percam a fome  disse Tholie.  Vamos ter um grande banquete  noite para celebrar o regresso de Jondalar.  Ela no disse que a festa era tambm em 
honra de Ayla por ter ajudado Roshario. A doente estava ainda sob o efeito da anestesia, e ningum ousava ainda dizer em voz alta que se recuperaria antes que acordasse. 
Podia dar azar.
    Obrigado, Tholie  disse Jondalar.  Por tudo.  Depois sorriu para a meninazinha. Ela baixou a cabea e se escondeu atrs da me ainda mais, mas no tirou os 
olhos de Jondalar.  Parece que os ltimos vestgios vermelhos da queimadura no rosto de Shamio desapareceram. No vejo mais nenhum.
    Tholie pegou a garota no colo, dando assim a Jondalar uma oportunidade de examin-la melhor.
    Se olhar de perto, pode ver onde foi a queimadura, mas no se nota mais grande coisa. Sou agradecida  Me por sua bondade com ela.
    E uma bonita menina  disse Ayla, sorrindo para eles e olhando a pequena com genuna nostalgia.  Voc tem sorte. Eu gostaria muito de ter uma filha assim algum 
dia.
    Dito isso, comeou a sair do lago. Era refrescante, mas um pouco frio demais para ficar por muito tempo.  Voc disse que o nome dela  Shamio?
     Sim, e acho tambm que tive sorte de ganhar uma filha assim  disse a jovem me, pondo a criana no cho. Tholie no pde resistir ao cumprimento feito  filha 
e sorriu afetuosamente para aquela mulher, alta e formosa, que no era, todavia, o que pretendia ser. Tholie resolvera trata-la com reserva e cautela at saber mais.
    Ayla apanhou uma das peles e comeou a enxugar-se.
     Isto  to macio, to bom para usar como toalha de banho  disse, e fez com a camura uma saia justa. Depois, pegando uma outra, enxugou os cabelos e fez uma 
trunfa com a camura.
    Viu que Shamio espiava o lobo, agarrada  me, mas visivelmente curiosa. Lobo tambm parecia interessado nela, contorcendo-se de vontade de aproximar-se dela, 
mas ficando no lugar como lhe fora ordenado. Ayla chamou-o, ajoelhou-se ao lado dele e ps o brao em torno do pescoo do animal.
    Shamio gostaria de conhecer Lobo?  perguntou. Quando a menina fez que sim, ela pediu com os olhos a aprovao da me. Tholie via com apreenso o tamanho do 
lobo e seus dentes afiados.
    Ele no vai fazer mal  menina, Tholie. Lobo gosta de crianas. Foi criado com crianas no Acampamento do Leo.
    Shamio j largara a saia da me e dera um primeiro passo, vacilante, na direo dele, fascinada com aquele bicho que olhava para ela com um fascnio igual. A 
criana o contemplava sem ir, com olhar solene, e o lobo gania de impacincia. Finalmente, Shamio deu mais um passo e estendeu as mos para o animal. Tholie prendeu 
a respirao, mas o som foi abafado pelas risadinhas nervosas de Shamio quando Lobo se ps a lamber-lhe o rosto. Ela empurrou o focinho dele, agarrou um chumao 
do seu plo, mas perdeu o equilbrio e caiu por cima de Lobo. Este esperou pacientemente que ela se levantasse, depois lambeu-lhe de novo a cara, e a menina deu 
risadas espremidas.
            Vamos, meu Lobinho  disse ela, pegando-o pelo plo do pescoo e puxando-o. J o considerava como uma espcie de brinquedo vivo.
    Lobo olhou para Ayla e soltou um latido de filhote. Ela no o libertara  ainda.
            Pode ir com Shamio, Lobo  disse, dando-lhe finalmente o sinal pelo qual ele esperava. O olhar que Lobo lhe lanou era, quase, de gratido. No havia 
que duvidar do deleite com que seguiu a pequena. At Tholie sorriu.
    Jondalar assistia a tudo aquilo com interesse enquanto se enxugava. Apanhou depois as roupas deles e caminhou com as duas mulheres para a aba de arenito do penhasco. 
Tholie vigiava Shamio e Lobo, mas ela tambm estava intrigada com a mansido do animal. E no era s ela. Muita gente estava atenta, observando a menina e o lobo. 
Quando um menino um pouco mais velho que Shamio se aproximou, tambm ele foi mimoseado com um convite molhado para brincar. Naquele momento duas outras crianas 
saram de uma das habitaes disputando um objeto de madeira. O menor deles jogou longe o objeto para impedir que o maior o pegasse. Lobo considerou aquilo como 
um sinal de que queriam jogar um dos seus jogos favoritos. Correu atrs do objeto, que era um basto entalhado, e o trouxe de volta, depositando-o no cho e ficando 
ao lado dele, de lngua para fora e rabo abanando, pronto para recomear a brincadeira. O menino ento pegou o pedao de pau e lanou-o longe de novo.
            Acho que voc tem razo, o lobo est brincando com as crianas. Ele deve gostar mesmo delas  disse Tholie.  Mas por que esse comportamento? Afinal, 
ele  um lobo!
     Pessoas e lobos tm coisas em comum  disse Ayla.  Lobos gostam de brincar. Desde pequenos, eles se divertem com os outros, e os mais crescidos e adultos 
adoram brincar com os filhotes. Lobo no tinha irmozinhos quando o encontrei. Era o nico sobrevivente de uma ninhada e mal abria os olhos. Ele no cresceu numa 
alcateia, cresceu brincando com as crianas.
     Veja s como ele faz! E to tolerante, to gentil. Tenho certeza de que quando Shamio lhe puxa o plo deve doer. Por que ento ele deixa que ela o faa?  
perguntou Tholie, ainda desejosa de entender.
      natural para um lobo adulto ser bondoso com os mais jovens do mesmo bando, de modo que no foi difcil para mim ensin-lo a ter cuidado, Tholie. Ele  principalmente 
carinhoso com crianas pequenas e bebs e tolera praticamente tudo por parte deles. No tive de ensinar-lhe isso, ele  assim por natureza. Se as crianas ficam 
difceis, ele se afasta, mas volta mais tarde. Ele no se sujeita s mesmas coisas de crianas mais velhas, e sabe muito bem a diferena entre algum que o machuca 
acidentalmente e algum que tenciona fazer-lhe mal. Jamais machucou ningum, mas  capaz de dar uma mordidinha, um belisco com os dentes, para lembrar a um menino 
mais levado, que lhe puxa o rabo, por exemplo, que algumas coisas causam dor.
     A ideia de que algum, principalmente uma criana, pudesse puxar o rabo de um lobo de brincadeira  para mim inconcebvel, ou pelo menos era at hoje  disse 
Tholie.  E no podia imaginar que ia ver um dia a minha Tholie brincando com um lobo. Voc... tem feito muita gente pensar, Ayla... Ayla dos Mamuti.
    Tholie queria dizer mais, perguntar coisas, mas no desejava exatamente acusar a mulher de haver mentido, no depois do que ela fizera por Roshario, ou parecia 
ter feito. Ningum tinha certeza ainda.
    Ayla sentia as reservas de Tholie e lamentava que fosse assim. Aquilo punha uma tenso muda entre as duas, e ela gostava da Mamuti, baixinha e gorducha. Caminharam 
alguns passos em silncio, observando Lobo com Shamio e as demais crianas, e Ayla pensou de novo o quanto gostaria de ter uma filha como a de Tholie... uma filha 
mulher da prxima vez, no um menino. Shamio era uma garotinha muito linda, e o nome combinava com ela.
     Shamio  um bonito nome, Tholie, e incomum. Parece um nome Xamudi mas tambm Mamuti  disse Ayla.
    Tholie teve de sorrir mais uma vez.
     Tem razo. Nem todo mundo sabe disso, mas foi o que procurei fazer. Ela seria chamada Shamie se fosse Mamuti, se bem que esse nome no seja comum nos acampamentos. 
Vem da lngua Xaramudi, de modo que o nome dela tem dupla origem. Eu sou Xaramudi hoje, mas nasci na Lareira do Veado Vermelho, numa linhagem de grande status. 
Minha me exigiu da famlia de Markeno um bom preo por mim, e ele nem Mamuti era. Shamio pode orgulhar-se da sua origem Mamuti tanto quanto se orgulhara da sua 
herana Xaramudi. Foi por isso que eu quiz mostrar as duas coisas no nome dela.
    Tholie se deteve como se um pensamento lhe tivesse ocorrido.
     Ayla  tambm um nome incomum. Em que Lareira voc nasceu?  disse, e pensou: gora voc ter de explicar isso.
     Eu no nasci Mamuti, Tholie. Fui adotada pela Lareira do Mamute  disse Ayla. Alegrava-se de que a mulher tivesse afinal perguntado o que, obviamente, de 
muito a preocupava.
    Tholie ficou certa, porm, de que a pegara numa mentira.
     Ningum  adotado pela Lareira do Mamute, disse.  Aquela.  uma lareira dos Mamuti. As pessoas escolhem os espritos e podem vir a ser aceitas pela Lareira 
do Mamute, mas no adotadas.
     Essa  a regra geral, Tholie, mas Ayla foi efetivamente adotada  disse Jondalar, entrando na conversa.  Eu estava presente. Talut ia dot-la no seu Lar do 
Leo, mas Mamute surpreendeu a todos e adotou-a no Lar do Mamute. Viu algo nela... e por isso ele a treinava. Afirmava que ela nascera para o Lar do Mamute, quer 
tivesse nascido Mamuti ou no.
     Adotada pelo Lar do Mamute? Uma estranha?  disse Tholie, surpresa, mas no duvidava de Jondalar. Afinal o conhecia bem e era aparentada com ele, mas ficou 
ainda mais interessada. Agora que no se sentia forada a ser cautelosa, sua curiosidade natural e sua franqueza vieram  tona.
     Em que grupo voc nasceu, Ayla?
            No sei, Tholie. Minha famlia morreu num terremoto, quando eu era um pouco mais velha que Shamio. Fui criada pelo Cl.
    Tholie nunca ouvira falar de qualquer povo chamado o Cl. Devia ser alguma tribo oriental, pensou. Isso explicava muita coisa. No admirava, ento, que ela tivesse 
um sotaque to estranho, embora falasse bem a lngua, para uma estrangeira. Aquele Velho Mamute do Acampamento do Leo era um ancio muito ladino, pensou. Sempre 
fora velho, muito velho, ao que parecia. Mesmo quando ela mesma era criana, ningum se lembrava de que ele tivesse sido jovem e ningum duvidava de sua grande sabedoria.
    Com um instinto natural de me, Tholie correu os olhos em torno para ver como estava sua filha. Vendo Lobo, pensou de novo como era esquisito que um animal preferisse 
fazer amizade com gente. Viu, depois, os cavalos, que pastavam, tranquilos. Pareciam satisfeitos no campo por perto das habitaes. A autoridade de Ayla sobre os 
animais no era apenas surpreendente, era interessante, porque eles pareciam devotados a ela. Lobo, por exemplo, a adorava.
    Quanto a Jondalar, bastava v-lo. Estava obviamente cativo da bela mulher loura, e Tholie no achava que fosse apenas por ser ela bonita. Serenio fora bonita, 
e inmeras mulheres bonitas tinham feito o possvel para interess-lo numa relao estvel. Ele permanecera mais ligado ao irmo que a todas elas, e Tholie se lembrava 
de haver duvidado que ele jamais viesse a entregar seu corao a uma mulher. Mas aquela o conquistara. Mesmo sem as suas habilidades curativas, ela parecia ter alguma 
coisa de especial. O Velho Mamute tinha razo. Era provavelmente destino dela pertencer ao Lar do Mamute.
    No interior da habitao, Ayla penteou o cabelo, amarrou-o para trs com uma fita de couro macio, e vestiu a tnica limpa e as calas curtas que vinha reservando 
para o caso de encontrarem gente. Assim, no tinha de apresentar-se nas suas roupas manchadas de viagem quando fosse fazer visitas. Em seguida foi ver como estava 
Roshario. Sorriu para Darvalo, sentado, com ar aptico,  porta, e saudou Dolando com a cabea quando entrou e se aproximou da mulher na cama. Examinou-a rapidamente, 
s para ter certeza de que ela passava bem.
      natural que ainda esteja dormindo?  perguntou Dolando, com uma ruga de inquietao na testa.
     Ela est bem. Vai dormir mais um pouco.
    Ayla avistou a sua bolsa de remdios e pensou que era tempo de recolher alguns ingredientes frescos para um ch reanimador, que ajudasse Roshario a sair daquele 
sono induzido pela datura quando comeasse a acordar naturalmente.
    Penso ter visto uma tlia quando vinha para c. Preciso de algumas flores de tlia para fazer um ch para Roshario e tambm, se puder encontr-las, de algumas 
outras ervas. Se ela acordar antes do meu regresso, voc pode dar-lhe um pouco de gua. No se perturbe se ela estiver confusa e um pouco tonta. As talas vo manter 
seu brao no lugar, mas no convm que ela o mova muito.
     Voc saber achar o caminho?  perguntou Dolando.  Talvez devesse levar Darvo.
    Ayla estava segura de que no teria dificuldade em achar o caminho, mas decidiu levar o rapaz assim mesmo. Na preocupao com Roshario, ele ficara um tanto esquecido, 
e tambm estava aflito por causa da mulher.
            Obrigada, vou fazer isso.
    Darvalo, que ouvira a conversa, j estava de p e pronto para acompanh-la. Parecia contente de ser til.
            Acho que sei onde fica esse p de tlia  disse.  H sempre muitas abelhas em volta da rvore nesta poca do ano.
     E a melhor poca para apanhar as flores  disse Ayla , quando cheiram a mel. Sabe onde posso encontrar unia cesta para traz-las na volta?
     Roshario guarda cestas ali nos fundos  disse Darvalo, mostrando um pequeno depsito atrs da casa. Escolheram duas cestas.
    Quando saram da sombra da platibanda, Ayla viu lobo, que a observava, e chamou-o. No se sentiria tranquila se ele ficasse sozinho com aquelas pessoas, mas 
as crianas protestaram quando ela o chamou. Mais tarde, quando todos estivessem mais familiarizado-, com os animais, seria diferente.
    Jondalar estava no campo com os cavalos e dois homens. Ayla foi avisar-lhes aonde ia. Lobo correu  frente, e todos se voltaram para ver quando ele esfregou 
o focinho no de Huiin. A gua relinchou em saudao. Ento Lobo se ps numa pose marota, e deu um latido de lobinho dirigido ao jovem garanho. Racer ergueu a cabea, 
relinchou e pisoteou o cho como resposta ao gesto brincalho do lobo. A gua ento se aproximou de Ayla e ps a cabea no ombro dela. A mulher lhe passou os dois 
braos pelo pescoo e ficaram assim, encostadas uma  outra, numa postura familiar de desafogo e confiana mtua. Racer avanou e esfregou a cabea nelas duas, querendo 
tambm o conforto de algum contato fsico. Ayla o afagou, depois esfregou-lhe o pescoo, compreendendo que todos eles precisavam da presena uns dos outros naquele 
lugar de tantos estranhos.
            Quero apresent-la, Ayla  disse Jondalar.
    Ela encarou os dois desconhecidos. Um era quase to alto quanto Jondalar, se bem que mais magro. O outro era mais baixo e mais velho, mas a semelhana entre 
eles era notvel, assim mesmo. O mais baixo avanou primeiro, com as mos estendidas.
            Ayla dos Mamuti, este  Carlono, lder Ramudi dos Xaramudi.
     Em nome de Mudo, Me de Todos, na gua e na terra, eu lhe dou as boas-vindas, Ayla dos Mamuti  disse Carlono, tomando-lhe as mos. Falava Mamuti ainda melhor 
que Dolando, resultado de diversas viagens de comrcio  foz do Rio da Grande Me, bem como de ensino por Tholie.
     Em nome de Mut, agradeo a sua acolhida, Carlono dos Xaramudi  respondeu ela.
     Esperamos que venha logo  nossa doca  disse Carlono. Pensava: que estranho sotaque ela tem! No creio ter ouvido igual antes, e conheo muitos.  Jondalar 
me disse que prometeu a voc um passeio num barco decente, no como essas tigelas grandes dos Mamuti.
     Ficarei encantada  disse Ayla, brindando-o com um dos seus sorrisos radiantes.
    Os pensamentos de Carlono derivaram da considerao dos maneirismos de conversao de Ayla para a apreciao da sua beleza. Era de fato uma beldade essa mulher 
que Jondalar trouxera. Combina com ele, pensou.
            Jondalar me falou dos seus barcos, e da pesca do esturjo continuou Ayla.
    Os dois homens riram, como se ela tivesse dito uma pilhria, e olharam para Jondalar, que tambm sorriu, embora ficasse vermelho.
     Ele j lhe contou de quando pescou meio esturjo?  disse o homem alto.
     Ayla dos Mamuti  disse Jondalar, formalizando-se. Esse  Markeno dos Ramudi, filho do lar de Carlono, e marido de Tholie.
     Bem-vinda, Ayla dos Mamuti  disse Markeno, informalmente, vendo que ela j fora saudada com o ritual apropriado muitas vezes.
    J conhece Tholie? Ela ficar contente com sua presena entre ns. Sente muita falta da sua gente s vezes.  Sua fluncia da lngua da companheira era quase 
perfeita.
     Sim, eu j estive com Tholie, e com Shamio tambm.  uma bela garotinha.
    Markeno deu um sorriso radiante.
     Eu tambm acho, embora no deva dizer isso da filha do meu prprio lar.  Depois, voltando-se para o adolescente, inquiriu.
     Como vai Roshario, Darvo?
     Ayla consertou o brao dela.  uma curandeira.
     Jondalar nos contou que ela encanou o brao direito, disse Carlono com o cuidado de no se comprometer. Ele tambm achava bom esperar at ver o brao curado.
    Ayla percebeu a reticncia na resposta do chefe Ramudi, mas achou aquilo compreensvel, nas circunstncias. Por mais que gostassem de Jondalar, ela era uma 
estranha, afinal de contas.
     Darvalo e eu vamos apanhar algumas ervas que vi no caminho para c, Jondalar  disse.  Roshario ainda dorme, e eu quero ter uma bebida pronta para ela, quando 
acordar. Dolando est com ela. No estou gostando dos olhos de Racer. Vou ter de procurar aquelas plantas brancas para ele, mas agora no tenho tempo. Voc pode 
lav-los com gua fresca  disse. Depois, sorrindo para todos, chamou Lobo, fez um sinal de cabea para Darvalo e seguiu para a orla da angra.
    A vista da trilha que acompanhava a escarpa no lhe pareceu menos espetacular que da primeira vez. Teve de prender a respirao quando olhou para baixo, mas 
no pde resistir ao desejo de faz-lo. Deixou que Darvalo fosse  frente, mostrando o caminho, e felicitou-se por ter feito isso quando ele lhe mostrou um atalho. 
O lobo explorou a rea, perseguindo odores intrigantes e reunindo-se a eles em seguida. Das primeiras vezes em que ele surgiu, de repente, o rapaz se assustou, mas 
acabou acostumando-se quelas idas e vindas.
    A grande tlia anunciou sua presena muito antes de que a alcanassem com uma rica fragrncia, reminiscente do mel, e com um forte zumbido de abelhas. A rvore 
se fez visvel numa curva do caminho e revelou a fonte daquele delicioso aroma: as pequeninas flores, verde-amarelas, reunidas em cimeiras, e pendentes de brcteas 
oblongas, aliformes. As abelhas estavam to ocupadas em colher o nctar que no se importaram com as pessoas que as tinham vindo perturbar, se bem que a mulher tivesse 
de sacudir algumas delas das flores que cortava. Os insetos simplesmente voltavam para a rvore e encontravam outras.
     Por que isso  especialmente bom para Roshario?  perguntou Darvalo.  As pessoas esto sempre fazendo ch de tlia.
     E gostoso, no ? Mas  medicinal tambm. Se voc est nervoso, afrito. ou, at, zangado, pode ser calmante. Se est cansado, estimula e reanima. Pode curar 
uma dor de cabea ou um estmago indigesto. Roshario  vai ter tudo isso por causa da beberagem que lhe dei para que dormisse.
     Eu no sabia que a tlia era boa para tanta coisa  disse Darvalo, reparando na rvore to familiar, de copa larga e aberta e casca lisa, escura. Admirava-se 
de que uma essncia to comum pudesse ter todas aquelas qualidades e ser to mais do que parecia.
    Gostaria de encontrar tambm outra rvore, Darvalo, mas no sei o nome dela em Mamuti  disse Ayla.   pequena e s vezes no passa de um arbusto. Tem espinhos, 
e as folhas so como mozinhas espalmadas. D flores brancas, grupadas, no comeo do vero e, nesta poca, umas bagas redondas, vermelhas.
     Ser uma roseira o que voc est procurando?
            No, mas a roseira  uma boa aproximao. A que procuro  maior que uma roseira, mas as flores so menores, e as folhas diferentes.
    Darvalo se concentrou, de cenho fechado. Depois, de sbito, sorriu.
            Acho que sei que planta  essa de que voc est falando, e podemos encontrar alguns ps no muito longe daqui. Na primavera costumamos apanhar botes 
para comer, quando passamos.
            Voc pode estar certo. Sabe levar-me at l?
    Lobo no estava  vista, e Ayla teve de assoviar. Ele apareceu quase de imediato, olhando-a com ar expectante. Ayla mandou que os seguisse. Andaram um pouco 
e avistaram uma concentrao de pilriteiros.
     exatamente isso que eu procurava, Darvalo!  disse Ayla.  No estava certa de ter feito uma boa descrio da planta.
    Para que serve?  perguntou o rapaz, enquanto apanhavam bagas e folhas.
    Faz bem para o corao, que restaura, fortalece e estimula, mas suavemente.  para um corao sadio. No  para algum de corao dbil, que precisa de remdio 
mais poderoso  disse Ayla, procurando fazer-se entender pelo jovem, transmitir-lhe o que sabia por observao e experincia. O que aprendera com Iza fora vazado 
numa linguagem difcil de traduzir.   bom tambm para misturar a outros remdios. Aviva a ao deles, faz com que funcionem melhor.
    Darvalo estava achando divertido apanhar plantas com Ayla. Ela sabia toda espcie de coisas que ningum sabia e no se importava de ensinar. Na volta, parou 
num lugar ensolarado e seco para apanhar algumas flores de hissopo, de cor prpura e perfume agradvel.
            Isso para que serve?  perguntou ele.
            Para limpar o peito. Ajuda a respirar. E isto  disse ela, apanhando ali perto algumas folhas de pilosela, macias, penugentas, em orelha de camundongo 
como as do miostis , isto estimula tudo.  mais forte, porm, e no tem gosto muito bom, de modo que vou usar s um pouco. Quero dar a Roshario alguma bebida de 
gosto agradvel, mas isto vai clarear-lhe a mente. Ela se sentir mais desperta.
    Na volta, Ayla se deteve uma vez mais para colher uma grande braada de belas flores de goivo, cor-de-rosa. Darvalo pensou que ia aprender mais um pouco de medicina, 
quando perguntou para que serviam.
            Colhi estas aqui por causa do seu perfume gostoso e por terem um sabor doce e picante. Posso fazer um ch com algumas delas e posso pr o resto numa 
jarra perto da cama de Roshario, para que ela se sinta bem. Mulheres gostam de coisas bonitas, cheirosas, Darvalo, principalmente quando esto doentes.
    Ele se deu conta de que gostava tambm de coisas bonitas e cheirosas como a prpria Avia. Apreciava que ela sempre o chamasse Darvalo e no Darvo, como todo 
mundo fazia. No que se importasse muito quando era Dolando ou Jondalar quem fazia isso, mas gostava de ouvir seu nome de adulto. A voz da mulher era doce, tambm, 
embora Ayla pronunciasse algumas palavras de modo esquisito. O que fazia com que se prestasse mais ateno ao que ela dizia e, depois de algum tempo, verificasse 
que a voz dela era muito bonita.
    Houvera um tempo em que o que ele mais queria era que Jondalar se ajuntasse para sempre a sua me e ficasse com os Xaramudi. O companheiro de sua me morrera 
quando ele era ainda pequeno, e depois disso nunca um homem tinha morado com eles at que aquele Zelandonii alto aparecesse.
    Jondalar o tratara sempre como um filho do seu lar, comeara, at, a ensinar-lhe como trabalhar o slex, e Darvalo ficara triste quando ele partiu.
    Queria muito que voltasse, mas nunca realmente esperara que isso acontecesse. Quando sua me se foi, com Gulec, o Mamuti, ele achou que no havia mais como 
prender o Zelandonii se ele voltasse. E agora que voltara, e com outra mulher, sua me no fazia mais falta. Todo mundo gostava de Jondalar, e principalmente depois 
do acidente com Roshario todos falavam da necessidade de ter quem entendesse de doenas e remdios. Ayla era uma boa curandeira. Por que no poderiam ficar, os dois?
     Ela acordou uma vez  disse Dolando, logo que Ayla entrou. Pelo menos, penso que acordou. Mas talvez apenas se debatesse, em sonhos. Mas logo ficou quieta 
e est dormindo agora.
    O homem estava aliviado com sua chegada, embora no quisesse que isso ficasse muito visvel. Ao contrrio de Talut, que fora sempre completamente aberto e cordial, 
e cuja liderana se fundava na fora do carter, na disposio de ouvir, de aceitar divergncias, e negociar compromisso... e uma voz suficientemente forte para 
se impor  ateno de um grupo, por mais barulhento que fosse, numa discusso acalorada... Dolando se parecia mais com Brun. Era reservado e, embora soubesse ouvir 
ponderasse uma situao longamente, no revelava o seu pensamento. Mas Ayla estava habituada a interpretar os maneirismos sutis de homens dessa espcie.
    Lobo entrara com ela e se aquietara no seu canto, sem esperar um comando. Ela ps a cesta no cho e foi ver Roshario. Depois dirigiu-se ao homem, que parecia 
ansioso.
     Ela vai acordar a qualquer momento, mas preciso ter pronto um ch especial que ela deve tomar logo.
    Dolando notara o perfume das flores logo que ela entrara, e a infuso que preparou para eles tinha um forte cheiro floral. Ayla lhe trouxe uma xcara, e outra 
para a mulher no leito.
            Para que serve?
             para ajudar Roshario a ficar desperta, mas talvez voc tambm ache o meu ch refrescante.
    Darvalo provou, esperando um gosto leve, floral, mas ficou surpreso com o sabor adocicado e forte, que lhe encheu a boca.
             timo! Que ingredientes leva?
            Pergunte a Darvalo. Estou certa de que ele ter prazer em dizer-lhe.
    O homem assentiu, percebendo a sugesto implcita.
            Tenho de dar mais ateno a ele. Tenho estado to aflito com Roshario que no penso em mais nada, e estou certo de que ele tambm est preocupado com 
ela.
    Ayla sorriu. Comeava a perceber as qualidades que tinham feito dele o chefe desse grupo. Gostava da sua rapidez de raciocnio e comeava a gostar dele. Roshario 
fez um movimento, e a ateno deles se voltou para ela.
            Dolando?  disse, com voz fraca.
            Estou aqui  disse ele, e a ternura na voz do homem ps um n na garganta de Ayla.  Como se sente?
     Um pouco tonta. E tive os sonhos mais extraordinrios.
     Trouxe-lhe alguma coisa para beber  disse Ayla.
    Roshario fez uma careta, lembrando-se da ltima bebida que a mulher lhe dera.
     Deste ch voc vai gostar, acho eu. Sinta o cheiro  disse Ayla. aproximando da doente a xcara com seu delicioso aroma. A fronte de Roshario se desanuviou, 
e Ayla ajudou-a a levantar a cabea.
      muito bom  disse Roshario, aps beber alguns goles. Bebeu mais um pouco. E quando acabou recostou-se e fechou os olhos. Mas logo os abriu de novo.
     Meu brao! Como est o meu brao?
     Di?
            Di um pouco, mas no tanto quanto antes, e di diferente  disse.  Posso ver?  Virou-se para ver melhor, depois tentou sentar-se na cama.
            Deixe que eu a ajude  disse Ayla, soerguendo-lhe o corpo.
     Est reto! Meu brao parece direito. Voc o consertou!  disse a mulher. Seus olhos se encheram de lgrimas e ela se recostou outra vez.  Agora no tenho 
de ser uma velha intil.
     Talvez no fique to bom quanto antes  disse Ayla - mas agora est encanado corretamente e tem chance de cicatrizar direito.
     Voc pode acreditar numa coisa dessas, Dolando? Ah, tudo est bem agora!  Roshario soluava, mas seu choro era de alegria e alivio.

17
___________________________________________________________________________

     Cuidado, agora  disse Ayla, ajudando Roshario a avanar com o corpo em direo a Jondalar e Markeno, que estavam debruados por cima da cama, de um lado e 
de outro.
     A tipia vai dar apoio ao brao e mant-lo no lugar, mas junto do seu corpo.
     Voc tem certeza de que ela j se pode levantar?  perguntou Dolando a Ayla, com uma expresso de ansiedade.
     Eu tenho certeza  disse Roshario.  J fiquei muito tempo nesta cama. No quero perder a festa pelo retorno de Jondalar.
     Contanto que no se canse muito, ser melhor para ela andar um pouco e estar com as pessoas  disse Ayla. E, voltando-se para Roshario:   Mas no por muitas 
horas. O repouso  agora o melhor curandeiro.
     S quero ver todo mundo feliz, para variar. Toda vez que algum veio aqui foi com ar apreensivo. Quero que saibam que vou ficar boa  disse a mulher, saindo 
da cama para os braos dos dois homens.
     Cuidado, agora, ateno  tipia  disse Ayla.
    Roshario passou o brao bom em torno do pescoo de Jondalar.
            Muito bem. Agora, juntos, levantem-na no ar.
    Com a mulher entre eles, os dois se ergueram, avanando um pouco para poder endireitar-se debaixo do teto inclinado da casa. Eram mais ou menos da mesma altura 
e carregavam o peso dela sem esforo. Embora Jondalar fosse visivelmente mais musculoso, Markeno tambm tinha um bom fsico. Sua fora era disfarada pelo fato de 
ter menos corpo que o outro, mas o hbito de remar e de manipular os grandes esturjes que costumava pescar haviam dado aos msculos enxutos e lisos do Ramudi resistncia 
e flexibilidade.
            Como se sente?  perguntou Ayla.
            Nas nuvens  respondeu Roshario, rindo para os dois carregadores.   uma vista diferente a que a gente tem, aqui de cima.
     Voc se considera pronta?
     Como estou, Ayla?
     Muito bem, na minha opinio. Tholie fez um bom servio, penteando e arranjando os seus cabelos  disse Ayla.
     O banho que vocs duas me deram tambm me ajudou a sentir-me melhor. Eu no tinha vontade de me lavar antes, nem de cuidar do cabelo. E agora me importo. O 
que quer dizer que estou melhor, no ?  disse Roshario.
     Em parte, isso  efeito do remdio que lhe dei para tirar a dor. Mas esse efeito vai passar. Avise-me logo que comear a sentir dor forte outra vez. No queira 
ser corajosa. Tambm me diga quando comear a ficar cansada.
     Sim. Estou pronta.
            Vejam quem est vindo! Roshario!  exclamaram diversas vozes quando ela emergiu, carregada, da habitao.
            Ponham-na aqui  disse Tholie.  Preparei um lugar para ela.
    Em algum tempo do passado um grande bloco da aba de arenito partira-se e cara perto do crculo onde eles costumavam reunir-se. Tholie pusera um banco encostado 
nele e cobrira-o de peles. Os dois rapazes levaram Roshario para l e fizeram-na descer suavemente.
     Est bom aqui?  perguntou Markeno depois que ela se instalara no assento acolchoado.
     Sim, sim, estou muito bem aqui  disse Roshario. No estai-habituada a toda aquela ateno.
    O lobo seguira-os para fora da casa e, logo que a doente se sentou ele arranjou um lugarzinho para deitar-se junto dela. Roshario ficou surpresa, mas quando 
viu a expresso com que o animal a olhava e notou como ele vigiava todos os que se aproximavam, teve uma impresso, estranha mas confortadora, de que ele a estava 
protegendo.
     Ayla, por que aquele lobo est perto de Roshario? Acho que voc deveria afast-lo dela  disse Dolando, imaginando o que poderia o animal querer com uma pessoa 
ainda to fraca e vulnervel. Sabia que os lobos gostavam de atacar os membros mais velhos, doentes e fracos de um rebanho.
     No, deixem-no ficar  disse Roshario, afagando a cabea de  lobo com a mo boa.  Ele no quer fazer-me mal, Dolando. Est tomando conta de mim.
     Tambm acho isso, Roshario  disse Ayla.  Havia um menino no Acampamento do Leo, um menino fraquinho, doentio, e Lobo sempre teve cuidados especiais com 
ele, sempre assumiu ares protetores. Acho que ele percebe que voc est debilitada e quer proteg-la.
     Esse menino no ter sido Rydag?  perguntou Tholie.  Um menino que Nezzie adotou e que era...  hesitou, de sbito, lembrando-se da desarrazoada ojeriza 
de Dolando ... que era... um estranho?
    Ayla percebeu a pausa que a outra havia feito e sabia que ela no dissera o que tinha pretendido inicialmente dizer. Por que seria?
     O menino ainda est com eles?  perguntou Tholie, corando muito.
     No  disse Ayla. Ele morreu, no comeo da estao, durante a Reunio de Vero. A morte de Rydag ainda a deixava triste e perturbada, e isso era visvel.
    A curiosidade de Tholie rivalizava com o seu senso de discrio. Queria fazer mais perguntas, mas aquela no era uma hora propcia. Mudou de assunto.
            Algum j estar com fome?  perguntou.  Por que no comemos?
    E todo mundo comeu, inclusive Roshario, que se serviu com moderao, embora comesse mais do que comera numa s refeio havia muito tempo. Todos estavam agrupados 
em volta do fogo, com xcaras de ch ou de vinho de dente-de-leo, de baixa fermentao. Era a hora de contar histrias, recordar aventuras, e, principalmente, saber 
mais sobre as visitas e seus extravagantes companheiros de viagem.
    Todos os Xaramudi do estabelecimento estavam l, exceto os ausentes: os Xamudi, que moravam em terra, mas na enseada alta, o ano todo: e seus parentes que 
moravam no rio, os Ramudi. No calor, o Povo do Rio morava numa doca flutuante atracada logo embaixo da penedia no inverno eles subiam para o terrao elevado e partilhavam
as instalaes dos seus primos. Os casais duplos eram considerados to unidos como marido e mulher, e os filhos das duas famlias eram tratados como irmos uns dos
outros.
    Aquele arranjo era o mais estranho de todos os que Jondalar vira de grupos estreitamente relacionados, mas funcionava bem para os interessados por causa da afinidade 
existente entre eles e por um relacionamento singular, mas mutuamente proveitoso. Havia muitos laos prticos e de ordem ritual entre as duas metades, mas os Xamudi 
contribuam com os produtos da terra e um abrigo seguro para os rigores do inverno; os Ramudi entravam com os peixes e transporte fluvial competente.
    Os Xaramudi consideravam Jondalar afim, mas apenas atravs do irmo. Quando Thonolan se apaixonou por uma mulher Xamudi, ele aceitou os costumes dela e decidiu 
tornar-se um Xamudi. Jondalar vivera com eles enquanto formaram uma famlia e se sentiram como uma famlia. Aprendera e aceitara os costumes da comunidade, mas 
nunca passara por qualquer ritual de adeso. No se sentia disposto a deixar a identidade com seu prprio povo. No podia tomar a deciso de radicar-se com aquela 
gente para o resto da vida. Embora Thonolan se tornasse Xaramudi, Jondalar continuou Zelandonii. A conversa em torno do fogo comeou, como era natural, com perguntas 
sobre o irmo dele.
     O que aconteceu depois que voc saiu daqui com Thonolan?  perguntou Markeno.
    Por doloroso que lhe fosse falar sobre Thonolan, Jondalar reconhecia que Markeno tinha o direito de saber. Markeno e Tholie se tinham ligado por aquele parentesco 
especial do grupo com Thonolan e Jetamio. Markeno era, assim, parente to prximo de Thonolan quanto ele mesmo, embora ele fosse seu irmo consanguneo, nascido 
da mesma me. Contou, resumidamente, de como eles tinham viajado rio abaixo no barco que Carlono lhes dera, alguns dos perigos por que passaram, e seu encontro com 
Brecie, a chefe Mamuti do Acampamento do Salgueiro.
     Somos parentes!  disse Tholie.  Ela  minha prima, e muito prxima.
     Fiquei sabendo disso muito depois, quando moramos no Acampamento do Leo, mas ela foi muito boa para ns antes de saber que ramos afins  disse Jondalar. 
 Foi isso que levou Thonolan a tomar deciso de ir para o norte e visitar outros Acampamentos Mamuti. Ele falou em caar mamutes com eles. Tentei fazer com que 
desistisse disso, tentei convenc-lo a voltar comigo. Tnhamos chegado  foz do Rio da Grande Me, e era at l que ele havia desejado ir.
    Jondalar fechou os olhos e abanou a cabea como se quisesse negar o fato, depois baixou a cabea, agoniado. O povo esperou, partilhando da dor que ele sentia.
            Mas no eram os Mamuti  continuou ele, depois de algum tempo.  Era Jetamio. Ele no conseguia esquec-la. Tudo o que desejava era acompanh-la ao 
outro mundo. Ele me disse que ia viajar at que a Grande Me o levasse. Estava pronto, disse, mas a verdade  que estava mais do que pronto. Queria tanto aquilo 
que se arriscava. E foi por isso que morreu. E eu no lhe estava dando a ateno devida. Isso tambm. Foi estupidez minha no ir com ele quando saiu atrs daquela 
leoa que lhe furtara a presa. Se no fosse Ayla, eu teria morrido com ele.
    Esse ltimo comentrio de Jondalar acirrou a curiosidade geral, mas ningum quis interrog-lo para que ele no tivesse de viver de novo a sua mgoa. Finalmente, 
Tholie rompeu o silncio.
            Como conheceu Ayla? Voc estava perto do Acampamento do Leo?
    Jondalar ergueu os olhos para Tholie, depois para Ayla. Vinha falando em Xaramudi e no estava certo de que ela tivesse entendido tudo. Seria bom que ela soubesse 
mais da lngua para poder narrar, ela mesma, sua parte. No ia ser fcil explicar a coisa ou torn-la verossmil. Quanto mais tempo passava, mais irreal tudo parecia. 
Mesmo para ele. Mas quando Ayla contava, parecia mais fcil acreditar na histria.
            No. Ns no conhecamos o Acampamento do Leo naquele tempo. Ayla estava morando sozinha num vale, a vrios dias de viagem do Acampamento do Leo.
            Sozinha?  perguntou Roshario.
     Bem, no de todo. Ela dividia sua caverna com uns dois animais Para ter companhia.
     Voc quer dizer que Ayla tinha outro lobo igual a este?  perguntou a mulher, estendendo a mo para afagar o bicho.
     No. Ayla ainda no tinha Lobo. Recolheu-o quando estvamos vivendo no Acampamento do Leo. Tinha Huiin.
     E Huiin o que ?
     Huiin  um cavalo.
     Um cavalo? Voc quer dizer que Ayla tinha um cavalo tambm?
            Sim. Aquele l. O da direita  disse Jondalar, apontando os cavalos no campo, projetados em silhueta contra o cu crepuscular, listado de vermelho.
    Os olhos de Roshario se arregalaram de surpresa, o que fez com que os outros rissem. Tinham todos superado o choque inicial, mas Roshario no notara os cavalos 
l fora.
     Ayla morava com aqueles dois cavalos?
            No exatamente. Eu estava l quando o garanho nasceu. Antes disso, ela morava s com Huiin... e o leo da caverna  completou Jondalar, quase que num 
sussurro.
     E... o qu?  disse Roshario, agora no seu imperfeito Mamuti.  Ayla conte voc mesma. Jondalar est confuso, acho eu. Talvez Tholie possa traduzir para ns.
    Ayla entendera fragmentos da conversa e olhou para Jondalar num mudo pedido de esclarecimento. Ele parecia aliviado.
     Temo no ter sido suficientemente claro, Ayla. Roshario quer ouvir sua histria de voc mesma. Por que no lhes fala de sua vida no vale, com Huiin e Nenm? 
Por que no lhes conta como me encontrou?  disse.
     Por que voc vivia sozinha no vale?  perguntou Tholie.
      uma longa histria  disse Ayla, respirando fundo. Os circunstantes responderam com sorrisos. Era exatamente o que queriam ouvir, uma longa histria, nova 
e interessante. Ayla tomou um pouco do seu ch imaginando por onde comear.
     Eu disse a Tholie que no sei quem  o meu povo. Eles morreram num terremoto quando eu era muito pequena. Fui encontrada e adotada pelo Cl. Iza, a mulher 
que me encontrou, era uma curandeira, e comeou a ensinar-me a sua arte desde o comeo.
    Bem, isso explicava a competncia daquela mulher ainda to jovem, pensou Dolando, enquanto Tholie traduzia. Mas Ayla j retomava o fio da narrativa.
            Vivi com Iza e com o irmo dela, Creb. Seu companheiro morrera no mesmo terremoto que matou meu povo. Creb era o homem da casa. Ele ajudou a criar-me. 
Iza morreu h alguns anos, mas antes de morrer me disse que eu devia ir embora e procurar minha prpria gente. Mas eu no fui. No podia ir...  Ayla hesitou, procurando 
decidir o quanto devia contar.  No naquela poca, mas depois... da morte de Creb...eu tive de partir.
    Uma pausa, mais um gole de ch. Tholie repetiu o que ela dissera, tropeando um pouco nos nomes esquisitos. A narrao reavivara para Ayla as fortes emoes 
daquele tempo, e ela precisava recuperar o domnio de si.
            Andei em busca da minha gente, como Iza me recomendara, mas no sabia onde procurar. Toda a primavera, todo o vero, e no achei ningum. Comecei a 
pensar se um dia os acharia mesmo. Estava ficando cansada de viajar. Ento cheguei a um pequeno vale verde no meio das estepes secas, com um regato no meio e, alm, 
uma bonita caverna. Tinha tudo de que precisava... exceto gente. Sem saber se ainda encontraria algum, e com o inverno chegando, tive de preparar-me para ele, ou 
no poderia sobreviver. Resolvi ficar no vale at a prxima primavera.
    O grupo ficara to interessado na histria que agora se manifestava, assentindo de cabea. dizendo que ela estava certa, que aquilo era mesmo o que tinha de 
fazer. Ayla contou de como apanhara sem querer um cavalo numa armadilha de fojo, de como descobrira que era uma gua ainda nova, e de como vira um bando de hienas 
perseguindo a potranca depois que a soltara.
     No pude conter-me. Era um beb ainda de leite, incapaz de defender-se! Expulsei as hienas e levei a gua para viver comigo na caverna. Fiz bem. Ela aliviou 
a minha solido, fez minha vida mais suportvel, tornou-se minha amiga.
    As mulheres, pelo menos, podiam entender aquilo. Mesmo um beb, de cavalo era um beb. Contada por Ayla, a histria parecia perfeitamente razovel, mesmo que 
ningum jamais tivesse ouvido falar de adotar um animal como se fora uma criana. Mas no eram s as mulheres que estavam fascinadas com a narrativa. Jondalar observava 
o grupo. Mulheres e homens estavam igualmente empolgados, e ele percebeu que Ayla se tornara uma consumada contadora de histrias. Ele mesmo estava fascinado  e 
conhecia a histria. Ficou observando a mulher, procurando descobrir o que havia nela de to irresistvel. Notou que Ayla no usava apenas palavras, mas gestos, 
sutis, mas de grande poder evocativo.
    No era um esforo consciente ou destinado a produzir um efeito determinado. Ayla crescera habituada a comunicar-se  maneira do Cl, e era perfeitamente natural 
para ela descrever com movimentos alm de palavras, mas quando primeiro se valeu de pios de pssaros e relinchos de cavalos, surpreendeu de fato os ouvintes. Vivendo 
s no vale, ouvindo s a vida animal da vizinhana imediata, ela comeara a imit-los e aprendera a reproduzir as vozes dos bichos com incrvel fidelidade. Depois 
do primeiro choque, aqueles sons de animais, surpreendentemente realistas, acrescentavam uma fascinante dimenso  sua histria.
    Quando ela contou como comeou a montar e treinar os cavalos, at Tholie queria tanto ouvir o resto da histria que se impacientava com a traduo. A jovem mulher 
Mamuti falava muito bem as duas lnguas, mas no sabia reproduzir o relincho de um cavalo ou o canto de um passarinho. Isso porm era desnecessrio. As pessoas 
percebiam o que Ayla ia contando, em parte porque as lnguas eram semelhantes, mas em parte pela expressividade do discurso. Compreendiam os sons, quando era o caso, 
depois esperavam que Tholie completasse com a traduo o que tinham perdido.
    Ayla antecipava as palavras de Tholie tanto quanto os demais, mas por outro motivo, inteiramente diverso. Jondalar j notara com espanto sua inacreditvel facilidade 
para lnguas quando lhe ensinara a sua. No sabia que aquilo se devia a um conjunto muito especial de circunstncias. Tendo de conviver com gente que aprendia da 
memria dos antepassados, arquivadas desde o nascimento nos seus crebros descomunais mas ou menos como uma forma evoluda e consciente de instinto, a filha dos 
Outros tivera de apurar suas prprias faculdades de memorizao. Impusera-se a obrigao de lembrar depressa para no ser tida por obtusa pelo resto do seu Cl.
    Ela fora uma garota normal, loquaz, antes de adotada, e embora tivesse perdido muito da sua linguagem articulada quando comeou comunicar-se com gestos como 
o Cl fazia, os moldes j estavam todos implantados nela. Sua necessidade de reaprender a linguagem verbal para poder comunicar-se com Jondalar acrescentara mpeto 
ao que era uma aptido natural. Uma vez desfechado, o processo se acelerou quando foi morar no Acampamento do Leo e teve de aprender mais uma lngua. Era capaz 
de memorizar palavras depois de ouvi-las apenas uma vez, embora sintaxe e estrutura levassem mais tempo. A lingua dos Xaramudi e a dos Mamuti tinham acentuadas 
semelhanas de construo e muitos termos eram semelhantes. Ayla escutava atentamente a traduo de Tholie, pois enquanto contava sua histria ia aprendendo a lngua 
dos ouvintes.
    Por fascinante que tivesse sido a histria do cavalinho novo, at a prpria Tholie parou de traduzir quando Ayla narrou seu encontro com leozinho ferido. Talvez 
a solido levasse algum a morar com um herbvoro como o cavalo, mas um carnvoro gigantesco  coisa muito diferente. Um leo das cavernas, passante como se diz 
em herldica, atinge facilmente a altura de um cavalo pequeno da estepe e  ainda mais forte. Tholie queria saber como Ayla pudera conceber a ideia de conviver com 
o filhote.
            Ele no era to grande, sequer tinha a estatura de um lobinho, era um beb... e estava ferido.
    Ao falar em lobinho, Ayla pensara descrever um animal menor, mas os olhares dos ouvintes se voltaram para o candeo acomodado junto de Roshario. Lobo vinha do 
norte, e era grande mesmo para os padres de sua raa avantajada. Era o maior lobo que todos ali jamais tinham visto. A ideia de acolher um leo daquelas propores 
no apetecia a ningum.
            O nome que Ayla lhe deu quer dizer "nenm", e ela o chamou assim mesmo depois de crescido. Foi o maior nenm que j vi  acrescentou Jondalar, provocando 
risos.
    Ele tambm sorriu, mas logo contou um fato que os deixou srios outra vez.
            Achei a coisa divertida, como vocs, mas nosso primeiro encontro no teve nada de engraado. Nenm foi o leo que matou Thonolan e que por pouco no 
me matava tambm.
    Dolando olhou de novo, apreensivo, para o lobo.
            Mas o que seria de esperar quando se entra na toca de um leo? Embora tivssemos visto sair a leoa, e no soubssemos que Nenm estava dentro, foi uma 
coisa estpida. Afinal, foi uma sorte para mim que se tratasse daquele leo.
            Por que "sorte"?  perguntou Markeno.
     Eu estava ferido gravemente e sem sentidos, mas Ayla conseguiu dete-lo antes que ele acabasse comigo.
    Todos se viraram para ela.  Como poderia Ayla conter um leo das cavernas?  perguntou Tholie.
     Da mesma maneira como controla Lobo e Huiin  disse Jondalar  Ela mandou que ele parasse, e o leo obedeceu.
    Muitos abanaram a cabea, incrdulos.
     Como voc sabe o que ela fez se estava inconsciente?  disse algum.
    Jondalar identificou quem falara. Fora um jovem homem do Rio que ele conhecia ligeiramente.
     Porque a vi fazer a mesma coisa mais tarde, Rondo. Nenm foi visit-la uma vez, quando eu ainda convalescia. Ele sabia que eu era um estranho, e talvez se 
lembrasse de quando invadira o seu covil. Independente do motivo, ele no me queria perto da caverna de Ayla e logo armou o ataque. Mas Ayla se interps e mandou 
que ele parasse. O leo obedeceu. Foi at cmica a maneira pela qual ele se encolheu j em meio a um salto, mas na hora eu estava por demais amedrontado para notar.
     E por onde anda esse leo?  perguntou Dolando, olhando mais uma vez para o lobo e se indagando se Nenm no a teria tambm acompanhado. Mesmo sabendo-a capaz 
de controlar a fera, no tinha a menor vontade de receber a visita de um leo.
     Nenm foi tratar da vida dele  disse Ayla.  Ficou comigo at crescer. Depois, como fazem os filhos, saiu  procura de uma companheira. Talvez tenha diversas, 
at, agora. Huiin tambm me deixou, por algum tempo, mas voltou. Estava prenha, ao voltar.
     E o lobo? Voc acha que ele tambm ir embora, algum dia?  perguntou Tholie.
     Ayla tomou flego. Aquela era uma questo que sempre evitara encarar. A possibilidade lhe passara mais de uma vez pela cabea, mas sempre a pusera de lado, 
recusando-se at a admiti-la. Agora viera  tona e havia que responder.
            Lobo era muito novo quando o encontrei. Penso que cresceu acreditando que o povo do Acampamento do Leo era a sua alcateia. Muitos lobos ficam com suas 
alcateias, embora alguns saiam e se tornem lobos solitrios at encontrar uma parceira. E a uma nova alcateia tem incio
Lobo  ainda jovem, pouco mais que um filhote. Parece mais velho por ser to grande. No sei o que far no futuro, Tholie, mas isso me aflige. No gostaria que ele 
se fosse.
    Tholie estava de acordo com ela.
            Toda separao  difcil, para quem vai e para quem fica.  Pensava na prpria deciso de deixar sua gente para viver com Markeno.  Sei o que passei. 
Voc tambm no deixou queles que a criaram? Como foi mesmo que os chamou? Cl? Nunca ouvi falar deles. Onde vivem?
    Ayla olhou para Jondalar. Ele estava perfeitamente imvel, tenso a ponto de arrebentar, com uma expresso estranha no rosto. Parecia muito nervoso com alguma 
coisa, e ocorreu-lhe, de sbito, se no estaria envergonhado da sua origem e do povo que a criara. Pensara que ele j havia deixado para trs esses sentimentos. 
Ela no tinha vergonha do Cl. A despeito de Brun e da angstia que ele lhe causara, fora bem cuidada e amada, apesar de ser diferente, e dera afeio em troca. 
Com uma ponta de irritao e um gro de orgulho ferido, resolveu que no iria renegar o povo que amara.
     Eles vivem na pennsula que avana no Mar de Beran.
     Na pennsula?  disse Tholie.  Eu no sabia que havia gente morando na pennsula. Aquilo  domnio dos cabeas-chatas...  A mulher interrompeu o que estava 
dizendo. No poderia ser! Ou poderia?
    Tholie no fora a nica a perceber as implicaes. Roshario prendera a respirao e observava Dolando furtivamente, procurando descobrir se ele estabelecera 
correlaes, mas no querendo dar a perceber aos outros ter notado alguma coisa fora do comum. Os nomes estranhos que Avia tinha mencionado, aqueles nomes to difceis 
de pronunciar, poderiam ser nomes dados por ela a animais de outras espcies? Mas ela contara que a mulher por quem fora criada lhe ensinara a medicina prtica. 
Poderia haver outra mulher, tambm estranha, vivendo com eles? Mas que mulher teria querido viver com eles, principalmente sabendo medicina? Uma Xam iria morar 
com cabeas-chatas?
    Ayla comeava a perceber as curiosas reaes de alguns dos presentes mas quando olhou para Dolando e viu a expresso com que a fitava, teve um arrepio de medo. 
Dolando no parecia o mesmo homem, o lder senhor de si mesmo, que cuidara de sua mulher com tamanha ternura. No a olhava mais com a gratido e alvio que sua proficincia 
nas artes de curar haviam despertado, nem com a aceitao desconfiada do primeiro encontro. Em vez disso, ela detectava uma dor profundamente enterrada no peito 
e um distanciamento. Uma clera ameaadora lhe vidrava os olhos. Era como se ele no pudesse ver claramente, mas s atravs de um vu rubro, de dio.
     Cabeas-chatas!  explodiu ele.  Voc viveu com aqueles animais imundos, assassinos! Eu por mim exterminaria todos eles. E voc viveu l. Como qualquer mulher 
decente poderia viver l?
    Ele tinha os punhos cerrados e fez meno de avanar para ela. Jondalar e Markeno se puseram de p ao mesmo tempo para segur-lo. Lobo se ps de p diante de 
Roshario, com os dentes  mostra e um rosnado baixo, agourento, na garganta. Shamio comeou a chorar, e Tholie a pegou no colo, estreitando-a contra o peito, num 
gesto de proteo. Em circunstncias normais no teria medo de deixar a filha ao alcance de Dolando, mas ele ficava cego quando o assunto eram cabeas-chatas, e 
parecia possudo naquele momento por uma loucura incontrolvel.
     Jondalar! Como voc ousa trazer uma mulher assim para c?  disse Dolando, tentando arrancar-se aos braos do homem alto e louro que o seguravam.
     Dolando! No diga isso!  disse Roshario, procurando levantar-se  Ela me ajudou! Que diferena faz onde tenha sido criada? Ela me ajudou!
    O povo que se havia reunido para celebrar a volta de Jondalar denotava espanto. Muitos estavam boquiabertos, e ningum sabia o que fazer. Carlono se levantou 
para ajudar Jondalar e Markeno e para acalmar seu co-lder.
    Ayla estava assombrada com a virulenta reao de Dolando, to completamente inesperada. Viu que Roshario procurava erguer-se e tirar o lobo do caminho. O animal 
continuava diante dela em atitude defensiva, to confuso com aquela comoo quanto todo mundo, mas determinado a proteger a mulher, como lhe parecia de sua obrigao. 
Ela no devia levantar-se, pensou Ayla, e correu para impedi-la.
            Afaste-se de minha mulher  gritou Dolando.  No quero que ela fique manchada com a sua sujeira.  Ao mesmo tempo, procurava escapar aos homens que 
o seguravam.
    Ayla parou. Queria ajudar Roshario mas no queria criar maiores problemas com Dolando. O que teria acontecido com ele? Percebeu ento que Lobo estava pronto 
para atacar e chamou-o. Aquilo era a ultima coisa de que precisava, que Lobo fizesse mal a algum. O animal estava dividido. Queria ficar onde estava ou atacar. 
O que no queria era afastar-se da confuso. Mas o segundo sinal de Ayla foi acompanhado de um assovio, e aquilo o decidiu. Correu para ela e se postou a sua frente, 
para guard-la.
    Sem saber Xaramudi, Ayla percebia no entanto que Dolando esbravejava contra os cabeas-chatas e lhe dirigia uma torrente de insultos, mas o sentido do que dizia 
no era de todo claro. Enquanto esperava que a situao se definisse, ali, com o lobo, de sbito entendeu o sentido principal do que ele dizia e comeou a ficar 
com raiva. Os membros do Cl no eram imundos assassinos. Por que aquela fria contra eles?
    Roshario ficara de p e tentava aproximar-se dos homens engalfinhados. Tholie entregou Shamio a outra mulher que estava perto e correu em seu auxlio.
            Dolando! Dolando! Pare com isso!  dizia Roshario. Sua voz o alcanou, apesar de tudo, e ele deixou de debater-se. Nem por isso os homens o largaram. 
Ele dirigiu a Jondalar um olhar furibundo.
            Por que voc a trouxe aqui?
            O que est havendo com voc, Dolando?  perguntou Roshario.  Olhe para mim! O que teria acontecido se ele no a tivesse trazido, hein? No foi Ayla 
quem matou Doraldo.
    Ele encarou a mulher e, pela primeira vez, pareceu consciente daquela figura frgil, exaurida, de brao na tipia. Uma espcie de espasmo o sacudiu da cabea 
aos ps, e toda a fria irracional o deixou.
            Roshario, voc no deveria estar de p  disse, e procurou avanar para ela. Viu que os homens o impediam.
            Pode soltar-me agora  disse a Jondalar, com uma voz glacial.
    O Zelandonii tirou as mos dele. Os outros dois, Markeno e Carlono, esperaram mais um pouco, at verificarem que ele no lutava mais. Mas ficaram junto dele, 
por precauo.
            Dolando, voc no tem por que estar zangado com Jondalar  disse Roshario.  Ele trouxe Ayla porque eu precisava dela. Todo mundo est nervoso, Dolando. 
Venha, sente-se aqui comigo, mostre a eles que voc est bem.
    Ela viu que havia uma expresso obstinada no olhar de Dolando, mas a acompanhou at o banco e sentou-se a seu lado. Uma das mulheres lhes lhe trouxe um pouco 
de ch. Depois foi at onde estavam Ayla, Jondalar, Carlono e Markeno, com Lobo.
     Vocs querem algum ch ou vinho?
     Voc teria ainda daquele maravilhoso vinho de uva-do-monte, Carolio?  perguntou Carlono. E Ayla notou a extraordinria semelhana entre os dois.
     O vinho novo ainda no est pronto, mas talvez haja ainda vinho do ano passado. Para voc tambm?  perguntou a mulher a Ayla.
     Sim. Se Jondalar tomar, eu provo um pouco. No creio que tenhamos sido apresentadas.
     No  respondeu a mulher. E quando Jondalar j se prestava nara fazer as apresentaes do protocolo, ela disse:  No precisamos ser formais. Todos sabemos 
quem voc , Ayla. Eu sou Carolio, irm daquele ali  disse, mostrando Carlono.
    Posso ver... a semelhana  disse Ayla. Lutara um pouquinho com a palavra, e Jondalar se conscientizou, de chofre, que ela estava falando Xaramudi. Olhou-a 
com assombro. Como poderia ter aprendido a lngua to depressa?
    Espero que voc possa relevar o destempero de Dolando  disse Carolio.  O filho do seu lar, o filho de Roshario, foi morto por cabeas-chatas, e ele tem dio 
deles desde ento. Doraldo era um rapaz alegre, s alguns anos mais velho do que Darvo. Na flor da idade, portanto, e o golpe foi muito rude para o pai. Ele jamais 
conseguiu super-lo.
    Ayla assentiu, mas tinha uma dvida. No era comum que o Cl matasse um dos Outros. O que teria feito o moo? Viu que Roshario a chamava. Embora a expresso 
de Dolando no fosse amvel, ela acorreu.
            Est cansada? Quer deitar-se? Tem dor?
            Um pouco. Vou deitar-me logo, mas no j. Quero pedir-Ihe desculpas. Eu tive um filho.
     Carolio me contou. Ele foi morto, no ?
     Cabeas-chatas...  resmungou Dolando, entre dentes.
     Talvez tenhamos sido precipitados  disse Roshario.  Voc contou que viveu... com gente que morava na pennsula?  isso?
    Houve, de repente, um silncio total.
     Sim  respondeu Ayla. Depois olhou diretamente para Dolando e inspirou fundo.  O Cl. Esses a quem voc chama cabeas-chatas,  assim que eles se denominam. 
O Cl.
     Mas como? Eles no falam  disse uma mulher jovem. Jondalar viu que era a mulher sentada ao lado de Chalono, outro rapaz que ele conhecia. A fisionomia dela 
lhe era familiar, mas no se lembrava de seu nome no momento.
    Ayla antecipou o comentrio que ela no chegara a formular.
     Eles no so animais. So gente, e falam, mas no com muitas palavras, embora usem algumas. Sua linguagem  feita de sinais e gestos.
     Era isso o que voc estava fazendo?  perguntou Roshario.  Antes de me fazer dormir? Pensei que estivesse danando com as mo.
    Ayla sorriu.
     Eu estava falando com o mundo dos espritos. Pedindo ao esprito. do meu totem que a ajudasse.
     Mundo dos espritos? Falar com as mos? Quanta bobagem! disse Dolando.
     Dolando  disse Roshario, procurando peg-lo pela mo.
             verdade, Dolando  disse Jondalar.  Eu mesmo aprendi alguns desses sinais. Todo o Acampamento do Leo os conhecia. Ayla nos ensinou esse tipo de 
linguagem, para podermos conversar com Rydag. Todos se surpreenderam ao ver que ele era capaz de comunicar-se dessa maneira, embora no pudesse pronunciar direito 
as palavras. Isso os fez compreenderem que ele no era um animal.
            Voc se refere ao menino que Nezzie acolheu?  disse Tholie.
            Que menino? Voc estar falando daquela abominao de espritos misturados que, segundo ouvimos contar, uma Mamuti maluca pegou para criar?
    Ao ouvir isso, Ayla se empertigou. Estava furiosa.
            Rydag era uma criana  disse.  Talvez proviesse de espritos misturados, mas quem pode culpar uma criana pelo que ela ? Ele no pediu para nascer 
daquele jeito. No se diz que  a Me que escolhe os espritos? Ento, ele era um filho da Grande Me tanto quanto as outras crianas. Que direito tem voc de cham-lo 
uma abominao?
    Ayla lanava um olhar desafiador para Dolando, e todo mundo observava os dois. Era geral a surpresa com a defesa de Ayla. Dolando parecia to espantado quanto 
os demais. Que reao teria?
            E Nezzie no  maluca  continuou Ayla.   uma criatura boa, generosa, cheia de calor humano. Tomou um rfo para criar, sem se importar com o que 
pudessem pensar. Era como Iza, a mulher que me acolheu quando eu no tinha ningum neste mundo, embora eu fosse diferente, e viesse dos Outros.
            Os cabeas-chatas mataram o filho do meu lar!  disse Dolando.
            Isso pode ter acontecido, mas  incomum. O Cl prefere evitar contato com os Outros.  assim que chamam s pessoas como ns.  Ayla fez uma pausa, depois 
fitou de novo o homem que ainda sofria com aquela tragdia.   duro perder um filho, Dolando, mas deixe que lhe conte a histria de outra pessoa que perdeu um filho. 
Era uma mulher que conheci quando muitos dos cls se reuniram numa espcie de Reunio de Vero, s que menos frequente. Ela e outras mulheres estavam apanhando mantimentos 
quando, de sbito, diversos homens caram sobre elas. Homens dos Outros. Um deles a agarrou para for-la a ter com ele o que vocs chamam Prazeres.
    Houve gritos sufocados no seio do grupo. Ayla falava de um assunto que jamais era discutido abertamente, embora todos, menos os jovens, j tivessem ouvido falar 
daquilo. Umas poucas mes quiseram retirar as crianas, mas ningum na verdade tinha vontade de sair.
     As mulheres do Cl fazem o que os homens pedem. No so foradas. Mas o homem que agarrou aquela mulher no podia esperar. Sequer podia esperar que ela pusesse 
o seu beb no cho. Pegou-a de maneira to brutal que o beb caiu por terra e ningum notou. S mais tarde, quando ele permitiu que ela se levantasse, a mulher descobriu 
que a cabea da criana tinha batido numa pedra ao cair. O beb estava morto.
    Alguns dos ouvintes tinham os olhos cheios de lgrimas. E Jondalar falou:
     Eu sei que essas coisas acontecem. Ouvi histrias de rapazes que vivem longe, para as bandas do ocidente, e que gostam de divertir-se com cabeas-chatas. Vrios 
deles formam gangues para forar mulheres do Cl.
     Essas coisas acontecem aqui tambm  admitiu Chalono.
    As mulheres ficaram surpresas por ele dizer aquilo, e muitos dos homens desviaram os olhos dele, exceto Rondo, que o olhou com repulsa, como se ele fora um verme.
            E os rapazes se gabam disso,  sempre a faanha mxima para eles  disse Chalono, procurando defender-se.  No so muitos os que fazem isso hoje em 
dia, sobretudo depois do que aconteceu com Doral...        Calou-se de sbito, olhou ao redor, baixando depois os olhos e desejando no ter nunca aberto a boca.
    O silncio penoso que se seguiu foi quebrado quando Tholie disse:
            Roshario, voc parece fatigada. No acha que j  tempo de voltar para a cama?
            Sim, gostaria de ir deitar-me  disse.
    Jondalar e Markeno correram para ajud-la, e todo mundo tomou aquilo como um sinal de retirada. Ningum quis ficar conversando ou brincando junto do fogo naquela 
noite. Os dois homens carregaram a mulher para a casa, com um Dolando cabisbaixo fechando a marcha.
            Obrigada, Tholie, mas acho que seria melhor que eu dormisse com Roshario  disse Ayla.  Espero que Dolando no faa objees. Ela Passou por tanta 
coisa que vai ter uma noite difcil. Para dizer a verdade, os prximos dias sero difceis. O brao j comeou a inchar e vai doer um pouco. No sei se ela fez bem 
de levantar-se hoje, mas insistiu tanto, fazia tanto gosto, que eu talvez no conseguisse impedi-la. Ficou dizendo que se sentia bem, mas isso era devido  bebida 
que faz dormir mas tambm tira a dor, cujo efeito ainda persistia. Dei-lhe mais outra coisa, mas tudo isso j no vai ajudar agora. Ser melhor que eu esteja aqui.
    Ayla acabara de entrar, depois de passar algum tempo escovando e penteando Huiin  luz moribunda do poente. Aquilo sempre lhe fazia bem, estar junto da gua 
e cuidar dela quando se sentia deprimida. Jondalar se reunira a ela do lado de fora por algum tempo, mas sentiu que Ayla queria ficar sozinha e se afastara, depois 
de alguns afagos e palavras de incentivo para Racer.
     Talvez fosse bom que Darvo dormisse com voc, Markeno  disse. Ele no gosta de ver Roshario sofrer.
     Naturalmente  disse Markeno  vou busca-lo. Gostaria de convencer Dolando a ficar conosco tambm, mas ele no concordar, ainda mais agora, depois do que 
aconteceu. Ningum lhe contara at ento a histria completa da morte de Doraldo.
            Talvez tenha sido melhor assim. Agora que tudo est s claras, talvez ele possa tirar isso da cabea  disse Tholie.  Dolando tem cultivado um dio 
mortal pelos cabeas-chatas h muito tempo. Isso nos parecia inofensivo. Ningum faz muito caso deles, afinal... Lamento, Ayla,
mas  verdade.
            Eu sei.
     E no temos muito contato. De maneira geral, Dolando  um bom chefe  continuou Tholie , exceto no que diz respeito a cabeas-chatas. E  fcil acirrar outras 
pessoas contra eles. Mas um dio assim to forte no pode seno deixar sua marca. E acho que  sempre pior para a pessoa que odeia.
     Acho que deveramos ir descansar.  tempo. Voc deve estar exausta, Ayla.
    Jondalar, Markeno e Ayla, com Lobo nos calcanhares, andaram juntos os poucos passos que os separavam da habitao ao lado. Markeno arranhou a cortina da porta 
e esperou. Em vez de perguntar quem era, Dolando veio at a entrada e afastou a cortina. Depois ficou de p na sombra, encarando-os.
            Acho, Dolando, que Roshario vai ter uma noite difcil. Gostaria de estar junto dela.
    O homem baixou os olhos, depois olhou a mulher na cama, e disse:
            Entre.
            E eu quero ficar com Ayla  disse Jondalar. Estava decidido a no deix-la s com o homem que a havia insultado e ameaado, mesmo se ele parecia calmo 
agora.
    Dolando concordou de cabea e abriu caminho.
     Quanto a mim  disse Markeno , vim perguntar a Darvo se ele no quer passar a noite conosco.
     Acho que ele deveria  disse Dolando.  Darvo, pegue suas coisas e v dormir com Markeno esta noite.
    O rapaz se levantou, recolheu peles e cobertas nos braos e marchou para a porta. Ayla achou que ele parecia aliviado, mas no feliz.
    Lobo j se instalara no seu canto, Ayla foi at os fundos da habitao, que estava s escuras, para ver Roshario.
            Voc ter uma lmpada ou um archote, Dolando? Preciso de um pouco mais de luz  disse.
            E talvez um colcho. Devo pedir que Tholie providencie alguma coisa?  disse Jondalar.
    Dolando teria preferido estar sozinho, no escuro, mas se Roshario acordasse com dores, sabia que a mulher saberia muito melhor do que ele o que fazer. Tirou 
de uma prateleira uma tigela de arenito, rasa, feita pelo processo de ir batendo no material e desbastando-o com outra pedra.
     As coisas de dormir esto aqui  disse a Jondalar.  H algum oleo para a lmpada na caixa junto da porta, mas vou ter de fazer um fogo para acender a lmpada. 
O fogo apagou.
     Eu posso fazer o fogo  disse Ayla  se voc me disser onde guarda sua isca e seus gravetos.
    Ele lhe deu o material inflamvel de que ela precisava, juntamente com um basto curto, preto de carvo em uma das extremidades, e uma pea chata de madeira 
com diversos buracos redondos queimados nela pela operao de acender fogo outras vezes, mas Ayla no se utilizou dessas coisas. Em vez disso, tirou duas pedras 
de uma bolsa que tinha pendurada na cintura. Dolando viu, com curiosidade, que ela fazia uma pequena pilha com as aparas de madeira e, depois, ficando bem junto 
delas, batia uma pedra contra a outra. Para surpresa sua, uma fagulha grande e brilhante saltou das pedras para a serragem, e logo subiu uma fina espiral de fumaa. 
Ayla soprou bem de perto, e as aparas de madeira ficaram em chamas.
     Como voc faz isso?  perguntou, surpreso, e com uma ponta de susto na voz. Uma coisa assim to espantosa, e desconhecida, sempre gerava algum temor. At onde 
iriam as artes de Xam daquela mulher?, pensava.
     So pedras-de-fogo  disse Ayla, juntando alguns gravetos ao fogo, depois alguns pedaos maiores de madeira.
     Ayla descobriu isso quando morou naquele vale  disse Jondalar.  Havia muitas nas margens do rio, e eu tambm apanhei algumas. Posso mostr-las amanh e, 
at, dar-lhe umas. Assim, ficar sabendo como so. Deve haver coisa semelhante por aqui. Como v, fica muito mais fcil fazer fogo por esse processo.
            Onde est mesmo o leo?  perguntou Ayla.
            Na caixa perto da porta. Vou busc-lo. Os pavios esto l, tambm  disse Dolando. Ele ps na tigela um bocado de sebo branco e mole... gordura que 
fora clarificada fervendo em gua e escumada da superfcie depois de fria... fincou nele, junto da borda, uma torcida feita de lquen seco, pegou um graveto aceso 
e tocou nele. O fogo estalou, espirrou um pouco, depois uma poa de leo se formou no fundo da tigela e foi absorvida pelo pavio de lquen, o que resultou numa chama 
firme que clareou melhor a habitao.
    Ayla ps pedras de cozinhar no fogo, depois olhou o nvel de gua  no reservatrio. Fez meno de sair com ele, mas Dolando o tomou de suas mos e foi buscar 
gua. Enquanto ele estava ausente, Ayla e Jondalar  arrumaram as cobertas de cama numa plataforma de dormir. Depois, Ayla remexeu nos seus pacotes de ervas secas, 
aromticas e medicinais, para preparar uma infuso relaxante para todos eles. Deixou outros ingredientes em algumas de suas prprias tigelas para Rosnado, quando 
acordasse. Pouco depois de Dolando trazer a gua, serviu uma xcara de ch para cada um.
    Ficaram sentados em silncio, sorvendo a bebida quente. Aquilo era um alvio para Dolando. Receara que quisessem conversar e no estava com disposio para isso. 
Ayla no estava calada por deliberao, no sabia o que dizer. Viera no interesse de Roshario, mas preferia estar longe dali. A ideia de passar a noite debaixo do 
teto de um homem que vociferara de raiva contra ela no lhe era agradvel, e estava grata a Jondalar por haver insistido em fazer-lhe companhia. Ele, por seu lado, 
tambm no tinha o que dizer e esperava que algum comeasse. Isso no ocorreu, e ele sentiu que o mutismo era, talvez, nas circunstncias apropriado.
    Acabara de tomar o ch e Roshario comeou a gemer e debater-se na cama. Ayla pegou a lmpada e foi v-la. Ps a luz num banco de madeira, que servia de criado-mudo, 
empurrando para o lado uma cesta molhada com os cheirosos goivos dentro. O brao da mulher estava inchado e quente, mesmo atravs das ataduras, que estavam, agora, 
apertadas. A luz e o toque dos dedos de Ayla despertaram a mulher. Seus olhos, vidrados de dor entraram em foco e ela reconheceu Ayla. Fez um esforo para sorrir-lhe.
      bom que tenha acordado  disse a outra.  Tenho de tirar a tipia e afrouxar as bandagens e talas. Voc tinha um sono agitado e precisa manter o brao imobilizado. 
Vou fazer uma nova compressa, para reduzir a inchao, mas tenho de preparar primeiro algo para a dor. Acha que posso deix-la por um momento?
     Sim, v providenciar o que for preciso. Dolando pode ficar e conversar comigo  disse, olhando por cima do ombro de Ayla, para um dos homens que estavam atrs 
dela.
            Jondalar, voc poderia ajudar Ayla.
    Ele concordou. Era bvio que Roshario queria falar com Dolando em particular, e para ele era um desafogo sair. Apanhou mais lenha, e em seguida, mais gua. E 
mais pedras chatas, das que o rio ia polindo no seu curso e que serviam para aquecer lquidos. Uma das pedras da casa rachara na hora do ch quando transferida da 
fogueira para a gua fria que Dolando acabara de trazer.
    Permaneceu com Ayla enquanto ela preparava a poo e o emplastro. Da casa vinha um murmrio indistinto de vozes. Alegrava-se de no poder ouvir o que diziam. 
Quando Ayla acabou de tratar de Roshario todos estavam fatigados e prontos para dormir.
    Na manh seguinte Ayla despertou deliciada com o riso das crianas, que brincavam do lado de fora, e com o nariz frio de Lobo no seu rosto. Ao abrir os olhos, 
Lobo se ps a ganir baixinho, olhando alternadamente para ela e para a entrada de onde vinham os sons.
            Voc quer sair e brincar com as crianas, no ?  disse ela. Lobo ganiu de novo.
    Ayla abriu as cobertas e se sentou, notando que Jondalar esparramado ao lado dela e dormindo a sono solto. Espreguiou-se esfregou os olhos, e lanou um olhar 
na direo de Roshario. A doente dormia. Tinha muitas noites insones a recuperar. Dolando, embrulhado numa pele dormia no cho, ao lado da cama da mulher. Ele tambm 
passa noites acordado.
    Quando Ayla se levantou, Lobo correu e esperou-a na porta, torcendo o corpo na expectativa do que o esperava do lado de fora. Mas Ayla saiu sozinha, erguendo 
e baixando rapidamente a cortina, depois de dizer-lhe que esperasse. No queria surpreender ou assustar as pessoas com a irrupo sbita do animal. Viu diversas 
crianas, de vrias idades, na piscina formada pela queda-d'gua, juntamente com certo nmero de mulheres. Todos tomavam banho. Chamando Lobo e mandando que ficasse 
junto dela, Ayla se dirigiu para elas. Shamio deu gritos quando os viu.
     Venha, Lobinho, voc tambm deve tomar banho.
    Lobo gania, olhando para Ayla.
    Tholie, algum se importar se Lobo entrar na piscina? Parece que Shamio quer brincar com ele.
    Eu j estou de sada  disse a mulher , mas ela pode ficar e brincar com ele. Se os outros no se incomodarem.
    Ningum fez objeo, e Ayla fez sinal a Lobo.
     Pode ir.
    O animal saltou na gua e foi ruidosamente direto a Shamio.
    Uma das mulheres, que saa com Tholie, sorriu.
     Quisera eu que meus filhos me obedecessem como ele obedece a voc. Como consegue isso?
     Leva tempo. Tem de repetir tudo muitas vezes, e  difcil fazer de comeo que ele entenda o que a gente quer. Mas, uma vez aprendida uma coisa, ele no esquece 
mais. , de fato, muito esperto. Durante toda a viagem eu o ensinei, diariamente.
      como ensinar criana, ento  disse Tholie.  S que nunca imaginei que um lobo pudesse aprender alguma coisa. Como voc consegue?
     Sei que ele pode assustar quem no o conhece, e no quero que isso acontea  disse Ayla. Vendo Tholie sair do banho e secar-se, notou que ela estava grvida. 
No de muitos meses ainda, de modo que a roupa escondia a barriga. Mas no havia a menor dvida que estava grvida.
     Gostaria de tomar banho, mas antes tenho de urinar  disse Ayla.
    Se voc seguir aquela trilha que passa atrs das casas, encontrar um fosso. Fica bem no alto, junto do paredo, de modo que cai tudo do outro lado quando chove. 
Esse caminho  mais curto do que se der a volta  disse Tholie.
    Ayla comeou a chamar Lobo, depois hesitou. Como de costume,  ele tinha mijado, levantando a perna contra um arbusto qualquer  ela o ensinara a fazer fora mas 
no a usar lugares especiais. Via as crianas brincando com ele e sabia que ele gostaria de ficar. Mas no estava certa se deveria deix-lo. Tudo corria bem, sem 
duvida, mas no sabia a reao das mes.
     Acho que pode deix-lo aqui  disse Tholie.  Eu o vi com as crianas, e voc tem razo. Depois, elas ficaro desapontadas se voc o levar to depressa.
    Ayla sorriu.
     Obrigada. Volto j.
    Comeou a subir pela trilha que cortava em diagonal a rampa mais ngreme em direo a uma das paredes, depois infletia na direo da outra. Quando alcanou a 
ltima parede, atravessou-a usando degraus feitos de pequenas sees de toras de madeira. As toras eram fixadas por estacas enterradas no cho  frente deles, para 
que no rolassem, e escoradas, por trs, com terra e pedras.
    A trincheira e uma rea plana  sua frente, em que havia uma pequena cerca e troncos lisos e rolios em que podia sentar-se, haviam sido escavadas no solo inclinado 
do outro lado do muro. O cheiro e as moscas tornavam bvio o propsito da instalao, mas o sol que brilhava atravs das rvores e o canto dos passarinhos tornavam 
o lugar agradvel. Ayla resolveu, at, esvaziar tambm os intestinos. Viu no cho uma pilha de musgo seco e adivinhou sua utilidade. No arranhava e era bastante 
absorvente. Quando acabou, viu que terra fresca havia sido, recentemente despejada no fundo da fossa.
    A trilha continuava, descendo agora, e Ayla decidiu caminhar mais um pouco por ela. A regio se parecia tanto com a da caverna em que crescera que era como se 
j tivesse estado ali. Sentiu uma sensao esquisita. Viu uma formao rochosa que lhe parecia familiar, um espao aberto na crista de uma elevao, uma vegetao 
conhecida. Parou para colher algumas avels de uma moita que crescia contra uma parede rochosa e no pde resistir ao impulso de afastar os ramos mais baixos e ver 
se havia uma pequena caverna atrs deles.
    Encontrou outra grande formao de ps de amora-preta, com longos ramos cados, pesados de bagas maduras. Empanturrou-se de amoras, perguntando-se o que teria 
acontecido com as outras, apanhadas na vspera. Depois lembrou-se de haver comido umas poucas no banquete de boas-vindas. Resolveu voltar para apanhar amoras para 
Roshario. E, de chofre, lembrou-se que tinha de ir embora. A mulher podia estar acordando e precisando de ateno. A mata lhe parecia to familiar que, por um momento, 
esquecera onde estava. Sentia-se menina outra vez, correndo pelas colinas, com a desculpa de procurar plantas medicinais para Iza.
    Talvez por ser aquilo uma espcie de segunda natureza, talvez pelo costume de prestar mais ateno s plantas na volta para ter alguma coisa que mostrar como 
resultado da explorao, o fato  que prestou mais ateno  vegetao local do que na ida.
    Quase gritou de excitao e alvio quando deu com as frgeis trepadeiras amarelas de folhas e flores midas. Estavam, como sempre, enroladas em outras plantas, 
mortas e secas, estranguladas pelo fio-de-ouro.
     ela! O fio-de-ouro, a planta mgica de lza, pensou. E disso que preciso para o meu ch matinal. Com isso, nenhum beb crescer dentro de mim. E h grande quantidade 
por aqui. Meu estoque j andava to reduzido que talvez no desse para toda a Jornada. Ser que vou encontrar tambm raiz- de-salva-de-antlope por aqui? Tem de 
haver. Depois volto para procurar.
    Achou ainda uma planta de largas folhas basais e teceu-as com gravetos para fazer uma cesta de emergncia. Apanhou depois tanto das plantinhas quanto pde colher, 
sem privar dela toda a rea. Iza lhe ensinara muito tempo atrs que tinha de deixar sempre alguma para assegurar a florao do ano seguinte.
    Fez na volta um pequeno desvio por um trecho mais denso e umbro-so de floresta, para ver se encontrava mais da planta branca e serosa que servia para aliviar 
os olhos dos cavalos. Eles j estavam melhores, mas mesmo assim, procurou debaixo das rvores com todo o cuidado. Com tanto que lhe era familiar em volta, mais aquilo 
no seria surpresa nenhuma. Quando viu de fato as folhas verdes da planta que buscava, prendeu a respirao e sentiu um frio na espinha.

18
___________________________________________________________________________

    Ayla se deixou cair no cho mido e ficou sentada olhando as plantas, respirando o ar perfumado da floresta, deixando que as memrias a invadissem, de roldo.
    Mesmo no Cl o segredo da raiz era pouco divulgado. A receita vinha da linhagem de Iza, e s os que descendiam dos mesmos antepassados  ou algum a quem ela 
o tivesse ensinado  conheciam o complicado processo exigido para chegar ao resultado final. Ayla se lembrava de Iza explicando o mtodo, pouco usual, de secar a 
planta, de modo a que suas propriedades se concentrassem nas razes, e lembrava-se de que elas ficavam mais fortes com longa armazenagem, desde que mantidas em lugar 
escuro.
    Embora Iza lhe tivesse mostrado repetidamente, e com todo o cuidado como preparar a beberagem a partir das razes desidratadas, no permitira que Ayla a fizesse 
antes da ida para a Reunio dos Cls. O remdio no devia ser usado sem o seu ritual apropriado, insistira Iza, e era por demais sagrado para ser jogado fora. Por 
isso, Ayla ingerira a borra encontrada no fundo da antiga vasilha de Iza, depois que ela o preparara para os mog-urs (seu consumo era defeso s mulheres). Assim, 
no teria de ser jogada fora. Ela no andava muito certa da cabea naquela poca. Muita coisa andava acontecendo ao mesmo tempo, outras bebidas lhe toldavam a mente, 
e a infuso de razes era to forte que mesmo o pouco que provara no curso da fabricao tivera um efeito poderoso.
    Ela metera por entre os estreitos corredores das cavernas, e quando se viu de sbito cara a cara com Creb e os demais mog-urs no poderia ter recuado, nem que 
o tivesse querido. Foi ento que a coisa aconteceu. De algum modo, Creb sentira a sua presena e ele a levara com o grupo, de volta s memrias. No fora isso, e 
ela teria ficado perdida para sempre naquele vazio negro, mas algo aconteceu naquela noite que mudou Creb. Ele no foi mais O Mog-ur dali por diante, perdeu a vontade 
ou o nimo, at aquela ltima vez.
    Ayla levara consigo umas poucas razes ao deixar o Cl. Estavam na sua bolsa de remdios, na sacola vermelha  a cor sagrada. Mamute ficara muito curioso quando 
ela lhe falou das propriedades da planta. Mas ele no tinha os poderes do Mog-ur, ou talvez a planta afetasse os Outros de modo diferente. Ela e Mamute foram arrastados 
para o vazio negro e quase no puderam voltar.
    Sentada, agora, no cho, contemplando a planta aparentemente incua, que podia ser convertida em uma poo to poderosa, ela rememorou a experincia. E, de sbito, 
estremeceu com um segundo calafrio e sentiu que tudo escurecia, como se uma nuvem tivesse passado no cu E a j no recordava apenas: revivia aquela estranha Jornada 
cora o Mamute. A verde mata esmaeceu e ficou imprecisa, e ela se sentiu puxada para a memria daquele escuro abrigo subterrneo de outros tempos. Sentiu no fundo 
da garganta o travo escuro e frio da marga e dos fungos da velha floresta primeva. Sentiu-se ir outra vez a grande velocidade pelos estranhos mundos por onde andara 
com o Mamute, e sentiu de novo o terror do vazio negro.
    Depois, fraca, remota, a voz de Jondalar a havia alcanado, cheia de um medo agoniado e de amor. E ela e Mamute foram trazidos para o presente pela fora do 
amor dele e da sua privao. E num momento estava de volta, gelada at os ossos, apesar do calor do sol daquele fim de vero.
     Jondalar nos salvou!  disse em voz alta. Agora, porque na poca no se dera conta por inteiro daquilo. Ele foi a primeira pessoa que ela viu ao abrir os olhos, 
mas logo desapareceu, e Renac surgiu em seu lugar, com uma bebida quente para reanim-la. De Mamute foi que ouviu que algum os ajudara, chamando. Ela no soube, 
ento, que se tratava de Jondalar, mas agora sabia com clareza, como se estivesse escrito que um dia teria de sab-lo.
    O velho lhe dissera que no mais usasse a raiz, nunca mais, avisando-a do perigo que corria. Se lhe desobedecesse e tomasse a droga, ento devia ter algum por 
perto que pudesse acord-la. A raiz, disse, era pior que mortal: podia roubar-lhe o esprito, e ela ficaria errante na treva e no vcuo sem jamais retornar  Grande 
Me Terra. Aquilo no importara muito na ocasio: ela no tinha mais razes. Usara as ltimas com Mamute. Mas agora, diante dos seus olhos, estava a planta.
    Porque estava ali no queria dizer que a tivesse de apanhar, pensou. Se a deixasse ficar, no teria de importar-se nunca com o perigo de us-la e perder o esprito. 
A bebida, afinal de contas, era proibida. Mulheres no deviam tom-la. Era s para mog-urs, que lidavam com o mundo dos espritos, no para curandeiras, cujo ofcio 
era apenas prepar-la. Mas ela j provara a droga duas vezes. Alm disso, Broud a excomungara: para o Cl ela estava morta. Quem ento poderia proibir-lhe, independe 
do que fosse?
    Ayla sequer se perguntou o que estava fazendo quando pegou um galho quebrado e o usou como pau-de-cavouco para retirar do solo, com cuidado, algumas das plantas 
sem danificar-lhes as razes. Ela era uma das poucas pessoas no mundo a conhecer-lhes as propriedades. No podia deix-las ali, simplesmente. No que tivesse qualquer 
inteno definida de fazer uso delas. Mas colher plantas assim, gratuitamente, era normal para ela. Tinha muitas poes que talvez no viesse jamais a usar. Tinham, 
todas, usos medicinais em potencial. Mesmo o fio-de-ouro de Iza, contra as essncias capazes de impregnar uma mulher, servia tambm para picadas de insetos quando 
aplicado externamente. Mas aquela era diferente. No servia para mais nada. Era mgica para o esprito.
     Ah! A est voc. J estvamos preocupados  disse Tholie, logo que a avistou.  Jondalar disse que se voc no viesse ia mandar Lobo para busc-la.
     Por que demorou tanto?  perguntou Jondalar antes que ela pudesse responder.  Tholie me disse que voc voltava logo.  Na aflio, falara em Zelandonii inadvertidamente. 
E Ayla viu que ele estivera, de fato, ansioso.
     A vereda no acabava mais, e resolvi seguir em frente. Ento, encontrei algumas plantas que andava procurando  disse Ayla, mostrando o material que tinha 
colhido.  Esta rea  to parecida com aquela em que me criei! No via isto desde que sa de l.
     E que importncia tm que voc no pde deixar de apanh-las agora? Esta aqui, para que serve?  indagou Jondalar, mostrando o fio-de-ouro.
    Ayla j o conhecia bem para saber que o tom agressivo era apenas resultado de sua preocupao, mas a pergunta a pegou de surpresa.
            Bom... Serve para picadas... mordidas  disse, corando. No estava mentindo, mas a resposta era incompleta. Ayla fora criada como mulher do Cl, e mulheres 
do Cl no podiam recusar responder uma pergunta direta, sobretudo se feita por um homem. Mas Iza lhe proibira Terminantemente falar dos poderes daquele fio-de-ouro 
a qualquer pessoa, principalmente a um homem. Iza nunca deixaria de responder  pergunta de Jondalar  no teria podido resistir-lhe , mas no teria ocasio de 
ser posta  prova. Nenhum homem do Cl ousaria submeter uma curandeira a um interrogatrio sobre suas ervas ou sobre o exerccio da sua profisso. O que Iza dissera 
era que Ayla no desse a informao voluntariamente.
    Calar era aceitvel, mas Ayla sabia que a permisso se dava por cortesia ou para garantir uma certa privacidade. Mas, no caso, ela fora mais alm. Estava sonegando 
informao deliberadamente. Podia ministrar o remdio, quando achasse isso apropriado, mas sabendo, por Iza, que podia ser perigoso para ela se os homens a soubessem 
capaz de derrotar os mais fortes espritos e impedir a fecundao. Aquilo era conhecimento secreto, privativo de curandeiras.        
    Um pensamento ocorreu a Ayla. Se o remdio de Iza podia impedir a Me de abenoar uma mulher com um filho, podia ser ele mais forte que a Me? Mas como? E se 
Ela criara todas as plantas, no teria criado essa, com tais propriedades, de propsito? Para ajudar as mulheres se a gravidez fosse difcil ou perigosa para elas? 
Mas ento por que um maior nmero de mulheres no tinha cincia do fato? Talvez elas tivessem As plantas cresciam to perto do acampamento que aquelas mulheres Xaramudi 
podiam estar familiarizadas com os seus efeitos. Podia perguntar. Mas talvez no lhes respondessem. E se no sabiam de nada, como fazer uma pergunta daquelas sem 
deixar escapar o segredo? E por que no? Se a inteno da Me fora que as mulheres se servissem da planta, por que fraudar-lhe a inteno? A cabea de Ayla fervia 
de perguntas, para as quais ela no tinha respostas.
     Por que precisa de plantas para picadas logo agora?  perguntou Jondalar, ainda incerto.
     No tive a inteno de deix-lo preocupado  disse Ayla. E sorriu.  Mas esta rea  muito parecida com aquela onde fui criada. No resisti ao desejo de explor-la, 
s isso.
    E ele teve de sorrir tambm.
     Achou tambm amoras-pretas, no foi? Agora sei por que levou tanto tempo! No conheo ningum que goste tanto de amoras quanto voc.  Ele percebera que ela 
estava contrafeita e exultava imaginando haver descoberto o motivo.
     Bem, sim, comi algumas. Talvez a gente possa ir l de novo e colher amoras para todo mundo. Esto maduras e deliciosas. E h outras coisas que quero ver se 
encontro.
     Acho que com voc aqui vamos ter sempre quantas amoras-pretas quisermos!  disse Jondalar, beijando-lhe a boca tingida de prpura.
    Ele estava to contente por t-la de volta, s e salva, e to contente com a prpria esperteza  descobrir seu fraco por amoras , que Ayla se limitou a sorrir. 
Que Jondalar pensasse o que quisesse. Ela gostava, sim, de amoras silvestres, mas seu fraco mesmo era por ele. E sentiu, de repente, tanto amor por Jondalar que 
desejou que estivessem sozinhos. Queria abra-lo, toc-lo, dar-lhe os Prazeres e senti-lo dando-lhe os Prazeres tambm, com a incrvel mestria de sempre. Esses 
sentimentos refletiram-se nos seus olhos, e os olhos de Jondalar  to maravilhosamente azuis  responderam-lhe com maior ardor ainda. Ela sentiu aquilo to forte 
por dentro que teve de dar-lhe as costas para acalmar-se.
     Como vai Roshario? Ela j est acordada?
            Sim, e disse que sente fome. Carolio veio do desembarcadouro e est preparando alguma coisa para ns, mas pensei que deveramos esperar a sua volta 
para dar de comer  doente.
     Vou v-la, ento. Depois gostaria de nadar um pouco  disse Ayla, dirigindo-se para a casa. No mesmo momento, Dolando ergueu a cortina da porta para sair, 
e Lobo veio atrs dele, aos saltos. Correu para Ayla ps as patas nos ombros dela e lambeu-lhe o queixo.
     Lobo! Quieto! Estou com as mos cheias.
     Ele parece alegre por v-la  disse Dolando. E, depois de uma breve hesitao.  Eu tambm estou, Ayla. Roshario precisa de voc.
    Era uma espcie de concesso. Pelo menos a admisso de que no queria mant-la afastada de sua mulher, apesar da exploso da vspera. Ela sentira isso quando 
ele a admitira outra vez em casa, mas nada fora expresso em palavras at ento.
     Voc vai precisar de alguma coisa? Posso ajud-la?  acrescentou vendo que ela trazia uma braada de plantas.
     Gostaria de secar essas plantas, mas para isso vou precisar de um ripado. Posso fazer um, desde que tenha sarrafos, e algum fio para amarr-los.
     Acho que posso encontrar coisa melhor. O Xam costumava secar plantas para os seus remdios, e sei onde esto as grades de madeira que ele usava. Voc quer 
uma?
     Seria perfeito, Dolando  respondeu ela. O homem fez um gesto de assentimento com a cabea e se foi. Ayla entrou. Sorriu ao ver que Roshario estava sentada 
na cama. Colocou as plantas no cho e foi at o leito.
     Eu no sabia que Lobo estava aqui dentro. Espero que ele no tenha incomodado vocs.
     No. Ele ficou de guarda, todo o tempo. Logo que entrou... sabe passar pela cortina... veio logo me ver. Eu lhe dei uns tapinhas na cabea, e ele foi sentar-se 
naquele canto ali. Ficou l o tempo todo.  o lugar dele, agora, sabe?  disse Roshario.
     Voc dormiu bem?  perguntou Ayla, ajeitando a cama e escorando a mulher com almofadas e peles para que ficasse mais confortvel.
     Melhor do que jamais me senti antes! Principalmente depois que eu e Dolando tivemos uma boa conversa.  Encarou, firme, a outra mulher, aquela loura alta que 
Jondalar trouxera com ele, criara tamanho rebulio na vida de todos, e precipitara tantas mudanas em to curto tempo.  Na verdade, Ayla, ele no quis dizer aquilo 
a respeito de voc, mas ele anda nervoso. Tem vivido h anos com a ideia fixa da morte de Doraldo. Sempre foi incapaz de tir-la da cabea. Ele no sabia das circunstancias 
at a noite passada. Agora est procurando reconciliar anos de dio e violncia para com uma gente que ele tinha na conta de animais ferozes com tudo o que surgiu 
de novo sobre eles, inclusive voc.
     E Quanto a voc mesma, Roshario? Afinal, ele era seu filho tambm.
     Eu os odiava tanto quanto Dolando, mas ento a me de Jetamio morreu, e nos a adotamos. Ela no tomou propriamente o lugar de Doraldo, mas estava to fraquinha, 
e exigiu tantos cuidados, que no tive tempo de ficar remoendo a morte do meu filho. Quando passei a consider-la como filha, deixei a memria dele em paz. Dolando 
tambm passou a amar Jetamio, mas meninos so alguma coisa especial para os pais, principalmente meninos nascidos para o seu lar. Ele no se conformava com o fato 
de que Doraldo tivesse morrido justamente quando chagara  maioridade e tinha a vida  sua frente.  Roshario estava com os olhos marejados de gua.  E agora Jetamio 
tambm se foi. Tive at medo de criar Darvalo, com medo que ele tambm morresse jovem.
            No  fcil perder um filho  disse Ayla , ou uma filha.
    Roshario imaginou ter visto uma sombra de dor passar pelo rosto da outra, quando ela se ergueu e foi at o fogo para comear os seus preparativos. Quando voltou, 
trazia os remdios que ela devia tomar naquelas interessantes tigelinhas de madeira. Roshario nunca vira vasilhas como aquelas. Muitos dos seus utenslios e ferramentas 
eram decorados com entalhes ou pinturas, principalmente os de Xam. As tigelas de Ayla tinham acabamento delicado, e lindas formas, mas eram absolutamente simples. 
No tinham decorao de nenhuma espcie, exceto pelo veio da prpria madeira.
     Sente dor agora?  perguntou Ayla, removendo as ataduras.
     Alguma. Mas muito menos do que antes.
            A inchao est cedendo  disse Ayla, estudando o brao.  Isso  bom sinal. Vou pr de novo as talas e a tipia, para o caso de voc querer levantar-se 
por algum tempo. De noite, porei novo emplastro. E quando no estiver mais inchado, enrolo o brao em casca de btula, que no deve ser tirada at que o osso fique 
curado. Vai levar pelo menos uma lua inteira e metade de outra  explicou Ayla, removendo com grande percia a pele macia e mida de camura e examinando a equimose 
causada pelas suas manipulaes do dia anterior.
            Casca de btula?  perguntou Roshario.
     Sim. Quando molhada em gua quente, ela amolece e fica fcil de moldar e ajustar. Depois endurece quando seca e conserva seu brao rgido, de modo que o osso 
fica reto e firme, mesmo que voc saia cama e ande por a.
     Quer dizer que vou poder fazer alguma coisa em vez de ficar deitada?  disse Roshario com uma expresso de alegria no rosto.
     S poder utilizar o outro brao, mas no h motivo por que no possa ficar de p. Era a dor que a mantinha na cama.
    Roshario concordou.
     Era mesmo.
            H outra coisa que eu queria que fizesse antes de pr as ataduras de volta. Desejaria que movesse um pouco os dedos. Talvez doa um pouco.
    Ayla procurou disfarar sua preocupao. Se houvesse algum dano interno que impedisse Roshario de mexer com os dedos quela altura isso poderia ser um sinal 
de que, mais tarde, teria apenas o uso limitado do brao. Ficaram de olhos fixos na mo, e sorriram, ambas, quando ela ergueu o pai-de-todos um pouco e, em seguida, 
os demais.
     Muito bom! Agora, ser capaz de curvar um pouco os dedos?
     Posso senti-los perfeitamente!  disse Roshario, flexionando os dedos.
     E ser que di muito fechar a mo?
    Ayla ficou olhando, e Roshario fechou a mo devagarinho.
     Di, mas  possvel.
     Muito bom mesmo. E at onde pode mover a mo? Poder dobr-la no pulso?
    Roshario fez uma careta com o esforo e aspirou ar atravs dos dentes cerrados. Mas dobrou a mo para a frente.
     Agora chega  disse Ayla.
    Ambas se voltaram para a porta, vendo que Lobo anunciava a chegada de algum. Era Jondalar. Lobo deu um latido apenas, que mais parecia uma tosse rouca, e sorriu 
quando ele entrou.
     Vim ver se h alguma coisa que eu possa fazer. Quer que ajude Roshario a sair?  perguntou. Lanara um olhar para o brao descoberto da mulher e tirara os 
olhos depressa. Aquela coisa disforme e manchada no lhe parecia grande coisa.
     No momento, no precisamos de nada. Mas nos prximos dias gostaria muito de algumas tiras de casca de btula, bem largas. Se voc encontrar alguma rvore de 
porte guarde na cabea a sua localizao para mostrar-me onde fica.  para manter o brao de Roshario duro enquanto sara.
     Voc no me explicou por que me mandou mexer os dedos, Ayla  disse Roshario.
    Ayla sorriu.
     Significa que so boas as chances de que voc venha a ter o uso normal do seu brao outra vez, ou pelo menos quase normal.
     Que boa notcia!  exclamou Dolando, que ouviu tudo ao entrar com uma espcie de grelha de madeira. Segurava-a por uma ponta e Darvalo por outra.  Isto aqui 
serve?
     Serve sim, e foi bom que vocs a tivessem trazido para dentro. Algumas das minhas plantas tm de secar no escuro.
     Carolio mandou dizer que a nossa refeio da manh est pronta  disse o rapaz.  Ela quer saber se vocs no preferem comer l fora. O dia est muito bonito.
     Bem, eu gostaria  disse Roshario. Depois se voltou para Ayla.   Se voc estiver de acordo,  claro.
     Deixe-me pr o brao na tipia primeiro. Depois pode andar, ajudada por Dolando  disse Ayla.
    O lder dos Xamudi abriu o rosto num sorriso que para ele constitua raridade.
     E se ningum fizer objeo, vou dar um mergulho antes de comer.
     Voc me garante que isso a  um barco?  disse Markeno, ajudando Jondalar a pr de p contra a parede o barco redondo e os dois mastro.  Como  que voc 
controla uma coisa dessas?
 No  to fcil de controlar quanto os barcos de vocs e serve mais para atravessar rios. Os remos do para fazer isso a contento. Naturalmente, como temos os 
cavalos, deixamos que eles o puxem  explicou Jondalar.
    Ambos olharam para o campo, onde Ayla escovava Huiin. Race estava junto delas. Jondalar j o limpara mais cedo, e vira com prazer que as reas onde o plo cara 
durante a travessia das plancies quentes j se estavam recobrindo. Ayla tratara dos olhos dos dois cavalos. Agora que estavam num lugar mais fresco e mais alto, 
havia uma grande melhor.
 A domesticao dos cavalos  o que mais me impressiona  disse Markeno.  Nunca imaginei que eles fossem ficar junto das pessoas mas esses dois parecem gostar 
disso. Embora eu deva confessar que fiquei mais surpreso com a presena do lobo, de incio.
 Agora voc j se acostumou. Ayla o conservou sempre junto dela, achando que ele causava mais medo que os cavalos.
    Viram que Tholie caminhava ao encontro de Ayla, com Shamio e Lobo correndo  volta dela.
 Shamio adora Lobo  disse Markeno.  Olhe! Eu devia ter medo, aquele animal pode estraalhar uma criana, mas Lobo no me assusta mais. Ele est brincando com 
a menina!
 Os cavalos tambm sabem brincar. Mas o que voc no pode imaginar  a sensao de montar e viajar a cavalo. Pode experimentar, se quiser, mas aqui no h muito 
espao para que eles corram de verdade.
 No faz mal, Jondalar, acho que fico mesmo com os meus barcos  disse Markeno. Quando um homem apareceu na quina do penhasco, acrescentou:  L vem Carlono. Acho 
que  tempo de Ayla dar um passeio em um deles.
    Todos seguiram para o lugar onde estavam os cavalos. Depois foram juntos para a borda do paredo e ficaram no lugar de onde o pequeno riacho se precipitava no 
Rio da Grande Me, embaixo.
 Voc acha mesmo que ela deve tentar descer assim, a pique?  disse Jondalar.   muito ngreme, leva tempo, e d medo. Eu prprio hesito. H muito tempo que no 
fao isso.
 Voc mesmo disse que queria dar  moa a oportunidade de andar num barco de verdade, Jondalar  disse Markeno.  E talvez ela goste de ver o nosso desembarcadouro.
 No  to difcil  disse Tholie.  H apoios para os ps, e cordas. Posso mostrar-lhe como fazer.
 Ela no precisa descer a pique  disse Carlono.  Podemos baix-la na cesta dos suprimentos. Foi como voc veio da primeira Jondalar.
 Talvez fosse melhor  disse Jondalar.
 Pois ento venha comigo. Mandaremos a cesta para cima.
    Ayla tinha assistido  discusso contemplando o rio, longe, e o caminho, to precrio, que eles usavam para descer  o caminho em que Roshario havia cado, embora 
estivesse inteiramente familiarizada com ele. Viu as fortes cordas tranadas, presas a cavilhas de madeira enterradas em fendas do rochedo, a partir do topo, onde 
estavam. Parte da descida vertical era lavada pela torrente, que batia, ao cair, em mais de uma salincia.
    Viu que Carlono comeava a descida com aparente facilidade, agarrando-se  corda com uma das mos enquanto pousava o p na primeira e estreita aba. Viu que Jondalar 
empalidecia, respirava fundo, depois ia atrs do outro, um pouco mais lentamente, porm, e com maior cautela. Entrementes, Markeno, que Shamio queria ajudar, apanhava 
um grande rolo de corda grossa, terminado em lao. Esse lao estava preso numa forte estaca, fincada na plataforma. A outra ponta foi lanada no espao. Ayla ficou 
imaginando que espcie de fibra usavam. Nunca vira cordame to grosso.
    Pouco depois, Carlono reaparecia, com a outra ponta do cabo. Ele foi at uma segunda estaca, no muito afastada da primeira, depois comeou a recolher a corda, 
deixando-a cair num rolo junto dele. Um objeto grande, achatado, parecido com uma cesta, logo surgiu entre as duas estacas. Cheia de curiosidade, Ayla se aproximou 
para v-lo de perto.
    Como as cordas, a cesta era muito resistente. O fundo chato, reforado com madeira, era oval e tinha os lados direitos. Podia levar at uma pessoa deitada de 
todo o comprimento ou um esturjo de tamanho mdio com a cabea e o rabo para fora. O maior esturjo daquelas regies, de uma das duas variedades que s existiam 
naquele rio e nos seus principais afluentes, alcanava nove metros de comprimento e pesava mais de 1.500 quilos. Tinha de ser cortado em mais de duas partes para 
subir.
    A cesta dos suprimentos era iada entre duas cordas que se entranavam nela e eram mantidas no lugar por quatro anis de fibra, dois de cada lado. A corda descia 
por um anel e subia pelo outro, que lhe ficava oposto, em diagonal, do outro lado. Cruzavam no fundo. As quatro pontas da corda eram tecidas juntas e formavam uma 
larga ala em cima. A corda que fora lanada pela borda tambm passava pela mesma argola.
    Pode embarcar, Ayla. Firmaremos a corda e desceremos voc com cuidado  disse Markeno, calando um par de mitenes de couro bem justas e enrolando em seguida 
a extremidade maior da corda em torno da segunda estaca para a descida da cesta.
    Quando ela hesitou, Tholie disse:
         Se prefere descer pela parede da rocha, vou junto, mostrando como . No gosto de descer na cesta.
        Ayla olhou mais uma vez a penedia. Nenhum dos dois sistemas lhe parecia convidativo.
         Acho que vou experimentar a cesta, pela primeira vez  disse.
        Onde ficava o caminho, embaixo, e o paredo escarpado era ainda ingreme, mas se abria um pouco, o que facilitava a escalada. Pelo meio, onde estavam cravadas 
as cunhas de madeira, o topo do penhasco avanado para a frente em platibanda. Ayla entrou na cesta, sentou-se no fundo, e agarrou-se s bordas ate ficar com os 
ns dos dedos brancos.
         Est pronta?  perguntou Carlono.
        Ayla virou a cabea na direo dele sem largar as mos e fez que sim com a cabea.
         Vamos desc-la, Markeno.
        O rapaz afrouxou a corda, e Carlono guiou a cesta para o vazio enquanto Markeno controlava o ritmo da descida, deixando que a corda fosse passando por suas 
mos enluvadas de couro, a laada no alto da cesta escorregava ao longo da corda pesada, e Ayla, suspensa no espao por cima do desembarcadouro, descia devagar.
        O sistema era simples, mas eficiente. Era movido abrao, mas a cesta, embora forte, no era pesada, de modo que uma pessoa apenas podia manobrar cargas bastante 
grandes. Com mais de uma pessoa nos comandos, at cargas pesadas subiam.
        Quando a cesta passou a beira do barranco, Ayla fechou os olhos. Agarrada  borda, sentia o corao bater nos ouvidos. Mas quando percebeu que descia suavemente, 
abriu os olhos, depois olhou em volta, tomada de estupor. A viso que tinha era de uma perspectiva que jamais tivera antes e que, provavelmente, jamais teria de 
novo.
        Dependurada por cima do grande rio, ao lado da parede do despenhadeiro, sentia-se como que flutuando no ar. O muro rochoso do outro lado do rio ficava a 
pouco mais de um quilmetro de distncia, mas lhe parecia muito mais prximo  embora no Porto fossem ainda muito mais juntos um do outro. O rio ali era reto, e 
vendo-o  direita e  esquerda, naquela grande extenso, podia sentir a sua fora. Quando j estava bem perto do cho, e olhou para cima, viu uma nuvenzinha branca 
no limite da rocha e duas figuras  uma bem pequena  mais o lobo, que olhavam para baixo. Acenou. Depois, aterrissou com um pequeno impacto, enquanto ainda olhava 
para o alto.
        Quando viu a expresso sorridente de Jondalar, comentou.
         Foi muito excitante.
                E espetacular, no  mesmo?  disse ele, ajudando-a a sair da gndola.
         Havia muita gente  espera, mas ela estava mais interessada no lugar que nas pessoas. Sentia um movimento debaixo dos ps quando pisou as pranchas de madeira 
do desembarcadouro e viu que estavam flutuando em cima da gua. Era um cais espaoso, capaz de acomodar diversos alojamentos de construo semelhante aos de cima, 
que a salincia do rochedo de arenito resguardava. E sobravam reas livres. Havia um fogo perto, protegido por pedras, sobre uma laje de grs.
        Muitos daqueles barcos interessantes que ela j notara antes estavam atracados  plataforma flutuante. Usados pela populao ribeirinha, eram estreitos e 
alongados e terminavam em ponta, a proa como a popa. Eram de vrios tamanhos, e no havia dois que fossem exatamente iguais. Iam dos que mal tinha espao para uma 
pessoa sozinha aos que podiam sentar todo um grupo.
        Ao virar-se para ver melhor, deu com dois realmente desmedidos. Tinham as proas curvas para cima de modo a formar cabeas de estranhos pssaros e eram pintados 
com motivos geomtricos que, em conjunto, davam a impresso de penas. Havia um segundo par de olhos pintados junto da linha de flutuao. O maior dos barcos tinha, 
at, um dossel na sua seo mediana. Quando ela se voltou para Jondalar, a fim dr manifestar-lhe seu espanto, viu que ele fechara os olhos e tinha a testa franzida 
de angstia, e entendeu que o barco grande tivera algo a ver com irmo, Thonolan.
        Mas nenhum deles teve muito tempo para ver as coisas com calma e tirar concluses. Foram arrastados pelos locais, ansiosos por mostrar aos visitantes tanto 
as suas embarcaes, de modelo incomum, quanto a sua percia em marinhagem. Ayla viu que as pessoas subiam rapidamente por uma conexo semelhante a uma rampa empinada 
que ligava a doca ao barco. Quando a levaram at l, compreendeu que esperavam que ela tambm subisse. Muita gente andava sem esforo por aquelas pranchas oscilantes, 
equilibrando-se com facilidade, embora o cais balanasse para um lado e o barco para outro, ao que lhe parecia. Ayla ficou muito grata pela mo que Carlono lhe estendeu.
        Sentou-se entre Markeno e Jondalar, debaixo da coberta, num banco em que teriam cabido facilmente mais pessoas. Viu que havia gente atrs e na frente, e 
que muitos empunhavam longos remos. Antes de perceber o que estava acontecendo, tinham desatado as amarras e estavam no meio do rio.
        A irm de Carlono, Carolio, postada na proa do barco, comeou a entoar com voz forte um canto coletivo, ritmado, que se imps  melodia lquida do Rio da 
Grande Me. Ayla via com fascinao como os remadores venciam a corrente, intrigada com a maneira como remavam em unssono ao ritmo de uma cano, e ficou surpresa 
com a rapidez e aparente facilidade com que eram impelidos rio acima.
        Na volta do rio, os lados da garganta rochosa se estreitaram. Entre os elevados paredes de rocha, que subiam, verticais, das profundezas do caudal, o som 
da gua ficou mais alto e mais intenso. Ayla sentiu que ar era mais frio ali e mais mido, e suas narinas captaram o cheiro molhado do rio, da vida que nele nascia 
e morria, to diferente dos aromas secos e revigorantes da plancie.
        Quando a passagem se alargou de novo, apareceram rvores que vinham at o limite da gua nas duas margens.
         Isto j me parece familiar  disse Jondalar.  Aquilo em frente no  o lugar onde fazem os barcos? Vamos parar l?
         No desta vez. Vamos prosseguir e fazer o retorno em Meio-Peixe.
         Meio-Peixe?  disse Ayla.  O que  isso?
        Um homem que estava sentado  sua frente virou a cabea e riu. Ayla reconheceu o marido de Carolio.
         Por que no pergunta a ele?  disse o homem, apontando para Jondalar.
        Ayla viu que o rosto de Jondalar ficara vermelho.
         Foi l que ele se tornou Meio-Ramudi. Ele nunca lhe contou a histria?
        Diversas pessoas riram.
         Por que voc mesmo no conta, Barono?  disse Jondalar.  No ser a primeira vez, seguramente.
         Jondalar est certo. Essa  uma das histrias favoritas de Barono. Carolio diz que j est cansada de ouvi-las, mas todo mundo sabe que Barono nunca se 
farta de uma boa histria, por mais conhecida que seja.
         Bem, voc tem de admitir que foi engraado, Jondalar  disse Barono.  Mas  a voc que cabe contar o caso.
        Jondalar no pde deixar de sorrir.
         Engraado para os outros, talvez.  Ayla o olhava com um sorriso intrigado.  Muito bem, eu estava aprendendo a manejar barcos pequenos  comeou ele. 
 Tinha um arpo comigo, e comecei a subir o rio. Vi que os esturjes comeavam a mover-se tambm na mesma direo, para a desova. Pensei que era a minha chance 
de pegar o primeiro sem pensar em como poderia tirar da gua um peixe daquele tamanho e sem pensar no que poderia acontecer num barco to pequeno.
         O peixe deu trabalho a Jondalar!  disse Barono, incapaz de conter-se.
         Eu no tinha nem certeza de poder agarr-lo. No estava acostumado com arpo preso a uma corda  continuou Jondalar.  Imagine o que aconteceria se estivesse.
                No entendo  disse Ayla.
         Quando voc caa em terra firme e espeta alguma coisa, um gamo, por exemplo, mesmo se fere o animal s de raspo e a lana cai, e ele foge, h como ir 
na pista dele  explicou Carlono.  Mas no h como seguir um peixe na gua. Um arpo tem farpas, viradas para trs, naturalmente, e uma corda bem forte, de modo 
que quando um peixe  fisgado, a ponta com a corda entra nele, e ele no fica perdido. A outro ponta da corda est amarrada ao barco.
         Pois o peixe de Jondalar o arrastou rio acima, com barco e tudo  disse Barono, interrompendo outra vez.  Ns estvamos na margem, l atrs, e vimos quando 
ele passou, como um raio, agarrado  corda que estava presa no barco. Nunca vi ningum que fosse assim to depressa. Foi a coisa mais engraada! Jondalar pensava 
ter pegado o peixe, mas na verdade o peixe o pegou.
         Ayla ria agora, com os outros.
                Quando o peixe, afinal, perdeu muito sangue e morreu, eu estava bem longe, rio acima, continuou Jondalar.  O barco estava cheio d'gua, e acabei 
tendo de nadar at a margem. Na confuso, o barco se foi, levado pela corrente, mas o peixe encalhou num remanso. Puxei-o para a terra. quela altura eu j estava 
com muito frio, perdera minha faca, e no encontrava gravetos nem nada para fazer fogo. E eis que de repente me aparece um cabea-chata... um rapazinho do Cl.
        Os olhos de Ayla se arregalaram. A histria ganhava novos contornos.
         Ele me conduziu at onde tinha acendido uma fogueira. Havia uma velha no acampamento dele, e eu tremia tanto que ela me deu uma pele de lobo. Depois que 
me aqueci, fomos juntos de volta para o rio. O cabe... o moo... pediu metade do peixe e eu o reparti de boa vontade. Ele mesmo cortou o esturjo, de comprido, e 
levou sua parte embora. Todo mundo que me tinha visto passar procurava por mim, e logo depois me acharam. Fizeram muita pilhria, mas assim mesmo, como gostei de 
v-los!
         A inda acho difcil acreditar que um cabea-chata pudesse ter carregado aquele meio peixe sozinho. Precisamos de trs ou quatro homens nara levar a outra 
metade  disse Markeno.  Era um esturjo enorme.
         Os homens do Cl so fortes  disse Ayla.  Mas eu no sabia que houvesse gente do Cl por aqui. Para mim, todos viviam na pennsula.
                Havia muitos, na outra margem  disse Barono.
         E o que aconteceu com eles?  perguntou Ayla.
        Todos ficaram embaraados, baixaram os olhos, ou olharam para longe. Finalmente, Markeno disse:
                Depois da morte de Doraldo, Dolando reuniu um grupo... e foi atrs deles. Depois de algum tempo, a maior parte... tinha ido... Acho que foram todos 
embora.
         Mostre-me isso de novo  pediu Roshario. Ayla colocara a forma de casca de btula no brao dela aquela manh. O material, forte mas leve, no estava ainda 
inteiramente seco, mas ficara suficientemente rijo para manter o brao em posio, e Roshario j comemorava a maior mobilidade que aquilo lhe dava. Ayla, no entanto, 
no queria que ela comeasse a usar a mo.
        Estavam sentadas, as duas, com Tholie, do lado de fora, ao sol, cercadas de peles macias de camura, postas no cho. Ayla levara sua caixa de costura e fazia 
uma demonstrao do puxador de linha que inventara com a ajuda do pessoal do Acampamento do Leo.
                Primeiro, a gente faz buraquinhos espaados com qualquer instrumento pontudo nas duas peas de couro que quer juntar  disse.
                Como sempre fazemos  disse Tholie.
                Sim, mas voc usa isso para fazer passar o fio pelos buracos. O fio entra nesse orifcio da parte de trs, e quando voc enfia a ponta nos buracos 
do couro ele puxa a linha atravs das duas peas que voc deseja.
         Uma idia nova lhe passou pela cabea, em meio  demonstrao. Se a ponta do puxador de linha fosse bastante fina e forte, seria capaz de fazer, ela mesma, 
os buracos. Havia uma dificuldade: o couro pode ser duro.
         Quero ver  disse Tholie.  Como  que voc passa o fio pelo orifcio do seu puxador?
         Assim. Est claro?  disse Ayla, dando um primeiro ponto e passando o trabalho  outra. Tholie tentou mais alguns.
                 faclimo!  exclamou.  Quase que se pode fazer com uma mo s.
        Roshario, que prestava muita ateno, achou que Tholie tinha razo. Embora ela ainda no pudesse usar o brao quebrado, se conseguisse empregar a mo apenas 
para manter os dois couros juntos, com um puxador de fio como aquele poderia costurar com a mo boa.
                Nunca vi coisa igual. De onde voc tirou isso?
         No sei  disse Ayla.  Foi uma ideia que tive quando estava em dificuldades para costurar alguma coisa, mas muita gente me ajudou. O mais difcil foi 
fazer uma broca de slex suficientemente fina para fazer o buraco do puxador de linha. Jondalar e Wymez trabalharam nisso.
         Wymez  o britador-chefe do Acampamento do Leo  explicou Tholie.  J me disseram que  muito bom na sua especialidade.
         Sei que Jondalar  timo  disse Roshario.  Ele fez tantos aperfeioamentos nas ferramentas que usamos para a construo de barcos que todo mundo ficou 
maravilhado com ele. Coisas pequenas, mas que foram de grande ajuda. Ele estava treinando Darvalo quando foi embora. Jondalar tem muito jeito para ensinar meninos. 
Talvez ele possa retomar as aulas com Darvo.
         Jondalar diz que aprendeu muito com Wymez  disse Ayla.
                Talvez  disse Tholie , mas vocs dois parecem muito bons na descoberta de novas maneiras de fazer as coisas. Esse puxador de linha vai facilitar 
muito a costura. Mesmo quando a gente tem prtica,  difcil empurrar um fio num buraco com uma ponta qualquer. E o arremessador de lanas, de Jondalar, deixou todos 
os homens entusiasmados. Quando voc demonstrou como  que ele funciona, muita gente aqui se julgou capaz de imit-la, mas no acho que seja to fcil assim. Voc 
se adestrou muito tempo, com certeza.
        Jondalar exibira com grande xito o arremessador de lanas. Chegar perto de uma camura para mat-la exige habilidade e uma infinita pacincia. Quando os 
caadores Xamudi viram a distncia a que uma lana podia ser atirada com aquele engenho, ficaram to excitados que mal se continham na nsia de experiment-lo nos 
evasivos antlopes da montanha. Quanto aos pescadores de esturjo, igualmente tomados de admirao, decidiram criar uma variante com arpo, e test-la para ver se 
funcionaria. No curso do debate, Jondalar apresentou sua velha idia de uma lana em duas partes, com um cabo comprido guarnecido de duas ou trs penas, e uma parte 
dianteira menor, destacvel, e farpada. O potencial de uma arma dessas foi imediatamente assimilado pelos ouvintes, e diversas alternativas foram experimentadas 
pelos dois grupos  caadores Xamudi e pescadores Ramudi  nos dias subsequentes.
        De repente, houve uma confuso do outro lado da plataforma. As trs mulheres olharam para l e viram que algumas pessoas iavam a cesta dos suprimentos. 
Alguns jovens corriam naquela direo.
                Eles pegaram um peixe! Pegaram-no com o lanador de arpes!  gritou Darvalo.   uma fmea!
         Vamos ver!  disse Tholie.
         Voc vai na frente. Vou num instante. Primeiro vou guardar o meu puxador de linha.
         E eu espero por voc, Ayla  disse Roshario.
        Quando as duas se reuniram aos outros, a primeira parte do esturjo j descarregada, e a cesta fora mandada de volta para baixo. Era um peixe imenso, grande 
demais para ser trazido penhasco acima de uma vez s. A melhor parte fora mandada primeiro: quase oitenta quilos de pequeninas ovas escuras de esturjo. Parecia 
um bom pressgio que o primeiro peixe apanhado com o arremessador de arpo  variao do arremessador de lanas de Jondalar  fosse aquela volumosa fmea.
        Grelhas de secar peixe foram levadas para o fim do campo, e as pessoas comearam a retalhar o grande peixe em pequenos pedaos. A vasta massa de caviar, 
no entanto, foi levada em bloco para o centro da rea social do acampamento. Cabia a Roshario, como mulher do chefe, supervisionar a distribuio. Ela pediu que 
Ayla e Jondalar a ajudassem, e serviu um pouco para que todos provassem.
         Faz anos que no como isso!  disse Ayla, repetindo.   sempre melhor assim fresco, mal sado do peixe. E  uma tamanha quantidade!
        O que  bom. Seno, no poderamos comer tanto assim  disse Tholie.
                Por que no?  perguntou Ayla.
         Porque as ovas do esturjo so empregadas por ns, como algumas outras coisas, para amaciar a pele da camura  disse Tholie.  A maior parte  usada para 
isso.
         Eu gostaria de ver como fazem, um dia desses  disse Ayla.  Sempre gostei de trabalhar com couros e peles. Quando vivia no Acampamento do Leo, aprendi 
a colorir peles, a fazer, por exemplo, que ficassem bem vermelhas. Crozie me ensinou tambm a fazer couro branco. E gosto muito dessa cor amarela de vocs.
         Pois me surpreende que Crozie estivesse disposta a mostrar-lhe o seu trabalho  disse Tholie, lanando um olhar significativo para Roshario.  Sempre imaginei 
que o couro branco fosse um segredo do Lar do Grou.
         Ela no me disse que era um segredo. Disse que aprendera com a me, e que a filha no estava interessada. Pareceu-me contente de passa a tcnica a outra 
pessoa.
         Bem, vocs eram, afinal, do mesmo acampamento, eram como uma famlia  disse Tholie, embora ainda surpresa.  No creio que ela ensinasse uma estranha. 
Ns tambm no faramos isso. O mtodo Xamudi de tratar a camura  um segredo. Nossas peles so admiradas e tm alto valor comercial. Se todo mundo soubesse como 
prepar-las, cariam depreciadas, de modo que guardamos o segredo  concluiu.
        Ayla assentiu de cabea, mas seu desapontamento era visvel.
         Bem, so bonitas. E o amarelo  to vivo!
         Vem da murta-do-brejo, mas ns no usamos a planta pela cor. Isso simplesmente acontece. A murta-do-brejo ajuda a manter as peles macias mesmo depois de 
molhadas  disse Roshario. Se voc ficasse aqui, Ayla, poderamos ensinar-lhe a tcnica de fazer camura amarela.
         Se eu ficasse... quanto tempo?  perguntou Ayla.
         Oh, quanto quisesse. A vida inteira, Ayla  disse Roshario, com algum fervor.  Jondalar  nossa parente. Ns o consideramos assim. Em pouco tempo ele 
seria um perfeito Xaramudi. At j ajudou a construir um barco. Voc me disse que ainda no  casada. Estou certa de que encontraramos algum disposto a casar 
com voc. No tenho duvida de que seria bem recebida entre ns. Desde a morte do velho Xam precisamos de algum que o substitua.
         Ns, como casal, eu e Markeno, estaramos dispostos a recebe-los.  A oferta de Roshario fora espontnea, mas parecia a Tholie inteiramente apropriada 
no momento em que fora feita.  Tenho de falar com ele, mas estou certa de que concordar. Depois de Jetamio e Thonolan, tem sido difcil encontrar outro casal com 
quem gostssemos demorar juntos. O irmo de Thonolan  perfeito no caso. Markeno sempre gostou de Jondalar, e eu apreciaria muito partilhar a mesma casa com outra 
mulher Mamuti.  E sorrindo para Ayla:  Shamio tambm adoraria ter o Lobinho dela em volta todo o tempo.
        O oferecimento apanhara Ayla de surpresa. Quando, finalmente, compreendeu-lhe o sentido, emocionou-se. A tal ponto que ficou com os olhos marejados.
                No sei o que dizer, Roshario. Senti-me em casa aqui desde o primeiro momento. Quanto a voc, Tholie, gostaria muito de dividir...  No pde completar 
o pensamento. O choro a impediu.
        As duas mulheres Xaramudi sentiram o contgio do pranto e tiveram de piscar repetidamente para sopitar as lgrimas. Sorriam uma para a outra como cmplices 
 que eram  de um plano maravilhoso.
        Logo que Markeno e Jondalar voltarem, falamos com eles  disse Tholie.  Markeno ficar to aliviado...
         Mas Jondalar, no sei  disse Ayla. S sei que ele fez questo de vir c. At deixou de ir por um caminho mais curto pelo prazer de rev-los. Mas no sei 
se poder ficar. Ele quer ir de volta para o seu povo.
         Mas ns somos seu povo  disse Tholie.
                No, Tholie. Embora ele tivesse permanecido entre ns tanto tempo quanto o irmo, Jondalar  ainda um Zelandonii. Ele nunca se desligou dos seus. 
Penso at que foi por isso que seus sentimentos por Serenio no ficaram nunca to fortes.
                Serenio, a me de Darvalo?  perguntou Ayla.
                Sim  disse a mais velha das duas, sem saber o quanto Jondalar teria contado a Ayla sobre Serenio.  Mas uma vez que  bvio o que ele sente por 
voc, talvez, depois de tanto tempo, seus laos com se prprio povo estejam mais fracos. J no viajaram bastante? Por que fazer mais uma Jornada to longa, se podem 
ter um lar aqui?
                Alm disso, est na hora de Markeno e eu termos outro casal conosco. Antes do inverno... Antes... Eu no lhes disse, mas a Me me abenoou de novo... 
Devemos escolher um casal antes do nascimento deste aqui.
         Eu desconfiava  disse Ayla.   maravilhoso, Tholie.  E com olhar sonhador:  Talvez, um dia, eu tambm tenha um beb para ninar...
         Se formos morar juntos, o beb que eu levo ser seu tambm, Ayla. E ser bom saber que haver algum por perto, para ajudar, no caso... Se bem que eu no 
tenha tido problemas dando  luz Shamio.
        Ayla pensou que gostaria de ter um beb algum dia. Um beb de Jondalar. Mas se no pudesse conceber? Ela vinha tendo o cuidado de tomar seu ch todo dia, 
e no ficara grvida. Mas teria ficado sem o ch? E se no fosse capaz de comear uma criana? No seria maravilhoso saber que os filhos de Tholie seriam seus tambm,
e de Jondalar? Era verdade, alm disso, a rea em torno do acampamento era muito semelhante  outra da caverna do Cl de Brun. Sentia-se em casa, ali. As pessoas
eram gentis. S no confiava muito em Dolando. Gostaria ele tambm que ela ficasse? E os cavalos? Era bom para eles descansar um pouco. Mas teriam alimento suficiente 
para o inverno todo? Teriam, por perto, espao suficiente para correr?
        E, o mais importante de tudo: como reagiria Jondalar? Estaria ele disposto a desistir de sua Jornada de volta  terra dos Zelandonii para instalar-se naquele 
lugar?        

19
___________________________________________________________________________

        Tholie avanou at a grande fogueira e ficou projetada em silhueta contra o fundo vermelho das brasas e o cu poente, limitados pelos paredes pique que 
fechavam a enseada de um lado e de outro. Muita gente permanecia concentrada no espao de reunio debaixo da platibanda de arenito, acabando de comer as amoras-pretas, 
tomando ch ou vinho levemente fermentado e espumante. O banquete comunitrio de esturjo fresco tivera como entrada uma primeira e nica poro de caviar. O resto 
teria uso mais prosaico: amaciar peles de camura.
         Quer dizer uma coisa, Dolando, enquanto estamos todos reunidos aqui  anunciou Tholie.
        O homem concordou, embora no tivesse feito diferena se ele disse no. Tholie j continuava sem esperar pela resposta.
         Acho que expresso o sentimento de todos quando digo que estamos felizes com a presena de Jondalar e Ayla entre ns  disse.
        Diversas pessoas se manifestaram logo no mesmo sentido.
                Estvamos preocupados com Roshario  continuou Tholie  , no s por causa da dor que ela sentia mas porque temamos que viesse a ficar com o brao 
inutilizado. Ayla mudou isso. Roshario diz que no sente mais dor e, com sorte, h uma chance de que possa usar o brao outra vez como antes.
        Houve, de novo, um coro de comentrios positivos, expressando gratido e desejando boa sorte.
                Devemos tambm agradecimentos a nosso parente Jondalar  disse Tholie.  Quando ele morava conosco, suas ideias para o aperfeioamento de nossas 
ferramentas foram de grande ajuda. Agora mesmo ele nos demonstrou seu arremessador, e o resultado  esta festana.
        Mais uma vez o grupo manifestou seu assentimento.
         Enquanto viveu conosco, Jondalar pescava esturjo e caava camuras e jamais nos disse se preferia a gua ou a terra. Estou certa de que seria um grande 
homem do rio...
         Muito bem, Tholie. Jondalar  um Ramudi!  exclamou um homem.
         Ou pelo menos metade de um Ramudi!  disse Barono, saudado por um coro de gargalhadas.
         No, no  disse uma das mulheres.  Ele est ainda aprendendo coisas sobre a gua, mas a terra j conhece muito bem.
         Certo  disse um velho.  Mas por que no perguntam ao prprio Jondalar? Ele arremessou lana muito antes de arremessar arpo. Jondalar  um Xamudi.
                Ele at gosta de mulheres caadoras!
        Ayla se voltou para ver quem fizera o ltimo comentrio. Fora uma adolescente, um pouco mais velha que Darvalo, chamada Rakario. Gostava de estar todo o 
tempo nas proximidades de Jondalar, o que aborrecia o rapaz. Queixava-se de que ela s vivia atrs dele.
        Agora, sorria, bem-humorado, com toda aquela animada discusso. Era uma demonstrao da competio cordial entre as duas metades. Daquela espcie de rivalidade 
interna na famlia, que funcionava como um saudvel elemento de emulao, mas que no podia nunca passar dos limites de todos conhecidos. Brincadeiras, bazfia, 
at mesmo um certo nvel de insulto eram permitidos, mas tudo que pudesse ofender ou despertar ira era logo sufocado. Os dois lados se juntavam para acalmar os exaltados 
e pr gua na fervura.
                Como eu disse, Jondalar pode ser um excelente homem do rio  disse Tholie, quando todos sossegaram.  Mas Ayla est mais familiarizada com a terra, 
de modo que eu aconselharia a Jondalar fica com os caadores. Se ele preferir assim,  claro, e se os caadores estiverem de acordo. Se Jondalar e Ayla permanecerem 
conosco, e se tornarem Xaramudi, ns lhe oferecemos vida em comum. Mas como Markeno e eu somos Ramudi, eles teriam de ser Xamudi.
        Houve grandes mostras de excitao entre os ouvintes, com troca de comentrios e, at, felicitaes dirigidas diretamente aos dois casais.
          um plano maravilhoso, Tholie  disse Carolio.
         A ideia foi de Roshario  disse Tholie.
         Mas o que pensa Dolando de aceitarmos Jondalar? E o que acha de aceitarmos Ayla, uma mulher criada por aqueles que vivem na pennsula?  perguntou Carolio, 
olhando diretamente para o chefe Xamudi.
        Houve um silncio repentino. Todo mundo sabia as implicaes da pergunta. Depois da sua violenta reao em relao a Ayla, estaria Dolando disposto a aceit-la? 
Ayla esperara que o incidente ficasse esquecido e se perguntava por que Carolio o trouxera  tona. Mas ela no podia fazer outra coisa. A questo era de sua responsabilidade.
        Carlono e sua companheira tinham vivido originariamente com Dolando e Roshario, e juntos, os quatro, tinham fundado aquele grupo de Xaramudi quando se mudaram 
do seu lugar de origem, j superlotado. Posies de chefia eram, em geral, conferidas por consenso informal, e eles dois eram uma escolha natural. Na prtica, a 
mulher do chefe assumia as responsabilidades de co-lder, mas a mulher de Carlono morreu quando Markeno era ainda muito jovem. O lder Ramudi nunca se casou outra 
vez formalmente, e sua irm gmea, Carolio, que passara a tomar conta do menino, assumiu tambm, aos poucos, os deveres de mulher de lder. Com o tempo, ela foi 
aceita pela comunidade como co-lder, de modo que tinha a obrigao de fazer a pergunta.
        O povo sabia que Dolando permitira que Ayla continuasse a tratar de sua mulher, mas Roshario precisava dela, e Ayla, obviamente, lhe era til. O que no 
significava que ele desejasse t-la com o grupo em carter permanente. Ele poderia estar apenas controlando seus sentimentos temporariamente. Mesmo que todos desejassem 
uma curandeira, Dolando era um deles, e Ayla, uma estranha. No desejavam aceitar uma estranha que pudesse constituir problema para seu chefe e possvel dissenso 
no grupo.
        Enquanto Dolando considerava a resposta a dar, Ayla sentiu um frio no estmago e ficou com um n na garganta. Tinha a curiosa sensao de estar sendo julgada 
por algum erro cometido. Sabia, porm, que no fizera nada de errado. Gostaria de sair dali. Seu nico erro era a sua origem. A mesma coisa lhe acontecera com os 
Mamuti. Teria de ser sempre assim? Aconteceria de novo com a gente de Jondalar? Bem, pensou, Iza, e Creb, e o Cl de Brun tinham cuidado dela, e ela no ia renegar 
aqueles que amava. Mas sentia-se isolada e vulnervel.
        Percebeu, ento, que algum viera colocar-se discretamente a seu lado. Sorriu com gratido para Jondalar e se sentiu imediatamente melhor. Mas aquilo era 
ainda um julgamento, e ele aguardava para ver o seu desfecho. Ela o observara e sabia qual ia ser sua resposta  oferta de Tholie. Mas Jondalar esperava pela deciso 
de Dolando antes de formular sua prpria resposta.
        Subitamente, quebrando a tenso, houve um riso repicado de criana. Shamio, seguida de outros meninos e meninas, sara correndo de uma das casas. com Lobo 
aos saltos no meio deles.
         No  extraordinrio como aquele lobo brincava com os pequenos?  disse Roshario.  Ainda h poucos dias eu no acreditaria que iria ver um bicho desses 
junto de crianas que eu amo sem temer pelas suas vidas. Talvez isso valha como lio. Quando a gente fica conhecendo um animal que antes odiava e temia,  possvel 
que at passe a gostar muito dele.  sempre melhor compreender que ter um dio cego.
        Dolando vinha pesando as palavras que devia dizer em resposta a Carolio. Sabia o que lhe estavam perguntando e quanta coisa dependia da deciso que tomasse. 
Mas no sabia como formular o que pensava e sentia. Sorriu para a mulher que amava, grato por ver que ela o conhecia to bem. Roshario percebera que ele precisava 
de auxlio e lhe mostrara uma sada.
                Eu odiei com cegueira  comeou  e tirei as vidas daqueles que odiava por pensar que tinham matado meu filho. Eu os julguei uns animais ferozes 
e quis acabar com todos eles, mas isso no nos restituiu Doraldo. Agora vejo que eles no mereciam tal dio. Animais ou no, tinham sido provocados. Tenho de viver 
com essa culpa, mas...
        Dolando se interrompeu, comeou a dizer alguma coisa sobre os que sabiam mais do que lhe tinham dito e que, assim mesmo, o secundaram nas suas surtidas, 
mas depois mudou de ideia.
                Essa mulher  disse, olhando para Ayla , essa curandeira diz que foi criada por eles, educada por aqueles que eu julgava uns animais selvagens, 
que eu odiava. E mesmo que ainda os odiasse, no poderia expressar esse sentimento em relao a essa mulher. Graas a ela, Roshario
me foi restituda. Talvez seja tempo de comear a entender. Acho que a ideia de Tholie  boa. E eu ficaria contente se os Xamudi aceitassem Ayla e Jondalar.
        Ayla sentiu que um imenso alvio a tomava. Agora sabia por que aquele homem fora escolhido pelo seu povo para chefi-lo. Na sua convivncia de todos os dias, 
tinham chegado a conhec-lo bem. Sabiam a excelncia bsica do homem.
         E ento, Jondalar?  perguntou Roshario.  O que tem a dizer? No acha que  tempo de dar por encerrada essa longa viagem? Que  tempo de deitar razes, 
de fundar sua prpria casa, de dar  Grande Me uma oportunidade de abenoar Ayla com um beb ou dois?
         No encontro palavras para dizer-lhe o quanto estou grato, Roshario, por essa acolhida de vocs. Sinto que os Xaramudi so meu povo, minha famlia. Seria 
muito fcil para mim radicar-me aqui e vocs me tentam com esse oferecimento. Mas tenho de retornar aos Zelandonii. Se mais no fora  hesitou , por meu irmo Thonolan.
        Fez uma pausa, e Ayla o olhou. Sabia que ele iria recusar, mas no era aquilo que ela pensava que ele fosse dizer. Percebeu um leve nuto, quase indiscernvel, 
como se ele tivesse pensado em outra coisa. E nesse momento, Jondalar lhe sorriu.
         Quando ele morreu, Ayla deu ao seu esprito todo o conforto que lhe foi possvel dar para a sua Jornada no outro mundo, mas o esprito de Thonolan no 
teve paz. Receio, sinto, que ele ainda erra, s e perdido, procurando o caminho de volta para a Me.
        O que ele estava dizendo era uma surpresa para Ayla, e ela observou-o atentamente quando ele continuou.
         No posso deixar as coisas assim. Algum tem de ajud-lo a achar o seu caminho, e s conheo uma pessoa capaz de faz-lo: Zelandoni, uma Xam, uma xam 
das mais poderosas, que estava presente quando Thonolan nasceu. Talvez com a ajuda de Marthona, minha me e me de Thonolan... Zelandoni consiga localizar seu esprito 
e gui-lo para o aninho certo.
        Ayla sabia que aquele no era o motivo de Jondalar para voltar. No motivo principal. Sabia que o que ele dissera era exato mas, como a resposta que ela 
lhe dera sobre o fio-de-ouro, no era completo.
         Voc est ausente h muito tempo, Jondalar  disse Tholie, claramente desapontada.  Talvez eles pudessem ajudar Thonolan, mas quem nos garante que sua 
me ou essa Xam, Zelandoni, esto ainda vivas?
                Ningum, Tholie, mas tenho de tentar. Mesmo que no possam ajudar, Marthona e os outros parentes e amigos gostariam de saber o quanto ele foi feliz 
aqui, com Jetamio, com voc, com Markeno. Minha me teria gostado de Jetamio, estou certo disso. Como estou certo de que teria gostado de voc, Tholie.
        A mulher no pde deixar de sensibilizar-se com o elogio, embora procurasse disfarar e embora estivesse frustrada.
         Thonolan fez uma longa viagem  continuou Jondalar ... que foi sempre sua viagem. Eu apenas fui com ele. Para proteg-lo. Gostaria de contar aos Zelandonii 
essa viagem. Thonolan foi at a foz do Rio da Grande Me. Mais importante ainda, ele encontrou um lar aqui, com gente Que o amava.  uma histria que merece ser 
contada.
         O que eu acho, Jondalar,  que voc est ainda procurando acompanhar seu irmo e zelar por ele, mesmo no mundo dos espritos  disse Roshario.  Mas se 
 isso o que acha que tem de fazer, ento s nos resta desejar-lhe boa sorte. Penso que Xam nos teria dito que voc deve seguir seu caminho.
        Ayla refletiu sobre o que Jondalar fizera. A oferta de Tholie e dos Xaramudi para que eles se incorporassem  comunidade no fora feita levianamente. Era 
uma oferta generosa e representava uma grande honra; difcil de  recusar sem ofensa. S uma forte compulso de realizar um objetivo mais alto, de cumprir uma misso 
irrecusvel, poderia fazer tal recusa aceitvel. Jondalar no dissera que embora eles fossem sua famlia no eram a famlia que ele queria recuperar, mas sua resposta 
incompleta convencera a todos.
        No Cl, calar alguma coisa era aceitvel, por dar alguma privacidade numa sociedade transparente, em que era difcil esconder qualquer coisa. Emoes e pensamentos 
podiam ser vistos refletidos na postura, na expresso, em gestos sutis. Jondalar preferira a considerao. Ela achava que Roshario suspeitava da verdade, mas aceitava 
a desculpa pela mesma razo que o fizera d-la. Uma sutileza que Ayla anotou. Aprofundaria a questo mais tarde. Mas j sentia que ofertas generosas tm mais de 
uma faceta.
         Quanto tempo ainda pretendem ficar aqui?  Perguntou Markeno.
         J cobrimos mais terreno do que eu tinha julgado possvel. No pensava que pudssemos estar aqui antes do outono. Graas aos cavalos, viajamos mais depressa 
do que imaginei  explicou , mas temos muito que andar ainda e h alguns obstculos srios  frente. Gostaria de levantar acampamento logo que pudermos.
         No devemos partir assim to depressa, Jondalar  disse Ayla  No posso ir antes que o brao de Roshario esteja bom.
         E quanto tempo vai levar?  perguntou Jondalar, franzindo a testa.
         Eu disse a Roshario que o brao dela tem de ficar imvel naquela forma de casca de btula por uma lua inteira mais metade de outra.
          muito. No podemos ficar tanto tempo.
         E quanto podemos ficar?
         Muito pouco tempo.
         Mas quem vai tirar a casca de btula? Quem vai saber a hora!
         Ns mandamos buscar um Xam  disse Dolando.  Por mensageiro. Um Xam no saber fazer isso?
         Suponho que saiba  disse Ayla.  Mas pelo menos gostaria de falar com ele. No podemos ficar pelo menos at que ele chegue, Jondalar?
         Se no demorar muito. Mas voc poderia ensinar a Dolando e a Tholie o que fazer, se for o caso.
        Jondalar estava escovando Racer. A pelagem do garanho crescia e ficava cheia e o animal parecia com frio. Ele mesmo j sentira um friozinho no ar, de manh.
                Penso que voc tem tanta vontade de ir embora quanto eu, no  mesmo, Racer?
        O animal virou as orelhas para o lado dele ao som do seu nome, e Huiin abanou a cabea..
                Voc tambm quer ir, no  mesmo, Huiin? Isto no , na verdade, lugar para cavalos. Vocs precisam de campo aberto para correr. Tenho de lembrar 
isso a Ayla.
        Deu uma ltima palmada na anca de Racer e foi para a rea debaixo do ressalto de pedra. Roshario parecia muito melhor, achou, vendo-a sozinha junto da grande 
lareira central, a costurar com uma s mo graas ao novo puxador de linha.
         Sabe onde posso encontrar Ayla?
                Ela saiu com Tholie. Levaram Shamio e Lobo. Disseram que iam at o lugar onde se fazem barcos, mas acho que Tholie queria mostrar a Avia a rvore 
da Sorte e fazer uma oferenda pedindo uma boa hora de parto e um beb sadio. Tholie j comea a mostrar a bno que recebeu  disse Roshario.
        Jondalar se acocorou perto dela.
         Queria perguntar-lhe uma coisa, Roshario.  sobre Serenio. Foi imperdovel deix-la, como eu fiz. Ela estava... feliz, depois, quando se foi daqui?
         Sofreu muito, no comeo. Disse que voc estava disposto a ficar, ou tinha oferecido isso, mas que ela dissera que voc devia ir com Thonolan. Ele precisava 
mais de voc. E ento, o primo de Tholie apareceu. Ele  como Tholie, sob muitos aspectos, diz sempre o que pensa.
        Jondalar sorriu.
                Eles so assim mesmo.
         So. E ele se parece com a prima.  bem mais baixo que Serenio, mas  forte. E decidido tambm. Botou os olhos nela e logo resolveu que era a mulher da 
sua vida. Chamava-a 'meu belo salgueiro', em Mamuti. Nunca pensei que conseguisse conquist-la. Quase lhe disse que no se desse ao trabalho. Nada que eu dissesse, 
porm, teria sido capaz de dissuadi-lo, mas eu achava Serenio um caso perdido. Ela no se apaixonaria por ningum depois de voc. Ento, um dia, apanhei os dois 
rindo. E vi que estava errada. Era como se ela tivesse voltado  vida depois de um longo inverno. Floresceu. Eu nunca tinha visto Serenio to feliz desde o tempo 
do seu primeiro homem, pai de Darvo.
         Fico contente por ela  disse Jondalar.  Serenio merece ser feliz. Mas andei pensando. Quando parti, ela me disse que achava que a Me a abenoara. Serenio 
estava grvida? Teria comeado alguma vida, talvez do meu esprito?
         No sei, Jondalar. Lembro-me de ter ouvido isso dela, quando voc foi embora. Que estava prenha. Se estava, ter sido uma bno especial para o novo companheiro. 
Mas ela nunca me contou.
         Mas qual a sua opinio, Roshario? Serenio parecia grvida?  possvel saber, assim to no comeo?
         Quisera poder ajud-lo, Jondalar. Mas no sei com certeza. Ela podia estar.
        Roshario o estudava com ateno, imaginando o porqu daquela curiosidade to viva. No era para reclamar a criana como sendo do seu lar  Porque ele renunciara 
a isso quando partiu , embora se ela estivesse mesmo grvida o beb seria muito provavelmente do seu esprito. E de sbito Roshario sorriu, imaginando um filho 
de Serenio do tamanho de Jondalar no lar daquele Mamuti baixote. Ele ficaria contente, pensou Roshario.
        Jondalar abriu os olhos e viu que o lugar a seu lado, embora revolvido, estava agora vazio. Abriu as cobertas, sentou-se na beira do catre, bocejou e espreguiou-se. 
Tinham conversado em volta do fogo na noite anterior, sobre a caa s camuras. Algum vira os primeiros exemplares descendo das alturas, o que significava que a 
estao estava prxima.
        Ayla demonstrava antegozar a perspectiva de uma caada a esses antlopes de andar seguro e ar de bode, mas quando foram para a cama e conversaram um com 
o outro em voz baixa e mais tranquilamente como costumavam fazer, Jondalar insistira em que tinham de partir o mais rpido possvel. A descida dos antlopes indicava 
que esfriara nas alturas. O tempo mudava. Tinham muito que viajar ainda, e deviam apressar-se.
        No haviam discutido propriamente, mas Ayla deixara claro que no queria ir. Falou no brao de Roshario, mas ele sabia que ela gostaria de caar camuras. 
Na verdade, estava convencido de que ela tivera vontade de ficar para sempre com os Xaramudi, e imaginava se no estaria adiando a partida na esperana de que ele 
ainda mudasse de ideia. Ela e Tholie j eram as melhores amigas do mundo e todos pareciam gostar sinceramente de Ayla. Se isso o alegrava sobremaneira, por outro 
lado tornava a partida mais penosa. E quanto mais tempo ficassem, mais difcil seria.
        Ficou acordado at tarde, pensando. Poderiam ficar, por ela. Mas, nesse caso, poderiam ter ficado com os Mamuti. Por fim, concluiu que urgia mesmo partir, 
o mais depressa possvel, no dia seguinte at, ou dentro de dois dias, no mximo. Sabia que Ayla no ficaria contente com a sua deciso, e no sabia como contar-lhe.
        Levantou-se, vestiu as calas e marchou para a porta. Afastando a cortina, saiu e sentiu logo um vento frio no peito nu. Ia precisar de roupas mais quentes 
para a viagem, pensou, correndo para a rea onde os homens urinavam de manh. Em vez da nuvem de coloridas borboletas que sempre adejavam por perto  indagava-se 
por que elas seriam atradas por um lugar que cheirava to forte , viu de chofre uma folha amarela que tombava devagar e viu que a folhagem das rvores comeava 
a mudar de cor.
        Como no observara aquilo antes? Os dias tinham passado to depressa, e o tempo fora to clemente, que ele no prestara ateno  mulher dana da estao. 
Lembrou-se de sbito que estavam, ali, voltados para o sul e numa regio meridional. A estao j poderia estar muito mais  adiantada do que ele pensava para o norte, 
e faria muito mais frio tambm no rumo que iam tomar. Ao voltar para casa, s pressas, estava muito mais decidido ainda do que antes a partir em breve.
         Ah, voc j est de p  disse Ayla, entrando com Darvalo e vendo que Jondalar se vestia.  Vim cham-lo antes que toda a comida fosse retirada.
         Estou tratando de me agasalhar melhor. Faz muito frio  disse  Logo vai chegar a hora de deixar a barba crescer.
        Ayla sabia que havia mais naquela frase do que as palavras diziam. Ele continuava preso ao assunto da noite anterior. A estao mudava e tinham de prosseguir 
viagem. E ela no queria falar daquilo.
                Acho que devamos desempacotar nossas roupas de frio e ver se esto em boa ordem  disse Jondalar.  As cestas ainda se encontram na casa de Dolando?
        Ele sabe que esto, pensou Ayla. Por que ento pergunta? Voc sabe pr que, disse ela consigo mesma, e pensou em alguma coisa que lhe desviasse a ateno.
         Sim, as cestas esto l  disse Darvo, querendo ser prestativo.
         Preciso de uma camisa mais quente. Voc se lembra onde guardamos minha roupa de inverno?
        Naturalmente que se lembrava. Mas ele tambm, por certo.
         As roupas que voc est usando agora so muito diferentes das que tinha no corpo ao chegar  disse Darvalo.
         Estas me foram dadas por uma mulher Mamuti. As outras eram as minhas roupas Zelandonii.
                Experimentei hoje a camisa que voc me deu. Ainda est grande para mim, mas no muito  disse o rapaz.
         Voc ainda tem aquela camisa, Darvo? At j me esqueci como ela .
         Quer v-la?
         Quero sim. Gostaria muito  disse Jondalar.
        Ayla tambm estava curiosa.
        Foram at a casa de Dolando perto dali. De uma prateleira acima de sua cama, Darvalo tirou um embrulho feito com cuidado. Desatou o cordel, abriu o invlucro 
de couro mole, e ergueu a camisa no ar.
                A est ela.
        Era incomum, pensou Ayla. A combinao de cores, o estilo mais longo e mais solto no tinham nada a ver com as roupas Mamuti a que ela se acostumara. Uma 
coisa a surpreendeu mais do que o resto: era ornada com caudas de arminho, brancas com uma ponta preta.
        A camisa pareceu estranha ao prprio Jondalar. Tanta coisa ocorrera desde que vestira aquela camisa pela ltima vez que ela lhe parecia bizarra e antiquada. 
No a usara muito quando morava ali, com os Xaramudi, preferindo vestir-se como os demais. Embora fizesse s um ano e poucas luas que ele presenteara Darvo com 
ela, era como se h uma eternidade ele no visse roupas de casa.
                E do estilo dela ser solta, Darvo. Voc a ajusta com um cinto. Vamos, vista-a que eu lhe mostro. Tem alguma coisa que possa usar para at-la?
        O rapaz passou a camisa de couro pela cabea. Era longa como uma tnica e muito decorada. Depois passou uma tira de couro para Jondalar. Ele disse a Darvalo 
que se endireitasse, e cingiu a camisa bem baixo, quase nos quadris, de modo que o pano ficasse frouxo, como uma blusa, e os rabos dos ratos armnios, pendentes 
e livres.
         V? No est nada grande para voc, Darvo  disse Jondalar.  O que acha, Ayla?
         Acho fora do comum. Nunca tinha visto camisa feito essa. Mas parece muito bem, Darvalo.
         Gosto dela  dela  disse o rapaz, esticando os braos e baixando os olhos para ver o efeito. Talvez a usasse da prxima vez que fosse visitar os Xaramudi 
de rio abaixo. Ela ficaria impressionada, pensou, a garota que lhe despertara a ateno.
         Foi bom mostrar-lhe como se usa uma camisa dessas  disse Jondalar  antes de partir.
         Quando vo partir?  perguntou Darvalo, espantado.
                Amanh. Depois de amanh o mais tardar  disse Jondalar, olhando firme para Ayla.  Logo que aprontarmos nossas coisas.
         As chuvas j podem ter comeado, na outra vertente das montanhas alertou Dolando , e voc se lembrar de como a Irm fica quando enche.
         Espero que no haja inundao  disse Jondalar , ou precisaramos de um dos seus barcos grandes para atravessar o rio.
         Se quiserem ir de barco ns os levamos at o rio da Irm  disse Carlono.
         Temos de apanhar murta-do-brejo, de qualquer maneira  acrescentou Carolio , e  de l que ela vem.
         Eu gostaria muito de subir o rio no seu barco, mas no creio que os cavalos possam viajar embarcados.
         Voc no disse que eles atravessam rios a nado? Talvez possam vir pela gua, na esteira do barco  sugeriu Carlono.  E o lobo no  problema.
         Sim, os cavalos podem nadar, mas a distncia  grande, at a Irm. Vrios dias, se me lembro bem  disse Jondalar.  No acredito que eles consigam nadar 
contra a corrente tanto tempo.
         H um caminho pela montanha  disse Dolando.  Voc ler de voltar um pouco, depois subir at um dos picos menores e contorn-lo. A trilha  bem marcada 
e os levar at bem prximo da confluncia do rio da Irm com o da Me. H uma pequena serra para o sul que d uma boa viso do lugar, uma vez alcanada a plancie 
do lado do poente.
         Mas seria esse o melhor ponto para atravessar o rio da Irm.?  perguntou Jondalar, que se lembrava dos vastos redemoinhos da ltima passagem.
         Provavelmente no. Mas dali voc pode acompanhar o leito da Irm para o norte at um vau melhor. O rio da Irm no  fcil em nenhum trecho. Ele  alimentado 
por torrentes que descem da montanha com grande violncia, de modo que sua correnteza  mais rpida que a da Me, alm de ser mais traioeira. Muito mais traioeira 
 disse Carlono.  Subimos por ela durante quase um ms, certa vez. E o rio se mostrou veloz e difcil todo o tempo.
         Se  o rio da Me que tenho de seguir para chegar em casa, isso implica atravessar o rio da Irm.
         Boa sorte, ento.
         Vocs vo precisar de vveres  disse Roshario.  E tenho uma coisa que quero dar-lhe, Jondalar...
         No temos muito espao de sobra  comeou ele.
          para sua me  continuou Roshario.  O colar favorito de Jetamio. Guardei-o para Thonolan, se ele voltasse. No  coisa grande. Depois que Jetamio perdeu 
a me. ela precisava sentir que pertencia a algum lugar. Eu lhe disse que se lembrasse sempre de que era uma Xaramudi. Ento ela fez o colar, de dentes de camura 
e espinhas de esturjo... um dos pequenos... simbolizar a terra e o rio. Pensei que sua me apreciaria uma lembrana da mulher que seu filho escolheu.
         Pensou bem  disse Jondalar , e lhe agradeo muito.  Sei que vai representar muito para Marthona.
         E por onde anda Ayla? Tenho um presentinho para ela tambm. Espero que ela possa lev-lo  disse Roshario.
         Ayla est com Tholie, arrumando as cestas  disse Jondalar.  Ela no queria ir, no at que seu brao estivesse perfeito. Mas no podemos esperar mais.
                Tenho certeza de que meu brao vai ficar bom  disse Roshario. Ela se pusera ao lado dele e foram juntos para o correr de casas.  Ayla trocou ontem 
a casca de btula por outra fresca. Meu brao parece menor, mas  por falta de uso. Ele est bom. Ayla pediu para eu manter
essa forma mais algum tempo. Ela diz que logo que eu comece a trabalhar com ele meu brao engorda de novo.
                Sou da mesma opinio.
         No sei por que o nosso mensageiro e o velho Xam esto levando tanto tempo para chegar. Mas Ayla explicou o que fazer, no s a mim, mas a Dolando, Tholie, 
Carlono e outros. Ns nos arranjaremos sem ela... embora fosse muito melhor que os dois ficassem. No  tarde demais para mudarem de opinio...
         Voc nem imagina o quanto significa para ns a maneira como voc nos recebeu, Roshario, to generosamente, apesar de tudo, de Dolando, da... criao... 
de Ayla...
        Ela o encarou.
                Essa histria o magoou muito, no foi?
        Jondalar ficou vermelho.
         Sim  admitiu , muito. Mas j no me aborrece mais. Voc foi muito gentil, aceitando-a, sabendo o que Dolando pensava daquela gente da pennsula... No 
sei explicar. Sei  que sinto um imenso alvio. No quero v-la triste. Ayla j passou por tanta coisa.
         Ficou mais forte, imagino  disse Roshario. Via a ruga de preocupao no cenho dele, a expresso de angstia nos seus fabulosos olhos azuis.  Voc esteve 
fora muito tempo. Conheceu muita gente, aprendeu novas modas, novos costumes, at novas lnguas. Seu povo no o reconhecer, talvez voc no seja a mesma pessoa 
de antes, ao partir. Eles tambm no sero mais as pessoas de que se lembra. Vocs pensaro uns nos outros como foram um dia, no como so agora.
         Preocupei-me tanto com Ayla que no considerei isso-- Voc tem razo.  muito tempo. Ela pode at adaptar-se melhor que eu. Para Ayla eles so estranhos, 
e ela vai entender rapidamente como so, corno sempre acontece.
         J voc espera deles um certo comportamento  disse Roshario, retomando a marcha para as casas de madeira. E antes que entrassem concluiu:  Saiba que 
ser sempre bem-vindo aqui. Todos dois sero bem vindos.
         Obrigado. Mas  uma distncia enorme, Roshario. Voc nem imagina o tamanho da viagem.
         De fato, no imagino mesmo. Mas voc est habituado a viajar E se um dia quiser vir, no lhe parecer to longe.
         Para algum como eu, que nunca sonhou em cobrir grandes distncias, j viajei demais  disse Jondalar.  Voc tem razo quando diz que  tempo de me enraizar. 
Mas saber que tenho aqui essa alternativa me ajudar com os problemas de adaptao, em casa.
        Quando abriram a cortina, s encontraram Markeno.
                Onde est Ayla?  perguntou Jondalar.
         Ela foi com Tholie apanhar as plantas que tinha posto para secar. Voc no cruzou com as duas, Roshario?
         Estamos vindo do campo  disse Jondalar.  Pensei encontrar Ayla aqui.
         Ayla estava aqui. Estava conversando com Tholie sobre alguns dos remdios que usa. Ela examinou seu brao ontem e explicou o que fazer com ele. As duas 
s falaram de plantas, e a sua serventia. Aquela mulher sabe muito, Jondalar.
                Pensa que ignoro isso?  incrvel como se lembra de tudo.
                Saram juntas de manh, e voltaram com cestas cheias. De tudo quanto  espcie. Mesmo plantinhas frgeis, fininhas, amarelas. Agora deve estar explicando 
o que fazer com elas  disse Markeno.  Que pena vocs irem embora! Tholie vai sentir muita falta de Ayla. Ns todos vamos sentir muita falta dos dois.
                No  fcil para ns tambm...
                Eu sei. Quero dar-lhe algo.  Markeno remexeu numa caixa de madeira, cheia de ferramentas e pequenos utenslios de madeira, osso e chifre. Tirou 
dela, por fim, um objeto esquisito, feito da galhada primria de um veado, com as ramificaes cortadas e um furo logo abaixo do ponto em que brotavam. Estava toda 
decorada no com formas geomtricas e estilizadas de aves ou peixes no estilo tradicional Xaramudi, mas tambm com belos gravados figurativos de animais como o 
veado e o cabrito-monts em torno do cabo. Alguma coisa naquilo deu um arrepio em Jondalar. Quando o viu mais de perto soube o que era.
         Isso  o endireitador de hastes de lana de Thonolan!  disse. Quantas vezes vira o irmo usar aquilo, pensou. Lembrava-se at do dia em que Thonolan o 
fizera.
         Pensei que lhe seria agradvel ter essa lembrana dele. Pensei tambm que isso poder ajud-lo a achar seu esprito. Alm disso, quando esse esprito, 
graas a voc, descansar em paz... talvez queira ter esse objeto com ele  concluiu Markeno.
         Obrigado  disse Jondalar, pegando a robusta ferramenta e examinando-a com espanto e reverncia. Aquilo fora a tal ponto urna parte intrigante do irmo 
que lhe trazia flashes de memria.
         Isso significa muito para mim, Markeno.  Jondalar sopesou o objeto na mo, sentindo seu equilbrio e a presena de Thonolan.  Voc est certo. H tanto 
dele aqui que quase posso senti-lo.
         Quero dar algo a Ayla, e a oportunidade  esta  disse Roshario, saindo. Jondalar a acompanhou.
        Ayla e Tholie ergueram os olhos vivamente quando eles entraram na casa de Roshario. Por um momento, a mulher achou que tinham interrompido alguma coisa pessoal 
e secreta, mas logo sorrisos de boas-vindas dissiparam a impresso. Roshario foi at o fundo do aposento e tirou um embrulho de uma prateleira.
                Isto  para voc, Ayla. Pelo que fez por mim. Fiz um embrulho para que permanea limpo durante a viagem. Depois, voc pode usar o invlucro de pele 
como toalha.
        Ayla, surpresa e encantada, desmanchou o n e abriu as camuras macias. Dentro deles havia uma pea feita igualmente de camura, tingida de amarelo, e lindamente 
enfeitada de contas e penas. Ela a pegou e ficou extasiada. Era a mais bela tnica que jamais vira. Dobrada debaixo dela havia um par de calas de mulher, totalmente 
decorada na frente das pernas e em volta do fundilho com um desenho igual ao da tnica.
         Que beleza, Roshario! Nunca vi nada to bonito.  at bonito demais para usar  disse Ayla. Colocou o presente na cama e abraou a mulher do chefe. Pela 
primeira vez desde que tinham chegado, Roshario notou o estranho sotaque de Ayla, principalmente na maneira de pronunciar determinadas palavras, mas no achou esse
sotaque desagradvel.
         Espero que sirva. Por que no experimenta a roupa para que a gente veja?  disse Roshario.
         Acha mesmo que eu deva?  perguntou Ayla, com medo de tocar no presente.
          preciso saber se serve, para poder usar o conjunto quando voc e Jondalar casarem.
        Ayla sorriu para Jondalar, excitada e feliz com a roupa nova. E no contou que j tinha uma roupa para a ocasio, dada pela mulher de Talut Nezzie, do Acampamento 
do Leo. No podia usar as duas, mas acharia uma ocasio igualmente memorvel para a roupa amarela.
         Eu tambm tenho uma lembrana para voc, Ayla  disse Tholie.  nada de to especial assim. Mas til  disse Tholie, entregando-lhe diversas tiras de couro 
macio que tirou de uma bolsa que trazia  cintura.
        Ayla as tomou e ergueu no ar, mas evitou olhar para Jondalar Sabia exatamente o que eram.
         Como voc sabia que eu preciso de tiras novas para a minha lua, Tholie.
         Uma mulher precisa sempre de tiras novas, sobretudo quando viaja. Tenho tambm excelente enchimento absorvente para voc. Roshario e eu discutimos os presentes. 
Ela me mostrou as roupas que fizera e eu pensei em dar-lhe tambm algo assim bonito. Mas voc no pode levar muito, quando viaja. Ento comecei a pensar sobre artigos 
de que pudesse precisar  disse Tholie, explicando aquele seu mimo to prtico.
          perfeito. Voc no me poderia ter dado coisa que eu quisesse mais ou de que necessitasse mais  disse Ayla. Depois virou o rosto piscando.  Vou sentir 
sua falta.
                Deixe disso. Afinal, ainda no esto indo. No ate amanh cedo, pelo menos. Ento haver tempo para lgrimas  disse Roshario, embora seus olhos 
tambm j estivessem marejados.
        Naquela noite, Ayla esvaziou suas duas grandes cestas e espalhou tudo o que continham, a fim de resolver como arrumar tudo para incorporar  bagagem os mantimentos 
que tinham ganhado. Jondalar carregaria uma parte,  verdade, mas ele tambm no tinha muita folga. Haviam discutido sobre o barco redondo mais de uma vez, sem chegar 
a qualquer resultado: sua utilidade na passagem de rios valeria o esforo de carreg-lo naquelas passagens estreitas das montanhas? Por fim, resolveram lev-lo, 
no sem muita incerteza sobre a sabedoria da deciso.
         Como voc vai pr tudo isso em duas cestas?  perguntou Jondalar, olhando com ceticismo a pilha de misteriosos pacotes, todos cuidadosamente embrulhados. 
O volume da carga o deixava aturdido.  Acha que precisamos mesmo de tanta coisa? O que tem aqui, por exemplo?
         Minhas roupas de vero - disse Ayla. - Isso  justamente o que estou pensando deixar para trs, mas ento vou precisar de roupas novas ano que vem. J 
 um alvio no ter de pr nas cestas todas estas pesadas roupas de inverno!
         Hum! - fez ele, sem poder contestar-lhe o raciocnio, mas ainda alarmado com o tamanho da pilha. Mexeu nela e viu um amarrado que j conhecia. Ayla carregava 
aquilo desde o comeo da viagem, e ele ainda no sabia o que efetivamente continha.
         O que voc leva a?
                Jondalar, voc assim no ajuda, atrapalha. Por que no verifica se essas placas de alimento comprimido para farnel que Carolio nos cabem na sua 
cesta?
         Sossegue, Racer. Calma  disse Jondalar, puxando a rdea e mantendo-a junto do peito enquanto afagava o pescoo do animal e lhe dava tapinhas na cara. 
 Acho que ele j sabe que estamos prontos e est aflito para partir.
         Estou certo de que Ayla vem logo  disse Markeno.  Aquelas duas ficaram mesmo ntimas no curto tempo que vocs, passaram aqui conosco. Tholie estava chorando 
ontem  noite, desejando ainda que ficassem. Para dizer-lhe a verdade, eu tambm estou triste por v-lo partir Jondalar. Olhe que temos procurado, mas no encontramos 
um casal que gostssemos de ter na nossa intimidade. E precisamos assumir um compromisso logo. Tem certeza que no vai mudar de ideia?
         Voc no sabe como foi difcil para mim tomar essa resoluo, Markeno. Quem sabe o que vou encontrar em casa? Minha irm estar crescida e no se lembrar 
de mim. No tenho ideia do que meu irmo mais velho faz nem de onde possa estar. Quanto a minha me, apenas espero que ainda viva. E Dalanar, o atual chefe da famlia. 
Minha prima mais prxima, filha do seu outro casamento, deve ser me a esta altura, mas nem sei se tem marido. Se tem, no o conheo, provavelmente. No conheo 
mais ningum por l... e aqui tenho tantos amigos. Mas preciso ir assim mesmo.
        Markeno assentiu de cabea. Huiin relinchou baixo, e os dois ergueram os olhos. Roshario, Ayla e Tholie, que trazia Shamio pela mo, vinham saindo do alojamento. 
A menina bracejou para soltar-se logo que viu Lobo.
         No sei o que vai ser de Shamio sem esse lobo  disse Markeno.  Ela quer sempre ter o bicho por perto. Dormiria com ele se eu deixasse.
         Talvez voc consiga um filhote para ela  disse Carlono, que se reunira a eles. Ele acabara de chegar do embarcadouro.
         No tinha pensado nisso, nem ser fcil arranjar um filhote. Talvez eu obtenha um, furtando-o de um covil  disse Markeno.  Posso, pelo menos, prometer 
a Shamio que vou tentar. Tenho de inventar alguma coisa para consol-la.
         Se pegar um, que seja pequeno  disse Jondalar.  Nosso Lobo ainda mamava quando sua me morreu.
         E como Ayla conseguiu aliment-lo sem o leite materno?  perguntou Carlono.
         Eu me perguntei muitas vezes a mesma coisa  disse Jondalar.  Ayla me explicou que um beb pode comer tudo o que a me dele come. Tem apenas de ser mais 
mole e fcil de mastigar. Ela fazia um caldo, punha um pedao de couro macio dentro, e deixava que ele ficasse chupando aquilo. Depois, cortava carne para ele em 
pedacinhos. Hoje ele come de tudo que comemos, mas gosta de caar por conta prpria, s vezes. Ele consegue caa para ns tambm. Ajudou-nos, por exemplo, com aquele 
alce que trouxemos, ao chegar.
         Como conseguem que ele faa o que desejam?  perguntou Markeno.
         Ayla gasta muito tempo com isso. Ela lhe ensina uma coisa, depois repete aquilo com ele at que o faa corretamente.  surpreendente o quanto ele pode 
aprender. E Lobo gosta muito de agrad-la.
         Todo mundo pode ver isso. Acha que  por tratar-se dela? Afinal, Ayla  uma Xam  disse Carlono.  Voc acha que uma pessoa qualquer seria capaz de fazer-se 
obedecer por animais?
         Eu monto Racer  disse Jondalar.  E no sou Xam.
         Eu no botaria minha mo no fogo por isso  disse Markeno. Em seguida, riu  J o vi enfeitiar mulheres. E qualquer uma faz o que voc quer.
        Jondalar corou. No pensava em suas conquistas havia bastante tempo.
        Ayla, que vinha em direo a eles, ficou intrigada com o motivo daquele rubor. Mas logo Dolando se reuniu ao grupo.
                Vou acompanh-los nesta primeira parte da viagem, para mostrar-lhes as trilhas e o melhor caminho montanha acima  disse.
         Obrigado. Ser uma grande ajuda, disse Jondalar.
         Eu vou tambm  disse Markeno.
                E eu  disse Darvalo.  Ayla olhou para ele e viu que usava a camisa que Jondalar lhe dera.
                E tambm eu  disse Rakario.
        Darvalo a encarou com uma expresso de agastamento, esperando v-la de olhos fincados em Jondalar. Mas a moa olhava era para ele mesmo, e com um sorriso 
de adorao. Ayla viu que a expresso dele mudava de enfado para perplexidade, depois para confuso. Por fim, Darvo ficou vermelho. Embora surpreso, compreendera.
        Quase todo mundo se reunira no meio do campo para as despedidas dos visitantes. Muitas vozes manifestaram o desejo de ir com eles parte do caminho.
         Eu no vou  disse Roshario, olhando para Jondalar, depois para Ayla , mas queria que vocs dois ficassem. Desejo-lhes uma boa viagem.
         Obrigado, Roshario  disse Jondalar, abraando-a.  Vamos precisar mesmo de muita sorte.
         Devo agradecer-lhe por ter trazido Ayla. Nem sei o que teria acontecido comigo sem ela.  Roshario tomou a mo de Ayla, que a apertou e tambm a outra, 
ainda na tipia, satisfeita com a fora que sentia nas duas. Em seguida, se abraaram.
        Houve outros adeuses, mas a maior parte das pessoas pretendia acompanhar os viajantes pelo menos por algum tempo.
                Voc vem, Tholie?  perguntou Markeno.
         No  disse Tholie. Tinha os olhos marejados.  No ser mais fcil despedir-me na estrada do que aqui  disse, e marchou decidida para o alto Zelandonii.
          difcil para mim ser amvel com voc neste momento, Jondalar. Sempre gostei de voc e mais ainda depois que nos trouxe Ayla Desejei muito que ambos ficassem, 
e voc no quis. Mesmo compreendendo os seus motivos, no me conformo ainda.
         Lamento que se sinta assim, Tholie. Desejaria poder fazer alguma coisa para que se sentisse melhor.
         Voc pode, mas no vai fazer.
        Era tpico de Tholie dizer exatamente o que sentia. Isso fazia com que todos gostassem dela. Com ela a gente sempre sabia onde estava.
         No fique zangada comigo. Se eu pudesse ficar, nada me agradaria mais do que viver com voc e Markeno. Voc nem imagina como me fez orgulhoso quando nos 
convidou, nem o quanto  difcil para mim ir embora. Mas tenho de ir, Tholie  disse Jondalar, e fitou-a com aqueles seus esplndidos olhos azuis em que havia, agora, 
genuna tristeza, preocupao e carinho.
         Jondalar, voc no devia dizer-me essas coisas amveis nem me olhar desse jeito. S me faz desejar ainda mais que fique. D-me um abrao vamos.
        Ele se curvou para abra-la e sentiu o estoro que ela fazia para controlar o pranto. Tholie se soltou e olhou para a alta mulher loura postada ao lado 
dele.
         Oh, Ayla, no quero que voc se v  disse, soluando. E caram nos braos uma da outra.
                Eu, por mim, no iria. Mas Jondalar tem de ir, no sei bem por que, e tenho de ir com ele  disse Ayla, chorando tanto quanto Tholie. De repente, 
a jovem me no suportou mais a cena, apanhou Shamio e correu para casa.
        Lobo quis segui-las.
         No, Lobo. Aqui!  comandou Ayla.
                Lobinho! Eu quero meu lobinho!  gritava Shamio, estendendo os braos para o grande carnvoro hirsuto.
        Lobo ganiu e olhou para Ayla.
                No, Lobo. Fique. Ns vamos embora.
20
___________________________________________________________________________
        Ayla e Jondalar estavam de p na clareira que comandava uma larga vista montanha. Tinham uma sensao de perda e solido vendo Dolando, Markeno, Carlono 
e Darvalo se afastarem pela trilha. O resto da Multido que sara com eles do acampamento fora ficando para trs em grupos de dois e de trs. Quando os quatro ltimos 
homens chegaram a uma curva do caminho, voltaram-se para acenar.
        Ayla respondeu  saudao deles com um gesto de chamada, com as costas da mo virada para eles. Mas logo se conscientizou de que nunca mais veria os Xaramudi. 
Naquele pouco tempo de convivncia, aprendera a am-los. Eles a tinham recebido, convidado para ficar, e ela teria vivido com eles com muito prazer.
        A partida lembrava-lhe uma outra: a partida do acampamento Mamuti, no comeo do vero. Eles tambm a tinham acolhido de corao aberto, e ela gostava de 
muitos deles. Poderia ter sido feliz ali tambm, exceto pela necessidade de conviver com a tristeza que causara a Ranec. Alm disso, partindo, havia a excitao 
de ir para casa com o homem que amava. No havia essas correntes ocultas de infelicidade entre os Xaramudi, e isso fizera a partida ainda mais dilacerante. Embora 
ela amasse Jondalar e no duvidasse do seu desejo de querer ficar com ele, encontrara aceitao e amizade  laos difceis de romper de maneira assim to final.
        Viagens so cheias de despedidas, pensou. Ela se despedira, at e para sempre, do filho que deixara com o Cl. Se tivesse ficado agora, com Tholie e os outros, 
talvez pudesse um dia descer o Rio da Grande Me com os Ramudi, num barco, at o delta. Ento, poderia procurar, na pennsula, a nova caverna do Cl de seu filho. 
Mas no adiantava mais pensar nisso.
        No haveria oportunidades de retorno, no haveria ltimas chances com que sonhar. Sua vida a puxava em uma direo, e a vida de seu filho o puxava em outra. 
Iza lhe dissera: encontra sua prpria gente, seu prprio homem. Ela fora aceita por gente com que tinha afinidade e achara um homem para amar que tambm a amava. 
Ganhara muita coisa, mas havia perdas tambm. Seu filho era uma delas, e havia que aceitar esse fato.
        Jondalar tambm sentia uma certa desolao, vendo que os amigos dobravam a curva da estrada e se iam para casa. Eram amigos com os quais vivera anos a fio 
e que chegara a conhecer muito bem. Embora no tivessem o seu sangue e seu relacionamento com eles no tivesse sobrevindo de laos matrilneos, ele os considerava 
como parentes. Empenhado em voltar s suas razes, eles eram a famlia que cumpria deixar para sempre, e isso o entristecia muito.
        Quando os ltimos dos Xaramudi que tinham ido despedir-se dele desapareceram de vista. Lobo sentou-se no cho, ergueu a cabea, soltou alguns ganidos, e, 
depois, um uivo profundo e rouco que sacudiu amanh ensolarada. Os quatro homens surgiram de novo, j embaixo na trilha, e disseram adeus, respondendo  saudao 
do lobo. Um lobo tambm respondeu, de algum lugar. Markeno chegou a virar-se para ver de onde provinha o som, antes de prosseguir, montanha abaixo, com os companheiros. 
Ento, Ayla e Jondalar lhes deram as costas e enfrentaram a montanha com seus picos de gelo glacial, de um brilho glauco.
        Menos elevadas, embora, que as da cordilheira ocidental, as montanhas que atravessavam agora eram contemporneas das outras. Datavam todas, do perodo mais 
recente de formao do relevo  recente apenas em relao aos movimentos pesadamente lentos da grossa crosta de rocha que boiava no ncleo em fuso da terra primitiva. 
Levantado e dobrado numa srie de alas paralelas, no curso de orogenia que definira todo o continente, o terreno enrugado dessa ponta mais oriental do extenso sistema 
de montanhas era coberto de vida verdejante.
        Uma faixa de rvores decduas formava uma espcie de saiote estreito entre as plancies de baixo, ainda aquecidas pelos vestgios do vero, e as elevaes 
mais frias. Na mata, composta principalmente de carvalhos e faias, com proeminentes incrustaes de btulas e bordos, folhas j mudavam de cor e formavam uma variegada 
tapearia em tons de vermelho e ocre, realados pelos espruces sempre-verdes da orla mais alta. Um manto de conferas  que vinha de baixo e no se compunha s do 
espruce, mas tambm de teixo, pinheiro e lario, da variedade que perde as folhas no frio  escalava os flancos das elevaes menores e cobria as escarpas dos picos 
mais altos com variaes sutis de verde e amarelo. Acima da linha limite da floresta, havia uma faixa de pastos alpinos que a neve branqueara logo no comeo da estao. 
E, coroando tudo, o duro capacete de gelo.
        O calor, que mal havia tocado as plancies com o advento do vero sempre efmero naquelas paragens, ja chegava ao fim, cedendo lugar ao outono e ao inverno.
Uma tendncia para o aquecimento gradual j moderava os piores efeitos do frio  um perodo intermedirio de milhares de anos  mas o gelo se reagrupava para um
ltimo assalto  terra antes que a retirada ordeira e paulatina se transformasse na debandada geral dos milnios seguintes. Todavia, mesmo durante essa estiada que
precedeu o avano final, o gelo glacial no apenas cobria os picos e vestia os flancos das altas montanhas, como mantinha o continente em seu poder.
        Na paisagem acidentada, coberta de mata, e com o estorvo que era o barco circular e os mastros, Avia e Jondalar puxavam os animais pela brida a maior parte
do tempo. Subiram escarpas alcantiladas, galgaram cristas, atravessaram trechos cobertos de seixos, meteram-se em ravinas precipitosas causadas pela descida, na
primavera, de neve e gelo derretidos, ou pelas pesadas precipitaes do outono nas montanhas do sul. Algumas das valas tinham gua acumulada no fundo, ressumando 
de uma papa de plantas em decomposio e barro mole, que sugava pelos ps homens e animais por igual. Outras levavam correntes de gua cristalina, mas todas estariam 
logo inundadas de novo pelo escoamento tumultuado dos aguaceiros do outono.
        Nas elevaes menores, no bosque de folhas largas e rvores mais espaadas, eles tropeavam na vegetao rasteira, ali mais densa e viosa, tendo de contornar 
as urzes ou abrir caminho na macega, penosamente. Os duros colmos e as vinhas espinhosas das amoreiras (ah, as deliciosas amoras-pretas!) eram um obstculo formidvel, 
que se prendia a roupas e lacerava a pele bem como o couro e as pelicas. O plo farto e desgrenhado dos cavalos da estepe, feito para a vida no frio, em campo aberto, 
logo se enredava e prendia, e at Lobo recolheu sua cota de carrapichos e gravetos.
        Muito se alegraram, por isso, ao alcanarem o patamar dos sempre-verdes, cuja sombra relativamente constante mantinha a vegetao rasteira sob controle, 
embora nas sbitas ngremes, onde o dossel no era to fechado, o sol passasse mais facilmente do que teria passado na planura, facilitando o crescimento exuberante 
da vegetao arbustiva. No era muito mais fcil cavalgar na floresta espessa de grandes rvores, onde os cavalos tinham de escolher caminho por entre os obstculos, 
e os cavaleiros eram obrigados a curvar-se sobre o pescoo da montaria para Se desviar dos ramos baixos. Acamparam, na primeira noite, numa pequena clareira, em 
um outeiro rodeado de pinheiros-mansos, desses que no tm as folhas em forma de agulhas.
        J anoitecia no segundo dia de viagem quando chegaram ao nvel das ltimas rvores. Livres, finalmente, da vegetao cerrada de pequeno porte e do rude obstculo 
das essncias gigantes, armaram sua barraca junto de uma torrente de guas frias num pequeno prado descoberto. Tirada a carga dos cavalos, eles se puseram logo a 
pastar com avidez. Por  adequada que fosse sua rao habitual de feno, dos terrenos mais baixos e mais quentes, o capim verde e as ervas alpestres daquela regio 
foram  bem recebidos.
        Um pequenino rebanho de cervos dividiu com eles a pastagem. Os machos esfregavam os chifres nos troncos para livr-los do revestimento macio de pele e vasos 
sanguneos conhecido por veludo, a fim de prepara-los para o cio  e os combates singulares do outono.
                Logo comea para eles a estao dos Prazeres  comentou Jondalar, quando armavam a fogueira.  Esto se aprestando para as lutas e as fmeas.
                Lutar constitui um Prazer para os machos?  perguntou Ayla.
                Nunca pensei nisso nesses termos, mas talvez constitua, para alguns pelo menos.
                Voc pessoalmente gosta de lutar com outros homens?
        Jondalar franziu a testa e deu toda a ateno  pergunta.
         Posso dizer que, nesse terreno, j fiz a minha parte. Algumas vezes a gente  obrigado a entrar numa briga, por este ou aquele motivo. No poso dizer que 
gosto de lutar. No gosto, se  a srio. No me importo, se for de brincadeira ou em competio.
         Os homens do Cl no lutam uns com os outros. No  permitido. Mas tomam parte em competies  disse Ayla.  Mulheres tambm lutam, mas essas j so lutas 
de outra espcie.
                Em que se distinguem essas lutas das demais?
        Ayla fez uma pequena pausa para pensar.
                A competio entre as mulheres se d naquilo que elas produzem: utenslios, obras de tranado, bebs  disse ela, e sorriu , embora esta ltima 
seja uma competio mais sutil. De qualquer maneira, quase todo mundo pensa que elas ganham dos homens na matria.
        Mais alto, na montanha, Jondalar divisou uma famlia de caneiros selvagens, com grandes chifres enrolados junto da cabea.
         Aqueles, sim  disse ele, apontando , so bons de briga. Quando galopam um para o outro e batem de cabea, o som  o de um trovo.
         Quando veados e carneiros investem uns contra os outros, tranando seus chifres, esto de fato lutando ou simplesmente competindo?
         No sei. Podem sair feridos desses embates, mas isso no  comum. De regra, um cede quando o outro prova que  mais forte. As vezes se limitam, ambos, 
a pavonear-se e a berrar, e no lutam coisa nenhuma. Talvez seja de fato mais competio ou jogo que combate.  E com um sorriso:  Voc faz cada pergunta, mulher!
        Uma brisa leve e fresca tornou-se fria quando o sol descambou e sumia do campo de viso dos viajantes. J no correr do dia alguma neve cair  muito pouca, 
dissolvendo-se logo nos espaos abertos, mas acumulando-se na sombra, o que anunciava uma noite gelada e mais precipitao de neve, possivelmente.
        Lobo desapareceu logo que a barraca foi armada. Quando escureceu sem que ele tivesse retornado, Ayla comeou a ficar aflita.
         Voc acha que devo assoviar chamando-o?  perguntou, quando se preparavam para dormir.
         No  a primeira vez que ele sai assim para caar sozinho. Voc est acostumada a ter Lobo por perto porque o mantm assim. Ele volta.
         Espero que volte pelo menos amanh de manh.  disse Ayla, levantando-se para olhar. Mas era difcil enxergar qualquer coisa alm da fogueira.
         Ele  um animal. Sabe nadar por a. Venha, Ayla, e sente-se  disse Jondalar. Colocou mais uma acha de lenha no fogo e ficou por um momento vendo as fagulhas 
que subiam para o cu.
                Olhe aquelas estrelas. J viu tantas assim de uma s vez?
        Ayla olhou para cima e se deixou tomar de assombro.
                Parecem muitas, de fato. Talvez seja por estarmos mais perto delas, aqui em cima, que vemos tantas, principalmente das pequenas... Ou ser que esto 
mais longe? Voc acha que elas vo, assim, alm, indefinidamente? Que no acabam mais?
         No sei. Nunca pensei nisso. Quem poder dizer?
         Sua Zelandoni saber?
         Talvez ela saiba, mas dificilmente nos contar. H coisas que s Aqueles que Servem  Me devem saber. Mas voc faz mesmo cada pergunta, Ayla!  disse 
Jondalar. Sentiu frio, de repente. Sem ter certeza se era mesmo do tempo, acrescentou:  Estou ficando com frio, e temos de sair cedo, amanh. Dolando diz que as 
chuvas podem comear a qualquer momento agora. O que pode significar neve, aqui nestas culminncias. Gostaria de estar embaixo, na plancie, quando isso ocorrer.
         Volto j. Quero apenas certificar-me de que Racer e Huiin esto bem. Talvez encontre Lobo com eles.
        Ayla ainda estava preocupada quando se enfiou por entre as pelicas da cama. Custou a dormir, com o ouvido atento a qualquer rudo que pudesse indicar a volta 
do animal.
        Estava por demais escuro para ver alguma coisa alm das estrelas, das inumerveis estrelas que subiam do fogo para o cu no turno. Mas ela continuou olhando. 
E ento duas estrelas, duas luzes amarelas, se aproximaram uma outra na treva. Eram olhos, os olhos de um lobo que a fixavam. Ele se virou e comeou a afastar-se. 
E ela entendeu que o animal queria que o seguisse. Mas quando comeou a faz-lo, o caminho foi de sbito bloqueado por um urso de grandes propores.
        Ela recuou apavorada quando a gigantesca fera se ergueu nas patas traseiras e grunhiu. Mas quando ela olhou outra vez descobriu que no era urso nenhum. 
Era Creb, o Mog-ur, com seu manto de pele de urso.
        A distncia ouviu que seu filho a chamava. Olhou por cima do ombro do grande mago e viu o lobo. Mas no era apenas um lobo, era o esprito do Lobo, o totem 
de Dure, e esse queria que ela o acompanhasse. Mas ento o esprito do Lobo se transformou no seu filho, e era Durc que queria que ela o seguisse. Ele chamou uma 
vez mais, mas quando ela procurou atend-lo, Creb se interps. E apontou alguma coisa atrs dela.
        Ela se virou e viu um caminho que levava  entrada de uma caverna no uma caverna profunda, mas uma platibanda de pedra de rocha muito clara,  beira de 
um penhasco. E acima dela, uma estranha pedra que parecia parada no ar no ato de cair. E quando olhou por cima do ombro Creb e Dure j no estavam l.
         Creb! Dure! Onde esto vocs?  disse Ayla, sentando-se de repente.
         Ayla, voc est sonhando de novo  disse Jondalar, sentando-se tambm.
         Eles se foram! Por que ele no deixou que eu fosse com eles?  disse Ayla, com lgrimas nos olhos e um soluo na garganta.
                Quem foi embora?  perguntou Jondalar, tomando-a nos braos.
         Dure. E Creb no deixou que eu fosse com ele. Atravessou-se no meu caminho. Por que ter feito isso?  disse ela, chorando.
         Foi um sonho, Ayla. Nada mais que um sonho. Talvez queira dizer alguma coisa. Mas no passou de um simples sonho.
         Voc est certo. Sei que est. Mas parecia to real!
         Voc tem pensando muito no seu filho?
         Acho que sim. Tenho pensado que nunca mais o verei.
                Talvez por isso tenha sonhado com ele. Zelandoni sempre disse que quando a gente tem um sonho dessa espcie deve procurar lembrar tudo o que puder 
sobre ele para um dia entend-lo  disse Jondalar, tentando ver a expresso de Ayla no escuro.  Procure dormir de novo.
        Ficaram os dois, lado a lado, e acordados, por algum tempo. Mas acabaram adormecendo. Quando acordaram, na manh seguinte, o cu estava sombrio e Jondalar 
ficou ansioso. Era preciso partir. Lobo, no entanto, no voltara. Ayla assoviava periodicamente, enquanto desmontavam a barraca e empacotavam as coisas, mas ele 
no apareceu.
         Temos de ir, Ayla. Ele nos alcanar, como sempre fez  Jondalar.
         No vou enquanto ele no voltar. Voc vai. Eu espero. Vou procur-lo.
                Como? Aquele animal pode estar em mil lugares.
                Talvez tenha descido a montanha, de volta para Shamio. Ele gostava dela. Talvez eu deva refazer nosso caminho, e ir atrs dele.
         No voltaremos. No depois de ter cavalgado at aqui.
         Eu vou, se for preciso. No sigo viagem at que encontre Lobo.
    Jondalar abanou a cabea, mas Ayla comeou a fazer de novo o caminho percorrido. Ela estava decidida. J podiam estar longe se no fosse o animal. Os Xamudi 
que ficassem com ele!
    Ayla seguiu sozinha, assoviando e, de repente, quando estava para entrar na floresta, Lobo surgiu do outro lado da clareira e correu para ela. Ps-lhe as patas 
nos ombros com tal fora que quase a derrubou.  E se Ps a lamber-lhe a boca e mordiscar o queixo.
            Lobo! Lobo! A est voc. Por onde andou?  disse Ayla, garrando-o pela coleira de plos, esfregando o rosto no focinho do animal e mordendo-o de leve 
para responder  sua saudao.  Eu estava muito aflita. Voc no devia fugir assim.
     Acha que podemos ir agora?  perguntou Jondalar.  J perdemos metade da manh.
            Pelo menos ele veio, e no tivemos de voltar  disse Ayla, montando.  Em que direo voc quer que a gente v? Estou pronta.
    Atravessaram toda a pastagem sem trocar palavra, irritados um com o outro. Chegaram, depois, a uma crista. Cavalgaram ao longo dela, procurando uma passagem, 
at darem com uma descida ngreme, juncada de seixos e mataces. Parecia muito instvel, e Jondalar ainda tentou encontrar outra sada. Se estivessem sozinhos, poderiam 
ter passado por diversos lugares, mas s aquela, apesar de escorregadia, era praticvel para os cavalos.
     Ayla, voc acha que os cavalos podem subir por aqui? No creio que haja outro caminho. Podemos descer e contornar o morro.
     Voc no admitia voltar, no  mesmo? Principalmente por causa de um animal.
     No queria, mas o que for preciso faremos. Se voc acha a escalada perigosa para os animais, desistimos.
     E se eu a julgasse perigosa para Lobo? Ns o abandonaramos aqui?
    Para Jondalar os cavalos eram teis. Embora ele gostasse do lobo, no achava razovel que atrasassem a viagem por causa dele. Mas era bvio que Ayla no concordava 
com isso, e ele sentira uma corrente de animosidade, uma tenso. Provavelmente porque ela teria preferido ficar com os Xaramudi. Pensou que uma vez que alguma distncia 
existisse entre eles e o acampamento de Dolando, ela passaria a antegozar a chegada ao destino. Mas no queria faz-la mais infeliz agora do que j estava.
     No  que eu queira deixar Lobo no caminho. Pensei apenas que ele seria capaz de alcanar-nos como j fez antes  disse Jondalar, embora, na verdade, tivesse 
estado mesmo a ponto de abandonar o animal.
    Ela sentiu que havia mais no que ele dizia, mas tambm no queria que o desacordo entre eles crescesse. Afinal, Lobo estava com eles, e no havia mais motivo 
para aflies. Com a ansiedade dissipada, a raiva tambm se fora. Desmontou, ento, e procurou subir a p testando o aclive.
     No estou de todo convencida, mas acho que vale a pena tentar. No  to ruim quanto parecia  primeira vista. Se eles no conseguirem, ento procuraremos 
algum outro caminho.
    Aquele no era, na verdade, to inseguro quanto parecera  primeira vista. Embora houvesse alguns momentos difceis, ficaram ambos surpresos com o desempenho 
das montarias. Alegraram-se de ter deixado o problema para trs, mas encontraram outros mais acima. Na sua preocupao comum um com o outro e com os cavalos, acabaram 
por conversar outra vez naturalmente.
    Para Lobo a subida era fcil. Foi at o alto e voltou enquanto eles conduziam os cavalos com cautela. Quando chegaram ao topo, Ayla assoviou e ficou esperando, 
Jondalar observou-a e achou que parecia muito mais preocupada com o lobo do que antes. Por que seria? Quis perguntar-lhe, mudou de ideia para no desgost-la, mas 
acabou levantando a questo de qualquer maneira.
            Ayla, estarei errado ou voc anda mais preocupada com Lobo do que de hbito? Gostaria que se abrisse comigo. Voc sempre insistiu em no termos segredos.
    Ela hesitou fundo, fechou os olhos, franziu o cenho. Depois resolveu encar-lo e ao problema.
            Tem razo. No  que eu quisesse esconder isso de voc. Queria esconder o problema de mim mesma. Voc se lembra daqueles dois veados que encontramos 
esfregando os chifres nas rvores para remover o veludo?
            Sim  disse Jondalar.
            No estou absolutamente certa disso, mas talvez seja a estao dos Prazeres para os lobos tambm. Nem quero pensar nisso de medo de que, pensando, acontea, 
mas Tholie trouxe a questo  baila quando eu falei sobre o leo, Nenm, que me deixou para encontrar uma companheira. Ela me perguntou se eu achava que Lobo faria 
a mesma coisa qualquer dia. E no quero que isso acontea. Lobo  como um filho para mim.
            E o que a leva a pensar que ele o faa?
     Antes da partida final de Nenm, ele desaparecia assim por perodos cada vez mais longos. s vezes, quando voltava, eu via que ele havia lutado. Sabia que 
estava  procura de uma leoa. Pois achou uma. Agora, cada vez que Lobo some, temo que ele esteja em busca de uma companheira.
      isso ento.  Acho que no podemos fazer alguma coisa. Mas ser esse mesmo o caso?  disse Jondalar.
    E a despeito dele mesmo, lhe veio o pensamento de que desejava que fosse. No queria ver Ayla infeliz, porm mais de uma vez o lobo j havia provocado desavenas 
entre os dois. Tinha de admitir que se Lobo encontrasse um amor e partisse, ele lhe desejaria boa sorte e ficaria satisfeito com o desfecho.
            No sei  disse Ayla.  Ele sempre voltou, at agora. E parece contente de viajar conosco. Ele me sada como se nos considerasse sua verdadeira alcateia, 
mas voc sabe como so os Prazeres.  um Dom muito forte. O desejo pode ficar incontrolvel.
     Eu sei. Mas, como j disse, no podemos fazer grande coisa. Seja como for, alegro-me que voc tenha falado disso.
    Cavalgaram em silncio, lado a lado, por algum tempo, mas era um silncio amistoso. Ele ficara de fato satisfeito por terem tratado do assunto. Pelo menos entendia 
agora um comportamento dela que lhe parecera estranho. Ayla se vinha portando como uma espcie de me por demais extremosa, o que no era natural nela, nem ele desejaria 
que fosse. Tinha pena dos rapazinhos que as mes tolhiam, que no podiam fazer coisas um pouco perigosas, como penetrar numa caverna mais profunda ou escalar montanhas.
            Olhe, Ayla, um cabrito-monts!  disse, apontando um belo animal semelhante ao bode, mas com longos chifres curvos. Postava-se bem na borda de uma salincia 
da montanha, no alto.
     J cacei animais como esse. E veja mais para cima: so camuras!
            Ah, so esses os animais que os Xamudi caam?  perguntou Ayla, observando aqueles exemplares de antlope. As camuras so aparentadas s cabras-montesas, 
mas tm os chifres menores e mais direitos  e fazem incrveis cabriolas nos picos mais inacessveis e nas encostas mais ngremes.
            Sim, so. J cacei com os Xamudi.
     Como  possvel matar animais assim? Como vocs conseguem peg-los?
      uma questo de subir atrs deles. Eles costumam olhar para baixo todo o tempo a ver se algum perigo os ameaa, de modo que se a gente consegue ficar acima 
deles, chega em geral suficientemente perto para abat-los. E voc percebe como o propulsor de lanas pode ser til  explicou Jondalar.
            Isso me faz apreciar ainda mais a roupa que Roshario me deu  disse Ayla.
    Continuaram a escalada e,  tarde, estavam, j, na linha da neve. Paredes lisos de pedra se elevavam de um lado e de outro deles, com manchas de gelo e neve 
no muito distantes, para cima. O topo do talude a frente se recortava contra o cu azul e parecia conduzir  borda do mundo. Ao alcanarem o ponto mais alto, pararam 
para contemplar a vista, que era espetacular.
    Atrs deles via-se todo o caminho que tinham feito subindo a montanha desde a faixa de rvores. Dali para baixo, os sempre-verdes que cobriam a rocha fundamental 
disfaravam o terreno spero que tanto esforo lhes custara. Para leste, podiam divisar at a plancie com as fitas Tranadas dos rios correndo preguiosamente  
o que causou surpresa a Ayla. O Rio da Grande Me parecia um simples conjunto de fios d'gua daquele privilegiado ponto de observao no cume gelado da montanha, 
e ela mal podia acreditar que, tempos atrs, eles tinham suado de calor Viajando ao longo do seu curso.  frente via-se a prxima cordilheira, um pouco menos elevada, 
e o fundo vale coberto de pontas verdes e plumosas que os separava dela. Para cima, muito perto de onde estavam, os picos cintilantes de gelo.
    Ayla correu os olhos em torno, tomada de um temor respeitoso. Seus olhos brilhavam de admirao, tocados pela beleza e grandiosidade da paisagem. No ar frio 
e limpo, o vapor que escapava da sua boca ao falar fazia cada excitada respirao perceptvel.
            Oh, Jondalar, estamos acima de tudo o que existe. Jamais subi to alto. Sinto-me no topo do mundo.  tudo to... belo, to emocionam.
    Ouvindo aquelas expresses de maravilhamento, vendo os olhos brilhantes dela, seu formoso sorriso, o entusiasmo que ele mesmo sentia diante daquele panorama 
esplendoroso se acendeu com a excitao de Ayla e ele ardeu de desejo por ela.
            Sim,  muito belo. E excitante tambm.
    Alguma coisa na voz de Jondalar ps um arrepio no corpo de Ayla e obrigou-a a desviar a vista da paisagem.
    Os olhos dele tinham uma tonalidade to extraordinria de azul que ela imaginou por um momento que ele roubara dois pedaos do cu luminoso para ench-las com 
seu amor e desejo. Sentiu-se apanhada por eles, capturada pelo seu inefvel encanto, cuja origem era to misteriosa para ela quanto a magia do amor dele, mas que 
ela no podia nem queria negar. O desejo de Jondalar por ela sempre fora o sinal dele. Para Ayla, no era um ato de vontade, mas uma reao fsica, uma necessidade 
to forte e irresistvel quanto a que ela mesma sentia.
    Sem se dar conta de haver sado do lugar, Ayla se viu nos braos dele, esmagada por ele, e com a boca ardente e faminta do homem na sua. Certamente o que no 
faltava na sua vida eram Prazeres. Jondalar e ela partilhavam regularmente daquele Dom da Me, com grande contentamento, mas aquele momento presente era excepcional. 
Talvez fosse o cenrio, mas ela percebia que cada sensao parecia intensificada. Onde quer que o corpo dele a tocasse uma descarga de sensaes corria por ela, 
da cabea aos ps. As mos dele estavam nas suas costas, seus braos a enlaavam, as coxas estavam coladas s suas. O volume da sua virilidade, percebido atravs 
da espessura das parkas de inverno, forradas de plo, era quente, e os lbios apertados nos seus lhe davam a indescritvel convico de no querer que ele parasse 
nunca.
    Do momento em que a soltou e recuou um pouco para abrir os fechos da roupa externa dela at que a tocasse de novo, ela ardeu de desejo e de expectao. Mal podia 
esperar e, no entanto, no queria que ele se apressasse. Quando ele fechou a mo no seu seio por debaixo da tnica, ela gostou de senti-la fria a contrastar com 
o calor que tinha por dentro. Prendeu a respirao quando ele apertou um mamilo endurecido, arrepiando-lhe a pele e levando a excitao at aquele ponto dentro dela 
que ardia no desejo de mais.
    Jondalar percebeu a forte reao na mulher e sentiu que ele prprio se inflamava ainda mais. Seu membro engrossou, ereto, e pulsou  de to cheio que estava. 
Sentiu que a lngua de Ayla, quente e macia, se  introduzira na sua boca e sugou-a. Ento soltou-a, para buscar a macia, quentura dela, e de sbito sentiu uma vontade 
incoercvel de provar o sal e sentir as dobras molhadas da outra abertura. Mas no queria, ao mesmo tempo, interromper os beijos que lhe dava. Ah, se pudesse t-la 
toda ao mesmo tempo! Tomou os dois seios nas mos, brincando com os bicos empinados, amassando, esfregando. Depois ergueu a tnica, ps um deles na boca, e chupou
com fora, sentindo que ela apertava o corpo contra o dele e gemia baixinho de prazer.
    Sentiu que o membro latejava e imaginou-o todo dentro dela. Beijaram-se ainda, mas ela sentiu que seu prprio desejo era agora mais agudo e mais urgente. Estava 
faminta pelo toque dele, suas mos, seu corpo, sua boca, seu sexo.
    Ele procurava remover-lhe a parka. Ayla ajudou-o, deleitando-se com o  vento frio quando se desvencilhou da roupa. O vento era quente com as mos de Jondalar 
no seu corpo, com a boca de Jondalar na sua boca. Sentiu que ele desatava os amarrilhos das suas perneiras, que as puxava para baixo. E logo estavam os dois deitados 
na parka estendida no cho, e as mos de Jondalar acariciavam suas cadeiras, sua barriga, a parte interna das pernas. Ela se abriu toda a esse contato.
    Ele se ps entre as coxas da mulher, e o calor da sua lngua explorando acendeu pontos de excitao por toda parte. Ela era to sensvel, suas reaes to intensas, 
que fazer amor lhe era quase insuportvel, ou quase insuportavelmente estimulante.
    Jondalar sentiu aquela vigorosa e imediata reao ao seu leve toque. Ele fora treinado como britador de pederneiras, artfice de ferramentas e armas de pedra, 
e era considerado o melhor do seu ramo pela sensibilidade ao slex com suas finas, sutis variaes. As mulheres respondiam  sua percepo aguada e s suas manipulaes 
de perito exatamente como uma fina pedra-de-fogo o faria. Mulher e pedra traziam  luz o que de melhor havia nele. Ele gostava sinceramente de ver uma bela ponta 
de lana emergir de uma pea de quartzo graas s suas ministraes de especialista e gostava de ver uma fmea excitada ao mximo do seu potencial, e passara muito 
tempo praticando as duas artes.
    Com sua inclinao natural e genuno desejo de estar atento aos sentimentos de uma mulher, Ayla principalmente, naquele mais ntimo de todos os momentos, ele 
sabia que um toque de pluma a excitaria mais agora embora uma tcnica diversa pudesse ser apropriada depois, num outro momento.
    Beijou o interior da coxa da mulher, depois correu a lngua de baixo para cima, notando que a pele se eriava. De olhos fechados, ela estremecia, mas no se 
recusava. Ele se ergueu, e tirou a prpria parka para cobri-la embora s at a cintura.
    Para ela o frio no importava, mas o agasalho dele, forrado de plo e ainda quente, oloroso do seu forte cheiro de homem, era uma verdadeira maravilha. O contraste 
do vento frio com a pele das suas Pernas nuas, molhadas da lingua dele, dava-lhe calafrios de desejo. Percebeu que um lquido quente lhe imundava as dobras. Aquilo 
e o frio do vento lhe deram um desejo insuportvel. Com um gemido rouco ela arqueou o corpo ao encontro dele.
    Com as mos, Jondalar separou-lhe os lbios, admirou a bela cor rosada daquela flor aberta, e, incapaz de conter-se por mais tempo, aqueceu as ptalas com a 
lngua molhada, saboreando-as. Ela teve calor, depois frio, e ficou palpitante, em resposta. Aquilo era novo, nada que ele j tivesse feito antes. Jondalar usava 
o prprio ar do pico da montanha para lhe dar Prazer, e em algum outro plano, interior, ela admirou aquilo.
    Mas, como ele continuasse, o ar ficou esquecido. Com uma presso maior, e a provocao, com que estava familiarizada, da boca e das mos do homem, estimulando, 
encorajando, incitando seus sentidos a responder, ela se esqueceu, at, de onde estava. Sentia apenas a boca que sugava, a lngua que lambia e espetava a sede dos 
Prazeres, os dedos sapientes que se lhe metiam por dentro, nos refolhos, e, depois, s a mar que enchia, a onda que formava uma crista e rebentava, estrondando 
por cima dela, que agarrava o membro dele e o guiava para o lugar certo. Ento, empurrou o corpo para cima, e ele a encheu.
    Jondalar enfiou seu fuste at o fundo, fechando os olhos ao sentir a acolhida que ela lhe dava, mida e quente. Esperou um momento, imvel, para em seguida recuar, 
sentindo a carcia do tnel profundo, e empurrando outra vez. Enfiava e puxava, sentindo que cada golpe o adiantava um pouco, e que a presso dentro dele crescia. 
Ouviu-a gritar, arquear-se contra ele, e gozou, explodindo na libertao de vaga aps vaga de Prazer.
    No silncio absoluto, s se ouvia agora a voz do vento. Os cavalos esperavam pacientemente que aquilo acabasse, e o lobo assistia a tudo com interesse. Aprendera, 
contudo, a conter qualquer curiosidade mais ativa. Por fim, Jondalar se soergueu, apoiado nos braos, e contemplou a mulher que amava.
            Ayla, e se tivermos feito um beb?
            No se preocupe, Jondalar. No creio que tenhamos feito beb algum.
    Ela se alegrava de ter encontrado mais das plantas anticonceptivas, e ficou tentada a confiar-lhe o segredo, como fizera com Tholie. Tholie ficara, de incio, 
to chocada, embora fosse mulher, que Ayla resolveu no contar nada.
            No tenho muita certeza, mas acho que este  desses perodos em que no pego filho  disse. E era verdade. No estava absolutamente certa.
    Iza tivera uma filha, apesar do remdio, que tomava havia anos. Talvez as plantas perdessem a eficcia com o uso prolongado. Ou talvez Iza tivesse esquecido 
de tomar a poo, embora Ayla duvidasse disso. Ficava imaginando o que aconteceria se deixasse de vez aquele ch matinal.
    Jondalar esperava que ela tivesse razo, embora uma pequena parte dele desejasse o contrrio. Ficava pensando se haveria um dia um filho do seu lar, produto 
do seu esprito, ou, quem sabe, da sua essncia.
    Levaram alguns dias para alcanar a cordilheira seguinte, que era mais baixa, e no se alava muito acima do nvel das rvores, mas tiveram dali sua primeira 
viso das largas estepes do oeste. Era um dia de cu limpo, apesar de ter nevado, e a distncia podiam divisar uma terceira linha demontanhas incrustadas de gelo. 
Na plancie chata havia um rio, que corria para o sul, em direo ao que lhes pareceu um grande lago intumescido.
     Aquele ser, outra vez, o Rio da Grande Me?
     No,  o da Irm. Que temos de atravessar. Receio, alis, que esse venha a ser o mais difcil cruzamento de toda a nossa Jornada  explicou Jondalar.  V 
aquilo, ao longe, no rumo do sul? Onde a gua se alarga a ponto de parecer um lago? L est o Rio da Me ou, melhor, o lugar em que o Rio da Irm se lana nele... 
ou procura faz-lo. Ele recusa e transborda, e as correntes, ali, so perigosas. Ns no vamos tentar passar naquele ponto, mas Carlono diz que, mesmo a montante, 
o rio da Irm  de curso turbulento.
    Aconteceu que esse dia, em que olharam para oeste, a partir da segunda cordilheira, foi o ltimo dia claro. Acordaram na manh seguinte sob um cu encoberto 
e sombrio, to baixo que se fundia na neblina que subia das depresses do terreno. Havia uma garoa palpvel no ar, que se acumulava em gotculas nos cabelos e nas 
pelicas. A paisagem parecia envolta num impalpvel sudrio que s permitia que as rvores se materializassem como rvores, deixando de ser formas indistintas, quando 
o observador se aproximava delas.
     tarde, com uma trovoada imprevista e retumbante, os cus se abriram, depois de acesos, minutos antes, por um nico relmpago solitrio. Ayla estremeceu, surpresa, 
e se deixou possuir pelo terror ao ver os sucessivos clares lvidos que corriam pelos picos das montanhas que tinham deixado  retaguarda. Mas no era o raio que 
a assustava, mas a antecipao do estrondo que ele pressagiava de perto.
    Ayla se encolhia cada vez que aquilo acontecia, longe ou perto. Parecia-lhe que a cada trovo a chuva recrudescia, como que tangida das nuvens pelo som. Enquanto 
desciam, trabalhosamente, o flanco ocidental da montanha, a chuva caa sobre eles em lenis e catadupas. Os riachos enchiam e transbordavam. Pequeninos arroios, 
que antes saltavam, descendo, de salincia em salincia da rocha, se convertiam em torrentes tumultuosas. O cho ficava escorregadio e, em muitos lugares, perigoso.
    Davam graas pelas suas parkas Mamuti de chuva feitas de couro de veado. A de Jondalar era do gigantesco megcero das estepes: a de Ayla rena do norte. Vestiam-nas 
por cima de suas parkas de pelia, quando fazia frio, ou de suas tnicas de uso cotidiano, quando fazia calor. A superfcie externa desses impermeveis era tingida 
de vermelho e ocre. Os pigmentos minerais, dissolvidos em gordura animal, eram esfregados mos casacos com um instrumento especial de brunir feito de um osso de costela. 
Com o processo, os abrigos adquiriam um acabamento lustroso  prova d'gua. Mesmo molhado, um casaco desses oferecia proteo, mas era impotente contra um dilvio 
como o que desabava agora sobre os viajantes.
    Quando pararam para o pernoite e armaram a barraca, tudo estava mido, inclusive as peles de dormir, e era impossvel acender o fogo. Carregaram lenha para dentro, 
galhos mortos, baixos, de conferas, na esperana de que secassem at de manh. Mas quando acordaram chovia ainda, torrencialmente, e suas roupas continuavam midas. 
Graas, porm, a uma pederneira e a um pouco de mecha que levava consigo, Ayla conseguiu acender uma pequena fogueira para ferver gua e fazer um ch que os esquentasse. 
Comeram s dos pequenos bolos quadrados e chatos que Roshario lhes dera, uma variao do alimento compactado, feito habitualmente para viagem, to substancioso e 
nutritivo que uma pessoa podia subsistir indefinidamente, mesmo que no comesse qualquer outra coisa. Consistia em carne seca e moda, misturada com gordura, passas 
de frutas ou bagas, e, ocasionalmente, razes ou gros cozidos.
    Encontraram os cavalos impassveis do lado de fora da tenda, de cabea baixa, pingando, a gua a escorrer da sua pelagem hirsuta de inverno. O barco desabara 
e estava cheio d'gua. Estavam dispostos a deix-lo ficar ali mesmo e tambm os mastros. O tren fora til para arrastar cargas pesadas nas plancies abertas e era 
eficiente, quando combinado ao barco circular, para transportar seu equipamento para a outra margem de rios. Mas na montanha acidentada e coberta de rvores fora 
um estorvo. No s atrasava a viagem como tornava mais arriscada a descida, debaixo de chuva, por encostas abruptas. Se Jondalar no soubesse que a maior parte do 
terreno que tinham ainda de atravessar era plano, j teria abandonado aquela tralha havia muito tempo.
    Eles separaram o bote das varas e esvaziaram-no segurando-o no ar por cima das prprias cabeas. Nessa posio se entreolharam e riram. Ficavam, pela primeira 
vez, a seco ao ar livre. No lhes tinha ocorrido antes que aquela meia-laranja, que os salvara da gua, num rio, podia tambm funcionar como cobertura defendendo-os 
da chuva. Talvez no quando estivessem em movimento, mas quando a precipitao fosse tamanha eles teriam de parar e esperar uma estiada.
    Essa descoberta no resolvia o problema de como transport-lo pelo resto da Jornada. Ento, como se ambos tivessem tido simultaneamente a mesma ideia, puseram-no 
em cima de Huiin. Se pudessem fix-lo, abarraca e duas das cestas ficariam sempre secas. Usando os mastros e algumas cordas, conseguiram amarr-lo bem. Ficou desajeitado, 
e sabiam que seria preciso retir-lo em passagens estreitas ou evit-las, contornando eventuais obstculos, mas afinal no daria tanto trabalho quanto antes e podia 
oferecer suas vantagens.
    Encabrestaram e carregaram os cavalos, mas sem a inteno de mont-los. Puseram a pesada barraca de couro e pano de forrar cho nas costas de Huiin, com o barco 
por cima de tudo, emborcado, apoiado nos mastros em cruz. Um couro de mamute, que Ayla costumava usa para cobrir a comida, foi posto no lombo de Racer para proteger 
as duas cestas que o garanho levava.
    Antes de sarem, Ayla passou algum tempo com Huiin, agradecendo-lhe e tranquilizando-a, na linguagem especial que tinham elaborado no Vale dos Cavalos. No importava 
que o animal compreendesse as palavras. A linguagem era familiar e tranquilizante, e a gua indubitavelmente reagia a determinados sons e movimentos como sinais.
    At Racer ficou de orelha em p, bateu com a cabea, e relinchou durante o discurso de Ayla. Jondalar concluiu que ela estava estabelecendo alguma espcie de 
comunicao com os cavalos cuja natureza lhe escapava. Aquilo fazia parte do mistrio que tanto o fascinava.
    Comearam a descer pelo terreno acidentado puxando os animais e mostrando-lhes o caminho. Lobo, que passara a noite inteira na barraca, e estava relativamente 
seco no comeo da marcha, ficou rapidamente mais ensopado que Huiin e Racer, com o plo cheio e desgrenhado colado ao corpo. Ele parecia magro, assim, e menor, mostrando 
os contornos de osso e msculo. As parkas midas do homem e da mulher eram quentes assim mesmo, seno inteiramente confortveis, mas o forro de pele dos capuzes 
ficara molhado e emplastrado. Depois de algum tempo, a gua comeava a escorrer pelo pescoo deles, mas no podiam fazer nada. Os cus continuavam inclementes, e 
Ayla achou que o tempo chuvoso iria ser, dali por diante, a regra.
    De fato, choveu quase sem parar nos dias que se seguiram, durante toda a descida da montanha. Quando alcanaram a linha das altas conferas, o dossel lhes deu 
alguma proteo, mas deixaram a maior parte das rvores para trs quando o terreno se aplainou num largo terrao, embora o leito do rio estivesse muito mais embaixo. 
Ayla comeou a ver que o rio que tinham visto de cima devia estar mais longe do que ela havia pensado e devia ser, tambm, muito maior. Embora a chuva ficasse fraca, 
de vez em quando, no parou. E sem a proteo, por incompleta que tivesse sido, das rvores, ficavam ensopados e infelizes. Mas tinham uma consolao: podiam, agora, 
cavalgar, pelo menos parte do tempo.
    Seguiram no rumo do poente, por uma srie de terraos de loess, os mais altos dissecados por incontveis torrentes, provindas da montanha, como resultado daquele 
dilvio. Eles patinharam na lama e cruzaram diversos desses riachos de ocasio, que despencavam das alturas, drenando-as. Ento chegaram a outro terrao, e encontraram, 
inesperadamente, uma pequena colnia.
    As casas, de madeira bruta, eram pouco mais que telhados de meia-gua, obviamente improvisadas, e pareciam desengonadas e em runas, mas pelo menos ofereciam 
abrigo e foram uma alegria para os olhos dos dois viajantes. Ayla e Jondalar correram para elas. Desmontaram, pensando no terror que os animais domesticados podiam 
infundir aos possveis habitantes, e chamaram em Xaramudi, esperando que a lngua fosse familiar aos locais. Mas no obtiveram resposta e, olhando mais de perto 
verificaram que os alojamentos estavam desertos.
     Estou certo de que a Me se d conta de que precisamos de um teto. Doni no ter objees a uma invaso  disse Jondalar, entrando em um dos telheiros e olhando 
em volta. Estava completamente vazio, a no ser por uma correia de couro dependurada de uma parede. O cho estava coberto de lama, como se uma das torrentes tivesse 
passado por dentro do casebre antes de ser desviada. Saram e foram ver o maior de todos.
    Ao se aproximarem, Ayla deu pela falta de uma coisa importante.
            Jondalar, onde est o Doni? No h uma figura da Me guardando a entrada.
    Ele olhou e concordou com ela.
            Isto deve ser um acampamento temporrio de vero  disse  Eles no deixaram um Doni por no lhe terem pedido proteo. No  havia necessidade. Quem 
quer que tenha erguido esta instalao no esperava que durasse at o inverno. Eles abandonaram a regio e levaram tudo
ao partir. Buscaram, provavelmente, um lugar mais alto quando a chuva comeou.
    Entraram na casa e viram que era muito mais substancial que a anterior. Havia gretas que ningum obturara nas paredes, e goteiras em diversos lugares, mas o 
cho de madeira bruta se elevava acima do barro pegajoso, e uns poucos pedaos de madeira estavam espalhados na vizinhana de uma lareira feita com pedras. Era o 
lugar mais seco e mais confortvel que viam havia muito tempo.
    Saram, descarregaram o tren e trouxeram os cavalos para dentro. Ayla acendeu o fogo, e Jondalar foi at uma das construes menores para tirar madeira das 
paredes internas, mais secas, para usar como lenha. Quando voltou, Ayla esticara cordas de parede a parede e estava estendendo a roupa para secar. Jondalar a ajudou 
a esticar o couro da barraca, mas tiveram de junt-lo outra vez para escapar a uma goteira que no parava de pingar.
            Temos de fazer alguma coisa  disse Jondalar.
            Vi tbuas l fora  disse Ayla.  Posso tecer as folhas rapidamente e cobrir os buracos com as esteirinhas.
    Saram para colher folhas duras que servissem para remendar o forro. Voltaram com uma braada das plantas. As folhas, enroladas em torno dos talos, tinham meio 
metro de comprimento, em mdia, por dois centmetros ou mais de largura, e afilavam para a ponta. Ayla j ensinara a Jondalar os elementos da arte de fazer tranados. 
Vendo-a fazer sees quadradas de esteiras, ele se ps tambm a fazer uma. Ayla viu aquilo e teve de rir sozinha. No podia conter-se. Estava surpresa por Jondalar 
fazer trabalho de mulher, mas contente com a sua disposio. Trabalhando juntos, logo tiveram esteiras suficientes para tapar todas as goteiras.
    As casas eram feitas de canios amarrados a um certo nmero de toras compridas, no muito grossas, de rvores novas, presos uns aos outros. Apesar de no serem 
feitas de pranchas, assemelhavam-se muito aos abrigos em A dos Xaramudi. Com uma nica diferena: o pau-de-fileira no era inclinado, e os cmodos eram assimtricos. 
O lado da entrada, que dava para o rio, era quase vertical, o lado oposto se inclinava para ele num ngulo agudo. As extremidades eram fechadas, mas podiam ser erguidas, 
como toldos.
    Saram para pr as esteiras no telhado, prendendo-as com folhas das tabuas, alongadas e duras. Havia duas goteiras mais altas difceis de alcanar mesmo com 
toda a altura de Jondalar e achavam que a estrutura no suportaria o peso deles, se nela subissem. Decidiram entrar e imaginar um meio de fix-los de algum modo. 
No ltimo momento, lembraram-se de encher uma bolsa e algumas tigelas com gua para beberem e cozinhar. Quando Jondalar fechou uma das goteiras com a mo, ocorreu-lhes 
prender o remendo por dentro.
    Taparam depois a porta com o couro de mamute. Ayla correu ento os olhos pelo interior, iluminado agora s pela fogueira, que comeava a aquecer o aposento, 
e achou a casa aconchegante. A chuva estava agora longe deles. Tinham um lugar quente e seco para dormir, embora houvesse um certo vapor no ar, das coisas que secavam, 
e no houvesse buraco no teto para a fumaa naquele abrigo de vero. A fumaa saa habitualmente pelas paredes no-estanques e pelo teto, ou pela parte superior 
das paredes deixadas abertas no tempo de calor. A palha seca e os canios tinham inchado com a umidade, e o fumo tinha dificuldade em sair. Comeava a acumular-se 
ao longo do pau-de-fileira, no teto.
    Embora cavalos em geral estejam acostumados ao relento e, de regra, prefiram dormir a cu aberto, Huiin e Racer tinham sido criados com gente e estavam habituados 
a habitaes humanas, mesmo fumacentas e escuras. Ficaram no fundo, onde Ayla decidira que era o melhor lugar para eles, e pareciam contentes de estar ao abrigo 
da chuva. Ayla ps pedras de cozinhar no fogo. Depois, ela e Jondalar friccionaram os cavalos e Lobo, para sec-los.
    Abriram, em seguida, os embrulhos, para ver se alguma coisa se estragara com o excesso de umidade. Acharam roupas secas e se trocaram. Depois sentaram-se junto 
do fogo para tomar um ch quente, enquanto preparavam uma sopa  base da comida compactada. Quando a fumaa no teto ficou excessiva, fizeram buracos de um lado e 
de outro no alto das paredes, o que limpou o ambiente e lhes deu mais um pouco de claridade.
    Sentiam-se contentes por poderem descansar. No sabiam at ento o quanto estavam exaustos. Antes de escurecer de todo, homem e mulher se meteram nas suas peles, 
um tanto midas ainda, infelizmente. Mas, por mais fatigado que estivesse, Jondalar no conseguiu dormir. Lembrava-se  da ltima vez que tinha enfrentado aquele 
rpido e traioeiro rio chamado da Irm, e, na treva, tremeu de pavor ante a perspectiva de atravess-lo com a mulher amada.

21
___________________________________________________________________________

    Ayla e Jondalar ficaram no acampamento abandonado todo o dia seguinte, e mais um. Na  manh do terceiro dia, a chuva, finalmente, amainou. A cobertura de nuvens, 
pesada e plmbea, se fendeu e,  tarde, o sol brilhou nos retalhos de cu azul alinhavados entre nuvens brancas, lanudas  carneirinhos. Um vento forte e caprichoso 
soprava ora de uma direo, ora de outra, como se estivesse experimentando diferentes posies, incapaz de decidir de uma vez por todas qual delas servia melhor 
para a ocasio.
    As coisas deles tinham secado, na maior parte, mas eles abriam assim mesmo os dois lados do alojamento para que o ar acabasse de secar as peas mais grossas 
e pesadas. Alguns dos itens de couro tinham endurecido. Precisavam ser esticados e alisados. Mas talvez o uso bastasse para endireit-los e amaci-los outra vez. 
Estavam, porm, essencialmente intactos. J com as cestas de bagagem a coisa era muito diferente. Haviam perdido a forma secando, estavam pudas em diversos lugares, 
e bolorentas. O mofo amolecera a palha, e com o peso do contedo elas tinham ficado bambas. Muitas fibras tinham saltado para fora ou partido.
    Ayla concluiu que tinha de tecer novas, embora os capins secos, as plantas e rvores do outono no fossem o material mais forte ou mais indicado. Quando tratou 
do assunto com Jondalar, ele levantou outro problema.
            Essas cestas de bagagem me aborrecem h muito tempo, de qualquer maneira. Toda vez que atravessamos um rio mais profundo, em que os cavalos tm de nadar, 
as cestas ficam molhadas se no as retiramos antes. Com o barco e os mastros a situao melhorou. Podamos pr as cestas no barco. Enquanto estivermos em campo aberto 
no ser difcil arrast-las. Muito do caminho que temos pela frente  de pastagens, mas haver florestas e terreno acidentado. A, como h pouco, na montanha talvez 
seja complicado levar a reboque barco e mastros. Se decidirmos abandon-los, precisamos de cestas mais rasas, que no fiquem com o fundo molhado. Voc pode fazer 
cestas assim?
    Foi a vez de Ayla franzir o cenho e ponderar.
     Voc tem razo, as cestas ficam molhadas. Quando as teci, no tinha de atravessar muitos rios, e os que atravessei no eram fundos  De testa enrugada devido 
ao esforo da concentrao, Ayla se lembrou da alcofa que inventara.
     Eu no usava balaios no comeo. Da primeira vez que quis que Huiin levasse alguma coisa s costas fiz um cesto grande, achatado flexvel. Talvez possa tecer 
coisa semelhante agora. Seria mais fcil se no montssemos, mas isso...  Ayla fechou os olhos, procurando visualizar a ideia que comeava a acudir-lhe.  Talvez... 
eu pudesse fazer cestas de bagagem que pudessem ser postas no lombo dos cavalos cada vez que tivssemos de entrar na gua. No, isso no funcionar se estivermos 
cavalgando ao mesmo tempo... mas... eu poderia fazer algo para que os cavalos levassem na garupa, atrs de ns.  E, olhando agora para Jondalar:  Sim, acho que 
sou capaz de fazer cestas praticveis.
    Apanharam folhas de juncos e tbuas, vimes, razes finas, compridas, de espruce, enfim, tudo o que Ayla julgou poder usar como material para cestos ou como cordame 
para construir tranados para o transporte de carga.
    Tentando diversas abordagens e experimentando os cestos que iam fazendo em Huiin, Ayla e Jondalar trabalharam nesse projeto o dia inteiro. No fim da tarde tinham 
pronto um cesto-cargueiro peneiriforme, de tamanho suficiente para conter os pertences de Ayla e seu material de viagem, e que podia ser levado  garupa de Huiin 
com a mulher na sela. Ficaria razoavelmente seco se a gua tivesse de nadar. Aprovado o modelo, comearam a fazer outro igual para Racer. Fizeram o segundo cesto 
muito mais depressa, pois j conheciam, estavam com prtica.
     noite, o vento encorpou e mudou de direo. Era agora vento do norte, ou aquilo, que logo soprou as nuvens todas para o sul. Quando o crepsculo se transmudou 
em noite, o cu estava limpo, mas esfriara muito. Como pretendiam partir ao raiar do dia, resolveram fazer logo uma reviso das suas coisas de modo a aliviar a carga. 
Os cestos antigos eram maiores e tudo ficou apertado nas alcofas. Por mais que tentassem diversos arranjos, a carga simplesmente no cabia toda nos cestos novos. 
Tinham de abandonar alguma coisa  e espalharam no cho tudo o que ambos carregavam.
    Ayla apontou a placa de marfim em que Talut gravara o mapa da primeira parte da viagem.
     No precisamos mais disso. A terra de Talut j ficou para trs h muito tempo.
     Tem razo. No precisamos, mas estou com muita pena de deixar isso  disse Jondalar.  Seria interessante mostrar, em casa, a espcie de mapa que os Mamuti 
fazem. Alm do mais, isso me lembra Talut.
    Ayla concordou.
            Bem, se voc acha que tem espao para ele, leve-o. Mas essencial no .
    Jondalar correu os olhos pelas coisas de Ayla e apanhou o pacote fechado e misterioso que j notara antes.
     E isso, o que ?
     Um a coisa que fiz no inverno passado  disse, tirando-o das mos dele e desviando o rosto, porque havia corado muito. Ps o pacote atrs das costas, enfiando-o 
na pilha do que ia levar.  Vou deixar toda a minha roupa de vero. Est manchada e gasta, de qualquer maneira, e vou usar as de inverno, isso me d uma certa folga.
    Jondalar a fitou de maneira penetrante, mas no fez qualquer comentrio. Estava frio quando acordaram, na manh seguinte. A respirao deles era visvel no ar. 
Vestiram-se rapidamente e, depois de acender o fogo para uma apressada xcara de ch, desfizeram o leito, aflitos para partir. Mas quando saram, pararam, surpresos.
    Uma fina camada de geada transformara as colinas circundantes que cintilavam ao forte sol da manh com incrvel nitidez.  medida que o gelo derretia, cada gota 
d'gua se convertia num prisma e refletia um  diminuto arco-ris, numa pequena exploso de cores  vermelho, verde, ouro, azul  que se transmudavam umas nas outras 
quando eles se moviam e viam o espectro de um ngulo diferente. A beleza dessas efmeras jias da geada era, porm, um lembrete de que a estao do calor no passava 
de um brilho fugaz de cor num mundo dominado pelo inverno. O vero, curto e quente, acabara.
    Quando ficaram prontos para sair, Ayla lanou um ltimo olhar ao acampamento que fora para eles um refgio to bem-vindo. Estava mais dilapidado ainda, porque 
eles tinham arrancado material dos abrigos menores para alimentar sua fogueira. Mas aquelas frgeis construes temporrias no tinham muito futuro, de qualquer 
maneira. Ela estava grata por haverem encontrado o acampamento quando tanto precisavam dele.
    Rumaram para oeste, em direo ao Rio da Irm. Desceram uma encosta at outro terrao, mais abaixo. Estavam ainda em terreno suficientemente alto para ver as 
vastas pastagens da Sibria na outra margem do turbulento rio de que se aproximavam. Aquele belvedere lhes dava uma viso em perspectiva da regio bem como da extenso
da plancie aluvial que tinham pela frente. A terra, que em tempo de enchente ficava submersa, era de cerca de 25km2 , dos quais a maior parte na margem oposta.
Os contrafortes da montanha do lado em que estavam limitavam a expanso normal da inundao, embora houvesse elevaes, colinas e penhasco tambm do outro lado do
Rio da Irm.
    Em contraste com as pastagens, a plancie aluvial era um imenso deserto de brejos, laguinhos, matas, e cerrado sujo que o rio atravessava. espumejante. Se bem
que no tivesse meandros, lembrou a Ayla o tremendo delta do Rio da Grande Me, em menor escala. Os salgueiros e a macega sazonal, que pareciam brotar direto da 
gua ao longo das bordas da veloz correnteza, indicavam tanto a amplitude da enchente causada pelas ltimas chuvas quanto a grande poro de terra j apropriada 
pelo rio.
    A ateno de Ayla foi desviada da paisagem quando Huiin perdeu o p: seu cascos tinham afundado em areia. As pequenas torrentes que tinham cortado os terraos 
antigos acabaram transformadas em leitos de rio profundamente escavados entre dunas movedias de marga arenosa. Os cavalos tropeavam na sua progresso, levantando 
a cada passo esguichos de solo fofo, desagregado, rico em clcio.
    No fim da tarde, com o sol poente quase cegante de intensidade o homem e a mulher, protegendo os olhos com as mos, procuraram um lugar conveniente para acampar. 
 medida que se aproximavam da plancie aluvial notaram que a areia fina e solta mudava ligeiramente de carter. Como nos terraos superiores, ela era, primariamente, 
loess, criado pela ao triturante da geleira e depositado pelo vento como partculas finssimas  mas, ocasionalmente, o rio, cheio, atingia o nvel dos terraos. 
O sedimento argiloso e amarelo acrescentado, assim, ao solo, endurecia e estabilizava o terreno. Quando Ayla e Jondalar comearam a ver capins de tipo conhecido, 
comuns na estepe, crescendo s margens do rio que acompanhavam, um dos muitos que desciam velozmente da montanha e corriam para o Rio da Irm, resolveram parar.
    Depois de armarem a barraca, foram em diferentes direes  caa de material para o jantar. Ayla, que se fizera acompanhar de Lobo, logo fez com que um pequeno 
bando de ptrmigas levantasse vo. Lobo se precipitou em cima de uma enquanto Ayla derrubava com a funda uma outra que julgara haver alcanado a segurana do cu. 
Pensou por um momento em deixar para o lobo a ave que pegara, mas quando o animal ofereceu resistncia, mudou de ideia. Uma das presas teria bastado para ela e Jondalar, 
mas Lobo devia compreender que, se necessrio, tinha de dividir o que caava com seus donos. Ningum podia prever o que viria mais adiante.
    Ela no pensou tudo isso ordenadamente naquele momento, mas o ar frio a alertara para o fato de que iam viajar durante a estao fria por uma regio desconhecida. 
Os grupos com que estava familiarizada, o Cl e os Mamuti, raramente se afastavam muito do lugar onde moravam nos severos invernos glaciais. Instalavam-se ao abrigo 
do frio e das tempestades de neve, comendo os vveres que tinham armazenado. A ideia de viajar no inverno afligia Ayla.
    Jondalar acertara uma grande lebre com sua lana e, de comum acordo, decidiram reservar para consumo em outra ocasio. Ayla teria gostado de assar as aves no 
espeto, mas estavam em plena estepe, junto de um curso d'gua, com vegetao rala  volta. Ela achou duas galhadas de veado, desiguais no tamanho e, obviamente, 
oriundas de diferentes animais, que se teriam descartado delas no ano anterior. Era muito mais difcil partir osso que madeira, mas ajudada por Jondalar, com afiadas 
facas de slex e a pequena machadinha que ele levava sempre enfiada no cinto, conseguiram quebr-las. Ayla usou um pedao para trespassar as ptrmigas, e as pontas 
serviram de forquilhas para sustentar o espeto. Depois de tanto esforo, pensou que deveria guardar o material para emprego ulterior, principalmente porque osso 
no pega fogo com facilidade.
    Ayla serviu um bom pedao de carne a Lobo, junto com uma poro de razes de junto que ela extrara de uma vala junto do rio e de cogumelos do prado que reconhecera 
como comestveis e saborosos. Depois da refeio da noite, sentaram-se junto do fogo e ficaram contemplando o cu, que escurecia. Os dias eram cada vez mais curtos, 
agora, e eles no ficavam to cansados  noite, sobretudo por ser muito mais fcil cavalgar no plano.
     As aves estavam deliciosas  disse Jondalar.  Gosto da pele bem tostada, como voc fez.
     Nesta poca do ano, quando elas esto gordas e bonitas,  a melhor maneira de prepar-las  disse Ayla.  As penas j esto mudando de cor, e o peito est 
cheio delas. Dariam um bom enchimento para alguma coisa. Penas de ptrmiga so ideais para colches e travesseiros por serem macias e quentes, mas no temos espao 
na bagagem.
     Para o ano, talvez, Ayla. Os Zelandonii tambm caam ptrmigas  disse Jondalar, visando anim-la um pouco. Aquilo fazia com que a ela apetecesse o termino 
da viagem.
            Ptrmiga era a iguaria preferida de Creb  disse ela.
    Jondalar sentiu na voz dela que estava triste. E quando Ayla no disse mais nada, ele cominou falando, a ver se a distraa.
            H uma espcie de ptrmiga, no na nossa rea de Cavernas, mas para o sul, que no fica branca no inverno. Guarda o ano todo a mesma cor, o mesmo aspecto 
e o mesmo gosto que tem no vero. As pessoas que vivem por l a chamam de tetraz-vermelho, e enfeitam toucados e roupas com suas penas. Fazem, inclusive, fantasias 
para a cerimnia do Tetraz-Vermelho, e danam imitando os movimentos da ave, batendo com os ps e tudo, como fazem os machos quando querem conquistar as fmeas. 
 parte do seu Festival da Me.  Jondalar fez uma pausa, mas vendo que ela ainda no tinha comentrio a fazer, continuou.
            Caam as aves com redes, e apanham muitas ao mesmo tempo.
            Derrubei uma dessas com a minha funda, mas foi Lobo quem pegou a outra  disse Ayla.
    E como no dissesse mais nada, Jondalar achou que ela no estava mesmo com vontade de falar, e ficaram sentados por algum tempo em silncio, vendo o fogo queimar
capim e bosta, que secara suficientemente depois da chuva para arder. Por fim, ela disse mais alguma coisa.
            Voc se lembra do basto de arremesso de Brecie? Quisera eu saber como se usa uma arma dessas. Brecie conseguia derrubar vrios pssaros de uma vez
com ela.
    A noite refrescou rapidamente, e eles se rejubilaram de ter uma barraca. Embora Ayla continuasse calada, o que no era habitual, triste, a relembrar coisas, 
reagiu com calor ao toque dele, e Jondalar logo deixou de atormentar-se com o silncio dela.
    De manh, o ar estava frio, e a umidade condensada de novo revestira a terra de um brilho fantasmagrico de geada. A gua do riacho estava gelada, mas revigorante 
quando eles a usaram para lavar-se. Tinham enterrado a lebre de Jondalar, envolta na sua prpria pele, com pelos e tudo, para que cozinhasse debaixo das cinzas quentes 
do borralho durante a noite. Quando retiraram o invlucro enegrecido, viram que a espessa camada de gordura logo debaixo dela regara a carne, muitas vezes magra 
e fibrosa. E o fato de ter ficado na sua capa natural tornou-a molhada e tenra. Era a melhor poca do ano para caar aqueles animais de orelhas compridas.
    Cavalgaram lado a lado atravs do capim alto e maduro, sem pressa, mas num ritmo vivo e regular, conversando ocasionalmente. A caa mida abundava com a aproximao 
do Rio da Irm, mas os nicos animais grandes que viram a manh toda estavam longe e na outra margem do rio: um pequeno bando de mamutes, que iam para o norte. Quando 
o dia estava mais avanado, viram um bando misturado de cavalos e saigas, tambm na margem oposta. Huiin e Racer deram mostras de haver tomado conhecimento dos animais.
     O totem de Iza era o Saiga  disse Ayla.  Um totem muito poderoso para uma mulher. Mais forte, at, que o totem original de Creb, o cabrito-monts. Naturalmente, 
o Urso das Cavernas o escolhera e era seu totem secundrio antes que ele se tornasse Mog-ur.
     Mas seu totem, Ayla,  o Leo das Cavernas, animal muito mais poderoso que um antlope saiga  disse Jondalar.
     Eu sei.  um totem de homem, um totem de caador. Foi por esse fato que eles custaram tanto a acreditar. S de primeiro, porm  disse Ayla.  Eu, a rigor, 
no me lembro, mas Iza me contou que Brun chegou a ficar zangado com Creb quando Creb o anunciou na minha cerimnia de adoo. E foi por isso que todo mundo ficou 
certo de que eu jamais teria filhos. Nenhum homem tinha totem capaz de superar o meu, capaz de derrotar o Leo das Cavernas. Foi uma surpresa geral quando fiquei 
grvida de Dure, e estou certa de que foi Broud quem deu incio ao beb, quando me forou.  Ela enrugou a testa com a lembrana desagradvel.  E se espritos de 
totem tm alguma coisa a ver com a origem de crianas, o totem de Broud era o Rinoceronte lanudo. Lembro-me de ter ouvido contar pelos caadores da caverna de um 
rinoceronte desses que matou um leo das cavernas, de modo que eles podem fazer isso e, como Broud, podem ser perversos.
     Rinocerontes lanudos so imprevisveis e podem ser bravios  disse Jondalar.  Thonolan levou uma chifrada de um no muito longe daqui. E teria morrido se 
os Xaramudi no nos tivessem encontrado.  Jondalar fechou os olhos com aquela lembrana penosa e se deixou levar por Racer. Ele e Ayla no disseram mais nada por 
algum tempo. Depois, o homem perguntou.
     Todo mundo no Cl tem um totem?
            Sim, tem  respondeu Ayla.  Um totem  um guia, d proteo. O mog-ur de cada cl descobre o totem de todo beb que nasce, e j no primeiro ano de 
vida, em geral. Ele d  criana um amuleto, com um fragmento da pedra vermelha dentro, na cerimnia totmica. O amuleto e a residncia do esprito do totem.
     Como o doni  uma rea de repouso para o esprito da Me.  isso?  Perguntou Jondalar.
     Deve ser, acho eu, mas um totem protege sua pessoa, no sua casa, embora seja melhor para voc morar numa rea com que esteja familiarizado. Voc tem de levar 
o amuleto junto o tempo todo.  graas a ele que o esprito do seu totem o reconhece. Creb me disse que o esprito do meu Leo das Cavernas no seria capaz de encontrar-me 
se eu no o portasse. Eu perderia a proteo dele. Creb disse, at, que se eu perdesse algum dia o amuleto, morreria.
    Jondalar no havia compreendido at ento todas as implicaes do amuleto de Ayla, com o qual ela se preocupava tanto. Muitas vezes pensara que ela levava essa 
preocupao longe demais. Raras vezes o ti do pescoo, exceto para tomar banho ou nadar, e por vezes nem mesmo nessas ocasies. Ele imaginara que era um modo de 
sentir-se ligada  sua infncia, e esperando que algum dia ela viesse a superar isso. Agora via que a ligao era mais sria. Se um homem de grandes poderes mgicos 
desse a ele, Jondalar, alguma coisa dizendo-lhe que morreria se a perdesse, ento ele tambm cuidaria bem do objeto. Jondalar j no duvidava que o feiticeiro do 
Cl, que criara Ayla, tivesse mesmo grande poder derivado do mundo dos espritos.
     O amuleto  tambm importante para indicar, por sinais do totem, que deciso tomar em momentos importantes da vida da gente  continuou Ayla. Uma ansiedade 
que a vinha aborrecendo havia algum tempo de sbito a assaltou com maior fora. Por que o totem no lhe dera um sinal que confirmasse o acerto da deciso por ela 
tomada de ir com Jondalar para o povo dele? No achara nada que pudesse interpretar como aprovao do totem desde que tinham deixado os Mamuti.
     Poucos Zelandonii tm totens pessoais  disse Jondalar. Os que os tm so tidos por afortunados. Willomar tem um.
            Willomar  o companheiro de sua me?  perguntou Ayla.
            Sim. Rhonolan e Folara nasceram no lar dele, e ele sempre me tratou como se eu tambm fosse seu.
            Qual o totem de Willomar?
     A guia-Real. Conta-se que quando ele era ainda um beb, uma guia-real deu um mergulho no ar e o apanhou, mas a me segurou o menino antes que lhe fosse arrebatado. 
Ele ainda traz as marcas das garras no peito. O zelandoni deles disse que a guia o identificara como pertencendo a ela e fora busc-lo. Foi assim que ficaram sabendo 
qual o totem do beb. Marthona acha que  por isso que ele gosta tanto de viajar. Ele no pode voar como a guia, mas sente a necessidade de conhecer a terra.
     , sem dvida, um totem poderoso, como o Leo das Cavernas ou o Urso das Cavernas  comentou Ayla.  Creb sempre dizia que no  fcil viver com um totem assim 
to forte, e  verdade, mas fui cumulada de dons. Foi ele, inclusive, quem me mandou voc. Penso que tenho tido muita sorte. Espero que ele lhe d sorte tambm, 
Jondalar. Ele totem agora.
    Jondalar sorriu.
            Voc j me disse isso.
            O Leo das Cavernas o escolheu, e voc tem as cicatrizes para prov-lo. Foi marcado, exatamente como Willomar, pelo seu totem.
    Jondalar ficou pensativo por um bom momento.
            Talvez voc tenha razo. Eu no havia pensado nisso desse modo.
    Lobo, que andara explorando as redondezas, apareceu. Latiu para chamar a ateno de Ayla, depois alinhou-se com Huiin. A mulher observou-o. Tinha a lngua pendente 
da boca, de lado, as orelhas espetadas para cima, e andava no passo comum dos lobos, um trote que no cansa. O capim alto o escondia da vista de vez em quando. Parecia 
feliz e alerta. Adorava correr assim, livremente, explorando o terreno. Mas sempre retornava, o que era uma alegria para ela. Cavalgar com o homem e o cavalo a seu
lado tambm a alegrava.
     Vendo como voc fala dele sempre, acho que seu irmo deve ter sido parecido com o homem da casa  disse Ayla.  Entendo que Thonolan tambm gostava muito de
viajar. Ele se parecia fisicamente com Willomar?
            Sim, mas no tanto quanto eu me pareo com Dalamar. Todo mundo nota logo isso. Thonolan se parecia muito mais com Marthona  disse Jondalar, sorrindo. 
 No foi escolhido por uma guia, de modo que no h explicao para seu mpeto de viajar.  O sorriso se apagou.  As cicatrizes de meu irmo foram as daquele 
imprevisvel rinoceronte lanudo.  Deixou-se ficar pensativo por algum tempo. Por fim, disse:  Thonolan podia ser tambm imprevisvel. Deveria isso ao seu totem? 
O Rinoceronte no lhe deu muita sorte, embora os Xaramudi nos tivessem encontrado, e eu nunca o tivesse visto antes to feliz quanto depois que conheceu Jetamio.
     No acho que o Rinoceronte lanudo seja um totem de sorte  disse Ayla.  J o Leo das Cavernas certamente . Quando ele me escolheu, deu-me, at, as mesmas 
marcas que o Cl usa para um totem de Leo das Cavernas, de modo que isso no poderia passar despercebido para um homem como Creb. As suas cicatrizes, Jondalar, 
no correspondem a marcas de Cl, mas so ntidas: voc foi marcado por um Leo das Cavernas.
     Ah, sim. No h a menor dvida. Tenho as cicatrizes que provam que fui marcado pelo seu leo, Ayla.
     Acho que o esprito do Leo das Cavernas elegeu voc, de modo que o esprito do seu totem ficasse suficientemente forte para enfrentar o meu, de modo que algum 
dia eu possa ter filhos de voc  disse Ayla.
            Pensei que voc dissera que era um homem que iniciava um beb no ventre de uma mulher, no os espritos  disse Jondalar.
      um homem, mas talvez os espritos tenham de ajudar, de alguma forma. Uma vez que tenho totem to forte, o homem que cruzar comigo precisa ter uma fora equivalente. 
Talvez a Me tenha dito ao Leo das Cavernas para escolher voc, de modo a fazermos bebs juntos.
    Cavalgaram em silncio outra vez, cada um imerso nos prprios pensamentos. Ayla imaginava um beb parecido com Jondalar. Uma menina No tinha sorte com meninos, 
ao que parecia. Talvez conseguisse criar uma fmea.
    Jondalar tambm pensava em filhos. Se era verdade que um homem dava incio a um beb com seu membro, eles dois tinham certamente dado a um beb todas as chances 
possveis de comear a crescer. Por que, ento, Ayla no estava grvida?
    E Serenio? Estaria ela esperando um beb quando parti?, pensava. Alegra-me que ela tenha encontrado algum com quem possa ser feliz. Mas  uma pena que no tenha 
dito nada a Roshario. Haver alguma criana no mundo que tenha uma parte minha? Jondalar ficou pensando nas mulheres que conhecera. Lembrou-se de Noria, do povo 
Haduma, com a qual partilhara Ritos de Iniciao. Tanto Noria quanto o velho Haduma em pessoa se haviam mostrado convencidos de que o esprito de Jondalar entrara 
no corpo de Noria e que ela concebera. Deveria, ento partir um filho de olhos azuis como os dele. Chamar-se-ia Jondal. Mas seria verdade, tudo isso? Teria mesmo 
o seu esprito dado partida a um novo ser em combinao com o esprito de Noria?
    O povo Haduma no vivia to longe, e sua rea ficava na direo certa, para norte e para oeste. Talvez pudessem parar para uma visita S que, como de sbito 
se deu conta, ele no sabia exatamente como encontrar os Haduma. Eles tinham ido at onde ele e Thonolan estavam acampados. Sabia que as cavernas deles no ficavam 
a oeste do Rio da Irm, mas sim a oeste do Rio da Grande Me. Mas no sabia bem em que altura. Lembrou-se de uma coisa: costumavam caar naquela estreita mesopotmia, 
mas isso, a rigor, ajudava pouco. Ele provavelmente jamais ficaria sabendo se Noria tivera aquele filho.
    Os pensamentos de Avia, que tinham girado, de comeo, na necessidade de esperar o fim da viagem antes de comear a fazer crianas, evoluram para o povo dele: 
como seria o povo de Jondalar? Seria bem aceita? Ficara mais confiante um pouco depois do encontro com os Xaramudi. Havia um lugar para ela em alguma parte. Mas 
haveria com os Zelandonii? Lembrava-se de que Jondalar reagira com revulso ao saber que ela fora criada pelo Cl. Lembrava-se tambm do estranho comportamento dele 
no ltimo inverno, quando viviam com os Mamuti.
    Rance linha alguma coisa a ver com isso. Ela ficou sabendo da histria antes de partir com Jondalar, mas no compreendera tudo muito bem de comeo. Cimes no 
eram parte da sua criao. Mesmo que sentissem esse tipo de emoo, os homens do Cl jamais demonstrariam cume de uma mulher. Mas parte daquele comportamento estranho 
de Jondalar tinha razes na sua preocupao com a reao que seu povo teria quando ele se apresentasse com ela. Sabia agora que, embora a amasse, ele sentia vergonha 
do seu passado na pennsula. Sentia vergonha, sobretudo, do filho dela.  verdade que nos ltimos tempos ele no mais demonstrava tais sentimentos. Ele a protegeu 
e pareceu  vontade com o background dela no Cl quando o assunto foi levantado no acampamento Xaramudi, mas devia ter algum motivo srio para sentir-se daquela 
maneira estranha nos primeiros tempos do seu relacionamento com ela.
    Bem, ela amava Jondalar e desejava viver com ele. Alm disso, era tarde demais para mudar a deciso tomada. Esperava ter agido certo desejava que o seu totem, 
o Leo das Cavernas, lhe desse um sinal de aprovao, mas nenhum parecia  vista.
    Quando os viajantes se aproximaram da grande extenso alagado e turbulenta da confluncia do Rio da Irm com o da Grande Me, as margens soltas, fragmentadas 
dos terraos superiores  areias e argilas ricas em Clcio  deram lugar a solos de cascalhos e loess nos nveis mais baixos.
    Naquele mundo do cenozico, as cristas das montanhas alimentavam torrentes e rios na estao mais quente com guas da fuso do gelo. Para o fim do vero, com 
a adio das pesadas chuvas acumuladas como neve nas elevaes mais altas, e que mudanas de temperatura podiam libertar, subitamente, as torrentes aumentavam e 
a inundao se generalizava, na plancie aluvial. Sem lagos na vertente ocidental da cordilheira para recolher esse dilvio crescente num reservatrio natural e 
distribuir aqueles excessos de precipitao ordenadamente, tudo aquilo caa montanha abaixo em catadupa, arrastando areia, pedras, fragmentos de arenito, calcrios 
e argilas xistosas das montanhas, que eram carregados pelo rio caudaloso e depositados nos leitos e na plancie aluvial.
    As plancies centrais, outrora fundo de um mar interior, ocupavam agora uma bacia entre duas cadeias macias de montanhas, a leste e oeste, e entre altiplanos 
ao norte e ao sul Quase igual em volume de gua borbulhante ao Rio da Grande Me, nas proximidades da confluncia, o Rio da Irm, crescido, recolhia a drenagem de
uma parte da plancie e de toda a vertente ocidental da cadeia de montanhas que se encurvava num gigantesco arco para noroeste. O Rio da Irm corria pela calha mais
profunda da bacia para entregar sua oferenda de guas da inundao  Grande Me dos rios, mas sua corrente, engrossada e encapelada, reflua devido ao nvel mais 
alto das guas do Rio da Grande Me, j inteiramente cheio. Obrigada a refluir sobre si mesma, ela dissipava seu ofertrio num vrtice de contracorrentes e num alagamento 
destrutivo das guas da cheia.
    Perto do meio-dia, o homem e a mulher se aproximaram do grande charco selvagem, formado pela vegetao arbustiva j coberta a meio pela enchente e por formaes 
ocasionais de rvores com gua pela cintura. Ayla achou que a semelhana daquele lugar com o vasto delta da foz do Rio da Grande Me era maior de perto que de longe, 
com uma diferena apenas: as correntes e contracorrentes dos afluentes eram, aqui, verdadeiros turbilhes. Com o tempo muito mais frio, os insetos aborreciam menos, 
mas as carcaas inchadas de animais devorados ao meio e apodrecidos atraam um certo nmero dessas pragas. Para o sul, um macio, com vertentes densamente revestidas 
de mata, se erguia inesperadamente, sado da neblina prpura dos numerosos remoinhos.
     Estas devem ser as Colinas Arborizadas de que Carlono nos falou  disse Ayla.
     Sim, mas so muito mais que colinas  disse Jondalar.  So mais elevadas do que voc imagina, e cobrem uma rea muito extensa. O Rio da Grande Me corre para 
o sul at aquela barreira. E essas colinas desviam o Rio da Grande Me para leste.
    Costearam uma grande piscina natural de guas tranquilas, um remanso milagrosamente separado das correntezas, e se detiveram no ngulo mais oriental do rio intumescido, 
um pouco acima do Ponto de confluncia. Quando Ayla lanou os olhos para a margem oposta por cima da forte correnteza, comeou a entender o que Jondalar queria dizer 
com a dificuldade de atravessar o Rio da Irm.
    As guas barrentas, regirando em torno dos delgados troncos de salgueiros e btulas, arrancavam as rvores cujas razes no estavam seguramente ancoradas no 
solo das ilhas rasas, que s apareciam  tona na estao seca e pareciam, ento, rodeadas de canais. Muitas dessas rvores eram visveis, debruadas em ngulos precrios 
sobre o leito do rio. Inmeros eram os galhos nus e troncos de rvores arrancados de florestas mais acima no rio, encalhados na lama das margens ou deixados rodopiando, 
nos muitos redemoinhos da corrente.
    Em silncio, Ayla refletiu como conseguiriam atravessar um rio como aquele.
            Onde voc acha que devemos passar, Jondalar?
    Jondalar desejou que o grande barco Ramudi que havia recolhido a ele e a Thonolan alguns anos antes surgisse de repente para lev-los para o outro lado. A lembrana 
do irmo deu-lhe de novo uma dolorosa pontada de mgoa. Teve tambm, de sbito, uma aguda preocupao com a segurana de Ayla.
      bvio que aqui no podemos atravessar. Eu no sabia que o rio ficaria to ruim assim, em to pouco tempo. Temos de subir mais e procurar um ponto mais favorvel. 
S espero que no chova antes que o encontremos! Outra tempestade como a ltima, e toda esta plancie ficar debaixo d'gua. No  de admirar que aquele acampamento 
de vero estivesse abandonado.
     Este rio no deveria encher tanto, no  mesmo?  disse Ayla, arregalando os olhos.
     Eu no imaginava que enchesse to cedo, mas ele  capaz de fazer isso. Toda aquela gua que desce da montanha vem dar aqui. Alem disso, uma precipitao abundante 
e repentina pode muito bem descer por aquele riacho que passa ao lado do acampamento. Acho que no temos muito tempo, Ayla. Este no  um lugar seguro se recomear 
a chover  disse Jondalar, olhando para o cu. Em seguida, ps a montaria a galope. Foram, os dois, to rpido, que Lobo teve dificuldade em acompanh-los. Depois 
de algum tempo, diminuram a marcha, mas sem voltar ao ritmo descansado que vinham mantendo antes.
    De tempos em tempos, Jondalar parava para estudar o rio e a margem oposta, antes de prosseguir rumo norte, sempre olhando para o cu com ansiedade. O rio parecia 
mais estreito em alguns lugares e mais largo em outros, mas era to cheio e vasto que no podiam saber ao certo. Cavalgaram at quase o escurecer sem encontrar um 
lugar em que fosse possvel passar a vau  nem vau de orelha, nem vau de rabo. Jondalar insistiu em pernoitar em lugar elevado, e s pararam quando j estava escura 
demais para viajar a salvo.
     Ayla! Ayla! Acorde!  disse Jondalar, sacudindo-a delicadamente.  Temos de ir embora.
     O qu? Jondalar! O que aconteceu?
    Ela costumava acordar antes dele, e ficou atrapalhada de ser despertada to cedo. Quando saiu das cobertas, porm, sentiu logo na pele uma brisa fria e viu que 
a barraca estava entreaberta. Podia ver, l fora, a radincia difusa de nuvens que passavam. A luz que vinha da fresta era a nica iluminao da barraca, e no podia 
ver direito o rosto de Jondalar naquela meia claridade opalescente, mas sentiu que ele estava angustiado e teve um arrepio de temor.
     Temos de sair daqui  disse Jondalar. Ele mal dormira a noite toda. No seria capaz de dizer exatamente por que sentia que tinham de atravessar o rio o mais 
depressa possvel, mas esse sentimento era to forte que lhe dava um n de medo na boca do estmago. No por ele mesmo, mas por Ayla.
    Ela se levantou sem perguntar mais nada. Sabia que ele no a teria chamado se no pensasse que a situao era crtica. Vestiu-se rapidamente, depois tirou o
material de fazer fogo.
            No vamos perder tempo fazendo fogo esta manh  disse Jondalar.
    Ela franziu a testa, mas serviu apenas gua fria. E empacotaram as coisas comendo bolos de viagem. Quando ficaram prontos, Ayla chamou Lobo, mas ele no estava
no acampamento.
            Por onde andar Lobo?  perguntou, com um certo desespero na voz.
            Provavelmente caando. Mas ele nos alcana. Sempre alcanou.
     Vou assoviar  disse ela. E soltou, no ar da madrugada, o assobio caracterstico que usava para chamar o animal.
     Vamos, Ayla. Temos pressa  disse Jondalar, j com uma ponta da sua habitual impacincia com o lobo.
     No vou sem ele  disse Ayla, assoviando mais forte e com maior insistncia.
     Temos de encontrar um vau antes que a chuva comece. Ou no conseguiremos passar  disse Jondalar.
     No podemos continuar subindo o rio? Ele tende a estreitar-se, no?  argumentou ela.
     Quando a chuva se desencadear ele apenas ficar cada vez mais largo. Mesmo nas cabeceiras estar mais caudaloso do que est agora, e no sabemos que espcie 
de afluentes estar recebendo das montanhas mais acima. Podemos ser facilmente apanhados por uma inundao de surpresa. Dolando disse que elas so comuns. Podemos 
tambm ser detidos por um afluente intransponvel, de maior porte. O que faremos, ento? Subiremos para contornar a montanha? No. Devemos  cruzar o Rio da Irm 
enquanto podemos  disse Jondalar. Ele montou e olhou para a mulher, de p ao lado da gua, com o tren a reboque.
    Ayla virou a cabea e assoviou de novo.
     Temos de ir. Agora.
     Por que no podemos esperar mais um pouco? Lobo j deve estar vindo.
     Ele  s um animal. A sua vida  mais importante para mim que a dele.
    Ela o encarou. Seria mesmo perigoso esperar, como Jondalar dizia? Ou ele estava sendo apenas impaciente? E a vida de Jondalar, no devia ser mais importante 
para ela que que a de Lobo?
    Nesse justo momento, o animal apareceu. Ayla soutou um suspiro de alivio e se firmou nos ps porque sabia que ele ia por as patas nos seus ombros para lamber-lhe 
o queixo. Depois montou, usando um dos mastros do tren como apoio. Mandou que Lobo ficasse rente da gua e seguiu atrs de Jondalar e de Racer.
    No houve nascer do sol. O dia ficou imperceptivelmente mais claro, mas no luminoso. A cobertura de nuvens era baixa, o que emprestava ao cu um gris uniforme, 
e havia uma umidade fria no ar. Mais tarde, j com a manh avanada, Ayla fez ch para aquec-los, depois uma substanciosa sopa  base de um dos bolos compactados 
para viagem. Temperou-a com folhas de azedinha, com a fruta da silva-macha ou rosa-de-co, depois de removidas as sementinhas e os espinhos, e umas poucas folhas 
tiradas das roseiras-do-campo que cresciam por perto. Por algum tempo, ch e sopa aliviaram a aflio de Jondalar, mas logo ele viu que nuvens mais escuras se juntavam 
acima da sua cabea.
    Insistiu em que partissem imediatamente e ficou observando o cu com crescente apreenso. Vigiava tambm o rio, em busca de um lugar para a travessia. Queria 
um lugar sem torvelinhos, mais largo e raso, com uma ilha ou, at, um banco de areia entre as duas margens. Finalmente. sentindo que a tempestade no tardaria a 
cair, decidiu que tinham decorrer o risco, embora o tumultuoso Rio da Irm no se mostrasse em nada diferente naquele segmento do que nos anteriores. Sabendo que, 
com chuva, a situao se agravaria, rumou para um ponto em que a margem lhe pareceu mais praticvel. Desmontaram.
            Voc acha que devemos passar montados nos cavalos?  perguntou Jondalar, olhando, apreensivo, para o cu ameaador.
    Ayla estudou a correnteza veloz, vendo os destroos que ela arrastava. Muitas vezes eram rvores inteiras que passavam por eles, e galhos quebrados trazidos 
pelas torrentes desde o alto da montanha. Estremeceu ao ver tambm a carcaa inchada de um veado, com os chifres enganchados nos ramos de uma rvore encalhada perto 
da margem. A vista do animal f-la temer pela sorte dos cavalos.
            Ser mais fcil para eles se no estivermos montados, Jondalar. Acho que devemos nadar ao lado deles.
      o que acho tambm.
     Mas vamos precisar de cordas de apoio.
    Muniram-se de pequenos pedaos de corda, verificaram cesta e arreios, para ver se estavam seguros, a barraca, os alimentos, e seus poucos e preciosos pertences. 
Ayla libertou Huiin do tren. Seria muito perigoso para a gua nadar num rio to revolto puxando tudo aquilo. Mas tambm no queriam perder o barco e os mastros, 
se lhes fosse possvel conserv-los.
    Com isso em mente, amarraram os mastros um no outro. Depois, Jondalar prendeu uma extremidade deles no barco, e Ayla prendeu a outra no arns usado como apoio 
da alcofa que inventara. Fez um n corredio, fcil de desmanchar caso preciso. Por fim, atou uma corda bem forte na correia chata, tranada  que j passava pelo 
peito da gua e por trs das suas pernas dianteiras, e que servia para prender o cochonilho.
    Jondalar fez coisa semelhante com Racer. Depois tirou as botas e parte das roupas. As mais grossas, quando molhadas, ficariam pesadas impedindo-o de nadar. Juntou 
tudo numa trouxa e colocou sobre a alcofa da garupa, mas ficou com a tnica de baixo e as perneiras. O couro, mesmo molhado, o aqueceria. Ayla fez o mesmo.
    Os animais sentiam a aflio dos seus donos e viam com alarme a agua turva. Tinham recuado,  vista do veado morto, e marcavam passo, batendo com a cabea e 
rolando os olhos. Mas tinham as orelhas para cima e para a frente. Estavam alertas. Lobo, por seu lado, fora at a bordada da gua para farejar a carcaa, mas no 
entrara no rio.
     Como voc acha que os cavalos se portaro, Ayla?  perguntou Jondalar, quando grandes gotas espaadas de chuva comearam a cair.
     Esto nervosos, mas vo sair-se bem, principalmente por estarmos junto deles. Minha dvida  Lobo.
     No podemos carreg-lo. Ele ter de nadar tambm, por si mesmo  disse Jondalar.  Voc sabe disso.  Mas vendo a angstia de Ayla, acrescentou:  Lobo  um 
bom nadador. Ele vai conseguir.
     Espero que sim  disse ela, ajoelhando-se para dar um abrao em Lobo.
    Jondalar viu que as gotas de chuva caam agora mais depressa e que eram consideravelmente maiores.
            Vamos  disse, pegando Racer diretamente pela brida. A corda de apoio estava amarrada mais atrs. Fechou os olhos por um momento, pedindo boa sorte. 
Pensou em Doni, a Grande Me Terra, mas no se lembrou de nada que pudesse prometer-lhe em troca de ajuda. Fez apenas uma orao mental: que Ela os auxiliasse a 
atravessar o Rio da Irm. Embora soubesse que um dia haveria de encontrar a Me, no queria que isso acontecesse agora. E no queria, principalmente, perder Ayla.
    O cavalo bateu com a cabea e quis recuar quando Jondalar o conduziu para o rio.
     Vamos, Racer  disse ele.
    A gua estava fria quando envolveu seu p nu, rodopiando, e lhe cobriu as panturrilhas e as coxas. Uma vez na gua, Jondalar soltou a brida de Racer a corda 
de apoio na mo, e deixou que o forte animal achasse seu caminho.
    Ayla tambm deu vrias voltas na mo com a corda que passava pelo peito da gua, enfiou a extremidade por baixo de tudo, e fechou bem o punho. Seguiu, depois, 
atrs de Jondalar, caminhando ao lado de Huiin. Ia puxando  retaguarda a outra corda, a que estava atada aos mastro e ao barco, vendo que no se embaraassem ao 
entrar no rio.
    Sentiu a gua fria e a fora da corrente. Olhando para trs, viu que Lobo estava ainda na margem, avanando e recuando, e ganindo o tempo todo. Hesitava em entrar 
no rio. Ela o chamou, encorajando-o, mas o animal continuava a ir para a frente e para trs, medindo a distncia que o separava da mulher. De sbito, quando a chuva 
comeou, ele a sentiu e uivou. Ayla assoviou ento, e depois de algumas indecises, o lobo finalmente mergulhou e comeou a nadar em direo a ela. Ayla pde voltar 
sua ateno para a gua e para o rio  frente.
    A chuva, mais forte agora, parecia aplainar as ondas picadas, a distncia. Mas, junto dela, a gua estava mais juncada de destroos do que pensara. rvores decepadas 
e galhos soltos rodavam em torno ou batiam nela, alguns ainda com folhas, outros submersos e quase escondidos. As carcaas inchadas de animais eram o pior de tudo: 
muitas vinham rasgadas pela violncia da cheia que os colhera de repente, trazendo-os morro abaixo at o rio lamacento.
    Ela identificou diversos ratos-da-btula e ratos-calungas, dos pinheiros. Um grande esquilo foi mais difcil de reconhecer. Seu pelame cor de mel estava escuro 
e a cauda fofa e cheia ficara aplastada. Um lemingue, com longos plos brancos de inverno apontando atravs do cinza de vero, alisados, mas ainda brilhantes, mostrava 
as solas dos ps j cobertas de l alvssima. Vinha, provavelmente, de um dos patamares mais altos da montanha, junto da neve. Uma camura passou boiando, com um 
chifre quebrado, e sem plo em metade da cara. Via-se exposto o msculo rosado. Quando ela viu a carcaa de um jovem leopardo-da-neve, procurou Lobo com os olhos, 
mas inutilmente.
    Observou, porm, que a corda que a gua arrastava vinha puxando um tronco submerso alm dos mastros e do barco. O tronco, com suas razes espalmadas, atrasava 
a gua. Ayla puxou e sacudiu a corda, tentando livrar Huiin daquela carga suplementar, mas ela se soltou sozinha, de sbito, ficando preso apenas um pedao de galho. 
O que a preocupava sobremaneira era no saber de Lobo. No podia ver muito bem, pois sua cabea estava muito baixa, na gua. Afligia-a no poder fazer nada Assoviou, 
chamando-o, mas talvez ele no a pudesse ouvir com o estrondo da correnteza.
    Examinando Huiin  talvez a carga exagerada a tivesse fatigado , viu que a gua nadava com grande disposio. Racer tambm avanava. com a cabea de Jondalar 
subindo e descendo ao lado dele. Ficou aliviada verificando que eles estavam bem. Nadava com o brao livre e batia com os ps, procurando ser o menos pesada possvel. 
Mas  medida que progrediam, passou a firmar-se cada vez mais na corda. Comeava a sentir muito frio. Achava tambm que a travessia levava um tempo excessivo, e 
a margem oposta parecia ainda muito longe. Os calafrios no haviam sido muito fortes de incio, mas logo pioraram, e no pareciam querer cessar. Seus msculos comeavam 
a endurecer, numa contrao espasmdica, de cimbra, e seus dentes batiam.
    Procurou de novo Lobo com os olhos mas no o viu. Preciso ir atrs dele. Deve estar com tanto frio, coitado, pensou. E tremeu violentamente. Talvez Huiin pudesse 
fazer meia-volta. Mas quando quis falar, sua mandbula estava to hirta, e os dentes matraqueavam tanto, que no pde articular as palavras. No, Huiin no deveria 
ir. Ela mesma iria. Tentou desprender a corda da mo, mas estava muito bem presa e a mo to dormente que mal a sentia. Talvez Jondalar pudesse ir  procura de Lobo. 
Mas onde estava Jondalar? Estar ainda no rio? Ter ido procurar Lobo? Oh, outra galhada se prendeu  corda, atrs. Eu mesma tenho... de fazer alguma coisa... aquela 
corda... demasiado pesada para Huiin.
    Seu tremor cessara, mas seus msculos estavam agora to rijos que no podia mover-se. Fechou os olhos para descansar. Era to bom fechar os olhos... e descansar.

22
___________________________________________________________________________

    Ayla estava quase inconsciente quando sentiu as slidas pedras lisas do leito do rio debaixo das costas. Procurou pr-se de p, pois Huiin a arrastava pelo fundo. 
Deu alguns passos, vacilantes, numa praia de seixos rolados na curva do rio. Ento caiu. A corda, ainda firmemente presa na mo, a fez rodar, e obrigou a gua a 
parar.
    Jondalar tambm sentira os primeiros sintomas de hipotermia durante a travessia do rio, mas chegara  margem primeiro, antes de ficar sem coordenao ou irracional. 
Ela podia ter chegado mais depressa, mas tanta coisa se prendera  corda de Huiin que a gua se atrasara muito. At Huiin comeava a sofrer com o frio da gua quando 
o n corredio, embora inchado pela prolongada imerso, finalmente soltou-se, e ela ficou livre do estorvo da carga.
    Infelizmente, quando Jondalar chegou ao outro lado, o frio j o afetava de tal modo que ele no estava de todo lcido. Mesmo assim, enfiou sua parka de pele 
pela cabea, por cima da roupa ensopada, e saiu  procura de Ayla, a p,  puxando o cavalo. S que caminhou na direo errada, ao longo da margem. O exerccio o 
aqueceu e clareou-lhe a mente. Ele e Ayla haviam sido levados rio abaixo pela correnteza at certa distncia, mas desde que ela demorara mais para atravessar o rio, 
tinha de estar mais a jusante do que ele. Chegando a essa concluso, Jondalar voltou sobre seus passos. Quando Racer relinchou, e ele ouviu um relincho em resposta, 
ps-se a correr.
    Encontrou Ayla deitada de costas nos seixos rolados da margem, ao lado da sua paciente montaria, com um dos braos para cima: a corda que tinha enrolada na mo 
o mantinha assim, na vertical. Jondalar correu para ela, desesperado. Depois de verificar que ainda respirava, apertou-a contra o peito, com lgrimas nos olhos.
            Ayla! Ayla! Voc est viva!  gritou.  Tinha tanto medo que no estivesse!        
    Estava muito fria, porm. Tinha de aquec-la. Soltou-lhe a mo da corda e ergueu-a nos braos. Ela se mexeu, abriu os olhos. Com os msculos endurecidos, mal 
podia falar, mas procurava dizer alguma coisa.
            Lobo. Encontre Lobo  disse, num fio de voz, que era mais um murmrio rouco.
            Primeiro tenho de cuidar de voc.
            Por favor. Lobo. Perdi muitos filhos. No posso perder Lobo tambm  disse, de dentes cerrados.
    Tinha uma tal tristeza nos olhos que ele no podia recusar.
            Muito bem. Vou procur-lo. Mas tenho de deix-la abrigada em algum lugar.
    Chovia forte quando ele carregou Ayla pelo aclive suave. No alto, o terreno se nivelava em terrao, com uma fieira de salgueiros, alguma vegetao baixa, carrios, 
e, no fundo, alguns pinheiros. Procurou uma rea seca e protegida e ali, rapidamente, armou a barraca, cobrindo o solo saturado, para maior proteo, com o couro 
de mamute. Trouxe, ento, para dentro, Ayla, as bagagens e as peles em que os dois se embrulhavam para dormir. Despiu-a das roupas molhadas, tirou tambm as suas, 
meteu a mulher entre as pelicas, e aninhou-se ao lado dela.
    Ayla no estava inconsciente, mas numa espcie de estupor. Tinha a pele fria e pegajenta, o corpo hirto. Procurou cobri-la com o prprio corpo para aquec-la. 
Quando ela comeou a tremer de novo, Jondalar respirou mais aliviado. Aquilo significava que ela estava ficando mais quente por dentro. Mas com a volta da conscincia, 
lembrou-se de Lobo outra vez, e se ps a insistir, de maneira irracional, quase frentica, que ele sasse  procura de Lobo.
    A culpa foi minha, dizia, batendo os dentes.  Eu o fiz saltar no rio. Eu assoviei. Ele confiou em mim. Tenho de ach-lo!  Fez esforo para levantar-se.
    Ayla, esquea Lobo. Voc nem sabe por onde comear a busca  disse Jondalar, procurando mant-la deitada.
    Tremendo muito e soluando histericamente, ela tentou escapar das cobertas de pele.
     Preciso encontr-lo  gritava.
            Ayla, eu vou. Se voc ficar aqui, prometo que vou procur-lo  disse ele, querendo convenc-la a ficar na cama quente.  Mas voc tem de prometer que 
ficar quietinha onde est e bem agasalhada.
     Por favor, ache-o.
    Ele se vestiu rapidamente, com roupas secas e a parka. Depois apanhou uns dois quadrados da comida prensada para viagem, rica em gorduras e protenas.
     Vou agora. Coma isto e no saia das peles.
    Ela agarrou-lhe a mo quando ele j se preparava para sair.
     Prometa que vai procur-lo  disse, olhando-o nos olhos azuis. Ainda era sacudida por calafrios, mas j falava com mais facilidade.
    Ele a fitou de volta. Havia tanta pena e tanta splica nos olhos cinza-azulados de Ayla que ele a abraou mais uma vez.
     Temi que voc tivesse morrido.
    Ela o abraou tambm, tranquilizada pela fora dele, pelo seu amor.
     Eu o amo, Jondalar, no poderia perd-lo, mas, por favor, encontre Lobo. Eu no poderia suportar a falta dele. Ele  para mim como... uma criana... um filho. 
No posso perder mais um filho.
    Ele se levantou.
            Vou procurar Lobo. O que no posso prometer  ach-lo. Mesmo que o encontre, no posso prometer que esteja vivo.
    Uma expresso de medo e horror encheu os olhos de Ayla. Ela os fechou em seguida e fez um sinal com a cabea.
            Procure-o apenas  disse. Mas quando ele quis sair, ela o puxou de novo.
    Jondalar no estava certo de ter tido mesmo a inteno de sair  procura do lobo quando se ergueu da cama. Pretendera apanhar lenha para o fogo a fim de;dar-lhe 
ch e sopa, e ver os cavalos. Mas prometera. Racer e Huiin estavam de p contra o renque de salgueiros, ainda com os cobertores por cima e Racer com seu cabresto. 
Mas eram animais fortes, e pareciam bem, de modo que ele desceu a rampa.
    No sabia que direo tomar ao alcanar o rio, mas decidiu ir no sentido da corrente. Puxando o capuz para a frente, a fim de se defender da chuva, seguiu pela 
margem, examinando as pilhas de galhos e concentraes de destroos. Viu muitos animais mortos e tambm carnvoros e carniceiros, tanto quadrpedes quanto alados, 
banqueteando-se naquelas ddivas do rio. Viu inclusive uma alcateia de lobos, mas nenhum deles se parecia com Lobo.
    Finalmente, voltou. Iria tambm rio acima, talvez tivesse mais sorte. No contava encontrar o animal, e percebeu, com surpresa, que isso o entristecia. Lobo 
aborrecia, s vezes, mas ele j gostava do animal. Iria sua falta, e Ayla ficaria desolada.
    Alcanou a rea onde a encontrara. Fez a curva do rio, incerto quanto  distncia que iria percorrer nessa outra direo, principalmente por notar que o nvel 
da gua continuava subindo. Resolveu mudar a barraca para mais longe, assim que Ayla pudesse andar. Talvez devesse dar por encerrada a busca rio acima e voltar. 
Pensou, mas hesitou. Bem, talvez eu deva procurar mais um pouco. Ela vai perguntar se tentei nas duas direes.
    Continuou, ento, a subir o rio, contornando um monte de toras e galhos partidos. Mas quando viu a majestosa silhueta de uma guia-imperial, pairando com as 
asas estendidas, parou para observ-la com respeito e admirao. De repente, a graciosa ave dobrou as asas poderosas e mergulhou para a margem do rio. E logo alou 
vo outra vez, levando nas garras um grande esquilo.        
    Um pouco mais adiante, no lugar onde a ave de rapina havia achado a sua refeio, um belo afluente, que se abria num pequeno delta, juntava suas guas s do 
Rio da Irm. Pensou ver, ento, alguma coisa familiar na larga praia de areia que ali se formara. Sorriu ao reconhecer o que era: o barco. Mas olhando com mais ateno, 
franziu a testa e se ps a correr. Ao lado do barco estava Ayla, sentada na gua, com a cabea de Lobo no regao. Um corte acima do olho direito do animal ainda 
sangrava.
    Ayla! O que est fazendo? Como veio parar aqui?  explodiu, mais de temor e preocupao que de raiva.
    Ele est vivo, Jondalar  disse ela, tremendo de frio e soluando tanto que mal podia falar.  Lobo est ferido, mas vivo.
    Depois que ele pulara no rio, nadara em direo a Ayla. E ao alcanar o bote vazio, descansou as patas nos mastros. E ficou l, com aqueles objetos conhecidos, 
deixando que o barco e os varais o sustentassem. S quando o lao corredio se soltou, e tanto barco quanto mastros comearam a danar nas ondas revoltas, ele foi 
atingido pelo tronco pesado e encharcado que vinha enganchado neles. Mas a j estavam quase na margem oposta do rio. O barco foi lanado na areia, e os mastros, 
com o lobo cado por cima deles, ficaram metade fora d'gua. O golpe o atordoara, mas estar mergulhado em gua fria tanto tempo era pior. At lobos so sujeitos 
 hipotermia e  morte por longa exposio s intempries.
            Venha, Ayla, voc est tremendo outra vez. Temos de ir para a barraca. Por que veio? Eu no lhe disse que iria procur-lo? Eu o levo  disse Jondalar. 
Tirou o lobo de cima dela e procurou ajud-la a ficar de p.
    Depois de alguns passos, no entanto, verificou que teriam a maior dificuldade para alcanar o acampamento. Ayla mal podia andar, e Lobo era um animal grande 
e pesado. O plo molhado ainda acrescentava ao peso Jondalar no podia carregar os dois, mas sabia que Ayla jamais concordaria em que ele deixasse o animal para 
uma segunda viagem. Ah, se lhe fosse possvel chamar os cavalos assoviando como Ayla fazia com o lobo! E por que no seria? Ele inventara um assovio para chamar 
Racer, mas no se esforara muito para que o cavalo aprendesse a responder. Nunca precisara disso. Depois, Racer sempre vinha, quando Ayla chamava Huiin.
    Talvez Huiin viesse agora, se ele assoviasse. Podia, pelo menos, tentar. Procurou imitar o assovio de Ayla, esperando que o animal estivesse suficientemente 
perto para ouvi-lo. Mas se os cavalos no acorressem, estava decidido a ir em frente de qualquer maneira. Mudou a posio de Lobo nos braos e procurou fazer com 
que Ayla se apoiasse no seu ombro, para maior firmeza.
    No tinham chegado ainda  pilha de destroos e ele j se sentia cansado. Ainda se aguentava por puro esforo de vontade. Ele tambm nadara muito para atravessar 
o rio. E carregara Ayla, armara a barraca, explorara a margem do rio nas duas direes. No podia mais. Mas ouviu um relincho e ergueu os olhos.  vista dos dois 
cavalos, alegria e alvio o inundaram.
    Ps o lobo nas costas de Huiin, que j o levara antes, e estava acostumada com ele. Depois ajudou Ayla a montar em Racer e puxou-o pela praia. Huiin os seguiu. 
Ayla, tremendo nas roupas molhadas, teve dificuldade em ficar montada no cavalo quando comearam a subir a encosta Chovia mais forte agora, mas, indo devagar e com 
cautela, conseguiram alcanar a barraca.
    Jondalar ajudou a mulher a apear e levou-a para dentro, mas a hipotermia lhe tirava a coordenao outra vez, e ela estava ficando histrica com a situao do 
lobo. Ele teve de lev-lo logo para a barraca e de prometer que ia sec-lo incontinenti. Mas com o qu? Procurou freneticamente alguma coisa apropriada nas bagagens. 
Mas quando Ayla quis levar Lobo para a cama, ele recusou. Ps, no entanto, uma coberta por cima do animal. Ayla soluava incontrolavelmente, mas ele a forou a despir-se 
e deitar-se entre as peles.
    Depois saiu para remover o cabresto de Racer e os cobertores de montar dos dois cavalos. Afagou-os com palavras de gratido. Embora cavalos vivessem normalmente 
a cu aberto e em qualquer espcie de tempo, sabia que eles no gostavam muito de chuva, e esperava que no viessem a adoecer.
    Por fim, ele mesmo entrou, despiu-se, e se enfiou na cama. A mulher continuava a tremer muito. Ela pusera Lobo a seu lado e Jondalar se aconchegou s suas costas. 
Depois de algum tempo, com o calor do lobo de um lado e o do homem de outro, os tremores cessaram, e eles se entregaram  exausto. Dormiram.
    Ayla acordou com uma lngua molhada lambendo-lhe o rosto. Rechaou Lobo, mas sorriu de alegria, e o abraou. Com a cabea dele entre as palmas das mos, examinou-o 
atentamente. A chuva lavara o ferimento, que no sangrava mais. Seria preciso passar-lhe algum remdio mais tarde, mas no momento, ele estava bem. No fora a pancada 
na cabea que o enfraquecera, mas a longa permanncia no rio. O sono e o calor eram, para o caso, a melhor medicina. Viu que Jondalar a enlaava estreitamente por 
trs, mesmo dormindo, de modo que permaneceu como estava, segurando Lobo e escutando a chuva tamborilar no couro da tenda.
    Lembrava-se fragmentariamente dos acontecimentos da vspera: a caminhada, aos tropees, por entre a macega e os galhos que o rio trouxera, esquadrinhando a 
margem do rio em busca de Lobo; a mo doendo por causa da corda apertada; Jondalar levando-a nos braos. Sorriu quando pensou nele, to junto dela. Depois o viu 
ocupado em armar a barraca. Sentiu-se envergonhada de no ter podido ajud-lo. Mas estava to rgida de frio que lhe teria sido impossvel mover-se.
    Lobo tanto se contorceu que escapou do jugo de Ayla e saiu farejando pelas imediaes da barraca. Ayla ouviu o relincho de Huiin e, tomada de alegria, por pouco 
no lhe respondeu. Lembrou-se em tempo que o Jondalar estava dormindo. Comeou a preocupar-se com a permanncia dos cavalos na chuva. Estavam acostumados com tempo 
seco, no com aquela chuvarada interminvel. Mesmo um frio intenso era suportvel quando seco. Lembrava-se, porm, de ter visto cavalos pelo caminho, de modo que 
alguns deveriam viver na regio. Cavalos tm uma camada subjacente de l espessa, densa e quente, mesmo quando molhada. Acreditava que eles conseguiriam enfrentar 
aquele clima, desde que no chovesse sem parar.
    Ela mesma no gostava nada das pesadas chuvas de outono que caam nessa regio meridional, embora tivesse apreciado as longas primaveras chuvosas do norte, com 
suas cerraes e garoas. A caverna do Cl de Brun ficava para o sul, e chovia muito por l no outono. Mas no se lembrava de dilvios como os que vinham enfrentando. 
No sul, as regies no eram idnticas umas s outras. Pensou em levantar-se, mas antes de faz-lo adormeceu de novo.
    Quando despertou pela segunda vez, o homem ao lado dela comeava a mexer-se. Ficou quieta por mais algum tempo nas suas peles, mas sentiu que alguma coisa mudara, 
no sabia bem o qu. Depois descobriu: o som da chuva cessara. Levantou-se, ento, e saiu. A tarde caa, e estava mais frio l fora do que antes. Devia ter vestido 
alguma coisa mais grossa. Urinou junto de um arbusto, e foi ver os cavalos, que pastavam junto dos salgueiros, onde havia um arroio. Lobo estava com eles. Vieram 
correndo, os trs, quando viram que se aproximava. E ela passou algum tempo fazendo-lhes festas e coando-os. Foi, ento, de volta para a barraca e se deitou outra 
vez ao lado de Jondalar.
     Voc est fria, mulher!  disse ele.
     E voc est quente e gostoso  disse ela.
    Ele a enlaou e ficou a esfregar o rosto em seu pescoo, aliviado ao ver que ela se aquecia rapidamente. Demorara tanto para chegar ao normal depois de ter gelado 
na gua do rio!
     No sei onde eu estava com a cabea deixando que voc ficasse to molhada e fria  disse Jondalar.  No devamos ter atravessado aquele rio.
     Mas Jondalar, que outra coisa podamos fazer? Voc estava certo. Com aquela chuva toda, teramos de atravessar da mesma maneira Teria sido muito mais difcil 
passar um rio de montanha.
     Se tivssemos deixado os Xaramudi mais cedo, teramos  escapado s chuvas. Ento o Rio da Irm no estaria to caudaloso e rpido  disse Jondalar, continuando 
a culpar-se por tudo.
     Mas foi minha a culpa! At Carlono achou que conseguiramos chegar em tempo.
     No, Ayla, a culpa foi minha. Eu sabia que esse rio era assim. Se eu tivesse insistido, ns teramos vindo. E se tivssemos deixado o barco para trs, ele 
no nos teria atrasado na montanha, nem voc levaria tanto tempo para alcanar a margem oposta do Rio da Irm.
     Jondalar, por que faz isso? Voc no  estpido. No podia prever o que aconteceria. Nem mesmo Um que Serve  Me pode prever tudo com exatido. As coisas 
no so claras. Nunca. E conseguimos passar. Estamos do lado de c, e tudo esta bem, Lobo inclusive, graas a voc. Temos tambm o barco. Quem sabe os servios que 
ainda nos poder prestar?
     Mas quase perdi voc  disse ele, enfiando de novo o nariz no pescoo dela e apertando-a tanto que doa, embora ela no procurasse impedi-lo  No sei dizer 
o quanto a amo. Eu me importo muito com voc mas as palavras me faltam. No bastariam, de qualquer maneira, para expressar o que sinto.  Ele a estreitava ainda, 
como se pensasse que fazendo-o, ela se tornaria de algum modo parte dele e, assim, nunca a perderia.
    Ela o abraava tambm, amando-o c desejando fazer alguma coisa que aliviasse a angstia dele. De repente, descobriu o que poderia ser. Disse-lhe o que era ao 
ouvido e beijou-o no pescoo. A reao dele foi imediata. Ele a beijou com paixo, esfregando os braos dela, fechando as mos nos seus seios, e sugando-lhe os mamilos 
com grande voracidade. Ayla se ps a cavalo nele e rolou-o para que ficasse por cima dela, depois abriu as coxas. Ele recuou um pouco e ficou a bater-lhe com o membro 
j intumescido, querendo encontrar a abertura. Ela se curvou para ajud-lo. Ambos sentiam um desejo ardente um pelo outro.
    Quando se afastavam um do outro e se juntavam de novo, seu corpo e o da mulher se distanciavam e reuniam num ritmo to perfeito que Ayla se deu completamente 
quando a velocidade aumentou, gloriando no que sentia. Centelhas de fogo corriam por ela, centradas l dentro do seu ventre. E eles se moviam, unssonos, para a 
frente, para trs...
    Nele uma potncia vulcnica ganhava em mpeto, vagas de excitao o tomavam e engolfavam, e antes mesmo de dar-se conta do que acontecia chegou ao clmax. Movendo-se 
depois, mais umas poucas vezes, sentiu uns choques menores, como os tremores que se seguem a um terremoto. E logo veio a gloriosa sensao de satisfao completa.
    Deixou-se ficar de bruos por cima dela, at normalizar a respirao depois daquele esforo to grande e subitneo. Ayla tinha os olhos fechados, consentindo. 
Depois de algum tempo, ele escorregou para o seu lado da cama, aconchegando-se. Ayla, dando-lhe as costas, colou-se nele. E ficaram muito quietos, gozando o prazer 
de estarem assim, encaixados um no outro como duas colheres.
    Depois de um longo tempo, Avia disse com doura:
     Jondalar?
     Hein?  resmungou ele. Estava num delicioso estado de languidez, sem sono, mas tambm sem nenhuma vontade de mexer-se.
     Quantos rios como esse ainda temos de cruzar?
    Ele a beijou na orelha.
     Nenhum.
     Nem mesmo o Rio da Grande Me?
     O Rio da Grande Me no  to rpido, traioeiro e perigoso quanto o da Irm  disse ele , mas no vamos atravess-lo. Vamos ficar deste lado a maior parte 
do tempo a caminho da geleira do plat. Quando chegarmos ao limite dos gelos, gostaria de visitar certas pessoas que moram na outra margem do Rio da Grande Me. 
Mas isso est ainda muito distante de ns. Quando l chegarmos, o rio j estar reduzido s propores de uma torrente de montanha  e pondo-se de costas:  No 
que no tenhamos de atravessar mais rios, mas nesta plancie o Rio da Grande Me se divide em inmeros canais que se separam e renem mais adiante. Quando estiverem 
todos juntos de novo, o rio j se mostrar to pequeno que voc no o reconhecer como o Rio da Grande Me.
     Sem toda a gua do Rio da Irm no estou certa de que o reconheceria  disse Ayla.
     Penso que reconheceria sim. Por maior que seja o Rio da Irm quando os dois rios confluem, o Rio da Grande Me  ainda bem maior H outro rio de grandes propores 
que o alimenta como afluente da outra margem, logo antes do ponto em que as Colinas Arborizadas o fazem infletir para leste. Thonolan e eu encontramos alguns habitantes 
do local, que nos levaram de balsa para o lado de l. Muitos outros afluentes descem tambm das grandes montanhas ocidentais, mas ns vamos para o norte pela plancie, 
e sequer os veremos.
    Jondalar sentou-se. A conversao lhe dera vontade de levantar acampamento, se bem que no pudessem partir antes do dia clarear. Mas ele se sentia to bem e 
recuperado do cansao que no queria ficar mais na cama.
     No vamos cruzar muitos rios at chegarmos aos planaltos do norte  continuou ele.  Pelo menos foi isso que os Hadumas me disseram. Segundo eles, encontraremos 
algumas colinas, mas em geral a regio  plana. Muitos dos rios que veremos so afluentes do Rio da Grande Me. que serpenteia, ao que se conta, por toda a rea. 
 uma boa zona de caa, esta aqui. Tem fama disso. O povo Haduma atravessa os canais todo o tempo para vir caar aqui.
     O povo Haduma? Acho que voc j me falou nessa gente, mas nunca disse muita coisa.  Ayla tambm se levantara e j puxava, para arrum-la, a cesta chata que 
fizera para Huiin levar na garupa.
     No estive com eles muito tempo, s o bastante para...  Jondalar hesitou, pensando nos Ritos de Iniciao que partilhara com uma bela garota, Noria. Ayla 
percebeu a estranha expresso no rosto dele. Era como se estivesse embaraado, mas tambm contente consigo mesmo  ...uma cerimnia, um festival.
            Um festival em honra da Grande Me Terra?  perguntou Ayla.
            Bem... sim, efetivamente. Eles me convidaram... quero dizer, eles convidaram a Thonolan e a mim para participar do festival com eles.
            Vamos visitar os Haduma?  perguntou Ayla da porta da barraca, segurando uma pele Xaramudi de camura com que pretendia enxugar-se depois de ter tomado 
banho no crrego dos salgueiros.
     Eu bem que gostaria de faz-lo, mas no sei onde eles moram  disse Jondalar. Depois, vendo o ar de perplexidade na fisionomia dela, explicou.  Alguns dos 
caadores Haduma encontraram o nosso acampamento e mandaram chamar Haduma. Foi ela quem decidiu realizar o festival, e ali mesmo, e mandou que viessem os demais. 
 Ele fez uma pausa, rememorando.  Haduma era uma mulher e tanto. A pessoa mais velha que j vi. Mais velha at que Mamute.  me de seis geraes.  De cinco, 
com certeza. De seis, possivelmente, ou assim espero, pensou.  Gostaria, sinceramente, de rev-Ia, mas j estar morta, de qualquer maneira. Seu filho, Ameno, porm, 
estar vivo. Ele era o nico que sabia falar Zelandonii.
    Ayla saiu. Jondalar estava com muita vontade de urinar. Enfiou rapidamente a tnica pela cabea e saiu atrs dela. Enquanto urinava, contemplando o arco de gua 
amarela, de cheiro forte, quente de soltar fumaa, ficou pensando outra vez se Noria tivera o beb que Haduma anunciara e se aquele rgo que ele tinha na mo fora 
responsvel direto por isso.
    Viu Ayla caminhando para os salgueiros, toda nua, s com a camura em torno das espduas. Achou que devia lavar-se tambm, embora j tivesse sua cota de gua 
fria. No que ele no tivesse coragem de enfrentar gua fria quando necessrio, para vadear um rio por exemplo, mas tomar banho no tinha a mesma importncia antigamente, 
quando viajava com o irmo...
    No que Ayla lhe fizesse qualquer observao. Mas como jamais permitia que o frio a impedisse de banhar-se, ele no podia usar essa desculpa. Tinha, alis, de 
admitir que gostava do fato de que ela sempre cheirasse bem, lavada de fresco. Mas Ayla chegava ao extremo de quebrar gelo para obter gua. Como podia suportar aquilo 
ele no sabia.
    Pelo menos ela j estava de p e andando de um lado para o outro. Pensara que teriam de ficar acampados por alguns dias, para que a mulher se recuperasse. Talvez 
a mulher adoecesse. Podia ser que todos aqueles banhos de gua fria a tivessem preparado? E talvez um pouco de gua fria no me fizesse mal, disse consigo mesmo. 
Percebeu, ento, que estivera a observar a maneira pela qual as ndegas de Ayla se mostravam debaixo da camura, gingando de maneira provocante quando ela andava.
    Seus Prazeres vinham sendo mais excitantes e mais satisfatrios do que imaginara, considerando a pressa com que, em geral, acabavam. Mas vendo Ayla pendurar 
a toalha num galho e seguir para o arroio, teve vontade de comear tudo outra vez, s que agora a amaria bem devagar, com carinho, saboreando cada pedao do corpo 
de Ayla.
    As chuvas continuaram, intermitentes, quando eles comearam a atravessar as terras baixas, entre o Rio da Grande Me e o afluente quase comparvel a ele, o Rio 
da Irm. Rumaram para noroeste, embora sua  rota estivesse longe de ser direta. As plancies centrais pareciam as estepes do lado oriental e eram, na verdade, uma 
extenso delas. Mais os rios que cruzavam a antiga de norte para sul tinham papel dominante no carter da regio. O curso do Rio da Grande Me, cheio de meandros 
e de bifurcaes, criava enormes reas alagadas nas vastas pastagens secas.
    Lagos semicirculares formavam-se nos cotovelos mais pronunciados dos grandes canais, e constituam, com os pntanos, os prados encharcados e os campos frteis 
que davam diversidade s magnficas estepes um refgio a um nmero incrvel de aves de grande variedade. Mas foravam quem quer que viajasse por terra a seguidos 
desvios. A diversidade de cus era complementada por uma rica vida vegetal e uma variegada populao animal, comparvel  das estepes orientais, se bem que mais 
concentrada, como se a paisagem tivesse encolhido enquanto sua comunidade de seres vivos permanecia inalterada.
    Rodeadas de montanhas e plats que funcionavam como funis na irrigao da terra, as plancies centrais, principalmente no sul, eram tambm mais arborizadas, 
por vezes de maneira sutil. Em vez de serem enfezadas e deformadas, as rvores das matas ciliares eram, muitas vezes, de porte normal e copa frondosa. Os arbustos 
no eram mirrados, mas cheios. Na parte meridional, junto da larga e turbulenta confluncia, havia pntanos e alagados nos vales e depresses do terreno, que se 
espraiavam, ficando enormes na estao das chuvas. Umas poucas, pequenas, florestas encharcadas, de amieiros, freixos e btulas, pareciam  espreita do incauto para 
faz-lo atolar entre cmoros coroados de salgueiros, carvalhos e faias. J os pinheiros preferiam deitar razes em solos mais arenosos.
    Os terrenos eram ali, na sua maior parte, ou uma mistura de rico loess e terras pretas ou de areias e cascalhos aluviais, com afloramentos ocasionais da rocha 
fundamental, que interrompiam a horizontalidade do relevo. Essas elevaes isoladas surgiam vestidas, em geral, de conferas, que por vezes desciam at a plancie, 
hospedando diversas espcies de animais que no poderiam viver exclusivamente em campo aberto, e se concentravam, de preferncia, na orla da formao. Mas com toda 
essa complexidade, a vegetao primria era, ainda, e por toda parte, relva. Sobretudo, as plancies centrais eram uma regio de pastagens extraordinariamente ricas 
em capins altos e rasteiros, ervas, estipas, gramneas como a festuca, e a todas o vento afagava e fazia oscilar.
     medida que Ayla e Jondalar deixavam as plancies do sul e se acercavam do setentrio gelado, a estao parecia passar mais rapidamente do que seria normal. 
O vento que recebiam no rosto j trazia um um aviso do frio terrvel de que provinha. A acumulao inconcebivelmente macia de gelo glacial, cobrindo vastas extenses 
das terras do norte, jazia diretamente  frente deles, a uma distncia muito menor que a percorrida desde o incio da Jornada.
    Com a estao prestes a mudar, a fora crescente do ar gelado mostrava o seu potencial profundo, ainda escondido. As chuvas diminuram de intensidade e, por 
fim. cessaram de todo. Cirros-cmulos, como algodo esgarado, substituram, no cu, os cmulos-nimbos escuros das tempestades. O mesmo vento constante que esfiapava 
as nuvens arrancava as folhas secas das rvores decduas, lanando-as num tapete solto aos ps dos viajantes. Por vezes, numa sbita mudana de inteno, uma corrente 
de ar vinda de baixo erguia esses quebradios esqueletos do vero, fazia-os girar com fria por algum tempo, para depois, cansada do jogo, deposit-los em outro 
lugar.
    Mas esse tempo seco e frio agradava aos viajantes. Ayla e Jondalar estavam mais familiarizados com ele. Era mais confortvel, at, pois tinham cada um, sua boa 
parka e seu capuz forrado de pele. A informao recebida se confirmou: a caa era abundante e os animais estavam gordos e saudveis, depois de um vero regalado. 
Aquela era tambm a poca do ano mais propcia para a colheita de gros, frutas, bagas, nozes e razes. No precisavam apelar para as razes de emergncia. Puderam 
mesmo substituir suprimentos gastos quando mataram um veado gigante. Resolveram, nessa ocasio, acampar por alguns dias. Descansariam e poderiam secar a carne. Seus 
rostos brilhavam de sade e de felicidade de estarem vivos e amando.
    Os cavalos tambm pareciam rejuvenescidos. Estavam no seu habitat, no clima e nas condies a que melhor se adaptavam. Sua pelagem ficou fofa com a l que lhes 
nascera para o inverno, e ambos pareciam ativos e brincalhes toda manh. O lobo, de nariz para o vento, apanhava no ar odores catalogados nos recessos profundos, 
instintivos, do seu crebro, e seguia essas pistas impalpveis, alegremente. Continuava a fazer suas surtidas de sempre, mas voltava, arvorando um ar presunoso, 
segundo Ayla.
    A travessia de rios no era problema. Muitos dos cursos d'gua da regio corriam paralelamente ao eixo norte-sul do Rio da Grande Me, embora tivessem de passar 
alguns que cruzavam a plancie em sentido contrario. A configurao era de todo imprevisvel. Os canais tinham tantos meandros que eles no estavam sempre seguros 
se uma corrente que se atravessava no caminho era um volteio de um rio ou uma das raras torrentes que provinham das montanhas. Alguns canais paralelos terminavam 
abruptamente num curso d'gua que rumava para oeste e que, por sua vez, desaguava em outro canal do Rio da Grande Me.
    Embora tivessem de fazer desvios ocasionais da sua direo geral norte, forados por uma curva mais pronunciada do rio, estavam outra vez naquela espcie de 
campo aberto em que a viagem a cavalo tinha grande vantagem sobre a viagem a p. Eles mantinham um ritmo excepcionalmente bom, cobrindo to grandes distncias todos 
os dias que compensavam os atrasos anteriores. Jondalar se rejubilava pensando que compensavam, at, o tempo perdido com sua deciso de tomar o caminho mais longo, 
a fim de visitar os Xaramudi.
    Os dias lmpidos, de frio estimulante, davam-lhes uma ampla viso panormica, toldada apenas de manhzinha por cerraes, quando o sol aquecia a umidade condensada 
durante a noite. Para leste ficavam, agora, as montanhas que eles tinham ladeado quando acompanharam o grande rio atravs dos prados quentes do sul, as mesmas montanhas 
cuja ponta sudoeste os dois haviam escalado. Os picos gelados e cintilantes se aproximavam imperceptivelmente deles com a curvatura da cordilheira para noroeste 
num grande arco.
    Para a esquerda, a mais alta cadeia de montanhas do continente com uma pesada coroa de gelo glacial que descia at metade dos seus lados, marchava em cristas 
sucessivas de leste para oeste. Os cimos altaneiros e brilhantes erguiam-se no horizonte cor prpura como uma presena vagamente sinistra, uma barreira aparentemente 
intransponvel entre os viajantes e seu destino. O Rio da Grande Me os levaria,  roda da larga face setentrional da cadeia, a um glaciar relativamente pequeno 
que  cobria, qual armadura de gelo, um velho macio arredondado na extremidade noroeste do promontrio alpino das montanhas.
    Mais baixo e mais prximo, para alm de um prado relvoso interrompido por florestas de pinheiros, destacava-se outro macio. A elevao grantica dominava as 
campinas e o Rio da Grande Me, mas diminua aos poucos  medida que eles avanavam para o norte, fundindo-se harmoniosamente nas colinas suaves que continuavam 
at os contrafortes das montanhas ocidentais. Um nmero cada vez menor de rvores rompia a mesmice enfadonha daqueles infindveis campos, e as que o faziam assumiam 
o aspecto enfezado e contorcido de rvores esculpidas pelo vento que j haviam encontrado pelo caminho.
    Ayla e Jondalar tinham viajado trs quartos, aproximadamente, da distncia total, de sul para norte das imensas plancies centrais, antes que aparecessem os 
primeiros flocos de neve.
     Jondalar, veja! Est nevando!  disse Ayla, com um sorriso radiante.   a primeira neve do inverno.  Ela vinha sentindo cheiro de neve no ar, e a primeira 
nevada da estao sempre lhe parecia especial.
     No posso entender por que isso a deixa assim to feliz  disse Jondalar. Mas a alegria dela era contagiosa, e ele teve de sorrir-lhe de vota.
     Acho que voc vai ficar muito cansada de neve e gelo antes de termos chegado ao fim desta Jornada.
     Voc tem razo, mas assim mesmo adoro a primeira neve.  E depois de mais alguns passos:  No poderamos acampar logo?
     Passa s um pouco do meio-dia  disse Jondalar, intrigado.  Por que voc j fala em acampar?
     Vi algumas ptrmigas h pouco. Elas j comearam a branquear, mas sem neve no cho  fcil v-las por enquanto. Ser difcil, depois, elas so particularmente 
saborosas nesta poca do ano, sobretudo  moda de Creb, mas leva muito tempo para cozinh-las como ele gostava.  Ayla tinha os olhos perdidos, lembrando.  A gente 
faz um buraco no cho, forra-o de pedras, acende um fogo dentro, depois pe as aves, envoltas em fenos, cobre de terra, e espera.  As palavras tinham sado de sua 
boca to depressa que ela quase as engolia, falando.  Mas vale a pena esperar.
     Calma, Ayla, voc est muito excitada  disse ele, rindo. Estava encantado e divertido ao mesmo tempo. Gostava de v-la assim, tomada de entusiasmo.  Se voc 
acha que elas ficaro deliciosas preparadas desse jeito, s nos resta acampar mesmo cedo e sair caando ptrmigas.
     Ah, ficaro esplndidas!  disse ela, encarando Jondalar com uma expresso de grande seriedade.  Mas voc j conhece essa maneira de prepar-la Sabe que gosto 
tero.  Notou, ento, o sorriso matreiro dele e viu que estivera brincando com ela. Tirou a funda da cintura e acrescentou:  Voc prepara o acampamento. Eu vou 
caar. E, depois, se quiser ajudar, faa o buraco. Sou at capaz de deixar que prove uma das aves.  E, com um ltimo sorriso, chamou Huiin e montou.
     Ayla!  gritou Jondalar antes que ela se afastasse muito.  Se voc deixar comigo os mastros, prometo armar o acampamento sozinho,  Mulher-Caadora.
    Ela parou, surpresa.
            No imaginava que voc se lembraria de como Brun me chamou quando me permitiu caar  disse, voltando, e fazendo parar a gua junto dele.
     Posso no ter as suas memrias do Cl, mas lembro de algumas coisas, sobretudo se afetam a mulher que amo  disse e viu que o adorvel sorriso dela se acentuava. 
Aquilo a embelezava ainda mais.  Alm disso, se voc me ajudar a escolher o lugar para armar a barraca, saber para onde tem de voltar trazendo as aves.
     Se eu no o visse, iria procur-lo, mas vou deixar a carga de arrasto. Com ela, Huiin no pode mesmo virar-se com a rapidez desejada.
    Cavalgaram um pouco at encontrar uma rea apropriada,  margem de um riacho, com terreno plano para a barraca, umas poucas rvores e, mais importante para Ayla 
que tudo isso, uma praia rochosa com pedras que ela poderia usar para o seu forno enterrado.
            J que estou ainda aqui, posso ajudar a fazer o acampamento.
            V caar suas ptrmigas. Apenas me diga antes de ir onde quer que eu comece a cavar o buraco  disse Jondalar.
    Ayla ouviu e concordou. Quanto mais depressa ela as matasse, tanto mais depressa poderia comear a ass-las. O preparo demandava tempo, e a caa podia ser demorada. 
Ela percorreu a rea e apontou um lugar que lhe pareceu ideal para fazer o buraco para o preparo das aves.
     Aqui  disse , no muito longe destas pedras.
    Em seguida, caminhou um pouco pela praia. J que estava l, podia aproveita e recolher algumas belas pedras redondas para a sua funda.
    Chamando Lobo, voltou por onde tinham vindo, procurando as ptrmigas. Uma vez que se ps em busca das gordas aves, encontrou diversas espcies parecidas com 
elas. Ficou tentada, primeiro, por um bando de perdizes-cinzentas, que viu bicando as sementes maduras do raigrs e do trigo. Identificou o nmero surpreendentemente 
grande de filhotes pelas suas marcas ligeiramente menos definidas e no pelo tamanho. Embora essas aves de porte mdio e atarracadas ponham at vinte ovos de uma 
vez, so vtimas de predao to grande que poucas sobrevivem e chegam  idade adulta.
    As perdizes-cinzentas tambm so saborosas, mas Ayla resolveu continuar, memorizando a sua localizao para o caso de no encontrar mais as ptrmigas. Um pequeno 
bando de codornas com vrias ninhadas a assustou levantando vo. Esses pssaros, gregrios rotundos, eram tambm saborosos, se bem que pequenos, mas ela precisaria 
saber manejar o basto de arremesso para derrubar vrias de um golpe s.
    E como desprezara as outras aves, muito se alegrou ao encontrar as ptrmigas, em geral bem camufladas, perto de onde as vira antes. Exibiam ainda muito das suas 
marcas habituais, mas as penas brancas j predominantes, faziam com que ficassem conspcuas contra o solo acinzentado e a grama seca, da cor de ouro velho. As ptrmigas, 
gordas baixotas, j tinham penas de inverno nas pernas e nos ps. Serviam para aquec-las e podiam ser usadas como raquetes de inverno. Embora as codornas costumem 
cobrir grandes distncias, tanto as perdizes quanto as ptrmigas, ou seja, as aves da famlia do tetraz que ficam brancas no inverno, permaneciam numa rea em geral 
prxima do seu lugar de origem, migrando apenas num raio muito curto entre inverno e vero.
    Naquele mundo liberal, que ensejava estreitas associaes entre seres vivos cujos habitats estariam, em outras condies, muito afastados, cada espcie tinha 
seu nicho, mas ficavam ambas nas plancies centrais durante o inverno. Enquanto a perdiz se mantinha no campo aberto e varrido de vento, comendo sementes e nidificando 
em rvores junto de rios ou nos terrenos mais altos, as ptrmigas ficavam diretamente na neve, morando em buracos para se esconder do frio, e sobrevivendo com uma 
dieta de brotos, botes, rebentos, que por vezes continham leos repugnantes  ou, at, venenosos  para outros animais.
    Ayla mandou que Lobo ficasse quieto enquanto apanhava duas pedras no bornal e preparava a funda. Montada em Huiin, ela mirou um dos pssaros j quase brancos 
e arremessou a primeira pedra. Lobo, entendendo o movimento dela como um sinal, lanou-se sobre outra ptrmiga ao mesmo tempo. Com ruidosos protestos e grande rumor 
de asas o resto do bando se elevou no ar, batendo forte com os msculos de vo. A camuflagem normal de terra das ptrmigas parecia diferente quando voavam. A plumagem 
eriada mostrava outro desenho, caracterstico, para facilitar a indivduos da mesma espcie seguirem juntos em bando.
    Depois do mpeto inicial, o vo das ptrmigas se alongou, planado e calmo. Com a presso e movimento do corpo que j eram, para ela, uma segunda natureza, Ayla 
fez com que Huiin acompanhasse as aves, enquanto preparava a segunda pedra.
    A mulher apanhou a funda no seu curso descendente, deslizou a mo pela correia at a ponta e, com um s movimento, que a prtica fizera perfeito, trouxe-a de 
volta  posio inicial, encaixou a segunda pedra no lugar e lanou. Embora s vezes precisasse de uma segunda volta no ar para o primeiro arremesso, raras vezes 
precisava reforar o momento para o segundo.
    Sua habilidade em lanar pedras assim depressa era to rara, que se ela tivesse perguntado a algum se aquilo estava no campo das possibilidades teria ouvido 
que no: no era s difcil, era impossvel. Mas como no tivera a quem pedir conselho, ningum lhe dissera que no podia ser feito, e Ayla desenvolveu sozinha a 
sua tcnica de lanamento duplo. Com correr dos anos a aperfeioara, e tinha boa pontaria com as duas pedras. A ave que mirava no cho jamais levantou vo. E quando 
a segunda tombou do cu, ela apanhou rapidamente mais duas pedras. Mas a essa altura o bando estava fora de alcance.
    Lobo veio trotando com uma terceira ptrmiga na boca. Ayla escorregou da gua e, a um sinal, o lobo deps a presa aos seus ps. Em seguida sentou-se, olhando 
para ela, todo contente de si, com uma pena leve e branca presa a um lado da boca.
     Muito bem, Lobo!  disse Ayla, agarrando-lhe a coleira de plos agora mais farta para o inverno, e encostando a testa na dele. Depois se voltou para a gua.
     Esta mulher agradece sua ajuda, Huiin  disse, na linguagem especial que usava com a gua, feita de sinais do Cl e curtos relinchos em surdina. A gua levantou 
a cabea, resfolegou e se aconchegou  mulher. Ayla segurou-lhe a cabea e fungou nas narinas de Huiin, trocando com ela cheiros de reconhecimento e amizade.
    Depois, torceu o pescoo de uma ave que no estava morta. Usando um capim forte, atou os ps de todas elas e depositou-as na alcofa da garupa. A caminho do acampamento, 
porm, no resistiu  tentao de pegar tambm umas duas perdizes. No conseguiu acertar uma terceira. Lobo caou a sua, e Ayla deixou, dessa vez, que ele ficasse 
com ela.
    Resolveu que cozinharia todas as aves juntas, para comparar as duas espcies. Deixaria o que sobrasse para o dia seguinte. Comeou, ento, a pensar no recheio 
mais indicado. Se as aves estivessem em ninho poderia usar os prprios ovos delas. Mas usara gros outrora, quando morava com os Mamuti. Levaria muito tempo, no 
entanto, apanhar um nmero suficiente de gros. A tarefa era demorada e mais prpria para um grupo de pessoas. Alguns tubrculos de bom tamanho serviriam. Com cenouras, 
talvez, e cebolas.
    Pensando na refeio que ia preparar, a mulher no prestava muita ateno ao que a cercava, mas no podia deixar de perceber quando Huiin parou. A gua sacudiu
a cabea e relinchou, depois ficou absolutamente imvel, mas Ayla podia sentir a tenso do animal. Huiin tremia toda, e a mulher entendeu por qu.


___________________________________________________________________________

    Ayla, montada em Huiin, olhava direto para a frente, sentindo uma inexplicvel apreenso, um medo que crescia dentro dela e lhe dava um frio na espinha. Fechou 
os olhos e sacudiu a cabea para livrar-se da sensao. Afinal de contas, no havia nada a temer. Abrindo os olhos, viu, como antes, a grande manada de cavalos  
sua frente. O que havia de to ameaador num bando de cavalos?
    Muitos dos animais olhavam na sua direo, e a ateno de Huiin estava to intensamente concentrada naqueles membros da sua espcie quanto a deles nela. Ayla 
fez sinal a Lobo para que permanecesse junto da gua ao ver que ele tambm estava curioso e j se dispunha a ir investigar. Cavalos, afinal, so presa comum de lobos, 
e aqueles cavalos selvagens certamente no gostariam se ele chegasse muito perto.
    Ao observar a manada mais atentamente, no muito certa do que deveriam fazer, ela e Huiin, Ayla percebeu que se tratava, na verdade, de dois bandos distintos. 
Dominando o espao, estavam as guas, com suas crias, e Ayla sups que uma delas, a que estava agressivamente  frente das demais, fosse a lder.  retaguarda ficava 
a manada menor, de cavalos. Notou, de sbito, entre eles, um exemplar especial, de que no pde mais tirar os olhos: era o cavalo mais singular que jamais vira.
    Na sua maior parte, os equinos que ela conhecia eram variaes da cor de Huiin, o amarelo torrado, dito baio; alguns mais escuros, tendiam para o castanho, outros, 
mais claros, para o ouro desmaiado. O castanho profundo de Racer era incomum. Ayla no conhecia outro cavalo assim to escuro. Mas aquele que estava ali  sua frente
era estranho no sentido oposto. Jamais vira cavalo to claro. O garanho, adulto, bem formado, que se aproximava, lento e desconfiado, era imaculadamente branco!
    Antes de ver Huiin, o cavalo branco vinha mantendo os outros machos a distncia. Deixava claro que se no chegassem muito perto podiam ser tolerados. Como no 
era a estao do acasalamento para os cavalos, s ele tinha o direito de se misturar com as fmeas. A sbita apario de uma fmea estranha, no entanto, despertou 
seu interesse, e chamou igualmente a ateno dos outros.
    Os cavalos so, por natureza, animais sociveis. Gostam da companhia de outros cavalos. guas, em particular, tendem a formar alianas permanentes. Mas ao contrrio 
da maior parte dos animais que se congregam em rebanhos, em que as filhas ficam com as mes em grupos estreitamente unidos, na raa dos cavalos as manadas se formam 
com guas no-aparentadas. As fmeas jovens deixam em geral seu grupo natal ao atingir a plena maioridade, ou seja, por volta dos dois anos de idade. Existem, entre 
elas, hierarquias dominantes, com vantagens e privilgios para guas de melhor linhagem e seus descendentes, inclusive primazia no acesso  gua, por exemplo, ou 
s melhores reas de pastio  mas suas ligaes so cimentadas por cuidados mtuos com a toalete e com outras atividades igualmente amistosas.
    Embora eles se enfrentem, de brincadeira, enquanto potros, s quando os jovens machos se juntam aos machos inteiros adultos, aos quatro anos de idade,  que 
de fato comea o seu treinamento a srio para o dia em que tero de conquistar lutando o direito de cruzar com uma fmea. Embora eles se embelezem reciprocamente 
quando membros da horda dos solteiros', competir por predominncia  a atividade principal. As confrontaes, que comeam com empurres para c e para l, incluem 
defecaes e fungadelas rituais, e aumentam progressivamente, sobretudo na. poca do cio. Ento, empinaes, mordidas no pescoo e coices  na cabea, no peito, 
na cara  so comuns. S depois de vrios anos de associaes desse tipo os machos ficam habilitados a roubar guas jovens ou desalojar de seu posto um lder macho 
j estabelecido.
    Como fmea no-comprometida que se aventurara ao alcance deles, Huiin era objeto de intenso interesse por parte da manada de guas e do grupamento de machos 
celibatrios.
    Ayla no gostou da maneira pela qual o cavalo branco marchava para a sua montaria, altivo e seguro de si, como se estivesse a ponto de reivindicar alguma coisa.
     Voc no precisa mais ficar aqui, Lobo!  disse, dando-lhe o sinal que o libertava. Ficou observando a atitude de desafio e tocaia que ele de imediato assumiu.
Para Lobo, o que tinha ali era todo um rebanho de Racers e Huiin, com os quais queria brincar. Ayla estava convencida de que independente do que ele fizesse no
constitua perigo para os cavalos. Ele no poderia derrubar um animal daqueles sozinho. A tarefa demandaria uma alcateia inteira, e alcateias raramente atacam animais
sadios.
    Ayla instou com Huiin para que regressassem ao acampamento. A gua hesitou. Mas o hbito de obedecer  mulher foi mais forte que seu interesse pela manada. Comeou
a andar, mas a passo, e com relutncia. Mas ento Lobo investiu contra a manada. Divertia-se espalhando cavalo para todo lado. Ayla gostou daquilo. Desviava da sua 
Huiin a ateno animais.
    Quando chegou ao acampamento, tudo estava pronto para ela. Jondalar erigira os trs mastros para manter os alimentos que levavam fora do alcance da maior parte 
dos animais que poderiam interessar-se por eles. A barraca estava armada, o buraco na terra para o preparo das aves fora escavado e forrado de pedras, e ele separara 
algumas pedras maiores para lareira.
     Olhe s aquela ilha  disse, quando ela desmontou, mostrando-lhe uma formao alongada, que os sedimentos acumulados haviam criado no meio do rio, com ciperceas, 
e, at, algumas rvores.  H um bando inteiro de garas pousado l. Brancas e pretas. Vi quando aterrissaram  disse, com um sorriso satisfeito.  Fiquei torcendo 
para que voc chegasse em tempo. Era um espetculo digno de ser visto. Elas mergulhavam, erguiam vo, viravam cambalhotas. Fechavam as asas e caiam do cu como pedra. 
S na ltima hora desfraldavam as asas. Ao que me parece, demandam o sul. Devem partir ao alvorecer.
    Ayla olhou, do outro lado da gua, as grandes aves pernaltas, de bico longo e ar majestoso. Cuidavam de alimentar-se, andando ou correndo pela ilha ou na gua 
rasa, atacando tudo que se movesse em torno com bicos fortes: peixes, lagartos, rs, insetos, minhocas. Comiam, at, carnia, a julgar pela sofreguido com que se 
lanaram sobre os resto de uma carcaa de bisonte que o rio jogara na praia. As duas espcies eram muito semelhantes no aspecto geral, apesar da diferena de cor 
As garas-brancas tinham asas debruadas de preto, e havia mais delas que das outras; as garas-morenas tinham a parte inferior do corpo inteiramente branca, e estavam, 
na maioria, metidas na gua, ocupadas em pescar.
            Encontramos uma grande manada de cavalos na volta  disse Ayla, apanhando as ptrmigas e perdizes que trouxera.  Muitas guas e potras. Mas os machos 
andavam por perto, e o lder deles  branco.
     Branco?
     To branco quanto aquelas garas-brancas. Nem mesmo as pernas dele eram pretas  disse, desatando as correias da alcofa.  Ficar invisvel na neve.
     Branco  raro. Nunca vi um cavalo branco  disse Jondalar. Depois, lembrou de Noria e dos Ritos de Iniciao, e do couro de cavalo branco pendurado na parede 
atrs da cama nupcial, decorada com as cabeas vermelhas de pica-paus-carijs ainda imaturos.  Mas j vi o couro de um cavalo branco.
    Alguma coisa no tom da voz dele fez com que Ayla o encarasse. Ele sentiu o olhar dela, corou um pouco ao virar-se para remover a cesta da bagagem da garupa de 
Huiin, e achou-se no dever de explicar.
            Foi no curso da tal... cerimnia com os Hamudai.
     Os Hamudai so caadores de cavalos?  perguntou Ayla, ao dobrar o cobertor que usava no lombo do animal para montar. Apanhou, em seguida, as aves, e caminhou 
para a beira do rio.
     Bem, eles caam cavalos sim. Por qu?  perguntou Jondalar, caminhando ao seu lado.
     Voc se lembra de Mamute nos contando sobre a caa ao mamute branco? A coisa era muito sagrada para os Mamuti por serem eles os Caadores de Mamutes. Se os 
Hamudai usam um couro de cavalo branco nas suas cerimnias, talvez pensem que os cavalos so animais muito especiais. Foi o que pensei, Jondalar.
      bem possvel. Mas no ficamos com eles tempo suficiente sabermos, Ayla.
     Mas eles caam mesmo cavalos?  insistiu Ayla, comeando a depenar as aves.
            Sim. Estavam, alis, caando cavalos quando Thonolan os encontrou. No ficaram muito felizes com a nossa presena, de incio, por termos dispersado 
a manada que perseguiam. Mas como poderamos saber disso?
     Por precauo, porei o cabrestro em Huiin esta noite e vou amarr-la junto da barraca, Jondalar. Se h caadores de cavalos por perto, ser melhor mant-la 
bem perto de ns. Alm disso, no gostei nada da maneira pela qual aquele garanho branco foi na direo dela.
     Talvez voc tenha razo. Acho que vou prender Racer tambm. Mas que gostaria de ver aquele cavalo branco.
     Pois eu no. Mas voc est certo. Cavalos brancos so uma raridade  disse Ayla. As penas voavam porque ela as puxava com movimentos extremamente rpidos. 
Fez uma pausa, depois acrescentou:  Preto tambm  raro. Voc se lembra do que Ranec disse? Estou certa de que ele se inclua na histria, embora no fosse preto, 
mas apenas pardo.
    O homem sentiu uma pontada de cime  meno do nome do individuo com que Ayla quase vivera. E isso apesar do fato de ela ter preferido viver com Jondalar.
            Voc lamenta no ter ficado com os Mamuti e casado com Ranec?
    Ela se virou para encar-lo de frente, interrompendo para isso o trabalho que fazia.
     Voc sabe muito bem, Jondalar, que o nico motivo pelo qual prometi casar com Ranec foi ter pensado que voc no me amava mais. E eu sabia que ele me amava. 
Mas... sim, lamento, se me pergunta. Eu podia ter ficado com os Mamuti. E se no tivesse conhecido voc poderia at ser feliz com Ranec. Eu gostava dele, de certo 
modo, mas no da maneira como gosto de voc.
     Bem. Pelo menos  uma resposta honesta  disse ele, enrugando a testa.
     Eu podia ter ficado tambm com os Xaramudi, mas queria estar junto de voc. Se tem de voltar para o seu povo, ento devo acompanh-lo  continuou Ayla, tentando 
esclarecer as coisas. Notando a persistncia da ruga na testa, entendeu que aquela no era a resposta que ela esperava.
     Voc me fez uma pergunta, Jondalar. E quando me pergunta algo, tenho de dizer-lhe o que sinto. E mesmo que eu no pergunte nada, gostaria que dissesse se alguma 
coisa no est certa. No quero que aquela espcie de mal-entendido que houve entre ns no inverno passado se repita: eu no sabendo o que voc de fato queria dizer, 
voc recusando esclarecer-me, ou achando que eu estava sentindo algo sem me perguntar. Prometa, Jondalar, que ser sempre aberto comigo.
    Parecia to sria e falava com tanta franqueza, que ele deu um sorriso afetuoso.
     Prometo, Ayla. Eu tambm no quero passar outra vez por um tempo como aquele. No podia aguentar quando a via com Ranec. Principalmente por entender por que
qualquer mulher se interessaria por ele. Ranec era simptico e divertido. Era um grande entalhador, um verdeiro artista. Minha me, por exemplo, teria gostado dele. 
Ela gosta de artistas, de escultores. Se as coisas fossem diferentes, eu mesmo teria gostado dele. Ranec tinha muita coisa de Thonolan, de certo modo. No se parecia 
com os Mamuti, mas era como eles so. Aberto, confivel.
            Era um Mamuti  disse Ayla.  Tenho saudades do Acampamento do Leo. Tenho saudade das pessoas. No vimos muita gente nesta Jornada. Eu no sabia o 
quanto voc tinha viajado, Jondalar, nem quanta terra h. Tanta terra, e to pouca gente.
    Quando o sol ficou mais perto, as nuvens por cima das altas montanhas para as bandas do oeste se puseram nas pontas dos ps para abraar o orbe de fogo. E ficaram 
vermelhas de excitao. O brilho do sol se fundiu no brilho do cu em torno, depois se apagou. Jondalar e Ayla terminavam a refeio da tarde. Ela se levantou para 
guardar as aves que tinham sobrado. Assara deliberadamente mais do que podiam comer de uma s vez. Jondalar ps algumas pedras de cozinhar no fogo para que pudessem 
preparar o ch noturno.
            Estavam deliciosas, Ayla. Foi bom que voc tivesse sugerido este acampamento prematuro. Valeu a pena.
    Ayla levantou a cabea mas desviou o olhar para a ilha. E perdeu o flego, estupefata. Jondalar viu aquilo e, por sua vez, olhou.
    Diversos homens, armados de lanas, tinham sado da sombra e entrado no crculo de luz da fogueira. Dois deles vestiam mantos de crinas de cavalo, com a cabea 
seca ainda presa ao couro e usada como um elmo. Um deles lanou esse elmo para trs e avanou em direo a ele.
            Ze-lan-do-nii!  disse, apontando para Jondalar, alto e louro. Depois, bateu com a mo no peito.  Hamudai! Jeren!  Ria de orelha a orelha.
    Jondalar atentou para ele, e riu de volta.
            Jeren! Ser mesmo voc? Grande Me! No posso acreditar! E voc!
    O homem se ps a falar numa lngua ininteligvel para Jondalar tanto quanto a sua o era para Jeren. Mas os sorrisos de amizade eram entendidos pelos dois.
            Ayla!  disse Jondalar, fazendo-a avanar.  Este  Jeren, o caador Hamudai que nos deteve quando amos na direo errada, Thonolan e eu. No posso
crer nos meus olhos!
    Ambos ainda riam, com sincero deleite. Jeren olhou para Ayla, e seu sorriso se tornou de franca apreciao. Fez um sinal afirmativo para Jondalar.
            Jeren, esta  Ayla, Ayla dos Mamuti  disse Jondalar, formalizando as apresentaes.  Ayla, este  Jeren, do povo Haduma.
    Ayla estendeu as mos.
            Bem-vindo ao nosso acampamento, Jeren, do povo Haduma  disse.
    Jeren compreendeu a inteno, embora aquele gesto no fosse comum no seu povo. Ps a lana de volta num estojo que tinha s costas, tomou nas suas as mos da 
mulher, e disse:
     Ayla.
    Sabia que aquele era o nome dela, embora no tivesse entendido o resto das palavras. Bateu no peito outra vez, com fora.
     Jeren!  disse, e acrescentou algumas palavras incompreensveis.
    E logo deu sinais de apreenso. Vira o lobo que se aproximava da mulher. Sentindo a reao dele, Ayla se ajoelhou e ps um brao em torno do pescoo do animal. 
Os olhos de Jeren se arregalaram de surpresa.
     Jeren  disse a mulher, levantando-se e fazendo as mesuras de uma apresentao protocolar.  Este  Lobo. Lobo, este  Jeren, do povo Haduma.
            Lobo?  disse ele, com os olhos cheios ainda de apreenso.
    Ayla ps as mos diante do focinho de Lobo como que para deixar que ele sentisse o seu perfume. Depois, ajoelhou-se, ps o brao em torno do pescoo do lobo, 
demonstrando sua intimidade e ausncia de temor. Tocou, em seguida, a mo de Jeren, ps sua prpria mo no nariz do lobo outra vez, mostrando a Jeren o que queria 
dele. Hesitante, Jeren estendeu a mo para o animal.
    Lobo tocou-a com o nariz frio e recuou. Passara por cerimnias semelhantes de apresentao muitas vezes quando estavam com os Xaramudi, e pareceu entender a 
inteno de Ayla. Ela pegou na mo de Jeren e, de olhos fixos nele, guiou-a para a cabea do lobo. Queria que sentisse o plo e afagasse a cabea de Lobo. Quando 
Jeren a olhou, com ar de compreenso, e acariciou a cabea de Lobo por conta prpria, ela ficou tranquila.
    Jeren fez meia-volta e disse para os outros:
            Lobo!
    Apontava. Disse tambm outras coisas, proferindo, inclusive, o nome dela. Quatro homens entraram para o crculo de luz da fogueira. Ayla fez gestos de boas-vindas
e mandou que se sentassem.
    Jondalar, que a tudo assistia, sorriu, aprovando.
     Foi uma boa ideia, Ayla  disse.
            Voc acha que eles tm fome? Sobrou muito do jantar  disse.
     Por que voc no oferece a comida e v o que fazem?
    Ayla apanhou a bandeja, feita de marfim de mamute, que usara para servir as aves que acabavam de comer. Pegou depois algo que parecia um molho j murcho de feno 
e abriu-o, revelando uma ptrmiga inteira. Ayla ofereceu a bandeja a Jeren e aos outros. O aroma a precedeu. Jeren arrancou uma perna e se viu com um pedao tenro 
e suculento de carne na mo. O sorriso no seu rosto depois de prov-lo encorajou os demais.
    Ayla trouxe tambm uma perdiz, servindo o recheio de razes e gros num pequeno conjunto de tigelas e pratinhos, alguns tranados, outros feitos de marfim, e 
um de madeira. Deixou que os homens dividissem entre si a carne como quisessem, enquanto ela enchia uma grande tigela de madeira, que ela mesma fizera, com gua 
para o ch.
    Os homens pareceram muito mais  vontade depois da refeio, mesmo quando Ayla trouxe o lobo para farej-los. Todos ficaram sentaram sentados em volta do fogo 
com xcaras de ch nas mos, procurando comunicar-se alm do plano dos sorrisos de amizade e hospitalidade.
    Jondalar comeou.
     Haduma?  perguntou.
    Jeren abanou a cabea e ficou triste. Fez com a mo um gesto mostrando o cho que Ayla entendeu significar que ela retornara  Grande Me Terra. Jondalar tambm 
entendeu que a anci que ele aprendera a estimar se fora.
     Tamen?  perguntou.
    Sorrindo, Jeren sacudiu a cabea afirmativamente, de maneira exagerada. Depois, apontou para um dos circunstantes e disse alguma coisa que inclua o nome de 
Tamen. Um rapaz, pouco mais que um menino sorriu, e Jondalar viu nele uma certa semelhana com o homem que conhecera.
     Tamen, sim  disse Jondalar, sorrindo e concordando de cabea.  Filho, talvez neto, de Tamen. Gostaria que Tamen estivesse aqui conosco  disse a Ayla.  
Ele sabia um pouco de Zelandonii, e podamos conversar. Fizera uma grande viagem at l, quando jovem.
    Jeren olhou para o conjunto do acampamento, depois para Jondalar, e disse.
     Ze-lan-do-nii... Ton... Thonolan?
    Dessa vez foi Jondalar quem sacudiu a cabea e se mostrou entristecido. Depois, pensando no que o outro fizera, mostrou a terra. Jeren pareceu surpreso, mas
fez que sim, de cabea, e disse uma palavra que era uma pergunta. Jondalar no compreendeu e olhou para Ayla.
            Voc sabe o que ele est querendo dizer?
    Embora a linguagem no lhe fosse familiar, havia uma qualidade em todas as lnguas que ela ouvia que as aparentava. Jeren repetiu a palavra, e algo na sua expresso
ou entonao deu  mulher uma chave. Ela fechou a mo como uma garra e rugiu como um leo das cavernas.
    O som que fez foi to realista que os homens a encararam com um expresso de espanto e choque, mas Jeren entendeu. Ele perguntara como morrera Thonolan, e ela
lhe respondera. Um dos outros homens disse alguma coisa a Jeren. Quando Jeren respondeu, Jondalar ouviu outro nome conhecido, Noria. O homem que perguntara apontou
para Jondalar, sorrindo, depois para o seu prprio olho, e sorriu outra vez.
    Jondalar se emocionou. Talvez aquilo significasse que Noria tivera um beb de olhos azuis. Mas podia ser apenas uma aluso ao fato de que tinha conhecimento:
um homem de olhos azuis celebrara os Ritos de iniciao com Noria. No podia ter certeza. Os outros homens apontavam tambm para os prprios olhos e sorriam. Estavam
aludindo a uma criana de olhos azuis ou a Prazeres com um homem de olhos azuis?
    Pensou em proferir o nome de Noria e imitar com os braos o movimento de ninar um beb, mas depois olhou para Ayla e desistiu. No lhe contara nada sobre Noria
ou sobre a notcia que Haduma lhe dera no dia seguinte: a Me abenoara a cerimonia, e a moa teria um filho homem que se chamaria Jondal e com os olhos iguais aos
seus. Jondalar sabia que Ayla desejava um filho dele... ou do seu esprito. Como reagiria se soubesse que Noria j tinha um? No lugar de Ayla, ele teria cimes.
    Ayla fazia gestos indicando que os homens deviam dormir no acampamento, junto da fogueira. Vrios deles concordaram e se ergueram para ir buscar as peles de 
dormir. Tinham deixado suas coisas junto do rio antes de irem verificar se aquele fogo, cujo cheiro sentiam, era um fogo amigo. Esperavam que sim, mas no podiam 
estar certos disso. Quando Ayla os viu contornando a barraca e marchando para onde estavam os cavalos, correu para barrar-lhes o caminho. Ficaram olhando uns para 
os outros quando ela desapareceu no escuro e quando comearam a andar outra vez. Jondalar lhes indicou que esperassem. Eles sorriram e assentiram de cabea.
    Mas suas expresses denotaram temor quando Ayla reapareceu puxando os dois cavalos. Ela se postou entre os animais, procurando mostrar com gestos, inclusive 
os expressivos gestos da linguagem do Cl, que aqueles eram cavalos especiais. Teriam entendido? Nem ela nem Jondalar podiam ter certeza disso. Jondalar temeu que 
eles ficassem pensando que a mulher tivesse poderes mgicos para conjurar cavalos e tivesse chamado aqueles expressamente para que os caassem. Disse a Ayla que 
uma demonstrao talvez ajudasse.
    Apanhou uma lana na barraca e fez como se fosse atacar Racer. Ayla permaneceu barrando o caminho, com os braos cruzados no peito, a sacudir a cabea de forma 
enftica. Jeren coou a cabea e os outros homens pareceram perplexos. Finalmente, Jeren fez um gesto afirmativo, tirou uma de suas prprias lanas da bolsa em que 
as levava, nas costas, apontou-a para Racer, depois enterrou-a no cho. Jondalar no sabia se o homem pensava que Ayla lhes dizia para no caar os dois cavalos 
presentes ou todos os cavalos em geral, mas alguma coisa ficara entendida.
    Os homens dormiram em volta da fogueira, mas estavam de p aos primeiros clares do dia. Jeren disse algumas palavras a Ayla que Jondalar lembrou vagamente serem 
frmulas de apreciao da comida. O homem sorriu para ela quando Lobo o farejou outra vez e deixou que ele  afagasse sua cabea. Ela ainda procurou convid-los a 
comer com eles a refeio da manh, mas eles se foram rapidamente.
     Quisera saber a lngua dos Hadumai  disse Ayla.  Foi simptica a visita, mas no pudemos conversar.
     Sim, teria sido bom conversar  disse Jondalar. Desejava sinceramente saber se Noria tivera um filho e se ele nascera com olhos azuis.
     No Cl, diferentes cls usavam palavras na sua linguagem habitual que no eram sempre compreendidas por todos, mas todos conheciam a lngua universal dos gestos. 
A comunicao era possvel  disse Ayla.  Que pena que os Outros tambm no tenham uma lngua assim, auxiliar.
     Seria muito til, especialmente em viagens, mas  difcil para mim, imaginar uma lngua universal. Voc realmente pensa que os membros do Cl, onde quer que 
vivam, entendem a mesma linguagem gestual?  perguntou Jondalar.
     No  uma lngua que eles tenham de aprender. J nascem com ela, Jondalar.  to antiga que est na memria deles, e essa memria remonta ao comeo dos tempos. 
E voc nem pode imaginar a que distncia est isso de ns.
    Ela teve um calafrio de medo, lembrando-se da ocasio em que Creb, para salvar-lhe a vida, a levara com eles, contra toda a tradio. Pela lei no escrita do 
Cl, ele a devia ter deixado para morrer. Pensou na ironia da coisa. Quando Broud a amaldioou, desejando-lhe a morte, no deveria t-lo feito. No havia motivo 
para isso. Creb, ao contrrio, tinha um motivo: ela quebrara o tabu mais potente do Cl. Seu dever era puni-la Mas no o fizera.
    Comearam a desfazer o acampamento, guardando a barraca, as peles de dormir, utenslios, cordas e demais equipamentos nas cestas de bagagem, com a eficincia 
de uma rotina que dispensava palavras. Ayla enchia as bolsas de gua no rio quando Jeren e seus guerreiros voltaram. Com sorrisos e muitas palavras, que eram, obviamente, 
efusivos agradecimentos, os homens presentearam Ayla com um embrulho feito de couro de auroque. Abrindo-o, encontrou dentro um tenro peso de alcatra Era da anca 
de um bovdeo abatido de fresco.
     Sou-lhe muito grata, Jeren  disse Ayla, e lhe deu o formoso sorriso que fazia seu homem derreter-se de amor. Pareceu ter o mesmo efeito em Jeren, e Jondalar 
achou graa vendo a expresso bestificada na cara do homem. O caador levou um bom minuto para recuperar-se do deslumbramento. Ento se ps a falar com Jondalar, 
procurando comunicar-lhe com insistncia algo que considerava importante. Quando viu que no era compreendido, interrompeu o discurso para conferenciar com os companheiros. 
Finalmente, voltou-se para Jondalar.
     Tamen  disse, e comeou a caminhar para o sul, indicando que os seguissem.  Tamen  repetiu, chamando, e acrescentando palavras ininteligveis.
     Acho que quer que voc v com ele  disse Ayla  para ver esse homem que voc conhece. O que fala Zelandonii.
     Tamen. Zeland-do-nii. Hadumai  disse Jeren, chamando tambm Ayla..
            Ele deseja que o visitemos. O que acha?  perguntou Jondalar.
     Acho que  isso mesmo  disse Ayla.  Voc quer parar para essa visita?
     Teramos de voltar  disse Jondalar , e no sei bem at onde. Se os tivssemos encontrado mais para o sul, eu no me importaria de interromper a viagem por 
alguns dias, mas abomino a ideia de ir, agora que j estamos to adiantados.
    Ayla concordou.
     Ser preciso dizer-lhe isso, de algum modo.
    Jondalar sorriu para Jeren, depois abanou a cabea.
     Lamento. Mas temos de ir para o norte. Norte  repetiu, apontando naquela direo.
    Jeren pareceu angustiado, fez que no com a cabea, e fechou os olhos para pensar. Depois, aproximando-se deles, tirou um basto curto do cinto. Jondalar notou 
que o basto era esculpido. Sabia que vira um assim antes, e procurava lembrar-se onde fora, quando Jeren limpou um espao no cho e fez um risco na terra com a 
ponta do basto e outro cruzando o primeiro. Debaixo da primeira linha desenhou grosseiramente um cavalo. E na extremidade da segunda linha traou um crculo com 
raios a toda volta. Ayla olhou a figura mais de perto.
     Jondalar  disse, excitada.  Quando Mamute me mostrava smbolos e me ensinava o que eram, esse signo representava "sol".
    Jeren assentia vigorosamente. Em seguida apontou para o norte e fechou o cenho. Marchou para a extremidade norte da linha que traara, postou-se de frente para 
eles, cruzou os braos no peito como Ayla fizera para dizer-Ihes que no matassem Huiin e Racer. Por fim, fez um sinal negativo com cabea. Ayla e Jondalar se entreolharam 
e olharam outra vez para Jeren.
            Voc acha que ele est dizendo que no devemos ir para o norte?  perguntou Ayla.
    Jondalar comeou a entender o que Jeren queria.
     Ayla, no  que ele deseje apenas que a gente v para o sul, a fim de visit-los. Ele est tentando comunicar mais alguma coisa. Avisar-nos que  perigoso 
ir para o norte.
     Perigoso? O que poder haver no norte que seja perigoso para ns?  disse Ayla.
            Poderia ser a grande barreira de gelo?  disse Jondalar.
     Mas ns sabemos sobre o gelo. Caamos mamutes no limite do glaciar, com os Mamuti. Faz frio, sim, mas no  perigoso.
            A geleira se move  disse Jondalar , ela anda, embora leve nos, mas at arranca rvores com razes e tudo com a mudana das estaes. Mas no se move 
to depressa que a gente no possa sair do caminho.
            No ser o gelo, ento  disse Ayla.  Mas Jeren nos previne contra o norte, e parece muito preocupado.
     Acho que voc est certa, mas o que haver de to perigoso?  disse Jondalar.  s vezes, as pessoas que no viajam muito para fora do seu crculo imediato 
acham que o mundo para alm desses limites  perigoso... por ser diferente.
     No penso que Jeren seja homem de assustar-se com muita coisa  disse Ayla.
     Tenho de concordar com voc  disse Jondalar.  E, virando-se para o Haduma.  Jeren, queria muito compreend-lo.
    Jeren observara a reao deles. Percebeu pela expresso dos dois que haviam entendido o principal do seu aviso. Aguardava, agora, a resposta.
     Voc acha que devemos fazer meia-volta e ir falar com Tamen?  perguntou Ayla.
     Eu detestaria voltar a perder tempo. Temos de alcanar a geleira antes do inverno. Se prosseguimos agora, podemos fazer isso facilmente, e ainda teremos algumas 
folga. Mas se acontece o imprevisto e nos atrasamos, ento ser primavera, o gelo derrete, e a passagem fica muito perigosa  disse Jondalar.
            Ento continuamos para o norte  disse Ayla.
            Sim. Mas redobrando de cuidados. Ah, como eu gostaria de saber que perigos nos ameaam!  disse Jondalar. E olhando para Jeren de novo:  Jeren, meu 
amigo, obrigado pelo aviso. Teremos cuidado. Mas precisamos seguir viagem.  Dito isso, apontou o sul, fez que no
com a cabea, e apontou o norte.
    Jeren tentou protestar ainda, abanando a cabea, mas finalmente desistiu. Fizera o possvel. Foi falar com o homem de capa e capacete de cavalo e voltou, dizendo 
que iam embora.
    Ayla e Jondalar acenaram. Jeren e seus caadores partiram. Ento o homem e a mulher acabaram de empacotar seus pertences e, um pouco preocupados, rumaram para 
o norte.
     medida que avanavam para a faixa mais setentrional da vasta regio central de pastagens, podiam ver que o terreno  frente mudava. As plancies chatas cediam 
lugar a colinas escarpadas. As elevaes ocasionais que interrompiam as plancies eram ligadas, embora mergulhassem parcialmente em alguns pontos, a grandes blocos 
de rocha sedimentar deslocada e fraturada, que corria, como uma espinha dorsal irregular, de nordeste para sudoeste atravs das plancies. Erupes vulcnicas relativamente 
recentes haviam coberto as elevaes com solos frteis, que alimentavam florestas de espruces, pinheiros e larios nas curvas de nvel mais altas, com btulas e 
salgueiros nas encostas mais baixas. O flancos secos e protegidos revestiam-se de macega e capim-da-estepe.
    Quando comearam a subir as colinas, viram-se com frequncia obrigados a desviar-se de buracos profundos ou a contornar formaes que bloqueavam o caminho. Ayla 
achou a terra mais deserta. Mas como estava frio, imaginou que talvez a mudana de estao fosse responsvel por essa impresso. Olhando do alto, ganharam uma nova 
perspectiva da regio que tinham atravessado. As poucas rvores decduas e mesmo os arbustos estavam j sem folhas, mas a plancie central cobria-se com o outro 
poento da forragem seca, mas ainda de p, que alimentaria multides de animais durante o inverno.
    Viram muitos deles, pastando, em bando ou solitrios. Os cavalos pareciam predominar, achou Ayla, mas talvez por estar mais cnscia deles que de outros bichos. 
Havia tambm veados-vermelhos, e, principalmente, nas estepes mais setentrionais, renas. Os bisontes comeavam a congregar-se em grandes manadas e a rumar para o 
sul. Durante um dia inteiro, esses grandes animais corcovados, de imensos chifres pretos, passaram incessantemente num grosso tapete ondulante. Ayla e Jondalar sofreavam 
muitas vezes as montarias para v-los. A poeira que erguiam pairava por cima deles como um plio, escondendo-os. A terra tremia com o tropel dos cascos, e o estrpito 
combinado de patas, grunhidos e berros era como um trovo.
    Viam menor nmero de mamutes do que antes. Em geral se dirigiam para o norte. Mesmo a distncia, esses gigantescos elefantes lanudos chagavam a ateno. Quando 
no so tangidos, pelas exigncias da reproduo, os mamutes machos tendem a formar pequenos bandos com pouco companheirismo. Ocasionalmente, um mamute se juntava 
a uma horda de fmeas e com ela viajava por algum tempo. Mas sempre que os viajantes encontravam um indivduo solitrio era, invariavelmente, macho. As grandes manadas 
permanentes so constitudas de fmeas estreitamente aparentadas: uma av, a velha e astuta matriarca, investida do comando, e por vezes, uma irm ou duas, com as 
filhas e netas. As manadas de fmeas eram fceis de identificar porque as defesas eram, em geral, menores e menos encurvadas que as dos machos, e havia sempre filhotes 
misturados aos animais adultos.
    Embora igualmente impressionantes  vista, os rinocerontes lanudos eram mais raros e menos sociveis. No se grupavam, geralmente, em hordas. As fmeas ficavam 
em famlia, e os machos, a no ser na poca do acasalamento, viviam solitrios. Nem mamutes nem rinocerontes,  exceo dos indivduos muito velhos ou muito jovens, 
tinham muito a temer de caadores de quatro pernas, inclusive do leo. Os machos, principalmente, podiam viver sozinhos. J as fmeas precisavam de companhia, para 
a proteo dos filhotes.
    O boi-almiscarado lanudo, menor, com aspecto de bode, tambm era gregrio por consideraes de defesa. Quando atacados, os bois adultos se juntavam numa formao 
circular de falange, olhando para fora, e mantendo os filhotes no meio. Umas poucas camuras e uns poucos cabritos-monteses fizeram aparies espordicas quando 
Jondalar e Ayla escalaram patamares mais altos das colinas. Esses animais muitas vezes desciam das alturas com a aproximao do inverno.
    Inmeros animais de pequeno porte atravessavam o inverno em segurana, metidos nas suas tocas profundas, rodeados de estoques de alimentos armazenados para esse 
fim: sementes, nozes, bulbos, razes, e, no caso dos lagmios, de feixes de feno empilhados depois de cortados e secados ao sol. Os coelhos e as lebres mudavam de 
colorao. No se punham brancos, mas de um mosqueado mais claro. No bosque de um outeiro viram, at, um castor e um esquilo arborcola. Jondalar utilizou seu propulsor 
de lanas para pegar o castor. A carne desse roedor  saboroso e sua cauda gorda  deliciosa e eles a comeram em separado, assada no espeto.
    Empregavam, em geral, para a caa maior, os arremessadores que Jondalar inventara. Tanto ele quanto Ayla eram peritos no seu uso, mas ele tinha mais fora e 
podia alcanar mais longe. Ayla muitas vezes derrubava os animais pequenos com a funda.
    No costumavam caar lontras nem texugos, cangambs, martas mas viam que todos esses animais eram abundantes na regio. Os carnvoros   raposas, lobos, linces, 
felinos grandes de vrias espcies  alimentavam-se da caa menor ou de herbvoros. Embora poucas vezes pescassem, ele e Ayla, nessa etapa da Jornada, Jondalar sabia 
da existncia de peixes de grandes dimenses no rio, inclusive perca, lcio e carpa  das grandes.
     tardinha, viram uma caverna com uma enorme boca e decidiram investigar. Ao se aproximarem dela, os cavalos no deram mostras de nervosismo, o que tomaram como 
um bom sinal. Lobo farejou com interesse quando entraram. Estava naturalmente curioso, mas em nenhum momento ficou de plo eriado. Vendo o comportamento despreocupado 
dos animais, Ayla se tranquilizou. A caverna estava deserta. Decidiram passar a noite ali.
    Depois de acender o fogo, fizeram um archote para explorar um pouco mais fundo. Logo na entrada havia sinais de que a caverna j fora ocupada. Jondalar achou 
que os arranhes na parede podiam ter sido feitos por um urso ou um leo. Lobo cheirou excrementos, mas to velhos e secos que dificilmente se poderia dizer de que 
animal provinham. Encontraram alguns ossos grandes, de perna, rodos pela metade. A maneira como estavam partidos e as marcas de dentes deram a Ayla a convico 
que haviam sido quebrados por hienas das cavernas, com suas fortes mandbulas. Estremeceu de repugnncia  ideia.
    As hienas no eram piores que outros animais. Lanavam-se sobre as carcaas dos que tinham morrido naturalmente ou haviam sido mortos por carnvoros maiores. 
Mas todos os predadores no faziam o mesmo? Lobos, lees, homens? O dio que Ayla sentia por hienas era, portanto, desarrazoado. Para a mulher elas representavam 
o que havia de pior no reino animal.
    A caverna no fora usada recentemente. Todos os vestgios de ocupao eram antigos, mesmo o carvo num buraco raso. Ayla e Jondalar penetraram at uma certa 
distncia, mas a caverna parecia no ter fim e, a no ser na entrada, clara e seca, no havia evidncia de uso. As colunas de pedra que subiam do cho ou desciam 
do teto e, s vez, encontravam-se a meio caminho eram os nicos habitantes do interior, escuro e mido.
    Ao dobrarem uma volta, pensaram ter ouvido gua correndo e resolveram voltar. Sabiam que a tocha improvisada no duraria muito e nenhum dos dois queria perder 
de vista o arco de tnue luz da entrada. Voltaram apalpando os muros de calcrio e se alegraram ao rever o ouro bao e fanado da grama seca e a luz brilhante que 
debruava de ouro, no cu, as nuvens para o lado do poente. Penetrando mais profundamente nas terras altas, ao norte da grande plancie central, Ayla e Jondalar observaram 
muitas outras alteraes na paisagem. O terreno mostrava-se todo esburacado de grutas, cavernas, sumidouros, que iam desde depresses rasas, circulares, cobertas 
de relva, at desnveis inacessveis, de grande profundidade. Era uma topografia to peculiar que os dois se sentiam vagamente inquietos. Embora os cursos dgua 
superficiais e os lagos fossem raros, ouviam s vezes o misterioso e soturno rumor de rios subterrneos.
    Criaturas desconhecidas dos mares primevos e quentes eram a causa daquela configurao estranha e imprevisvel. No curso de milnios sem conta, o soalho dos 
mares se cobriu com suas carapaas e esqueletos. Depois de um nmero ainda maior de ons, o sedimento de clcio endureceu, elevou-se por movimentos conflitantes 
da crosta, e se converteu em pedra calcria, em rochas constitudas essencialmente de carbonato de clcio No subsolo subsolo de vastas extenses de terra, muitas 
das cavernas existentes se formaram, ento de calcrio, porque, dadas as condies exigidas, essa rocha dura, sedimentria, se dissolve.
    Em gua pura, ela  dificilmente solvel, mas basta que a gua seja ligeiramente cida para que isso acontea. Nas estaes mais quentes, e quando os climas 
eram mais midos, a gua que circulava no subsolo, rica em cido carbnico das plantas e carregada de dixido de carbono, dissolveu grandes quantidades dessa rocha.
    Correndo ao longo de plancies estratificadas e descendo por fendas diminutas nas junes verticais das grossas camadas de pedra calcria, a gua do solo foi 
gradualmente alargando e aprofundando as fissuras. Escavou pisos dentados e intricados sulcos ao levar embora o calcrio dissolvido, que escorreu em infiltraes 
e espirrou em fontes. Forada a empoar-se em nveis mais baixos pela fora da gravidade, a gua acdica alargou fraturas subterrneas em covas e grutas, que se 
transformaram em cavernas e canais, em que se abriam estreitas chamins verticais. Esses canais se juntavam, por vezes, com outros, para formar completos sistemas 
fluviais subterrneos.
    A dissoluo de rochas abaixo do nvel do solo teve efeito profundo sobre o solo. E a paisagem, dita karate, passou a exibir caractersticas incomuns e distintivas. 
 medida que as cavernas se alargavam e seu topo aproximava da superfcie, elas afundavam, criando sumidouros de paredes abruptas. Restos de tetos de cavernas derrudas 
formaram pontas naturais no alto. Correntes e rios superficiais desapareciam de vez em quando em sumidouros, deixando secos, em cima, vales formados anteriormente 
por rios.
    A gua comeava a escassear. A gua corrente logo caa em cavidades e caldeires rochosos. Mesmo depois de uma pesada precipitao, a gua desaparecia quase 
instantaneamente, sem deixar regatos na superfcie. Um dos nossos viajantes teve de ir ao fundo de um desses sumidouros para conseguir o precioso fluido. Em outra 
ocasio, a gua surgiu de sbito em uma nascente, jorrou por algum tempo, depois desapareceu outra vez no seio da terra.
    O terreno era maninho e pedregoso, com uma fina camada de solo superficial a expor a rocha subjacente. A vida animal tambm escasseava. A no ser pelo muflo, 
com seus casaces de inverno de l bem grossa e encaracolada, e seus chifres espiralados, os nicos animais que eles viram foram umas poucas marmotas. Esses bichos, 
espertos e rpidos, conseguiam escapar aos seus muitos predadores. Fossem eles lobos raposas rticas, falces ou guias-reais, um assovio agudo de uma sentinela 
bastava para faz-los entrar correndo em pequenas tocas e grutas.
    Em vo Lobo tentava peg-las. Mas como cavalos de pernas compridas no lhes pareciam normalmente perigosos, Ayla conseguiu derrubar algumas com a funda. A carne 
desses pequenos roedores peludos engordados para a hibernao prxima, parecia com a de coelho. Mas eram animais pequenos. Pela primeira vez desde o vero, Ayla 
e Jondalar se viram obrigados a pescar para o jantar no Rio da Grande Me.
    Prevenidos por Jeren, Ayla e Jondalar viajavam com extremo cuidado atravs da paisagem karst, com suas estranhas formaes de cavernas e buracos. Mas a familiaridade 
com ela acabou por dissipar em parte a apreenso que, de comeo, tinham sentido. Andavam a p, naquele dia, para descansar os cavalos. Jondalar puxava Racer com 
rdea longa, mas deixava que ele pastasse, de tempos em tempos, um pouco da grama esparsa e seca. Huiin fazia o mesmo, mascando um pouco de capim, depois seguindo 
Ayla, embora esta no estivesse usando o cabresto.
            Fico pensando se o perigo a que Jeren se referia era esta terra spera, cheia de buracos  disse Ayla.  No gosto nada daqui.
            Eu tambm no. No imaginava que seria assim  disse Jondalar.
     Mas voc no esteve aqui antes? Imaginava que tinha vindo por este caminho  disse a mulher, surpresa.  Pensava ter ouvido de voc que acompanhara o Rio da 
Grande Me.
     Sim, ns acompanhamos o rio, mas sempre pela outra margem. S o atravessamos muito mais ao sul. Achei que seria mais fcil ficar nesta margem agora, na volta, 
e estava tambm curioso de conhec-la. O rio faz uma volta muito fechada no longe deste ponto. Estvamos indo para leste daquela vez, eu e Thonolan, e fiquei intrigado 
com as elevaes que foravam a gua para o sul. Esta  a nica oportunidade que jamais terei na vida para v-las.
     Voc me devia ter dito isso antes.
     Que diferena faz? Ns continuamos a acompanhar o rio.
            Mas eu pensava que voc estava familiarizado com esta rea. E no sabe mais sobre ela do que eu mesma.
    Ayla no poderia dizer por que aquilo a aborrecia tanto, mas na verdade contara com ele para saber o que os esperava. E agora ele no sabia nada. Aquilo a deixava 
nervosa. E o lugar era muito estranho.
    Caminhavam, to ocupados com essa conversa que j tendia para uma discusso, que mal atentavam para onde iam. De chofre, Lobo, que trotava ao lado de Ayla, ladrou 
e roou-lhe a perna. Ambos olharam para ver do que se tratava e, por puro instinto, pararam. Ayla sentiu uma pontada de terror e Jondalar empalideceu.

24
___________________________________________________________________________

    Ficaram olhando para o terreno  frente e no viram nada. A terra simplesmente no estava l. Tinham chegado, por inadvertncia,  beira de um precipcio. Jondalar 
sentiu o costumeiro aperto nas entranhas ao olhar para o abismo, mas se surpreendeu ao ver, no fundo, uma campina lisa e verdejante, cortada por um riacho.
    O fundo de grandes sumidouros era, de regra, coberto por uma espessa camada de solo, o resduo insolvel do calcrio. Alguns dos sumidouros mais fundos se juntavam 
e abriam em depresses alongadas, criando vastas reas de terra muito abaixo da superfcie normal. Com material orgnico e gua, a vegetao embaixo era luxuriante 
e convidativa. Infelizmente, nenhum dos dois podia ver como chegar quele verde prado no fundo do precipcio.
     Jondalar, alguma coisa est errada com este lugar  disse Ayla.   to rido e seco que nada ou quase nada pode viver aqui. E l embaixo, vemos uma bela campina 
com rvores e um rio. Mas  impossvel alcan-la. Um animal que o tentasse morreria da queda.  tudo misturado. No me parece certo.
     Sim. Talvez voc tenha razo. Talvez tenha sido isso o que Jeren nos quis dizer. No h muita caa, e o lugar em si  perigoso. Jamais conheci lugar em que 
 preciso caminhar atentando para o risco de cair num precipcio.
    Ayla se curvou, pegou a cabea de Lobo nas mos e encostou a testa na dele.
            Muito obrigada, Lobo, por nos ter prevenido quando no prestvamos ateno  disse. Ele ganiu e lambeu-lhe o rosto, com afeto.
    Recuaram, e contornaram o obstculo com os cavalos, sem conversar quase. Ayla j nem se lembrava da discusso que quase haviam tido. Pensava apenas que no podiam 
nunca ter estado to distrados que no vissem onde pisavam.
    Continuaram rumando para o norte. O rio  esquerda deles corria atravs de uma garganta que ficava a cada passo mais profunda, com altos paredes rochosos. Jondalar 
se perguntava se deveriam descer e acompanhar de perto o curso d'gua ou ficar nas alturas em que se encontravam. Alegrava-se por seguirem o curso d'gua sem tentar 
passar para a outra margem. Em vez de vales com encostas relvosas e largas plancie, aluviais, nas regies karst os grandes rios que podiam ser vistos da superfcie 
tendiam a correr em gargantas de lados abruptos, calcrios.  Por difcil que fosse usar rios como guias numa viagem daquelas sem ter margens por onde acompanhar 
seu curso, mais difcil ainda seria atravessa-los.
    Lembrando a grande garganta mais ao sul, com longos trechos em que tambm no havia barrancas praticveis, Jondalar decidiu ficar no planalto. Continuaram a 
subir, portanto. E ele viu, com alvio, uma longa e fina torrente que se precipitava no rio daquelas alturas. Ficava na outra margem, mas servia para mostrar que 
havia gua nas elevaes embora a maior parte dela escoasse pelas fendas do karst.
    Mas karst era tambm paisagem com uma profuso de cavernas. To frequentes, na verdade, que Ayla, Jondalar e os cavalos passaram as duas noites seguintes protegidos 
do tempo por paredes e abbadas de pedra. No precisaram armar a barraca uma s vez. Depois de examinar um sem-nmero de cavernas, aprenderam a reconhecer as que 
mais lhes convinham.
    Embora cavernas subterrneas e alagadas continuassem a aumentar de tamanho, aquelas em que se podia entrar, junto da superfcie, j no eram to grandes. Ao 
invs, seu espao interior diminua, por vezes drasticamente, em condies gerais de chuva, embora pouco mudassem nos dias secos. Algumas cavernas s davam acesso 
nesses dias; enchiam-se de gua quando chovia forte. Algumas, embora sempre abertas, tinham rios correndo pelo piso. Os viajantes procuravam cavernas secas, em terreno 
mais elevado, mas fora a gua, ajudada pelo calcrio, que modelara e esculpira todas elas.
    gua de chuva. Penetrando devagarinho pelas rochas do teto, a gua absorvia o calcrio dissolvido. Cada pingo de gua calcria, cada gota de umidade do ar, era 
saturado de carbonato de clcio em soluo, que era depositado de novo na caverna. Embora habitualmente branco,o mineral endurecido podia ficar translcido e de 
extrema beleza, mas tambm mosqueado de cinza ou levemente tingido de vermelho ou ocre. Criavam-se pisos de travertino, e drapejamentos imveis de pedra afestoavam 
os muros. Estalactites pendiam dos tetos e procuravam, gota a gota, ligar-se aos estalagmites que cresciam lentamente do solo. Alguns j se haviam juntado e formavam 
colunas finas, que engrossariam com o tempo, no ciclo sempre renovado da vida na Terra.
    Os dias iam ficando mais frios e ventosos, e Ayla e Jondalar se felicitavam com a prevalncia das cavernas que serviam como abrigo. Em geral verificavam, antes 
de entrar, se elas no eram ocupadas por habitantes de quatro pernas, mas logo viram que podiam contar com os sentidos dos seus companheiros de viagem para escaparem 
aos perigos. Conscientemente ou no, eles dependiam do cheiro de fumaa para saber se havia ocupantes humanos  o homem  o nico animal que usa fogo , mas no 
encontraram ningum. Mesmo as outras espcies animais eram raras.
    Em consequncia, ficaram surpresos quando se lhes deparou uma regio rica em vegetao, pelo menos se comparada com o resto da paisagem nua e pedregosa. O calcrio 
no era sempre o mesmo. Variava muito segundo a maneira pela qual se dissolvia, e na proporo em que era insolvel. Como resultado, havia reas frteis de karst 
calcrio, com prados e bosques crescendo  margem de rios normais, de superfcie. Cavernas e rios subterrneos ainda existiam na rea, mas eram agora em menor nmero.
    Quando encontraram um rebanho de renas pastando num campo de feno  seco mas ainda de P , Jondalar sorriu para Ayla, depois sacou do seu propulsor de lanas. 
Ayla fez que sim com a cabea e mandou que Huiin acompanhasse o homem e seu cavalo. Sem nada em torno, salvo uns poucos animais de pequeno porte, e com o rio longe, 
no fundo da garganta, no podiam pescar. Vinham recorrendo, essencialmente, para subsistir, s suas raes de comida desidratada, partilhando essa comida inslita 
com o lobo. Os cavalos passavam mal. O capim ralo que crescia naquele solo delgado mal era suficiente para eles.
    Jondalar cortou a garganta da pequena fmea de antlope que tinham matado para que o sangue escorresse. Depois iaram a carcaa para o barco ligado ao tren 
e procuraram um lugar para acampar. Ayla queria secar parte da carne e clarificar a gordura de inverno do animal. Quanto a Jondalar, antecipava o prazer de um bom 
pernil, de um lombo assado, de um pedao macio de fgado. Pensavam demorar-se ali um dia ou dois, principalmente por terem aquela bela campina  mo. Os cavalos 
precisavam pastar. Lobo descobrira uma abundncia de animaizinhos, ratos-calungas, lemingues e lagmios, e sara para explorar a vizinhana e caar.
    Quando viram uma caverna encravada num flanco de colina, foram correndo para ela. Era menor do que desejavam, mas parecia suficiente. Desataram os mastros, e 
carregaram-nos eles mesmo para cima. Descarnaram os cavalos, para que fossem gozar do prado. Puseram a bagagem na caverna, depois saram, cada qual para seu lado, 
a fim de recolher lenha e estrume seco.
    Ayla fazia planos para uma refeio de carne fresca e j escolhia mentalmente os acompanhamentos. Colheu sementinhas e gros dos capins do prado, e tambm as 
sementes pretas de uma fedegosa que nascia junto dgua , um pouco ao norte da caverna. Quando voltou da sua expedio, Jondalar adiantara o fogo, e ela lhe pediu 
que fosse encher as bolsas de gua no riacho.
    Lobo voltou antes do homem, mas quando se aproximou da caverna , arreganhou os dentes e fungou. Ayla sentiu os cabelos da nuca se eriarem.
     O que foi, Lobo?  disse, preparando automaticamente a funda e uma pedra, apesar de ter tambm o arremessador de lanas  mo. O lobo entrou  devagarinho na 
caverna, rosnando do fundo da garganta. Ayla o seguiu de perto, baixando a cabea para passar pela porta. Desejaria ter um archote, mas seu nariz lhe dizia o que 
os olhos no podiam ver. Fazia muito tempo que no respirava aquele odor, mas jamais o teria esquecido. E de repente a memria lhe trouxe aquela primeira vez, j 
to remota.
    Eles estavam nos contrafortes das montanhas, no muito longe da reunio dos Cls. Seu filho vinha escarranchado nela, preso pelo xale de carregar criana. Embora 
ela fosse jovem e uma dos Outros, ocupava na coluna de marcha a posio que cabia a uma curandeira. Todos tinham parado e olhavam o monstruoso urso da caverna que 
coava, indiferente, as costas numa casca de rvore.
    Embora o gigantesco animal, duas vezes maior que qualquer urso escuro da sua espcie, fosse seu totem mais venerado, os jovens do Cl de Brun jamais tinham visto 
um. No havia um s exemplar de resto nas montanhas em que moravam, embora muitas ossadas dessem testemunho de que em priscas eras existira. Pelos poderes mgicos 
que tinham, Creb recolhera os poucos tufos de plo deixado pelo urso na rvore quando se fora, restando apenas, na esteira, aquele cheiro inconfundvel.
    Ayla chamou Lobo e saiu sem fazer o menor rudo. Viu que tinha a funda na mo e enfiou-a na cintura com uma careta. De que serviria uma funda contra um urso 
das cavernas? Rejubilava-se de que ele j tivesse embarcado no seu sono comprido e no tivesse sentido a intruso. Lanou rapidamente terra na fogueira e apagou-a 
tambm com os ps. Depois, apanhou a alcofa e procurou ganhar distncia da caverna. Felizmente no tinham desempacotado muita coisa. Voltou para apanhar a bagagem 
de Jondalar, depois arrastou o tren sozinha. Acabava de pegar outra vez a prpria bagagem para carreg-la ainda mais longe quando Jondalar surgiu com as bolsa d'gua 
cheias.
            O que est fazendo, Ayla?
            H um urso naquela caverna  disse ela. E vendo sua apreenso, acrescentou:  Ele j comeou seu sono de inverno, acho eu, mas s vezes eles despertam 
se algum os incomoda, se  logo no comeo do frio. Pelo menos, assim ouvi dizer.
            Quem disse?
            Os homens do Cl de Brun. Eu ficava escutando quando eles falavam de caa... s vezes.  E riu.  No s s vezes. Escutava sempre que podia,
principalmente 
depois que comecei a praticar com a funda. Os homens em geral no fazem caso de uma menina ocupada com suas prprias coisas na vizinhana deles. Eu sabia que jamais
me ensinariam o que quer que fosse. Ouvir-lhes as histrias era, ento, a nica maneira de aprender. Pensei que talvez se zangassem se soubessem o que eu estava 
fazendo, mas s muito mais tarde fiquei sabendo como o castigo era severo.
            Bom, ningum deve entender mais de urso que o Cl, que  do prprio  disse Jondalar.  Voc acha seguro ficar por aqui?
            No sei. Mas eu no gostaria de ficar.
     Por que no chama Huiin, ento? Ainda  dia, podemos encontrar outra rea para acampar antes que escurea.
    Depois de passar a noite na barraca, em campo aberto, partiram cedo na manh seguinte, querendo pr ainda maior distncia entre eles e o urso da caverna. Jondalar 
no quis perder tempo secando a carne e convenceu Ayla de que estava fazendo frio. A carne no se estragaria. Queria sair logo daquela regio. Onde h um urso em 
geral h outros.
    Mas quando chegaram ao topo da cordilheira, pararam. O cu estava limpo, e o ar  revigorante. E a vista era espetacular. Para leste elevava-se uma montanha mais 
baixa que a deles, mas coberta de neve. Anunciava a cadeia oriental, mais prxima agora, que se encurvava em torno deles. Embora no fossem excepcionalmente notveis, 
as montanhas cobertas de gelo dessa srie alcanavam grandes altitudes mais para cima, erguendo-se de modo a formar, no horizonte, uma linha de picos denteados de 
um branco levemente anilado, contra o cu de purssimo azul.
    As montanhas boreais estavam no cinturo mais externo de um grande arco. Os viajantes estavam no arco interior da mesma formao, no sop de uma cadeia que os 
envolvia e que se estendia atravs da antiga bacia que formava a plancie central. O grande glaciar, aquela massa densamente comprimida de gelo slido que, vindo 
do norte, cobrira quase uma quarta parte de todas as terras, terminava num gigantesco muro que ficava logo atrs dos picos que eles tinham diante dos olhos. Para 
noroeste, as elevaes eram mais modestas, mas, por estarem prximas, dominavam o quadro. Tremeluzindo na imensa distncia, o gelo glacial podia ser entrevisto com 
um plido, remoto horizonte. Para o lado do poente, a cadeia de montanhas, muito mais elevada, se perdia nas nuvens.
    Era um cenrio magnfico, mas a vista de tirar o flego ficava mais perto deles. Logo abaixo de onde se encontravam, na garganta profunda. o Rio da Grande Me 
mudara de direo. Vinha, agora, do oeste. Contemplando-o do alto, Ayla e Jondalar sentiram que os dois tambm tinham chegado a um ponto crucial da sua Jornada.
     A geleira que temos de atravessar fica a oeste daqui  disse Jondalar, num tom distante que combinava com os seus pensamentos , mas vamos acompanhar o Rio 
da Grande Me, e ele vai virar um pouco para noroeste e, de novo, para o sudoeste, antes que o alcancemos. No  uma geleira descomunal e, a no ser por uma certa 
regio, mais alta, a nordeste,  quase plana uma vez que a gente a tenha escalado, como um grande plat feito de gelo. Passado esse obstculo, rumamos bem rpido
para sudeste uma vez mais, mas, essencialmente, daqui por diante, nossa direo  o ocidente, at em casa.
    Rompendo atravs da formao de rochas calcrias e cristalinas, o rio, como se hesitasse, ou no soubesse resolver por onde ir, virava para norte, e logo para
sul, e outra vez para norte, formando uma ala, antes de, finalmente, decidir-se pelo sul, atravs da plancie.
    Aquele  o Rio da Grande Me?  perguntou Ayla.  Quero dizer,  ele mesmo, todo, e no apenas um canal?
      ele sim, inteiro.  ainda um rio de propores respeitveis, se bem que no se compare com o que j vimos.
     Ns o acompanhamos, ento, j faz bastante tempo. Eu estava acostumada a v-lo to mais cheio quando no se dividia, que pensava estarmos seguindo agora um 
canal. J atravessamos simples afluentes com maior volume d'gua que isso  disse Ayla, um pouco decepcionada ao ver que aquele enorme rio se tornara um curso d'gua 
como os outros.
     Estamos muito no alto. Ele parece diferente daqui. H mais nele ainda do que voc imagina  disse Jondalar.  Temos alguns lagos afluentes por vadear, e haver 
momentos em que o Rio da Grande Me se dividir em canais como antes, mas  verdade que vai ficando sempre menor.  Jondalar olhou para o poente durante um minuto 
e acrescentou:  Estamos apenas no comeo do inverno. Alcanaremos a geleira em tempo... se nada nos atrasar.
    Os viajantes viraram para oeste com a alta serrania, acompanhando a curvatura mais externa do rio. A elevao continuava a acentuar-se ao norte do Rio da Grande 
Me at que se viram diretamente acima do pequeno meandro do sul. A queda para oeste era quase vertical, e eles seguiram para o norte, descendo por uma encosta menos 
ngreme, de vegetao rasteira esparsa. No fundo, um pequeno afluente que rodeava a base da majestosa elevao do nordeste abrira uma garganta. Os dois acompanharam 
o rio, contra a corrente, at acharem um vau. O terreno era ondulado na margem oposta, e eles cavalgaram ao longo do rio at alcanarem o Rio da Grande Me outra 
vez. Depois rumaram, como antes, para oeste.
    Na vasta plancie central havia apenas poucos afluentes, mas atravessavam agora uma rea onde muitos rios e torrentes vindas do norte alimentavam profusamente 
o Rio da Grande Me. Encontraram, quando o dia j ia avanando, um afluente mais importante, e molharam as perneiras, atravessando-o. No era como cruzar um rio 
no vero. No importava ficarem um pouco molhados, se fazia calor. Mas agora a temperatura chegava ao ponto de congelamento, de noite. A gua gelada os incomodou 
tanto que resolveram acampar na margem oposta para se aquecer e secar.
    Continuaram para o ocidente. Depois de passarem o terreno acidentado, chegaram outra vez  plancie, um campo relvoso e encharcado, mas no como os do lado da 
foz. Os solos, agora, eram cidos, e mais alagadios que pantanosos, com charnecas de esfagno. Em certos terrenos, o musgo compactava-se em turfa. Descobriram que 
a turfa era inflamvel quando um dia, inadvertidamente, fizeram a fogueira num terreno em que ela florava, nua e seca. No dia seguinte apanharam alguma turfa para 
acampamentos futuros.
    Quando encontraram um largo afluente, de correnteza rpida, que se abria em leque na sua confluncia com o Rio da Grande Me, decidiram seguir seu curso por 
algum tempo e ver se encontravam lugar propicio para a travessia. Chegaram a um trecho em que dois rios convergiam. Acompanharam o da direita, e foram dar com outra 
confluncia, onde um terceiro rio desaguava. Os cavalos no tiveram dificuldade em vadear o rio menor, e a bifurcao do maior, embora mais funda, tambm no foi 
difcil. J a terra entre esse ponto e a margem era baixa, pantanosa, com muita turfa de estagno, e deu mais trabalho.
    A ltima bifurcao era funda, e no havia como pass-la sem se molharem. Alm disso, foram perturbados por um megcero, com enorme galhada, e resolveram ir 
atrs dele. O veado gigante, com longas pernas ganhou facilmente distncia dos cavalos, embora Racer e Huiin o tivessem perseguido valentemente. Huiin, sobretudo, 
que arrastava os mastros no era preo para ele, mas a aventura deixou todos de excelente humor.
    Jondalar, vermelho, despenteado pelo vento, e com o capuz de l togado para as costas, ria ao voltar. Ayla sentiu uma inexplicvel pontada de amor, vendo-o chegar, 
radioso. Ele deixara crescer a barba, de um louro muito plido, como costumava fazer no inverno, para manter o rosto quente, e ela sempre gostara dele assim. Jondalar 
costumava cham-la "bela", mas ele, sim, era belo.
            Que bicho para correr, Ayla! E voc viu que beleza de chifres? S um deles j  maior do que eu!
    Ayla tambm sorria.
            Era um animal magnfico. E formoso. Mas me alegro que no o tenhamos apanhado. Era grande demais para ns, de qualquer maneira. No poderamos aproveitar 
toda aquela carne, e seria um vexame mat-lo  toa.
    Cavalgaram de volta para as margens do Rio da Grande Me, e embora suas roupas tivessem secado no corpo, at certo ponto, precisavam acampar e troc-las. Penduraram 
tudo perto das chamas para que secassem inteiramente.
    No dia seguinte comearam rumando para oeste, mas o rio os obrigou a seguir para noroeste. A pouca distncia podiam ver outra cadeia de montanhas. A elevao 
que se estendia at o Rio da Grande Me era a ponta noroeste, a ltima que veriam, da grande cadeia de montanhas que estava com eles quase que desde o comeo da 
viagem. Estivera a oeste deles, ento. Depois haviam contornado sua larga base meridional, seguindo o curso inferior do Rio da Grande Me. Os picos brancos se haviam 
deslocado num grande arco para leste deles quando cavalgaram pela plancie central, acompanhando o curso principal, sinuoso, do Rio da Grande Me Indo agora ao longo 
do curso superior do rio, aquela cadeia era a ltima.
    Nenhum afluente desaguou no rio at quase a montanha. Ayla e Jondalar perceberam que deviam ter estado entre dois canais. O rio que, vindo de leste, se lanava 
no rio ao p do promontrio rochoso, era a outra extremidade do canal norte do Rio da Grande Me. Dali por diante, o rio flua entre a cadeia e uma alta colina atravs 
da gua, mas havia suficiente margem plana e baixa por onde cavalgar em torno do contraforte da ponta rochosa.
    Atravessaram outro grande afluente imediatamente do outro lado da cadeia, um rio cujo grande vale marcava a separao entre os dois grupos de montanhas. As altas 
colinas para o lado do ocidente eram a projeo mais oriental e mais avanada da enorme cadeia do oeste. Com a cadeia s suas costas, eles viram que o Rio da Grande 
Me se dividia outra vez em trs canais. Foram pela margem externa do canal que ficava mais para o norte atravs das estepes de uma bacia menor, setentrional, que 
era, na verdade, uma extenso da plancie central.
    Quando a bacia central fora um grande mar, esse largo vale fluvial de estepes relvosas, junto com os pntanos e charnecas das terras ribeirinhas e os campos 
para o norte delas, eram, todos, ilhas daquela antiga massa interior de gua. A curva interna da cadeia oriental de montanhas inclua pontos fracos da crosta terrestre 
que se tornaram orifcios de escape para a sada de material vulcnico. Esse material, combinado a antigos depsitos marinhos e ao loess levado pelo vento, criou 
um solo rico e frtil. Mas s as madeiras esqueletais do inverno davam testemunho disso.
    Os dedos ossudos e os membros descarnados de poucas btulas junto do rio chocalhavam ao vento rapace do norte. Macega seca, canios, fetos mortos juncavam as 
margens, onde camadas de gelo j se formavam e logo ficariam espessas e projetariam salincias pontudas para o alto: o comeo das banquisas de primavera. Nas vertentes 
setentrionais, e nos patamares mais altos das colinas onduladas, na linha divisria de guas do vale, o vento cardava campos encapelados de feno ainda ereto e cor 
de cinza, com movimentos ritmados. Enquanto isso, ramos de sempre-verdes, como o espruce e o pinho, ondulavam e se arrepiavam tocados por lufadas errticas, que 
conseguiam abrir caminho e atacar os flancos protegidos voltados para o sul. Uma poeira de neve rodopiava em torno, para deitar-se, depois, de leve, no cho.
    O tempo era agora, definitivamente, frio, mas nevascas no constituam problema. Os cavalos, o lobo, e, at, as pessoas estavam acostumados s estepes de loess 
do norte, com sua neve invernal, leve e seca. S com neve pesada, que deixasse os cavalos fatigados e tornasse difcil
encontrar forragem, Ayla comearia a preocupar-se. Tinha mais em que pensar, no momento. Avistara cavalos a distncia, e Racer e Huiin tambm os tinham visto.
    Quando olhou para trs uma vez, Jondalar teve a impresso de haver visto fumaa subir para o cu, na outra margem do rio. Parecia sair de trs da colina mais 
alta da ltima cadeia de montanhas que haviam contornado. Haveria gente por l? Voltou-se, diversas vezes, depois, para conferir, mas no viu nada.
    No fim da tarde, acompanharam um pequeno afluente no sentido da montanha atravs de um bosque pouco denso de salgueiros e vidoeiros desnudos at uma formao 
de pinheiros. Noites geladas tinham dado a um laguinho prximo uma transparente camada de gelo na superfcie e congelaram as bordas do riacho, mas ele ainda corria, 
livre, pelo centro. Acamparam ali. Caa neve, mas seca, que empoava de branco os contrafortes voltados para o norte.
    Huiin ficara agitada desde a viso dos cavalos, ao longe. Isso, por sua vez, punha Ayla nervosa. Decidiu que a gua ficaria com o cabresto nessa noite e amarrou-a 
numa rvore perto dela. Apanharam gravetos, ento, para a fogueira, e arrancaram galhos secos dos pinheiros. Esses galhos, escondidos pelos galhos verdes, eram chamados 
na terra de Jondalar de "madeira de mulher". So encontrados com frequncia nas conferas, ficam sempre secos, independente das condies meteorolgicas, e podem 
ser apanhados com a mo sem necessidade de machado ou faca. Fizeram o fogo logo  entrada da barraca e a deixaram aberta para aquecer o interior.
    Uma lebre mutante, j quase toda branca, passou como um raio pelo acampamento. Por coincidncia, Jondalar verificava qualquer coisa na sua arma de arremesso. 
Dedicara as ltimas noites  confeco de uma nova lana. Atirou sem pensar, mais por instinto, e ficou espantado quando o dardo que lanou, mais curto, de ponta 
de slex e no de osso, acertou bem no alvo. Foi at onde vira cair a presa, apanhou-a, e tentou retirar o dardo com a mo. Como no conseguiu, sacou da faca, cortou 
fora a ponta, e ficou alegre ao ver que a sua nova arma no fora danificada.
     Carne para esta noite  disse, entregando a lebre a Ayla.  Fico pensando que o bicho apareceu s para me dar oportunidade de testar os novos dardos. So leves 
e fceis de lanar. Voc precisa experimentar um deles qualquer dia.
     O mais provvel  que tenhamos acampado bem no meio da sua linha a habitual de passagem  disse Ayla.  Mas foi um belo arremesso. Quero, sim, testar a nova 
lana curta. Mas agora acho que vou comear a cozinhar e ver o que posso achar por perto para completar a refeio.
    Ela removeu as entranhas da lebre mas no a esfolou. Assim, a gordura criada para o inverno no ficaria desperdiada. Ayla ps a lebre num espeto feito com um 
galho de salgueiro e colocou o espeto em duas forquilhas. Depois, embora tivesse de quebrar o gelo para apanh-las, recolheu do lago diversas razes de rabos-de-gato 
e alguns rizomas, em hibernao, de alcauz. Esmagou tudo junto com uma pedia arredondada num almofariz com gua para tirar as fibras duras, depois deixou que a 
polpa branquicenta e rica em amido assentasse no fundo da tigela. Enquanto isso, foi ver nos mantimentos o que mais tinha de reserva.
    Quando todo o amido se precipitou, e o lquido ficou quase transparente, ela despejou em outra vasilha a maior parte dele e juntou-lhe bagas de sabugueiro secas. 
Precisavam inchar e absorver mais um pouco da gua. Para no perder tempo, Ayla removeu a casca grossa, externa, de uma btula, raspou um pouco da macia camada de 
cmbio, que fica entre o  lenho e o lber e  doce e comestvel, para junt-la  mistura. Recolheu algumas pinhas e quando as ps no fogo viu que diversas delas 
tinham ainda grandes pinhes. O calor ajudara a rebentar os duros invlucros.
    Quando a lebre ficou pronta, ela abriu um pouco da pele enegrecida e esfregou o lado de dentro numa pedra que tinha posto a aquecer no fogo para cobri-la de 
gordura. Tomou, ento, pores da massa que preparara e depositou essas pores nas pedras quentes.
    Jondalar observava toda essa atividade. Ayla conseguia ainda surpreend-lo com seus conhecimentos de plantas. Muita gente sabia distinguir espcies comestveis, 
mas no conhecia algum que entendesse tanto do assunto quanto ela. Quando os biscoitos zimos, pastosos, ficaram assados, ele se permitiu provar um.
      delicioso! Voc  mesmo incrvel, mulher! Poucas pessoas tm o privilgio de comer bem assim em pleno inverno.
     No estamos ainda em pleno inverno, Jondalar. Voc exagera No  ainda to difcil encontrar coisas de comer. Espere para ver, quando o solo ficar duro  disse 
Ayla, tirando a lebre do espeto, removendo a pele, bem tostada, e pondo a carne na bandeja de marfim de mamute, da qual os dois se serviriam.
     Pois tenho certeza de que voc encontrar o que fazer mesmo ento!  disse Jondalar.
     Dificilmente plantas  disse ela, dando-lhe uma tenra perna da lebre.
    Quando acabaram de devorar a carne e os biscoitos de raiz de rabo de-gato, deram as sobras a Lobo, inclusive os ossos. Ayla comeou a preparar o ch, acrescentando-lhe 
um pouco do cmbio de btula pelo sabor da pirola. Depois tirou os pinhes do borralho. Ficaram sentados junto da fogueira por algum tempo, bebericando ch e comendo 
pinhes, abrindo as cascas com pedras ou at com os dentes. Depois, fizeram preparativos para a partida, que seria cedo, verificaram os cavalos, a ver se tudo estava 
em ordem com eles, depois se acomodaram entre as suas quentes peles para dormir.
    Ayla lanava a vista pelo corredor de uma longa e sinuosa caverna, e a linha de archotes que mostravam o caminho iluminava impressionantes formaes que eram 
como graciosos drapeados parietais. Viu um que lembrava a cauda comprida e fluida de um cavalo. Quando se aproximou, o pseudo-animal, pardo amarelado, relinchou 
e abanou o rabo, como se a chamasse. Ela quis atend-lo, mas a caverna de sbito escureceu, e as estalagmites ficaram opressivas.
    Olhou para o cho, a fim de ver onde pisava, e quando ergueu de novo a cabea, j no era um cavalo que a chamava, afinal de contas. Parecia mais um homem. Firmou 
o olhar a ver quem era e ficou pasma ao descobrir que se tratava de Creb. Saindo das sombras, ele lhe fez sinal para que se apressasse e fosse com ele. Depois lhe 
deu as costas e seguiu em frente, manquitolando.
    Ela comeou a segui-lo, e ouviu o relincho de um cavalo. Quando olhou por cima do ombro,  procura da gua parda, a cauda escura se perdeu em meio a uma grande 
manada de cavalos de caudas escuras. Correu, mas eles se transformaram em cavalos de pedra e, em seguida, em colunas. Quando olhou para a outra direo, Creb desaparecia 
num tnel escuro.
    Correu atrs dele, procurando alcan-lo, at que chegou a uma bifurcao. No sabia que caminho Creb tomara. Entrou em pnico, olhando em um, depois no outro. 
Finalmente, escolheu o da direita, e deu com um homem, de p no meio dele, bloqueando-lhe a passagem.
    Era Jeren! Ele enchia todo o espao do corredor, estava de pernas abertas e braos cruzados no peito. Abanava a cabea deforma negativa. Ela implorou que a deixasse 
passar, mas ele no pareceu entender. Depois, com um basto curto, apontou qualquer coisa na parede oposta.
    Era um sombrio cavalo pardo que corria, e um homem, de cabelos louros, corria no seu encalo. De sbito, o rebanho envolveu o homem, escondeu-o. Ela correu para 
ele, os cavalos relincharam, e Creb apareceu de novo, agora na boca da caverna, dizendo-lhe que fugisse antes que fosse tarde demais. De repente, o tropel dos cavalos 
ficou mais alto. Ela ouviu relinchos e, com uma sensao de horror e pnico, um grito dilacerante de cavalo.
    Ayla sentou-se na cama, sobressaltada. Jondalar tambm acordara. Havia um tumulto do lado de fora da barraca, cavalos relinchando e batendo com as patas. Lobo 
rosnou, depois deu um uivo de dor. Os dois pularam das cobertas e saram correndo.
    A escurido era total, s havia uma fina fatia de lua, que dava pouca luz. Mas havia certamente mais cavalos entre os pinheiros do que os dois que ali tinham 
deixado. Percebiam isso pelos sons, embora no pudessem ver nada. Quando Ayla correu na direo de onde vinha o barulho, tropeou numa raiz e caiu. Desmaiou.
     Ayla! Voc est bem?  perguntou Jondalar, procurando por ela no escuro. Ouvira apenas o som da queda.
     Estou aqui  disse Ayla, num sopro, tentando recobrar o flego. Sentiu as mos dele e procurou levantar-se. Ouviram, ento, que um bando de cavalos se afastava, 
dentro da noite. Ela se ergueu com esforo. E os dois correram para o lugar onde os cavalos estavam amarrados. Huiin se fora!
     Ela fugiu!  exclamou Ayla. Assobiou e gritou o nome da gua.
      ela!  Huiin! Aqueles cavalos a levaram. Tenho de recuper-la  disse a mulher, e se ps a correr pela floresta, tropeando na escurido.
    Jondalar a alcanou em dois tempos.
     Ayla, espere! No podemos ir agora, no escuro. Voc sequer sabe onde est pisando.
     Mas eu tenho de traz-la de volta, Jondalar!
     Faremos isso, mas pela manh  disse ele, tomando-a nos braos.
     At l, eles tero ido embora  disse a mulher, chorando.
     Mas estar claro ento, veremos as suas pegadas. Podemos segui-las. Ns a encontraremos, Ayla.
     Oh, Jondalar, o que farei sem Huiin? Ela  minha amiga. Por muito tempo foi minha nica amiga  disse ela, rendendo-se  lgica do argumento, mas aos prantos.
    Jondalar a abraou e deixou que chorasse  vontade. Depois disse:
            Agora, precisamos ver se Racer tambm se foi. E precisamos achar Lobo.
    Ayla se lembrou, de sbito, de t-lo ouvido ganir de dor e tambm ficou preocupada com ele. Assobiou, para o lobo, e chamou tambm os cavalos.
    Ouviu um relincho primeiro; depois, um ganido lamentoso. Jondalar foi procurar Racer, e ela, guiada pelos ganidos do bicho, encontrou-o. Curvou-se para confort-lo 
e sentiu nas mos algo molhado e pegajento.
            Lobo! Voc est ferido!  Tentou peg-lo no colo e carreg-lo at a fogueira, que poderia reanimar para ver o que ele tinha. Mas Lobo se debateu e gemeu 
quando ela tentou carreg-lo e ficou de p, sozinho; e embora aquilo lhe custasse um visvel esforo, foi com ela, mas por si mesmo, andando.
    Jondalar voltou, puxando Racer pela corda. Ayla acendia o fogo.
     A corda aguentou  disse. Tinha o hbito de usar cordas fortes para o cavalo, que sempre fora mais difcil para ele de dominar que Huiin para Ayla.
      uma alegria que ele esteja bem  disse a mulher, afagando o pescoo do animal, e examinando-o de perto para ter certeza de que nada lhe acontecera.
     Por que no usei, eu tambm, corda mais forte?  disse, furiosa consigo mesma.  Se eu tivesse me precavido, Huiin estaria aqui. Sua relao com a gua era 
mais estreita que a dele com Racer. Huiin era uma amiga, que a obedecia voluntariamente, de modo que Ayla usava apenas uma corda fina, s para que a gua no fosse 
muito longe. E aquilo sempre bastara.
     No foi culpa sua. A manada no estava atrs de Racer. Eles queriam uma gua, no um cavalo. Huiin no os teria acompanhado se eles no a obrigassem.
     Mas eu sabia que esses cavalos estavam na rea, devia imaginar que viriam buscar Huiin. Agora, ela foi embora, e at Lobo est ferido.
     Coisa sria?
            No sei  disse Ayla.  Di muito quando eu toco nele, de modo que ainda no pude examin-lo direito. Deve ter alguma costela seriamente machucada ou, 
at, quebrada. Pode ter levado um coice. Vou dar-lhe alguma coisa para aliviar a dor, e de manh vejo melhor o que fazer, antes de irmos procurar Huiin.  Estendeu 
os braos para Jondalar, num gesto de desespero.
     Oh, Jondalar, e se no a encontrar? Se a pender para sempre?  disse, em lgrimas

25
___________________________________________________________________________

     Veja, Ayla  disse Jondalar, pondo um joelho em terra para ver melhor o cho, coberto de marcas de cascos.  O rebanho inteiro esteve aqui a noite passada. 
E o rastro  ntido. Eu no disse que seria fcil seguir-lhes a pista assim que amanhecesse?
    Ayla olhou a direo que as marcas tomavam, para nordeste. Os dois estavam na beira da mata e podiam ver longe no campo aberto, mas por mais que se esforasse,
ela no conseguia avistar um s cavalo. Ficou pensando. As pegadas estavam fceis de acompanhar, mas at onde?
    A mulher no pregara um olho desde que fora acordada pelo tumulto e descobrira que sua grande amiga desaparecera. Do momento em que o cu clareou, passando de 
bano para ndigo, ela se levantou, embora estivesse muito escuro ainda para distinguir bem qualquer coisa. J avivara o fogo e pusera gua para ferver quando o 
cu se transformou, passando gradativamente por um espectro monocromtico de nuanas cada vez mais plidas de azul.
    Lobo se acercara dela, sub-repticiamente, e teve de gemer para chamar-lhe a ateno. Ela o examinou, ento, detidamente. Embora ganisse quando apertava um pouco, 
viu, com alvio, que no havia ossos quebrados. Uma contuso j era ruim o suficiente. Jondalar se levantara logo que o ch ficara pronto, mas antes que houvesse 
luz suficiente para rastrear.
     Vamos andando  disse Ayla. Eles no devem ganhar grande distancia. Podemos empilhar tudo no barco... No... no podemos.  Percebera de sbito que, sem a 
gua, no era to simples empacotar e sair.  Racer no sabe puxar a tralha, de modo que no podemos bot-la no barco e lev-la a reboque. Sequer podemos levar a 
alcofa de Huiin.
     E se quisermos alcanar aquela manada de cavalos temos de montar Racer. Ns dois. No podemos levar, portanto, a cesta dele. Temos de reduzir a bagagem ao 
mnimo necessrio  disse Jondalar.
    Refletiram sobre a nova situao, a que a perda de Huiin os reduzira Ambos sabiam que cumpria tomar decises drsticas.
     Levaremos s as mantas de dormir e as peles que usamos para cobrir o cho. Elas podem servir de barraca, embora baixa. Se enrolarmos tudo junto, talvez caiba 
na garupa de Racer, atrs de ns  sugeriu Jondalar.
     Sim, uma barraca baixa  suficiente  disse Ayla.  No tnhamos mais que isso quando samos para caar, no Cl. Usvamos um galho como mastro, na frente, 
e pedras ou ossos pesados que encontrvamos para prender a pele no cho.  Ficou lembrando os tempos em que ela e outras mulheres iam com os caadores.  As mulheres 
tinham de carregar tudo, exceto as lanas. E como tnhamos de andar depressa, para no ficarmos para trs, levvamos pouca bagagem.
     O que mais levavam? O que poderamos considerar como minimo necessrio?  perguntou Jondalar, curioso.
     Material de acender fogo. Algumas ferramentas. Machadinha, para cortar lenha ou partir ossos de animais que tenhamos de esquartejar para comer. Podemos fazer 
fogo com bosta seca e capim, mas ser preciso ceifar o capim. Precisaremos de uma faca para esfolar animais e outra para cortar carne.  Ayla rememorava no s o 
tempo em que acompanhava os caadores mas o perodo em que viajara sozinha, depois de deixar o Cl.
     Uso meu cinto com alas para o machado e a faca de cabo de marfim  disse Jondalar.  Voc deve usar o seu tambm.
     Um pau de cavouco sempre ajuda e pode ser usado para sustentar a barraca. Alguma roupa quente, para o caso de esfriar muito, algumas cobertas de p de reserva 
 continuou a mulher.
     Um par sobressalente de forros de botas.  uma boa ideia. Roupa de baixo, mitenes, de l. Podemos, se for preciso, usar as peles de dormir como agasalho.
            Uma ou duas bolsas d'gua...
     Podemos lev-las presas  cinta. E com uma corda que d para fazer um lao por cima do ombro, podemos lev-las junto do corpo no frio mais forte, para que 
a gua no congele.
     Vou precisar dos meus remdios, do material de costura, que no ocupa muito espao, da funda...
     E no esquea suas lanas e o arremessador  acrescentou Jondalar.  Acha que eu deveria levar ferramentas de britar pedra ou pedras j preparadas para o caso 
de alguma faca ou outra coisa qualquer quebrar?
     No podemos levar nada que eu no possa carregar s costas, ou poderia, se tivesse uma cesta apropriada.
     Se algum tiver de levar algo s costas, penso que deve ser eu disse Jondalar , mas tenho minha armao.
     Podemos, certamente, fazer outra, com uma das alcofas. por exemplo, e um pedao de corda ou uma correia. Mas como poderei ir na sua garupa se voc estiver 
usando urna coisa dessas?   perguntou Ayla.
            Mas eu  que pretendo ticar atrs de voc  disse Jondalar. Os dois se olharam e sorriram, cmplices. Tinham, at, de decidir como montar. E cada um, 
naturalmente, fizera seus planos. Era a primeira vez que Ayla sorria naquela manh, pensou Jondalar.
     Voc tem de guiar Racer, de modo que cabe a mim ir na garupa  disse Ayla.
     Posso muito bem gui-lo com voc na minha frente  retrucou ele  J atrs de mim voc s ver as minhas costas. No creio que fique feliz assim, sem enxergar 
adiante. Ns dois temos de estar atentos s pegadas dos cavalos. Ser difcil rastre-los em terreno duro ou se houver outras que se misturem s nossas. Sei que 
voc  uma boa rastreadora.
    O sorriso de Ayla ampliou-se.
     Tem razo, Jondalar. No sei se eu aguentaria muito tempo sem ver o caminho  frente.
    Ela via que ele se preocupava tanto quanto ela com a dificuldade de seguir a pista dos cavalos, e que procurara tambm considerar os seus sentimentos. Ficou 
com os olhos cheios d'gua com o amor que sentia por ele. E logo chorava.
     No chore, Ayla. Ns vamos achar Huiin.
     No estou chorando por causa de Huiin. Estava s pensando no quanto que o amo. E as lgrimas me vieram.
     Eu tambm a amo  disse ele, com um n na garganta, estendendo-lhe a mo.
    Mais um segundo, e ela lhe caa nos braos, soluando. As lgrimas agora eram tambm por Huiin.
            Temos de encontr-la, Jondalar.
     Ns vamos encontr-la. Agora, que tal fazer uma cesta para eu levar s costas? Algo que possa conter arremessadores de lanas e lanas tambm, do lado de fora, 
onde seja fcil peg-las.
     No ser difcil. Temos de levar, tambm, naturalmente, a comida prensada, de viagem  disse Ayla, enxugando as lgrimas com as costas da mo.
     Quanto de comida, a seu ver?
     Depende. Quanto tempo voc acha que vamos levar para achar Huiin?
    Aquilo os emudeceu. Quanto tempo levaria a busca? Quanto tempo at encontrarem Huiin e traz-la de volta?
     Uns poucos dias. Mas talvez seja prudente levarmos vveres para um meio ciclo de lua.
    Ayla ficou calculando.
     Isso so mais de dez dias. Trs mos, talvez: quinze dias. Acha que vai levar tanto tempo assim?
     No, Ayla. Mas  melhor estarmos preparados.
     No podemos deixar o acampamento abandonado por tanto tempo assim, Jondalar. Algum animal pode destruir tudo. E h lobos, hienas carcajus, ursos... No, os
ursos j esto dormindo. Mas qualquer fera. Vo destruir a barraca, o barco, tudo que for de couro. Vo comer toda a reserva de carne. O que faremos ento, sem nada?
     E se Lobo ficar de guarda?  disse Jondalar, franzindo a testa.  Ele no obedeceria, se voc o mandasse ficar? Est machucado alem de tudo. No seria melhor 
para ele se no viajasse?
            Sim, seria melhor, mas ele no ficaria. Por algum tempo, talvez, mas iria em nossa procura se no voltssemos em um dia ou dois.
            Talvez pudssemos prend-lo perto do acampamento.
            No. Ele detestaria isso, Jondalar  exclamou Ayla.  Voc no gostaria de ser obrigado a ficar num lugar em que no desejasse estar. Alm disso, se 
vierem lobos ou outros animais ele seria atacado e no poderia lutar nem fugir. Temos de imaginar outro meio de defender nossas coisas.
    Voltaram em silncio para o acampamento. Jondalar, um tanto acabrunhado; e Ayla, francamente preocupada. Mas ambos tentando ainda resolver o problema dos seus 
pertences: o que fazer com as coisas enquanto estivessem ausentes? Quando se aproximavam da barraca, Ayla fez uma sugesto.
     Tive uma ideia. Poderamos pr tudo dentro da barraca e fecha-la. Tenho ainda um pouco daquele repelente que fiz para impedir que Lobo ficasse mastigando as 
coisas. Poderia amolecer o material e pass-lo na barraca. Isso talvez afaste os animais. Alguns, pelo menos. O que acha, Jondalar?
     Sim, o repelente funcionaria, at que alguma chuva o lavasse, e isso no aconteceria de imediato. Mas e os animais que tentassem entra por baixo da barraca, 
cavando? No poderamos reunir tudo e fazer um grande embrulho com o couro da barraca? Passaramos o repelente por fora. Mas no poderamos deixar o volume ao ar 
livre.
     Seria preciso fazer como fazemos com a carne: i-lo  disse Ayla, animando-se.  Preso no trip de mastros. E coberto com o barco emborcado, como defesa contra 
a chuva.
      uma boa ideia!  disse Jondalar. Depois hesitou. Os mastros poderiam ser derrubados por um leo, por exemplo. Ou por uma alcatia de lobos, por hienas... 
 Jondalar correu os olhos em torno e teve, tambm, uma ideia. Havia, ali perto, uma formao de amoreiras silvestres, com longas canas e acerados espinhos.
     Ayla, o que acha de fincarmos os trs mastros no meio dessas amoreiras, amarrar uns nos outros ao meio, pr a barraca no topo, e cobrir tudo com o barco?
     Acho bom. Poderamos cortar algumas das canas com todo o cuidado, instalar os mastros como voc sugere e recolocar as canas, prendendo-as nas outras. Pequenos 
animais passariam, mas esto, em grande parte, dormindo o sono do inverno, ou quietos nas suas tocas, e esses espinhos provavelmente afastaro os animais de grande 
porte. At lees evitam espinhos. Acho que dar certo.
    Escolher as poucas coisas que levariam exigiu longa deliberao. Decidiram levar algumas peas extras de slex, algumas ferramentas indispensveis, e tanta comida 
quanto pudessem carregar. Separando suas coisas, Ayla encontrou o cinto que Talut lhe dera na sua cerimnia de adoo no Acampamento do Leo das Cavernas. O cinto 
tinha compridas tiras de couro que podiam ser convertidas em alas para carregar coisas, como a adaga, embora servisse tambm para prender uma variedade de objetos.
    Passou-o  volta da cintura, por cima da tnica, depois tirou a adaga e quedou por algum tempo, sopesando-a na mo, resolvendo se a levaria ou no consigo. A 
ponta era bastante aguda, mas se tratava mais de um objeto mais cerimonial que prtico. Mamute usara uma igual para tirar-lhe sangue do brao e marcar a placa de 
marfim que usava no pescoo. Com esse ritual, ela passava a ser uma Mamuti.
    Vira adaga semelhante empregada para fazer tatuagens: a ponta cortava finos sulcos na pele. Carvo de madeira de freixo era, ento, esfregado nas feridas. Ayla 
no sabia que o freixo produz um anti-sptico natural que impede a infeco, e  pouco provvel que o Mamute que lhe contou isso soubesse exatamente como o produto 
atuava. Mas o fato  que ficara para sempre impressionada e convencida de que s a cinza de madeira de freixo devia ser empregada para escurecer a cicatriz de uma 
tatuagem.
    Ayla ps a adaga de volta na bainha de couro cru e deixou-a l. Apanhou depois outra bainha, que protegia a ponta extremamente fina e afiada da pequena faca 
de cabo de marfim que Jondalar fizera para ela. Enfiou-a em um dos receptculos, depois o cabo do machado que ele lhe dera ocupou outra das alas. A cabea de pedra 
do machado curto ela envolveu em couro para maior proteo.
    Concluiu que no havia motivo para no levar tambm no cinto o lanador de dardos. Ps tambm nele a funda. Experimentou, em seguida, o bornal em que guardava 
pedras. Ficou pesado, mas era o jeito mais conveniente de carregar coisas se tinham de viajar com pouco. Juntou, finalmente, suas lanas s que Jondalar j reunira 
na alcofa da garupa.
    Gastaram mais tempo decidindo o que levar do que tinham imaginado e mais tempo ainda arranjando em segurana tudo o que deixavam no acampamento. Ayla se afligia 
com a demora, mas por volta do meio-dia montaram e partiram.
    Ao sarem, Lobo foi trotando animadamente junto deles, mas logo se atrasou. Sentia dores, como seria de esperar. Ayla se preocupava, no sabendo at onde ele 
aguentaria, mas se conformou com a ideia de deixar que ele fosse como pudesse, no seu ritmo. Se no conseguisse andar emparelhado, teria de alcan-los cada vez 
que parassem no caminho. Preocupava-se com ele e com Huiin, mas o lobo, pelo menos, estava por perto ela confiava em que, mesmo ferido, ele se recuperasse. J a 
gua podia estar em qualquer lugar quela altura, e quanto mais se demorassem, mais longe ela poderia estar.
    Seguiram o rastro dos cavalos por algum tempo. Tendo comeado no rumo nordeste, subitamente mudaram, sem explicao, de direo. S depois de algum tempo Ayla 
e Jondalar se aperceberam disso. No primeiro momento, julgaram haver perdido o rastro. Retrocederam, mas s de tarde encontraram de novo a pista, e j era quase 
noite quando deram com um rio.
    Era evidente que os cavalos tinham passado para a margem oposta, mas j estava excessivamente escuro para distinguirem as marcas dos cascos, e julgaram melhor 
acampar na margem do rio. A questo era: qual das duas? Se vadeassem naquela hora, suas roupas estariam secas de manh, mas Lobo poderia perder-se deles. Resolveram 
esperar, acampando ali mesmo.
    Com aquele mnimo de bagagem, o acampamento parecia vazio, e os dois se sentiram deprimidos. No tinham visto mais nenhum rastro da passagem dos cavalos o dia 
todo. Ayla comeava a pensar se no estariam na pista de outros cavalos, e afligia-se por causa de Lobo. Jondalar procurava consol-la. Mas quando o lobo no apareceu, 
e j o firmamento reluzia de estrelas, a aflio de Ayla aumentou. Esperou acordada at bem tarde. Quando Jondalar, finalmente, a convenceu a reunir-se a ele nas 
peles de dormir, Ayla no conseguiu logo conciliar o sono. Mas j cochilava quando sentiu um focinho frio na cara.
            Lobo! Voc conseguiu chegar! Voc est aqui! Veja, Jondalar, Lobo est aqui!
    Ayla percebeu que ele gemia com os seus carinhos. Jondalar tambm se alegrou, mas por causa de Ayla. Pelo menos agora ela podia dormir um pouco. Mas primeiro 
a mulher se levantou para servir ao animal a parte que guardara para ele da refeio da noite, um cozido de carne-seca, tubrculos, e um bolo de carne moda, prensada 
para viagem.
    Preparara, anteriormente, numa tigela, uma infuso de casca de salgueiro. Lobo estava com tanta sede que lambeu tudo aquilo, inclusive o remdio. Depois enrodilhou-se 
junto deles, e Ayla adormeceu com um brao em torno do lobo, enquanto Jondalar se aconchegava e a enlaava do outro lado. Na noite lmpida, mas excessivamente fria, 
eles tiraram apenas as botas e os agasalhos externos de pele. Nem se deram ao trabalho de armar a pequena barraca. Dormiram, vestidos, ao relento.
    Ayla verificou que Lobo estava melhor. Mesmo assim, tirou mais casca de salgueiro da bolsa de remdios de pele de lontra e acrescentou um pouco dessa decoco 
 comida dele. Todos tinham de enfrentar as guas glidas do rio, e ela no sabia como isso iria afetar o ferimento do animal. Talvez o frio fosse demais para ele. 
Por outro lado, poderia aliviar tanto a leso interna quanto a dor.
    Ela no tinha a menor vontade de ficar de roupa molhada. No tanto pelo frio. J se banhara em guas mais frias. Mas a ideia de montar depois, com as calas 
molhadas, naquele ar quase gelado, lhe era desagradvel. Quando comeou a enrolar em torno da panturrilha o couro de sua bota de cano alto, tipo mocassim, mudou 
de ideia.
            No vou meter isto na gua. Prefiro ir descala e molhar o ps. Pelo menos depois tenho alguma coisa seca para usar.
     No  m ideia  disse Jondalar.
     Alis, no vou nem vestir isto  disse ela, tirando as caas e ficando despida diante dele da tnica de baixo. Jondalar sorriu e pensou logo em fazer outra 
coisa em vez de perseguir cavalos. Mas sabia que Ayla estava to preocupada com Huiin que no admitiria perder tempo com frivolidades.
    Estava cmica assim, mas a ideia era boa. O rio tinha propores modestas, embora parecesse rpido. Podiam atravess-lo montados em Racer, de pernas e ps nus, 
e pr roupas secas quando alcanassem a margem oposta. Seria mais confortvel e lhes pouparia horas de frio.
     Acho que voc tem razo, Ayla  disse Jondalar, desnudando por sua vez as longas pernas. Em seguida, ps a mochila s costas, e Ayla sobraou o rolo de dormir 
para garantir que ele no ficasse molhado. O homem se achou um tanto ridculo montando sem calas. Mas sentir a pele de Ayla entre as pernas f-lo esquecer o resto. 
O efeito do seu trem de pensamentos ficou logo bvio para Ayla. Se no estivessem com tanta pressa, ela teria gostado de ficar um pouco por ali. Pensou que poderiam 
cavalgar assim, juntos, outro dia, s de brincadeira, mas o momento no era para isso.
    A gua estava glida quando o cavalo entrou no rio, rompendo a fina crosta de gelo junto  margem. Embora o rio fosse veloz e ficasse logo to profundo que a 
gua lhes chegou ao meio das coxas, o cavalo foi em frente. No era preciso nadar, ali. Os dois encolheram as pernas, no comeo, mas logo ficaram com elas dormentes. 
A meio caminho, Ayla se voltou para ver onde estava Lobo. Ainda na margem, avanando e recuando, como devia fazer, antes de mergulhar. Ayla assoviou para encoraj-lo, 
e ele criou coragem.
    Alcanaram o outro lado sem incidentes, exceto o frio. O vento nas pernas molhadas era cortante. Secaram-se como puderam, com as mos, e logo puseram calas 
e botas. Estas, com um forro de l de camura empastada  presente de despedida dos Xaramudi, pelo qual muito gratos ficaram naquela hora. Pernas e ps se puseram 
rapidamente a formigar coma volta do calor. Lobo, que chegava, sacudiu-se todo. Ayla o examinou e se deu por satisfeita: a imerso no lhe fizera mal.
    No foi difcil encontrar o rastro dos cavalos. Galoparam no encalo deles, e logo deixaram Lobo outra vez para trs. Ayla se afligia vendo-o atrasar-se mais 
e mais. O fato de que ele os tivesse encontrado na vspera a deixava menos temerosa, e consolava-se pensando que aquilo j acontecera antes e que ele sempre soubera 
ach-los. Era aborrecido abandon-lo assim  prpria sorte, mas tinha de pegar Huiin.
    S a tarde avistaram os cavalos, ao longe. Quando se aproximaram um pouco, Ayla procurou distinguir Huiin no meio dos outros. Julgou vislumbrar uma pelagem familiar, 
cor de feno, mas no estava segura disso. Havia muitos animais da mesma cor. E quando o vento lhes trouxe o cheiro deles, os cavalos saram em disparada.
     Esses cavalos j foram caados antes  disse Jondalar. E se felicitou por no haver expressado em voz alta o pensamento seguinte: devia haver, por ali, gente 
que gostava de carne de cavalo. No queria deixar. Ayla ainda mais perturbada. A manada se distanciara: levava evidente vantagem sobre um pobre potro sobrecarregado. 
Mas continuaram a seguir o rastro assim mesmo. Era tudo o que podiam fazer no momento.
    Os cavalos viraram para o sul, por algum motivo que s eles sabiam dirigindo-se de volta ao Rio da Grande Me. Em breve o terreno comeou a subir, ficando spero 
e pedregoso. O capim tambm escasseou. Ayla e Jondalar prosseguiram at alcanar um campo largo e sobranceiro ao resto da paisagem. Quando viram a gua embaixo, 
compreenderam que estavam num plat no topo da elevao cuja base haviam contornado poucos dias antes. O rio que tinham de atravessar corria junto da encosta ocidental 
antes de lanar-se no Rio da Grande Me.
    Quando os cavalos comearam a pastar, eles se aproximaram.
            L est ela, Jondalar!  disse Ayla, excitada, apontando um dos animais.
            Como pode ter certeza? Tem muitos da mesma cor.
    Era verdade, mas a mulher conhecia bem a conformao da sua gua para enganar-se. Assoviou, e Huiin ergueu a cabea.
            No falei?  ela!
    Assoviou de novo, e Huiin comeou a mover-se na sua direo. Mas a gua no comando, um animal gracioso e grande, de pelagem mais escura que a comum, cinza e 
ouro, percebeu o que a mais recente aquisio da horda ia fazer e se interps. O macho principal correu para ajud-la. Era um cavalo estupendo, enorme, pardo, de 
crina opulenta, prateada, uma lista cinza nas costas, e cauda longa, tambm de prata, que ficava quase branca quando ele a agitava. Tinha as pernas compridas no 
mesmo tom de gris. Ele esbarrou nos jarretes de Huiin, empurrando-a para onde estavam as fmeas, que assistiam  cena com nervoso interesse. Depois voltou para desafiar 
Racer. Escarvou, insolente, com a pata, e empinou, relinchando. Era o desafio  luta.
    O jovem cavalo castanho recuou, intimidado, e no se deixou convencer a avanar, para grande frustrao do homem e da mulher. A distncia soltou um relincho 
dirigido a Huiin, que respondeu. Ayla e Jondalar desmontaram para discutir a situao.
            O que faremos, Jondalar? Eles no vo permitir que a levemos.
            No se aflija, ns a teremos, nem que seja preciso usar os arremessadores de lana. Mas no creio que tenhamos de chegar a esse extremo.
    Jondalar parecia to seguro de si, que Ayla se acalmou. No tinha pensado nos arremessadores. No queria sacrificar qualquer cavalo, mas faria o que fosse necessrio 
para recuperar Huiin.
            Voc tem um plano?
            Estou convencido de que essa horda j foi caada antes e tem medo de gente. Isso nos d uma vantagem. O garanho chefe imagina que Racer est querendo 
desafi-lo. Ele e aquela gua avantajada estavam procurando impedir que ele furtasse uma gua do bando. De modo que temos de tirar Racer de cena. Huiin vir, se 
voc a chamar. Se eu puder distrair o garanho, voc a ajuda a evitar a gua at ficar o suficiente perto de voc para mont-la. A, se gritar com a outra gua ou 
espet-la com a lana, se chegar muito perto, ela guardar distncia e voc ir embora.
    Ayla sorriu, aliviada.
     Parece fcil. E o que faremos com Racer?
     H uma pedra grande ali atrs, com alguns arbustos perto. Posso amarrar Racer em um deles. Ser fcil para ele soltar-se, se fizer fora, mas ele est acostumado 
a ficar preso e creio que ficar quieto.
    Jondalar puxou, ento, o cavalo pela corda e seguiu em largas passadas para o ponto que mencionara. Quando chegou l, disse:
     Agora, tome o seu lanador e um ou dois dardos. Quanto a mim, vou tirar esta coisa das costas e deix-la aqui. Atrapalha os meus movimentos.
    "Uma vez que voc esteja de posse de Huiin, apanhe Racer e v me pegar.
    O plat se estendia de norte para sul, com uma inclinao gradual ao norte que ficava mais pronunciada para leste. A ponta sudoeste se projetava no vazio. Do 
lado ocidental, olhando para o afluente que eles tinham cruzado, a queda era menor; mas no flanco sul era abrupta. Um precipcio.
    Quando Ayla e Jondalar se encaminharam para os cavalos o dia estava claro, com o sol alto no cu, embora j bem passado o znite. Olharam para baixo, no limite 
oeste da esplanada, mas recuaram com medo que um passo em falso ou um tropeo os despejasse no abismo.
    Ao se aproximarem dos cavalos, pararam para localizar Huiin outra vez. A horda  guas, crias de um ano, potrancas  pastava no centro de um campo de capim alto 
e seco que lhes batia pela cintura. O lder estava um pouco afastado dos demais. Ayla pensou ver sua gua bem atrs, do lado sul. Assoviou, a gua cinza e ouro levantou 
a cabea, e Huiin veio na direo deles. Com o arremessador em punho e uma lana no lugar. pronta para ser disparada, Jondalar se acercou bem devagar do cavalo pardo, 
procurando postar-se entre ele e a horda enquanto Ayla caminhava para as guas, disposta a apartar Huiin.
    Alguns dos cavalos que pastavam levantaram a cabea e olharam. Mas no estavam olhando para ela! E Ayla teve a sensao de que alguma coisa estava errada. Voltou-se, 
procurando por Jondalar, e viu, com surpresa, uma fumaa, depois outra. Era o cheiro de queimado que sentia antes. O campo de capim seco estava em chamas em diversos 
lugares. E, de sbito, atravs do fumo, divisou figuras indistintas que corriam para os cavalos, gritando e brandindo archotes! Estavam empurrando os cavalos para 
a beira do campo, para o precipcio. E Huiin estava entre eles!
    Os cavalos comeavam a ficar apavorados, mas em meio aos sons confusos que ouvia reconheceu um relincho vindo de outra direo. Era o cavalo de Jondalar que 
corria para a horda, arrastando a corda. Por que se soltara justamente naquele momento? E onde estava Jondalar? O ar ficava pesado de fumaa. Ela podia sentir a 
tenso e cheirar o medo contagioso dos animais procurando fugir do fogo.
    Havia cavalo por todo lado, e ela j no podia ver Huiin. Mas racer vinha ao seu encontro, a todo galope, tomado, ele tambm, de terror. Ela assoviou alto e 
correu para ele, que diminuiu o passo. Tinha as orelhas deitadas para trs e rolava os olhos. Ela o alcanou, pegou a corda. Racer gritou e empinou, acossado por 
outros cavalos. A corda queimou a mo de Ayla quando ele quis correr, mas ela aguentou firme. E quando Racer colocou as patas dianteiras no cho, pegou-o pela crina 
e saltou-lhe lhe em cima.
    Racer empinou outra vez e quase derrubou Ayla. Tinha medo ainda mas estava acostumado com aquele peso s costas. Havia um certo conforto em ser montado, e naquela 
mulher, com que j se familiarizara. Comeou a trotar, mas era difcil para ela controlar um cavalo que Jondalar treinara, apesar de j ter montado Racer antes e 
de saber os sinais que o homem empregava. Mas no sabia comandar com corda ou rdea. Jondalar usava todas duas com a mesma facilidade, e o cavalo confiava no seu 
cavaleiro habitual. No reagiu bem s primeiras tentativas de Ayla, que procurava Huiin com os olhos ao mesmo tempo em que tentava acalm-lo. A ansiedade por Huiin 
atrapalhava.
    Cavalos corriam em todas as direes agora, volteando em torno dela, relinchando estridentemente, e o medo deles era sensvel s narinas da mulher. Ela assoviava, 
mas no sabia se poderia ser ouvida devido ao alarido. Sabia, sim, que fugir era urgente.
    De sbito, atravs da poeira e da fumaa, viu que um cavalo diminua o passo, virava-se, tentava resistir  debandada que o fogo provocara. Embora a pelagem 
estivesse agora da cor do ar enfumaado, era, ser dvida, Huiin. Ayla assoviou para encoraj-la e viu que sua amada gua hesitava. O instinto de acompanhar a fuga 
da horda era muito forte, mas aquele assovio sempre representara segurana, conforto e amor. E ela no temia o fogo. Fora criada com o cheiro de fogueiras por perto. 
Aquilo apenas significava a presena de gente.
    Ayla viu que Huiin estava parada e que os outros animais passavam por ela, procuravam evit-la. Incitou Racer a avanar, e Huiin comeou a correr para ela. Mas 
o cavalo pardo surgiu e quis intercept-la, desafiando Racer mesmo naquelas circunstncias, querendo afastar sua nova aquisio daquele macho mais jovem. Dessa vez, 
porm, Racer respondeu, escavou o cho, e partiu contra o cavalo, esquecido de que era ainda muito jovem e inexperiente para lutar contra um garanho mais velho.
    Ento, por algum motivo  mudana de ideia, contgio do pnico , o cavalo pardo desistiu e se foi. Huiin fez meno de segui-lo, e Racer galopou para alcan-la. 
J agora a horda estava perto da beira do abismo, onde a morte certa a esperava. Pois a gua com plo da cor de trigo maduro e o jovem cavalo que ela gerara, de 
plo castanho-escuro. com a mulher s costas, estavam sendo arrastados com os demais! Com firme determinao, Ayla fez Racer parar perto de Huiin. Ele relinchou 
de medo, querendo correr em pnico com os demais, mas a mulher e os comandos que estava acostumado a obedecer o detiveram.
    Ento, todos os cavalos tinham passado por ela. S Huiin e Racer ficaram, apavorados. O resto da horda desapareceu pela beira do precipcio. Ayla estremeceu 
ouvindo o som distante e indistinto de relinchos e gritos. Ficou depois estupefata com o silncio. Huiin, Racer, e ela mesma poderiam ter estado entre eles. Ayla 
respirou fundo, depois olhou em torno, procurando Jondalar.
    No o viu. O fogo movia-se agora para leste. O vento soprava contra direo do abismo  mas o fogo servira a seu propsito. Ela olhou para todos os lados sem 
ver Jondalar. Ayla e os dois cavalos estavam ss no campo queimado. Ela sentiu um n na garganta. O que teria acontecido com Jondalar?
    Ela apeou, deixando-se escorregar do lombo de Racer. Em seguida, montou Huiin sem esforo e, puxando Racer pela corda, voltou ao terreno onde se haviam separado. 
Examinou a rea com cuidado, em busca de pegadas, mas o lugar estava todo pisoteado. Ento, com o canto do olho divisou alguma coisa no cho. Com o corao aos saltos, 
correu a ver o que era: o arremessador de lanas de Jondalar!
    Olhando mais de perto, viu pegadas. Obviamente de muitas pessoas, mas as de Jondalar tambm estavam l. As marcas de seus grandes ps calados com aquelas botas 
j surradas. Vira muitas daquelas pegadas em acampamentos para poder confundi-las com outras. Viu depois uma pequena mancha escura no capim. Tocou-a com a ponta 
do dedo. Era sangue.
    Seus olhos se arregalaram, e o medo a pegou pela garganta. Ficou onde estava, para no apagar os rastros, e estudou tudo com ateno, procurando reconstituir 
o que acontecera. Era uma rastreadora experiente, e para os seus olhos treinados ficou perfeitamente claro que algum ferira Jondalar e o levara embora. Acompanhou 
os rastros por algum tempo. Iam para o norte. Depois, tomou nota do lugar onde estava, para poder encontrar a pista outra vez. Ento, montada em Huiin e puxando 
Racer, foi na direo oeste para recuperar a bagagem.
    Tinha o cenho franzido, e essa expresso zangada refletia exatamente o que sentia. Mas havia que refletir antes de tomar qualquer deciso. Algum atacara e levara 
Jondalar, e ningum tinha o direito de fazer isso. Talvez ela no entendesse bem a maneira de ser dos Outros, mas que era assim ela estava ciente. Sabia tambm outra 
coisa: havia de resgatar Jondalar. Restava por decidir de que maneira.
    Ficou aliviada vendo que a mochila dele estava ainda pacificamente encostada  pedra, como ele a deixara. Esvaziou-a para rearrum-la, fazendo algumas alteraes 
a fim de que Racer a pudesse carregar agora. Depois comeou a ench-la outra vez. Deixara de usar seu cinto naquele dia, era muito incmodo, com todas aquelas coisas 
penduradas. Pudera tudo na mochila. Olhou o cinto, agora, com a adaga cerimonial ainda enfiada nele. Acidentalmente espetou o dedo nela. Ficou olhando a minscula 
gota de sangue e teve uma absurda vontade de chorar. Estava sozinha no mundo outra vez. Algum levara Jondalar.
    De sbito, ps outra vez o cinto, completo com adaga, faca, machadinha e armas de caa. Ele no ficaria longe dela por muito tempo ps a barraca no lombo de 
Racer mas guardou as peles de dormir. Quem podia saber que espcie de tempo encontrariam? Guardou tambm consigo uma bolsa d'gua. Depois pegou um dos bolos de carne 
compactada e sentou-se na pedra para comer. No que tivesse fome. Mas precisava  alimentar-se para ter foras, acompanhar a pista de Jondalar, e acha-lo.
    Outra preocupao maior era Lobo. No podia sair procurando Jondalar  Ele era mais do que um simples animal de estimao. Podia ser muito til para rastrear 
uma pista. Esperava que voltasse antes da noite. Talvez devesse voltar por onde tinham vindo at acha-lo. Mas e se ele estivesse caando? Talvez se desencontrassem. 
Apesar de estar impaciente, decidiu que seria melhor aguard-lo.
    Procurou organizar as ideias. O que deveria fazer? Sequer conseguia imaginar que alternativas tinha de ao. O prprio ato de sequestrar algum era-lhe to difcil 
de conceber que ficava difcil raciocinar a partir da. A coisa toda lhe parecia desatinada e ilgica.
    Interrompendo seu pensamento, ouviu um ganido, depois um queixume. Era Lobo, que vinha correndo, visivelmente feliz de v-la. Ayla ficou muito aliviada.
            Lobo!  gritou.  Voc veio! E muito mais cedo do que ontem. Est melhor?
    Depois de afag-lo com alegria, ps-se a apalp-lo e viu confirmado o diagnstico da vspera: o animal estava machucado mas no tinha fraturas.
    Resolveu partir na mesma hora, para recuperar a pista enquanto havia luz. Atou Racer numa das tiras dos arreios de Huiin, depois montou na gua. Mandando que 
Lobo a seguisse, voltou pela trilha at o terreno onde encontrara as pegadas misturadas e a mancha de sangue, j agora marrom. Apeou para ver tudo de novo.
            Temos de encontrar Jondalar, Lobo  explicou. O animal a olhava com um ar maroto.
    Ayla se abaixou e, confortavelmente agachada, examinou de perto o terreno, fazendo um esforo para identificar pegadas individuais de modo a poder saber quantos 
eram os sequestradores e identificar o tamanho e a forma de cada impresso. O lobo esperava, sentado, olhando para ela. Sentia que algo de muito importante  e incomum 
 se passava. Finalmente, Ayla apontou para a mancha de sangue.
     Algum feriu Jondalar e o levou. Temos de encontr-lo.
    O Lobo cheirou o sangue, abanou a cauda e latiu.
     Esta  continuou Ayla   a pegada de Jondalar.
    Era uma pegada caracterstica, maior que as outras. Lobo farejou onde ela mostrara e encarou-a como que  espera do resto.
            Esses o levaram  disse Ayla, mostrando os outros rastros de ps humanos.
    Depois, teve uma ideia. Foi at Racer, apanhou o lanador de Jondalar, deu-o a Lobo para cheirar e repetiu:
     Temos de encontrar Jondalar. Lobo! Algum se apoderou dele. Temos de traz-lo de volta!

26
___________________________________________________________________________


    Jondalar se deu conta, bem devagar, de que estava desperto, mas a cautela fez com que se mantivesse imvel at saber o que havia de errado. Porque havia alguma 
coisa indiscutivelmente errada.
    Antes de mais nada, a cabea doa. Entreabriu os olhos. A luz era pouca mas suficiente para que visse o cho sujo e frio, de terra batida, em que jazia. Tinha 
alguma coisa seca e empastada num dos lados da cara, mas quando tentou toc-lo com a mo para ver o que era, descobriu que algum lhe atara as mos atrs das costas. 
Os ps tambm estavam amarrados.
    Rolou de lado e olhou em volta. Achava-se no interior de uma pequena estrutura circular, uma espcie de armao ou gaiola de madeira rodeada de peles de bichos, 
a qual, a seu ver, se inseria em outra estrutura maior. No se ouvia o vento, no havia correntes de ar. As peles no batiam como fariam se a estrutura estivesse 
ao ar livre. Embora fizesse algum frio, a temperatura no era gelada. Descobriu que lhe haviam retirado a parka.
    Fez um esforo para sentar-se, mas logo ficou tonto e nauseado. A cabea latejava, e havia um ponto que doa mais, logo acima da tmpora esquerda, junto do resduo 
seco, agrumado. Imobilizou-se quando ouviu vozes que se aproximavam. Duas mulheres, falando lngua desconhecida, embora detectasse algumas palavras que soavam vagamente 
como Mamuti.
     Al! Vocs a fora. Estou acordado  disse, na lngua dos Caadores de Mamutes.  Algum pode vir soltar-me? Estas cordas so desnecessrias. H algum mal-entendido. 
No quero fazer mal a ningum. H algum mal-entendido. No quero fazer mal a ningum.
    As vozes cessaram por um momento. Depois continuaram, mas ningum respondeu nem entrou.
    Jondalar, de bruos no cho, procurou lembrar-se como fora parar ali e o que poderia ter feito que levasse qualquer pessoa a maniet-lo. Em sua experincia, 
as pessoas s eram amarradas quando se portavam como loucas e tentavam molestar molestar outras pessoas. Lembrava-se de uma cortina de fogo, de cavalos correndo 
para o precipcio da extremidade do campo. Havia pessoas perseguindo os cavalos, e ele se vira apanhado no meio da confuso.
    Lembrou-se, depois, de ter visto Ayla montada em Racer e tendo dificuldade para controlar o animal. No entendia como o cavalo podia estar l se ele o deixara 
amarrado a um arbusto.
    Jondalar teve, ento, um momento de pnico. Temeu que o cavalo, reagindo segundo o instinto da sua espcie, se tivesse precipitado no abismo, levando Ayla consigo. 
Lembrou-se de ter corrido para eles com o arremessador de lanas pronto para entrar em ao. Por mais que gostasse daquele seu cavalo escuro, preferia t-lo morto 
a v-lo despencar com Ayla daquela altura toda. Essa era a ltima coisa de que se recorda.  exceo de uma dor violenta e repentina. Depois, tudo escurecera.
    Algum me feriu, pensou. E foi golpe violento, porque no sei de mais nada. Mas fui trazido para c, e minha cabea ainda di. Ser que pensaram que estava arruinando 
a estratgia de caa deles? Quando ficara conhecendo Jeren e seus caadores, fora a mesma coisa. Ele e Thonolan tinham inadvertidamente espantado uma horda de cavalos 
que os caadores empurravam para uma armadilha. Mas Jeren compreendera, passada a raiva, que a interferncia no fora intencional, e eles haviam ficado amigos. No 
estraguei a caada deste povo. Ou estraguei?
    Quis, outra vez, sentar-se. Dobrou as pernas na posio fetal, depois procurou rolar e ficar sentado. Teve de fazer diversas tentativas, e a cabea doeu com 
o esforo, mas acabou conseguindo. Sentou-se de olhos fechados,  espera que a dor diminusse. Quando isso aconteceu, sua preocupao com Ayla e com os animais o 
assaltou de novo. Huiin e Racer teriam cado no precipcio? E teria Racer levado Ayla l?
    Estaria ela morta? Sentia o corao disparar com o medo de que isso tivesse acontecido. Estariam perdidos mesmo, Ayla e os dois cavalos? E por onde andaria Lobo? 
Quando o animal ferido chegasse ao campo, no encontraria mais ningum. Jondalar podia v-lo farejando em torno, procurando seguir um rastro que no levava a lugar 
nenhum. O que faria, ento? Lobo era bom caador, mas estava ferido. Poderia caar para sobreviver naquele estado? Sentiria falta de Ayla e do resto da sua alcateia. 
No estava acostumado a viver sozinho. Como iria fazer, o pobre? O que aconteceria quando encontrasse um bando de lobos selvagens? Seria capaz de defender-se?
    Mas ningum vir? Gostaria de um pouco de gua, pensou Jondalar. Elas me ouviram, por certo. Tenho fome, tambm, mas principalmente sede. A boca ficava cada 
vez mais seca, a vontade de tomar gua cada vez mais forte.
     Estou com sede!  gritou. No me podem trazer um pouco de gua? Que espcie de gente so vocs? Amarram um homem e no lhe do nem gua!
    Ningum respondeu. Depois de gritar a mesma coisa diversas vezes, decidiu poupar o flego. Aquilo s servia para dar-lhe mais sede ainda, e a dor na cabea redobrava. 
Pensou em deitar-se outra vez, mas tivera tanto trabalho para sentar-se que duvidava poder faz-lo de novo.
     medida que o tempo passava foi ficando taciturno. Estava fraco,  beira do delrio, e imaginava o pior. Estava convencido da morte de Ayla e dos dois cavalos 
tambm. Quando pensava em Lobo, era para visualizar o bicho errando pelo mato, sozinho, doente, incapaz de caar, procurando Ayla, e vulnervel ao ataque de lobos 
da regio, hienas, outras feras... o que era melhor, afinal, que morrer de inanio. Talvez ele tambm fosse deixado ali para morrer de sede. Chegou a desejar que 
isso acontecesse. Identificado  sorte que imaginara para o lobo, o homem decidiu que ele e Lobo eram os ltimos sobreviventes daquele grupo incomum de viajantes 
e que logo eles tambm desapareceriam.
    Foi arrancado ao desespero pelo som de passos, que se aproximavam. A cortina da porta da estrutura em que o tinham metido se abriu e ele pode ver, pela fresta, 
uma figura feminina de mos na cintura, pernas abertas, projetada em silhueta contra a luz de archotes. Ela deu uma ordem rspida. Duas outras mulheres entraram, 
pegaram-no pelos braos, de um lado e de outro, e arrastaram-no para fora. Puseram-no de joelhos diante da figura, com as mos e os ps amarrados. Sua cabea latejava 
e ele se apoiou precariamente a uma das mulheres. Ela o empurrou.
    A mulher que ordenara que o trouxessem olhou-o por um momento ou dois, depois riu. Era um som spero e dissonante, desagradvel, demente. Jondalar se encolheu 
involuntariamente, com um arrepio de medo. A figura lhe dirigiu algumas palavras. Ele no entendeu o que ela dizia mas se empertigou e a olhou. Tinha a viso turva 
e cambaleava um pouco. A mulher fechou a cara, deu mais algumas ordens, e foi embora. As mulheres que o seguravam soltaram-no para segui-la, juntamente com vrias 
outras. Jondalar caiu de lado, tonto e fraco.
    Sentiu que lhe cortavam as cordas dos ps; depois, que lhe derramavam gua na boca. Quase engasgou, mas procurou avidamente sorver um pouco. A mulher que segurava 
a bolsa d'gua disse algumas palavras em tom de desgosto e passou a bolsa para as mos de um homem velho. Este se adiantou, aproximou a bolsa da boca de Jondalar, 
e inclinou-a, no com mais delicadeza propriamente, mas com mais pacincia, de modo que Jondalar conseguiu engolir e, finalmente, saciar sua sede voraz.
    Antes, porm, que se considerasse satisfeito, a mulher disse uma palavra e o homem recolheu a gua. Ento ela obrigou Jondalar a levantar-se.
    Ele cambaleou quando foi empurrado para fora do abrigo, onde havia um grupo de homens. Estava frio, mas ningum lhe devolveu a parka ou desamarrou-lhe as mos 
para que ele pudesse aquec-las, esfregando-as uma na outra.
    O ar frio, no entanto, o reanimou, e ele viu que alguns dos homens presentes tambm tinham as mos atadas atrs das costas. Observando-os de perto, descobriu 
que eram de vrias idades, desde muito jovens  verdadeiros meninos, na verdade  at ancios. Todos pareciam emaciados, frgeis e sujos, com roupas inadequadas, 
em farrapos, e cabelos emaranhados. Poucos exibiam feridas no tratadas, cobertas de sangue seco e terra.
    Jondalar quis falar com o vizinho mais prximo em Mamuti, mas o homem abanou a cabea. Jondalar imaginou que ele no entendera, e tentou Xaramudi. O homem 
olhou para outro lado, justamente quando uma mulher que tinha uma lana na mo se aproximou deles e ameaou Jondalar com a arma, dizendo-lhe qualquer coisa. As palavras 
eram ininteligveis, mas a atitude clara, e ele ficou sem saber se o homem no lhe respondera por no conhecer as lnguas ou por no querer.
    Vrias mulheres com lanas se distribuam entre os prisioneiros. Uma delas deu um comando, e os homens se puseram em marcha. Jondalar aproveitou a oportunidade 
para olhar em torno e ver se descobria onde estava. O estabelecimento, que consistia em diversas casas circulares, lhe pareceu vagamente familiar, o que era estranho 
porque a regio lhe era de todo desconhecida. Depois percebeu que era a forma das construes. Pareciam pavilhes Mamuti. Embora no fossem exatamente iguais aos 
que ele conhecia, pareciam feitos do mesmo modo, provavelmente com emprego de ossos de mamutes como apoio estrutural, cobertos de palha, e, depois, de barro.
    Caminharam para o alto de uma colina, o que lhe deu uma viso mais ampla. O campo era do tipo estepe ou tundra, plano, sem rvores, com um subsolo congelado 
que derretia no vero e apresentava uma superfcie barrenta e negra. A tundra s conseguia alimentar ervas raquticas, mas na primavera uma florao conspcua acrescentava 
cor e beleza  paisagem, e permitia alimentar o boi almiscarado, a rena e outros animais, Havia tambm faixas de taiga, com rvores sempre-verdes de altura to uniforme 
que suas copas pareciam tosadas no alto por algum gigantesco instrumento de cortar  como de fato o eram. Ventos gelados, carregados de agulhas de saraiva ou fragmentos 
de loess arenoso, podavam todo galho ou ponta que ousasse passar acima dos outros.
    Mais no alto Jondalar viu uma manada de mamutes pastando e, um pouco mais perto, renas. Sabia que havia cavalos na regio  e caadores de cavalos , e achava 
que o bisonte e o urso tambm a frequentavam nas estaes mais clementes. A terra parecia-se muito mais coma sua, com as estepes secas da parte oriental, pelo menos 
no que dizia respeito aos tipos de plantas existentes, se bem que a vegetao dominante fosse diversa e, tambm, provavelmente, a mistura proporcional de animais.
    Percebeu, com o canto do olho, algum movimento  sua esquerda. Virou-se com tempo para ver uma grande lebre branca atravessara a colina perseguida por uma raposa 
rtica. Enquanto olhava, o animal. que era gordo, parou e fugiu em outra direo, passando pela caveira meio decomposta de um rinoceronte lanudo, e metendo-se, depois, 
na sua toca.
    Onde existem mamutes e rinocerontes, pensou Jondalar, existe tambm lees, e com outros animais gregrios, hienas provavelmente, tambm lees, e com outros animais 
gregrios, hienas provavelmente, e tambm, por certo, lobos. Abundncia de carne, de animais peludos, de plantas alimentares. Uma terra de grande fertilidade. Fazer 
esse tipo de avaliao era, para ele, uma segunda natureza, como, em maior ou menor grau, para muita gente. Viviam, todos, da terra, e a observao detida dos seus 
recursos era necessria.
    Quando o grupo chegou a um terreno plano e alto, no flanco da colina, parou. Jondalar olhou morro abaixo e viu que os caadores que viviam naquela rea gozavam 
de uma vantagem singular. No s podiam ver de longe os animais, mas eles tinham de passar, embaixo, por um estreito corredor entre o rio e os paredes verticais 
de arenito. Seria fcil ca-los, inclusive daquele mirador. Por que, ento, estariam caando cavalos perto do Rio da Grande Me?
    Um lamento longo e lgubre se fez ento ouvir, obrigando Jondalar a desviar a ateno do cenrio para concentr-la no palco em que se encontrava. Uma figura 
feminina, mulher velha, de longos cabelos grisalhos desgrenhados, avanava apoiada em duas mulheres mais jovens. Era ela quem gritava, tomada de evidente desespero. 
De repente, conseguiu soltar-se, caiu de joelhos, e se dobrou sobre alguma coisa que estava no cho. Jondalar avanou um pouco, a ver do que se tratava. Ele era 
muito mais alto que a maioria dos circunstantes e bastaram-lhe dois ou trs passos para entender o motivo da dor da mulher.
    Aquilo era, obviamente, um funeral. Estendidos no solo estavam trs corpos  de jovens, ao que lhe pareceu, adolescentes, todos; ou teriam pouco mais de vinte 
anos. Dois eram, sem dvida, do sexo masculino. Tinham barba. O mais alto talvez fosse o mais jovem. Seus plos faciais eram finos e ainda esparsos. A mulher de 
cabelos grisalhos chorava sobre o cadver do outro, cujo cabelo castanho e cuja barba curta eram mais aparentes. O terceiro era bastante alto, mas magro, e alguma 
coisa no corpo e na maneira pela qual jazia indicava que tivera alguma deformidade fsica. Jondalar no viu sinal de barba, o que lhe deu a impresso de que o corpo 
fosse de mulher. Mas podia ser tambm o corpo de um tomem alto e glabro.
    Os detalhes das vestes no ajudavam muito. Todos tinham as pernas enroladas em couro e usavam tnicas soltas, que disfaravam os traos. Essas roupas lhe pareceram 
novas, mas no tinham qualquer decorao. Era como se algum no desejasse que eles fossem reconhecidos no outro mundo e tivesse procurado torn-los annimos.
    A mulher grisalha foi puxada do cho, quase arrastada, embora no com violncia, para longe do cadver do jovem pelas duas mulheres que tinham entrado com ela. 
Ento, outra mulher avanou, e alguma coisa nela fez com que Jondalar olhasse duas vezes. Seu rosto era curiosamente oblquo e assimtrico, com um dos lados como 
que repuxado para trs e um pouco menor que o outro. Ela no procurava esconder isso. Seus cabelos eram claros, talvez cinzentos, puxados para cima e arranjados 
em um coque no alto da cabea.
    Jondalar achou que ela teria a idade de sua me, e se movia com a mesma graa e dignidade, embora no houvesse qualquer semelhana fsica entre ela e Marthona. 
A despeito da sua ligeira deformidade, a mulher no deixava de ser atraente, e o rosto impunha respeito. Quando seu olhar cruzou com o de Jondalar, ele percebeu 
que estava olhando fixamente, mas ela desviou os olhos antes dele, com uma certa precipitao, achou. E quando comeou a falar, Jondalar percebeu que ela oficiava 
a cerimnia fnebre. Devia ser uma mamute, achou ele, uma pessoa capaz de comunicar-se com o mundo dos espritos, uma zelandonii para aquela gente.
    Sentiu que outra mulher o fitava, do lado da congregao. Era alta, bastante musculosa, tinha traos fortes, mas uma certa formosura, com cabelos castanhos e, 
o que era interessante, olhos muito escuros. No olhou para outro lado quando ele a encarou, continuou a encar-lo sem constrangimento. Tinha a estatura e a aparncia 
das mulheres por quem ele costumava interessar-se, pensou, mas o sorriso dela o deixava desconfortvel.
    Notou, ento, que ela mantinha as pernas bem separadas e tinha as mos na cintura e soube, subitamente, quem ela era: a mulher que lhe rira na cara de maneira 
to ameaadora. Teve vontade de recuar e esconder-se atrs dos outros homens, sabendo que no poderia fazer isso nem que, de fato, tentasse. No era s bem mais 
alto do que os demais, e tambm mais saudvel e mais musculoso que eles. Seria conspcuo onde quer que estivesse.
    A cerimnia lhe pareceu bastante perfunctria, como se fosse uma obrigao desagradvel e no um rito solene, relevante. Sem mortalha ou qualquer espcie de 
sudrio, os corpos foram simplesmente carregados um por um, para uma cova comum, rasa. Estavam moles quando os ergueram do cho. Tambm no fediam. O cadver mais 
alto e magro foi primeiro. Deitaram-no de costas, puseram-lhe um pouco de p de ocre. vermelho, na cabea, e tambm, o que era peculiar, na plvis, na poderosa rea 
da gerao, o que fez Jondalar pensar de novo que talvez se tratasse de uma fmea.
    Os outros dois foram enterrados de modo diferente, mas ainda mais estranho. O macho de cabeleira castanha foi estendido na cova comum,  esquerda do primeiro 
defunto, do ponto de observao de Jondalar, mas deitado de lado, olhando para o outro corpo. O brao foi estendido,
de modo a que a mo, inerte, ficasse sobre a regio pbica pintada de vermelho. O terceiro corpo foi quase jogado na sepultura, de bruos, do lado direito do primeiro 
corpo, o principal. Ocre vermelho foi polvilhado na cabea dos dois. Era, seguramente, uma proteo. Mas para quem? E contra quem? Jondalar no sabia.
    Logo que a terra solta comeou a ser lanada em cima dos cadveres, a velha descabelada se libertou outra vez dos que a seguravam, correu at a cova, e lanou 
alguma coisa l dentro. Jondalar viu duas facas de pedra e umas poucas pontas de lana feitas de slex.
    A mulher de olhos escuros adiantou-se, obviamente encolerizada. Deu uma ordem a um dos homens, apontando a cova. Ele se encolheu todo mas no saiu do lugar. 
Ento a Xam avanou e falou, abanando a  cabea todo o tempo. A outra gritou, de raiva e frustrao, mas a Xam no cedeu nem parou de abanar a cabea. A outra 
recuou e lhe deu uma bofetada com as costas da mo. Houve uma espcie de arquejo coletivo, um grito sufocado em muitas gargantas. Depois, a mulher se retirou, furiosa, 
seguida por uma coierie de fmeas armadas de lanas.
    A Xam no se deu por achada. No tomou conhecimento do insulto sequer levou a mo ao rosto, embora Jondalar pudesse ver, mesmo de onde estava, a vermelhido 
que o tomava. A sepultura foi enchida rapidamente com terra, que tinha de mistura fragmentos de carvo e pedaos de madeira meio calcinada. Devem ter feito grandes 
fogueiras aqui, pensou Jondalar. Desviou o olhar para o estreito corredor l embaixo. Ocorreu-lhe, ento, que aquele mirante era um observatrio privilegiado de 
onde se podiam fazer sinais com fogo quando animais  ou qualquer outra coisa  se aproximassem.
    Logo que os corpos ficaram cobertos, os homens foram conduzidos colina abaixo e levados para uma rea cercada por uma alta paliada feita de troncos de rvores 
postos lado a lado e amarrados uns aos outros. Ossos de mamute estavam empilhados contra uma parte da cerca, e Jondalar se perguntou qual o motivo disso. Ele foi 
separado dos outros e levado para a casa de barro e, dentro dela, para o pequeno recinto circular, coberto de couro, que j ocupara. Antes de entrar, observou como 
era feito.
    A armao, robusta, se compunha, basicamente, de troncos finos de rvores jovens, cuja parte mais grossa era enterrada no cho. Depois, os troncos eram encurvados 
para o centro e atados uns aos outros. Os lados eram fechados com couros, mas o que servia de cortina na entrada, e que ele vira de dentro, era fechado do lado externo 
por uma espcie de porto, que podia ser amarrado de fora com segurana.
    Uma vez l dentro, Jondalar prosseguiu no seu exame da estrutura. Era completamente nua. Sequer havia um catre ou enxerga em que pudesse dormir. O teto baixo 
no lhe permitia ficar de p, exceto no meio, mas ele baixou a cabea e andou em torno do espao exguo e escuro, estudando-o com cautela. Observou que os couros 
eram velhos e gastos. Alguns estavam j em tiras. Pareciam, at, podres, e haviam sido costurados como que s carreiras. Havia falhas entre as sees, de modo que 
lhe era possvel enxergar um pouco da rea circundante. Jondalar se sentou no cho e ficou olhando a entrada da casa, que estava aberta. Passaram algumas pessoas, 
mas nenhuma entrou.
    Depois de algum tempo, ele teve vontade de mijar. De mos amarradas, sequer podia abrir a roupa para aliviar-se. Se ningum aparecesse para desamarr-lo, e logo 
teria de urinar nas calas. Alm disso, seus pulsos comeavam a ficar esfolados, onde as cordas cortavam a pele. Comeava a ficar furioso com a situao. Aquilo 
era ridculo! J fora longe demais.
     Vocs  gritou.  Por que me mantm assim, preso? No fiz mal a ningum! Por que me prendem assim, como um animal numa jaula? Quero me soltem as mos! Se ningum 
o fizer, vou mijar nas calas!
    Nada aconteceu. E ele se ps a berrar de novo.
     Alguem a fora! Venha soltar as minhas mo! Que espcie de gente so vocs? Ficou de p e se encostou com fora na estrutura. Era slida, mas cedeu um pouco. 
Fie ganhou distncia, tanta quanto podia, e meteu o ombro na parede para deit-ia abaixo. Ela cedeu um pouco, e ele forou mais. Com grande satisfao, ouviu um 
estalo. Um pedao de madeira quebrara. Recuou, pronto a repetir a manobra, mas ouviu que algum entrava correndo na construo principal.
     Era tempo! Tirem-me daqui! Tirem-me daqui agora mesmo!
    Ouviu os movimentos de algum que procurava destrancar o porto. Ento a cortina da porta foi levantada, e vrias mulheres surgiram  vista, com lanas apontadas 
para ele. Jondalar ignorou-as e saiu.
     Desamarrem as minhas mos!  disse , virando-se de costas para que elas pudessem ver os amarrilhos dos pulsos.  Tirem essas cordas de mim!
    O velho que o ajudara a beber no primeiro momento deu um passo em frente.
            Zelandonii... Voc... de... longe  disse, lutando, obviamente, para lembrar as palavras certas.
    Jondalar no se dera conta de que, na sua fria, tinha falado na lngua nativa.
            Voc sabe Zelandonii?  disse ao homem, com surpresa. Mas sua necessidade premente falou mais forte.  Diga-lhes que me soltem ou vou mijar nas calas!
    O homem falou com uma das mulheres. Ela respondeu, sacudindo negativamente a cabea, mas o homem insistiu. Por fim, ela tirou uma faca pequena de uma bainha 
que tinha na cintura e, dando uma ordem que fez com que as demais apontassem suas lanas para o prisioneiro, avanou e mandou que ele se virasse. Ele obedeceu e 
esperou. Esto precisando muito de algum que saiba trabalhar com slex!, pensou. A faca da mulher era cega.
    Depois de um tempo que lhe pareceu interminvel, as cordas tombaram por terra. De imediato, ele se curvou para abrir a braguilha e, apitado como estava para 
urinar, tirou o membro para fora sem nenhuma vergonha e procurou freneticamente um canto onde aliviar-se. As mulheres das lanas, porm, no deixaram que ele sasse 
do lugar. Como protesto e desafio, ele se ps de frente para elas e, com um grande suspiro de alvio, mijou.
    Ficou a observ-las durante a operao. O longo jorro amarelo esvaziou bem devagar a sua bexiga, fazendo fumaa ao tocar o solo frio e cheirando forte. A mulher 
no comando pareceu horrorizada, embora se esforasse para ficar impassvel. Duas das outras mulheres viraram a cara ou desviaram o olhar. Houve, porm, as que pareceram 
fascinadas como se nunca tivessem visto um homem urinar. O velho fez um esforo inaudito para no rir. Mas seu deleite era bvio.
    Quando Jondalar acabou, guardou o pnis e encarou as carcereiras, decidido a no deixar que o manietassem de novo. E, dirigindo a palavra ao homem, apresentou-se 
formalmente.
     Sou Jondalar, dos Zelandonii, e estou no curso de uma Jornada.
     Pois viaja longe, Zelandonii. Talvez... longe demais.
    Viajei muito mais longe que isso. Passei o ltimo inverno com os Mamuti. Estou voltando para casa, agora.
     Foi o que pensei ter ouvido de voc, anteriormente  disse o sujeito, passando a falar na lngua em que era muito mais fluente.  Alguns aqui, entendem Mamuti, 
mas os Mamuti em geral vm do norte. Voc veio do sul.
     Se me ouviu falar antes, por que no se apresentou? Sei que h um mal-entendido. Por que me aprisionaram?
    O velho abanou a cabea, desconsolado na opinio de Jondalar.
            Logo ficar sabendo, Zelandonii.
    Subitamente, a mulher interrompeu o dilogo, com uma furiosa exploso de palavras. O ancio se retirou, apoiando-se num cajado.
            Espere! No se v! Quem  voc? Quem  esta gente? E quem  aquela mulher que mandou que me prendessem?
    O velho olhou por cima do ombro.
            Aqui me conhecem por Ardemun. Estes so os S'Armunai. E a mulher ... Attaroa.
    Jondalar no deu a devida ateno  nfase que ele pusera no nome da mulher.
            S'Armunai? Onde foi que ouvi esse nome antes? Espere... eu me lembro. Laduni, o chefe dos Losadunai...
            Laduni  o lder?  disse Ardemun.
            Sim. Ele me falou dos S'Armunai, quando viajamos para o leste, mas meu irmo no quis parar  disse Jondalar.
     Ainda bem. E  uma lstima que esteja aqui, agora.
     Por qu?
    A mulher que comandava as guardas armadas de lana interrompeu de novo com uma ordem.
            Eu tambm j fui um Losadunai. Desgraadamente, fiz, como voc, uma Jornada...  disse Ardemun, ao sair, manquitolando, da casa.
    Quando o viu pelas costas, a comandante falou rispidamente com Jondalar. Ele entendeu que ela queria lev-lo para algum lugar, mas resolveu fingir completa ignorncia.
     No compreendo o que diz. Ter de chamar Ardemun de volta  disse.
    Ela se dirigiu de novo a ele, mais zangada ainda agora, e espetou-lhe a ponta da lana. A pele se rompeu, e um fio de sangue escorreu pelo brao de Jondalar. 
Seus olhos refletiram a raiva que sentiu. Tocou a ferida com os dedos, depois olhou o sangue na mo.
     No era necess...  comeou a dizer.
    Mas a mulher o interrompeu com mais um monte de palavras. As outras o rodearam. A chefe se afastou, e elas mostraram a Jondalar que devia acompanh-la, chuchando-o 
com os cabos das lanas. L fora, o ar frio lhe deu arrepios. Eles saram da paliada e embora Jondalar no pudesse ver l dentro, sentiu que estava sendo observado 
pelos que estavam detidos atravs de frestas nas paredes. O sentido daquilo tudo lhe escapava. Animais eram postos em lugares assim, para que no escapassem. Era 
parte da arte da caa. Mas por que gente? E quantos haveria
trancafiados ali?
    No  to grande assim, a paliada. No pode haver tanta gente l. Imaginava o trabalho que teria custado fechar mesmo uma pequena rea com madeira. As rvores 
eram raras na regio. Havia alguma vegetao arbustiva, mas as rvores usadas para aquela cerca tinham vindo do vale embaixo. Teria sido preciso cortar as rvores 
l mesmo, retirar os galhos, carregar tudo morro acima, cavar buracos suficientemente profundos para que os troncos ficassem direitos, tecer cordas e atilhos, e 
depois atar as rvores umas s outras. Por que teria aquele povo despendido tanto esforo por algo que no fazia sentido  ou fazia muito pouco?
    Jondalar foi levado at um arroio, quase todo congelado, onde Attaroa e diversas mulheres vigiavam enquanto uns poucos homens jovens carregavam ossos de mamute, 
grandes e pesados. Todos os carregadores pareciam famlicos, e ele no podia imaginar de onde tiravam as foras para trabalhar.
    Attaroa o olhou dos ps  cabea. S uma vez. Depois, ignorou-o. Jondalar esperou, ainda intrigado com o comportamento daquele estranho povo. Depois de algum 
tempo, ficou gelado at os ossos, e comeou a andar um pouco, a pular parado algumas vezes, e a bater com os braos no corpo para aquecer-se. Ficava mais e mais 
furioso com a estupidez de tudo aquilo e, finalmente, decidindo que no mais se sujeitaria a tratamento to absurdo, fez meia-volta e se foi, rumo  casa. L pelo 
menos estaria livre do vento. Seu movimento, por imprevisto, pegou as sentinelas de surpresa, e quando elas levantaram as armas, ele as afastou com o brao e continuou 
a andar. Ouviu gritos, mas os ignorou.
    Ainda sentia frio quando entrou. Procurando algo com que aquecer-se, arrancou a cobertura de couro da gaiola interior e envolveu-se nela. Mas j as mulheres 
chegavam. A que o ferira com a lana estava entre elas. E, obviamente furiosa, procurou alcan-lo outra vez. Ele se esquivou agilmente e segurou a lana dela com 
as mos, mas tudo foi interrompido por uma grande gargalhada de zombaria.
    Zelandonii!  exclamou Attaroa, e disse mais algumas coisas que ele no entendeu.
    Ela quer que voc saia  disse Ardemun. Jondalar no o vira, junto da porta.  Ela o acha inteligente, um pouco demais para seu gosto. Entendo que ela o deseja 
onde possa cerc-lo com o seu esquadro de guerreiras.
            E se eu no sair?
            Ento, provavelmente, ela mandar mat-lo aqui e agora.
    Essas palavras foram ditas, em impecvel Zelandonii, por uma das mulheres. E sem trao de sotaque! Jondalar olhou com grande surpresa para a direo de onde 
vinha a voz. Era a Xam!
     Se sair, Attaroa deixar que viva um pouco mais. Ela est interessada em voc, mas acabar por mat-lo, de qualquer maneira.
     Mas por qu? O que represento para ela?  disse Jondalar.
     Uma ameaa.
     Uma ameaa? Mas eu nunca a ameacei.
     Voc ameaa a autoridade dela. Ela quer usar voc como exemplo.
    Attaroa interrompeu, e embora Jondalar no entendesse o que dizia, a fria mal contida das palavras da mulher parecia dirigida  Xam. A resposta da mulher mais 
velha foi moderada, mas no havia na sua expresso ou entonao sinais de medo. Depois da troca de palavras, ela explicou a Jondalar.
     Attaroa queria saber o que foi que eu lhe disse. Eu lhe contei.
     Diga-lhe que concordo em sair.
    Quando a mensagem foi transmitida, Attaroa riu, disse alguma coisa, e saiu.
            O que ela disse?
     Que sabia disso. Os homens aqui fazem qualquer coisa para prolongar por mais tempo suas vidas miserveis.
    Nem tudo, talvez  disse Jondalar, saindo. J  porta, perguntou:  Qual o seu nome?
     S'Armuna.
     Achei que seria. E como fala to bem a minha lngua?
            Vivi com seu povo por algum tempo  disse S'Armuna, mas cortou logo o bvio desejo dele de saber mais.   uma histria comprida.
    Embora o homem esperasse que ela lhe perguntasse, em troca, quem era, S'Armuna simplesmente voltou-lhe as costas. Ele deu, assim mesmo, a informao.
     Eu sou Jondalar, da Nona Caverna dos Zelandonii.
    Os olhos de S'Armuna ficaram arregalados de surpresa.
     A Nona Caverna?
            Sim  continuou ele. Poderia ter continuado, enumerando seus parentescos, mas a expresso no rosto dela o deteve, embora no soubesse ler o seu sentido. 
Um momento depois, a expresso da mulher j no mostrava nada, e ele ficou pensando se no teria imaginado aquilo.
     Ela est  sua espera  disse S'Armuna, saindo.
    Attaroa estava sentada, do lado de fora, num banco alto, coberto com uma pele, e posto sobre uma plataforma de terra batida, que fora tirada do cho do grande 
aposento que ficava atrs dela, e era meio subterrneo. Dava para a rea cercada e, ao passar pela cerca, Jondalar se sentiu outra vez observado pelas frestas.
    Ao chegar perto da mulher, teve certeza de que a pele em que ela sentava era de lobo. O capuz da parka que Attaroa usava, lanada para as costa, tinha um debrum 
de pele de lobo, e ela exibia, no pescoo, um colar feito principalmente de caninos de lobos, embora houvesse tambm, no conjunto, alguns dentes de raposa rtica 
e um, pelo menos, de urso das cavernas. Ela segurava na mo uma espcie de cetro, um basto entalhado como o Basto Falante que Talut usava quando havia assuntos 
relevantes em pauta ou controvrsias por resolver. Aquele basto ajudara mais de uma vez a manter em ordem os debates. Quem o empunhasse tinha o direito de falar, 
e quando outra pessoa achava que tinha algo pertinente a dizer precisava pedir a palavra, isto , o Basto Falante.
    Havia alguma outra coisa familiar naquele basto que ele no sabia identificar. Poderia ser o motivo nele gravado? Mostrava a forma estilizada de uma mulher 
sentada, com uma srie de crculos concntricos representando seios e barrigas, e uma cabea triangular e inslita, estreita no queixo, e um rosto de desenho enigmtico. 
No era obra Mamuti de talha, mas lhe dava assim mesmo a impresso de coisa conhecida.
    Diversas das mulheres rodeavam Attaroa. Outras, que ele no havia ainda visto, algumas com crianas, poucas, estavam de p nas proximidades. Ela o estudou por 
alguns minutos. E quando falou, encarou-o todo o tempo. Ardemun, sentado a um lado, comeou a fazer uma traduo hesitante em Zelandonii. Jondalar quis sugerir que 
ele falasse Mamuti, mas  S'Armuna interrompeu, disse alguma coisa a Attaroa, depois o olhou.
            Eu traduzo  anunciou.
    Attaroa fez um comentrio zombeteiro que provocou risos. S'Armuna no traduziu.
     Ela falava comigo  disse, impassvel. E foi tudo. A mulher sentada falou de novo, dirigindo-se dessa feita a Jondalar.
     Falo agora como Attaroa  explicou S'Armuna, comeando a traduzir.  Por que veio at aqui?
     No vim voluntariamente. Fui trazido para c, de ps e mos atados  disse, enquanto S'Armuna traduzia, quase simultaneamente.  Estou no curso de uma viagem. 
Ou estava. No sei por que me amarraram. Ningum se deu ao trabalho de me dizer.
     De onde vem?  perguntou Attaroa pela boca de S'Armuna, ignorando o que ele dissera.
     Passei o inverno com os Mamuti.
     Voc mente! Vinha do sul.
     Vim pelo caminho mais longo. Queria visitar parentes que moram perto do Rio da Grande Me, na ponta das montanhas orientais.
     Mente de novo. Os Zelandonii vivem longe de ns, para oeste. Como pode ter parentes do outro lado?
     No minto. Eu viajei com meu irmo. Ao contrrio dos S'Armunai, os Xaramudi nos receberam muito bem. Meu irmo tomou mulher l. Eles so meus parentes por 
parte dele.
    E ento, cheio de uma espcie de santa indignao, Jondalar comeou a falar. Era a primeira vez que tinha oportunidade de desabafar e com algum que ouvia.
            No sabe que aqueles que viajam tm direito de passagem? A maior parte das pessoas acolhe os estrangeiros. Trocam experincias e histrias. Mas no 
aqui! Aqui me feriram na cabea e, embora machucado, no me trataram. Ningum me deu de comer ou de beber. Tiraram de mim a minha parka de pele, que no me foi devolvida, 
nem mesmo quando me obrigaram a sair para o frio.
    Quanto mais falava, mas furioso ia ficando. Fora muito maltratado.
     Fui posto fora de casa, e deixado de p interminavelmente, em jejum. Nenhum povo na minha longa Jornada me tratou assim. At os animais das campinas partilham 
seu pasto, sua gua. Que espcie de gente so vocs?
    Attaroa o interrompeu.
     Por que tentou furtar a nossa carne?  Ela estava irritada, mas no queria mostr-lo. Embora soubesse que tudo o que ele dizia era verdade, no gostava que 
lhe dissessem que era pior que outras pessoas, sobretudo em pblico, diante do seu povo.
     Eu no quis furtar a sua carne  disse Jondalar, negando enfaticamente a acusao. A traduo de S'Armuna era to fluente e rpida, e a necessidade de comunicar-se 
de Jondalar to intensa, que ele quase se esquecia da intrprete. Sentia como se estivesse falando diretamente com Attaroa.
     Mentira! Voc investiu de lana na mo contra aquela horda de cavalos que ns estvamos perseguindo.
     No estou mentindo! Eu queria apenas salvar Ayla. Ela montava um daqueles cavalos, e eu no podia deixar que os outros a levassem para o abismo.
            Ayla?
            Voc no a viu? Ayla  a mulher com quem estou viajando.
    Attaroa riu.
     Voc viaja com uma mulher que monta cavalos? Se voc no  um contador ambulante de histrias, ento errou a vocao.  Attaroa se curvou para a frente e espetou 
o dedo no peito dele para reforar o Que dizia.  Tudo falso! Voc  mentiroso e ladro.
     Nem uma coisa nem outra. Eu disse a verdade e no furtei nada  disse Jondalar com convico. Mas no fundo do corao no podia honestamente censur-la por 
no acreditar nele. A no ser que algum tivesse visto Ayla, como conceber que eles dois viajassem montando cavalos domesticados? Comeou a ficar apreensivo. Como 
convencer Attaroa de que dizia a verdade, que no interferira deliberadamente na sua caada? E se ele soubesse toda a gravidade da sua situao teria ficado mais 
que apreensivo.
    Attaroa estudava aquele homem musculoso e belo, de p  sua frente, envolto nos couros que rasgara da gaiola. Notou que a barba loura era um pouco mais escura 
que o cabelo. E os olhos, de uma tonalidade inacreditavelmente vvida de azul, eram irresistveis. Sentia-se fortemente atrada por ele, mas a prpria intensidade 
da sua emoo lhe trazia do passado penosas lembranas h muito sufocadas e que provocavam nela uma reao vigorosa mas estranhamente torcida. No se permitiria 
ceder  atrao de nenhum homem. Isso implicaria dar-lhe poder sobre ela  e jamais permitiria outra vez que algum, principalmente um homem, exercesse controle 
sobre Attaroa.
    Ela lhe tirara a parka e o deixara no frio pelo mesmo motivo por que o deixara sem comida ou gua. A privao torna os homens mais fceis de dominar. Enquanto 
eles tinham capacidade de resistir era preciso mant-los em ferros. Mas aquele Zelandonii, vestido com aqueles couros que no tinha o direito de usar, no mostrava 
temor, pensou. Bastava v-lo de p,  sua frente, seguro de si.
    Era to desafiador e gabola que ousava, at, critic-la perante todo mundo, inclusive os homens do Depsito! Ele no se humilhava, no pedia, no mostrava aodamento, 
no procurava agrad-la como os outros faziam. Pois jurava que ele haveria de fazer tudo aquilo! Estava decidida a dobr-lo. Mostraria a todos como se trata um homem 
como aquele. E depois de humilhado, morreria.
    Mas antes de domin-lo, disse consigo mesma, vou brincar com ele um pouco. Ademais,  um homem forte, difcil de controlar se quiser resistir. Est desconfiado 
agora, tenho de faz-lo baixar a guarda. Precisa ser enfraquecido. S'Armuna deve conhecer algum meio.
    Attaroa chamou a Xam e conversou com ela em particular. Depois olhou para o homem e sorriu, mas havia tanta malcia no sorriso que lhe deu um calafrio na espinha.
    Jondalar no ameaava apenas a sua liderana, mas o frgil mundo que a sua mente doentia a levara a criar. Ameaava, at, a sua tnue ligao com a realidade, 
a qual, ultimamente, ficara tensa a ponto  quase  de arrebentar.
            Venha comigo  disse S'Armuna, quando ele deixou Attaroa.
            Para onde?  perguntou Jondalar, postando-se ao lado dela. Duas mulheres com lanas fechavam a marcha.
            Attaroa mandou que eu trate a sua ferida  explicou.
    Ela conduziu Jondalar a uma construo na parte mais remota do estabelecimento, semelhante  grande construo de barro junto da qual Attaroa se sentara, mas 
um pouco menor e abobadada. Uma entrada baixa e estreita levava atravs de um estreito corredor para outro arco. Jondalar teve de curvar a cabea e andar de joelhos 
dobrados por algum tempo. Depois desceu trs lanos de degraus. Ningum, nem mesmo uma criana, poderia entrar facilmente na morada de S'Armuna, mas uma vez l dentro 
ele pde ficar de p normalmente e ainda lhe sobrava muito espao para cima. As duas mulheres que tinham vindo com eles ficaram do lado de fora.
    Depois que seus olhos se adaptaram  penumbra do interior, viu uma plataforma de dormir posta contra a parede do fundo. Estava coberta com uma pele branca de 
alguma espcie. Os animais brancos, por incomuns e raros, eram sagrados para o seu povo e, como descobrira viajando, para outros povos tambm. Ervas secas pendiam 
em molhos do teto, e muitas das cestas e tigelas ao longo dos muros provavelmente continham mais. Qualquer Xam, Mamute ou Zelandonii, que ali entrasse, sentir-se-ia 
em casa. Exceto por uma coisa. Entre muitos povos a morada de Uma Que Serve  Me era uma rea cerimonial ou ficava adjacente a uma, e o espao maior era o lugar 
reservado aos visitantes. Mas aquela no era uma rea espaosa e convidativa para atividades ou visitas. Tinha um clima fechado e secreto. Jondalar teve certeza 
de que S'Armuna vivia s e que pouca gente entrava nos seus domnios.
    Ele a viu acender o fogo, juntar-lhe excremento seco e uns poucos gravetos, e encher de gua um recipiente escurecido pelo uso, com aspecto de bolsa. Fora, seguramente, 
o estmago de um animal, preso agora a uma armao de osso. De uma das cestas das prateleiras ela tirou uma mancheia de algum material, e quando a gua comeou a 
porejar pelas paredes do recipiente ela o ps diretamente nas chamas. Enquanto houvesse lquido nela, mesmo fervente, a bolsa no queimaria.
    Embora Jondalar no soubesse o que a mulher havia despejado na gua, o odor que dela saa lhe era familiar e, curiosamente, o fazia pensar na sua casa. E, num 
timo, lembrou-se. Aquele cheiro muitas vezes emanava das figueiras dos Zelandonii. Eles usavam o mesmo decocto para lavar cortes e feridas.
            Voc fala muito bem a nossa lngua. Viveu longamente entre os Zelandonii?  perguntou Jondalar.
    S'Armuna o olhou e pareceu considerar a resposta que daria.
            Vrios anos.
            Ento sabe que os Zelandonii so hospitaleiros. No entendo esta gente. O que poderei ter feito para merecer esse tratamento? Voc gozou da hospitalidade 
dos Zelandonii. Por que no explica a eles sobre os direitos de passagem e a cortesia devida a estrangeiros?  mais que uma
cortesia, a rigor.  uma obrigao.
    A nica resposta de S'Armuna foi um olhar sardnico.
    Ele sabia que no estava indo muito bem. Mas ainda incrdulo com o que lhe acontecera recentemente, sentia uma necessidade quase infantil de explicar como as 
coisas deveriam ser, como se isso pudesse consert-las. Decidiu tentar outra abordagem.
            Imagino se, tendo morado l tanto tempo, conheceu minha me. E sou filho de Marthona...
    Teria continuado, mas a expresso no rosto deformado da mulher o deteve. Registrara tanto choque que as feies ficaram ainda mais condidas.
            Voc  filho de Marthona, nascido no lar de Joconan?  disse ela, por fim.
     No. Esse  meu irmo Joharran. Eu nasci de Dalanar, o homem com quem Marthona ficou, depois. Voc conheceu Joconan?
     Sim  disse S'Armuna, baixando os olhos. Depois, deu toda sua ateno ao pote, que quase fervia.
     Ento deve conhecer minha me!  Jondalar estava excitado.  Se conheceu Marthona, sabe que no sou um mentiroso. Ela nunca permitiria que um dos seus filhos 
mentisse. Sei que isso parece difcil de acreditar, eu mesmo no acreditaria se me fosse contado e eu no a conhecesse, mas a mulher com quem eu estava viajando 
montava efetivamente um dos cavalos que esta gente precipitou no despenhadeiro. Era um cavalo criado por ela desde pequeno e que no pertencia quele bando. Agora 
nem sei se est viva. Voc precisa dizer a Attaroa que no minto! Preciso procurar Ayla. Preciso saber se ela vive!
    O apelo de Jondalar no fez efeito sobre a mulher. Ela nem mesmo ergueu os olhos da bolsa de gua quente que estava mexendo. Mas ao contrrio de Attaroa, no 
duvidava dele. Um dos caadores de Attaroa viera falar com ela sobre uma confusa histria de uma mulher em cima de um dos cavalos. Tinha medo que fosse um esprito! 
S'Armuna achava por isso que a histria de Jondalar tinha fundamento. S no sabia se era real ou sobrenatural.
            Voc conheceu Marthona, no conheceu?  insistiu ele, indo at o fogo para chamar a ateno da mulher. Ele j a fizera reagir antes invocando sua me.
    Quando S'Armuna ergueu os olhos, seu rosto estava impassvel.
            Sim, conheci Marthona. Fui mandada, muito jovem ainda, para aprender com os Zelandonii da Nona Caverna. Sente-se aqui.  Tirou o remdio do fogo e apanhou 
uma pele macia. Ele se encolheu quando ela lavou a ferida com a soluo anti-sptica que havia preparado. Estava certo de que seria boa, pois a mulher aprendera 
aquilo com seu povo.
    Depois de limpo o corte, S'Armuna o examinou de perto.
    Voc ficou sem sentidos algum tempo, mas no  grave. A ferida vai cicatrizar sozinha  disse, evitando encar-lo.  Voc vai ter, porm, provavelmente, alguma 
dor de cabea. Vou dar-lhe algo para isso.
     No, no preciso de nada agora. Mas tenho sede, ainda. Gostaria de um pouco de gua. Posso beber da sua bolsa?  perguntou, dirigindo-se para a grande bexiga, 
cheia d'gua e mida por fora, com a qual ela havia enchido a panela.  Eu a encho de novo, se quiser, depois. Tem uma cuia que eu possa usar?
    Ela hesitou, depois tirou uma cuia de uma prateleira.
     Onde posso encher a bolsa? H algum lugar especial, aqui perto?
     No se incomode com a gua.
    Ele se aproximou da mulher, compreendendo que ela no o deixara andar livremente, nem mesmo para buscar gua.
            Ns no estvamos querendo capturar os cavalos que eles perseguiam. E mesmo se estivssemos, Attaroa deveria saber que daramos alguma coisa para compensar. 
Se bem que, com toda aqueia horda lanada no precipcio, haver carne de sobra. S espero que Ayla no esteja no
meio dela. S'Armuna, preciso ir embora para procur-la.
            Voc a ama, no ?  perguntou S'Armuna.
            Sim, eu a amo  disse ele. E viu que a expresso da mudava outra vez. Havia agora um elemento de amargor triunfante, e uma nota mais suave tambm.  
Estvamos a caminho de casa. Iamos casar, mas tambm dar parte a minha me da morte de meu irmo mais moo, Thonolan. Comeamos a viagem juntos, mas ele... morreu. 
Ela ficar muito infeliz.  duro perder um filho.
    S'Armuna assentiu de cabea, mas no fez qualquer comentrio.
     Sobre o funeral, hoje. O que aconteceu com aqueles moos?
     Eles no eram muito mais moos que voc  disse S'Armuna.  tinham idade suficiente para fazer tolices.
    Jondalar teve a impresso de que ela estava constrangida.
     Como foi que morreram?
     Eles comeram alguma coisa errada.
    Jondalar no acreditou que ela estivesse dizendo a verdade. Mas antes que pudesse acrescentar qualquer coisa, ela lhe deu suas roupas de couro e o entregou s 
mulheres que tinham ficado montando guarda. Foram com ele. uma de cada lado, mas dessa vez no o levaram para a jaula. puseram-no no interior da paliada, cujo porto 
entreabriram para dar-Ihe passagem.

27
___________________________________________________________________________
    
    Ayla tomou ch junto ao fogo, no acampamento, olhando sem ver o prado  sua frente. Quando interrompera a busca para que Lobo descansasse, notou uma grande formao 
rochosa projetada contra o fundo azul do cu, para noroeste; mas assim como a conspcua colina de arenito se esfumava entre nvoas e nuvens no horizonte, tambm 
se lhe esfumou na memria, quando seus pensamentos se voltaram para dentro, para a idia fixa de Jondalar.
    Combinando sua percia de rastreadora com o faro finssimo de Lobo ela conseguira levantar e seguir a pista deixada pela gente que havia sequestrado Jondalar. 
Depois de descer, aos poucos, para o campo, viajando no rumo norte, eles tinham infletido para oeste at chegar ao rio que ela e Jondalar tinham cruzado antes  
deixando sempre um rastro fcil de acompanhar.
    Na primeira noite, Ayla acampou s margens da corrente e continuou a rastrear no dia seguinte. No sabia quantos eram aqueles que perseguia, mas via ocasionalmente 
diversas pegadas nas barrancas lamacentas do rio, algumas das quais comeava a reconhecer. Nenhuma, porm, correspondia aos grandes ps de Jondalar, e ela comeou 
a duvidar que ele ainda estivesse com seus captores.
    Ento se lembrou de que, de longe em longe, alguma coisa grande era depositado por eles deixando uma compresso no solo, poento ou molhado, e se lembrava de 
ter visto essa impresso repetida,  juntamente com as pegadas e outros sinais, desde o incio. No poderia ser carne de cavalo, pensou, porque os cavalos haviam 
sido lanados no precipcio, e aquela carga viera com eles do altiplano. Tinha de ser o homem, que carregavam em alguma espcie de padiola, o que lhe dava, ao mesmo 
tempo, alvio e aflio.
    Se tinham de carreg-lo, isso queria dizer que ele no podia andar, de modo que o sangue que vira indicava uma leso sria. No se dariam, no entanto, ao trabalho 
de carreg-lo se estivesse morto. Concluiu que Jondalar estava vivo, mas gravemente ferido. Esperava que o estivessem levando para algum lugar onde pudesse ser tratado. 
Mas por que o teriam ferido?
    Independente de quem fosse que ela estivesse seguindo, movia-se com agilidade, mas a trilha esfriava, e ela sentia que estava ficando para trs Os sinais que 
mostravam para onde eles teriam ido no eram fceis de encontrar, o que a retardava. Mesmo Lobo tinha alguma dificuldade em seguir a pista. Sem o animal, ela no 
teria, provavelmente, chegado to longe, sobretudo por haver reas de solo rochoso, onde as tnues marcas da passagem deles eram praticamente inexistentes. Alm 
disso, no queria deixar Lobo longe da vista, com medo de perd-lo tambm. Sentia, no obstante, uma grande nsia de continuar, de apressar-se, e se felicitava pelo 
fato de que o animal parecia melhor a cada dia que passava.
    Acordara naquela manh cheia de estranhos pressentimentos, e ficara contente ao ver que Lobo tambm parecia aflito para partir. Mas  tarde viu que ele estava 
cansado. Decidiu parar e fazer uma xcara de ch. O lobo ganharia alento e os cavalos poderiam pastar um pouco.
    No muito tempo depois de recomearem a busca, encontrou uma bifurcao do rio. Tinha atravessado facilmente dois pequenos riachos que desciam das montanhas, 
mas no sabia ao certo se deveria cruzar mais esse. No via pegadas j havia algum tempo. Seria melhor acompanhar o brao direito da bifurcao ou passar  margem
oposta e seguir pelo lado esquerdo? Optou pela margem direita, indo para a frente e para trs.  procura do rastro, e s no cair da noite viu um sinal incomum que 
lhe mostrou claramente o caminho a tomar.
    Mesmo  luz precria do crepsculo, era bvio que os pilares que saam da gua haviam sido postos l com um propsito. Tinham sido fincados no leito do rio perto 
de vrias toras fixadas  margem. Do tempo passado com os Xaramudi reconhecia a construo como um pequeno atracadouro para alguma espcie de barco. Ayla pensou 
em acampar ali mesmo, nas imediaes do cais, mas depois mudou de ideia. No sabia nada sobre o povo que estava seguindo, exceto que tinham ferido e raptado Jondalar. 
No queria ser surpreendida por eles, quando dormisse e estivesse vulnervel. Escolheu, por isso, um lugar mais discreto e abrigado, para alm da curva do rio.
    De manh examinou com cuidado a contuso de Lobo antes de faze-lo entrar no rio. No era um rio largo, mas profundo e de gua fria. Lobo teria de nadar, e suas 
pisaduras eram ainda sensveis ao toque. Melhorara muito, porm, e estava ansioso para ir em frente. Parecia querer encontrar Jondalar a todo custo e tanto quanto 
ela.
    Decidiu, no pela primeira vez, retirar as perneiras antes de montar; assim, no ficariam molhadas. Viu, com surpresa, que Lobo no hesitou para entrar na gua. 
Em vez de ficar avanando e recuando na margem, como de hbito, saltou e nadou rapidamente na sua esteira. Era como se ele no quisesse perd-la de vista.
    Aps chegar ao outro lado, Ayla saiu logo do caminho para escapar aos borrifos dos animais. Enquanto eles se livravam do excesso de gua, ela reajustava a proteo 
das pernas. Viu que o lobo estava bem  no mostrara desconforto quando se sacudira  e comeou a procurar os rastros. Mas foi Lobo quem descobriu, pouco abaixo 
da pequena doca e escondida na vegetao da margem, a chata que os caadores de cavalos tinham usado para atravessar o rio. Levou algum tempo para descobrir o que 
era.
    Imaginara que aquele povo usaria um barco semelhante aos dos Xaramudi  escavados belamente, com graciosas proas e popas; ou como o barco em forma de cuia, 
mais vulgar sem dvidas, mas funcional, que ela e Jondalar vinham utilizando. Mas o que Lobo achou foi uma espcie de plataforma construda de toras, e ela no estava 
familiarizada com balsas. Uma vez compreendida a finalidade daquilo, achou que era um meio de transporte engenhoso mas desajeitado. Lobo cheirou-o todo com a maior 
curiosidade. Quando chegou a determinado lugar, parou, e rosnou, do fundo da garganta.
     O que foi agora, Lobo?  perguntou. Era uma ndoa marrom em um dos paus. Ayla sentiu que empalidecia, tomada de vertigem. Aquilo era sangue, sangue de Jondalar. 
Ela afagou a cabea de Lobo.
     Ns o acharemos  disse, tanto para consolar o lobo quanto para animar a si mesma. Mas no estava j to certa de encontr-lo vivo.
    O rastro ia do desembarcadouro entre campos de capim alto e seco e era muito mais fcil de seguir. O problema era que se tratava de uma trilhar to usada que 
ela no podia estar certa de serem as marcas mais frescas oriundas da gente que perseguia. Lobo ia  frente, e logo Ayla ficou mais do que grata a ele por isso. 
No estavam seguindo aquele caminho havia muito tempo quando o animal parou, franziu o focinho e mostrou os dentes, rosnando.
     Lobo? O que ? Vem algum?  disse Ayla, virando Huiin para o lado e dirigindo-se com os cavalos para o abrigo de uma vegetao alta e cerrada. Fez sinal a 
Lobo para que viesse tambm. Ayla saltou logo que ficaram escondidos por aquela cortina vegetal, puxou Racer pela rdea para coloc-lo atrs da gua, pois ele levava 
a cesta, e se ocultou entre os dois cavalos. Ajoelhou-se, em seguida, num joelho s, passando o brao pelo pescoo de Lobo para que ele ficasse quieto.
    Esperaram.
    Ela no se enganara. Logo duas meninotas passaram por eles, obviamente a caminho do rio. Ela mandou que Lobo ficasse e, depois, usando a maneira furtiva que 
aprendera ao rastrear carnvoros quando pequena, acompanhou-as por trs das ervas e se escondeu nos arbusto para vigiar.
    As duas meninas conversavam enquanto preparavam a balsa, A lingua era desconhecida, mas tinha alguma semelhana com Mamuti. Podia perceber o sentido de uma 
ou outra palavra.
    As duas empurraram a balsa quase at a gua, depois retiraram duas longas varas que estavam escondidas debaixo dela. Amarraram a ponta de uma longa corda numa 
rvore, depois embarcaram. Enquanto uma impelia a balsa a vara, a outra se encarregava da corda. Quando j estavam perto da margem oposta, onde a corrente no era 
to rpida, comearam a fazer a zinga rio acima at alcanarem o embarcadouro. com cordas presas  balsa, elas a amarraram firmemente nos pilares que saam da gua 
e saltaram para as toras fixadas  margem. Deixando, ento a balsa, correram pelo caminho por onde Ayla tinha vindo.
    Ela foi para junto dos animais. O que deveria fazer? Sentia que podiam voltar logo. Mas isso podia ser no mesmo dia, no dia seguinte, ou em outro dia qualquer. 
Queria achar Jondalar o mais depressa possvel, mas no desejava arriscar que a descobrissem. Relutava em abordar diretamente aquela gente antes de saber mais sobre 
eles. Finalmente, resolveu procurar um lugar de onde pudesse observ-las quando retornassem sem ser percebida por elas.
    No teve de esperar muito.  tarde as duas voltaram, acompanhadas de muitas outras pessoas. Todos carregavam macas com grandes pedaos de carne e partes decepadas 
de cavalos. Conseguiam mover-se com rapidez incrvel a despeito da carga que levavam. Ayla ficou surpresa ao ver que no havia um s homem no grupo. Eram caadoras 
mulheres! Viu-as amontoar a carne na balsa, depois lev-la com a vara para o outro lado, usando a corda como guia. Esconderam a balsa, depois de descarreg-la, mas 
deixaram a corda estendida atravs do rio, o que intrigou Ayla.
    Surpreendeu-se de novo com a velocidade das mulheres quando, em terra, tomaram a trilha. Num abrir e fechar de olhos tinham desaparecido. Esperou um pouco antes 
de segui-las e guardou sempre uma boa distncia delas.
    Jondalar ficou horrorizado com as condies que encontrou por trs da paliada. Os nicos abrigos eram um telhado ou toldo de meia-gua, grande mas primitivo, 
que oferecia pouca proteo em caso de chuva ou neve; e a prpria cerca de toras, que servia de barreira contra o vento. No havia fogo nem comida, e a gua era 
pouca. Todas as pessoas ali presas eram homens e mostravam os efeitos das condies deplorveis em que viviam. A medida que saiam da sombra para examin-lo, viu 
que estavam magros, sujos e maltrapilhos. Nenhum deles tinha roupas apropriadas para aquele frio e, provavelmente, ficavam grupados debaixo do alpendre para se aquecer.
    Reconheceu um ou dois do funeral, e se perguntou por que homens e rapazes viveriam num lugar daqueles. De sbito, vrias coisas dspares se juntaram e fizeram 
sentido: a atitude das mulheres armadas de lanas, os estranhos comentrios de Ardemun, o comportamento dos homens no funeral, a reticncia de S'Armuna, o tardio 
exame da sua ferida, o tratamento brutal de que estava sendo vtima. Talvez no fosse resultado de um mal-entendido ou coisa que se esclarecesse logo que ele tivesse 
convencido Attaroa da sua boa-f.
    A concluso que era forado a admitir lhe parecia grotesca, mas a verdade dela o pegou com uma fora capaz de pr abaixo a incredulidade Era to bvia que se 
surpreendeu de no ter entendido antes. Os homens estavam ali contra sua vontade, eram man idos presos pelas mulheres!
    Mas por qu? Parecia desperdcio deixar pessoas inativas como aquelas, quando podiam todas contribuir para o bem-estar da comunidade. Pensou no prspero Acampamento 
do Leo dos Mamuti, com Talut e Tulie organizando todas as atividades necessrias do estabelecimento no interesse geral. Todos contribuam, e tinham tempo para 
trabalhar nos seus projetos individuais.
    Attaroa! At onde aquilo era obra dela? A mulher estava obviamente na chefia da comunidade, era a lder daquele acampamento. Se no era de todo responsvel por 
aquele estado de coisas, pelo menos parecia determinada a mant-lo.
    Aqueles homens deveriam estar caando, fazendo coleta de alimentos, pensou Jondalar, cavando silos, fazendo abrigos novos, consertando os velhos, contribuindo 
com alguma coisa, e no se escorando ali, uns nos outros, para ficarem aquecidos. No era de espantar que estivessem caando cavalos j to tarde. Teriam comida 
suficiente estocada para viverem todo o inverno? E por que caavam to longe, se dispunham de perfeitas oportunidades de caa  mo?
            Voc deve ser esse a que chamam o Zelandonii  disse um dos homens, em Mamuti. Jondalar reconheceu-o como o que tinha as mos atadas atrs das costas 
no cortejo do funeral.
            Sim. Sou Jondalar, dos Zelandonii.
            E eu sou Ebulan, dos S'Armunai  disse o outro. Depois acrescentou sardonicamente:  Em nome de Muna, a Me de Todos, deixe que eu lhe d as boas-vindas 
ao Depsito, como Attaroa gosta de chamar este lugar. temos outros nomes para isto: Acampamento dos Homens, o Submundo Gelado da Me e A Armadilha de Homens de Attaroa. 
Escolha o que quiser.
     No entendo. Por que esto vocs... todos vocs, aqui?
     E uma longa histria. Mas, em resumo, fomos todos enganados, de um modo ou de outro  disse Ebulan. Depois, com uma careta irnica, continuo.  Fomos at induzidos, 
pela astcia da mulher, a construir este lugar. Ou a maior parte dele.
     Por que, simplesmente, no pulam a cerca e vo embora? disse Jondalar.
     Para sermos perfurados por Epadoa e suas lanceiras?  disse outro homem.
     Olamun est certo. Alm disso, j no sei quantos teriam ainda foras para fugir  acrescentou Ebulan.  Attaroa nos conserva fracos deliberadamente. Fracos... 
ou pior que isso.
            Pior?  perguntou Jondalar, franzindo a testa.
            Mostre-lhe, S'Amodun  disse Ebulan a um homem alto, cadavrico, de cabelos grisalhos e emaranhados, com uma barba comprida, quase branca. Tinha um 
rosto duro, de traos marcantes, cavalete do nariz saliente, sobrancelhas grossas, que lhe acentuavam o desa
nado das faces. Mas eram os olhos que concentravam a ateno do observador: escuros, como os de Attaroa, e magnticos. Em vez de malcia, espelhavam grande sabedoria, 
mistrio e doura. Jondalar no sabia definir o que era, mas havia naquele homem, no seu porte, na sua postura, algo que inspirava grande respeito, mesmo naquelas 
condies lamentveis.
    O velho concordou e chamou Jondalar para debaixo da coberta. Ao se aproximarem, pde ver que havia ainda homens l dentro. Quando curvou a cabea para passar 
por baixo do toldo, sentiu um fedor insuportvel. Um dos prisioneiros jazia numa prancha que fora arrancada do teto e estava coberto apenas com um pedao de couro 
rasgado. O velho puxou o couro e deixou  mostra uma ferida gangrenosa.
    Jondalar ficou estupefato.
     Por que ele est assim?
     As lanceiras de Epadoa fizeram isso  disse Ebulan.
     E S'Armuna sabe que ele est assim? Ela pode fazer alguma coisa por ele.
     S'Armuna! Ah! O que o leva a pensar que ela faria algo? disse Olamun, um dos que os tinham acompanhado.  Quem voc acha que ajudou Attaroa quando tudo comeou?
            Mas ela limpou a ferida da minha cabea  disse Jondalar.
            Ento Attaroa tem algum plano em mente para voc  disse Ebulan.
            Plano? O que quer dizer?
     Ela gosta de pr para trabalhar os homens jovens e fortes. Enquanto possa controlar esses homens  disse Olamun.
     E se algum se recusa a trabalhar para ela?  perguntou Jondalar.  De que maneira ela impe sua vontade?
     Privando o indivduo de comida e gua. E se isso no bastar ameaando-lhe a famlia  disse Ebulan. Se voc sabe que algum do seu lar, ou um irmo seu vai 
ser posto numa gaiola, sem comer nem beber, voc obedece.
     Que gaiola?
     Aquela em que voc mesmo estava  disse Ebulan. E com um sorriso torto:  De onde saiu com esse manto magnfico.  Os outros homens sorriram tambm.
    Jondalar olhou o couro rasgado que ele tirara da estrutura da jaula para cobrir-se.
     Essa foi boa!  disse Olamun.  Ardemun nos contou tambm que voc quase arrebentou a prpria gaiola. No creio que ela esperasse isso.
     Da prxima vez, faz uma gaiola mais forte  disse outro homem. Era bvio que ele no estava muito familiarizado com a lngua. Ebulan, porm, e Olamun eram 
to fluentes que Jondalar at se esquecera de que Mamuti no era a lngua nativa daquela gente. Aparentemente, outros sabiam, e a maior parte era capaz de acompanhar, 
por alto, o que estava sendo dito.
    O homem da prancha soltou um gemido, e o velho se ajoelhou para confort-lo. Jondalar notou mais duas figuras que se mexiam, no fundo da coberta.
            No importa. Se ela no tiver mais uma gaiola, ameaar matar seus parentes para obrig-lo a fazer o que deseja. Se voc teve o azar de fazer um filho 
antes do advento dela como chefe, ela pode for-lo a tudo o que quiser.
    Jondalar no entendeu todas as implicaes daquilo, e franziu o cenho.
     Por que seria um azar ter um filho?
    Ebulan olhou para o velho.
     S'Amodun?
    Vou perguntar se querem conhecer o Zelandonii  disse ele.
    Era a primeira vez que S'Amodun falava, e Jondalar se perguntou como uma voz to profunda podia sair de um homem to frgil. Ele retornou  coberta, curvou-se 
para falar com as figuras amontoadas no espao onde o forro inclinado tocava o cho. Eles podiam ouvir os tons profundos e melodiosos de sua voz, mas no as palavras, 
e depois o som de vozes mais jovens. Com a ajuda do ancio, um dos moos se levantou e avanou, pulando num p s.
            Esse  Ardoban  disse o velho.
            Eu sou Jondalar, da Nona Caverna dos Zelandonii, e em nome de Doni, a Grande Me Terra, eu o sado, Ardoban  disse ele, com grande formalidade, estendendo 
as mos para o rapazinho. Sentia obscuramente que ele precisava ser tratado com toda a dignidade.
    O rapaz tentou firmar-se para tomar as mos dele, mas Jondalar, ao ver que ele fazia uma careta de dor, fez meno de apoi-lo mas pensou melhor.
     Na verdade, eu prefiro ser chamado apenas Jondalar  disse, com um sorriso, tentando atenuar o constrangimento daquele instante.
     Eu chamado Doban. Nada de Ardoban. Attaroa sempre diz Ardoban. Ela quer que eu diga S'Attaroa. No digo. No mais.
    Jondalar pareceu um tanto perdido.
             difcil de traduzir  disse Ebulan.  Trata-se de uma forma de respeito. Significa algum tido na mais alta estima.
            E Doban deixou de respeitar Attaroa.
     Doban detesta Attaroa!  disse o jovem, com voz esganiada e j  beira das lgrimas. Virou-lhe, em seguida, as costas, procurando voltar para a coberta. S'Amodun 
indicou aos outros que deviam ir-se e foi ajudar o jovem.
     O que aconteceu com ele?  perguntou Jondalar, depois que tavam a alguma distncia.
     Puxaram-lhe a perna at que ela foi deslocada da junta  disse Ebulan.  Attaroa fez isso, ou, melhor, mandou que Epadoa o fizesse.
     O qu?  disse Jondalar, arregalando os olhos de incredulidade.  Voc est dizendo que ela deslocou deliberadamente a perna do menino? Que espcie de abominao 
 essa mulher?
     Ela fez a mesma coisa com o outro menino, o mais novo dos filhos de Odevan.
            Que justificao ela teria invocado para fazer uma coisa assim?
     No caso do mais jovem, foi para dar um exemplo. A me dele no gostava da maneira como Attaroa nos tratava, e queria seu homem de volta em casa. Avanoa conseguiu 
entrar aqui algumas vezes para passar a noite com ele e costumava contrabandear comida para ns. Ela no  a nica mulher a fazer isso, mas a questo  que incitava 
as outras, e tambm Armodan, a resistirem a Attaroa, recusando trabalhar. Ela se vingou no rapazinho. Disse que, aos sete anos, ele j tinha idade bastante para 
largar as saias da me e viver com os homens, mas deslocou sua perna primeiro.
     O outro menino tem sete anos?  disse Jondalar, abanando a cabea e estremecendo de horror.  Jamais ouvi histria mais terrvel.
     Odevan tem muitas dores, e sente falta da me, mas o caso de Ardoban  pior.  Era S'Amodun quem falava. Ele sara da coberta e se juntara ao grupo.
             difcil imaginar coisa pior  disse Jondalar.
            Ele padece mais da dor da traio que da dor fsica  disse S'Amodun.  Ardoban considerava Attaroa uma espcie de me. Sua prpria me morreu quando
ele era pequeno, e Attaroa o recolheu, mas o tratava mais como um boneco, um brinquedo, do que como uma criana. Gostava de vesti-lo com roupas de mulher, enfeit-lo
com coisas absurdas, mas o alimentava bem e dava-lhe, de vez em quando, presentinhos. Ela at o ninava ou o levava para dormir com ela na cama,  quando o queria.
Mas quando se cansava dele, fazia-o dormir no cho. Poucos anos atrs a mulher cismou que estavam tentando envenen-la.
            Consta que foi o que ela fez com seu homem  disse Olamum.
            Attaroa passou a usar o menino como seu provador  continuou o velho.  E quando ele cresceu, ela o deixava amarrado s vezes, convencida de que tentaria
fugir. Mas assim mesmo, Attaroa foi a nica me que o menino teve. Ele a amava e fazia tudo para agrad-la. Comeou a tratar os outros rapazes da sua idade da mesma
maneira que ela tratava os homens, e a dar ordens. Attaroa o encorajava,  claro.
     Ele ficou insuportvel  acrescentou Ebulan.  Parecia ser dono de todo o Acampamento. A vida dos outros meninos tornou-se insuportvel.
     E o que aconteceu?  perguntou Jondalar.
     Ele ficou adulto  disse S'Amodun. Ao ver o olhar intrigado de Jondalar, explicou:  A Me foi falar com ele enquanto dormia, sob a forma de uma bela jovem,
e ps seu membro para funcionar.
     Claro. Isso acontece com todo rapaz  disse Jondalar.
     Attaroa descobriu  explicou S'Amodun  e foi como se ele se tivesse feito homem s para aborrec-la. Ela ficou furiosa! Berrou com ele chamou-o dos piores
nomes, depois confinou-o ao Acampamento dos Homens, mas no antes de fazer deslocar a sua perna.
            Com Odevan foi mais fcil  disse Ebulan.  Ele era mais moo. Nem estou mesmo seguro se, de comeo, tinham mesmo a inteno de aleij-lo. Acho que
queriam s que a me e a mulher sofressem ouvindo os gritos dele. Uma vez acontecido, porm, Attaroa pode ter pensado
que aquela era uma boa maneira de fazer um homem invlido e mais fcil de dominar.
     Tinha Ardemun como exemplo  disse Olamun.
     Ela deslocou-lhe a perna tambm?
     De certo modo, sim  disse S'Amodun. Foi um acidente. Mas aconteceu quando ele estava tentando fugir. Attaroa no deixou que S'Armuna cuidasse dele, embora
eu acredite que a Xam desejasse fazer isso.
      mais difcil incapacitar um menino de doze anos. Ele lutou e berrou, mas no adiantou nada  disse Ebulan.  E, devo dizer a vocs, depois da agonia do rapaz,
ningum pde guardar mgoa dele. Tinha mais que pagado por seu comportamento infantil.
             verdade que ela avisou as mulheres de que todo filho que nascesse homem teria as pernas deslocadas?  perguntou Olamun.
            Foi o que Ardemun disse  confirmou Ebulan.
     Ser que ela pensa que pode ditar normas  Me? For-La a fazer somente fmeas?  perguntou Jondalar.  isso seria um desafio  deidade.
     Talvez  disse Ebulan.  Mas s a Me em pessoa poder deter essa mulher, a meu ver.
     O Zelandonii tem razo  disse S'Amodun.  Acho at que a Me j lhe deu um aviso. Vejam como foram poucos os bebes nascidos nos ltimos anos. Essa ltima
atrocidade da megera, vitimando crianas, foi a ultima para Ela. Crianas tm de ser protegidas e no mutiladas.
     Sei que Ayla jamais admitiria uma coisa assim. Ela no suportaria isso  disse Jondalar. E logo, baixando os olhos, acrescentou:  Mas no sei se ainda est 
viva.
     Os homens se entreolharam, hesitando falar, embora todos tivessem, na ponta da lngua, a mesma pergunta. Por fim, Ebulan resolveu falar.
     Ayla  a mulher que voc nos disse ser capaz de viajar montada em cavalos? Ela deve ter grandes poderes se  capaz de dominar animais dessa maneira.
            Ela mesma no diria isso  retrucou Jondalar, sorrindo,  Mas penso que tem certamente mais poderes do que admite. Ela no monta qualquer cavalo. Ela
monta apenas a gua que criou, embora tenha montado tambm o meu cavalo. Teve mais dificuldade em control-lo, porm. E esse foi o problema...
            Voc tambm... monta?  perguntou Olamun, incrdulos.
     Monto um cavalo, o meu. Bem, j montei tambm o de Ayla, mas...
     Voc est querendo dizer que a histria que contou a Attaroa verdadeira?  disse Ebulan.
     Claro que . Por que iria eu inventar uma coisa assim?  Jondalar correu os olhos por todos aqueles rostos incrdulos.  Talvez eu deva comear do comeo.
Ayla criou uma potrancazinha...
     Onde achou a potranca?  perguntou Olamun.
     Ela estava caando, matou a me, e s ento viu a cria.
     Mas por que a criou?
            Porque Ayla estava sozinha, e a cria estava rf...  uma longa histria  disse Jondalar, disposto a ser breve.  Ela queria companhia e decidiu adotar
a gua. Quando Huiin cresceu... Ayla lhe deu esse nome... pariu um potro. Isso aconteceu mais ou menos quando nos conhecemos. Ela me ensinou a cavalgar e me entregou
o potro para que eu o adestrasse. Eu o chamei Racer.  uma expresso Zelandonii, que quer dizer "o mais veloz de todos". Viajamos desde a Reunio de Vero dos Mamuti,
contornando a ponta sul daquelas montanhas orientais, montando esses dois cavalos. Isso no tem nada a ver com poderes sobrenaturais.  uma questo de acostum-los
com a gente, desde pequenos, como a me faz com o beb.
            Bem, se voc acha...  disse Ebulan.
            Acho porque  verdade  contraps Jondalar. Depois decidiu que seria intil prosseguir naquele assunto. Eles teriam de ver para crer, e era improvvel
que algum dia isso ocorresse. Ayla se fora e tambm os dois cavalos.
    Nesse momento o porto se abriu e todos se voltaram para ver o que acontecia. Epadoa entrou primeiro, seguida por algumas das suas mulheres. Agora que ele sabia
mais sobre ela, Jondalar estudou a mulher que causara tanto sofrimento a crianas. No sabia qual das duas era mais abominvel: a que concebia o plano ou a que o 
executava. No tinha dvida de que Attaroa seria capaz de fazer a maldade ela mesma. Havia algo de muito errado com ela. No era uma personalidade completa. Algum 
esprito imundo entrara nela e roubara uma parte essencial do seu ser Mas o que dizer de Epadoa? Essa parecia saudvel e inteira, mas como podia ser to cruel e 
insensvel? Faltariam a ela tambm algumas partes essenciais?
    Para surpresa geral, a prpria Attaroa entrou em seguida.
            Ela no vem nunca  disse Olamun.  O que poder querer?  O comportamento habitual da mulher lhe inspirava terror.
    Atrs dela entraram diversas mulheres carregando bandejas de carne cozida e fumegante e tambm cestas de tranado mido com uma sopa cheirosa com pedaos de 
carne. De cavalo! Os caadores tinham voltado, ento! Havia muito tempo que Jondalar no provava carne de cavalo, a ideia no lhe apetecia, mas naquele momento a 
comida cheirava muito bem. As mulheres levavam tambm uma bolsa d'gua cheia e diversas xcaras.
    Os homens olhavam a procisso com avidez, mas nenhum deles movia mais que os olhos, com medo que Attaroa cancelasse o banquete. Temiam, alis, que aquilo pudesse 
ser uma espcie de brincadeira atroz: mostrar-lhes a comida e retir-la em seguida.
            Zelandonii!  disse Attaroa, fazendo a palavra soar como uma ordem. Jondalar a encarou enquanto a mulher se aproximava. Ela parecia quase masculina. 
No, no era bem isso. Seus traos eram fortes e marcados, mas bem definidos, bem desenhados. Era na verdade bela, a seu modo, ou poderia ter sido, no fora a dureza 
da expresso. Havia crueldade no corte da boca, e a ausncia de alma era patente nos olhos.
    S'Armuna surgiu a seu lado. Devia ter vindo com as outras mulheres, pensou, embora no a tivesse notado antes.
            Eu agora falo por Attaroa  disse, em Zelandonii.
            Voc tem muito que explicar  disse ele.  Como permite que tais coisas aconteam? Attaroa  insana, mas no voc. Eu a responsabilizo.  Os olhos azuis 
de Jondalar eram frios como o gelo.
    Attaroa interpelou a intrprete com raiva.
            Ela no quer que voc fale comigo. Tenho de traduzir para ela. S isso. E Attaroa quer que voc a encare.
    Jondalar obedeceu e esperou.
    S'Armuna comeou a traduo.
     Attaroa  quem fala: Quer saber o que voc acha de suas novas... acomodaes?
     O que pode esperar que eu ache?  disse Jondalar a S'Armuna, que evitou olhar para ele e falou com Attaroa.
    Um sorriso malicioso brincou no rosto da lder.
     Estou certa de que j ouviu muita coisa a meu respeito. Mas no deve dar ouvidos a tudo o que lhe dizem.
     Acredito no que vejo  disse Jondalar.
     Bem, voc me viu trazer comida.
     No vejo ningum comendo. E sei que todos tm tome.
    O sorriso dela se alargou quando ouviu a traduo.
     Eles devem comer. E voc tambm. Vai precisar de toda a sua fora  disse. E riu de novo.
     No duvido  retrucou Jondalar.
    Depois que S'Armuna traduziu, Attaroa saiu bruscamente, fazendo sinal s mulheres para que a seguissem.
            Voc  responsvel  repetiu Jondalar para S'Armuna, que j lhe dava as costas.
    Logo que o porto se fechou, uma das guardas disse:
            Vocs deviam comer logo, antes que ela mude de ideia.
    Os homens se lanaram sobre as travessas de carne postas no cho. Quando S'Amodun passou por Jondalar, disse:
            Muito cuidado, Zelandonii! Attaroa tem alguma coisa em mente para voc.
    Os dias seguintes pareceram interminveis para Jondalar. Alguma gua lhes foi dada, mas muito pouca comida. Ningum podia sair, nem mesmo para trabalhar, o que 
era incomum, na opinio geral. Os homens ficavam inquietos, sobretudo porque Ardemun tambm recebera ordem de permanecer no Depsito. Seu conhecimento de diversas 
lnguas o transformara num intrprete, primeiro, e, depois, num porta-voz entre Attaroa e os homens. Por causa da sua perna deslocada, ela achava que ele no representava 
uma ameaa. Tambm achava que ele no poderia fugir. Assim, tinha maior liberdade de movimentos no interior do Acampamento e muitas vezes trazia fragmentos de informao 
sobre a vida no exterior da paliada e, at, ocasionalmente, comida contrabandeada.
    Muitos dos homens passavam o tempo jogando e apostando vantagens futuras. Usavam pedaos de madeira, pedrinhas, ossos quebrados dos que vinham com a carne. O 
fmur da perna de cavalo fora posto de lado, depois de limpo e aberto. Podia servir para alguma coisa.
    Jondalar passou o primeiro dia do seu confinamento examinando com ateno toda a cerca que os prendia e testando-lhe a resistncia. Encontrou vrios lugares 
por onde, a seu ver, poderia passar, e outros que lhe seria possvel galgar. Mas era tambm possvel ver atravs das frestas que Epadoa e suas mulheres montavam 
guarda o tempo todo. A terrvel infeco do homem da ferida o dissuadia de tentar uma abordagem to direta. Examinou o teto inclinado e imaginou o que poderia fazer 
para consert-lo e torn-lo um pouco mais resistente s intempries  se houvesse ferramentas e material.
    De comum acordo, uma extremidade da rea, por trs de algumas pedras  nico aspecto caracterstico daquele recinto despojado, alm da coberta  fora reservado 
para mictrio e latrina. Jondalar se sentira nauseado logo no primeiro dia com o cheiro impregnado do Depsito,
pior onde a carne em putrefao juntava seu aroma aos outros, mas  noite no tinha escolha seno abrigar-se. Aconchegava-se aos demais, como todos faziam, para 
aquecer-se, dividindo seu manto improvisado com os companheiros, que tinham menos roupa que ele.        
    Nos dias que se seguiram, sua sensibilidade  fedentina embotou, mas sentia mais o frio agora e ficava tonto ocasionalmente. Gostaria muito de ter um pouco de 
casca de salgueiro para a sua dor de cabea.
    As circunstncias comearam a mudar quando o homem da ferida morreu. Ardemun foi ao porto e pediu para falar com Attaroa ou Epadoa, para que o cadver fosse 
removido e enterrado. Vrios homens saram para preparar o sepultamento, e foram avisados que todos os que dessem deveriam comparecer  cerimonia fnebre, Jondalar 
se envergonhou do alvoroo que sentiu com a possibilidade de sair do cercado, uma vez que o motivo disso era um falecimento.
    Do lado de fora, as sombras de um sol j crepuscular se alongavam no cho, valorizando os aspectos do vale e do rio, embaixo, Jondalar teve uma impresso comovente 
da beleza e grandiosidade do panorama. Sua apreciao foi interrompida por uma pontada no brao. Voltou-se aborrecido para Epadoa e trs das suas mulheres que o 
rodeavam com lanas em riste e precisou de muito controle para no tir-las do seu caminho.
     Ela quer que voc ponha as mos para trs, a fim de serem amarradas  disse Ardemun.  Voc no sai se as mos no estiverem atadas.
    Jondalar fechou a cara, mas obedeceu. Acompanhando, depois, Ardemun, pensava na sua situao. Sequer sabia muito bem onde estava, nem h quanto tempo, mas a 
ideia de permanecer ali pelo resto da vida, sem nada seno a paliada como cenrio, era mais do que podia suportar. Queria sair, de um jeito ou de outro, e logo. 
Se no o fizesse, logo chegaria um momento em que no mais poderia faz-lo. Passar uns poucos dias sem comer no era grande problema, mas poderia vir a ser se continuasse 
naquele regime. Alm disso, se havia uma possibilidade de que Ayla estivesse viva, ferida talvez, mas viva, tinha de encontr-la o mais depressa possvel. No sabia 
ainda como conseguiria fazer isso. Sabia apenas que no ia ficar no Depsito indefinidamente.
    Caminharam um pouco e atravessaram um riacho, molhando os ps. O servio fnebre foi perfunctrio, e Jondalar se perguntou por que Attaroa se dava ao trabalho 
de enterrar com cerimnia um homem por quem no se importara em vida. Ele mesmo no conhecera o infeliz, nem sabia o nome dele, vira-o sofrer apenas  sofrimento 
gratuito. Agora se fora e errava no outro mundo, mas pelo menos estava livre de Attaroa. Talvez fosse melhor morrer que definhar por trs de uma cerca.
    Por breve que fosse a cerimnia, os ps de Jondalar ficaram frios. Culpa dos sapatos molhados. Na volta, prestou mais ateno ao arroio, procurando alguma alpondra 
em que pudesse pisar ou outra maneira de atravessar sem molhar os ps. Mas quando olhou para baixo, deixou de importar-se: como se tivessem sido postas ali de propsito, 
viu duas pedras, uma junto da outra, na borda da gua. Uma era um ndulo, pequeno, mas adequado, de pederneira; a outra, uma pedra arredondada que parecia feita 
para acomodar-se  sua mo  tinha a forma perfeita de uma cabea de martelo.
     Ardemun  disse ao homem que vinha atrs dele. E continuou em Zelandonii.  Voc est vendo aquelas duas pedras? Pode arranja-las para mim?  continuou, mostrando 
com o p.  muito importante.
     Aquela  uma pederneira?
     Sim. E eu sou um britador profissional.
    De repente, Ardemun pareceu tropear e caiu pesadamente. Aleijado, te dificuldade para se levantar, e uma das mulheres lanceiras apareceu. Ela disse qualquer 
coisa, em tom rspido, a um dos homens, que deu a mo ao outro para pux-lo. Epadoa retrocedeu, a ver o que estava retardando a marcha. Ardemun se ps de p antes 
que ela surgisse, e se mostrou contrito e apologtico quando foi repreendido.
    Quando voltaram, ele e Jondalar se dirigiram para o fim do Depsito, onde havia o mictrio, para urinar. Quando se reuniram aos demais, Ardemun disse aos homens 
que os caadores tinham voltado trazendo mais carne da matana de cavalos, mas alguma coisa acontecera enquanto o segundo grupo regressava. No sabia o que era, 
mas estava provocando grande comoo entre as mulheres. Todas falavam, excitadssimas, mas, ele no conseguira ouvir nada de especfico.
    Naquela noite, comida e gua foram servidas, mas ningum ficou para cortar a carne. Ela fora dividida em nacos e posta em cima de algumas toras sem qualquer 
explicao. Os homens comentaram isso enquanto comiam.
     Alguma coisa muito estranha est ocorrendo  disse Ebulan, falando em Mamuti para que Jondalar entendesse.  Acho que as mulheres receberam ordens de no 
falar com a gente.
     Mas isso no faz sentido  disse Olamun.  Mesmo que soubssemos de algo, o que poderamos fazer?
     Tem razo, Olamun. No faz sentido. Mas concordo com Ebulan. As mulheres esto proibidas de falar  disse S'Amodun.
     Talvez, ento, a hora tenha chegado  disse Jondalar.  Se as lanceiras de Epadoa esto ocupadas conversando umas com as outras, talvez no notem.
     Notem o qu?  perguntou Olamun.
     Ardemun conseguiu apanhar uma pedra-de-fogo...
     Ah, ento foi isso!  disse Ebulan.  No vi nada em que ele pudesse ter tropeado.
     Mas de que serve uma pedra-de-fogo?  quis saber Olamun.  Seriam necessrias ferramentas para transform-la numa arma. Eu costumava ver um britador trabalhar, 
mas ele morreu.
     Sim. Mas Ardemun pegou tambm uma pedra que pode servir para fazer um martelo. Temos alguns ossos aqui. Podemos fazer lminas, convert-las em facas, e pontas 
e outras ferramentas.  urna excelente pederneira.
            Voc trabalha com pedras?  perguntou Olamun.
     Sim, mas algum ter de ajudar. Vocs precisaro fazer barulho para que no se oua o atrito de pedra contra pedra  disse Jondalar.
            Ainda que faamos algumas facas, de que servir isso? As mulheres tm lanas  disse Olamun.
            Com as facas, podemos cortar no futuro as cordas de algum que tenha sido amarrado  disse Ebulan.  No momento podemos inventar um jogo ou competio 
que cubra o rudo. Mas j no h quase luz.
     Essa me basta. No vai levar muito tempo fazer as facas e pontas. Amanh de dia trabalharemos na parte coberta, onde no nos possam ver. Vou precisar daquele 
osso de pernil, daqueles pedaos de madeira e, talvez, de alguma tbua do teto. Seria bom se houvesse ainda nervo ou tendo, mas tiras finas de couro podem servir. 
Outra coisa, Ardemun: se voc me conseguir algumas penas de ave quando estiver fora do Depsito, eu acharia funo para elas.
    Ardemun assentiu. Depois disse:
     Voc vai fazer algo que voa? Uma lana de arremesso?
     Sim, uma coisa capaz de voar. Isso implicar desbastar e polir e tomar tempo. Mas acho que sou capaz de fazer uma arma que os surpreender.

28
___________________________________________________________________________

    Na manh seguinte, antes de recomear a lidar com o slex, na parte coberta, Jondalar foi conversar com S'Amodun sobre os dois rapazes aleijados. Refletira sobre 
o assunto durante a noite. Se Darvo iniciara seu aprendizado de britador ainda menino, os dois poderiam fazer a mesma coisa. Aprendido o ofcio, poderiam ter vidas 
teis e independentes, apesar da invalidez.
     Com Attaroa na chefia  ponderou S'Amodun , voc de fato acha que eles tenham alguma chance?
     Ela d a Ardemun uma certa liberdade, certo?  disse Jondalar.  Talvez acabe reconhecendo que eles no representam ameaa maior e permita que saiam mais vezes. 
At uma tresloucada como Attaroa  capaz de compreender a utilidade de ter dois britadores a seu servio. As armas de caa de que dispe so de qualidade inferior. 
E quem sabe se ela ficara no poder por muito tempo ainda?
    S'Amodun demorou o olhar naquele estrangeiro louro que tinha  sua frente, com ar especulativo.
     Ser que voc sabe de alguma coisa que eu ignoro? Seja como for, vou ver se animo aqueles dois a virem assistir ao seu trabalho.
    Na vspera, Jondalar trabalhara do lado de fora, para que as estilhas aguadas que quebram no processo de desbastamento da pedra no ficassem espalhadas em torno 
do nico abrigo que tinham. Escolhera um terreno por trs do amontoado de pedras que guardava a rea da cloaca. Por causa do fedor, as guardas evitavam o fim do 
recinto, que era, por isso mesmo, a parte menos vigiada do Depsito.
    As peas em forma de lmina que ele extraiu rapidamente da pedra eram pelo menos quatro vezes mais compridas que largas e tinham extremidades arredondadas. Eram 
as matrizes das quais seriam feitas as ferramentas. As bordas eram finas e afiadas como navalhas modernas, por serem tiradas do ncleo ou cerne de pedra. Seriam 
capazes de cortar um pedao de couro como se fora banha coagulada. O gume das lminas era, na verdade, to cortante que muitas vezes tinha de ser embotado para que 
as ferramentas pudessem ser manipuladas sem risco.
    Escondido pela cobertura, na manh seguinte a primeira coisa que Jondalar fez foi escolher um lugar debaixo de uma falha do teto: teria mais luz. Depois, cortou 
um pedao do couro que lhe servia de manto e forrou com ele o cho para recolher as inevitveis lascas de slex. Com os dois aleijados e diversos outros prisioneiros 
 sua volta, ele se ps a demonstrar como uma pedra oval e diversos pedaos de osso podiam ser empregados para fazer ferramentas de slex, as quais, por sua vez, 
eram em seguida utilizadas para o fabrico de outras coisas, de couro, madeira e osso. Embora eles tivessem de ser cautelosos, para no atrair a ateno das mulheres, 
saindo um pouco, como de rotina, depois voltando, como que para se abrigarem e aquecerem  o que tambm servia para obstruir a viso das sentinelas , todos o observavam 
com fascinao.
    Jondalar apanhou uma lmina e estudou-a com ar crtico. Eram diversas as ferramentas que desejava fazer, e tinha de decidir qual delas se adaptava melhor a cada 
matriz. Da que tinha nas mos, uma das bordas era quase reta, a outra apresentava leves ondulaes. Comeou por embotar a borda desigual, raspando-a algumas vezes 
com o martelo de pedra. Deixou a outra borda como estava. Em seguida, com a ponta comprida de um osso de perna partido, ele desbastou a extremidade arredondada, 
tirando dela pequenas lascas cuidadosamente controladas, at obter uma ponta. Se tivesse tendo ou cola, ou breu, ou outro material qualquer, com o qual pudesse 
prend-la a um cabo, ele o teria feito. Mas tal qual estava era uma faca, perfeitamente adequada quando a aprontou.
    Enquanto a faca era passada de mo em mo e seu fio testado em cabelos de brao ou pedaos de couro, Jondalar escolheu outra matriz. Nessa, as duas faces se 
afundavam no meio, formando uma espcie de cintura. Fazendo presso com a parte nodosa e arredondada do osso
perna, ele tirou fora apenas o gume mais acerado dos dois comprimentos, o que os embotou um pouco, e acertou-os, o que era mais importante, de modo a que a pea 
pudesse ser usada como raspadeira, para modelar e alisar outras peas, de madeira ou osso. Mostrou como se fazia e passou-a tambm aos companheiros para exame.
    Com a terceira matriz ele embotou os dois lados para que a ferramenta pudesse ser manejada facilmente, sem perigo. Ento, com dois golpes secos, cuidadosamente 
estudados e relativamente fracos, aplicados a umas das pontas, ele tirou duas lasca, deixando uma ponta afiada, de formo. Para demonstr-la, fez uma goivadura num 
osso, depois trabalhou nela, aprofundando-a cada vez mais, e vendo crescer,  margem, uma pilha de lascas e aparas finas, encaracoladas. Explicou como um fuste, 
uma ponta ou um cabo podiam ser feitos grosseiramente na forma desejada, e depois raspados e alisados na fase de acabamento.
    A demonstrao de Jondalar foi uma revelao. Nenhum daqueles homens ou rapazes jamais tinha visto um britador profissional em ao. Dois mais velhos, poucos 
conheciam um oficial com a percia de Jondalar. No pouco tempo de luz que tivera na vspera, ele tirara quase trinta matrizes de um s ndulo de slex, e s parou 
quando o ndulo ficou por demais pequeno para ser trabalhado. Mais um dia, e a maior parte dos homens j havia utilizado uma ou mais das ferramentas que ele fabricara.
    Procurou, ento, explicar-lhes a mquina de caa que tinha em mente. Alguns dos homens pareceram compreend-lo de imediato, embora, como seria de esperar, duvidassem 
da acurcia e velocidade que ele atribua a uma azagaia ou lana curta, arremessada com o engenho que ele descrevia. Outros pareceram incapazes de assimilar prontamente 
o conceito da coisa, mas isso no tinha importncia.
    Ter ferramentas confiveis nas mos e trabalhar com elas em algo construtivo dera, a todos, nova motivao. Fazer alguma coisa contra Attaroa e as condies 
de vida que ela lhes impunha curou-os do desespero em que tinham afundado no Acampamento dos Homens e reacendeu a esperana de que lhes seria possvel, um dia, retomar 
a direo do prprio destino.
    Nos dias imediatos, Epadoa e suas mulheres sentiram uma alterao na atitude deles e ficaram um tanto ressabiadas. Os homens pareciam andar com mais leveza e 
sorrir mais frequentemente, o que era suspeito. Mas nada descobriram, por mais que olhassem. Os homens tinham sido extremamente cuidadosos, escondendo no s as 
facas, raspadores e formes que Jondalar fabricara, mas at as lascas, estilhas, fitas e aparas de madeira, osso ou pedra. Tudo foi enterrado na rea abrigada e 
coberto com uma tbua ou pedao de couro.
    A maior mudana de todas foi a que se operou nos meninos aleijados. Jondalar no se limitara a mostrar-lhes como fazer ferramentas. Fabricara ferramentas especiais 
para eles, ensinando-lhes como manej-las. Os dois deixaram de esconder-se nas sombras do abrigo e comearam a relacionar-se com os outros companheiros, mais maduros, 
do Depsito. Ambos idolatravam o Zelandonii. Doban, principalmente, que era o mais velho deles, compreendia melhor as coisas, embora relutasse em demonstrar sentimentos.
    Desde que vivia  sombra de Attaroa, perturbada mentalmente e insensata, Ardoban se sentia indefeso, completamente  merc de circunstncias sobre as quais no 
tinha controle. Temia sempre, dia e noite, que algumas coisa terrvel lhe acontecesse. Depois do trauma excruciante e pavoroso da experincia por que passara, achara 
que sua vida s podia piorar. Muitas vezes desejara a morte. Mas o espetculo de algum que, tomando duas pedras achadas num rio, e usando apenas a cabea e as mos, 
dava-lhe a esperana de mudar seu mundo causara-lhe a mais profunda impresso. Doban tinha medo de pedir  ainda no conseguia confiar em ningum , mas queria agora, 
mais do que tudo no mundo, aprender com Jondalar a fazer ferramentas de pedra.
    Jondalar sentiu isso e desejou ter mais slex para poder ensinar ao rapaz os rudimentos do ofcio. Ser que aquela gente costumava ir a Encontros ou Reunies 
de Vero, em que ideias, informaes e objetos eram trocados? Haveria, por certo, na regio, britadores capazes de ajuda-lo depois. Ele precisava dominar uma profisso 
em que a deficincia fsica no fizesse diferena.
    Depois que Jondalar construiu em madeira um modelo de arremessador de lanas, mostrando para que servia, e como se fabricava, vrios dos homens passaram a fazer 
cpias daquele estranho petrecho. Jondalar fez tambm pontas de lana de slex com algumas das matrizes. Com o couro mais forte de que dispunham, ele cortou finas 
tiras para amarr-las aos cabos  que ainda no tinham. Ardemun conseguira, at, tendo achado um ninho de guia-real, trazer-lhe algumas boas penas de vo  rmiges 
primrias. Faltavam-lhe agora apenas os fustes de madeira.
    Tentando sempre arranjar-se com o pouco material de que dispunha, Jondalar cortou uma longa pea estreita de uma tbua com a afiada talhadeira que fizera. Usou-a 
para mostrar aos moos como fixar a ponta e como prender as penas direcionais. Ensinou-lhes tambm como manejar seu ejetor de azagaias e as tcnicas bsicas de lanamento, 
sem, no entanto, fazer nenhuma demonstrao prtica. Fabricar um fuste de lana a partir de uma prancha era trabalho prolongado e enfadonho. A madeira, seca e frgil, 
no tinha elasticidade, e quebrava facilmente.
    Ele precisava era de arvorezinhas novas, retas, com ramos razoavelmente longos que pudessem ser endireitados. E para endireit-los precisaria de calor. Ah, se 
pudesse sair a procurar madeira apropriada! Teria, para isso, de convencer Attaroa. Quando confiou esses pensamentos a Ebulan,  hora em que j se preparavam para 
dormir, o homem lhe lanou um olhar enviesado, comeou a dizer alguma coisa, depois desistiu. Abanando a cabea, fechou os olhos, e deu-lhe as costas. Jondalar achou 
aquela reao muito estranha, mas logo a esqueceu, e dormiu pensando no problema.
    Attaroa tambm pensava em Jondalar. Antecipava a diverso que ele seria para ela durante o longo inverno. Queria ganhar controle sobre ele, v-lo atender a todos 
os seus desejos. Havia de mostrar que era mais poderosa do que aquele homem alto e belo. Depois, quando no quisesse mais nada com ele, tinha outros planos. Talvez 
ele j pudesse ser tirado Depsito para trabalhar. Epadoa lhe dissera que alguma coisas passava l dentro e que o Zelandonii estava metido na histria, mas que ainda 
no descobrira o que era. Talvez fosse bom separ-lo dos outros por algum tempo, pensou Attaroa, bot-lo de volta na gaiola. Seria um boa maneira de deixar todos 
l dentro inquietos.
    Pela manh, disse s mulheres que queria uma equipe de trabalho e desejava o Zelandonii includo nela. Jondalar ficou satisfeito com essa oportunidade de sair 
e ver algo mais que terra nua e homens desesperados. Era a primeira vez que o tiravam do Depsito para trabalhar, e no imaginava o que teria de fazer. Mas era uma 
oportunidade de procurar arvores novas, de caule retilneo. Lev-las para o Depsito seria outro problema.
    Mais tarde, no curso do mesmo dia, Attaroa saiu da sua casa, acompanhada por S'Armuna e duas de suas mulheres. Envergava  ostensivamente  a parka de Jondalar. 
Os homens estavam ocupados empilhando ossos de mamute que tinham vindo de algum lugar. Tinham trabalhado a manh toda e parte da tarde sem nada para comer e pouca 
gua. Embora estivesse fora do Depsito, Jondalar no tivera oportunidade de procurar as suas arvorezinhas e muito menos de pensar como cort-las elev-las para 
l. Vigiavam-no de perto e no lhe davam descanso. Estava no s frustrado mas exausto, e com fome, sede e raiva.
    Quando as mulheres se aproximaram, ele colocou no cho o osso de perna que ele e Olamun estavam carregando e encarou-as. Notou mais uma vez o quanto Attaroa 
era alta, mais alta que muitos homens. Talvez tivesse sido atraente. Por que passara a odiar tanto os homens?
    Ela lhe dirigiu a palavra. Apesar de no compreender bem a lngua, o sarcasmo era evidente.
            Bem, Zelandonii, estar disposto a contar-nos outra histria como a ltima? Estou com disposio de divertir-me.
    S'Armuna traduziu, inclusive com a entonao de escrnio.
     No contei uma histria. Disse-Ihe a verdade  respondeu Jondalar.
     Sobre a mulher que viajava com voc no lombo de cavalos? E por onde anda essa bendita mulher? Se tem os poderes que voc lhe atribui, por que no veio libert-lo? 
 disse Attaroa, de mos na cintura, como se quisesse mesmo zombar dele.
     No sei. Daria tudo para saber. Temo que ela tenha sido arrastada para o abismo com os cavalos que vocs caavam  disse Jondalar.
     Voc mente, Zelandonii! Meus caadores no encontraram mulher nenhuma com os cavalos no fundo do despenhadeiro. Acho que voc ouviu que a pena por furtar dos 
S'Armunai  a morte e quer escapar com essa impostura.
    Nenhum corpo fora encontrado? Jondalar ganhou alma nova com traduo de S'Armuna. Ayla poderia, ento, estar viva!
            Por que sorri, Zelandonii, se acabo de dizer-lhe que a pena para o furto  a morte? Duvida que eu seja capaz de puni-lo?  disse Attaroa, espetando 
o dedo no ar para maior nfase, primeiro em direo a ele, depois a ela prpria.
     A morte?  repetiu Jondalar, depois empalideceu. Seria justo condenar algum  morte por furtar comida? Ele ficara to feliz com a possibilidade de que Ayla 
no tivesse cado no desfiladeiro, afinal de contas, que no prestara ateno ao resto. Quando se conscientizou do que ela dizia, ficou mais furioso ainda do que 
antes.
     Os cavalos no foram dados s aos S'Armunai. Eles pertencem a todos os Filhos da Terra. Como pode pretender que ca-los seja furto? Mesmo se eu estivesse 
caando seria para comer.
     Ah! V? Apanhei-o! Agora voc admite que estava caando o cavalos.
     No admito. Porque no estava. E no disse isso agora. . E olhando para a intrprete, pediu-lhe:  Informe-a, S'Armuna, que Jondalar dos Zelandonii, filho 
de Marthona, antiga lder da Nona Caverna no mente.
     Agora diz ser filho de uma ex-lder? Nosso Zelandonii  um rematado mentiroso. Soma a uma deslavada mentira sobre a mulher mgica essa nova mentira sobre outra 
mulher, lder de caverna.
     Conheci diversas mulheres lderes. Voc no  a nica da sua espcie, Attaroa. Muitas mulheres Mamuti so lderes.
            Co-lderes! Dividem o poder com um homem.
     Minha me foi lder durante dez anos. Tornou-se lder quando seu homem morreu, e no partilhou o poder com ningum. Era igualmente respeitada por homens e 
mulheres, e passou o poder a meu irmo Joharran por livre e espontnea vontade. O povo no queria a sucesso.
     Respeitada por homens e mulheres por igual? Escutem s o que ele diz! Pensa que no conheo homens, Zelandonii? Pensa que jamais casei? Acha-me to feia que 
nenhum homem me olharia?
    Attaroa estava aos berros, e S'Armuna traduzia quase simultaneamente, como se soubesse as palavras que a outra iria empregar. Jondalar podia abstrair da intrprete, 
era como se ouvisse e entendesse a prpria Attaroa. Mas o tom desapaixonado da Xam dava s palavras um estranho distanciamento da mulher que se escandia com tamanha 
beligerncia. Uma expresso amarga, insana, surgiu agora nos olhos dela ao continuar com sua arenga.
            Meu homem era o chefe, aqui. Era um grande chefe, um homem forte, vigoroso.
     Muitos so fortes. A fora no faz o lder  disse Jondalar.
    Attaroa sequer o ouviu. No estava escutando. Fazia pausas para reunir os prprios pensamentos, as prprias memrias.
    Brugar era um chefe to forte que tinha de bater-me todo dia para provar isso.  E com escrnio.  Uma pena que os cogumelos que comeu fossem venenosos!  O 
sorriso dela era, positivamente, maligno. Disputei o poder com o filho da irm dele em luta singular e leal O rapaz era um fraco. Eu o venci e matei.  E encarando 
Jondalar.  Mas voc no  fraco, Zelandonii. No gostaria tambm de uma oportunidade de lutar comigo por sua vida?
     No desejo lutar com voc, Attaroa. Mas defenderei minha vida se preciso for.
     No. Voc no luta comigo porque sabe que ser derrotado. Eu sou mulher. Tenho o poder de Muna do meu lado. A Me sempre honrou as mulheres. So elas as dispensadoras 
da vida. Devem chefiar.
     No  disse Jondalar.
    Alguns dos circunstantes se alarmaram: como ousava aquele homem discordar assim, abertamente, de Attaroa?
            A liderana no pertence necessariamente a algum abenoado pela Me ou a algum que seja fisicamente mais forte. O lder dos que apanham amoras, por 
exemplo,  aquele que sabe onde encontrar amoras, quando as amoras esto maduras, e a melhor maneira de colher amoras.  Jondalar embarcara numa arenga independente. 
 Um lder tem de ser confivel, seguro. Um lder tem de saber o que faz.
    Attaroa fechara a cara. As palavras de Jondalar no tinham efeito sobre ela, que s a si mesma ouvia. Mas no gostava do tom de repreenso do discurso dele, 
como se tivesse o direito de falar com tamanha liberdade, como se tivesse a pretenso de ensinar-lhe alguma coisa.
            No importa a natureza da tarefa  continuou Jondalar.  O chefe da caada  o que sabe onde os animais esto, e quando.  aquele capaz de rastre-los. 
 o mais hbil na caa. Marthona sempre disse que os lderes de um povo devem importar-se com o povo que lideram. Caso contrrio, no sero lderes por muito tempo.
    Jondalar dissertava, doutrinrio, dando vazo  sua fria, indiferente  expresso de Attaroa, ao seu rosto afogueado.
            Que importa que o chefe seja homem ou mulher?
            No permitirei que os homens liderem outra vez  interrompeu Attaroa.  Aqui, os homens sabem que o poder incumbe s mulheres. Os moos so criados 
nessa convico. As mulheres  que caam, aqui. No precisamos de homens para rastrear e no precisamos de homens no governo. Voc acha que mulheres no sabem caar?
      claro que as mulheres sabem caar. Minha me era caadora antes de ser lder, e a mulher com quem eu viajava  to boa caadora quanto qualquer homem que 
eu tenha conhecido. Ela gostava de caar e era uma rastreadora incomparvel. Eu posso arremessar uma lana mais longe do que Ayla, mas a pontaria de Ayla  melhor 
do que a minha. Ela pode derrubar ao mesmo tempo uma ave que voa e uma lebre que possa com uma nica pedra da sua funda.
     Mais histrias!  zombou Attaroa.   fcil cantar os feitos de uma mulher que no existe. Minhas mulheres no caavam. No tinham permisso para isso. Quando 
o chefe era Brugar, jamais mulher alguma tocou numa arma. De modo que no foi fcil para ns sobreviver quando assumi a liderana. Ningum sabia caar. Mas eu as 
ensinei. V aqueles alvos?  Attaroa apontou para uma srie de postes fincados no cho.
    Jondalar j os vira, de passagem, embora no soubesse para que serviam. Agora reparara que havia um grande pedao de carcaa de cavalo dependurado de um tarugo 
posto quase no topo de um deles. Umas poucas estavam fincadas nela.
            Todas as mulheres tm de praticar diariamente, e no apenas enterrando as lanas o bastante para que o golpe seja mortal, mas arremessando-as tambm, 
de longe. As melhores se tornam minhas caadoras Mesmo antes, porm, de aprendermos a fazer uso de lanas, fomos capazes de caar. H um despenhadeiro ao norte daqui, 
perto do lugar onde fui criada. Os habitantes daquela rea costumam lanar cavalos nesse precipcio pelo menos uma vez por ano. Ns aprendemos a caar cavalos com 
essa gente. No  difcil provocar o pnico e for-los at a borda do paredo vertical. Basta atra-los com um engodo qualquer  explicou ela.
    Attaroa olhou para Epadoa com bvio orgulho.
            Epadoa descobriu que os cavalos gostam de sal. Ela faz com que as mulheres guardem a urina que expelem e usa essa urina como chamariz para os cavalos. 
Minhas caadoras so os meus lobos  disse Attaroa, sorrindo em direo s mulheres armadas de lanas que se haviam
reunido em torno dela.
    Agradava-lhes, sobremaneira, o elogio; enchiam o peito. Jondalar no dera grande ateno s roupas delas at aquele momento. Percebia agora que todas as caadoras 
usavam alguma coisa tirada de um lobo. Muitas tinham um debrum de pele de lobo no capuz e pelo menos um dente de lobo e, mais habitualmente, vrios, no pescoo. 
Algumas tinham uma barra de pele de lobo nos punhos ou na barra das parkas, alm de outros elementos decorativos, costurados aqui e ali. O capuz de Epadoa era de 
pele de lobo, e tinha no topo uma poro de crnio de lobo, dentes  mostra. Tanto a barra quanto os punhos da sua parka tinham arremates de pele. Patas de lobo 
pendiam-lhe dos ombros na parte da frente, e uma cauda peluda de lobo saa de um quadrado de pele costurado na parte de trs.
     Suas lanas so as presas, elas atacam em bando... em alcateia... e trazem a carne para casa. Seus ps so as patas dos lobos, correm de sol a sol, e cobrem 
muito terreno  disse Attaroa numa espcie de recitativo ritmado, como se j tivesse repetido aquilo centenas de vezes.  Epadoa  a lder da alcateia, Zelandonii. 
Eu no tentaria ludibri-la. Ela e muito esperta.
     Acredito que sim  disse Jondalar, sentindo-se em desvantagem. Mas no podia deixar de ter certa admirao pelo que elas haviam conseguido, tendo comeado 
com to pouco.  Parece-me, no entanto, um desperdcio que tantos homens estejam parados e ociosos, quando poderiam contribuir tambm no esforo comum, ajudando 
na caa, na coleta de alimentos, no fabrico de instrumentos de trabalho. As mulheres no teriam de trabalhar tanto. No digo que elas no sejam capazes de dar conta 
do servio, mas por que devero fazer tudo, para elas e para os homens?
    Attaroa soltou umas das suas risadas speras, de louca, e ele teve um calafrio.
     J pensei nisso, eu tambm. So as mulheres que geram a vida. Por que precisamos de homens? Algumas das mulheres no querem abrir mo dos homens, ainda. Mas 
do que nos servem eles? Para que prestam? Para os ditos Prazeres? Mas so os homens que gozam com prazeres? Ns no mos importamos mais em deitar com homens. Em 
vez de dividir uma casa com um homem, nossas mulheres moram juntas. Dividem o trabalho, o cuidado das crianas, e se entendem muito bem umas com as outras. Sem homens 
por perto, a Me ter de misturar os espritos das Mulheres na gestao, de modo que s nascero crianas do sexo feminino.
    Funcionaria, um esquema desses?, pensou Jondalar. S'Amodun dissera que muito poucos bebes tinham nascido nos ltimos anos. E, de repente, acudiu a Jondalar a 
ideia de Ayla: que eram os Prazeres partilhados por um homem e uma mulher que faziam com que uma vida nova comeasse a crescer dentro da mulher. Attaroa mantivera 
homens e mulheres separados. Era por isso que havia to poucos bebs?
     Quantas crianas nasceram?  perguntou, por pura curiosidade.
     No muitos. Alguns. Mas se h alguns pode haver mais.
     S meninas?
     Os homens esto ainda muito perto de ns. Isso deixa a Me confusa. Logo no haver mais homens, e ento veremos quantos meninos vo nascer.
     Ou quantos bebs vo nascer, meninos ou meninas  disse Jondalar.  A Grande Me Terra criou homens e mulheres, e as mulheres, a exemplo d'Ela mesma, so abenoadas 
com machos e fmeas, mas  a Me quem decide que esprito do homem se mistura ao da mulher. Mas  sempre um esprito de homem. Voc realmente acredita que vai poder 
alterar o que Ela estabeleceu?
     No queira dizer-me o que a Me far ou no! Voc no  mulher, Zelandonii  disse Attaroa, com desprezo.  Voc no gosta  que lhe digam quo pouca importncia 
tem. Ou talvez no queira renunciar aos seus Prazeres.  isso, no ?  indagou ela.
    De sbito, Attaroa mudou de tom, passando a ronronar como uma gata!
            Voc quer Prazeres, Zelandonii? Se no me enfrenta, o que estar disposto a fazer pela sua liberdade? Ah, mas eu sei! Prazeres. Por um tomem assim, 
formoso, Attaroa ser capaz de proporcionar Prazeres. Mas ser capaz de dar Prazeres a Attaroa?
    A mudana na traduo de S'Armuna, que, no fim da frase, falou na terceira pessoa e no como Attaroa, fez ver a Jondalar que todas as palavras que ele ouvira 
tinham sido traduzidas. Era uma coisa falar com a voz de Attaroa, a chefe, e outra muito diferente falar como a voz de Attaroa, a mulher. S'Armuna sabia traduzir 
as palavras. Mas no podia assumir a persona ntima da mulher. O que ela disse em seguida deu a Jondalar a oportunidade de distinguir as duas figuras.
     To alto, to louro, to perfeito, ele poderia ser o homem da Me em Pessoa. Vejam, ele  mais alto que a prpria Attaroa, e no muitos homens o so. Voc 
j deve ter dado Prazeres a inmeras mulheres, certo? Um sorriso apenas do belo homem de olhos azuis e as mulher disputam o privilgio de se esgueirarem entre as 
peles da sua cama. Voc lhes deu Prazeres, Zelandonii, a todas elas?
    Jondalar no respondeu. Houvera um tempo, sim, em que ele se comprazia em dar Prazeres a muitas mulheres, mas agora s queria Ayla. Uma dor dilacerante o tomou. 
O que faria sem Ayla? Importava se ele vivesse ou morresse?
            Vamos, Zelandonii, se voc der a Attaroa grande Prazer, poder ir em liberdade. Attaroa sabe que  capaz de faz-lo.  E, dizendo isso a mulher, majestosa 
e sedutora, aproximou-se dele.
    Jondalar permaneceu impassvel.
            V? Attaroa se entregar a voc. Mostre a todos como um homem forte d Prazeres a uma mulher. Partilhe o Dom de Muna, a Grande Me Terra, com Attaroa, 
Jondalar dos Zelandonii  comeou a excit-lo.
    Attaroa ps os braos em torno do pescoo dele e se colou contra seu corpo. Jondalar no reagiu. Ela quis beij-lo, mas ele era alto demais para ela e no baixou 
a cabea. No estava acostumada a um homem daquela estatura. No era sempre que tinha de pr-se nas pontas dos ps para alcanar um parceiro, sobretudo um que no 
dobrava a cabea. Aquilo a fez sentir-se ridcula e avivou a sua ira.
     Zelandonii! Estou disposta a copular com voc e a dar-lhe urna chance de ser livre!
     No quero partilhar o Dom dos Prazeres da Grande Me em tais circunstncias  disse Jondalar. Sua voz, calma e controlada, desmentia a sua fria, mas no conseguia 
disfar-la. Como ousava aquela mulher insultar a Grande Me daquele modo?
     O Dom  sagrado, e se partilha com alegria, de forma voluntria. Copular desse modo seria um insulto para a Grande Me. Seria profanar Seu Dom e insult-la. 
Exatamente como tomar mulher  fora. Eu escolho a mulher com quem quero copular e no tenho nenhum desejo de partilhar o Dom da Grande Me com voc, Attaroa.
    Jondalar poderia ter correspondido ao convite, mas sabia que no era sincero. Ele era atraente e excitante para muitas mulheres. Aprendera a satisfaz-las e 
tinha experincia em matria de atrao e seduo. Com todo o seu andar sinuoso, no havia calor em Attaroa, e ela no acendia nele qualquer fagulha de desejo. Sentiu 
que mesmo que tentasse no corresponderia  expectativa da mulher.
    Mas Attaroa pareceu estupefata quando ouviu a traduo. Muitos homens teriam estado mais do que dispostos a partilhar o Dom dos prazeres com aquela mulher atraente 
em troca da liberdade. Estrangeiros que haviam tido o infortnio de passar pelos territrios dela e serem capturados pelas suas lanceiras costumavam aceitar com 
alvoroo a chance de escapar da Loba dos S'Armunai to facilmente. Embora alguns hesitassem, temerosos, a imaginar alguma astcia ou embuste, nenhum jamais se recusara 
assim cabalmente. Logo descobriam que tinham tido razo de duvidar da sinceridade dela.
     Voc no quer!  disse a lder, estupefata. A traduo fora feita sem nfase, mas a reao dela era clara.  Voc refuga Attaroa. Como se atreve!  gritou. 
E, voltando-se para as suas lanceiras.
     Tirem-lhe a roupa e amarrem-no ao alvo.
    Aquela era a inteno dela todo o tempo. Mas no pretendia execut-la de imediato. Pretendia divertir-se com Jondalar durante todo o inverno, geralmente enfadonho 
e demorado. Gostava de tentar seus homens com promessas de liberdade a preo de Prazeres. Para ela, aquilo era o mximo da ironia. Daquele ponto em diante, ela os 
levava a outros atos de humilhao e degradao e, de regra, conseguia que fizessem tudo o que ela mandava antes de jogar a partida final. Eles chegavam a despir-se 
quando ela mandava, esperando que cumprisse a promessa de deix-los ir.
    Mas nenhum homem dava Prazer a Attaroa. Tinham abusado terrivelmente dela em criana, dela, que havia sempre sonhado casar com o lder algum outro grupo. Quando 
o fez, descobriu que sua nova situao era pior do que a anterior. Seus Prazeres vinham sempre mesclados de dolorosos espancamentos e prticas vexatrias, at que 
ela se rebelou e vingou-se, infligindo ao homem que a fizera sofrer morte dolorosa e humilhante. Mas aprendera a lio. E a crueldade de que fora vtima a deformou. 
No podia ter Prazer sem infligir sofrimento. Attaroa no fazia caso de partilhar o Dom da Grande Me com homens ou, at, com mulheres. Dava a si mesma Prazeres 
vendo homens sofrerem morte lenta e dolorosa.
    Quando houve um longo intervalo sem estranhos, certa vez, Attaroa chegou a divertir-se com homens S'Armunai. Mas depois que os primeiros dois ou trs foram vtimas 
dos seus "Prazeres", os demais ficaram conhecendo o jogo e no caam nele. Apenas imploravam por suas vidas. Ela s vezes perdoava, mas no sempre, aos que tinham 
mulheres que suplicassem por eles. Algumas delas no eram dceis  no entendiam que era pelo bem delas que Attaroa precisava eliminar os homens , mas podiam ser 
dominadas atravs dos machos de que gostavam, e por isso Attaroa permitia que vivessem.
    Os viajantes costumavam aparecer no vero. Pouca gente se aventura to longe no frio do inverno, principalmente no curso de uma Jornada, e os estranhos rareavam. 
No viera nenhum no ltimo vero. Poucos conseguiam fugir. Algumas das mulheres, tambm. Esses avisavam outros. Muita gente recebia com ceticismo  como rumores 
infundados ou descabeladas fantasias de contadores de histrias  as notcias da Mulher-Loba. Mas sua crnica ia crescendo, e as pessoas evitavam aquelas paragens.
    Attaroa ficara encantada quando lhe levaram Jondalar, mas ele se revelava pior do que um dos seus prprios homens. No fazia seu jogo, sequer lhe dava o gosto 
de pedir misericrdia. Se o fizesse, talvez ela o deixasse viver algum tempo. Quanto mais no fosse, para v-lo render-se  vontade.
    Ouvindo a ordem, as Mulheres-Lobas se precipitaram sobre Jondalar. Ele se defendeu, com murros e pontaps, derrubando lanas e desferindo golpes que teriam dolorosas 
consequncias. Por pouco no se livrava delas, e escapava, mas acabou vencido pela fora do nmero mulheres. Continuou a forcejar quando cortaram os fechos da sua 
tnica e as pernas da cala. Mas elas o subjugaram encostando-lhe as aceleradas pontas das lanas no pescoo.
    Depois de lhe removerem a tnica e deixarem seu trax  mostra amarraram as mos dele com uma corda e passaram-na pelo prego de madeira do poste onde ele vira 
antes a carcaa de cavalo. Chutou-as quando lhe puxaram as botas e as calas, acertando algumas das mulheres com fora. Essas teriam equimoses. Mas de nada adiantou 
a resistncia. Apenas deu vontade s mulheres de revidar. E elas tinham como.
    Uma vez preso, nu, ao poste, as lanceiras recuaram e ficaram a contempl-lo com ar satisfeito. Por mais forte e grande que fosse, a luta fora infrutfera. E 
a posio era incmoda. Os ps tocavam o cho, mas de leve. Muitos homens teriam ficado dependurados ali. Tinha, apesar de tudo, alguma sensao de segurana com 
o fato de tocar a terra. E dirigia um vago apelo mudo  Grande Me Terra para que lhe enviasse algum que o salvasse daquela situao inesperada e pavorosa.
    Attaroa ficou interessada na grande cicatriz que ele tinha na parte superior da coxa e na virilha. Nada sugeria que houvesse sofrido ferimento to grave. O Zelandonii 
no puxava da perna. Se era assim to forte, talvez durasse mais que muitos. Talvez ele lhe proporcionasse ainda, e afinal de contas, algum divertimento. Attaroa 
sorriu a esse pensamento.
    A expresso subitamente desligada da mulher intrigou Jondalar. Uma brisa lhe arrepiou o corpo, e ele estremeceu, mas no s de frio. Quando ergueu os olhos, 
viu que Attaroa sorria. Tinha o rosto afogueado e arfava. Parecia satisfeita e estranhamente sensual. O contentamento dela era sempre maior se o homem por quem se 
interessava era bonito. Atrada  sua moda por aquele estranho alto, indiferente ao prprio carisma, ela decidiu fazer com que ele durasse o mais possveis.
    Jondalar olhou a paliada. Sabia que os homens assistiam ao espetculo pelas frinchas. Por que no o tinham prevenido? Aquela no era, obviamente, a primeira 
vez que uma coisa daquelas acontecia no ptio. E de que teria adiantado um aviso? Ele teria demonstrado medo, se soubesse? Possivelmente acharam melhor para ele 
no saber.
    Na verdade, alguns dos homens tinham discutido a questo. Todos gostavam do Zelandonii e admiravam suas habilidades de britador. Com as facas afiadas e as ferramentas 
que eram o seu legado, contavam fugir um dia. Haveriam sempre de lembrar-se dele, mas sabiam que se houve-se outra vez um longo intervalo sem estranhos, Attaroa 
podia muito bem pendurar qualquer um deles naquele mesmo poste. Poucos j haviam estado l uma vez e sabiam que suas splicas abjetas no a comoveriam de novo. Secretamente, 
aprovavam a recusa de Jondalar, mas tinham medo de que qualquer demonstrao chamasse a ateno para eles. Ficaram por isso, num silncio absoluto enquanto a cena 
se desenrolava, sentindo, todos, compaixo e medo, e um pouco de vergonha tambm.
    No s as Mulheres-Lobas, mas todas as mulheres do acampamento tinham de ser testemunhas do suplcio do homem. Muitas detestavam aquilo, mas tinham medo de Attaroa, 
inclusive das caadoras. Ficavam to afastadas quanto possvel. Aquilo as deixava nauseadas, mas se no comparecessem qualquer homem que tivessem defendido no passado 
seria a prxima vtima.
    Umas poucas mulheres tinham tentado tugir, e algumas tiveram xito. Mas, em geral, eram trazidas de volta. E se houvesse homens no Depsito pelos quais se interessassem 
 maridos, irmos, filhos , esses eram postos na gaiola sem comida ou gua, e elas eram obrigadas a v-los sofrer dias a fio. s vezes, mas no com frequncia, 
algumas eram postas na jaula elas mesmas.
    As mulheres com filhos eram as mais assustadas. Nunca podiam saber o que lhes aconteceria. Principalmente depois do que Attaroa fizera com Odevan e Ardoban. 
As mais temerosas eram as que tinham filhos de colo e as que estavam grvidas. Attaroa era gentil com elas, mandava dar-lhes guloseimas, e perguntava pela sade 
delas. Mas cada uma guardava um segredo. Se Attaroa descobrisse, podiam acabar amarradas ao poste do suplcio.
    Attaroa se postou  frente das suas caadoras e apanhou uma lana. Jondalar notou que era uma arma pesada e malfeita e, mesmo naquela hora extrema, pensou que 
poderia fazer lanas melhores. A ponta, no entanto, por grossa que fosse, e feia, no deixava de ser aguada e eficaz. Viu que a mulher apontava para baixo. No 
queria matar, mas aleijar. Estava terrivelmente cnscio da prpria vulnerabilidade, aberto daquela maneira a qualquer dor que ela quisesse infligir-lhe, e fez um 
esforo para no levantar as pernas a fim de proteger-se. Logo estaria dependurado no ar, mais vulnervel ainda, achava, e teria, ademais, mostrado medo.
    Attaroa o observava com olhos semicerrados, sabendo que ele a temia, e retirando prazer desse fato. Alguns lhe pediam perdo. Aquele no Pediria. No ainda, 
pelo menos. Ela ergueu o brao como se fosse arremessar a lana. Jondalar fechou os olhos e pensou em Ayla, sem saber se estava viva ou se tivera o corpo despedaado 
debaixo de uma horda de cavalos no fundo de um precipcio. Com uma dor mais funda do que a que qualquer lana lhe pudesse causar, ele soube que se Ayla estava morta 
a vida j no fazia sentido, de qualquer maneira.
    Ouviu o choque de uma lana no alvo, mas acima de sua cabea, no embaixo, como previra, e no dolorosamente. E logo caiu de joelhos, pois seus braos estavam 
livres. Olhou para as mos e viu que a corda fora cortada. Attaroa ainda tinha a lana na mo! O impacto que ouvira no viera dela. Jondalar ergueu os olhos e viu, 
espetada no poste, uma lana bem bem-feita, de ponta de slex. Sua extremidade plumada ainda tremia. A ponta, fina, cortara a corda. Ele conhecia aquela lana!
    Virou-se para olhar na direo de onde viera. Diretamente atrs de Attaroa havia movimento. Sua viso ficou borrada, pois seus olhos se encheram de lgrimas 
de alvio. Mal podia acreditar no que via. Seria mesmo ela? Estava ela viva? Baixou os olhos e piscou repetidas vezes para enxergar melhor. Erguendo-se, em seguida, 
viu quatro pernas quase negras de cavalo ligadas a um cavalo baio, com uma mulher em cima.
     Ayla!  gritou.  Voc est viva!

29
___________________________________________________________________________

    Attaroa tambm se voltou para ver quem atirara a lana. Do fundo do campo que ficava logo alm do Acampamento, viu uma mulher que vinha em sua direo montada 
num cavalo. O capuz de parka que a mulher vestia estava lanado para trs. Seus cabelos de um louro fulvo e a pelagem cor de trigo maduro do cavalo combinavam to 
bem que a assustadora apario parecia, na verdade, uma s carne. Poderia a lana ter vindo daquela mulher-cavalo?, pensou. Mas como poderia algum arremessar uma 
lana quela distncia? E s ento viu que a mulher tinha outra lana  mo.
    Attaroa sentiu que seus cabelos se eriavam de pavor e que isso nada tinha a ver com coisas to materiais quanto lanas. Aquela apario que tinha diante de 
si no era uma mulher. Disso estava segura. Num momento de lucidez conscientizou-se da inominvel atrocidade dos seus atos e viu que a figura que vinha a galope 
pelo campo era uma das formas espirituais da Me, uma Munai, um esprito vingador, mandado para castig-la. No fundo, Attaroa quase a acolheu de bom grado. Seria 
um alvio se o pesadelo que era sua vida acabasse.
    Attaroa no era a nica a temer a estranha mulher-cavalo. Jondalar tentara contar-lhes, mas ningum lhe dera crdito. Ningum jamais concebera um ser humano 
cavalgando um cavalo. Mesmo vendo, no era fcil acreditar naquilo. A sbita apario de Ayla afetou cada um dos presentes individualmente. Para alguns, o que assustava 
era apenas a estranheza da mulher em cima de um cavalo. Uma viso que acrescentava ao medo que tinham do desconhecido. Outros viam o fato inexplicvel como manifestao 
de poderes sobrenaturais e ficaram apreensivos. Muitos ainda, a exemplo de Attaroa, viam nela uma Nmesis pessoal, um reflexo das suas conscincias sobre as suas 
iniquidades. Encorajados ou forados por Attaroa, muitos haviam cometido brutalidades inacreditveis, ou permitido que fossem cometidas, ou pactuado com elas. Por 
tudo o que tinham feito ou faziam, sentiam vergonha  noite, e tremiam com o medo de castigo futuro.
    At Jondalar pensou, por um momento, que Ayla tivesse vindo do outro mundo para salvar-lhe a vida, convencido de que, mesmo morta, se tivesse querido faz-lo, 
poderia. Viu-a aproximar-se, sem pressa, estudando cada detalhe dela, com cuidado e amor, desejando encher a viso com uma imagem que pensara no ver nunca mais: 
a mulher amada cavalgando sua gua. Ayla tinha o rosto vermelho de frio. Mechas de cabelo, escapadas da correia que as prendia, flutuavam ao vento. Baforadas de 
ar quente eram visveis a cada exalao da mulher ou do animal, e Jondalar ficava ainda mais cnscio do seu corpo exposto e frio e dos seus dentes que chocalhavam.
    Ayla usava o cinto por cima da parka e, numa de suas calas, a adaga feita de uma presa de mamute que fora presente de Talut. A faca de slex com cabo de osso 
que fizera para ela tambm balanava na bainha. Viu que trazia o machado tambm. E a bolsa de remdios, do outro lado.
    Montando com graa e sem esforo, Ayla parecia inteiramente confiante e serena, mas Jondalar podia sentir que ela estava tensa e pronta para entrar em ao. 
Tinha a funda na mo direita, e ele sabia a rapidez com que podia manej-la naquela posio. Com a mo esquerda, em que haveria, estava seguro, duas pedras, ela 
segurava uma lana, ajustada no arremessador e apoiada diagonalmente em Huiin, da perna direita de Ayla at o ombro esquerdo da montaria. Outras lanas apontavam 
de um receptculo tranado posto logo atrs da perna dela.
    Avanando, Ayla pde ver as reaes da mulher que ameaara Jondalar. Sua expresso denotava choque e medo, e o desespero daquele momento de verdade. Mas quando 
chegou mais perto, nuvens escuras de insnia j obscureciam a razo de Attaroa. Ela semicerrou os olhos para observar a mulher loura, depois sorriu devagarinho, 
um sorriso de malcia, perverso e calculista.
    Ayla no estava familiarizada com a loucura, mas interpretava as expresses inconscientes da outra, e percebeu que estava em face de uma adversria perigosa: 
unia hiena. J matara muito carnvoro na vida e sabia como as feras so imprevisveis, mas s a hienas desprezava. Elas lhe serviam de metfora para a pior qualidade 
de gente que havia. E aquela Attaroa era uma hiena, uma manifestao perigosamente maligna do Mal em que ningum jamais poderia confiar.
    O olhar severo de Ayla concentrava-se em Attaroa, mas vigiava tambm o grupo todo, inclusive as Mulheres-Lobas, tomadas de estupor. E foi afortunado que vigiasse. 
Quando Huiin estava a poucos passos de Attaroa, Ayla captou um movimento furtivo para o lado. Com gestos to rpidos que eram difceis de acompanhar, ps uma pedra 
na funda, girou-a e lanou.
    Epadoa deu um guincho de dor, segurou o brao e deixou cair com estrondo a lana no solo gelado. Ayla poderia ter-lhe quebrado o osso se assim o desejasse, mas 
mirara deliberadamente a parte superior do brao e controlara a fora. Mesmo assim, a lder das Mulheres-Lobas teria uma contuso muito dolorosa por algum tempo.
     Diga lanceiras parar, Attaroa!  exigiu.
    Jondalar s percebeu que Ayla falara numa lngua estranha ao ver que entendera o sentido do que ela dissera. Ficou, em seguida, perplexo diante da evidncia 
de que ela falara em S'Armunai! Como poderia Ayla saber S'Armunai? Ela nunca ouvira a lngua antes. Ou ouvira.?
    Attaroa ficou tambm aturdida ao ser chamada por seu nome por uma completa estranha. E mais, por notar a peculiaridade do sotaque de Ayla, que era como o de 
uma outra sem ser. A voz acordava nela sentimentos havia muito tempo esquecidos, a memria sepultada de um complexo de emoes, como o medo, e aquilo a encheu de 
um grande desconforto. Reforou nela a convico de que a figura que se aproximava no era simplesmente uma mulher em cima de um cavalo.
    Havia muitos anos que ela no se sentia assim. Attaroa no gostava das circunstncias que haviam provocado nela outrora aquele estado de esprito e gostava ainda 
menos de v-lo voltar agora. Ficava nervosa, agitada, com raiva. Queria expulsar aquelas lembranas. Tinha de livrar-se delas, destru-las completamente, para que 
nunca mais voltassem. Mas como?
    Olhou para Ayla no cavalo e concluiu, na hora, que a mulher loura era a culpada de tudo. Fora ela quem lhe reavivara a memria e os sentimentos. Se ela se fosse, 
destruda, tudo desapareceria, tudo ficaria em ordem como antes. Com sua inteligncia pervertida, mas gil, comeou a considerar como destruir a mulher. E logo um 
sorriso astuto e malicioso lhe animou o rosto.
            Ento o Zelandonii estava dizendo a verdade, afinal de contas. Pensamos que ele tentara furtar carne, que j  pouca para as nossas necessidades. E 
entre os S'Armunai o furto  punido com pena de morte. Ele nos contou uma histria sobre cavalos de sela mas ns a achamos difcil de acreditar, o que  compreensvel 
 falou.
    Attaroa notou que seu discurso no estava sendo traduzido e interpelou S'Armuna.
            Intrprete! Voc no est repetindo minhas palavras!
    S'Armuna estava perdida na contemplao de Ayla. Lembrava-se muito bem que uma das primeiras caadoras do grupo que viera trazendo o Zelandonii falara de uma 
viso aterradora que tivera no curso da caada, pedindo-lhe que a interpretasse: vira uma bela mulher loura sentada em cima de um dos cavalos que eles empurravam 
para o despenhadeiro! A mulher teria conseguido controlar o animal e desvi-lo do abismo. Quando o segundo grupo de caadoras chegou, trazendo carne, e falou de 
um cavalo que escapara montado por uma mulher, S'Armuna ficara sem saber o sentido dessa viso estranha reiterada.
    Muitas coisas vinham aborrecendo Aquela que Servia  Me desde algum tempo, mas quando o ferido que as caadoras trouxeram acabou sendo um rapaz sado do seu 
prprio passado, e ele tambm falou da mulher a cavalo, aquilo a deixara angustiada. Tinha de ser um aviso, mas qual o sentido aviso? E a coisa ficou remexendo no 
fundo da mente de S'Armuna.
    O fato de que, uma mulher como a que lhe haviam descrito tivesse entrado, efetivamente, no acampamento montando um cavalo amarelo dava ao aviso uma fora nunca 
vista. Era a manifestao material de uma viso! O impacto disso a deixou confusa, impedindo que desse ateno integral a Attaroa, mas ouvira assim mesmo o que fora 
dito, e rapidamente traduziu em Zelandonii as palavras da Mulher-Loba.
     Matar um caador pelo fato de caar no  do agrado da Grande Me. Nem um pouco  disse Ayla em Zelandonii, quando a traduo foi concluda. Havia entendido 
o principal, em S'Armunai. A lngua daquele povo lhe parecia to prxima do Mamuti que no era proeza nenhuma perceber o que diziam, se bem que imperfeitamente. 
Mas Zelandonii era mais fcil, e em Zelandonii ela podia expressar-se melhor.
     A Me exige que Seus filhos acolham o estrangeiro e lhe dem de comer.
    Foi quando falava Zelandonii que S'Armuna percebeu a peculiaridade do sotaque de Ayla. Embora falasse perfeitamente, havia alguma coisa que... Mas no tinha 
tempo de pensar nisso agora. Attaroa esperava.
      por causa da escassez que temos essa pena  explicou Attaroa com voz neutra. O esforo que fazia para controlar-se era evidente, tanto para S'Armuna quanto 
para Ayla.  Desencoraja o desvio de carne, de modo a haver bastante para todos. Para uma mulher como voc, to hbil no manejo de armas,  difcil entender como 
a vida era difcil quando no se permitia s mulheres caar. A comida era pouca. Sofremos, todas.
     Mas a Grande Me Terra prov mais do que carne para Seus filhos. Certamente as mulheres daqui tm cincia dos alimentos que nascem da terra e podem ser colhidos 
 disse Ayla.
     Mas tive de proibir a coleta! Se elas passassem o tempo apanhando plantas, no aprenderiam a caar.
     Ento a escassez de alimentos  culpa de vocs mesmas. De voc, Attaroa, e das suas seguidoras. Mas isso no justifica que matem os que no conhecem seus costumes 
 disse Ayla.  Voc usurpou um direito Que s a Me tem. Ela chama Seus filhos para o Seu seio quando quer. No cabe a Attaroa assumir a autoridade Dela.
     Todos os povos tm costumes e tradies que so relevantes para eles. Quando tais normas so transgredidas, pode dar-se o caso de que a pena apropriada seja 
a morte.
    Era verdade. Ayla sabia disso por experincia prpria.
     Mas por que os costumes do seu povo impem a pena de morte para o simples desejo de comer?  disse ela.  Os mandamentos da Me tm precedncia sobre todos 
os outros. Ela exige a repartio dos alimentos e a hospitalidade para com os estranhos. Voc ... descorts e pouco Caleira, Attaroa.
    Descorts" e "pouco hospitaleira"! Jondalar fez um esforo para no cair na gargalhada. "Assassina" e "desumana" teria sido mais correto! Ele assistia a tudo 
e tudo ouvia com espanto. Estava surpreso e encantado com os eufemismos de Ayla. Lembrava-se de quanto ela no tinha qualquer senso de humor. No entendia uma pilhria 
e era incapaz de fazer insultos sutis como aqueles.
    Attaroa estava irritada, era evidente. Continha-se a custo, mas sentia o aguilho da crtica irnica de Ayla. Tinha ralhado com ela como se fora uma menina travessa. 
Mil vezes preferia ser chamada m, uma mulher poderosa e malvola, que cumpria respeitar e temer. A moderao das palavras da outra fazia dela objeto de ridculo. 
Attaroa via o ar de deboche de Jondalar e fuzilava-o com os olhos, certa de que todos ali desejariam rir com ele. Ah, ele se arrependeria daquilo e tambm a mulher!
    Ayla pareceu acomodar-se melhor em Huiin. A verdade  que mudar de posio para empunhar melhor o arremessador de lanas.
            Acho que Jondalar precisa de suas roupas  disse, levantando a lana um pouco. No ameaava com ela, propriamente, apenas mostrava que estava ali.  
No esquea acarto, que est, no momento, usando. Talvez possa mandar algum trazer-lhe cinto, mitenes, bolsa d'gua faca e as ferramentas que tinha consigo ao ser 
detido  disse Ayla.  esperou que S'Armuna traduzisse.
    Attaroa rilhou os dentes mas sorriu, embora o sorriso fosse mais uma espcie de careta. Fez um sinal a Epadoa. Com o brao esquerdo, o que no lhe doa  Epadoa 
sabia que ia ter tambm uma equimose na perna, onde Jondalar a chutara , a comandante das Mulheres-Lobas apanhou as roupas que tinham tirado do homem com tanto 
trabalho e deixou-as no cho, junto dele. Depois foi apanhar os outros pertences.
    Enquanto aguardavam, Attaroa tomou inesperadamente a palavra, procurando falar num tom mais amigvel.
            Voc viajou muito tempo e deve estar fatigada. Como  mesmo seu nome? Ayla?
    A mulher fez que sim do alto do cavalo. Entendia muito bem o S'Armunai da outra. A lder no fazia caso de apresentaes formais. Faltava-lhe sutileza.
            Uma vez que d tanta importncia  hospitalidade, talvez eu lhe deva fazer as honras da casa. Vocs podem ficar comigo. Aceitam?
    Antes que eles tivessem tempo de responder, S'Armuna interveio.
             costume oferecer alojamento aos estranhos com Aquela que Serve  Me. So muito bem-vindos aos meus aposentos.
    Escutando o que Attaroa dissera e aguardando a traduo, Jondalar ps as calas. No se dera conta antes do frio que sentia.  que tinha a vida em perigo imediato. 
Mas seus dedos estavam to duros que teve dificuldade para atar os cordis da perneira. A tnica estava rasgada, mas ele a envergou com prazer assim mesmo. Interrompeu 
a operao ao ouvir o inesperado convite de S'Armuna. Erguendo os olhos, depois de enfiar a tnica pela cabea, viu que Attaroa olhava com cara de poucos amigos 
para a Xam. Depois sentou-se para calar as botas to depressa
quanto pde.
    Ela vai ter notcias minhas, pensou Attaroa. No perde por esperar. Mas disse, sorridente:
     Permita-me, ento, oferecer-lhe uma festa, Ayla. Organizaremos um banquete e vocs dois sero nossos hspedes de honra  disse, incluindo Jondalar num olhar 
abrangente.  Tivemos xito numa caada recente, e no posso permitir que se vo fazendo mau juzo de mim.
    Jondalar achou que a tentativa de sorrir amavelmente era um desastre. Alm disso, no queria comer com ela nem ficar mais um minuto naquele acampamento. No 
teve tempo de opinar, porm. Ayla falou primeiro.
     Teremos muito gosto em aceitar a sua hospitalidade, Attaroa. Quando pretende fazer esse banquete? Eu gostaria de preparar alguma coisa, mas o dia j vai adiantado.
     verdade  disse Attaroa.  E h coisas que tambm desejo preparar. O banquete ser amanh. Mas, naturalmente, jantaro comigo esta noite. Uma refeio ligeira?
     Tenho de aprontar nossa contribuio para a festa. Voltaremos amanh  disse Ayla. E acrescentou:  Jondalar ainda precisa da sua parka. Naturalmente ele devolver 
o "manto" que estava usando.
    A mulher puxou a parka pela cabea. Jondalar sentiu o cheiro dela, feminino, ao vestir o casaco, mas o calor era bem-vindo. O sorriso de Attaroa era maldade 
pura, de p, ali, no frio, com as roupas de tecido fino.
            E o resto dos pertences dele?  perguntou Ayla.
    Attaroa lanou um olhar para a porta da casa e chamou a mulher que estava l, de p, havia algum tempo. Epadoa trouxe logo os petrechos de Jondalar, que depositou 
por terra a alguns passos dele. No devolvia aquelas coisas de boa vontade. Attaroa prometera dar-lhe algumas delas. Queria, principalmente, a faca. Era a mais bem-feita 
de todas as que j vira.
    Jondalar ajustou o cinto e colocou os objetos nos seus lugares. Mal podia acreditar que os tinha de volta. Ento, para surpresa geral, montou de um salto na 
garupa de Ayla. Aquele era um Acampamento que ele queria ver pelas costas. Ayla correu os olhos em torno, certificando-se de que ningum estava em posio para impedi-los 
de sair ou atirardes uma lana. Depois, virou Huiin, e partiram a galope.
            Atrs deles!  ordenou Attaroa.  No vo escapar assim to facilmente!
    Depois, entrou em casa fervendo de dio, mas toda arrepiada de frio.
    Ayla manteve Huiin num trote vivo por algum tempo, at ficarem a uma boa distncia do acampamento, descendo uma colina. Diminuiu a marcha ao entrar num bosque 
que havia no sop da elevao, perto do rio, depois mudou de direo, rumando para o seu prprio acampamento, que ficava, na verdade, prximo do estabelecimento 
dos S'Armunai. Uma vez a passo, Jondalar ficou consciente da proximidade de Ayla e sentiu tanta gratido pelo fato de estar com ela outra vez que aquilo quase o 
sufocou. Passou-lhe os braos em torno da cintura e a estreitou, sentindo os cabelos de Ayla no rosto e respirando seu perfume inebriante e singular de mulher.
     Voc est aqui, est comigo.  difcil de acreditar. Temia que estivesse longe, nas campinas do mundo dos espritos. Sinto uma tremenda gratido por t-la 
aqui. Nem sei o que dizer.
     Eu o amo demais, Jondalar  disse ela, inclinando o corpo trs, de modo a aninhar-se mais nos braos que a enlaavam. Era um grande alvio estar com Jondalar 
novamente. Seu amor por ele cresceu-lhe no peito e a deixou sem flego.
     Encontrei uma pequena mancha de sangue e segui seu rastro todo o tempo, sem saber, porm, se estava vivo ou morto. Quando descobri que o levavam carregado, 
entendi que vivia, mas to ferido que no podia andar. Isso me deixou aflita, a pista no era fcil de seguir e eu sentia que me atrasava. As caadoras de Attaroa 
viajam depressa por estarem a p e conhecerem o caminho.
     Voc chegou na hora exata. Se demorasse um pouco mais, teria sido tarde demais.
     Eu no cheguei naquela hora.
     Quando ento?
     Cheguei logo depois do segundo carregamento de carne. Eu estava  frente at do primeiro deles, mas as mulheres me alcanaram no lugar onde atravessam o rio. 
Tive a sorte de ver duas delas que iam ao encontro dos carregadores. Temi que me tivessem visto tambm, de longe pelo menos. Eu estava a cavalo, de modo que me afastei 
depressa da pista. Depois voltei, e acompanhei-os de novo, com mais cuidado, porm. Poderia haver um terceiro carregamento.
     Isso explica a "comoo" de que Ardemun falava. Ele no sabia do que se tratava, s que todo mundo estava nervoso e falando animadamente depois da segunda 
viagem. Mas se voc j estava nas imediaes, por que levou tanto tempo para me tirar de l?
     Tive de esperar uma oportunidade para faz-lo sair daquele lugar fechado por uma cerca. Como  que o chamam? Depsito?
    Jondalar fez que sim.
            No teve medo de que a vissem?
     J tocaiei lobos em seu covil. As "lobas" de Attaroa so barulhentas e muito mais fceis de evitar. Eu me aproximava delas o bastante para escutar o que diziam. 
H um outeiro atrs do acampamento. De l se pode ver toda a instalao e, at, o interior do Depsito. Atrs dele, se voc erguer os olhos, v trs grandes pedras 
brancas alinhadas j bem perto do topo da colina.
     Eu sei quais so. Se soubesse que voc estava l me sentiriam melhor cada vez que olhasse para aquelas rochas brancas.
     Ouvi que uma das mulheres as chamava As Trs Donzelas ou talvez, As Trs Irms.
     Acampamento das Trs Irms  o nome que do ao lugar  se Jondalar.
            Acho que ainda no sei muito bem a lngua dessa gente.
            Sabe mais do que eu. Creio que surpreendeu Attaroa dirigindo-lhe a palavra em S'Armunai.
     A lngua no difere muito do Mamuti.  fcil perceber o sentido das palavras  disse Ayla.
     Nunca me ocorreu perguntar-lhes o nome dos trs rochedos. So um bom ponto de referncia, de modo que  lgico que tenham nome.
     Toda aquela elevao  muito caracterstica e pode ser vista a grande distncia. Parece um animal adormecido. Mesmo daqui, como logo vera.
     Estou certo de que a colina tem tambm nome, por ser de caa abundante, mas s estive l duas vezes, para funerais. Houve dois seguidos. No primeiro, enterraram 
trs moos  disse Jondalar, baixando a cabea para evitar os galhos sem folha de uma rvore.
     Eu o segui por ocasio do segundo funeral  disse Ayla.  Pensei que talvez pudesse tir-lo de l durante a cerimnia, mas elas o vigiavam muito bem. Ento 
voc achou as pedras de pederneira e ensinou os outros a usar o arremessador de lanas  disse Ayla.  Eu tinha de esperar pelo momento certo, de modo a surpreend-las. 
Lamento que tenha levado tantos dias.
     Como ficou sabendo das pedras? Ns achvamos que tnhamos tido todo o cuidado possvel.
     Eu o vigiava o tempo todo. As Mulheres-Lobas no so to boas nisso. Voc teria visto isso e conseguido um meio de escapar se no tivesse ficado distrado 
com as pedras. Elas no so to boas caadoras quanto pensam  acrescentou.
     Considerando que no sabiam nada quando comearam, a verdade  que no se saram to mal. Attaroa disse que elas no sabiam manejar lanas e que por isso tinham 
de perseguir animais  disse Jondalar.
     Elas gastam um tempo enorme indo at o Rio da Grande Me para lanar cavalos no precipcio quando podiam caar muito melhor aqui mesmo. Os animais tm de passar 
por um corredor estreito entre o rio e a montanha, e  perfeitamente possvel avist-los de longe  disse Ayla.
     Notei isso quando assisti ao primeiro funeral. O lugar em que os moos foram sepultados  um excelente mirante, e descobri que j foi usado para sinalizao 
com fogos embora no possa precisar h quanto tempo. Pude ver ainda o carvo de grandes fogueiras.
     Em vez de fazer currais para homens, deviam faz-los para animais. Seria possvel dirigi-los para dentro dos cercados, at mesmo sem armas  disse Ayla, fazendo 
com que Huiin parasse.  Veja. L est a elevao. Apontou para uma formao calcria recortada contra o horizonte.
     Parece mesmo um animal dormindo. E, veja, l esto tambm as Trs Irms  disse Jondalar.
    Cavalgaram em silncio por algum tempo. Depois, como se viesse pesando nisso, Jondalar disse:
     Se  to fcil sair do Depsito, por que os homens no o fizeram?
     Acho que no tentaram  disse Ayla.  Talvez por isso as mulheres deixaram de vigi-los com maior cuidado. Muitas, porm, j no querem que eles fiquem segregados 
l. No os libertam com medo de Attaroa.  E, mudando de assunto:  Olhe, Jondalar,  aqui que tenho estado acampada.
    Como que para confirmar o que ela dizia, Racer soltou um relincho ao entrarem num pequeno espao limpo de vegetao mais cerrada. O potro estava amarrado a uma 
rvore. Ayla fazia um acampamento diminuto toda noite e levantava-o ao amanhecer, pondo tudo nas costas de Racer para o caso de ter de partir de imediato.
     Voc conseguiu salvar os dois da tragdia do abismo!  disse Jondalar.  Eu no sabia se tinha conseguido, e tive medo de perguntar. A ltima coisa de que 
lembro, antes de ser ferido na cabea, foi de ver  voc montada em Racer e tendo dificuldade em domin-lo.
     Tive s de me acostumar  rdea. O maior problema foi aquele outro cavalo, o grande, mas ele se perdeu, e tenho pena. Huiin atendeu ao meu assovio logo que 
eles deixaram de empurr-la para longe de mim.
    Racer demonstrou alegria ao ver Jondalar. Baixou a cabea, depois sacudiu-a em saudao. Teria ido ao encontro do homem se no estivesse amarrado. De orelhas 
apontando para a frente e o rabo levantado no ar, esperou que ele se aproximasse e logo se ps a esfregar o focinho na mo do dono. Jondalar o abraou como a um 
amigo que pensava no ver mais, conversando com ele, afagando-lhe o pescoo, coando-o.
    Depois franziu a testa. Tinha outra pergunta, que se esquecera, at ento, de fazer.
            E Lobo? O que aconteceu com ele?
    Ayla sorriu, depois deu um assobio diferente. Lobo veio correndo, e ficou to contente de ver Jondalar que no conseguia parar quieto. Correu para ele, agitando 
o rabo, latiu um pouco, depois botou-lhe as patas no ombro para lamber-lhe o queixo. Jondalar o pegou pelos plos do pescoo, como tantas vezes vira Ayla fazer, 
afagou-o, e, por fim, apoiou a testa contra a do animal.
            Ele nunca fez isso comigo antes  disse, surpreso.
      que sentiu a sua falta. Penso que queria encontr-lo tanto quanto eu. E nem sei se teria conseguido a pista sem ele. Estvamos a considervel distncia do 
Rio da Grande Me, e havia grandes extenses de solo rochoso, que no mostravam rastros. Mas o faro de Lobo os encontrou  disse Ayla, e afagou o lobo.
     E ele ficou esperando l, escondido no mato, todo o tempo? E s veio quando voc chamou? Deve ter sido difcil ensinar-lhe isso. que o fez?
     Tive de ensinar-lhe a esconder-se porque no sabia quem podia vir, e no queria que as caadoras ficassem sabendo a respeito dele. Elas comem carne de lobo.
     Quem come carne de lobo?  perguntou Jondalar, franzindo o nariz de nojo.
     Attaroa e suas caadoras.
     Passam tanta fome assim?  perguntou Jondalar.
     Talvez tenham passado, mas agora fazem isso como um ritual. Eu as vi, uma noite. Estavam iniciando uma nova caadora, admitindo uma jovem na sua alcateia. 
Elas fazem segredo disso para as outras mulheres, saem do estabelecimento e vo para um lugar especial. Nessa noite, levavam um lobo numa jaula. Abateram-no, cortaram 
a carne em pedaos, assaram e comeram. Gostam de pensar que esto assimilando, dessa forma, a astcia e a fora do lobo. Seria melhor se apenas observassem como 
os lobos fazem. Aprenderiam mais.
    No era de admirar que ela desprezasse as Mulheres-Lobas e suas habilidades como caadoras  pensou Jondalar, entendendo por que Ayla no gostava delas. Seus 
ritos de iniciao eram uma ameaa para Lobo.
     Voc o ensinou, ento, a ficar escondido at que o chamasse? Aquilo foi um assovio novo, no foi?
     Voc pode aprender comigo a reproduzi-lo. Mas mesmo que Lobo fique escondido... e fica, a maior parte do tempo... eu ainda me preocupo com ele. Tambm com 
Huiin e Racer. Lobos e cavalos so os nicos animais que vi serem mortos pelo bando de Attaroa  disse Ayla, procurando com os olhos os seus animais de estimao.
            Voc aprendeu muito sobre elas, Ayla.
            Tinha de aprender, para poder tirar voc de l. Talvez tenha aprendido at demais.
            Demais? O que quer dizer?
            Quando o achei, pensei unicamente em tir-lo daquele lugar e ir embora com voc o mais depressa possvel. Mas agora acho que no podemos ir.
            Por que no?  disse Jondalar, franzindo a testa.
            No podemos deixar aquelas crianas na terrvel situao em que se encontram. Nem os homens. Precisamos libert-los do Depsito.
    Jondalar ficou preocupado. Conhecia aquele olhar decidido de Ayla.
             perigoso ficar, Ayla, e no apenas para ns. Os cavalos so um alvo fcil. Eles no fogem de gente. E voc no quer ver os dentes de Lobo postos em 
colar em volta do pescoo de Attaroa. Eu tambm gostaria de ajudar aquelas pessoas, vivi no Depsito, e ningum deveria viver em condies to vergonhosas, sobretudo 
crianas, mas o que podemos fazer? Somos s dois.
    Ele queria ajudar os companheiros, mas temia que Attaroa fizesse mal a Ayla, se ficassem. Ele a julgara perdida, e agora que estavam reunidos no queria arriscar 
sua vida. Precisava arranjar um argumento suficientemente forte para convenc-la.
     No estamos sozinhos. Outros tambm querem mudar as coisas. Temos de ajud-los  disse Ayla. Fez uma pausa, para refletir.  Penso que SArmuna est contando 
conosco. Por isso ofereceu sua hospitalidade. Precisamos comparecer ao tal banquete.
     Attaroa j usou veneno antes. Se formos, talvez no haja volta  disse Jondalar.  Ela a odeia, sabia?
     Sim, mas temos de arriscar. Pelas crianas. No comeremos nada, exceto o que eu levar, e no perderemos de vista essa comida. Acha que devemos mudar de acampamento 
ou ficar aqui?  disse Avia  Tenho muito que fazer at amanh.
     No adiantaria mudar, Ayla. Elas nos rastreariam. E  por isso que devemos partir agora  disse Jondalar, segurando-a pelos braos, e olhando-a dentro dos 
olhos com grande concentrao. Talvez assim ela mudasse de opinio. Por fim, soltou-a. Sabia que ela no iria embora que ele teria de ficar para ajud-la. Isso era, 
no fundo, o que ele mesmo desejava fazer, mas tinha de tentar dissuadi-la. Jurara no deixar que nada de mal lhe acontecesse.
     Muito bem. Eu disse queles homens que voc no toleraria que algum fosse tratado daquela maneira. No sei se me acreditaram. Mas vamos precisar que algum 
nos auxilie. Admito que fiquei surpreso quando S'Armuna sugeriu que ficssemos em casa dela.  uma instalao pequena, distante. No tem acomodaes para hspedes. 
Por que voc acha que ela deseja que voltemos?
     Porque interrompeu Attaroa para dizer isso. Aquela Xam no est de acordo com as condies reinantes no acampamento. Voc confia em S'Armuna, Jondalar?
    Ele se concentrou para pensar.
     No sei. Confio mais nela do que em Attaroa, mas isso no  dizer muito. Sabe que S'Armuna conheceu minha me? Ela morou na Nona Caverna quando jovem, e as 
duas foram amigas.
      por isso que fala a lngua to bem. Mas se conheceu sua me, por que no fez nada por voc?
     Tenho pensado nisso. Talvez no quisesse faz-lo. Talvez tenha acontecido alguma coisa entre ela e Marthona. Minha me nunca me falou, que me lembre, de uma 
estranha que tivesse morado com ela na mocidade. Mas tenho esperanas em S'Armuna. Ela tratou minha ferida e no fez isso pelos homens do Depsito. Acho que gostaria 
de fazer mais, e Attaroa no permite.
    Os dois desarrearam Racer e montaram o acampamento, se bem que inquietos. Jondalar acendeu o fogo, e Ayla comeou a preparar uma refeio. Comeou com as pores
que usava, de regra, para duas pessoas. Lembrando-se, porm, de que os homens comiam pouco no Depsito, aumentou a quantidade. Uma vez que Jondalar comeasse a comer, 
descobriria que estava faminto.
    Jondalar se ocupou da fogueira e ficou sentado um pouco junto dela com o pensamento em Ayla. Depois marchou para a mulher.
            Venha c, antes que fique por demais ocupada  disse, tomando-a nos braos.  J cumprimentei um cavalo e um lobo, mas no aquela que  a coisa mais 
importante do mundo para mim.        .
    Ela sorriu com aquele jeito que sempre acendia nele sentimentos de amor e ternura.
            No estou nunca por demais ocupada quando se trata de voc.
    Ele se curvou para beij-la na boca, devagar, no comeo, e depois mais ardentemente. O temor de perd-la, a angstia que sofrera o dominaram.
     Pensava que estava morta, que nunca mais nos veramos.  A voz dele se partiu num soluo de aflio e de alvio, quando a tomou nos braos.  Nada que Attaroa 
me pudesse ter feito seria pior que perder voc.
    Ele a apertava tanto que Ayla mal podia respirar. Mas no queria que ele a soltasse. Jondalar beijou-lhe a boca, o pescoo, e se ps a explorar aquele corpo, 
que lhe era to familiar, com mos de conhecedor.
     Jondalar, estou certa de que Epadoa veio atrs de ns...
    O homem recuou um pouco e prendeu a respirao.
            Voc est certa. Esta no  uma boa hora. Estaramos muito vulnerveis se elas chegassem de repente.  Ele devia ter pensado nisso. Encabulado, procurou 
desculpar-se.  Mas  que... tive medo de no mais nos vermos...  como que um outro Dom da Me estarmos aqui juntos... bem... tive um impulso... o desejo de honr-La.
    Ayla o abraou, querendo que ele soubesse que ela pensava do mesmo modo. Ocorreu-lhe que Jondalar jamais procurara justificar antes porque a desejava. Ela no 
precisava de explicaes. Aquilo era tudo o que podia fazer para no esquecer o perigo em que estavam e para no ceder ao desejo que tinha dele. Mas ao sentir que 
esse desejo crescia dentro dela, reconsiderou, tentativamente, a situao.
            Jondalar...  o tom de voz da mulher lhe chamou a ateno.  Se voc acha realmente... estamos longe de Epadoa, ela vai levar algum tempo para localizar 
a gente... Depois, Lobo nos avisa...
    Jondalar a encarou, comeando a perceber onde ela queria chegar. Ento sorriu, e seus olhos azuis, de atrao irresistvel, se encheram de amor.
            Ayla, minha mulher, minha amada adorvel  disse, j rouco de desejo.
    Fazia muito tempo, e ele estava pronto, mas quis beij-la primeiro, sem pressa, e profundamente. Sentir que os lbios dela se abriam para dar-lhe acesso  sua 
boca ardente despertou nele a lembrana de outros lbios e outras aberturas, midas e quentes, e ele sentiu, por antecipao, o que seu membro faria. Ia ser difcil, 
daquela vez, refrear-se at dar-lhe Prazer.
    Ayla fechara os olhos para pensar apenas na boca de Jondalar na sua na lngua dele que explorava, cautelosa. Sentia aquela trgida presso contra o ventre, e 
sua reao foi to imediata quanto a dele, um desejo veemente que no sabia esperar. Queria-o mais perto dela ainda, dentro dela. Sem tirar os lbios dos dele, removeu 
na cintura o fecho das perneiras de l, depois abaixou-se um pouco para livr-lo das que ele usava.
    Jondalar viu que Ayla tinha dificuldade com os ns que dera nas correias de couro que haviam sido cortadas. Endireitou-se, quebrando o contato entre eles, sorriu 
dentro dos olhos dela, que eram da cor cinza e azul, de uma determinada pedra-de-fogo de alta qualidade, tirou a faca da bainha, e cortou mais uma vez os amarrilhos. 
Tinham de ser trocados, de qualquer maneira. No fazia mal. Ela riu, arriou a roupa de baixo at certo ponto, deu uns poucos passos curtos, assim, desajeitadamente, 
at as peles de dormir, e se deixou cair por cima delas. Jondalar a seguiu. Ela tirou as prprias botas, depois desamarrou as dele.        
    De lado, jacentes, beijaram-se de novo, e Jondalar procurou, debaixo da parka de pele e da tnica, o seio firme e cheio. Sentiu que o mamilo inchava e endurecia 
na palma da sua mo, e abriu as roupas grossas para exporta-lo  vista. Ele se contraiu com o frio, mas Jondalar o ps na boca. A ponta do seio ficou quente e no 
amoleceu. Era demais para Ayla. Sem querer esperar, rolou de costas, puxou-o para cima dela, e abriu-se para receb-lo.
    Com um sentimento de alegria por ver que estava j to pronta quanto ele mesmo, o homem se ps de joelhos entre as suas coxas quentes, e guiou com a mo o membro 
ansioso para o poo profundo. O calor dela e sua umidade o envolveram acariciantes, e ele a penetrou de uma vez at o mago com um gemido surdo de prazer.
    Ayla o sentiu dentro dela, bem fundo. E s pensou nele, na sua quentura, arqueando o corpo para que o homem a enchesse. Sentiu que ele puxava, acariciando-a, 
e depois se enfiava, de novo, at a raiz. Ela gritava de prazer quando seu longo fuste recuava e voltava, na exata posio para esfregar-se no seu pequeno centro 
de prazer, o que produzia choque de excitao atravs do seu corpo.
    Jondalar se excitava tambm rapidamente agora. Por um instante temeu que estivesse indo depressa demais, mas no poderia refrear o clmax nem que quisesse  
e nem sequer tentou. Avanou e recuou como seu desejo mandava, sentindo a receptividade dela nos movimentos que fazia ao encontro dos seus, cada vez mais rpidos, 
agora. E de chofre, sentiu que o Prazer estava s portas.
    Com uma intensidade que ia de par com a sua, ela estava pronta. Murmurou apenas:
     Agora, oh, agora.
    E se empinou ao seu encontro. Esse encorajamento dela era uma surpresa. Ayla nunca fizera aquilo antes  mas o efeito foi imediato e fulminante. Com mais um 
empuxo, veio a exploso. Ela estava apenas a um tempo atrasada dele, e com um grito de extremo deleite alcanou seu clmax logo aps. Mais uns poucos movimentos, 
e os dois se aquietaram.
    Embora tudo tivesse acontecido muito rpido, o momento fora to intenso que a mulher levou algum tempo para descer das alturas daquelas pinculo. Quando Jondalar, 
sentindo que talvez pesasse muito agora em cima dela, rolou para o lado e soltou-se, Ayla teve um inexplicvel sentimento de perda e desejou que pudessem ter ficado 
mais tempo acoplados. Jondalar, de certo modo, a completava, e a conscientizao plena do quanto ela temera por ele e do quanto lhe sentira a falta foi to pungente 
de repente que seus olhos se encheram de lgrimas.
    Jondalar viu uma gota transparente de gua cair do canto do olho de Ayla e escorrer pelo lado do rosto at a orelha. Soergueu-se apoiado num cotovelo e perguntou:
      O que foi, Ayla?
     Eu choro de felicidade de estar com voc  disse ela. E uma outra lgrima subiu e lhe tremeu na borda da plpebra antes de cair.
     Se est feliz, por que chora?  disse ele, embora no precisasse perguntar.
    Ela abanou a cabea, incapaz de falar no momento. Ele sorriu, cnscio de que a mulher partilhava os seus sentimentos de alvio e gratido por estarem reunidos. 
Ele a beijou nos olhos, na face, e, por fim, na formosa boca sorridente.
     Eu a amo tambm  disse-lhe ao ouvido.
    Sentiu que seu membro pulsava de novo e desejou recomear. Mas no era possvel. Epadoa, cedo ou tarde, os encontraria.
     H um curso d'gua aqui perto  disse Ayla.  Preciso lavar-me. Aproveito para encher as bolsas.
     Vou com voc  disse o homem, em parte por querer estar com ela, em parte para proteg-la.
    Apanharam as roupas de baixo, as botas, as bolsas d'gua, e foram at o rio, que era largo, e estava quase congelado. S uma seo flua, no meio. Jondalar estremeceu 
com o choque da gua fria e s se lavou porque ela o fazia. Teria ficado satisfeito em secar-se com o calor das roupas, mas sempre que Ayla podia tomava banho, por 
mais fria que fosse a gua. Era um ritual que sua madrasta do Cl lhe incutira, embora agora ela invocasse a Me com palavras embrulhadas na lngua dos Mamuti.
    Encheram as bolsas d'gua e, no caminho, Ayla recordou a cena que testemunhara antes que os amarrilhos das perneiras dele fossem cortadas da primeira vez.
     Voc recusou fazer amor com Attaroa? Humilhou-a diante do seu povo.
     Eu tambm tenho meu orgulho. Ningum me obrigar a partilhar com quem quer que seja o Dom da Grande Me. E no teria feito diferena. Estou convencido de que 
a inteno dela, desde o princpio, era fazer de mim um alvo para a sua lana. Mas agora  voc que precisa ter cuidado. "Descorts" e "pouco hospitaleira"...  
Jondalar fez um muxoxo e sorriu. Depois, ficou srio.  Ela a odeia, sabe? Ela nos matar se tiver oportunidade.

30
___________________________________________________________________________

    Ao se instalarem para a noite, Ayla e Jondalar ficaram atentos a todo e qualquer rudo. Os cavalos foram amarrados perto, e Ayla manteve Lobo junto da cama, 
ciente de que ele a avisaria de tudo que percebesse de anormal. Mesmo assim, dormiu pouco e mal. Seus sonhos continham ameaas, mas foram amorfos e desorganizados, 
sem mensagens ou avisos que pudesse identificar, exceto que Lobo aparecia neles com frequncia.
    Ela acordou logo que o dia rompeu por cima da galhada desnuda dos salgueiros-chores e das btulas,  beira do riacho. Ainda estava escuro no resto da estreita 
ravina em que se achavam, mas, firmando a vista, Ayla comeou a distinguir o espruce, com suas agulhas curtas, e os pinheiros, de agulhas mais compridas, na luz 
que se intensificava. Uma neve seca cara durante a noite e cobrira de branco os sempre-verdes, o mato fechado, a relva e, at, as peles de dormir. Mas Ayla se sentia 
bem, no aconchego quente da cama.
    Tinha quase esquecido como era bom ter Jondalar dormindo a seu lado. E se deixou ficar por um momento quieta, gozando apenas a proximidade dele. Preocupava-se 
com o dia que tinha pela frente e com o que  ia preparar para o festim. Resolveu, por fim, levantar-se, mas quando quis sair das peles sentiu que o brao de Jondalar 
a enlaava, para impedir que se fosse.
            Tem mesmo de ir? Faz tanto tempo que no durmo com voc do lado...  disse Jondalar, afagando-lhe a nuca.
    Ela se acomodou.
     No quero sair da cama, est frio, desejaria ficar com voc, mas preciso cozinhar alguma coisa para o banquete de Attaroa e fazer a nossa refeio da manh. 
No est com fome?
     Agora que voc fala nisso, acho que seria capaz de comer um cavalo  disse Jondalar, lanando um olhar guloso para os dois equinos.
            Jondalar!  disse Ayla, como se estivesse chocada.
     No um dos nossos,  claro, mas  o que tenho comido ultimamente: carne de cavalo. E quando me davam! Eu no imaginava que comeria isso, mas quando no se 
tem outra coisa... No  ruim, alis.
     Eu sei, mas aqui voc no vai ter de comer isso. Temos muita coisa.
    Aconchegaram-se um pouco mais, depois Ayla pulou fora da cama.
            O fogo apagou. Se voc acender outro, fao ch. Depois precisamos de uma boa fogueira, para preparar nossa comida.
    Para a refeio da noite anterior, Ayla preparara uma sopa substanciosa,  base de carne-seca de bisonte, tubrculos e pinhes apanhados na vizinhana. Mas Jondalar 
descobriu com pena que no conseguia comer tanto quanto desejara. Terminado o jantar, Ayla havia comeado a fazer uma espcie de gelia de ma. Tinha colhido mas 
pequenas, pouco maiores que cerejas, que encontrara quando andava na pista de Jondalar. Estavam congeladas nos ramos sem folhas das rvores na encosta sul de uma 
colina. Ayla cortou as mas ao meio, tirou-lhes as sementes e botou-as para ferver em gua juntamente com bagas secas de roseira brava. Pusera o preparado junto 
do fogo. De manh, esfriara e engrossara, devido  pectina natural, numa calda com consistncia de gelia em que havia pedacinhos incrustados de casca de ma.
    Agora, antes de fazer o ch. Ayla ps um pouco d'gua na sopa que jurara da vspera e aqueceu-a tambm para reforar a refeio da manh. Provando a compota, 
verificou que o congelamento diminura a acides das frutas e as bagas de roseira lhe tinham dado um belo tom avermelhado e um gosto especial, picante e adocicado 
ao mesmo tempo. Serviu a gelia numa tigela ao mesmo tempo que a sopa.
     Esta  a melhor comida que j provei na vida!  disse Jondalar.  Que temperos voc usou?
     O principal tempero  a fome  disse Ayla, sorrindo.
    Jondalar concordou e, de boca cheia, disse:
     Acho que est certa. Fico com pena daqueles pobres coitados, no Depsito.
     No se pode deixar que algum passe fome quando h o que comer disse Ayla. Sua indignao fervia outra vez.   diferente, se todos passam fome.
     Isso acontece, no fim de um inverno muito intenso  disse Jondalar.  Voc j passou fome?
     Eu no comia sempre todas as refeies, regularmente; e meus pratos favoritos acabavam antes que chegasse a minha vez. Mas se a gente procura, sempre encontra 
o que comer  se tem a liberdade de procurar!
     Conheo gente que passou fome por ter acabado a comida e no saber onde achar mais. Voc, porm, sempre acha alguma coisa, Ayla. Como explica isso?
     Iza me ensinou. Fui sempre interessada em comida e plantas  disse Ayla, e fez uma pausa.  Acho que houve um tempo em que eu quase passei fome. Antes que 
Iza me encontrasse. Eu era menina e no me lembro muito bem.  Um sorriso iluminava-lhe o rosto, com as reminiscncias. Iza dizia que no conhecera nunca uma pessoa 
que tivesse aprendido to depressa quanto eu a achar alimentos, o que era extraordinrio, pois eu no nascera com a memria de onde procurar ou o qu. Ela me disse
que a fome me ensinara.
    Jondalar devorou o primeiro prato e repetiu. Depois ficou olhando enquanto Ayla revistava suas reservas de mantimentos e comeava a preparar a iguaria que pretendia 
levar para o almoo de Attaroa. Que vasilha usar? Cumpria fazer uma grande quantidade de comida, para todo o Acampamento S'Armunai, e eles tinham trazido apenas 
artigos de primeira necessidade.
    Esvaziou uma grande bolsa d'gua, a maior de que dispunham, dividindo o lquido por diversas tigelas. Depois separou o forro da pele. Os dois tinham sido costurados 
juntos, com o plo do animal para fora. O forro era um estmago de auroque, no exatamente  prova d'gua, mas deixava a gua passar muito devagar. A umidade que 
porejava era absorvida pelo couro macio do invlucro e pelos plos, de modo que a parte externa da bolsa ficava sempre seca. Ayla cortou o topo do forro, atou-o 
a uma armao feita com tendes finos da sua cesta de costura, e encheu o de gua outra vez, esperando at que uma nvoa de umidade tivesse passado para o lado de 
fora.
    quela altura, o fogo, que fora aceso bem cedo, j estava reduzido a brasas, e Ayla ps a bolsa cheia diretamente em cima delas, certificando-se de que tinha 
mais gua  mo para que a panela de pele estivesse sempre cheia. Enquanto esperava pela fervura, comeou a tecer urna cesta com galhos de salgueiro e capins amarelos, 
que a umidade da neve tornara flexveis.
    Quando as bolhas apareceram, ela quebrou dentro da gua tiras de carne-seca magra e algumas barras do alimento agrumado de viagem Obteve assim um caldo grosso. 
Misturou nele uma diversidade de gros. Pretendia ainda juntar-lhe razes e tubrculos secos  a cenoura, por exemplo, ou a chufa  mais leguminosas como a vagem, 
groselhas e vacnios. Temperou tudo com ervas aromticas do seu estoque: unha-de-cavalo, azeda, basilico e rainha-dos-prados, mais um pouco de sal, que guardava 
desde a Reunio de Vero dos Mamuti, que Jondalar nem sabia que ela ainda tinha.
    Ele no queria afastar-se muito e ficara por perto, apanhando madeira e gua, colhendo capins, cortando juncos e ramos de salgueiro para o tranado que ela fazia. 
Estava to feliz com a companhia dela que no queria perd-la de vista. Ela tambm se regozijava vendo-o de volta. Mas quando o homem percebeu a quantidade de alimentos 
que ela estava tirando dos suprimentos de viagem alarmou-se. Passara fome havia pouco e estava muito consciente do problema.
     Ayla, voc est botando nessa vasilha grande parte das nossas reservas de alimentos. O que tirou no vai fazer falta?
     Quero ter bastante para as mulheres e os homens do Depsito. Quero mostrar-lhes o que podem ter se trabalharem todos juntos  explicou Ayla.
     Talvez eu deva ir atrs de carne fresca  disse Jondalar, com uma expresso preocupada.
    Ela o olhou, admirada com a reao dele. De longe, a maior parte do que tinham comido durante a viagem fora colhida in loco, e se usavam os suprimentos era mais 
por gosto ou convenincia que por necessidade. Alm disso, tinham outras reservas na margem do rio, com o resto dos seus pertences. Notou que Jondalar emagrecera 
e comeou a compreender o motivo daquela angstia, to pouco caracterstica nele.
            Pode ser uma boa ideia. E talvez deva levar Lobo. Ele  bom para levantar caa e lhe dar aviso se algum se aproximar. Tenho certe de que Epadoa e 
as Mulheres-Lobas de Attaroa esto procurando por ns.
            Mas se eu levo Lobo, quem avisar voc?
     Huiin. Ela sentir a presena de estranhos. Mas eu gostaria de sair deste lugar logo que a comida esteja pronta e ir diretamente para estabelecimento de Attaroa.
     Quanto tempo ainda isso vai levar?  perguntou ele, de cenho franzido, sopesando as alternativas.
     No muito, espero. No estou acostumada a fazer tanta quantidade de uma vez s, de modo que no posso saber com certeza.
     Talvez eu deva esperar, ento, e caar depois.
     Como quiser, mas se fica eu gostaria de mais lenha.
     Vou procurar lenha. E tambm empacotar tudo o que voc no esta usando. Assim, estaremos prontos para partir.
    Levou mais tempo do que Ayla imaginara. Quando a manh ia em meio, Jondalar saiu com Lobo para reconhecer a rea. Mais para ter certeza de que Epadoa no andava 
por perto do que para procurar alguma caa. Ficou surpreso com a pronta disposio do lobo em acompanh-lo... depois que Ayla assim determinou. Sempre considerara 
o animal como propriedade dela e nunca pensara em lev-lo consigo em suas expedies. O animal revelou-se excelente companhia, e logo pegou um coelho. Jondalar deixou 
que ele ficasse com a presa.
    Quando regressaram, Ayla serviu uma grande poro da deliciosa mistura que preparara para os S'Armunai. Costumavam comer apenas duas vezes por dia. Mas logo 
que Jondalar vira a vasilha cheia de comida descobrira que estava com fome. Ayla provou um pouco e deu um bocado a Lobo.
    Passava de meio-dia quando ficaram prontos para partir. Enquanto a comida cozinhava, Ayla completara dois cestos alguidariformes, ambos de bom tamanho, mas um 
maior que o outro. Encheu os dois com a apetitosa preparao que fizera, e acrescentou ainda alguns pinhes, um tanto oleosos. Achava que com sua dieta habitual 
de carnes magras, as gorduras e leos fariam sucesso entre o povo do Acampamento. Sabia tambm, sem entender muito bem por que, que era disso que eles precisavam 
mais, principalmente no inverno, para calor e energia. Sabia que todos ficariam satisfeitos e de barriga cheia.
    Ayla cobriu as cestas cheias com outras, rasas, gameliformes,  guisa de tampas, e colocou-as na garupa de Huiin, amarrando-as com um artilho grosseiro, feito 
s pressas, de ramos de salgueiro e capim torcido. Ia ser usado s uma vez e jogado fora. Em seguida, dirigiram-se ao acampamento, mas por outra via. No caminho 
foram combinando o que fazer com os animais uma vez nos domnios de Attaroa.
     Podemos esconder os cavalos na mata, junto do rio, amarrando-os a uma rvore, e indo a p o resto do caminho  props Jondalar.
     No quero amarr-los. Se as caadoras de Attaroa os acharem, ser fcil mat-los. Ao passo que se estiverem em liberdade tero pelo menos uma chance de fugir. 
Voltaro quando assoviarmos, chamando-os. Prefiro que fiquem debaixo de nossos olhos, e perto, para virem quando for o caso.
     Ento, o campo coberto de capim seco das imediaes do acampamento me parece o lugar ideal. Ficaro l sem serem amarrados. Sempre ficam se podem pastar um 
pouco  disse Jondalar.  Causar uma grande impresso em Attaroa e nos S'Armunai se chegarmos montados ao acampamento. Se os S'Armunai forem como os demais que 
encontramos pelo caminho, tero um certo medo de gente capaz de dar ordens a cavalos. Pensaro que isso tem algo a ver com espritos, poderes mgicos, ou coisa da 
mesma espcie. E se tiverem medo de ns, temos uma vantagem inicial. Como somos s dois, precisamos de toda vantagem que pudermos conseguir.
      verdade  disse Ayla. Estava preocupada com a segurana deles dois e dos cavalos. Tambm no gostava de aproveitar-se dos receios infundados, supersticiosos, 
dos S'Armunai. Era como se ela estivesse mentindo. Mas suas vidas estavam em perigo, e tambm as vidas dos meninos e homens presos no Depsito.
    Era um momento difcil para Ayla, obrigada a escolher entre dois males. Mas, afinal, fora ela quem insistira na permanncia deles, mesmo com risco de vida. Tinha 
de superar sua compulso de ser, sempre, absolutamente veraz, e escolher o mal menor, em suma, de adaptar-se, se queriam salvar os meninos, os homens e eles mesmos 
da sanha de Attaroa.
            Ayla  disse Jondalar. E vendo que ela no dava mostras de ter ouvido, repetiu:  Ayla!
            Hein? Sim...
            E Lobo? Se no for conosco, onde escond-lo?  tudo campo aberto em volta do estabelecimento de Attaroa.
    Ela pensou um pouco e respondeu.
            Ele pode ficar onde eu ficava para observ-lo, Jondalar, no topo da colina. Existem rvores por l, um arroio, e alguma vegetao rasteira. As mulheres 
de Attaroa sabem da existncia dos nossos cavalos mas no sabem nada sobre o lobo. Considerando o que fazem com esses bichos, no podemos facilitar. Vou dizer-lhe 
que fique escondido. Acho que me obedecer, se me vir de vez em quando.
    Ayla pensou mais um momento.
            Vou lev-lo agora. Voc espera aqui por mim, com os cavalos. Depois fazemos uma volta e apareceremos no Acampamento vindo de outra direo.
    Ningum os viu sair da orla da mata e entrar no campo. Os primeiros que deram com eles  um homem e uma mulher, cada um num cavalo, galopando rumo ao acampamento 
 pensaram que tinham, simplesmente, aparecido. Quando alcanaram a casa de Attaroa, todos os que podiam estavam l,  espera. At os homens do Depsito pareciam 
apinhados atrs das frestas, olhando.
    Attaroa estava de mos nas cadeiras e pernas abertas, na sua atitude habitual de comando. Jamais o admitiria, mas estava chocada e ansiosa vendo-os chegar, e 
dessa vez em cavalos separados. Nas poucas ocasies em que algum lhe escapara, fugira to depressa quanto era possvel. Ningum retornara jamais por vontade prpria. 
Que poderes teriam aqueles dois, que se sentiam, assim, to confiantes? Com seu medo latente de represlias por parte da Grande Me e do mundo dos espritos, Attaroa 
procurava perceber o significado da reapario daquela mulher enigmtica e do alto e belo Zelandonii. Mas nada disso lhe transpareceu nas palavras.
     Decidiram voltar, ento!  disse, ordenando a S'Armuna com um olhar que traduzisse.
    Jondalar achou que a Xam ficara igualmente surpresa, mas sentiu nela tambm um certo alvio. Antes de traduzir para Attaroa, S'Armuna se dirigiu a eles diretamente.
     No importa o que ela lhe diga. Aconselho-o a no se hospedar aqui, filho de Marthona. Minha prpria casa continua  disposio de vocs dois. Em seguida, 
repetiu o que a lder dissera.
    Attaroa achou que ela usara mais palavras do que lhe pareciam necessrias para traduzir o pouco que dissera. Mas desconhecendo a lngua, no podia ter certeza.
            Por que voltamos, Attaroa? Pois no fomos convidados para um banquete em nossa honra?  disse Ayla.  Trouxemos uma pequena contribuio em alimentos.
    Enquanto essas palavras eram vertidas para o S'Armunai, Ayla desmontou, tirou da garupa de Huiin a maior das duas cestas e depositou-a no cho, entre Attaroa 
e S'Armuna. Quando destampou a vasilha, o delicioso aroma das ervas e gros que usara como tempero fez com que os presentes arregalassem os olhos. Aquilo era um 
regalo como raras vezes tinham visto nos ltimos anos, principalmente no inverno. Ficaram todos de gua na boca, e at Attaroa perdeu momentaneamente a fala. Passado 
o espanto, disse:
            Parece suficiente para todos.
            Isso  s para as mulheres e crianas  disse Ayla. Depois apanhou a cesta menor, das duas que havia tecido, e que Jondalar acabava de entregar-lhe, 
e deixou-a ao lado da primeira. Levantando a tampa, anunciou:
            Esta poro  para os homens.
    Um murmrio correu atrs da paliada e entre as mulheres que tinham acorrido das casas. Attaroa, porm, ficou furiosa.
            O que quer dizer com isso? Para os homens?
     Certamente quando a lder de um Acampamento anuncia um festim em honra de um visitante inclui todo o povo. Ou no  assim? Assumi que voc era a lder do conjunto 
do Acampamento e que eu deveria trazer comida suficiente para todos. Voc  a lder de todos, certo?
     Claro que sou a lder de todos  disse Attaroa, com dificuldade para achar as palavras.
            Se no est pronta, ainda, seria melhor levarmos isto para dentro a fim de que no congele  disse Ayla, apanhando a vasilha maior e virando-se para 
S'Armuna. Jondalar apanhou a outra.
    Attaroa logo se recomps.
     Convidei-os para ficar na minha casa  disse.
     Imagino que esteja ocupada com os preparativos  disse Ayla , e eu no gostaria de ser um estorvo para a lder deste Acampamento. Ser mais apropriado que 
nos hospedemos com Aquela que Serve  Me.
    S'Armuna traduziu e acrescentou:
             como sempre se faz.
    Ayla voltou-se para sair, dizendo baixinho a Jondalar:
            Comece a andar para a casa de S'Armuna.
    Attaroa os acompanhou com os olhos. Um sorriso malvolo alterou-lhe as feies, mudando um rosto que podia ser belo numa grotesca caricatura. Haviam sido estpidos 
de voltar, sabendo que isso lhe dava a oportunidade que desejava para destru-los. Mas era preciso apanh-los distrados. Fora bom, ento, que tivessem ido com S'Armuna. 
Saam do caminho. Precisava de tempo para discutir planos com Epadoa, que no voltara ainda.
    Por outro lado, tinha de fazer a festa. Chamou uma das mulheres a que parira uma menina e era sua favorita, mandando que dissesse s outras para prepararem alguma 
coisa para um grande almoo.
            Que faam bastante para todos  disse , inclusive para os homens do Depsito.
    A mulher pareceu surpresa, mas saiu correndo para cumprir as instrues.
     Imagino que possamos agora tomar ch  disse S'Armuna, depois de mostrar a Ayla e Jondalar onde deveriam dormir. Esperava que Attaroa entrasse como um p de 
vento a qualquer minuto. Mas, depois que serviu o ch e nada aconteceu, ficou mais tranquila. Quanto mais tempo Ayla e Jondalar ficassem l sem objees por parte 
de Attaroa, mais chance havia de que ela lhes permitisse permanecer.
    Mas quando a tenso passou, um silncio inconfortvel caiu sobre os trs. Ayla estudava a mulher que Servia  Me sem ser indiscreta. O rosto dela era mais proeminente 
do lado esquerdo do que do direito. Concluiu que S'Armuna devia ter alguma dor no lado menos desenvolvido do rosto ao mastigar. A mulher no fazia nada para esconder 
a anormalidade. E usava o cabelo castanho-claro, que comeava a ficar grisalho, puxado para trs e para cima com simples dignidade, e preso num coque macio no alto 
da cabea. Por algum motivo inexplicvel, Ayla se sentia atrada pela Xam.
    Sentia nela, entretanto, uma certa hesitao. Era como se S'Armuna estivesse dividida e indecisa. Ela ficava olhando para Jondalar como se quisesse dizer-lhe 
algo, mas como se fosse difcil comear, como se procurasse um jeito de abordar assunto delicado.
    Movida pelo instinto, Ayla tomou a palavra.
            Jondalar me contou que voc conheceu Marthona, S'Armuna  disse ela.  Eu me perguntava onde teria aprendido a falar to bem a lngua dele.
    A mulher olhou para ela com espanto. A lngua dele pensou, no dela? Ayla sentiu a nova e repentina avaliao dela pela Xam, mas a resposta foi no mesmo tom, 
vigoroso.
            Sim, conheci Marthona, e tambm o homem com quem ela casou.  Parecia querer dizer mais alguma coisa, mas, ao invs, se calou.
    Jondalar preencheu o vazio, aflito para falar dos seus, sobretudo com algum que os conhecera.
     Joconan era o lder da Nona Caverna quando voc estava l?  perguntou.
     No, mas no me admira que ele tenha chegado ao posto.
     Dizem que Marthona era quase uma co-Lder. Como as dos Mamuti, suponho eu. Foi por isso que, morto Joconan...
     Joconan morreu?  perguntou S'Armuna. Ayla percebeu que a notcia fora um choque para ela e notou uma expresso no seu rosto que era quase de dor. Depois a 
Xam recobrou o autodomnio.
            Deve ter sido um perodo difcil para sua me.
            Sim, certamente. Mas no penso que ela tenha tido muito tempo para pensar nisso ou para chor-lo. Todos a pressionavam para assumir a liderana. No 
sei quando ela conheceu Dalanar, mas quando comeou a viver com ele j era lder da Nona Caverna havia vrios anos. Zelandoni me disse que ela j fora abenoada 
com a promessa do meu nascimento antes de casar, de modo que o casamento deve ter sido feliz. No entanto, eles desmancharam o lao quando eu tinha dois anos, e Dalanar 
foi em bora. No sei o que aconteceu, e histrias e cantigas sobre o amor dos dois ainda so correntes entre ns. Minha me fica desconcertada com elas.
    Ayla fez com que continuasse. Queria saber mais. O interesse de S'Armuna no era menor.
            Ela casou mais uma vez, no foi? E teve mais filhos? Sei que voc tinha outro irmo.
    Jondalar retomou o fio da narrativa, dirigindo-se agora a S'Armuna:
            Meu irmo Thonolan nasceu ao tempo de Willomar, bem como Folara, minha irm. Acho que foi um bom casamento para ela. Marthona est feliz com Willomar 
e ele foi sempre muito bom para mim. Viajava muito em misses de negcios para minha me. s vezes, me levava. E a Thonolan tambm, quando ele ficou maior um pouco. 
Por muito tempo considerei Willomar um segundo pai, at que fui morar com Dalanar e fiquei conhecendo Dalanar um pouco melhor. Ainda me sinto mais ligado a Willomar, 
embora Dalanar tambm tenha sido sempre gentil comigo e eu tenha aprendido a gostar dele tambm. Ele encontrou uma rica pedreira, casou com Jerika e fundou sua prpria 
Caverna. Tiveram uma filha, Joplaya, que  minha prima.
    Ocorreu a Ayla que se um homem era to responsvel quanto uma mulher pelo fato de uma vida comear dentro dela, ento a "prima" a quem ele chamava Joplaya era, 
na verdade, sua irm. To irm quanto a outra, Folara. Ele a chamara de prima. Ser que consideravam o parentesco mais prximo que a relao com os filhos das irms 
da me ou com mulheres dos irmos dela? Ela se deu conta, porm, de que a conversa sobre a me de Jondalar continuara enquanto ponderava essas outras aplicaes.
     ...ento minha me passou a liderana para Joharran, se bem que ele insistisse na permanncia dela como uma espcie de conselheira dizia Jondalar.  Como conheceu 
minha me?
    S'Armuna hesitou uma frao de segundo, de olhar perdido no espao como se estivesse vendo um quadro do passado. Depois, lentamente, comeou a falar.
            Eu era pouco mais que uma menina quando fui levada para l O irmo de minha me era lder aqui, e eu era sua predileta, a nica filha mulher nascida 
de suas duas irms. Ele fez uma Jornada quando jovem. Ouvira falar da renomada zelandonia. Quando acharam que eu tinha algum talento ou dom para Servir  Me, quis 
que eu fosse educada pelos melhores. Levou-me ento para a Nona Caverna, porque a Zelandoni de vocs era a Primeira entre todas as que Serviam  Me.
     Parece que essa  uma tradio da Nona Caverna. Quando sal nossa atual Zelandoni vinha de ser escolhida como Primeira  comentou Jondalar.
     Voc sabe o nome primitivo daquela que  Primeira hoje?  perguntou S'Armuna, muito interessada.
    Jondalar deu um sorriso e Ayla achou que sabia o motivo.
            Eu a conheci como Zolena.
            Zolena? Muito jovem para ser Primeira, no acha? Zolena era apenas uma menininha quando morei l.
            Jovem, sim, talvez. Mas dedicada  disse Jondalar.
    S'Armuna assentiu, com um nuto. Depois retomou o fio da sua histria.
     Marthona e eu tnhamos aproximadamente a mesma idade, e o lar de sua me gozava de grande status. Meu tio e sua av, Jondalar, combinaram que eu fosse morar 
com ela. E ele ficou apenas o tempo bastante para me ver instalada.  Os olhos de S'Armuna estavam de novo perdidos na distncia. Depois, sorriu.
     Marthona e eu ramos como irms. Mais prximas at, corno gmeas. Ela at resolveu estudar para Zelandoni ao mesmo tempo que eu.
     Eu no sabia disso  disse Jondalar.  Talvez ela tenha adquirido nessa poca suas qualidades de liderana.
     Talvez. Mas nenhuma de ns pensava em liderar nada, naquele tempo. ramos inseparveis, gostvamos das mesmas coisas... at que isso tornou-se um problema.
     S'Armuna se calou.
     Problema?  encorajou Ayla.  Houve problema pelo fato de sentir-se to prxima de uma amiga?  Estava pensando em Deegie e de como fora maravilhoso ter uma 
amiga ntima, mesmo por pouco tempo. Teria gostado muito de ter uma pessoa assim quando adolescente. Uba fora como uma irm para ela, mas por mais que a tivesse 
amado, Uba era Cl. No importava como se sentisse, havia sempre coisas que uma podia nunca entender na outra, como a curiosidade inata de Ayla ou as lembranas 
de Uba.
     Sim  disse S'Armuna, encarando a outra e notando, de repente, outra vez, o seu sotaque to peculiar.
     O problema foi que nos apaixonamos pelo mesmo homem! Acho que Joconan deve ter amado ns duas. Uma vez ele falou de casar com ambas. Eu e Marthona concordamos, 
mas quela altura a velha Zelandoni havia morrido, e quando Joconan foi pedir conselho  nova, ela lhe disse que escolhesse Marthona. Achei que isso se deveu ao 
fato de ser Marthona to bonita. De no ter o rosto torto. Hoje penso que talvez meu tio lhes tivesse dito que me queria aqui de volta. No fiquei para o Matrimnio 
deles, estava muito amarga, e furiosa tambm. Parti logo que eles me comunicaram que iam casar.
            Veio sozinha? Atravs da geleira? Sozinha?  perguntou Jondalar.
            Sim  disse a Xam.
     Pois no so muitas as mulheres capazes de fazer uma Jornada assim, principalmente sozinhas. Os perigos so muitos. Voc demonstrou grande bravura  disse 
Jondalar.
     Sim. Havia perigos. Quase ca numa grande fenda. Mas no acho que o tivesse feito por bravura. Acho que minha ira me sustentou. Quando cheguei, no entanto, 
tudo mudara. Eu estivera ausente muitos anos. Minha tia e minha me tinham ido para o norte, onde h uma numerosa colnia S'Armunai. Com elas foram primos e irmos. 
Meu tio estava morto, e um estranho era o chefe. Ele se chamava Brugar. No sei exatamente de onde provinha. Pareceu-me encantador, de comeo. No era bem-apessoado, 
mas tinha encanto, de natureza um tanto rstica, digamos. Mas era tambm cruel e mrbido.
            Brugar... Brugar...  repetiu Jondalar, fechando os olhos e procurando lembrar onde ouvira o nome.  No era Brugar o homem de Attaroa?
    S'Armuna se ps de p, muito agitada.
            Algum deseja mais ch?
    Ayla e Jondalar aceitaram. Ela lhes trouxe novas xcaras da mesma tisana, depois foi apanhar a sua. Mas antes de sentar-se, disse:
      a primeira vez que conto essa histria.
     E por que o faz?  perguntou Ayla.
     Para que vocs compreendam a situao.
    E, voltando-se para Jondalar, retomou o fio da narrativa.
            Sim, Brugar era o companheiro de Attaroa. Parece que ele comeou a fazer mudanas por aqui logo que assumiu. Comeou a fazer os homens mais importantes 
que as mulheres. De incio, eram coisas pequenas. As mulheres deviam ficar sentadas e esperar que lhes dessem licena de falar. Mulheres no podiam tocar em armas. 
No pareceu to grave, no primeiro momento, e os homens puderam, tranquilamente, gozar do poder. Mas depois que a primeira mulher foi espancada at a morte como 
castigo por ter dito abertamente o que pensava, as outras viram que a situao era grave. Mas a j no se sabia como aquilo tudo acontecera nem como fazer para 
voltar atrs e restabelecer a moda antiga. Brugar despertava nos homens o que havia neles de pior. Andava com um bando de fiis seguidores. E os demais tinham medo 
cie discordar.
     De onde tirou essas ideias?  disse Jondalar.
    Com uma inspirao repentina, Ayla perguntou:
     Que aspecto tinha esse Brugar?
     Traos fortes, tosco de maneiras, mas cativante quando queria.
     H muita gente do Cl, cabeas-chatas, por aqui?  perguntou Ayla.
     Havia, naquele tempo. No mais. Eles so mais numerosos para oeste daqui. Por qu?
     Os S'Armunai se do bem com essa gente? Com os de espritos misturados, principalmente?
     Bem, eles no so considerados uma abominao entre ns, como so entre os Zelandonii. Alguns dos nossos tm mulheres do Cl. Os filhos desses casais so tolerados, 
mas no so, a rigor, bem aceitos, aqui ou l. Tanto quanto eu saiba.
     Voc acredita que Brugar possa ter sido produto de uma dessas misturas de espritos?
            Por que me faz todas essas perguntas?
     Porque acho que ele deve ter vivido com esses que vocs chamam cabeas-chatas. Talvez tenha sido criado por eles  respondeu Ayla.
     Por que acha isso?
     Porque as coisas que voc descreve so habituais no Cl.
     Cl?
             como os prprios cabeas-chatas se denominam  explicou Ayla, e se ps a especular:  Mas se ele se expressava bem e tinha algum encanto,  que no 
viveu com eles sempre. Talvez no tenha nascido l, e tenha ido morar com os cabeas-chatas mais tarde. Sendo mestio, no o tolerariam. Talvez, at, considerassem 
ele uma aberrao. O que  irnico. Duvido que tenha podido entend-los, de modo que deve ter sido marginalizado por eles. Sua vida foi, provavelmente, miservel.
    S'Armuna ficou surpresa. Como  que Ayla, uma estranha, podia saber tanto?
            Para algum que no conheceu Brugar, voc sabe muita coisa dele.
     Ento, ele era mesmo fruto de espritos misturados?  disse Jondalar.
     Era. Attaroa me falou da histria dele, o que sabia a respeito, pelo menos. Aparentemente, a me de Brugar era mestia: meio humana, meio cabea-chata. A me 
dela era cabea-chata dos quatro costados  comeou S'Armuna.
    Produto de algum estupro dos Outros  pensou Ayla. Corno a pequena da Reunio do Cl, que ficou noiva de Durc.
            Sua infncia deve ter sido desgraada. Ela deixou seu povo logo que se tornou mulher, com um homem de uma Caverna do povo que habitava para oeste daqui.
     Os Losadunai?  perguntou Jondalar.
     Sim. Acho que  como se chamam. Seja como for, no muito tempo depois de partir ela teve um menino, esse Brugar  continuou S'Armuna.
     Sim, Brugar. As vezes chamado Brug?  interrompeu Ayla.
     Como sabe disso?
     Brug pode ter sido seu nome como membro do Cl.
     Acho que o homem com quem a me dele fugiu batia nela. Quem poder dizer por qu? Alguns homens gostam de espancar mulheres.
     As mulheres do Cl aprendem desde cedo a aceitar isso  disse Ayla.  No se permite que os homens briguem uns com os outros, mas podem bater numa mulher ou 
repreend-la. No devem espanc-las, mas alguns o fazem.
    S'Armuna assentiu de cabea, vigorosamente. Podia entender aquilo.
     Assim, pode ser que, no princpio, a me de Brugar tivesse aceitado que o homem com quem passara a viver lhe batesse. Mas a brutalidade deve ter aumentado. 
Isso  comum com homens desse tipo. Ele passou a bater no menino tambm. Talvez isso a tenha levado a ir embora. Seja como for, ela fugiu um dia, com o filho. De 
volta para o seu povo  disse S'Armuna.
     E se foi difcil para ela criar-se com o Cl, deve ter sido ainda mais difcil para o menino, que no era, sequer, um mestio de verdade  disse Ayla.
     Se os espritos se misturaram como esperado, ele seria trs quartas partes humano e s uma parte cabea-chata  disse S'Armuna.
    Ayla pensou, de sbito, no seu prprio filho, Dure. Broud certamente faria a vida dele miservel. E se ele acabar como Brugar? Mas Dure  um mestio, e tem Uba 
que o ama, e Brun para educ-lo. Brun o aceitou no Cl quando era lder e Dure, um beb. Ele cuidar para que Dure aprenda as normas do Cl. Sei que ele pode inclusive 
aprender a falar, se algum se dispuser a ensin-lo, mas ele pode tambm ter as memrias. Se tiver, ser Cl inteiramente, com o auxlio de Brun.
    S'Armuna teve uma sbita inspirao sobre aquela jovem mulher misteriosa.
            Como  que sabe tanto sobre cabeas-chatas, Ayla?  perguntou.
    A pergunta apanhou Ayla de surpresa. Ela estava com a guarda aberta. Se se tratasse de Attaroa, estaria prevenida. Mas no queria desconversar nem mentir. Disse 
a verdade, pura e simples.
            Eles me criaram. Meu povo morreu num terremoto, e os cabeas-chatas me adotaram.
            Sua infncia deve ter sido, ento, mais difcil ainda que a de Brugar  disse S'Armuna.
     No. Acho que, de certo modo, foi mais fcil. Eu no era considerada uma filha deformada do Cl. Era diferente, s isso. Uma dos Outros... que  como eles 
nos chamam. No esperavam grandes coisas de mim. No sabiam o que pensar diante de certas estranhezas minhas. Muitos me achavam burra. Eu era lenta porque tinha 
dificuldade em me lembrar das coisas. No digo que tenha sido fcil crescer no meio deles. Tinha de viver segundo as suas normas, aprender as tradies do grupo. 
Era difcil para mim entrosar-me, mas tive sorte. Iza e Creb, os dois que me criaram, tinham amor por mim. No fossem eles, e eu no teria sobrevivido.
    Quase todas as coisas que ela dizia acendiam questes na mente de S'Armuna, mas a oportunidade no era ideal para esclarecer tudo aquilo.
             bom que haja uma certa mistura em voc  disse, lanando um olhar significativo para Jondalar , principalmente por ter de travar conhecimento com 
os Zelandonii.
    Ayla interceptou o olhar, mas no sabia o que a mulher queria dizer. Lembrava-se da primeira reao de Jondalar ao descobrir quem a criara, e fora ainda pior 
quando ele ficou sabendo da existncia de um filho de espritos misturados.
            Como sabe que ela no os conhece ainda?  perguntou Jondalar.
    S'Armuna fez uma pausa para considerar a pergunta. Como sabia? Sorriu para o homem.
            Voc disse que ia "para casa". E ela disse "a lngua dele". E, de chofre, um pensamento lhe veio, uma revelao.  A lngua! O sotaque! Agora sei onde 
o ouvi antes. Brugar tinha um sotaque assim! No to acentuado quanto o seu, Ayla, embora ele no falasse to bem a prpria lngua como voc fala a de Jondalar. 
Mas ele deve ter adquirido essa maneira de falar... esse maneirismo... porque no se trata, exatamente, de um sotaque... quando morou com os cabeas-chatas. H algo 
caracterstico no som da sua fala, e agora que o identifiquei, no creio que v esquec-lo jamais.
    Ayla se sentiu embaraada. Fizera tamanho esforo para falar corretamente mas nunca fora capaz de produzir com perfeio determinados sons. De maneira geral, 
no se importava quando as pessoas mencionavam isso, mas S'Armuna estava dando importncia excessiva  questo.
    A Xam notou a confuso da outra.
     Desculpe, Ayla, no queria deix-la contrafeita. Voc, na verdade, fala Zelandonii admiravelmente bem, melhor do que eu at, uma vez que j esqueci muito do 
que sabia. E no  bem um sotaque que voc tem.  outra coisa. Estou certa de que muita gente nem se aperceber disso. Mas  que voc me deu uma tal inspirao sobre 
Brugar que isso me ajuda a compreender Attaroa.
     Compreender Attaroa?  disse Jondalar.  Quisera eu compreender como algum pode ser to cruel!
     Ela no foi sempre m. Ou to m. Cheguei a admir-la quando vim, embora sentisse tambm muita pena dela. Mas, de certo modo, ela estava preparada para Brugar 
como poucas mulheres poderiam estar.
     Preparada?  uma observao estranha. Preparada para o que?
            Para a crueldade dele  explicou S'Armuna.  Attaroa sofreu muito em criana. Ela no fala disso, mas eu sei que achava que sua prpria me lhe tinha 
dio. Eu soube por outra pessoa que essa me, de fato, abandonou a menina, ou assim se acreditou. O certo  que foi embora deixando a filha, e no se ouviu mais 
falar nela. Attaroa acabou recolhida por um homem cuja mulher morrera de parto, em circunstncias das mais suspeitas. O bebe tambm morreu. E as suspeitas surgiram 
justamente quando se soube que ele espancava Attaroa e que abusara dela quando ainda no era mulher. Mas ningum mais quis, na ocasio, responsabilizar-se por sua 
criao. Era alguma coisa com relao  me, ao passado dela. Mas o fato  que Attaroa foi criada por esse homem e deformada pela malevolncia dele. Finalmente, 
o homem morreu, e algumas pessoas do seu Acampamento arranjaram o casamento dela com o nosso lder deste Acampamento.
            Arranjaram sem o consentimento dela?  perguntou Jondalar.
            Convenceram-na a aceitar e trouxeram-na aqui para conhecer Brugar. Como eu disse, ele podia ser encantador, s vezes, e estou certa de que achou Attaroa 
atraente.
    Jondalar concordou. Sabia que ela podia ser atraente.
     Penso que Attaroa recebeu com alegria a perspectiva desse matrimnio. Era uma oportunidade para um novo comeo. Mas descobriu que o homem a quem se unira era 
ainda pior do que o outro que conhecera antes. Os Prazeres de Brugar eram sempre feitos com pancadaria, humilhaes e outras coisas.  sua moda, Brugar a... hesito 
em dizer "amava", mas gostava dela. Apenas era... mrbido. Pois mesmo assim, ela era a nica pessoa que ousava enfrent-lo, a despeito de tudo o que ele lhe fazia 
 narrou ela.
    S'Armuna fez uma pausa, sacudiu a cabea, e continuou.
     Brugar era um homem vigoroso, tinha muita fora, e gostava de maltratar pessoas, mulheres principalmente. Acho que lhe dava Prazer causar dor em mulheres. 
Voc diz que os cabeas-chatas no permitem que homens machuquem homens. Mas podem machucar mulheres, no ? Isso pode ter alguma coisa a ver com a histria. Brugar 
apreciava a rebeldia de Attaroa. Ela era mais alta que cie, e  uma mulher muito forte. Ele gostava de dobrar a resistncia dela, gostava quando ela o enfrentava, 
fisicamente. Aquilo lhe dava uma desculpa para castig-la, para sentir-se poderoso.
    Ayla estremeceu, lembrando uma situao no muito diferente dessa, e teve um momento de empatia e compaixo pela chefe das Mulheres-Lobas.
     Ele se vangloriava disso com os outros homens, que o encorajavam ou, pelo menos, mostravam-se solidrios com ele  disse a Xam.
     Quanto mais ela lhe resistia, pior. Por fim, ela cedeu. E ele...  curioso... no a quis mais. Muitas vezes j me perguntei: se ela tivesse cedido no comeo, 
ele teria cansado logo dela e deixado de bater-lhe?
    Ayla ficou Pensando naquilo. Broud se cansara da mulher quando ela cansara de resistir-lhe.
     Duvido  disse S'Armuna.  Mais tarde, quando ela foi abenoada e ficou dcil, nada mudou. Ela era dele, afinal, pertencia-lhe. Podia fazer com ela o que bem 
quisesse e entendesse.
    Nunca fui casada com Broud, pensou Ayla, e Brun no permitia que ele me batesse. No depois da primeira vez. Embora tivesse o direito de faze-lo, o resto do 
Cl de Brun achava esquisito o interesse dele por mim. Todos desencorajavam o seu comportamento.
            Brugar continuou a espancar Attaroa mesmo depois que ela ficou grvida?  indagou Jondalar, horrorizado.
            Continuou, embora parecesse contente que ela fosse ter um filho.
    Eu tambm fiquei grvida, pensou Ayla. Sua vida e a de Attaroa tinham muitas semelhanas.
            Attaroa vinha  minha procura, para trat-la  continuou S'Armuna, fechando os olhos e sacudindo a cabea, como que para espantar aquelas memrias. 
 Era medonho o que Brugar fazia com ela. No posso nem dizer-lhes. Equimoses de espancamentos eram o mais simples.
            E por que Attaroa se submetia?
            Ela no sabia para onde ir. No tinha parentes nem amigos Os membros do seu outro Acampamento tinham dito claramente que no a queriam l. E ela era 
por demais orgulhosa, no princpio, para voltar e deixar que eles vissem que seu casamento com o lder das Trs Irms fora um desastre. Entendo como se sentia  
disse S'Armuna.  Ningum me bateu, embora Brugar tivesse tentado uma vez, mas achei tambm que no havia outro lugar para onde ir... e eu tenho parentes. Mas era 
Aquela que Serve  Me. No podia admitir que as coisas tivessem chegado quele ponto de ignomnia. Seria admitir que eu falhara.
    Jondalar concordava com tudo aquilo. Ele tambm se julgara um fracasso, certa vez. Olhou para Ayla, e seu amor por ela o reanimou.
            Attaroa tinha dio a Brugar  continuou S'Armuna, mas, de alguma forma estranha, ela o amava tambm. Provocava-o, s vezes, deliberadamente. Eu imaginava 
se no seria por saber que ele a possua depois de espanc-la. Embora no lhe desse amor, nem Prazer, pelo menos fazia com que ela se sentisse desejada por algum. 
Talvez tenha aprendido com ele essa forma pervertida de Prazer, mesclado de crueldade. Agora ela no deseja ningum. Ela mesma se d Prazer causando sofrimento aos 
homens. Se vocs a observarem, vero como fica excitada.
            Tenho pena dela, ou quase  disse Jondalar.
            Pode ter. Mas no confie em Attaroa  disse a Xam.  E uma demente, possuda por algum esprito do mal. Vocs podem entender isso? Jamais sentiram 
uma raiva tamanha que toda razo os abandone?
    Jondalar arregalou os olhos e se viu obrigado a concordar. Ele j tivera uma raiva assim. Batera num homem at deix-lo inconsciente. E mesmo ento fora incapaz 
de parar.        
     Com Attaroa,  como se ela estivesse todo o tempo possui por uma clera insacivel desse tipo. Ela nem sempre o demonstra... na verdade,  muito hbil em matria 
de dissimulao... mas seus pensamentos e sentimentos ficam to cheios dessa fria cega que ela j perdeu, de h muito, a capacidade de pensar e de sentir como as 
pessoas comuns. Deixou de ser humana  explicou a Xam.
     Mas ter ainda, certamente, pensamentos humanos?  quis saber Jondalar.
     Voc se lembra do enterro, pouco depois da sua entrada no Acampamento?
     Sim, trs jovens. Dois eram homens. Quanto ao terceiro, no tive certeza do seu sexo. A roupa era igual para todos eles. Lembro-me de ter ficado imaginando 
o que poderia ter causado suas mortes. Eram to moos ainda!
     Attaroa foi a causa das trs mortes  disse S'Armuna.  E aquele cadver cujo sexo o intrigou sara do seu prprio ventre.
    Ouviram, nesse momento, um rudo e se voltaram para a entrada da casa de S'Armuna.

31
___________________________________________________________________________

    A mulher jovem, que surgira  vista deles, olhava, nervosa, em torno. Jondalar notou de imediato que a moa tinha muito pouca idade. Era quase uma menina. Ayla 
notou que esperava um beb.
            O que , Cavoa?  perguntou S'Armuna.
     Epadoa acaba de voltar com suas caadoras. E Attaroa est gritando com ela.
     Obrigada por vir contar-me  disse S'Armuna. E voltou-se para os seus hspedes:  As paredes desta casa so to grossas que  difcil ouvir o que se passa 
do lado de fora. Talvez devamos sair.
    Passaram rpido pela mulher grvida, que tentou encolher-se para que pudessem passar. Ayla agradeceu com um sorriso.
            A espera chega ao fim, no ?  disse, em S'Armunai.
    Cavoa sorriu, nervosa. Depois baixou os olhos para o cho.
    Ayla achou que ela estava assustada e infeliz, o que era incomum para uma futura me. Mas, afinal de contas, muitas mulheres que esperam o primeiro filho ficam 
nervosas.
    Logo que saram puderam ouvir Attaroa, que esbravejava.
     ...e me diz que achou o lugar onde acamparam! Pois perdeu uma bela oportunidade. Bonita Mulher-Loba  voc, que no sabe nem mesmo rastrear  dizia a lder, 
zombando da outra.
    Vestida com suas peles de lobo, Epadoa permanecia ereta, lbios comprimidos, olhos fuzilando de raiva, porm muda. Havia muita gente em volta, mas no perto 
demais das duas. De repente notou que as pessoas desviavam a ateno da disputa para olhar em outra direo. Olhou tambm e viu, com espanto, que era a mulher loura 
que se aproximava, acompanhada, fato mais surpreendente ainda, pelo alto Zelandonii. Jamais vira nenhum homem voltar ao acampamento.
            O que esto eles fazendo aqui?
     Eu j lhe disse. Voc perdeu a oportunidade  escarneceu Attaroa.  Eles vieram por conta prpria.
     E por que no viramos?  disse Ayla.  No fomos convidados para um festim?
    S'Armuna traduzia.
            O banquete no est pronto. Ser  noite  disse Attaroa aos hspedes. E logo para Epadoa:  Venha comigo, tenho algo a dizer-lhe.  E logo entrou, 
seguida pela comandante da sua guarda.
    Depois que se foram, Ayla procurou Racer e Huiin com os olhos. Afinal, Epadoa e suas mulheres caavam cavalos. Ficou aliviada ao ver que os dois estavam l e 
pastavam o capim seco e quebradio, a pequena distncia. Estudou, ento, a mata cerrada na colina prxima do Acampamento, com vontade de avistar Lobo, mas contente 
por no ver nada Queria que ele permanecesse escondido, mas fazia questo de mostrar-se, na esperana de que ele a pudesse ver.
    Voltaram com S'Armuna para os aposentos dela. No caminho, Jondalar se reportou a um comentrio que a Xam fizera e que lhe despertara a curiosidade.
            Como conseguiu manter Brugar a distncia? Voc disse que ele tentou bater-lhe um dia, como fazia com as outras mulheres. Como fez para impedir um novo 
ataque?
    A mulher parou, olhando severamente para o rapaz e, em seguida, para a mulher ao lado dele. Ayla sentiu sua indeciso. Era como se estivesse resolvendo at onde 
podia confiar nos dois.
            Ele me tolerava porque sou Xam. Sempre se referiu a mim, alis, como curandeira. Mais do que tudo, porm, temia o mundo dos espritos.
    A observao levantou uma dvida na mente de Ayla.
     As curandeiras tm um status privilegiado no Cl  disse.  Mas so apenas curandeiras. Os Mog-urs  que se comunicam com os espritos.
     Com os espritos conhecidos dos cabeas-chatas, talvez. Mas Brugar temia o poder da Me. Acho que ele sabia que Ela podia ver todo o mal que fazia e o mal 
que lhe roa a alma, por dentro. Temia o castigo. Quando lhe demonstrei que eu podia recorrer a Ela com xito, Brugar me deixou em paz.
     Voc pode conseguir que Ela atue em seu favor? Como?  perguntou Jondalar.
    S'Armuna meteu a mo na saia e tirou uma figurinha de mulher, de uns dez centmetros de altura. Ayla e Jondalar j haviam visto imagens daquelas, esculpidas 
habitualmente em marfim, osso ou madeira. Jondalar j vira at umas poucas estatuetas talhadas em pedra com amor e infinito cuidado. Eram feitas exclusivamente com 
ferramentas de pedra e representavam a Me.  exceo do Cl, todo grupo que tinham encontrado, desde os Caadores de Mamutes, a leste, at o povo de Jondalar, a 
oeste, fazia alguma representao d'Ela.
    Muitas dessas imagens eram toscas, outras esculpidas com extremo requinte. Algumas, altamente abstratas; outras, figurativas  retratos bem proporcionados de 
mulheres maduras, gordas. Muitas dessas representaes procuravam dar nfase aos atributos da maternidade e da fecundidade  seios volumosos, ventre protuberante, 
bacia larga  e reduziam deliberadamente ao mnimo as outras caractersticas. Muitas vezes havia apenas uma sugesto de braos, ou as pernas terminavam em ponta, 
sem ps, para que a figura pudesse ser fincada na terra. O que no tinham eram feies faciais, e isso invariavelmente. No deviam ser cpias de uma determinada 
mulher, e por certo nenhum artista poderia saber como seria a face verdadeira da Grande Me Terra. s vezes o rosto era deixado liso. s vezes tinha marcas enigmticas, 
ou o cabelo era estilizado e continuava  volta toda da cabea, escondendo as feies.
    O nico retrato realista de um rosto de mulher que os dois conheciam era o de Ayla que Jondalar havia esculpido com ternura quando viviam sozinhos no vale, pouco 
depois de se conhecerem. Mas o prprio Jondalar s vezes lamentava essa indiscrio impulsiva. Ele no quisera fazer uma imagem materna, talhara aquilo porque estava 
apaixonado por Ayla e queria captar o seu esprito. Mas verificou, uma vez pronta, que a imagem tinha um tremendo poder. Teve medo que pudesse prejudic-la, principalmente 
se casse nas mos de algum que a quisesse dominar. Mesmo assim, teve medo de destruir o retrato: isso tambm poderia fazer mal ao modelo. Deu-o a Ayla, ento, 
para que ficasse para sempre em segurana. E Ayla gostava da pequena escultura com um rosto que lembrava o seu, por ter sido feita por Jondalar. Jamais pensou se 
teria ou no algum poder. Achava-a apenas bela.
    Embora as imagens tradicionais da Me fossem tambm, muitas vezes, consideradas belas, no eram, em geral, representaes de mulheres jovens nbeis, feitas em 
obedincia a algum cnon masculino de beleza. Eram representaes simblicas da Mulher, da sua faculdade de criar e produzir vida de dentro do prprio corpo, e de 
nutrir essa vida com os recursos da sua prpria e generosa plenitude. Por analogia, tais figuras representavam a Grande Me Terra, a Qual criava e produzia toda 
vida do Seu corpo e alimentava Seus filhos com a Sua assombrosa munificncia. As figuras eram tambm receptculos para o esprito da Grande Me de Todos, um esprito 
capaz de assumir um sem-nmero de formas.
    Mas aquela figura da Me diferia de todas. S'Armuna passou a munai a Jondalar.
     Diga-me de que  feita  disse.
    Jondalar virou a figura nas mos, examinando-a detidamente. Tinha seios pendulares e cadeiras avantajadas, os braos eram sugeridos apenas at o cotovelo, as 
pernas se afunilavam para baixo. Embora houvesse uma vaga indicao de cabelos, o rosto fora deixado em branco. A imagem no diferia grandemente em tamanho ou forma 
de muitas que conhecia, mas o material de que era feita lhe pareceu invulgar, seno inslito. Tinha uma cor uniforme, escura. Experimentou-o com a unha: no ficava 
riscado. No era madeira, nem osso, nem marfim, nem chifre. Duro como a pedra, mas liso, nele no havia marca de ferramenta. No era nenhuma espcie conhecida de 
pedra.
    Virou-se para S'Armuna com uma expresso de perplexidade.
            Jamais vi nada igual  disse.
    Jondalar passou a figura para Ayla e ela teve um arrepio no momento em que a tomou nas mos. Eu devia ter usado minha parka de pele quando sa, pensou. Mas no 
pde deixar de admitir que a causa daquele arrepio era mais que friagem.
     Essa munai comeou como p da terra  explicou a mulher.
     P?  disse Ayla.  Mas  pedra!
     Sim,  pedra. Agora. O p foi transformado em pedra.
            Voc fez isso? Como pode transformar p em pedra?  perguntou Jondalar, incrdulo.
    A mulher sorriu.
     Se eu lhe disser voc acreditar nos meus poderes?
     Ter de convencer-me.
            Vou contar-lhe, mas no vou procurar convenc-lo. Voc ter de convencer-se a si mesmo. Comecei com argila dura, seca, da margem do rio. Que pulverizei 
com uma pedra. Depois misturei p com gua.  S'Armuna fez uma pausa, pensando se deveria dizer mais alguma coisa sobre a mistura. Resolveu que no o faria ainda. 
 Quando estava da consistncia apropriada, dei-lhe forma. O fogo e o ar quente lhe deram essa consistncia dura de pedra  concluiu a Xam, de olhos neles, vigiando 
sua reao. Mostrariam desdm ou ficariam impressionados? Duvidariam da sua palavra ou acreditariam nela?
    Jondalar fechou os olhos, procurando lembrar-se.
            Lembro ter ouvido... da boca de um homem dos Losadunai, se no me engano... alguma coisa sobre imagens da Me feitas de barro.
    S'Armuna sorriu.
            Sim, voc pode dizer que fazemos munais de barro. Fazemos tambm animais, quando queremos invocar os seus espritos. Muitas espcies de animais: ursos, 
lees, mamutes, rinocerontes, cavalos. O que quisermos. Mas eles so de barro s enquanto esto sendo modelados. Uma figura feita com o p da terra misturado com 
gua, mesmo depois de endurecida, amolece na gua e retorna ao barro original de que se formou. E volta ao p. Mas uma vez despertada para a vida pela chamas sagrada 
da Me, fica transmudada para todo o sempre. Passadas pelo calor da Me as figuras adquirem a rigidez da pedra. O esprito vivo do fogo confere-lhes a permanncia 
do granito.
    Ayla notou o fogo da excitao no olhar da mulher. Lembrava-lhe excitao de Jondalar ao conceber o propulsor de azagaias. Sentiu que S'Armuna tambm ardia na 
excitao da descoberta, e acreditou nela.
            As figurinhas so frgeis, mais frgeis que o slex  continuou a mulher.  A Prpria Me j mostrou que elas se quebram. Mas a gua no consegue alter-las. 
Munais feitas de barro, uma vez tocadas pelo Seu fogo ardente, podem ser deixadas ao relento, debaixo de chuva ou de neve, podem ser postas de molho na gua. Nunca 
desmancharo.
     Voc, de fato, tem parte no poder da Me  disse Ayla.
    A mulher hesitou um momento. Depois perguntou:  Voc gostaria de ver?
     Oh, sim, gostaria muito!  disse Ayla.
     Eu teria o maior interesse  respondeu Jondalar ao mesmo tempo.
     Ento venham. Eu lhes mostro.
     Posso vestir minha parkca?  perguntou Ayla.
            Naturalmente que sim. Ns todos usaremos agasalhos. Mas se estivssemos celebrando a Cerimnia do Fogo, teramos tanto calor que no precisaramos de 
peles, nem mesmo num dia como este. Tudo est quase pronto. Temos s de acender o fogo e comear a cerimnia esta noite. Mas a coisa leva tempo e exige concentrao. 
Esperemos at amanh. Hoje temos um importante banquete  lembrou S'Armuna.
    S'Armuna se calou e cerrou os olhos, como se escutasse, ou considerasse um pensamento que lhe ocorrera.
            Sim, um banquete muito importante, repetiu, olhando diretamente para Ayla. Ser que ela tem ideia do perigo que corre?, disse consigo mesma. Se ela 
 quem penso, ter.
    Vestiram os agasalhos, Ayla notou que a moa se fora. S'Armuna os conduziu a alguma distncia da casa at os fundos do estabelecimento, onde algumas mulheres 
estavam grupadas em torno de uma construo de aspecto inocente, um pavilho simples, de teto inclinado. As mulheres traziam excrementos secos, lenha e ossos. Materiais 
para um fogo, pensou Ayla. Reconheceu a moa grvida e lhe sorriu. Cavoa sorriu timidamente, em resposta.
    S'Armuna passou curvando a cabea pela entrada, demasiado baixa da pequena estrutura, depois chamou os hspedes com a mo quando eles hesitaram, sem saber se 
deviam entrar com ela. Dentro havia uma lareira onde chamas irrequietas lambiam carves em brasa. O recinto, exguo, circular, j estava quente. Pilhas separadas 
de osso, madeira e bosta seca enchiam toda a metade esquerda do espao. Do lado direito, ao longo da parede curva, havia prateleiras rsticas, feitas de ossos chatos 
do plvis e do ombro de mamutes apoiados em pedras, em que se expunham muitos objetos pequenos.
    Eles se aproximaram e viram, com surpresa, que eram figurinhas em vulto, feitas de argila e postas ali para secar. Vrias delas representavam mulheres, figuras 
da deusa-Me, mas vrias delas no eram completas, mostravam s as partes distintivas da mulher, a parte inferior do ventre, pernas inclusive, por exemplo; ou os 
seios. Em outras prateleiras havia animais, tambm incompletos em sua maioria, cabeas de lees ou de ursos e as formas caractersticas dos mamutes, com crnio alto, 
curto e pontudo, presas alongadas e encurvadas para baixo.
    As figurinhas pareciam ter sido feitas por diferentes pessoas. Algumas eram sumrias, mostravam pouco talento artstico. Mas havia objetos bem-feitos, de composio 
sofisticada. Embora Ayla e Jondalar no soubessem por que os autores tinham dado s peas aquelas formas, percebiam que cada uma fora inspirada por algum motivo 
ou sentimento individual.
    De frente para a entrada havia uma abertura na parede que dava para um espao menor no interior da estrutura. Esse espao fora escavado no solo de loess de uma 
colina. Era aberto do lado mas lembrava a Ayla um grande forno enterrado, dos que ela mesma costumava fazer no cho e forrar de pedras quentes. Mas sentia que nenhum 
alimento fora jamais posto ali. Quando foi olhar de perto, viu uma lareira no aposento imediato.
    Dos restos de material calcinado nas cinzas viu que os ossos eram usados ali como combustvel e verificou que o modelo de lareira era semelhante ao dos Mamuti, 
se bem que mais fundo. Ayla olhou em torno,  procura da entrada de ar. A fim de queimar ossos  necessrio um fogo muito quente, e para isso h que insuflar dentro 
dele uma corrente de ar. Nos fornos dos Mamuti, o vento de fora, que sopra constantemente, era canalizado para dentro por aberturas como chamins, controladas por 
registros. Jondalar examinou atentamente o interior do segundo recinto e tirou concluses semelhantes. A julgar pela colorao e dureza das paredes, fogos muito 
quentes eram mantidos ali por perodos prolongados. Os objetos das prateleiras seriam submetidos ao mesmo tratamento.
    Ele estava certo ao dizer que nunca vira antes material semelhante ao da estatueta da deusa-Me que S'Armuna lhe mostrara. A figura, modelada pela mulher que 
ali estava, no fora manufaturada pela modificao  talha, modelagem, polimento  de material encontrado na natureza. Fora feita de cermica, isto , de barro cozido, 
ou seja, terracota, primeiro material jamais criado pela mo e inteligncia do homem. A cmara de aquecimento no era um forno comum, era uma fornalha de cozer argila.
    E o primeiro forno desse tipo no foi inventado com o propsito de fabricar vasilhame  prova d'gua. Muito antes de cozer loua, os fornos queimaram pequenas 
esculturas cermicas at adquirirem dureza e impermeabilidade. As figuras das prateleiras tinham semelhana com gente e animais, mas as representaes de mulheres 
 no se faziam homens, s mulheres  e outros viventes no eram consideradas retratos no rigor da palavra. Eram smbolos, metforas, buscavam representar (re-apresentar) 
a realidade e no copi-la. Sugeriam uma afinidade, uma analogia, uma similaridade espiritual. Eram arte. A arte precedeu a utilidade.
    Jondalar mostrou o espao que ia ser aquecido e perguntou  Xam:
      este o lugar onde arde o fogo sagrado da Grande Me?  Era mais uma afirmao que uma pergunta.
    S'Armuna fez que sim com a cabea, sabendo que ele no acreditava nela. A mulher intura tudo antes de ver o lugar. O homem precisara de um pouco mais de tempo.
    Ayla ficou contente quando S'Armuna os tirou de l. No sabia se o motivo era o calor ou o confinamento. Talvez fossem os objetos de argila. O fato  que se 
sentia mal, inquieta. Achava o lugar perigoso.
     Como voc descobriu isso?  perguntou Jondalar, abrangendo num gesto todo o complexo: cermicas e forno.
     A Me me inspirou  disse a Xam.
     No duvido. Mas como?  insistiu ele.
    S'Armuna sorriu em face daquela persistncia. Parecia apropriado que o filho de Marthona quisesse compreender.
     A primeira ideia me veio quando estvamos construindo uma dessas nossas casas de barro. Voc sabe como so feitas?
     Penso que sim. As de vocs so como as dos Mamuti, e ns ajudamos Talut e os outros a fazerem um anexo ao Acampamento do Leo  adisse Jondalar.  Eles comearam 
com o arcabouo do prdio, feito de ossos de mamute. Sobre esse "esqueleto" puseram uma grossa camada de galhos de salgueiros; e, por cima dela, uma segunda camada, 
de capins e canios. Cobriram tudo de barro atirado com a mo, a sopapo. E como revestimento, uma pasta semifluida de argila de rio, que fica dura depois de seca.
     , essencialmente, o que ns fazemos  disse S'Armuna.  E foi quando estvamos aplicando essa ltima demo, cosmtica, que a Me me revelou a primeira parte 
do Seu segredo. O servio estava quase pronto, mas j escurecia, de modo que fizemos uma grande fogueira. O revestimento de argila comeava a ficar perigosamente 
espesso, e uma seo dele caiu no fogo. Era um fogo poderoso, alimentado com muito osso, e ardeu a maior parte da noite. Pela manh, Brugar mandou que eu limpasse 
a lareira. Encontrei, ento, o barro cozido. Notei, em particular, uma pea que se parecia a um leo.
     O totem protetor de Ayla  o leo  comentou Jondalar.
    A Xam olhou para a mulher e assentiu, refletindo:
     Quando descobri que aquela figura de leo no desmanchava em gua, resolvi fazer outras, e ver o que acontecia. Tive diversos malogros e precisei de algumas 
dicas suplementares da Me, mas afinal aprendi o Processo.
     Por que nos conta os seus segredos? Como demonstrao de fora?  perguntou Ayla.
    A pergunta era direta e apanhou a mulher desprevenida, mas depois de um instante ela voltou a sorrir.
     No pense que estou revelando todos os meus segredos. Estou apenas mostrando o bvio. Brugar tambm pensava que conhecia os meus segredos, mas acabou tendo 
a prova de que se enganara.
      claro que Brugar teve conhecimento de suas experincias  disse Ayla  Voc no pode fazer um fogaru num lugar desses sem que todo mundo saiba. Como conseguia 
esconder alguma coisa dele?
     De comeo ele pouco se importava com o que eu fazia ou no, at que viu alguns dos resultados. Ento quis fazer estatuetas ele tambm, mas no sabia tudo o 
que a Me me revelara.  O sorriso Daquela que Servia era agora triunfante.  A Me rejeitou os esforos dele com a maior fria. As figuras de Brugar explodiam com 
grande fragor e se partiam em mil pedaos quando ele tentava coze-las no forno. A grande Me as arremessava fora com tal violncia que feriam quem estivesse por 
perto. Brugar passou a ter medo de mim depois disso e desistiu de dominar-me.
    Ayla podia imaginar a situao de algum confinado naquela pequena ante-sala com pedaos de argila quente voando para todo lado, a grande velocidade.
            Mas isso ainda no explica por que voc nos conta todas essa coisas sobre os seus poderes.  possvel que algum, familiarizado com a maneira de ser 
da Me, roube os seus segredos.
    S'Armuna assentiu. Ela esperara alguma coisa desse gnero por parte da mulher e decidira que uma completa franqueza seria o melhor curso a seguir.
     Voc est certa. Eu tenho um motivo. Preciso que me ajudem Com essa mgica, a Grande Me me deu poder at sobre Attaroa. Ela teme esses poderes, mas  astuta 
e imprevisvel, e um dia vai superar o medo. Estou convencida disso. Ento ela me matar.  A Xam olhou para Jondalar.  Minha morte no ter maior importncia, 
exceto para mim. So os outros que me preocupam, o resto deste Acampamento, meu povo. Quando voc falou sobre Marthona passando a liderana ao filho, compreendi 
como as coisas degeneram por aqui. Eu sei que Attaroa jamais deixar o poder voluntariamente. E quando ela morrer, talvez no haja mais Acampamento digno desse nome.
     O que lhe d tamanha certeza? Se ela  to caprichosa como diz, no poder, com a mesma facilidade, desistir de tudo, saturar-se?  perguntou Jondalar.
      que ela j matou a nica pessoa para a qual poderia deixar o legado da autoridade, carne da sua carne, sangue do...
     Ela fez isso?  perguntou Jondalar.  Quando voc disse que Attaroa causou a morte daqueles trs jovens, entendi que fora um acidente.
     No foi um acidente. Attaroa os envenenou, embora no admita isso.
            Que horror!  disse Jondalar.  E por qu?
            Por qu? Por conspirarem para ajudar uma amiga. Cavoa, a moa que vocs j conhecem. Ela estava apaixonada e queria ir embora com seu homem. O irmo 
dela tambm estava procurando ajudar o casal. Os quatro foram apanhados. Attaroa perdoou Cavoa apenas por estar grvida. Mas a ameaou: se o filho for do sexo masculino 
matar os dois.
            Por isso ela parece to infeliz e assustada  disse Ayla.
            Eu tambm sou responsvel pela desgraa  disse S'Armuna, empalidecendo com as prprias palavras.
     Voc? Mas o que tinha contra eles?  perguntou Jondalar.
     Nada. A criana de Attaroa era como minha prpria criana, me acolitava, inclusive, no servio divino. Eu gosto de Cavoa, eu sofro por ela. Mas sou to responsvel 
pela morte dos outros trs como se lhes tivesse ministrado o veneno com minhas prprias mos. Sem mim, Attaroa no teria sabido onde consegui-lo ou como utiliz-lo.
    Ambos podiam ver a angstia da mulher, embora ela se controlasse bem.
            Como pde Attaroa fazer isso!  disse Ayla, sacudindo a cabea como se quisesse livrar-se da ideia. Estava horrorizada.
      uma longa histria. Vou contar-lhes o que sei, mas acho que devemos voltar para os meus aposentos  sugeriu S'Armuna, olhando em torno com apreenso. No 
queria falar mais tempo de Attaroa em lugar to aberto.
    Ayla e Jondalar a seguiram para o interior do pavilho, tiraram as parkas e acomodaram-se junto da lareira enquanto a Xam punha mais lenha no fogo e pedras
para aquecer, la fazer ch. S quando estavam todos sentados, com a quente infuso nas mos, ela retomou o relato, depois de pr as ideias em ordem.
      difcil saber como tudo comeou. Talvez com as desavenas entre Attaroa e Brugar, mas no se esgotou com elas. Mesmo quando a gravidez de Attaroa j ia adiantada, 
Brugar persistia em espanc-la. Quando ela entrou em trabalho de parto, ele no me mandou chamar. Eu soube do que acontecia ouvindo-lhe os gritos. Fui ter com ela, 
mas ele no me deixou atend-la. E no foi um parto fcil. Brugar sequer deixou que algum tentasse minorar-lhe as dores. Estou convencida de que queria v-la sofrer. 
 de crer que o beb tenha nascido com alguma deformidade. Causada, na minha opinio, pelos maus-tratos de que Attaroa fora vtima durante a gestao. Embora o defeito 
no fosse evidente nos primeiros dias, logo se viu que a espinha da criana era fraca e encurvada. Nunca me permitiram fazer um exame, de modo que no tenho certeza 
disso, mas havia outros problemas, possivelmente  disse S'Armuna.
     O beb era menino ou menina?  perguntou Jondalar. Lembrava-se de que o sexo do cadver no lhe parecera bvio.
     No sei  declarou S'Armuna.
     Perdo  disse Ayla.  Como pode no saber?
     Ningum sabia, exceto Brugar e Attaroa, e, por algum motivo, fizeram segredo disso. Mesmo quando pequena, a criana nunca apareceu em pblico sem roupa, quando 
nossos bebs, meninos e meninas, andam nus. Tambm o nome que escolheram era comum dos dois sexos, no tinha uma desinncia indicativa do masculino ou do feminino: 
Omel.
     E a prpria criana, nunca falou disso?  perguntou Ayla.
     No. Omel guardou o segredo. Brugar pode ter ameaado mulher e criana com os piores castigos se no obedecessem.
     E nada se descobriu?  perguntou Jondalar.  Afinal de contas, Omel cresceu. O corpo que vi sepultar era, j, de idade adulta.
     Omel no fazia a barba, mas poderia ser um macho de desenvolvimento retardado, ou naturalmente glabro.  difcil saber se a criana desenvolveu seios. As roupas 
de Omel eram sempre frouxas e informes. Tinha estatura alta para mulher, a despeito da espinha torta, e uma alarmante magreza. Talvez por causa da debilidade congnita, 
mas a prpria Attaroa  muito alta, e havia uma certa delicadeza na criatura que homens, em geral, no tm.
     Mas voc mesma no teve qualquer intuio sobre o sexo da criana durante esse tempo em que ela crescia?
    A mulher  esperta, enxerga longe, pensou S'Armuna. E concordou.
     No meu foro ntimo, sempre considerei Omel uma garota mas talvez simplesmente por querer que fosse... Brugar desejava, ao contrrio, que a criana fosse considerada 
por todos como do sexo masculino.
     Voc julga Brugar acertadamente  disse Ayla.  No Cl, todo mundo quer que sua companheira d  luz meninos. Todo pai se considera diminudo se no tem pelo 
menos um filho macho. Pode parecer que seu esprito  fraco. Se a criana fosse uma menina, Brugar estaria escondendo o fato, para ele infamante, de que a mulher 
parira uma fmea  explicou Ayla. Em seguida fez uma pausa e considerou o assunto sob um novo ponto de vista:  Por outro lado, bebs defeituosos so, em geral abandonados 
 prpria sorte, deixados expostos para morrer. De modo que, se o beb nasceu deformado, principalmente se era do sexo masculino... incapaz, por exemplo, de aprender 
a caar e outras coisas que se esperam de um homem... Brugar pode ter querido esconder isso.
     No  fcil interpretar as motivaes dele. Mas, independente de quais fossem, Attaroa ficou solidria com o marido.
     Mas como morreu Omel? E os outros dois jovens?  perguntou Jondalar.
      uma histria estranha, complicada  disse S'Armuna, que tinha a inteno de contar o que sabia a seu modo, sem pressa ou imposio.  A despeito de todas 
as deficincias da criana, a despeito do segredo que a envolvia, ela se tornou a pessoa mais querida de Brugar. A nica em quem ele nunca bateu e a quem nunca fez 
mal. Isso me alegrava, e, no entanto, muitas vezes me perguntei o porqu dessa predileo.
     Ser que ele desconfiava ter sido o causador da deformidade, por ter maltratado Attaroa?  perguntou Jondalar.  Ou estaria apenas procurando reparar o que 
fizera?
     No sei. Mas Brugar culpava Attaroa pela anormalidade da criatura. Muitas vezes ele lhe disse que ela era incapaz como me, incapaz de parir uma criana como 
as outras. E quando dizia isso, batia-lhe. Mas esses maus-tratos j no eram, como antes, um preldio de Prazeres com a companheira. Em vez disso, ele fazia pouco 
de Attaroa e se desmanchava em cuidados com a criana. Ento Omel passou a trata/ a me como o pai o fazia, e a mulher passou a sentir-se cada vez mais marginalizada. 
Passou a ter cimes da criatura, cimes da afeio com que Brugar tratava, e, mais ainda, do amor que Omel sentia por Brugar.
     Isso deve ter sido muito duro de suportar  disse Ayla.
     Sim. Brugar descobrira mais uma maneira de infligir sofrimento a Attaroa. Mas no era s ela que sofria por causa dele  continou S'Armuna.  Com o passar 
do tempo, as mulheres passaram a ser tratadas cada vez com mais desprezo e brutalidade... por Brugar e pelos outros homens. Os homens que resistiam ou procuravam 
resistir eram castigados ou expulsos. Finalmente, depois de um entrevero que deixou Attaroa com um brao e vrias costelas fraturados, ela se rebelou. Jurou mat-lo 
e me implorou que lhe desse alguma coisa para acabar com ele.
     Voc o fez?  perguntou Jondalar, incapaz de resistir  curiosidade.
     Uma que Serve  Me fica sabendo de muita coisa secreta, Jondalar. Toma conhecimento de segredos perigosos, sobretudo os que aprendeu com a zelandonia  explicou 
S'Armuna.  Mas aqueles que so admitidos  elevada honra de Servir tm de jurar pelas Cavernas Sagradas e pelas Lendas dos Antigos jamais usar o que sabem para 
o mal. Uma que Serve  Me abandona seu nome e identidade e adota o nome e identidade do seu povo, tornando-se desse modo um elo entre a Grande Me Terra e aqueles 
Seus filhos, o canal atravs do qual os Filhos da Terra se comunicam com o mundo dos espritos. De modo que Servir  Me corresponde a servir a Seus filhos tambm.
     Posso entender isso  disse Jondalar.
     Mas talvez no entenda que o povo fica inscrito e gravado no esprito Daquela que Serve. A necessidade de levar em conta o bem-estar do povo  muito forte 
e menor apenas que as obrigaes que ela tem perante a Me. Muitas vezes, isso  uma questo de liderana. No diretamente, de regra, mas no sentido de mostrar o 
caminho a trilhar. Uma que Serve  Me se torna um veculo de boa vontade e entendimento e tambm de decifrao do desconhecido. Parte do seu aprendizado consiste 
em aprender a doutrina, em decifrar sinais, vises e sonhos enviados os Seus filhos pela Me comum. H instrumentos de apoio e maneiras de buscar orientao no mundo 
dos espritos, mas no fundo tudo reflui e converge para a avaliao da Me. Lutei para descobrir como Servir melhor, mas temo que meu discernimento estivesse nublado 
por minha prpria amargura e por meu dio. Cheguei aqui com dio dos homens e, observando Brugar, passei a odi-los mais ainda.
     Voc disse que se sente responsvel pela morte dos trs jovens. Ter ensinado a Attaroa como usar os venenos?  perguntou Jondalar. Queria uma definio clara. 
Achava que era tempo.
     Ensinei muita coisa a Attaroa, filho de Marthona, mas ela no se preparou comigo para ser Uma que Serve. No entanto, tem inteligncia viva e  capaz de aprender 
mais do que a gente quis ensinar-lhe... Mas eu sabia disso.  S'Armuna interrompeu o que dizia. Estivera a ponto de admitir uma transgresso grave. Fora bastante 
clara. Cabia a eles, agora, tirar suas prprias concluses. Esperou at que viu Jondalar fechar o cenho e Ayla dizer, com a cabea, que compreendera.
     Seja como for, ajudei Attaroa a consolidar seu poder sobre os homens. Mas isso foi no comeo. Talvez eu quisesse poder sobre mim mesma. Na verdade, fiz mais 
que isso. Eu a incitei, encorajei, convenci-a de que a Grande Me Terra queria que as mulheres liderassem, e colaborei com ela no convencimento das mulheres, de 
parte delas pelo menos a maior parte. Depois da maneira como haviam sido tratadas por Brugar e pelos homens, a indoutrinao no foi difcil. Dei-lhe algo para pr 
na bebida favorita dos homens  um decocto fermentado  base de seiva
de btula.
            Os Mamuti fazem uma bebida semelhante, comentou Jondalar, tomado de assombro.
            Quando os homens adormeceram, as mulheres os amarraram. Elas fizeram isso com alegria. Era um jogo, uma forma de vingana. Mas Brugar jamais voltou 
do soporfero. Attaroa alegou que ele era mais suscetvel que os demais  droga, mas estou certa de que ela ps algo mais na bebida do marido. Ela dizia que queria 
mat-lo, e eu sabia que era verdade. Ela chega quase a admitir que foi assim, mas, seja verdade ou no, a convenci de que as mulheres estariam muito mais felizes 
sem os homens. Convenci-a de que, uma vez livres deles, os espritos das mulheres se misturariam aos espritos de outras mulheres para criarem novas vidas, e que 
s nasceriam meninas.
            Mas voc acredita nisso?  perguntou Jondalar, com estranheza.
            Estive a ponto de persuadir-me disso. Mas no, no acredito. E no foi o que disse... no podia arriscar-me a encolerizar a Grande Me... mas sei que 
ela entendeu assim. Attaroa pensa que a gravidez de umas poucas mulheres confirma a tese.
            Ela est errada  disse Ayla.
     Claro que sim, e eu devia ter tido mais senso. A Me no se deixou embair pela minha artimanha. Sei, no meu corao, que os homens esto no mundo por terem 
parte do plano da Grande Me. Se ela no quisesse homens, no os teria criado. Os espritos deles so necessrios. Mas se os homens so fracos, seus espritos, por 
dbeis, no podem ser usados para os propsitos da Me.  por isso que to poucas crianas nascem aqui.  E sorrindo para Jondalar:  Voc  um rapaz to forte. 
No me surpreenderia se seu esprito j tivesse sido utilizado por Ela.
     Se os homens forem libertados, voc ver que so suficientemente fortes, mais do que fortes, para engravidarem mulheres  disse Ayla , sem qualquer colaborao 
de Jondalar.
     O homem olhou para ela e riu.
     Terei o maior prazer em ajudar, se for o caso  disse Jondalar, sabendo exatamente o que ela queria dizer, embora no tivesse muita certeza de concordar com 
aquela opinio.
     Talvez devesse  disse Ayla.  O que eu disse foi apenas que talvez no haja necessidade disso.
     Jondalar deixou de sorrir. Ocorreu-lhe que ele no tinha motivo para garantir que fosse capaz de engendrar um filho.
     S'Armuna olhou de um para o outro, sabendo que faziam referncia a alguma coisa que lhe escapava. Aguardou, mas quando ficou obvio que o assunto estava encerrado 
e, por sua vez, esperavam que ela retomasse a palavra, continuou.
     Ajudei Attaroa, encorajei-a, mas no sabia que seria pior com ela como lder do que fora com Brugar. A rigor, logo que ele morreu, foi melhor... para as mulheres, 
pelo menos. Mas no para os homens, e no para Omel. O irmo de Cavoa compreendeu que a situao era desesperadora. Ele era um grande amigo de Omel. Aquela criana 
foi a nica pessoa a importar-se com ele.
            O que  compreensvel, nas circunstncias  disse Jondalar.
            Attaroa no via assim  disse S'Armuna.  Omel, convencido de que Attaroa era responsvel pela morte de Brugar, e tomado de indignao, enfrentou-a. 
Apanhou por isso. Attaroa me disse uma vez que queria apenas fazer com que Omel entendesse o que ela e as outras mulheres tinham sofrido nas garras de Brugar. Embora 
ela no tenha dito isso, imagino que pensava, ou esperava, que uma vez removido Brugar, a criatura se aproximasse dela, que a amasse.
            Maus-tratos no fazem ningum amar ningum  disse Ayla.
            Certo. Omel nunca levara uma surra, e passou a odiar Attaroa mais ainda, depois disso. Eram sangue do mesmo sangue, mas no podiam estar juntos, ao 
que parece. Foi por isso que me ofereci para tomar a criatura como aclita  explicou ela.
    S'Armuna se calou, pegou a xcara para beber, verificou que estava seca, deixou-a em cima da mesa.
            Attaroa parecia contente livrando-se da companhia de Omel no seu pavilho. Mas, rememorando, compreendi que ela descontou, por assim dizer, a defeco 
de Omel nos homens. Depois que Omel saiu de casa, Attaroa ficou pior. Tornou-se mais cruel do que Brugar. Eu deveria ter pensado nisso. Em vez de separ-la de Omel, 
cumpria encontrar meios e modos de reconciliar os dois. O que far agora que Omel morreu? E que morreu abatido por sua prpria mo?  falou ela.
    A mulher fixou os olhos no ar que danava um pouco acima do fogo. Parecia ver alguma coisa que ningum mais via.
     Oh, Grande Me! Eu estava cega!  disse ela, de repente.  Attaroa mandou aleijar Ardoban e bot-lo no Depsito. E eu sei que ela gostava desse menino. E matou 
Omel e os outros.
     Aleijou?  perguntou Ayla.  Deliberadamente? Aqueles meninos no Depsito?
     Sim, para enfraquecer os rapazes, acho, para assust-los  disse S'Armuna, sacudindo a cabea. - Attaroa perdeu a medida das coisas. Est insana. Temo por 
todos ns.  E, de sbito, a Xam sucumbiu e escondeu o rosto nas mos.  Como vai acabar tudo isso? Essa dor, esse sofrimento, pelos quais sou tambm responsvel. 
 Chorava.
     Mas no a nica responsvel, S'Armuna  disse Ayla.  Voc pode ter permitido que a coisa se instalasse, pode ter encorajado Attaroa, mas no assuma toda a 
culpa. A raiz do mal  Attaroa, e talvez ele incumba tambm aos que a maltrataram tanto, no passado.  Ayla abanou a cabea.  A crueldade gera a crueldade, a dor 
produz mais dor, a violncia promove a violncia.
            E quantos dos jovens que ela feriu passaro essa herana de dio  nova gerao?  disse a Xam com uma voz to angustiada que era como se ela mesma 
estivesse sofrendo naquele momento. Comeou a balanar o corpo para a frente e para trs, doente de pesar.  Qual dos jovens por trs daquela paliada ter recebido 
o terrvel legado de Attaroa? Qual das moas vai querer seguir-lhe o exemplo? Vendo Jondalar aqui, relembrei o meu aprendizado. Eu, principalmente, no podia ter 
pactuado com essa infmia toda.  por isso que me sinto culpada. Oh, Grande Me, o que foi que eu fiz?
    A questo no  o que fez.  o que pode fazer agora  disse Ayla.
            Tenho de ajud-los! No sei como, mas tenho de fazer alguma coisa.
             tarde demais para ajudar Attaroa, mas  preciso det-la. Os homens do Depsito e as crianas precisam ser salvos. Cumpre, no entanto, libert-los 
primeiro. Ento pensaremos na melhor maneira de ajud-los.
    S'Armuna olhou para a outra, to positiva naquela hora, to decidida e forte, e se perguntou quem realmente ela seria. Aquela que Serve  Me vira o mal que 
fizera e sabia que abusara da sua autoridade. Temia por sua prpria sanidade bem como pela vida de todos no Acampamento.
    O silncio se fez no aposento. Ayla se levantou e pegou a tigela que S'Armuna usara para fazer ch.
            Permita que eu faa o ch desta vez. Tenho uma excelente mistura de ervas aqui comigo  disse. E quando a outra concordou sem dizer palavra, ela apanhou 
sua bolsa de remdios.
            Tenho pensado naqueles dois aleijadinhos do Depsito  disse Jondalar Mesmo sem conseguir andar direito, poderiam aprender um ofcio, como desbastar 
ncleos de slex. Precisam apenas de algum que os ensine a trabalhar nisso. Deve haver algum capacitado, entre os S'Armunai. Talvez voc possa encontrar uma pessoa 
disposta a isso na prxima Reunio de Vero.
            Ns no frequentamos as Reunies de Vero como os outros SArmunai  disse S'Armuna.
            Por que no?  perguntou ele.
            Attaroa no quer  disse S'Armuna, num tom de voz surdo e igual.  As pessoas de fora nunca foram particularmente gentis com ela. Seu prprio Acampamento 
mal a suportava. Depois que ela se fez lder, no quis mais qualquer contato com estranhos. Pouco depois de sua posse, alis, os Acampamentos nos enviaram uma delegao, 
com um convite. Tinham ouvido que dispnhamos de muitas mulheres solteiras. Attaroa insultou os emissrios e os mandou embora. Em poucos anos havia alienado todos 
os outros grupos. Agora, ningum mais aparece: nem parentes, nem amigos. Todos nos evitam.
            Ficar atado a um poste, como alvo,  mais que um insulto  disse Jondalar.
            Eu lhes disse que ela est piorando. Voc no foi o primeiro. O que ela fez com voc j fez antes  disse a mulher.  H alguns anos, veio um homem, 
de visita. Estava numa Jornada. Vendo tantas mulheres aparentemente sozinhas, ele se mostrou arrogante e superior. Assumiu que seria no s bem-vindo mas que estaria 
em grande demanda. Attaroa brincou com ele como uma leoa brinca com a presa. Depois matou-o. Mas gostou tanto do jogo que passou a deter todos os estranhos. Fazia 
a vida deles miservel, animava-os com promessas, voltava a atorment-los. Por fim, livrava-se deles. Tinha esse mesmo plano para voc, Jondalar.
    Ayla estremeceu. Estava acrescentando alguns calmantes suaves aos ingredientes da tisana de S'Armuna.
     Voc tinha razo quando disse que ela no  humana. Mog-ur falava, s vezes, de espritos malignos, mas sempre imaginei que se tratasse de lendas, histrias 
para assustar crianas e dar calafrios nas pessoas grandes. Mas Attaroa no  uma lenda. Attaroa  o Mal.
     Sim. E quando no vinham mais viajantes, ela comeou a divertir-se com os homens do Depsito  continuava S'Armuna, incapaz de parar, uma vez que comeara 
a contar o que tinha visto, ouvido e guardado no peito, tanto tempo.
    "Ela pegou os mais fortes primeiro, ou os mais rebeldes, os lderes. O nmero de homens foi ficando cada vez menor. Os que l esto hoje esto perdendo o nimo 
de reagir, de revoltar-se. Ela os mantm num regime de fome, expostos ao frio e s intempries. Fecha-os em gaiolas ou manda amarr-los. Muitos morreram de maus-tratos, 
vitimados pelas insuportveis condies de vida que ela impe. E no h crianas em nmero suficiente para substitu-los. Com o desaparecimento dos homens, o Acampamento 
vai acabando, devagarinho. Todas ns ficamos surpresas quando Cavoa engravidou.
            Ela deve ter ido ao Depsito e dormido com um dos homens  disse Ayla.  Provavelmente com esse por quem se apaixonou. Voc sabe disso, estou certa.
    S'Armuna sabia. Mas como podia Ayla saber?
     Sim, algumas das mulheres vo l, secretamente. Levam-lhes comida, s vezes. Jondalar deve ter contado isso a voc.
     No  disse Jondalar , no lhe contei nada. Mas no compreendo como as mulheres permitem que os homens sejam confinados assim.
     Elas tm medo de Attaroa. Poucas so partidrias dela, devotas. Muitas, no entanto, gostariam de ter seus homens em casa. E agora ela ameaa aleijar-lhes os 
filhos.
     Diga s mulheres que os homens tm de ser soltos, ou no haver mais filhos  disse Ayla num tom que deu calafrios em S'Armuna e em Jondalar. Os dois a encararam 
com espanto. Jondalar reconheceu a expresso no rosto dela. Tinha aquele olhar distante de quando sua mente estava ocupada com algum doente ou ferido, mas naquele 
caso havia tambm uma ira fria que ele no conhecia, que nunca tinha visto antes.
        Mas a outra considerava Ayla diferentemente e interpretou o que ela acabava de dizer como uma profecia ou uma sentena.
        Depois que Ayla serviu a infuso, ficaram sentados em silncio, cada um profundamente comovido. Ayla sentia uma forte compulso de sair e respirar o ar puro 
e revigorante. Queria tambm verificar se os cavalos estavam bem. Mas, observando S'Armuna, achou que no era uma
boa hora para deix-la. Sabia que a outra ficara arrasada, e sentia que precisava de alguma coisa significativa a que apegar-se.
        Jondalar pensava nos homens que deixara no Depsito e no que estariam fazendo. Sem dvida sabiam que ele voltara. Por que no fora posto l com eles? Quisera 
poder falar com Ebulan e S'Amodun, tranquilizar Doban, mas precisava ele mesmo de algum que o animasse. Estavam em terreno perigoso e no tinham feito nada, at 
ento, seno conversar. Uma parte dele queria sair de l o mais depressa possvel, mas a outra parte, que era mais forte, queria ficar e ajudar. Mas se iam fazer 
alguma coisa, que fosse logo. Detestava ficar como estava, sentado,  espera.
        Finalmente, por desespero, disse:
         Quero fazer algo por aqueles homens do Depsito. O que posso fazer?
         Voc j fez muito, Jondalar  disse S'Armuna.  Quando a rejeitou, os homens ganharam alma nova, mas isso por si s no teria bastado. Houve quem a refugasse 
antes, por algum tempo. Mas essa foi a primeira vez em que um homem lhe deu as costas e, mais importante ainda, voltou. Attaroa ficou desacreditada, e isso deu esperana 
a todos.
         A esperana no vai tir-los de l.
         No. E Attaroa no os libertar facilmente. Nenhum homem sai vivo daqui se ela puder impedi-lo, embora poucos tenham conseguido fugir. Mulheres, porm, 
no fazem Jornadas. No com frequncia, pelo menos. Para estas bandas, voc  a primeira, Ayla.
         Attaroa ser capaz de matar uma mulher?  perguntou Jondalar, achegando-se a Ayla, sem se dar conta disso, para proteg-la.
         Ser difcil para Attaroa justificar o sacrifcio de uma fmea ou, at, o confinamento de mulheres no Depsito. Embora muitas das mulheres aqui vivam no 
acampamento involuntariamente, no tm uma ceca em volta. Mas seus filhos e companheiros esto ameaados e elas deixam ficar por amor.  por isso que sua vida, Ayla, 
est em perigo. Voc no tem ligaes, e ela no tem como domin-la. Se conseguir mata-la, poder dispor das outras com mais facilidade. Digo isso no so para preveni-la, 
mas por causa do perigo que representa para todo o Acampamento. Vocs dois podem, ainda, ir embora, e talvez seja isso o que devam fazer.
         No posso ir embora  disse Ayla.  Como posso abandonar essas crianas? Ou esses homens? As mulheres precisam de ajuda tambm. Brugar a chamou de curandeira, 
S'Armuna. No sei se voc conhece a expresso. Mas eu sou uma curandeira do Cl.
         Voc, uma curandeira? Ah, eu devia ter desconfiado  disse S'Armuna.  Ela no sabia exatamente o que era uma curandeira, mas passara a ser to considerada 
depois que Brugar a agraciou com o ttulo que tinha pela posio que ocupava o maior respeito.
          por isso que no posso desertar  disse Ayla.  No se trata de algo que eu queira fazer, mas que algum como eu tem de fazer.  o meu papel. Uma parte 
do meu esprito j habita o outro mundo  continuou, tocando com a mo o amuleto que levava ao pescoo  em troca da obrigao de servir queles que necessitem de 
mim.  difcil de explicar, mas no posso permitir que Attaroa continue a destru-los, e este acampamento precisar de reorganizao depois que os homens do Deposito 
forem libertos. Devo ficar e enquanto for preciso.
        S'Armuna achou que entendia. Aquele no era, de fato, um conceito fcil de pr em palavras. Comparava o fascnio de Ayla com a arte de curar, e sua compaixo 
pelos outros, com seus prprios sentimentos depois de chamada para Servir  Me, e se sentia solidria com a outra.
         Vamos ficar enquanto pudermos  emendou Jondalar, lembrando-se de que tinham ainda de atravessar uma geleira naquele inverno.  A questo : como persuadir 
Attaroa a soltar os homens?
         Ela tem medo de voc, Ayla  disse a Xam , assim como a maior parte das suas Mulheres-Lobas.  As que no a temem tm por voc uma espcie de respeito 
religioso. Os S'Armunai so caadores de cavalos. Caamos outros animais tambm, inclusive mamutes, mas entendemos principalmente de cavalos. Para o norte h um 
despenhadeiro de onde lanamos cavalos h vrias geraes. Voc no pode negar que seu domnio sobre cavalos  uma poderosa mgica. To poderosa que parece inverossmil, 
mesmo depois de comprovada.
         No h nada de misterioso nisso  disse Ayla.  Eu criei aquela gua desde pequena. Vivia sozinha, ela era minha nica amiga. Huiin me obedece porque quer, 
porque gosta de mim.
        Tal como Ayla o pronunciava, o nome era uma onomatopia perfeita da voz do cavalo. Viajando s com Jondalar e os animais, ela revertera ao hbito de dizer 
o nome da sua gua na sua forma original. Aquele som, emitido por voz de mulher, deixou S'Armuna espantada. A prpria idia de fazer amizade com um cavalo era inconcebvel. 
No adiantava que Ayla pretendesse que aquilo no se tratava de magia. Acabava de convencer S'Armuna do contrrio.
         Talvez  disse a Xam. Mas ficou pensando. No importa quo simples queira tornar um prodgio desses. As pessoas no podem impedir-se de indagar quem voc 
de fato , ou por que veio.
        As pessoas pensam e esperam que voc tenha vindo para salv-las. Todos temem Attaroa, mas, apoiados por voc e por Jondalar, podem ter coragem de enfrent-la. 
Podem perder o medo.
        Ayla de novo sentia a vontade compulsiva de sair daquela casa.
         Com todo esse ch  disse, pondo-se de p , preciso urinar. Aonde devo ir, S'Armuna?  Depois de ouvir as instrues, acrescentou:  Temos de ver se os 
cavalos esto bem. Posso deixar essas tigelas aqui?  Erguera uma tampa e estava vistoriando o contedo.  Est esfriando bem rpido.  uma pena no poder servir 
o ch quente. Tem mais sabor.
         No se incomode, deixe ficar  disse S'Armuna, tomando a propria xcara e bebendo o resto do seu ch. Depois ficou olhando os estranhos, que j iam a caminho 
da porta. Talvez Ayla fosse um avatar da Grande Me e Jondalar de fato o filho de Marthona, mas a ideia de que algum dia a Me lhe iria pedir contas pesava muito 
naquela que A Servia. Afinal, ela era S'Armuna. Renunciara  sua identidade pessoal em troca do poder sobre o mundo dos espritos, e aquele Acampamento era provncia 
sua, como todo o povo, homens e mulheres. A essncia espiritual do estabelecimento lhe fora confiada, e as filhas d'Ela dependiam da sua atuao. Do ponto de vista 
dos estranhos, daquele homem que servira para cham-la aos seus deveres, e daquela mulher de poderes extraordinrios, ela falhara. S'Armuna tinha conscincia disso. 
Apenas esperava que ainda fosse possvel redimir-se e ajudar o Acampamento a recobrar uma vida normal, saudvel.

32
___________________________________________________________________________

        S'Armuna saiu e viu os dois estranhos a caminho dos limites do Acampamento. Viu que Attaroa e Epadoa, de p diante da casa da lder, tambm os acompanhavam 
com o olhar. A Xam ia entrar quando percebeu que Ayla mudara subitamente de direo e tomara o rumo da paliada. Attaroa e a chefe das suas Mulheres-Lobas tambm 
viram isso e foram, a passos largos, intercept-la. Chegaram  cerca simultaneamente. A Xam chegou um momento depois.
        Atravs das fendas, Ayla olhou diretamente nos olhos e rostos dos que a observavam, mudos, do outro lado dos fortes moires da cerca. Vistos assim de perto, 
eles eram uma viso lamentvel, sujos e malcuidados, vestidos de trapos de couro. O pior, porm, era o fedor que emanava do recinto. Para o nariz treinado da curandeira, 
aquele cheiro compsito era revelador. Odores naturais, do corpo, quando sadio e limpo, no a incomodavam, nem mesmo uma certa quantidade de excrees. Mas o que 
ela respirava, ali, era doentio. O hlito podre da inanio, a imundice repulsiva de excrementos resultantes de problemas de estmago e febre, a fedentina que sai 
do pus de feridas infectadas, e, at, a ptrida catinga da gangrena, tudo isso lhe feriu os sentidos, indignando-a.
        Epadoa procurou intrometer-se entre ela e a paliada, mas Ayla j vira o bastante. Virou-se para confrontar Attaroa.
                Por que esses homens esto segregados por trs dessa cerca, como animais num curral?
        Houve um movimento de espanto entre os que se haviam juntado nas proximidades para ver o que se passava quando S'Armuna traduziu. Ficaram de respirao suspensa, 
 espera da reao da lder. Ningum jamais ousara perguntar-lhe aquilo.
        Attaroa fuzilou a intrusa com os olhos, mas Ayla cominou a encar-la intrpida na sua indignao. Tinham aproximadamente a mesma altura, embora a mulher 
de olhos escuros fosse um pouco maior. Ambas eram fisicamente fortes, mas Attaroa era musculosa como atributo natural da hereditariedade, ao passo que Ayla tinha 
a musculatura nervosa e rija do exerccio. Attaroa era mais velha que a forasteira, mais experiente, ardilosa, e totalmente imprevisvel. A visitante era uma rastreado-ra 
incomparvel, hbil na caa, rpida para observar detalhes, tirar concluses e reagir.
        Attaroa respondeu com uma risada. Tocado de insnia, aquele riso, que Jondalar conhecia, lhe deu um frio na espinha.
                Esto porque merecem estar!  disse.
         Ningum merece essa espcie de tratamento  atalhou Ayla, antes que S'Armuna tivesse tempo de traduzir. A mulher ento traduziu o comentrio de Ayla.
         Como sabe disso? Voc no estava aqui. No tem ideia de como eles nos tratavam, antes.
         Deixaram-na fora, no frio? Privaram-na de roupa, de comida?  Algumas das mulheres presentes pareceram contrafeitas.  Sero vocs melhores do que eles 
se os tratam pior do que foram tratadas?
        Attaroa no fez caso de responder s palavras repetidas pela Xam, mas seu sorriso era duro e cruel.
        Ayla percebeu algum movimento atrs da cerca, e viu que os homens abriam caminho para que os dois meninos que estavam at ento no abrigo se aproximassem, 
coxeando. Os demais se amontoaram em torno deles. Ayla ficou mais revoltada,  vista deles, e de outros meninos, emaciados e arrepiados de frio. Enfureceu-se tambm 
ao ver que algumas das lanceiras entravam, armadas, no Depsito. Mal podia conter a emoo que sentia. Dirigiu-se, ento, diretamente s mulheres.
         E esses meninos tambm as maltrataram? O que fizeram eles que justifique isso?
        S'Armuna cuidou que todas entendessem.
         Onde esto as mes dessas crianas?  perguntou Ayla a Epadoa.
        A lder das Mulheres-Lobas olhou para Attaroa depois de ouvir as palavras que Ayla dissera em S'Armunai. Pedia instrues, mas a Lder se contentou em sorrir, 
malvola, como se quisesse ver o que a outra responderia.
         Muitas morreram  disse Epadoa.
                Mortas quando tentavam fugir com os filhos  retrucou uma das mulheres comuns, do meio da multido.  As outras tm medo de fazer alguma coisa que 
seja descontada nas crianas.
        Ayla viu que a oradora era uma velha. A mesma, constatou Jondalar, que chorara tanto no funeral dos trs jovens. Epadoa lhe lanou um olhar ameaador.
         O que mais voc me pode fazer, Epadoa?  perguntou a anci avanando audaciosamente.  Voc j me tirou meu filho; e minha filha logo ir atrs dele. Estou 
velha demais para importar-me se vivo ou morro.
         Eles nos traram  disse Epadoa.  Foi um exemplo. Agora os outros sabem o que lhes acontecer se tentarem fugir.
         Attaroa no deu sinal de aprovao ou desaprovao ao que Epadoa dizia. No se podia saber se a outra expressava os seus sentimentos. Com uma expresso 
de tdio, ela deu as costas ao grupo e se retirou para sua casa, deixando a Epadoa e suas lanceiras a responsabilidade de guardar o Depsito. Mas parou e voltou-se 
ao ouvir um assovio alto e estridente. Uma expresso de terror substituiu no seu rosto o sorriso cruel que ainda arvorava. Os dois cavalos, mantidos at ento quase 
fora das vistas de todos do outro lado do campo, vinham juntos, a galope, em direo a Ayla. Ela entrou rapidamente, enquanto murmrios de assombro se elevavam da 
multido. A mulher loura e o homem, de cabelo ainda mais claro, saltaram nas costas dos animais e partiram a toda velocidade. Muitos dos presentes desejaram poder 
fugir assim e se perguntaram se voltariam a ver aqueles dois.
         Desejaria ir em frente, ir embora  disse Jondalar, depois que reduziram a marcha e ele fez com que Racer emparelhasse com Ayla e Huiin.
                Eu tambm  disse Ayla.  Aquele Acampamento  insuportvel e me enche de tristeza e fria. Como pde S'Armuna permitir que essa situao se eternizasse? 
Mas sinto pena dela, ao mesmo tempo, e compreendo o remorso que hoje sente. Como vamos livrar aqueles homens e meninos?
                Teremos de discutir isso com S'Armuna  disse Jondalar.   bvio, a meu ver, que muitas das mulheres querem que as coisas mudem, e estou certo 
de que nos ajudaro se souberem o que fazer. S'Armuna saber encontr-las.
        Tinham deixado o campo e entrado na mata. Cavalgaram protegidos pelo dossel das rvores, se bem que espaadas, por vezes, at o rio. Foram, depois, de volta, 
at o lugar onde tinham deixado o lobo. Ao aproximarem, Ayla chamou, com um assobio leve, e Lobo acorreu para saud-los, com grandes demonstraes de alegria. Ele 
ficara obedientemente de atalaia no lugar que Ayla determinara, e ambos o festejaram muito por sua fidelidade. Ayla notou que ele caara e trouxera a caa consigo, 
o que mostrava que deixara o posto pelo menos por algum tempo. Isso era perigoso, pois estavam muito perto do Acampamento das mulheres-Lobas. Mas era difcil brigar 
com ele por essa infraao. Ficou, porm, determinada a tir-lo o mais depressa possvel do alcance daquelas lanceiras que comiam carne de lobo.
         Puxaram os cavalos at a gua e, depois, at o bosque onde tinham condido as bagagens. Ayla partiu em dois um dos ltimos blocos de carne prensada que 
tinham, deu a parte maior para Jondalar, e comeram sentados no cho, contentes por estarem longe da atmosfera depressiva do Acampamento de Attaroa.
         De repente, ela ouviu que Lobo rosnava, baixo, e os cabelos da sua nuca ficaram logo arrepiados.
                Vem vindo algum  disse Jondalar, falando baixo, mas tambm um tanto alarmado com o aviso recebido do animal.
        Juntos, ele e Ayla examinaram a rea, certos de que os sentidos aguados de Lobo haviam detectado algum perigo iminente. Indo na direo que o focinho do 
lobo apontava, Ayla olhou atravs da folhagem e viu duas mulheres que se aproximavam. Uma, estava quase certa disso, era Epadoa. Tocou no brao de Jondalar e apontou. 
Ele as viu tambm.
                Voc fica. Mantenha os cavalos quietos  disse Ayla, na linguagem gestual do Cl.  Eu escondo Lobo. Vou tocaiar as mulheres. Vou mant-las a distncia.
         Eu vou  respondeu Jondalar, tambm por gestos.
         Mulheres me ouvem melhor  ponderou Ayla. Jondalar concordou com relutncia.
         Fico de sobreaviso com o propulsor de azagaias. Leve o seu. Ayla fez que sim.
         Funda tambm.
         Sim.
        Com extrema cautela, Ayla adiantou-se s mulheres, andando em crculo, e esperou. Quando as duas se aproximaram, caminhando devagar, ela pde ouvir o que 
diziam.
         Estou certa de que vieram nesta direo quando saram do nosso acampamento a noite passada, Unavoa  disse a chefe das Mulheres-Lobas.
         Mas eles j estiveram no Acampamento depois da noite passada. Por que estamos ainda procurando por eles aqui?
         Podem voltar. E mesmo que no voltem, podemos descobrir alguma coisa a respeito deles.
         Esto dizendo no acampamento que eles desaparecem, que se transformam em pssaros ou cavalos  disse a Mulher-Loba.
         No seja tola  retrucou Epadoa.  Pois no encontramos o acampamento deles? Por que acampariam se virassem animais?
        Ela tem toda a razo, pensou Ayla. Pelo menos usa a cabea e pensa. Tambm no se pode dizer que no saiba rastrear. Pode ser at uma boa caadora. Que pena 
que esteja to ligada a Attaroa!
        Agachada por trs da macega cerrada e do capim amarelo, que lhe batia pelos joelhos, Ayla ficou  espreita at que se aproximassem. E num momento em que 
as duas olhavam para o cho, surgiu diante delas sem rudo, com o lanador de azagaias em posio.
        Epadoa teve um sobressalto, e a outra mulher, mais jovem, recuou de um salto e soltou um grito, assustada, quando viu a loura estrangeira  sua frente.
                Esto procurando por mim?  perguntou Ayla, na lngua delas.  Eis-me aqui.
        Unavoa pareceu a ponto de fugir e at Epadoa se mostrou nervosa.
         Ns estvamos... caando  disse.
         Aqui no h cavalos nem precipcios  disse Ayla.
         No estvamos caando cavalos.
         Eu sei. Esto caando Ayla e Jondalar.
        A sua apario intempestiva e a qualidade estranha da sua pronncia faziam-na parecer extica e remota como um ser de algum lugar longnquo ou, at, de outro 
mundo. Ambas desejaram distncia daquela mulher cujos atributos eram mais que humanos.
                Acho que essas duas mulheres devem voltar para seu Acampamento ou arriscam perder o grande banquete de hoje  noite.
        A voz saa do mato, e falava Mamuti, mas as duas mulheres conheciam a lngua e reconheceram que era Jondalar quem falava. Olhando para a direo de onde 
vinha o som viram que o alto homem louro estava recostado languidamente ao tronco de uma grande btula de casca branca, com uma lana curta j em posio de arremesso.
                Sim. Tem razo. No queremos perder a festa  disse Epadoa. E empurrando a companheira, que perdera a fala, fez meia-volta e partiu. Quando as viu 
pelas costas, Jondalar no pde deixar de rir.
        O sol j se deitava ao fim daquele curto dia de inverno quando Ayla e Jondalar voltaram ao Acampamento no lombo dos seus cavalos. Tinham mudado o esconderijo 
de Lobo, que estava agora ainda mais perto. Logo ficaria escuro, e as pessoas raramente se aventuravam  noite longe das fogueiras. Ayla, mesmo assim, temia que 
o capturassem.
        S'Armuna estava saindo de casa quando eles desmontaram, no fundo do campo, e sorriu de alvio ao v-los. A despeito das promessas feitas, receava que no 
voltassem. Afinal de contas, por que dois estranhos correriam riscos por pessoas que nem conheciam? Nem mesmo os parentes vinham. Fazia vrios anos j que ningum 
aparecia para saber se estavam bem. Naturalmente, parentes e amigos j haviam sido destratados por Attaroa.
        Jondalar removeu o cabresto de Racer para que ele se sentisse  vontade, e ambos deram tapinhas na garupa dos cavalos para que se afastassem do acampamento. 
S'Armuna veio ao encontro deles.
         Estamos terminando os preparativos para a Cerimnia do fogo, amanh. Sempre fazemos uma fogueira de vspera. Gostariam de vir comigo, para se aquecerem 
um pouco?
         Faz frio  disse Jondalar. E ambos foram com ela at o forno da cermica, na outra extremidade do acampamento.
                Descobri como esquentar a comida que voc trouxe, Ayla. Voc disse que ela  mais gostosa quente. Tem um perfume delicioso, alis  disse S'Armuna, 
sorrindo.
         Como esquentar uma mistura assim to grossa, em cestas?
         Eu lhe mostro  disse a Xam, entrando na ante-sala do pavilho em que morava. Ayla a seguiu, e Jondalar fechou a marcha. Embora no houvesse fogo na pequena 
lareira central, fazia calor l dentro. S'Armuna foi diretamente ao arco que abria para a outra sala e removeu o osso de ombro de mamute que vedava a passagem. O 
ar, no interior, estava to quente que se poderia cozinhar com ele, pensou Ayla. Viu que tinham acendido um fogo e que, logo  porta, a alguma distncia do fogo 
estavam as suas duas cestas.
                Que perfume delicioso!  disse Jondalar.
                Vocs no imaginam quanta gente j veio perguntar quando comea o banquete  disse S'Armuna.  Sentem o cheiro da comida at no Depsito. Ardemun 
veio perguntar se os homens sero contemplados com alguma coisa. E no  s isso. Attaroa mandou que as mulheres preparassem comida para o festim e que fizessem 
bastante para todos. Nem me lembro mais quando tivemos nossa ltima festa. Tambm, no temos muito motivo para celebraes. O que me lembra uma coisa: qual o pretexto 
da festa de hoje?
                Visitas  disse Ayla.  Vocs esto honrando visitantes.
                Sim  disse a mulher.  Muito bem. Mas lembrem-se: essa foi uma desculpa que ela inventou para faz-los voltar. Devo preveni-los: no comam nada 
que ela no tenha comido antes. Attaroa conhece muito veneno mortal que pode passar despercebido. Em ltimo caso, comam s do que trouxeram... e que eu tenho vigiado 
todo o tempo.
                Mesmo aqui?  perguntou Jondalar.
         Ningum ousa entrar aqui sem minha permisso  disse Aquela que Servia  Me , mas fora deste lugar todo cuidado  pouco. Attaroa e Epadoa conspiraram 
o dia inteiro, aos cochichos. Esto tramando alguma coisa.
         E tem muita gente do lado delas, todas as Mulheres-Lobas. Com quem podemos contar?  disse Jondalar.
                Quase todo mundo quer ver mudanas  disse S'Armuna.
                Mas com quem podemos contar efetivamente para ajudar?  disse Ayla.
         Com Cavoa, minha aclita, por exemplo.
         Mas ela est grvida  disse Jondalar.
         Mais um motivo para ajudar. Tudo indica que ter um menino. Estar lutando pela vida do filho tanto quanto pela sua prpria. Mesmo se o beb for uma menina, 
Attaroa no a deixar viver muito, depois do parto. Cavoa sabe disso.
         E a mulher que protestou, hoje?  indagou Ayla.
         Essa  Esadoa, me de Cavoa. Sem dvida, podem contar com ela tambm, mas Esadoa me culpa, tanto quanto a Attaroa, pela morte de seu filho.
     Lembro-me de que, nos funerais  disse Jondalar , ela atirou coisas na cova, o que enfureceu Attaroa.
     Sim, foram ferramentas para a outra vida. Attaroa havia proibido que lhes dessem qualquer coisa que pudesse ajud-los no mundo dos espritos.
     Voc a enfrentou, na ocasio.
    S'Armuna deu de ombros, como se aquilo no tivesse importncia maior.
     Eu lhe disse que, uma vez dadas, as ferramentas no podiam ser recolhidas da sepultura. Nem ela se atreveu a faz-lo.
     Acredito que todos os homens do Depsito nos ajudariam  disse Jondalar.
     Sim, mas ser preciso que estejam do lado de fora  disse S'Armuna.  E as guardas estaro mais atentas do que nunca. No creio que algum conseguisse entrar 
l, sub-repticiamente, agora. Dentro de alguns dias, talvez. Isso nos dar tempo para conversar com as mulheres com calma. Quando soubermos quantas esto do nosso 
lado, podemos fazer um plano para derrubar Attaroa e as Mulheres-Lobas. Vai ser preciso lutar com elas. No h outra maneira de soltar os homens.
     Creio que tem razo  disse Jondalar, amargamente.
    Ayla abanou a cabea, desconsolada ao pensar na violncia. O Acampamento j fora palco de tantas desgraas, que a ideia de provocar mais sangue lhe era penosa. 
Quisera que houvesse outro meio.
     Voc nos disse haver dado alguma coisa a Attaroa para fazer os homens dormirem. No pode pr para dormir Attaroa e suas mulheres?  perguntou Ayla.
     Attaroa no bebe nem come o que no for provado antes por outra pessoa. Doban se encarregou disso, em certa poca. Ela pode usar hoje qualquer das crianas 
 disse S'Armuna. Depois, olhou para fora.  J est escurecendo. Se vocs esto prontos, acho que  tempo de comearmos.
    Ayla e Jondalar retiraram as cestas da cmara interior e Aquela que Servia fechou-a outra vez. Uma vez no ptio, viram que uma grande fogueira fora acesa diante 
do alojamento de Attaroa.
            Eu me perguntava se ela iria convid-los para entrar, mas parece que o banquete ser servido aqui fora, apesar do frio  disse S'Armuna. Quando se aproximaram, 
com as cestas, Attaroa se virou para receb-los.
            Como quiseram que os homens participassem da celebrao, achei que devamos ficar do lado de fora. Assim, podero v-los  disse.
    S'Armuna traduziu, embora Ayla tivesse entendido a mulher perfeitamente. At Jondalar sabia o bastante para perceber o que ela dissera.
             difcil v-los no escuro  disse Ayla.  Seria melhor se mandasse acender uma outra fogueira, do lado deles.
    Attaroa digeriu a sugesto, riu, mas no fez nada que indicasse que ia atender ao pedido.
    O festim parecia extravagante, com grande nmero de iguarias, mas constava, essencialmente, de carnes magras, quase sem gordura, poucos legumes, gros, ou tubrculos 
mais nutritivos e substanciosos. No serviram doaria, nem frutas secas, nem casca interna de rvore. Como bebida, um cozimento fermentado de seiva de btula, que 
Ayla no provou. Tinha experincia dos que Talut fazia e que toldavam a cabea. Precisava estar lcida e alerta aquela noite. E foi com satisfao que viu uma das 
mulheres distribuindo cuias de ch de ervas para quem quisesse.
    Em suma, um festim bastante pobre, pensou Ayla, embora os moradores do Acampamento pensassem de maneira diversa. Os pratos eram como os que se fazem no fim da 
estao, no os que se esperaria no meio do inverno. Poucas peles tinham sido postas no cho, perto do fogo e nos ps da plataforma elevada de Attaroa para os convidados. 
As outras pessoas levavam as suas e nelas se sentavam para jantar.
    S'Armuna acompanhou Ayla e Jondalar at onde Attaroa se encontrava, e eles esperaram ao lado do estrado que a lder do Acampamento se acomodasse. Ela vestia 
suas roupas de pele de lobo e tinha no pescoo colares de dentes, osso, marfim e madreprola, decorados com penas e pedacinhos de pele. Ayla se interessou pelo cetro 
que ela empunhava e que era feito de um dente inteiro, endireitado, de mamute.
    Attaroa mandou servir o jantar e, com um olhar incisivo para Ayla, determinou que a poro para os homens fosse levada logo ao Depsito, inclusive a cesta que 
Ayla e Jondalar tinham trazido para eles. Todo mundo tomou isso como um sinal de que era permitido sentar-se. Ayla notou que o assento de Attaroa lhe dava posio 
singular. Ela ficava sobranceira a todo mundo, o que lhe permitia ver por cima da cabea deles, e tambm domin-los. Ayla se lembrou de que, por vezes, as pessoas 
subiam em pedras ou toras de madeira quando tinham algo para dizer a um grupo, mas isso fora sempre uma posio temporria.
    Attaroa tinha, assim, lugar privilegiado, de onde podia observar as posturas e gestos dos convivas. E todos pareciam ter para com Attaroa a mesma atitude de 
deferncia que as mulheres do Cl costumavam assumir, em silncio, diante de um homem,  espera do toque no ombro que lhes permitiria expressar qualquer pensamento. 
Mas havia uma diferena, difcil de identificar. No Cl, jamais vira ressentimento por parte das mulheres, coisa que havia ali; ou falta de respeito para com os 
homens. Era um estilo de comportamento inerente, herdado, e no imposto por tem quer que fosse. Servia para garantir que as duas partes se comunicassem ordeiramente, 
em geral, ou primariamente, por sinais e gestos.
    Enquanto aguardavam que fossem servidos, Ayla procurou ver melhor o basto de Attaroa. Era semelhante ao Basto Falante de Talut e do Acampamento do Leo, exceto 
por um particular: a obra de talha era muito original, no lembrava em nada o basto de Talut e, todavia, lhe parecia familiar. Ayla se lembrava de que o Basto 
Falante fazia sua apario com certa frequncia, era usado por Talut mesmo em cerimnias, mas principalmente durante reunies e debates.
    Esse basto investia quem o empunhasse do direito de falar e dava a todos a oportunidade de emitir uma opinio ou expressar um ponto de vista sem serem interrompidos. 
Quem quisesse fazer uso da palavra tinha de pedir o basto. Em princpio, s quem estivesse com ele falava, se bem que no Acampamento do Leo, sobretudo em meio 
a um debate vigoroso, nem sempre todo mundo tinha vez. Talut era, em geral, capaz de impor a obedincia  praxe.
     Esse  um Basto Falante dos mais belos e originais que j vi. Posso examin-lo?  indagou Ayla.
    Attaroa sorriu, ouvindo a traduo de S'Armuna. Ela o estendeu em direo a Ayla e  luz do fogo, mas no o largou. Ficou logo bvio que no tinha a inteno 
de ced-lo a ningum, e Ayla sentiu que a mulher o usava como insgnia de comando, para investir-se do seu poder. Enquanto Attaroa o tivesse na mo, quem quisesse 
falar tinha de pedir-lhe licena e, por extenso, outras aes  quando servir a comida, quando comear a comer, por exemplo, ficavam dependendo dela. Como o alto 
estrado em que sentava, era um recurso para impor-se a todos e controlar a maneira pela qual eles se comportavam em relao a ela. Aquilo deu a Ayla o que pensar.
    O prprio basto era incomum. Que no fora feito recentemente, ficava logo evidente. A cor do marfim de mamute comeava a ficar amarelada, e a rea em que a 
mo o segurava estava cinza e brilhante, marcada pela sujeira acumulada e pelo leo das muitas peles que tinham tido contato com ele. Estava em uso havia geraes.
    O desenho entalhado na presa era uma abstrao geomtrica da Grande Me Terra: ovais concntricos sugeriam os seios cados, o ventre arredondado, as coxas voluptuosas. 
O crculo era o smbolo da plenitude, de tudo o que existia, da totalidade dos mundos conhecidos e desconhecidos, e simbolizava a Grande Me de Todos. O fato de 
serem crculos concntricos, principalmente por serem usados daquele modo para representar os importantes elementos maternais, reforava o simbolismo.
    Havia, na parte superior, um tringulo invertido. A ponta formava o queixo de uma cabea estilizada; e a base, curvada ligeiramente em domo, o crnio. O tringulo 
que apontava para baixo era o smbolo universal da Mulher. Era a forma externa do seu rgo gerador e, portanto, simbolizava tambm a maternidade e a Grande Me 
de Todos. A rea da face continha uma srie horizontal de incises paralelas, a que se juntavam linhas oblquas, laterais, que iam do queixo pontudo  regio dos 
olhos. No largo espao entre o conjunto de linhas horizontais do alto e as linhas arredondadas paralelas  curva do crnio viam-se trs conjuntos de linhas duplas, 
perpendiculares, que se reuniam onde os olhos estariam normalmente.
    Mas esses desenhos geomtricos no eram um rosto. A no ser pelo fato de estar o tringulo invertido na posio de uma cabea, as marcas sequer teriam sugerido 
um rosto. Uma representao figurativa do semblante da Grande Me seria impensvel: ningum suportaria contempl-la. Os poderes d'Ela eram to grandes que Sua simples 
Aparncia era assoberbante. O simbolismo abstrato do Basto Falante de Attaroa transmitia esse sentido de poder com sutileza e elegncia.
    Ayla recordou seu aprendizado inconcluso com Mamute sobre o sentido profundo de alguns daqueles smbolos. Os trs lados do tringulo  trs era o nmero primrio 
d'Ela  representavam as trs principais estaces do ano, primavera, vero e inverno, embora duas estaes menores e adicionais fossem por todos reconhecidas: outono 
e meio-inverno, estaes que anunciavam mudanas por vir, o que fazia um total de cinco. Cinco, como Ayla sabia, era o Seu nmero secreto, Seu nmero de fora, mas 
os tringulos invertidos eram de compreenso geral.
    Ayla se lembrou das formas triangulares das esculturas da mulher-ave, representando a Me no ato de Se transformar em Sua forma de ave que Ranec fizera... Ranec... 
e, de chofre, lembrou-se onde vira a figura gravada no Basto Falante de Attaroa. Na camisa de Ranec! Na bela camisa de couro macio, de uma alvura cremosa, de nata 
de leite, que ele usara na cerimnia de sua adoo. Ficara na sua memria por causa do estilo incomum, afilado, com mangas muito largas; por causa da cor, que to 
bem combinava com sua pele morena; mas, principalmente, pela decorao.
    A camisa fora bordada com espinhos de porco-espinho tingidos de cores vivas e costurados no couro com linha de fibra animal, dos tendes O motivo era uma abstrao 
da figura da Grande Me, que poderia ter sido copiado do basto de Attaroa. Tinha os mesmos crculos concntricos, a mesma cabea triangular. Os S'Armunai deviam 
ser aparentados com os Mamuti, de onde a camisa de Ranec provinha. Se eles tivessem tomado a rota do norte, como Talut sugerira, teriam passado necessariamente 
por aquele Acampamento.
    Quando partiram, o filho de Nezzie, Danug, o jovem que ia ficando cada dia mais parecido com Talut, anunciara que algum dia faria uma Jornada  terra dos Zelandonii 
para visit-la e a Jondalar. E se Danug resolvesse mesmo fazer essa viagem quando ficasse um pouco mais velho e viesse ter no acampamento das Mulheres-Lobas? E se 
Danug ou outro Mamuti fosse capturado e torturado? Essa ideia fortaleceu sua inteno de pr fim ao poder de Attaroa.
    Esta j recolhia o basto e oferecia a Ayla uma tigela de madeira.
            Uma vez que voc  a nossa convidada de honra, e uma vez que contribuiu com um prato que est sendo to elogiado  disse com uma nota pesada de sarcasmo, 
gostaria que provasse isto, especialidade de uma das nossas mulheres.
    A tigela continha cogumelos. Mas uma vez que eram picados e cozidos no havia como identific-los.
    S'Armuna traduziu, acrescentando.
            Cuidado!
    Mas Ayla no precisava nem da traduo nem do aviso.
     No quero cogumelos, por enquanto.
    Attaroa riu quando S'Armuna traduziu as palavras de Ayla. Era como se esperasse aquela resposta.
     Que pena!  disse, metendo a mo na tigela e tirando uma grande poro. Quando engolira o bastante para poder falar, acrescentou:  Esto uma delcia!
    Comeu, em seguida, vrias outras pores, depois passou a tigela a Epadoa, sorriu maliciosamente, e esvaziou sua xcara da infuso de btula.
    Bebeu muito mais, depois. E comeou a falar alto e a dizer inconvenincias. Uma das Mulheres-Lobas, que estivera de guarda ao Depsito  elas se alternavam, 
nessa noite, para que todas pudessem participar da festa , veio falar com Epadoa, que passou o que ela dissera, em voz baixa, a Attaroa.
     Parece que Ardemun quer sair para agradecer, em nome dos homens, o que lhes foi dado  disse Attaroa, e soltou uma gargalhada de deboche.  Estou certa de 
que no  a mim que querem agradecer.   nossa ilustre convidada.  E para Epadoa:  Traga o velho.
    A guarda foi mandada de volta e logo Ardemun apareceu, manquejando. Jondalar ficou surpreso com a alegria que sentiu ao rev-lo e se deu conta de que no tinha 
notcia dos homens desde que sara do Depsito. Como estariam?
     Ento, os homens querem agradecer pelo banquete?  disse a lder.
     Sim, S'Attaroa. Eles me pediram que viesse como seu porta-voz.
     Diga-me, velho. Por que no acredito em voc?
    Ardemun era ladino demais para responder. Ficou simplesmente l, de p, olhos no cho, como se quisesse sumir terra adentro.
      um intil! Um imprestvel! No tem fibra nenhuma!  disse Attaroa. E cuspiu para o lado, enojada.  Como todos os outros, alis  completou. E virando-se 
para Ayla:  Por que voc fica atada a esse homem?  disse, apontando para Jondalar.  Ser que no tem foras para livrar-se dele?
    Ayla esperou at que S'Armuna terminasse a traduo. Isso lhe deu tempo para preparar a resposta.
            Gosto de viver com ele. J vivi muito tempo sozinha.
            De que lhe servir o Zelandonii quando ficar velho e fraco com Ardemun?  continuou Attaroa, com um olhar de desprezo para o ancio. Quando o instrumento
do Zelandonii estiver mole demais para dar Prazer, ele ser to sem serventia quanto os demais.
    De novo Ayla esperou pela traduo, embora tivesse entendido muito bem cada palavra de Attaroa.
     Ningum permanece jovem para sempre. H mais num homem que seu instrumento.
     Mas voc deveria livrar-se desse a. Ele no vai durar muito acredite.  E de novo, apontando para Jondalar:  O louro parece forte, mas  s exibio. Ele 
no teve sustncia para copular com Attaroa, ou talvez no tivesse coragem.  Attaroa riu, bebeu mais uma tigela, depois se dirigiu diretamente a Jondalar  Foi 
medo. Admita-o! Voc tem medo de mim. Por isso no quis nada.
    Jondalar tambm entendeu o que ela dissera e se irritou.
     H uma diferena entre medo e falta de desejo, Attaroa. O desejo no obedece a comandos. No partilhei o Dom da Me com voc por no sentir desejo.
    S'Armuna olhou apreensiva para Attaroa e teve de obrigar-se a traduzir.
            Mentira!  gritou Attaroa, insultada. Ela se ps de p, dominando-o do seu alto estrado.  Voc teve medo de mim, Zelandonii. Pude ver isso na sua expresso. 
J lutei com homens antes, e voc teve medo tambm de lutar comigo.
    Jondalar se ps de p, e Ayla com ele. Vrias das mulheres o cercaram.
     Eles so nossos hspedes  disse S'Armuna, pondo-se igualmente de p-  Foram convidados a participar do nosso banquete. Ser que voc se esqueceu como tratar 
convidados?
     Bonitos hspedes!  disse Attaroa, com desprezo.  Temos de ser corteses e hospitaleiros ou a mulher vai pensar mal de ns. Pois eu lhe mostro que importncia 
tem para mim a opinio dela. Vocs dois saram daqui sem minha permisso. E sabem o que fazemos com aqueles que fogem daqui? Ns os matamos! Assim como vou mat-la 
 gritou, e se lanou sobre Ayla, armada de uma fbula de cavalo, delgada e afiada, uma formidvel adaga.
    Jondalar procurou intervir, mas as Mulheres Lobas de Attaroa j o rodeavam, com as pontas de suas lanas apertadas com tanta fora contra seu peito, barriga 
e costas, que perfuraram a pele e tiraram sangue. Num segundo, seus braos tinham sido forados para trs e suas mos atadas. Enquanto isso Attaroa derrubava Ayla, 
escarranchava-se em cima dela, no cho, e erguia a adaga sem o menor sinal da embriaguez que mostrava anteriormente.
    Ela planejara tudo aquilo, pensava Jondalar. Enquanto eles conversavam, discutindo como solapar-lhe o poder, ela se preparava para liquid-los. Ele devia ter 
visto isso, ele que jurara proteger Ayla. Fora estpido, ingnuo. E ali estava agora, espectador inerme, temendo pela vida da mulher que amava e que forcejava ainda 
por livrar-se da sua atacante. Era por aquele motivo que todos temiam Attaroa. Ela matava sem hesitao e sem remorso.
    Ayla fora apanhada de surpresa. No tivera tempo de sacar de uma faca ou da funda  e no tinha experincia de lutar corpo a corpo. Jamais tivera de fazer isso 
na sua vida. E Attaroa estava em cima dela, com um pernio de cavalo na mo, a ponto de mat-la. Ayla apertou com fora o pulso da mulher, e procurou desviar-lhe 
o brao da sua garganta. Ayla era forte, mas Attaroa tambm. Era, alm disso, astuta e determinada, e estava levando a melhor, dominando a resistncia de Ayla, para 
cortar-lhe o pescoo.
    Instintivamente, Ayla rolou no ltimo momento, mas a adaga riscou-lhe a pele, assim mesmo, deixando nela uma linha vermelha antes de afundar-se a meio na terra. 
E ela continuava imobilizada pelo peso da outra, a quem o dio e a demncia davam uma fora insuspeitada. Attaroa arrancou a adaga do cho, atordoou Ayla com um 
murro na cabea, cavalgou-a outra vez, e ergueu a arma para enterr-la na garganta da mulher.

33
___________________________________________________________________________


    Jondalar fechou os olhos para no ver a morte de Ayla. Sua vida no lhe importava mais, se ela se fosse... Ento, por que se debatia ali, de p, confrontado 
com lanas ameaadoras, se pouco lhe importava viver ou morrer? Suas mos estavam presas, mas no suas pernas. Poderia ainda avanar para as duas, chutar Attaroa, 
talvez.
    Havia um tumulto no porto do Depsito quando ele resolveu ignorar as lanas para salvar Ayla. A confuso na rea dos homens distraiu as guardas e, quando menos 
esperavam, ele se soltou daquele crculo de pontas aceradas, partindo para as duas mulheres emboladas no cho.
    E eis que um vulto escuro passou como um raio pelas pessoas que olhavam, raspou-lhe a perna, saltou sobre Attaroa. O mpeto do ataque derrubou a mulher, que 
caiu de costas e sentiu presas afiadas se enterrarem na sua garganta. Em vo, procurou Attaroa defender-se contra a fria daquela fera, que era toda caninos e plos. 
Conseguiu dar ainda uma incerta punhalada no corpo hirsuto e pesado. Deixou, depois, cair a arma, mas isso apenas provocou um rosnado surdo e terrvel e um aperto 
maior das mandbulas poderosas que lhe tiravam o ar.
    A escurido comeou a envolv-la, e ela no pde sequer armar um grito. O dente afiado da fera cortou-lhe a cartida e o som que emergiu foi um horrendo gorgolejo 
de sufocao. A mulher amoleceu e se imobilizou. Ainda rosnando, Lobo sacudiu-a na boca para ter certeza de que
toda resistncia cessara.
     Lobo!  exclamou Ayla, superando o choque e sentando-se  Oh, Lobo!
    Quando o animal soltou a presa, o sangue jorrou da artria rompida e espirrou nele. Lobo se aproximou lentamente de Ayla, com o rabo entre as pernas. Gania apologeticamente. 
Sabia que agira contra os desejos dela. A mulher lhe dissera que ficasse escondido, mas quando viu o ataque e sentiu que ela estava em perigo, teve de acorrer para 
defend-la. S no sabia agora como sua desobedincia ia ser recebida. Mais do que tudo no mundo, detestava ser repreendido por ela.
    Mas Ayla abriu-lhe os braos. Vendo que agira bem e que sua transgresso estava perdoada, ele correu para ela alegremente. Ayla o abraou, enfiando a cabea 
nos seus plos, com lgrimas de alivio. Soluava.
            Lobo, Lobo, voc salvou minha vida!  dizia. Lobo a lambia, sujando o rosto dela com o sangue quente de Attaroa que ainda tinha no focinho.
    Os habitantes do Acampamento haviam recuado, em bloco, diante dessa cena. Olhavam boquiabertos, incapazes de compreender o que viam. A forasteira loura apertava 
nos braos um lobo enorme que acabava de matar outra mulher num furioso assalto. Ela falava com ele usando a palavra da lngua Mamuti para "lobo", que era semelhante 
 deles para o mesmo caador carnvoro, e viam que conversava com  o animal, como se ele a estivesse entendendo, exatamente como conversava antes com os cavalos.
    No admirava que uma criatura dessas no tivesse medo de Attaroa. Sua mgica era to forte que cavalos lhe obedeciam e, at, lobos! O homem tambm no demonstrara 
o menor temor, pois viram quando se ajoelhara junto da mulher e do lobo. Ele ignorara, at, as lanas das mulheres da guarda, que tinham, como os demais presentes, 
recuado, e a tudo assistiam tomadas de estupor. De sbito, viram um homem atrs de Jondalar. E o homem brandia uma faca! Onde a teria arranjado?
            Deixe-me cortar essas cordas para voc, Jondalar  disse Ebulan, libertando-lhe as mos.
    Jondalar fez meia-volta e viu homens que se misturavam  multido e outros que vinham correndo do Depsito.
     Quem o soltou?
     Voc  disse Ebulan.
     O que quer dizer? Eu estava amarrado.
            Voc nos deu as facas... e a coragem de tentar  disse Ebulan.  Ardemun se esgueirou por trs da guarda e bateu-lhe na cabea com seu cajado. Depois 
cortou as cordas que fechavam o porto. Todos ns assistamos  luta, e a veio o lobo...  Sua voz se apagou, e ele ficou abanando a cabea, incrdulo, diante da 
mulher abraada ao lobo.
    Jondalar no percebeu que o homem estava emocionado demais para falar. Havia coisas mais prementes.
            Voc est bem, Ayla? Chegou a ser ferida?  disse, abraando mulher e Lobo ao mesmo tempo. O animal, que lambia Ayla, passou a lamb-lo tambm.
     Ela me fez um arranho no pescoo. No  nada  disse, aninhada nos dois. Acho que Lobo foi ferido, mas vejo que no se importa muito com isso.
     Eu no teria deixado voc vir se imaginasse que ela tentaria mat-la em plena festa. Mas devia ter sabido. Foi estupidez subestim-la.
     No, voc no foi estpido. No me passou tambm pela cabea que ela poderia atacar-me, e eu no soube defender-me. Se no fosse Lobo...  E os dois olharam 
com gratido para o bravo animal.
            Tenho de admitir, Ayla, que houve momentos durante a viagem em que tive vontade de deixar Lobo para trs. Pensei que ele era uma carga, que nos atrasava 
e atrapalhava. Quando vi que voc foi procur-lo depois que passamos o Rio da Irm, fiquei furioso. A ideia de voc arriscara a vida por esse animal me deixou indignado 
 disse Jondalar.
    Jondalar tomou a cabea do lobo nas mos e olhou dentro dos olhos dele.
            Lobo, prometo jamais deix-lo para trs no futuro. Prometo arriscar minha vida para salvar a sua, sua fera danada, gloriosa!  disse, fazendo-lhe festas 
no pescoo e atrs das orelhas.
    Lobo lambeu o pescoo e o rosto de Jondalar. Depois, abrindo as maxilas, abocanhou carinhosamente a garganta e o queixo do homem numa demonstrao de afeto. 
Lobo gostava tanto de Jondalar quanto de Ayla e manifestou com rosnados e resmungos seu contentamento com a ateno que recebia.
    Para o povo que assistia, aquilo era pura maravilha. Jamais se vira um homem expor assim a garganta, to vulnervel, a uma fera daquelas. Tinham visto o lobo 
estraalhar a garganta de Attaroa com os mesmos poderosos maxilares. Para eles, o que Jondalar fizera denotava um domnio de natureza sobrenatural sobre os espritos 
dos animais.
    Ayla e Jondalar se puseram de p, com o lobo entre eles, e encararam a multido. No sabiam muito bem o que esperar. Muitos olharam, expectantes, para S'Armuna. 
Ela marchou para os dois, olhando, ressabiada, para o lobo.
            Estamos, finalmente, livres dela  disse.
    Ayla sorriu. Sentia a apreenso da mulher.
            Lobo no lhe far mal. Ele s atacou porque era preciso. Para defender-me.
    S'Armuna notou que Ayla no dissera o nome para lobo na lngua Zelandonii, e entendeu que usava a palavra como nome para o animal.
             apropriado que o fim de Attaroa tivesse vindo atravs de um lobo. Eu sabia que vocs estavam aqui por um motivo. J no estamos mais nas garras dela, 
prisioneiros da sua insnia. Mas o que faremos agora?
    Era uma pergunta retrica. A mulher falava mais consigo mesma o que com qualquer dos ouvintes.
    Ayla contemplou o corpo imvel da mulher, que ainda momentos antes fora to malvola mas tambm to vibrante, e tomou conscincia mais uma vez da fragilidade 
da vida. No fora Lobo, e ela  que estaria ali, morta. Estremeceu a esse pensamento.
     Acho que algum deve levar o corpo de Attaroa e prepara-lo para o sepultamento  disse. Falara em Mamuti, para que todos entendessem sem necessidade de traduo.
     Mas Attaroa merece um funeral? Por que no colocamos seu cadver no pasto para animais carniceiros?
    Era uma voz de homem.
     Quem falou?  perguntou Ayla.
    Jondalar conhecia o homem, que deu um passo  frente, e se apresentou, com alguma hesitao.
     Eu me chamo Olamun.
    Ayla cumprimentou, de cabea.
            Voc tem direito ao seu dio, Olamun. Mas Attaroa foi levada  violncia pelas muitas violncias de que fora vtima. O mal que havia em seu esprito 
gostaria de perpetuar-se, de deixar-lhes um legado de violncia. Desistam. No permitam que a sua justa clera os faa cair nas armadilhas que o esprito inquieto 
de Attaroa montou.  hora de mudar. Attaroa era humana. Enterrem-na com a dignidade que ela no foi capaz de achar em vida, e que o esprito da mulher descanse em 
paz.
    Jondalar ficou surpreso com esse discurso. Era uma resposta de Zelandoni, sbia e contida.
    Olamun concordou.
     Mas quem a enterrar? Quem vai preparar o corpo? Attaroa no tinha famlia.
     A responsabilidade incumbe quela que Serve  Me  disse S'Armuna.
     Talvez com a ajuda das que a acolitaram antes  sugeriu Ayla. O cadver era, evidentemente, pesado demais para a Xam.
    Todos se voltaram para Epadoa e as Mulheres-Lobas. Elas se tinham grupado instintivamente, como que para tirarem foras umas das outras.
            E que, depois, devem acompanh-la ao outro mundo.
    Era, de novo, uma voz de homem. Outras lhe fizeram coro, e houve um movimento coletivo em direo s lanceiras.
    Ento, uma jovem Mulher-Loba se adiantou.
            No pedi para ser o que sou. Queria apenas aprender a caar para no passar fome.
    Epadoa a olhou com severidade, mas a outra no baixou os olhos.
            Que Epadoa descubra o que  passar fome  disse a mesma voz de homem.  Vamos deix-la sem comer at que entre no mundo dos espritos. Ento seu esprito 
tambm passar fome.
    Aquele movimento em direo s caadoras  e a Ayla  provocou um rosnado ameaador de Lobo. Jondalar ajoelhou-se rapidamente para aquiet-lo, mas a reao do 
animal fez com que os mais afoitos recuassem. Olhavam para Ayla com algum temor.
    Ayla no perguntou dessa vez quem falara.
     O esprito de Attaroa ainda mora entre vocs  disse , animando a violncia e o revanchismo.
            Mas Epadoa deve pagar pelo mal que fez.
    Ayla viu que a me de Cavoa dera um passo  frente. A filha, moa e grvida, estava logo atrs dela e lhe dava apoio moral.
    Jondalar se ps de p e ficou ao lado de Ayla. No havia dvida de aquela anci tinha o direito de vingar-se pela morte do filho. Olhou para S'Armuna. Achava 
que cabia  Xam responder, mas ela tambm esperava que Ayla o fizesse.
     A mulher que matou seu filho j no  deste mundo. Por que Epadoa deve pagar pelo mal que Attaroa fez?
     Epadoa tem mais que essa conta para acertar. E o mal causado a estes dois rapazinhos?  disse Ebulan. E recuou, para que Ayla pudesse ver os meninos, apoiados 
num velho solene e cadavrico.
    Ayla se espantou com o aspecto do homem. Por um instante pensou estar diante de Creb. Ele era alto e magro, quando o santo do Cl fora baixo e atarracado, mas 
o rosto e os olhos tinham a mesma expresso de bondade e dignidade, e, como Creb, gozava, obviamente, da estima geral.
    Ayla pensou em prestar-lhe a homenagem de respeito que era de rigor no Cl, sentando-se aos ps dele e esperando, para falar, que ele lhe batesse no ombro. Mas 
sabia que essa pantomima seria mal interpretada ali. Optou, ento, pela cortesia mais formal.
            Jondalar  disse , no posso dirigir-me corretamente a este homem sem uma apresentao.
    Ele entendeu logo o que Ayla tinha em mente. Tambm se deixara impressionar pelo ancio. Adiantou-se, ento, e conduziu Ayla pela mo at ele.
            S'Amodun  disse , figura altamente respeitvel dos S'Armunai, permita que lhe apresente Ayla, do Acampamento do Leo, dos Mamuti, Filha da Lareira 
do Mamute, Escolhida pelo esprito do Leo das Cavernas, e protegida pelo Urso das Cavernas.
    Ayla se espantou com a ltima parte. Ningum jamais mencionara o Urso das Cavernas como seu protetor. Mas, pensando bem, a coisa fazia sentido  pelo menos atravs 
de Creb. O Urso das Cavernas o escolhera  era o totem do Mog-ur , e Creb figurava com tanta frequncia nos seus sonhos que ela tinha certeza de que ele velava 
por ela e guiava seus passos. Possivelmente com a ajuda do Grande Urso das Cavernas, do Cl.
            S'Amodun dos S'Armunai acolhe a Filha da Lareira do Mamute  disse o velho, tomando nas suas as duas mos de Ayla. Ele no era o primeiro a escolher 
a Lareira do Mamute como o ttulo mais relevante. Muitas pessoas ali sabiam da importncia da Lareira do Mamute para os Mamuti. A referncia fazia dela o equivalente 
de S'Armuna, Aquela que Servia  Me.
    A Lareira do Mamute! Naturalmente, pensou S'Armuna. Era inevitvel. Aquilo respondia a muitas perguntas no formuladas que tinha na cabea. Mas onde estava a 
tatuagem de Ayla? No eram todos os eleitos marcados com uma tatuagem?
            Fico feliz com a sua acolhida, Muito Respeitado S'Amodun  disse Ayla, falando em S'Armunai.
    O homem sorriu.
            Vejo que aprendeu muito da nossa lngua, mas disse agora a mesma coisa duas vezes. Meu nome  Amodun. S'Amodun j quer dizer Muito Respeitado ou Dignssimo, 
ou o que quer que voc tenha tido a inteno de dizer. Foi um ttulo imposto pela vontade do Acampamento. No sei se o mereo.
    Ela achava que sim.
            Eu agradeo, S'Amodun  disse Ayla, baixando os olhos e fazendo um sinal afirmativo de cabea. Assim de perto, ele se parecia ainda mais com Creb, com 
seus olhos grandes, fundos, luminosos, o nariz proeminente, as sobrancelhas fartas, os traos em geral marcantes. Tinha de vencer sua educao do Cl  mulheres 
no olham diretamente para os homens a quem dirigem a palavra , olhar para aquele velho e conversar com ele.
            Desejo fazer-lhe uma pergunta  disse, falando em Mamuti, por ser mais fluente nessa lngua.
            Responderei se puder  disse ele.
    Ela olhou os dois rapazes, que o enquadravam.
            Os membros deste Acampamento querem que Epadoa pague pelo mal que fez. Esses rapazes, em particular, sofreram nas mos dela. Amanh verei se posso fazer 
alguma coisa em favor deles, mas que castigo merece Epadoa por obedecer s ordens de sua lder?
    Involuntariamente, muitas pessoas olharam para o cadver de Attaroa, ainda estirado onde Lobo a deixara. Depois voltaram a ateno para Epadoa. A mulher permanecia 
ereta e impassvel, pronta para receber a punio que lhe fosse imposta. Sempre soubera que um dia teria de pagar.
    Jondalar olhou para Ayla com maior respeito ainda. Ela fizera o que devia fazer. Mesmo com a admirao de todos, nada que ela dissesse, como estranha, teria 
a fora das palavras de um homem como S'Amodun.
            Acho que Epadoa deve pagar  disse. Muitos manifestaram aprovao, principalmente Cavoa e sua me.  Mas no no outro mundo: neste mesmo. Ayla disse 
bem quando disse que  hora de mudar. J houve um excesso de violncia e de mal neste Acampamento. Os homens sofreram muito nos ltimos anos, mas tinham feito sofrer 
as mulheres, antes.  tempo de acabar com esse crculo vicioso.
     Ento, como Epadoa pagar?  perguntou a que perdera o filho  Que castigo receber?
     No haver castigo, Esadoa. Mas reparao. Epadoa ter de dar tanto quanto tomou, e mais. Pode comear com Doban. Por mais que a filha da Lareira do Mamute 
faa por ele,  improvvel que se recupere inteiramente. Ter efeitos do que lhe fizeram pelo resto da vida. Odevan tambm, mas esse tem me e outros parentes. Doban 
no tem me nem ningum que cuide dele, ningum que por ele se responsabilize ou veja que aprenda um ofcio e exera uma profisso. Eu faria Epadoa responsvel por 
ele como se fora seu prprio filho. Ela pode no ter amor por ele, ele pode ter dio por ela. No importa. Ela precisa pagar pelo que fez.
    Nem todo mundo concordou, mas houve sinais de aprovao. Algum tinha de cuidar de Doban. Embora todos sentissem pena dele, agora que era invlido, ningum o 
queria em casa. Lembravam-se da peste que tinha sido, quando morava com Attaroa. Por isso, se no concordassem com S'Amodun, poderiam ser obrigados por ele a receberem 
o rapaz em vez de Epadoa.
    Ayla sorria. Achava perfeita a soluo do velho. Embora pudesse haver rancor e desconfiana no princpio, era provvel que o relacionamento ficasse mais caloroso 
com o tempo. S'Amodun era um sbio A ideia de restituio era muito superior  de punio e lhe dava uma outra.
            Gostaria de oferecer uma sugesto  disse.  Este Acampamento no tem reservas suficientes para o inverno; de modo que pode haver fome na primavera. 
Os homens esto enfraquecidos e no caam h vrios anos. Muitos podem ter perdido a agilidade. Epadoa e suas mulheres so hoje, caadoras exmias. Penso que seria 
bom que elas continuassem a caar. Mas ficariam obrigadas a dividir os resultados da caa com toda a comunidade.
    Muitos concordaram. A ideia de passar fome os assustava.
     Logo que alguns homens se recuperarem e quiserem voltar s caadas, Epadoa ter a obrigao de ajud-los, e de caar com eles. A nica maneira de evitar a 
fome na prxima primavera  o trabalho em comum, de homens e mulheres. Todo Acampamento depende desse tipo de colaborao para prosperar. O resto das mulheres, e 
os homens mais velhos ou mais fracos, recolhero os alimentos que puderem encontrar.
     Mas j  inverno! No h nada para colher  disse uma das Mulheres-Lobas mais jovens.
     No h muito, concordo, e o que h d trabalho para achar e colher. Mas tudo o que for trazido ajuda  disse Ayla.
     Ela est certa. Eu mesmo tenho comido do que Ayla encontra e coleta, mesmo no inverno. Vocs todos comeram do que ela cozinhou, esta noite. Os pinheiros foram 
colhidos aqui perto, junto do rio.
     Aqueles liquens de que as renas gostam podem ser comidos  disse uma das mulheres mais velhas.  Basta saber prepar-los.
     E muitos trigos, painos e outros capins ainda tm sementes que podem ser apanhadas  disse Esadoa.
      verdade. Mas cumpre ter cuidado com o azevm, que pode ser fatal. Se tem mau aspecto, ou mau cheiro, talvez esteja cheio de ergotina e deve ser evitado  
alertou Ayla.  Mas certas bagas comestveis e muitas frutas ficam no p, mesmo no inverno. Achei at mas, outro dia. E a casca interna de muita rvore pode ser 
comida.
     Precisaramos de facas para isso  disse Epadoa.  As nossas no prestam.
            Eu farei facas novas para vocs  disse Jondalar.
     Voc me ensina a fazer facas, Zelandonii?  perguntou Doban.
    Jondalar ficou contente.
     Ensino voc a fazer facas e outras ferramentas tambm.
            Eu tambm quero aprender mais  disse Ebulan.  Vamos precisar de armas para caar.
            Estou disposto a ensinar-lhes o que quiserem, ou pelo menos mostrar-lhes o caminho. Talvez no prximo vero, se forem  Reunio dos S'Armunai, encontrem 
quem continue de onde eu tiver deixado.
    O sorriso do rapaz se apagou. Via que o Zelandonii no ia ficar.
     Mas enquanto estiver aqui, ajudarei  disse Jondalar.  Tivemos de fazer muitas armas de caa nesta Jornada.
     E aquela... vara... de arremesso, para lanas curtas, que ela usou para cortar sua corda?
    A pergunta era de Epadoa, e todo mundo se virou para ela. Era a primeira vez que a comandante das Mulheres-Lobas abria a boca, mas sua interveno fez com que 
todos se lembrassem do longo e acurado arremesso de azagaia com que Ayla tirara Jondalar do poste em que fora amarrado. A coisa lhes parecera a todos to miraculosa 
que ningum imaginara fosse uma arte que se pudesse aprender.
     Ah! O propulsor de azagaias. Sim, mostro a quem quiser ver como funciona.
            Inclusive s mulheres?  perguntou Epadoa.
     Por que no?  disse Jondalar.  Quando vocs tiverem armas de caa de boa qualidade, no precisaro mais ir at o Rio da Grande Me para lanar cavalos de 
um despenhadeiro abaixo. Vocs tm um dos melhores terrenos de caa aqui mesmo, que vi, s margens deste rio vizinho.
     Temos.  verdade  concordou Ebulan.  Lembro-me muito bem de que caavam mamutes. Quando eu era menino, usavam pr uma sentinela no morro para acender umas 
fogueiras de aviso se viesse alguma coisa.
            Eu sei  disse Jondalar.
    Ayla sorria.
            Vejo que a mudana est em curso. J no sinto o esprito de Attaroa andando por a  disse, afagando o pescoo de Lobo.
    Em seguida, dirigiu a palavra  chefe das lanceiras:
            Epadoa, aprendi a caar animais de quatro pernas quando comecei, inclusive lobos. A pele do lobo pode ser quente e servir para fazer um bom capuz. E 
se um lobo representa uma sria ameaa para algum, deve ser destrudo. Mas voc pode aprender mais observando lobos vivos do que pegando-os em armadilhas e comendo-os 
depois de mortos.
    As Mulheres-Lobas se entreolharam, com expresses de culpa. Como poderia ela saber? A carne de lobo era proibida para os S'Armunai, e considerada especialmente 
contra-indicada para mulheres.
    A chefe das caadoras estudou a estranha loura, procurando ver se havia nela mais do que  primeira vista se descobria. Agora que Attaroa estava morta, e que 
ela sabia que no teria o mesmo fim como castigo de seus atos, sentia um grande alvio. A lder fora to dominadora que a jovem Epadoa ficara enamorada e fizera 
muitas coisas para ser-lhe agradvel  coisas em que no queria nem pensar. Muitas j lhe pesavam quando as fizera, embora ela no quisesse admiti-lo na poca, nem 
mesmo para si mesma. Quando encontrou o estranho alto e louro, no curso de uma caa, esperava que, o levando como um brinquedo para Attaroa, esta liberasse para 
seu uso um dos homens do Depsito.
    Ela no quisera prejudicar Doban, mas tinha medo de desobedecer. Attaroa o mataria. Pois no matara aquela criatura que ela mesma tinha gerado? Por que a Filha 
do Lar do Mamute escolhera S'Amodun em vez de Esadoa para pronunciar a sua sentena? Essa escolha lhe salvara a vida. Mas no seria fcil viver doravante no Acampamento. 
Muita gente a odiava. Agradecia, mesmo assim, a chance que lhe fora dada de redimi-se. Ela cuidaria do rapaz, mesmo se ele a odiava. Devia-lhe isso, afinal de contas.
    Mas quem era, de fato, essa Ayla? Teria vindo expressamente para destruir Attaroa como todo mundo pensava? E o homem que andava com ela? Que mgica teria que 
as lanas no o atingiam? E onde tinham os homens do Depsito conseguido aquelas facas? Fora o Zelandonii o responsvel por isso? Ser que montavam cavalos, os dois, 
por serem esses animais os que as Mulheres-Lobas mais caavam, quando os outros grupos dos S'Armunai caavam mamutes como seus primos, os Mamuti? E aquele lobo 
no seria, na verdade, um esprito de lobo, vindo para vingar a sua raa? De uma coisa sabia com certeza: jamais mataria outro lobo na vida. E nunca mais se diria 
Mulher-Loba.
    Ayla se dirigiu para o lugar onde estava o corpo de Attaroa e viu S' Armuna. Aquela que Servia  Me observara tudo e no comentara quase nada. Ayla se lembrava 
bem do seu desespero e dos seus remorsos. Falou com ela em particular, e num tom de voz neutro.
            S'Armuna, mesmo que o esprito de Attaroa esteja deixando este Acampamento, no ser fcil reinstaurar o modelo antigo de vida e de comportamento. Os 
homens saram do Depsito, e alegro-me que se tenham libertado eles mesmos, pois se lembraro disso com orgulho, mas levaro muito tempo para esquecer Attaroa e 
seus anos de confinamento. S voc pode ajudar na instaurao de uma nova atmosfera, e essa  uma pesada responsabilidade.
    A mulher concordou de cabea. Sentia que lhe davam a oportunidade de redimir os abusos cometidos na sua qualidade de Servidora da Grande Me. Era mais do que 
esperara. A primeira coisa era sepultar Attaroa e enterrar, com ela, o passado. Precisava falar  multido.
            Sobrou comida. Vamos terminar este jantar todos juntos. E tempo de pr abaixo a cerca erguida neste Acampamento entre homens e mulheres. Tempo de partilhar 
a comida, o fogo, o calor da convivncia. Tempo de nos unirmos outra vez como um povo, e sem que haja grandes e pequenos. Cada um tem sua competncia e seu papel 
na comunidade. Se todos contriburem para o bem-comum, o Acampamento florescer.
    Homens e mulheres expressaram seu apoio. Muitos j se confraternizavam aps separados por tanto tempo. Outros mais vieram sentar-se  mesa, em busca de alimento, 
calor e companhia.
            Epadoa  chamou S'Armuna. E quando a mulher foi ter com ela:   tempo de levarmos o corpo de Attaroa e prepar-lo para o enterro.
     Para onde levaremos o cadver? Para dentro de casa?
            No. Vamos lev-lo para o Depsito. Pode ficar debaixo da coberta. Os homens devem dormir esta noite com conforto e no calor da casa de Attaroa. Muitos 
esto doentes. Todos esto enfraquecidos. Talvez tenhamos de aloj-los no pavilho por algum tempo. Voc tem onde dormir?
     Sim. Quando eu podia escapar de Attaroa, dividia um quarto com Unavoa no pavilho em que ela mora.
     Talvez deva mudar-se para l, se ela estiver de acordo, e se voc achar que isso lhe convm.
     Acho que ns duas gostaremos desse arranjo.
     Mais tarde discutimos uma instalao permanente, com Doban.
     Muito bem.
    Jondalar ficou observando Ayla, quando ela acompanhou Epadoa e as caadoras que levavam o corpo de Attaroa, e teve orgulho dela. Mas estava tambm um tanto surpreso. 
De certo modo, ela assumira o status e a sabedoria da prpria Zelandoni. Antes daquele dia s vira Ayla dominar uma situao dessa forma quando algum estava doente, 
ferido ou carente de cuidados especiais. Mas, pensando bem, aquela gente estava carente, doente e machucada. Talvez por isso no fosse to estranho que precisasse 
dela e que ela soubesse, to bem, o que fazer.
    De manh, Jondalar pegou os cavalos e foi buscar a bagagem maior que tinham deixado quando foram atrs de Huiin. Tanta coisa acontecera desde ento que ele agora 
se dava conta de que a Jornada se atrasara. Tinham estado com tal folga antes que ele achara que teriam tempo de sobra para atravessar o glaciar antes do inverno. 
Agora o inverno j chegara, e eles, longe.
    Aquele Acampamento precisava deles, e Jondalar sabia muito bem que Ayla no partiria sem antes fazer tudo o que julgasse indispensvel. Ele tambm prometera 
cooperao e ficava empolgado com a perspectiva de ensinar Doban e os outros a desbastarem ncleos de slex e a outros que o desejassem o manejo do propulsor de 
azagaias. Aquele ndulo de preocupao, no entanto, se instalara: eles tinham de atravessar a geleira antes que a fuso dos gelos na primavera tornasse a travessia 
muito arriscada. Era preciso partir o quanto antes.
    Ayla e S'Armuna trabalharam em equipe para recuperar os homens do Depsito. Para um homem a ajuda vinha tarde demais. Ele morreu de gangrena nas duas pernas 
naquela primeira noite em casa de Attaroa. Dos outros, muitos precisavam de tratamento a longo prazo ou de curativos imediatos. E estavam, todos, subnutridos. Cheiravam 
mal por causa da imundcie do Depsito e estavam inacreditavelmente sujos.
    SArmuna decidiu adiar a queima dos objetos de argila. No tinha tempo e no havia clima para aquilo. Ela achava, no entanto, que a cerimnia, realizada oportunamente, 
contribuiria para a pacificao dos nimos no Acampamento. Usaram o fogo da cermica para esquentar gua para o banho e tratamento dos homens. Eles precisavam mesmo 
era de comida e calor. Os que tinham mes, esposas ou parentes foram morar com as famlias depois dos primeiros cuidados.
    A situao dos meninos e adolescentes era o que mais indignava Ayla. At S'Armuna ficou horrorizada. Afinal, ela fechara os olhos  gravidade da situao.
    Naquela noite, depois de mais uma refeio coletiva, Ayla e S'Armuna expuseram alguns dos problemas que tinham encontrado e responderam perguntas. Foi exaustivo, 
e Ayla finalmente se rendeu: precisava repousar. Quando se levantou para retirar-se, um dos presentes fez uma pergunta sobre o caso de um menino. Ayla respondeu. 
Logo uma das mulheres fez um comentrio sobre Attaroa, responsabilizando-a por tudo e absolvendo a si mesma de qualquer culpa. Exasperada, Ayla fez uma declarao 
que era fruto da sua raiva acumulada e das canseiras daquele dia interminvel.
     Attaroa tinha uma personalidade forte, dominadora. Por mais forte que fosse, porm, duas, cinco, dez pessoas so mais fortes. Se todas vocs lhe tivessem resistido, 
ela poderia ter sido contida muito antes. De modo que todos neste Acampamento, mulheres e homens, so em parte responsveis pelo sofrimento desses menores. Por isso 
eu lhes digo que se algum deles, como resultado dessa... abominao, vier a sofrer por muito tempo, ter de ser cuidado coletivamente pelo Acampamento. Todos so 
responsveis por eles e pelo resto das suas vidas. Eles sofreram e por isso so favoritos de Muna. Quem lhes recusar auxlio ter de haver-se com Ela  avisou ela.
    Ayla lhes deu as costas e saiu, seguida de Jondalar. Suas palavras tiveram mais efeito do que imaginara. Muita gente j achava que ela no era uma pessoa comum, 
e havia at quem dissesse que era uma encarnao, um avatar, da prpria Grande Me, munai vivente, em forma humana, que viera para remover Attaroa e libertar os 
homens. Como explicar de outro modo que cavalos atendessem a um assovio seu? Ou que um lobo, grande at para os padres da sua espcie, a seguisse por toda parte 
e ficasse sentado e quieto quando ela mandasse? No fora a Grande Me quem dera vida s formas espirituais de todos os bichos?
    Segundo o que constava, a Me criara homens e mulheres por uma boa razo e lhes dera o Dom dos Prazeres para que eles A honrassem Os espritos combinados do 
homem e da mulher eram necessrios para criao de vidas novas. Muna em pessoa viera para esclarecer que todo aquele que procurasse criar Seus Filhos de outra maneira 
qualquer eram para Ela uma abominao. Pois no tinha mandado o Zelandonii para mostrar o que Ela sentia? Um homem que era a encarnao do Seu amante e companheiro? 
Mais alto e mais belo que muitos homens, to branco e to claro quanto a lua. Jondalar notava uma diferena na maneira como o Acampamento passara a trat-lo. E no 
gostava nada disso. Com tanta coisa para fazer naquele primeiro dia, mesmo com a colaborao de SArmuna e da maior parte dos membros do Acampamento, Ayla adiara 
o tratamento especial que pretendia dar aos meninos de perna deslocada. Ja S'Armuna adiara os funerais de Attaroa. Na manh seguinte, um terreno foi escolhido e 
a cova aberta Houve uma cerimnia simples, oficiada por Aquela que Servia  Me, e a antiga lder voltou ao p de onde viera, isto , ao seio da Grande Me Terra.
    Poucos lamentaram sua morte. Epadoa imaginara que no sentiria nada  mas sentiu. Como a maior parte das pessoas no Acampamento pensava diferente dela, a chefe 
das caadoras no podia expressar seus sentimentos. Mas Ayla soube ler na linguagem muda do seu corpo, em suas posturas e expresses, que ela lutava contra a emoo. 
Doban tambm teve comportamento surpreendente, e ela concluiu que ele estava lutando para organizar a confuso de emoes de que era o vrtice. Na maior parte da 
sua vida, Attaroa fora uma espcie de me para ele  a nica que conhecera. Sentiu-se atraioado quando ela se voltou contra ele, mas o amor daquela mulher sempre 
fora errtico, e ele no podia abrir mo de todo do sentimento de a feto que tinha por ela.
    Mgoas tinham de ser postas para fora. Ayla sabia disso, pois tambm perdera entes queridos. Pretendia tratar da perna do garoto depois do funeral, mas estava 
em dvida se no deveria esperar mais. Aquele dia podia no ser o mais indicado. Mas, por outro lado, ter alguma outra coisa em que pensar poderia ser bom para ela
e para o menino. Falou com Epadoa quando voltavam para o Acampamento depois do enterro.
     Vou tentar pr a perna deslocada de Doban no lugar. Preciso de algum que me auxilie. Voc pode fazer isso?
     No ser por demais doloroso?  indagou Epadoa. Lembrava-se muito bem dos urros que ele soltara, e comeava a assumir seu papel protetora do rapaz. Se no 
era seu filho, estava sob seus cuidados agora, e ele tomava a obrigao a srio. Sua vida, achava, dependia disso.
     Vou bot-lo para dormir. Ele no sentir nada. S depois, quando acordar, e, por algum tempo, ter de ser transportado de um lugar para o outro com toda cautela. 
Estar impossibilitado de andar por algum tempo.
     Eu o carrego  disse Epadoa.
    Quando voltaram para o Acampamento, Ayla comunicou ao rapaz que estava disposta a consertar a perna dele. la tentar, pelo menos. Ele fugiu, muito nervoso. Quando 
viu Epadoa, correu para ela, com os olhos cheios de medo.
     No quero! Ela vai me torturar!  gritou Doban. Se fosse capaz de fugir, teria fugido.
    Epadoa permaneceu de p, dura e imvel, junto da plataforma de dormir em que ele estava sentado.
     Eu no o machucarei. Prometo-lhe. Nunca mais. E no vou permitir que ningum o faa, nem mesmo essa mulher.
    Ele a encarou, apreensivo, mas desejando muito acreditar nela. Querendo desesperadamente acreditar nela.
     S'Armuna, por favor. Faa com que ele entenda o que vou dizer  pediu Ayla. Depois inclinou a cabea para poder olhar dentro dos olhos do rapaz.
     Doban, vou dar-lhe alguma coisa para beber. No tem gosto a agradvel, mas gostaria que voc bebesse tudo assim mesmo. Depois de algum tempo, voc ter sono. 
Muito sono. E quando isso acontecer, quero que se deite aqui mesmo. Durante o tempo em que estiver dormindo vou tentar pr sua perna no lugar. Voc no sentir nada, 
porque estar dormindo pesadamente. Quando acordar, ter um pouco de dor, mas tambm se sentir melhor, decerto modo. Se doer muito, voc dir... a mim a S'Armuna, 
a Epadoa. Haver sempre algum aqui, com voc, todo o tempo. E quem estiver aqui lhe dar algo para tomar que aliviar a dor Entendeu?
     Ser que Zelandon pode vir aqui falar comigo?
     Sim. Vou cham-lo, se quiser.
     E S'Amodun?
     Sim. Os dois. Se quiser.
    Doban olhou para Epadoa.
     E voc no deixar que ela me faa mal?
            Prometo. No deixarei que ela lhe faa mal. Nem ela nem ningum.
    Doban olhou para S'Armuna, depois de volta para Ayla.
            Onde est o que tenho de beber?
    O processo foi semelhante ao que ela usara para corrigir o brao de Roshario. A poo relaxava os msculos e anestesiava o paciente. Depois, puxar a perna era 
uma questo de fora fsica, mas quando ela voltou ao lugar isso ficou patente para qualquer um. Alguma coisa se quebrara, porm, como Ayla descobriu, e a perna 
no ficaria como nova. Mas o corpo pareceu quase normal outra vez.
    Epadoa retornou  casa em que morara por tanto tempo, uma vez que, na maior parte, os homens e rapazes tinham ido morar com as famlias, e ficou junto de Doban 
a maior parte do tempo. Ayla notou que eles comeavam a confiar um no outro. Era isso, achava ela, o que S'Amodun tivera em vista.
    O mesmo processo foi tentado com Odevan, mas Ayla achou que, no caso dele, o processo de cura seria mais difcil, e que a perna do menino ficaria permanentemente 
com uma tendncia de saltar fora da juno de vez em quando.
    S'Armuna estava impressionada com Ayla e tinha por ela uma espcie de temor respeitoso. Imaginava se os rumores a respeito. Imaginava se os rumores a respeito 
da mulher no teriam algum fundamento, afinal de contas. Ela parecia igual s outras, falava, dormia, tinha l Prazeres com aquele homenzarro louro como qualquer 
mulher, mas seus conhecimentos das plantas e de suas propriedades medicinais eram fenomenais. Todo mundo falava disso. S'Armuna ganhava prestgio por associao. 
E embora a Xam se tivesse acostumado com Lobo e no mais o temesse, era quase impossvel v-lo com Ayla e no verificar que ela controlava o esprito do animal. 
Quando o lobo no a acompanhava, seus olhos a seguiam por toda parte. O homem fazia a mesma coisa, mas era menos bvio que o bicho.
    A Xam no notava muito os cavalos porque eram deixados a pastar a maior parte do tempo. Ayla dizia que era bom para eles descansar um pouco e que se alegrava 
com isso  mas S'Armuna tinha visto os dois cavalgando. O homem montava o cavalo escuro com facilidade, sem dvida, mas quem visse a mulher em cima da gua julgaria 
que eram feitas da mesma carne.
    Mas, embora se maravilhasse, Aquela que Servia  Me ficava tambm ctica. Fora treinada pela zelandnia, e sabia que tais ideias eram, frequentemente, encorajadas. 
Aprendera e muitas vezes empregara tcnicas de enganar os outros, de fazer acreditar o que ela, e eles, queriam acreditar. No considerava isso como embuste ou fraude 
 ningum tinha tanta convico quanto ela da dignidade da sua vocao , empregava apenas os meios a seu alcance para tornar o caminho mais fcil e persuadir as 
pessoas. Muitos podiam ser ajudados assim, principalmente aqueles cujos problemas e doenas no tinham causa discernvel, exceto, talvez, alguma praga rogada por 
gente ruim e poderosa.
    Embora ela mesma no quisesse aceitar todos os rumores que corriam, S'Armuna no os coibia. A gente do Acampamento queria crer que tudo o que Ayla e Jondalar 
diziam era um pronunciamento da Me, e ela se valia dessa convico geral para implementar reformas necessrias. Quando Ayla mencionou os Conselhos Mamuti de Irms 
e de Irmos, por exemplo, S'Armuna organizou Conselhos semelhantes, ou inspirou sua organizao. Quando Jondalar sugeriu que se encontrasse algum de outro Acampamento 
para prosseguir no ensino da arte de desbastar ncleos de pedras-de-fogo, ela reforou com sua autoridade o envio de uma delegao a diversos acampamentos S'Armunai, 
para renovar ligaes de parentesco e restabelecer contatos rompidos.
    Numa noite clara e fria, de firmamento estrelado, um grupo de pessoas se reuniu  porta da antiga residncia de Attaroa, que se convertera, dadas as suas vastas 
dimenses, num centro de atividades comunitrias, depois de ter servido, no primeiro momento, como hospital de pronto-socorro e clnica de recuperao. Falavam do 
mistrio daquelas luzes que Peavam no cu, e S'Armuna respondia perguntas e dava explicaes, Ela passava tanto tempo ali ultimamente, curando com remdios e cerimonias, 
e reunindo-se com diferentes grupos para fazer planos e discutir problemas, que acabara por levar alguns pertences para l, deixando os dois estranhos sozinhos em 
seu pequeno pavilho. De tal modo que o Acampamento comeava a ficar parecido com outros Acampamentos e Cavernas que Ayla e Jondalar conheciam, e nos quais o alojamento 
Daquela que Servia  Me funcionava como um foco e centro de reunio para todo o povo.
    Depois que os dois hspedes se retiraram, com Lobo nos calcanhares, algum fez uma pergunta a S'Armuna sobre aquele animal que seguia Ayla por toda parte. Aquela 
que Servia  Me apontou uma das luzes do cu.
            Aquela  a Estrela do Lobo.  Foi tudo o que disse.
    Os dias passavam-se bem rpido. Quando os homens e meninos comearam a recuperar-se e j no precisavam dela como mdica e enfermeira, Ayla passou a sair com 
as equipes de coleta, em busca dos escassos alimentos vegetais do inverno. Jondalar fez progressos no ensino das suas artes de britador e armeiro, demonstrando como 
fazer e usar a mquina de lanar azagaias a distncia.
    O Acampamento comeou a armazenar suprimentos de uma variedade de alimentos, fceis de estocar e preservar em temperaturas glaciais, principalmente carne. De 
comeo, houve problemas de adaptao, quando os homens comearam a reivindicar alojamentos que as mulheres consideravam seus de direito, mas aos poucos a situao 
se normalizou.
    S'Armuna achou, ento, que o tempo era chegado para queimar no forno suas figurinhas de argila, e comeou a falar na realizao de uma Cerimnia do Fogo, com 
seus dois hspedes. Estavam na sala da olaria preparando o material do seu forno combustvel que ela reunira no vero e no outono para alimentar o fogo. Explicou 
que seria preciso muito mais lenha e que cortar lenha representava um trabalho insano.
     Voc no ser capaz de fazer ferramentas melhores de cortar lenha, Jondalar?  perguntou a Xam.
     Farei, com prazer, machados, marretas, cunhas e o mais que vocs quiserem, mas a madeira verde no queima direito  disse.
     Pretendo usar tambm ossos de mamute, mas precisamos de fogo forte desde o comeo, e ele tem de arder, sem interrupo, muito tempo. Uma Cerimnia dessas gasta 
um monte de lenha.
    Quando deixaram o pavilho, Ayla olhou, atravs do Acampamento, para o antigo Depsito. As pessoas vinham retirando pedaos dele. Mesmo assim, estava ainda de 
p. Ela sugerira que a paliada fosse usada como base de um curral, para onde animais podiam ser levados. A partir da, os moradores no tiraram mais madeira da 
cerca e agora que estavam acostumados com aquela estrutura nem notavam mais sua existncia.
    Contemplando-a da porta da casa de S'Armuna, Ayla teve uma ideia.
     No vai ser preciso cortar rvores. Jondalar pode fazer ferramentas para deitar abaixo o Depsito.  Os trs olharam e viram a paliada com novos olhos. S'Armuna 
viu mais que os outros, viu os contornos da sua nova cerimnia.        .
     Mas  perfeito!  exclamou.  A destruio daquele lugar de infmia para criar uma cerimnia indita e purificadora! Todos podero tomar parte nela e todos 
ficaro contentes com a desapario do Depsito. O ato simbolizar um novo comeo para ns, e vocs estaro presentes tambm.
     Disso no tenho certeza  disse Jondalar.  Quanto tempo levara a organizao da cerimnia?
     No  coisa que comporte aodamento.  importante demais.
     Foi o que pensei. Temos de partir muito em breve  disse Jondalar.
     Mas logo entraremos no perodo mais frio do inverno  objetou S'Armuna.
     E em seguida vem o degelo da primavera. Voc j atravessou aquele glaciar, S'Armuna. Sabe, ento, que isso s pode ser feito no inverno. E eu prometi a alguns 
Losadunai que iria visitar a Caverna deles na volta. Vamos passar uns dias l, com esses amigos. No podemos ficar muito tempo, mas ser um bom lugar para fazer 
escala e preparar a passagem.
    S'Armuna concordou:
     Ento uso minha Cerimnia do Fogo para abenoar a viagem de vocs. Muitos esperavam que ficassem conosco para sempre, e todos sentiro sua falta.
     Eu gostaria muito de ver cozer as argilas  disse Ayla  e de conhecer o beb de Cavoa, mas Jondalar tem razo.  hora de dizer adeus.
    Jondalar decidiu fazer as ferramentas de S'Armuna de imediato. Localizou uma boa concentrao de slex nas imediaes e foi com dois homens recolher algumas 
pedras de que pudesse tirar machados e outras ferramentas de cortar. Quanto a Ayla, comeou a preparar as bagagens e a ver o que mais seria necessrio na viagem. 
Esparramara tudo no cho quando viu que algum estava  porta. Era Cavoa.
     Estou incomodando, Ayla?
     De maneira nenhuma. Entre.
    A moa, grvida de nove meses, entrou e se sentou na beirada do estrado de dormir, de frente para Ayla.
     S'Armuna me disse que vocs esto de partida.
     Sim, dentro de um ou dois dias.
     Pensei que ficariam para a cerimnia.
     Eu queria ficar, mas Jondalar est ansioso por partir. Ele diz que precisamos atravessar a geleira antes da primavera.
     Fiz algo para voc, que s ia dar depois de cozido  disse Cavoa, tirando da saia um pequeno embrulho de couro.  Agora vou ter de dar assim mesmo, mas se 
ficar molhado estar perdido  concluiu, passando o presente s mos de Ayla.
    Era a cabea de uma leoa, modelada em argila.
            Que beleza, Cavoa!  mais que bonita. Voc captou a essncia de urna leoa das cavernas. No sabia que tinha esse talento.
    Cavoa sorriu.
            Voc gosta?
            Conheci um homem, um Mamuti, que esculpia em marfim. Era um grande artista. Foi ele quem me ensinou a apreciar coisas entalhadas ou pintadas. Estou 
certa de que admiraria a sua leoa.
            Tenho feito coisas de marfim, de madeira, de chifre desde que me entendo por gente. Foi por isso que S'Armuna me chamou para trabalhar com ela. S'Armuna 
tem sido maravilhosa comigo. Ela tentou ajudar a gente... Foi boa para Omel tambm. Permitiu-lhe guardar segredo e nunca exigiu nada dele, como outros teriam feito, 
nas circunstncia. Tanta gente tinha curiosidade de saber!  Cavoa baixou os olhos e pareceu lutar para conter as lgrimas.
            Sei que voc sente saudade dos seus amigos  disse Ayla, com doura.  Deve ter sido difcil para Omel guardar um segredo desses.
     Omel tinha de fazer segredo. Por causa de Brugar? S'Armuna disse que ele fez ameaas.
            No. No por Brugar, mas por Attaroa. Eu no gostava de Brugar e me lembro de como ele a responsabilizou brutalmente por Omel, embora eu fosse pequena. 
Mas penso que ele sentia mais medo de Omel do que Omel dele, e Attaroa sabia por qu.
    Ayla intuiu o que afligia Cavoa.
            E voc tambm sabia, no?
    A moa franziu a testa.
            Sim  disse em voz muito baixa. Depois olhou dentro dos olhos de Ayla.  Eu queria tanto que voc estivesse aqui quando fosse a minha hora! Quero que 
tudo saia direito para o beb, e no sei como...
    No era preciso dizer mais nada ou entrar em detalhes. Cavoa temia que a criana nascesse com alguma anormalidade, e nomear o mal apenas serve para fortalec-lo, 
como todo mundo sabe.
     Bem, no estou partindo j, e quem sabe? A meu ver, voc pode ter esse beb a qualquer momento  disse Ayla.  Talvez ainda estejamos aqui.
     Espero que sim. Voc fez tanto por ns. Como teria sido bom que tivesse vindo antes que Omel e os outros...
    Ayla viu que a moa tinha os olhos marejados.
     Eu sei, voc sente saudades, mas logo vai ganhar um beb, que ser s seu. Isso ajuda, vai ver. J pensou em um nome?
     Por muito tempo no pensei. No adiantava muito escolher um nome de menino, e eu no sabia se me deixariam dar nome a uma menina. Agora, se for menino, no 
sei se lhe dou o nome de meu irmo ou... de outro homem que conheci. Se for mulher, quero dar-lhe o nome de S'Armuna. Ela me ajudou a... v-lo...
    Um soluo de angstia interrompeu a frase. Ayla tomou a moa nos braos. A dor no precisa de palavras. Era bom para ela desabafar. Aquele Acampamento ainda 
estava cheio de sofrimento que precisava ser posto para fora. Ayla esperava que a cerimnia imaginada por S'Armuna ajudasse. Quando o choro finalmente passou, Cavoa 
se endireitou e enxugou os olhos com as costas da mo. Ayla procurou alguma coisa que pudesse servir para secar-lhe as lgrimas e abriu um embrulhinho que levava 
consigo havia anos. Cavoa poderia usar o couro, que era macio. Mas quando Cavoa viu o que havia dentro ficou pasma. Era uma munai, uma figurinha de mulher esculpida 
em marfim. S que essa munai tinha um rosto, e o rosto era o de Ayla.
    Cavoa tirou os olhos, como se tivesse visto algo indevido. Depois, saiu rapidamente. Ayla guardou a talha que Jondalar fizera para ela. Estranhava a reao da 
moa. Cavoa ficara visivelmente assustada.
    Procurou tirar aquilo da cabea, enquanto empacotava as coisas. Apanhou a bolsa das pederneiras para cont-las e saber quantas daquelas pedras de pirita de ferro, 
amarelo-acinzentado, ainda lhe restavam. Queria dar uma a S'Armuna, mas no sabia se seriam comuns na regio de Jondalar, e precisava ter algumas com que presentear 
os parentes dele. Resolveu dar uma assim mesmo, s uma, e escolheu um ndulo de bom tamanho. Depois guardou as demais.
    Saindo, depois, para ir  casa de Attaroa, viu que Cavoa deixava o edifcio justamente quando ela entrava. Sorriu-lhe, viu que a outra correspondia nervosamente, 
mas quando encontrou S'Armuna achou que a Xam tambm a fitava com estranheza. A munai de Jondalar criara um problema, ao que parecia. Ayla esperou at ficar sozinha 
com S'Armuna para dar-lhe a pederneira.
            Tenho um presentinho.  uma coisa que descobri quando vivia sozinha no meu vale  disse, abrindo a palma para mostrar-lhe a pedra.  Pensei que poderia 
us-la na sua cerimnia.
    S'Armuna olhou para a pedra e depois para Ayla, sem compreender.
            Eu sei que no parece, mas h fogo a dentro. Deixe que lhe mostre.
    Ayla foi at a lareira, reuniu gravetos e aparas e riscou a pedra. Uma grande fasca saltou fora e caiu no material inflamvel. Ela soprou, e logo, miraculosamente, 
uma pequenina chama apareceu. Ayla juntou-lhe um pouco mais de matria combustvel e quando ergueu os olhos S'Armuna a contemplava com a incredulidade estampada 
no rosto.
            Cavoa me contou que viu uma munai com seu rosto, e agora voc tira fogo de uma pedra. Voc ser... quem eles dizem que ?
    Ayla sorriu.
     Jondalar fez aquela talha. Por amor. Disse que ia captar o meu esprito. Depois me deu o marfim. No  um doni nem uma munai. Representa apenas um smbolo 
do seu afeto. Quanto ao fogo, terei prazer em ensinar a voc como se faz. No  arte minha,  algo que est na pedra.
     No sou demais?  A voz vinha da entrada, e ambas se viraram para ver quem era. Cavoa.
     Esqueci minhas mitenes e voltei para apanh-las.
    S'Armuna olhou para Ayla.
     No vejo por que no  disse Ayla.
     Cavoa  minha aclita  disse S'Armuna.
            Ento vou mostrar s duas como a pedra-de-fogo funciona  disse Ayla.
    Repetiu a operao, deixou que as duas experimentassem, e elas ficaram mais tranquilas, mas no menos extticas com as propriedades da pedra. Cavoa ganhou coragem 
e falou sobre a munai.
     Aquela figura que vi...
     Foi feita por Jondalar, pouco depois de nos conhecermos. Era uma prova de seu amor por mim.
            Voc quer dizer que se eu quisesse mostrar a uma pessoa o quo importante ela  para mim eu poderia fazer um retrato daquela pessoa?         perguntou 
Cavoa.
            Claro. Quando voc faz uma munai, sabe por que a est fazendo, tem um sentimento qualquer dentro de voc, no  mesmo?
     Sim, e o processo  acompanhado de certos rituais  disse a moa.
     Acho que  o sentimento que voc pe na obra que faz a diferena.
     Ento, posso fazer o rosto de uma pessoa se o sentimento que ponho no trabalho  bom?
     Sim, no vejo nada de errado nisso. Voc  uma excelente artista, Cavoa.
     Mas talvez fosse melhor no fazer a figura toda  disse S'Armuna.  Se fizer s a cabea, no haver confuso.
    Cavoa concordou. Depois as duas mulheres encararam Ayla, esperando pela aprovao dela. No fundo, ambas ainda se perguntavam quem era, de fato, aquela estranha.
    Ayla e Jondalar acordaram na manh seguinte com a firme inteno de partir, mas havia do lado de fora uma forte nevasca. To forte que no se via nada  frente.
            Acho que no podemos ir embora hoje, no com uma tempestade feito essa  disse Jondalar, detestando o adiamento.  Espero que passe logo.
    Ayla foi at o campo, chamou os cavalos, para ver se estavam bem. Ficou feliz quando eles surgiram da cerrao e levou-os para uma rea mais prxima do acampamento 
e mais protegida do vento. Na volta, pensava no itinerrio de retorno ao Rio da Grande Me, pois a partir dali era ela quem conhecia o caminho.
            Ayla!
    Algum chamou, mas to baixo que ela no ouviu. Foi preciso que a pessoa repetisse seu nome. Voltando-se, viu Cavoa, junto do pavilho da Xam, pedindo-lhe com 
um aceno que fosse ter com ela.
            O que foi, Cavoa?
            Quero mostrar-lhe uma coisa, para saber se gosta  disse a moa.
    Quando Ayla chegou mais perto, ela tirou a mitene. Tinha na palma da mo um objeto diminuto, da cor de marfim de mamute. Botou-o cuidadosamente na mo de Ayla.
            Acabei de faz-lo.
    Ayla contemplou o objeto e ficou maravilhada.
            Cavoa! Eu sabia que voc era boa nisso. Mas no to boa assim! disse, examinando com ateno o pequeno retrato de S'Armuna.
    Ela fizera s a cabea da mulher, sem sugesto de corpo, nem mesmo de pescoo. Mas no havia dvida de quem era a pessoa representada. O cabelo estava puxado 
para cima, formando um coque no alto. A face, estreita, era ligeiramente oblqua, com um lado um pouco menor que o outro. Mas a beleza e dignidade da mulher eram 
evidentes. Pareciam emanar do interior da pequenina obra de arte.
            Acha que ficou bom? Ser que ela gostar?  disse Cavoa  Quis fazer alguma coisa especial para S'Armuna.
     Eu gostaria  disse Ayla-, e penso que expressa muito bem seus sentimentos de afeto por ela. Voc tem um dom muito precioso e muito raro, Cavoa, mas deve us-lo 
bem. Pode haver grande poder nisso S'Armuna agiu muito bem escolhendo-a para aclita.
    A noite, a tempestade estava ainda mais forte. Ficou at perigoso andar mais do que uns poucos passos fora dos alojamentos. S'Armuna se ocupava em puxar um feixe 
de ervas secas pendurado do teto, junto da entrada, Para acrescent-lo a outros ingredientes de uma forte bebida que preparava para a Cerimnia do Fogo. Ayla e Jondalar 
tinham ido deitar-se e s havia brasas na lareira. A mulher pretendia tambm retirar-se logo que acabasse o que estava fazendo.
    Mas de sbito a pesada cortina da entrada da ante-sala foi aberta entrou uma lufada de ar frio e neve por baixo da segunda cortina, esta foi empurrada com violncia, 
e Esadoa apareceu.
            S'Armuna! Depressa!  Cavoa! A hora dela chegou.
    Ayla j estava fora da cama e se vestia antes que a Xam tivesse podido responder.
     Bonita noite ela arranjou para ter criana!  disse S'Armuna, conservando a calma, em parte para tranquilizar a av, que torcia as mos.  Vai dar tudo certo, 
Esadoa. Ela no ter o beb antes que a gente chegue  sua casa.
     Ela no est na minha casa. Insistiu em sair, com esta nevasca toda. Esta na casa grande, de Attaroa. No sei por que, mas  l que ela quer ter o beb. Pediu 
que Ayla tambm viesse. Ela diz que s assim ter certeza de que no haver nada de errado com a criana.
    S'Armuna franziu a testa.
            No h ningum l, esta noite, e Cavoa no devia ter sado com um tempo assim.
     Eu sei, mas no consegui dissuadi-la.  Fez meia-volta para ir-se embora.
     Espere, mulher  disse S'Armuna.  Vamos todas juntas,  melhor assim. A gente pode perder-se numa tempestade dessa, indo de uma casa para outra.
     Com Lobo no nos Perdemos  disse Ayla, chamando o animal, enrodilhado no p da cama.
     Ser pouco apropriado que eu v tambm?  perguntou Jondalar. No que quisesse estar Presente ao parto, mas se preocupava com a segurana de Ayla, na neve. 
S'Armuna consultou Esadoa com um olhar.
     Por mim, pode vir. Mas  certo homem em parto?
     Errado no   disse S'Armuna.  No h motivo por que no venha. Pode ser bom um homem por perto, uma vez que a moa no tem companheiro.
    Enfrentaram, todos juntos, a violncia da ventania. Quando alcanaram a casa grande de Attaroa, viram a mulher, dobrada sobre si mesma, ao lado de uma lareira 
apagada e fria, com o corpo tenso de dor e olhos arregalados de medo. Ela respirou melhor ao v-los. Em uma questo de minutos, Ayla tinha acendido o fogo  para 
grande espanto de Esadoa , e Jondalar sara a apanhar neve numa vasilha para derreter e fazer gua. Esadoa encontrara a roupa de cama, que fora guardada fez um 
leito na plataforma, e S'Armuna escolheu ervas de que poderiam precisar, de um lote que levara para l anteriormente.
    Ayla acomodou a moa na cama, arranjando tudo de modo a que ela se sentisse confortvel, sentada ou deitada, como preferisse, mas esperou por S'Armuna, e as 
duas a examinaram juntas. Depois de tranquilizarem Cavoa e deix-la com a me, as duas curandeiras confabularam em voz baixa, num canto.
     Voc notou?  perguntou S'Armuna.
     Notei  disse Ayla.  E voc sabe o que isso quer dizer?
     Acho que sim, mas vamos esperar para ver.
    Jondalar procurara no atrapalhar, mas agora alguma coisa na expresso das mulheres lhe fez ver que estavam preocupadas. Aproximou-se delas em silncio, mas 
no disse nada. Sentou-se numa plataforma e ficou afagando o pescoo do lobo. Ele tambm ficara ansioso. Queria que o tempo passasse mais depressa, e acabou andando 
de um lado para o outro, enquanto as mulheres aguardavam. Jondalar queria que a neve cessasse ou que ele tivesse alguma coisa para fazer. Falou com a parturiente 
um pouco, procurando encoraj-la, sorriu-lhe repetidas vezes, mas se sentia um intil. Por fim, e como a noite se eternizasse, cochilou um pouco em uma das camas, 
enquanto os sons fantasmagricos da tempestade de neve continuavam l fora, em contraponto aos peridicos gritos e gemidos dos trabalhos de parto, que, vagarosa 
mas inexoravelmente, caminhavam, paralelos, para um desfecho.
    Foi acordado por vozes excitadas e um surto frentico de atividade. Viu luz pelas fendas em torno do orifcio do teto. Levantou-se, espreguiou, esfregou os 
olhos e saiu, ignorado pelas trs mulheres, e urinar no lado de fora. Alguns flocos de neve ainda rodopiavam ao vento, mas a tempestade amainara de forma considervel, 
o que muito o alegrou.
    Quando se preparava para voltar, ouviu o berreiro inconfundvel de um recm-nascido. Sorriu, mas esperou do lado de fora. No sabia se podia entrar. Mas, de 
repente, e para grande surpresa dele, ouviu outro choro, que se juntou ao primeiro, em dueto. Dois berreiros sucessivo? no pde resistir e entrou.
    Ayla, com um menino j enfaixado nos braos, sorriu-lhe mal o viu  porta.
            Um menino, Jondalar!
    S'Armuna erguia no ar um segundo beb, preparando-se para atar o cordo umbilical.
            E uma menina  disse.  Gmeos!  um bom augrio. To poucos bebs nasceram quando Attaroa era lder! Mas agora penso que a tendncia vai mudar. Acho 
que a Me nos d com isso um sinal de que o Acampamento das Trs Irms logo estar crescendo e ficar cheio de vida outra vez.
     Vocs voltaro, algum dia?  perguntou Doban. Estava andando agora com muito maior desembarao, embora ainda usasse a muleta que Jondalar fizera para ele.
            Creio que no, Doban. Uma longa Jornada  bastante. Agora  tempo de voltar para casa, deitar razes, fundar meu lar.
            Gostaria que voc morasse mais perto, Zelandon.
            Eu tambm gostaria. Voc vai ser um excelente arteso, e eu gostaria de continuar a prepar-lo para isso. E voc bem que poderia chamar-me de Jondalar.
     No. Voc  Zalandon.
     Quer dizer Zelandonii?
            No, Zelandon mesmo.
    S'Amodun sorriu.
            Ele no se refere ao nome do seu povo. Arranjou outro nome para voc: Elandon. Mas prefere honr-lo com essa frmula de respeito: S'Elandon.
    Jondalar corou de prazer e acanhamento.
            Obrigado, Doban. Talvez eu devesse cham-lo S'Ardoban.
            Ainda no. Um dia, quando eu souber trabalhar o slex como voc, a sim, pode ser que me chamem S'Ardoban.
    Jondalar deu um abrao apertado no rapaz, bateu no ombro de alguns outros e conversou um pouco com o grupo. Os cavalos, j com todos os petrechos no lombo, e 
prontos para partir, estavam um pouco afastados. Lobo, porm, deitara-se no cho, de olhos em Jondalar. levantou-se quando viu que Ayla saa da casa comunal com 
S'Armuna. Jondalar tambm se alegrou ao v-las.
      ...sim, sem dvida,  uma beleza  dizia a Xam , e eu estou emocionada que ela tenha querido fazer isso, mas... voc no acha... perigoso?
            Enquanto tiver em seu poder a reproduo do seu rosto, que mal lhe poder advir? Nenhum. Pode, at, servir para aproxim-la ainda mais da Grande Me, 
dar-lhe uma compreenso mais aprofundada dos Seus mistrios  disse Ayla.
    As duas abraaram-se e S'Armuna deu tambm um grande abrao em Jondalar. Recuou, depois, quando ele chamou os cavalos, mas tocou-o pelo brao, depois, para mais 
uma palavra.
     Jondalar, quando estiver com Marthona, diga-Ihe que S'Armu... no, diga-lhe que Bodoa manda lembranas.
     Certamente. Ela ficar feliz  disse ele, montando.
    Voltaram-se uma vez para acenar, ele e Ayla, mas era um alvio para Jondalar seguir viagem. Jamais seria capaz de recordar aquele Acampamento sem uma sensao 
conflitante.
    A neve comeou a cair, de leve, quando j se afastavam. Os moradores do Acampamento das Trs Irms deram adeus, de longe.
     Boa viagem, S'Elandon!
     Boa viagem, S'Ayla!
    E quando desapareceram por trs daquela cortina de neve danante no houve uma s pessoa que no acreditasse  ou quisesse acreditar  que os dois tinham estado 
l para livr-los de Attaroa e libertar os homens do Acampamento. Logo que os dois estivessem longe da vista deles a transformao se operaria. Convertidos na Grande 
Me Terra e seu Louro Companheiro Celestial, cavalgariam o vento, cus afora, acompanhados por sua fiel protetora, a Estrela do Lobo.

34
___________________________________________________________________________

    Voltaram em direo ao Rio da Grande Me, com Ayla liderando a marcha, pela mesma trilha que tinham seguido para encontrar o Acampamento dos S'Armunai, mas quando
chegaram ao cruzamento resolveram vadear o pequeno afluente e depois rumar para sudoeste. Cavalgavam pelo mato, acompanhando as plancies serpenteantes da antiga
bacia que separava os dois grandes sistemas montanhosos, sempre na direo do rio.
    Apesar de nevar pouco, tinham muitas vezes de se proteger do vento cortante. No frio intenso, os flocos secos de neve eram atirados de um lado para outro pelos 
ventos incessantes, at se transformarem numa poeira de gelo, s vezes misturada com as partculas pulverizadas de p de pedra  loess , que vinham das margens 
das geleiras mveis. Quando o vento se tornava especialmente forte, esfolava-lhes a pele. As ervas crestadas, nos lugares mais expostos, j havia muito tinham sido 
aplanadas, mas os ventos, que impediam que a neve se acumulasse, a no ser em locais abrigados, expunham a forragem amarelada o suficiente para que os cavalos pastassem.
    Para Ayla, a viagem de volta pareceu muito mais rpida, j que no procurava seguir uma trilha em terreno difcil, mas Jondalar surpreendeu-se com a distncia 
que tiveram de percorrer antes de chegarem ao rio. No se dera conta do quanto tinham ido na direo do norte. Acreditava que o Acampamento dos S'Armunai no estivesse 
distante do Grande Gelo.
    Seu clculo estava correto. Se houvessem seguido para o norte, poderiam ter alcanado a colossal muralha do lenol de gelo continental numa caminhada de dois 
dias ou pouco mais. No comeo do vero, pouco antes de haverem iniciado a Jornada, haviam caado mamutes na face gelada afiada de uma vasta barreira setentrional, 
mas bem para leste. Desde ento, tinham descido toda a extenso da vertente oriental de um imenso arco recurvado de montanhas, em torno da base sul, e subido o flanco 
ocidental da cordilheira, quase chegando de novo  geleira.
    Deixando para trs os ltimos afloramentos e as encostas das montanhas que haviam dominado suas viagens, viraram para oeste ao atingir o Rio da Grande Me e 
comearam a se aproximar dos contrafortes setentrionais da cadeia ocidental, ainda maior e mais alta. Estavam refazendo o caminho percorrido, procurando o lugar 
onde haviam deixado o equipamento e as provises, seguindo a mesma rota que tinham comeado no incio da estao, quando Jondalar acreditara que tivessem tempo de 
sobra... at a noite em que Huiin fora levada pelo rebanho selvagem.
            Os sinais parecem conhecidos... Deve ser por aqui  disse ele.
            Acho que voc tem razo. Eu me lembro daquele penhasco, mas o resto parece to diferente  disse Ayla, contemplando com desalento a paisagem modificada.
    Uma quantidade maior de neve tinha-se acumulado naquela rea. A margem do rio estava congelada, e, com a neve juntando-se em montes e enchendo todas as depresses, 
era difcil determinar onde a margem terminava e o rio comeava. Os ventos fortes e o gelo, que se formara nos galhos durante perodos alternados de congelamento 
e degelo, no princpio da estao, haviam derrubado vrias rvores. Ramos e galhos pendiam sob o peso da gua congelada; cobertos de neve, muitas vezes se afiguravam 
aos viajantes como outeiros ou montes de pedras, at se romperem quando tentavam subir neles.
    A mulher e o homem detiveram-se junto de um arvoredo e examinaram com cuidado a rea, tentando descobrir alguma coisa que lhes desse uma pista do local onde 
haviam guardado a tenda e a comida.
            Devemos estar perto. Sei que o lugar  este, mas est tudo to diferente  disse Ayla. Depois fez uma pausa e olhou para o homem.  Muitas coisas so 
diferentes do que parecem ser, no , Jondalar?
    Ele a olhou com uma expresso de quem no entendia.
            Bem, no inverno realmente as coisas so diferentes do vero.
            No me refiro somente ao lugar  respondeu Ayla.   difcil explicar.  como aconteceu quando partimos e S'Armuna lhe pediu que dissesse  sua me 
que ela mandava lembranas, mas ela falou que era Bodoa que as mandava. Era por esse nome que sua me a chamava, no era?
     , tenho certeza que foi isso que ela quis dizer. Quando pequena, provavelmente era chamada de Bodoa.
     Mas ela teve de abandonar seu nome quando se tornou S'Armuna. Tal pai como o Zelandoni de quem voc fala, o que voc conheceu como Zolena  disse Ayla.
     O nome foi abandonado espontaneamente. Faz parte das obrigaes de uma pessoa que se torna Aquele que Serve  Me  disse Jondalar.
     Compreendo. Foi a mesma coisa quando Creb se tornou O Mogur. Ele no tinha de renunciar ao nome com que nasceu, mas quando ele estava oficiando uma cerimnia 
como O Mog-ur, era outra pessoa. Quando ele era Creb, era como seu totem de nascimento, o Gamo, acanhado e sossegado, sempre calado, quase como se estivesse espiando 
de um esconderijo. Mas quando ele era Mog-ur, ento se tornava poderoso e autoritrio, como seu totem do Urso da Caverna  disse Ayla.  Nunca era exatamente como 
parecia ser.
     Voc  um pouco assim, Ayla. Na maior parte do tempo voc presta muita ateno e no fala muito, mas quando algum est sofrendo ou em dificuldades, voc quase 
se transforma em outra pessoa. Assume o controle. Diz s pessoas o que devem fazer e elas fazem.
    Ayla franziu a testa.
            Nunca pensei nisso. Tudo o que quero  ajudar.
            Eu sei. Mas  mais do que querer ajudar. Voc em geral sabe o que fazer, e a maioria das pessoas percebe isso. Acho que  por isso que fazem o que voc 
manda. Acho que voc poderia ser Aquela que Serve  Me, se quisesse  disse Jondalar.
    Ayla franziu ainda mais a testa.
            No creio que eu desejasse isso. No gostaria de perder meu nome.  a nica coisa que me sobrou de minha verdadeira me, da poca em que eu vivia com 
o Cl  disse a moa. De repente, ficou tensa e apontou para um montculo coberto de neve, estranhamente simtrico. Jondalar! Olhe ali!
    O homem olhou para onde ela apontava, e demorou um pouco para perceber do que se tratava. Depois deu-se conta da estranheza da forma.
            Seria aquilo...?  murmurou, fazendo Racer dar um salto adiante.
    O montculo situava-se em meio a um emaranhado de espinhos, o que os animou ainda mais. Desmontaram. Jondalar achou um galho resistente e avanou, abrindo caminho 
na moita. Ao chegar junto do montculo simtrico, bateu nele e a neve caiu, deixando  mostra o bote virado.
             a!  exclamou Ayla.
    Bateram e sacudiram os galhos espinhemos, at conseguirem chegar ao bote e aos pacotes sob ele, cuidadosamente embalados.
    O esconderijo no fora inteiramente eficaz, e a primeira indicao disso lhes foi dada por Lobo. Era bvio que ele estava agitado com um cheiro que ainda pairava 
por ali, e quando acharam excrementos de lobo, descobriram o porqu. O esconderijo fora depredado por lobos e, em alguns casos, haviam conseguido rasgar alguns dos 
pacotes cuidadosamente amarrados. At mesmo a tenda se achava rasgada, mas surpreendeu-os que a situao no fosse ainda pior. Em geral os lobos no conseguiam ficar 
longe de couro, material que adoravam mastigar.
            O repelente! Deve ter sido ele que evitou que causassem ainda maior dano!  disse Jondalar. Alegrava-o que a mistura de Ayla tivesse no s mantido 
seu companheiro de viagem canino afastado de suas coisas como mais tarde mantivera tambm outros lobos a distncia.  E dizer que durante todo o tempo achei que 
Lobo estivesse dificultando nossa Jornada! Pelo contrrio, se no fosse ele, provavelmente no teramos agora nem mesmo a tenda. Chegue aqui, rapaz  disse Jondalar, 
batendo no peito e convidando o animal para apoiar as patas nele.  Outra vez! Salvou nossas vidas, ou ao menos nossa tenda.
    Ayla ficou a observ-lo, enquanto o homem metia a mo no plo do animal, e sorriu. Estava satisfeita por v-lo mudar de atitude em relao a Lobo. No que Jondalar 
algum dia tivesse sido mau com ele, ou mesmo que no o aprovasse. Mas nunca fora assim to amistoso e gentil. Era bvio que tambm Lobo apreciava aquela ateno.
    O dano teria sido muito maior se no fosse o repelente, mas o preparado no mantivera os lobos longe de suas provises, que haviam sido reduzidas em muito. Desaparecera 
a maior parte da carne-seca e dos alimentos prontos, e muitos pacotes de frutas secas, legumes e cereais tinham sido abertos ou estavam faltando, talvez levados 
por outros animais depois da partida dos lobos.
     Acho que devamos ter aceitado mais daquela comida que os S'Armunai nos ofereceram quando samos  disse Ayla.  Mas o que tinham no bastava para eles mesmos. 
Quem sabe podemos voltar?
     Eu preferiria no fazer isso  disse Jondalar.  Vamos ver o que sobrou. Caando, poderemos dispor de comida suficiente para chegar at os Losadunai. Thonolan 
e eu encontramos alguns deles e passamos uma noite em sua companhia. Convidaram-nos para voltar e ficar com eles um tempo.
     Eles nos dariam alimentos para prosseguirmos a Jornada?  perguntou Ayla.
     Acho que sim  respondeu Jondalar. Depois sorriu.  Na verdade, sei que faro isso. Eles tm uma dvida comigo!
     Dvida?  perguntou Ayla, com expresso interrogativa.  So Seus parentes? Como os Xaramudi?
     No, no so parentes, mas so amigos, e j comerciaram com os Zelandonii. Alguns sabem falar a lngua.
     Voc j falou disso antes, mas nunca entendi direito o que significa "dvida", Jondalar.
     Uma dvida  uma promessa de dar qualquer coisa que for pedida em algum momento futuro, em troca de alguma coisa que tenha sido dada ou, em geral, ganha no 
passado. No mais das vezes, trata-se de pagar o que se perdeu no jogo e no se pde pagar na ocasio, mas  usado em outros sentidos tambm  explicou o homem.
     Quais outros sentidos?  quis saber Ayla. Tinha a sensao de que ainda no captara tudo, e que lhe seria importante compreender.
     Bem, s vezes pagar a uma pessoa por alguma coisa que ela fez, em geral algo de especial, mas de difcil avaliao  disse Jondalar.  Como no tem limites 
especificados, uma dvida pode ser uma obrigao pesada, mas a maioria das pessoas no pede mais do que o justo. Muitas vezes, o simples fato de aceitar a obrigao 
de uma dvida demonstra confiana e boa-f.  uma maneira de oferecer amizade.
    Ayla assentiu. Havia mais coisas a compreender.
            Laduni tem para comigo uma dvida  continuou o homem.  No se trata de uma coisa grande, mas ele est no dever de me dar turdo o que eu pedir, e eu 
poderia pedir qualquer coisa. Creio que ele ter prazer de saldar sua obrigao apenas com um pouco de comida. Alis, com certeza ele nos daria isso de toda maneira.
            Daqui at os Losadunai  longe?  perguntou Ayla.
            Um bom estiro. Eles vivem no extremo ocidental daquelas montanhas, e ns estamos no extremo oriental, mas a viagem no ser difcil se acompanharmos 
o rio. No entanto, vamos ter de atravess-lo. Eles vivem do outro lado, mas podemos fazer isso no curso alto do rio.
    Decidiram passar a noite ali, e cuidadosamente revisaram tudo o que tinham. A maior parte do que haviam perdido era formada por comida. Depois de juntarem tudo 
que podia ser aproveitado, a pilha era pequena mas compreenderam que a situao poderia ter sido pior. Teriam de caar e coletar durante grande parte da viagem, 
mas a maior parte do equipamento estava intacto e prestaria bons servios com alguns consertos. No entanto, a bolsa de carne tinha sido despedaada. O bote protegera 
o esconderijo do tempo, embora no dos lobos. De manh teriam de decidir se continuariam ou no a arrastar o bote arredondado, coberto de pele.
            Estamos entrando numa regio mais montanhosa. Dar mais trabalho lev-lo do que deix-lo por a  disse Jondalar.
    Ayla estivera verificando os mastros. Dos trs que ela usara para manter a comida longe dos animais, um estava quebrado, mas s precisavam de dois para o tren.
            Acho que por enquanto devemos lev-lo. Depois, se ele se transformar num problema srio, sempre podemos abandon-lo.
    Rumando para oeste, logo deixaram para trs a bacia deprimida das plancies ventosas. O curso leste-oeste do Rio da Grande Me, que acompanhavam, assinalava 
a linha de uma portentosa batalha entre as mais poderosas foras da Terra, uma batalha travada no ritmo infinitamente lento do tempo geolgico. Para o sul ficavam 
os contrafortes das altas montanhas ocidentais, cujos cumes mais altaneiros jamais eram aquecidos pelos dias suaves do vero. Os pinculos acumulavam neve e gelo 
ano aps ano, e, mais alm, os picos da cordilheira refulgiam no ar claro e frio.
    Os planaltos ao norte eram constitudos pelas rochas cristalinas bsicas de um imenso macio, vestgios arredondados e aplainados de antigas montanhas desgastadas 
no decurso de um sem-fim de eras. Haviam-se soerguido nos primrdios da formao do planeta e estavam ancorados no escudo rochoso mais profundo. Contra aquela fundao 
inabalvel, a fora irresistvel dos continentes, que subiam lenta e inexoravelmente do sul, havia esmagado e dobrado a crosta ptrea da Terra, levantando o descomunal 
sistema de montanhas que se estendia pela regio.
    No entanto, o antigo macio no escapara inclume s grandes foras que tinham criado a cordilheira majestosa. As inclinaes, as falhas e a fratura das rochas, 
percebidas na descontinuidade de sua solidificada estrutura cristalina, contavam, na pedra, a histria dos violentos dobramentos e compresses que ela sofrera ao 
resistir s presses inconcebveis que vinham do sul. Na mesma poca haviam-se formado no somente a vasta cadeia ocidental que tinham  esquerda, soerguida pelo 
empurro de continentes que forcejavam contra o escudo resistente, como tambm alonga e curva cadeia oriental que tinham contornado, bem como toda a srie de montanhas 
que continuavam, na direo leste, at os mais altos picos do mundo.
    Mais tarde, durante a Idade dos Gelos, quando as temperaturas anuais se tornaram mais baixas, a coroa congelada desceu bastante pelas encostas das colossais 
cordilheiras, recobrindo at elevaes modestas com um rebrilhante revestimento de cristal. Preenchendo e ampliando vales e ravinas,  medida que lentamente avanava, 
o gelo glacial deixou atrs de si lenis e terraos de cascalho, esculpiu afiladas torres de pedra nos pinculos mais jovens. A neve e o gelo haviam tambm recoberto 
os planaltos setentrionais no inverno. Entretanto, apenas a maior elevao, mais prxima s montanhas nevadas, sustentava uma geleira real, uma duradoura camada 
de gelo que persistia no vero e no inverno.
    Como os contrafortes em meia-lua das montanhas erodidas ao norte se espraiavam em mesetas e terraos relativamente planos, os cursos altos dos rios que corriam 
por aquela rea antiga tinham vales rasos e gradientes modestos, embora se tornassem mais acidentados na parte mdia do curso. A no ser os que se precipitavam em 
cachoeira diretamente da face do macio, os rios que desciam pelas encostas mais ngremes da vertente sul eram mais rpidos. A demarcao entre o suave planalto 
norte e o sul montanhoso era a frtil rea de rico loess pelo qual corria o Rio da Grande Me.
    Ayla e Jondalar estavam seguindo em linha quase reta para oeste, enquanto prosseguiam a Jornada, seguindo pela margem norte do imponente rio, atravs das plancies 
do vale fluvial. Embora j no fosse o gigantesco e caudaloso Rio da Grande Me que tinha sido anteriormente, na parte alta de seu curso, ele ainda era imponente, 
e depois de alguns dias novamente se dividiu em vrios canais.
    Com mais meio dia de viagem, chegaram a outro grande afluente cuja confluncia turbulenta, pois ele provinha de uma regio mais alta, mostrava-se estupenda, 
com pingentes de gelo que se desdobravam em cortinas congeladas e barrancos de gelo quebrado, bordeando ambas as margens. Os rios que se juntavam no norte j no 
provinham dos planaltos contrafortes das conhecidas montanhas que estavam deixando para trs Esse caudal descia da regio desconhecida a oeste. Em vez de atravessar 
o rio perigoso ou de tentar segui-lo corrente acima, Jondalar decidiu-se por voltar atrs e cruzar as vrias ramificaes do prprio Rio da Grande Me.
    A deciso mostrou-se acertada. Conquanto alguns dos canais fossem largos e estivessem atulhados de gelo nas margens, na maior na maior parte das vezes a gua 
glida mal chegava s ilhargas das montarias. S mais tarde, naquela noite, deram pela coisa, mas Ayla e Jondalar, os dois cavalos e o lobo tinham, afinal, atravessado 
o Rio da Grande Me. Depois de suas perigosas e traumticas aventuras em outros rios, fizeram-no com to poucos incidentes que quase se decepcionaram, mas nem por 
isso se aborreceram.
    No frio enregelante do inverno, o simples ato de viajar j era perigoso. A maioria das pessoas estavam aconchegadas em cabanas aquecidas e amigos e parentes 
apressavam-se a procurar quem quer que ficasse fora de casa por muito tempo. Ayla e Jondalar estavam inteiramente entregues a si prprios. Se alguma coisa acontecesse, 
s podiam contar um com o outro e com seus companheiros quadrpedes.
    O terreno gradualmente tornou-se ascendente, e comearam a observar uma mudana sutil na vegetao. Abetos e larios surgiam entre os pinheiros perto do rio. 
Nas plancies dos vales fluviais, a temperatura era extremamente baixa; devido a inverses atmosfricas, com frequncia mais baixas do que em pontos mais altos das 
montanhas circundantes. Embora neve e gelo branquejassem nos cumes, a neve raramente caa no vale fluvial. A pouca neve que caa, leve e seca, produzia um pequeno 
lenol sobre o cho gelado, exceto em ravinas e depresses, e s vezes nem mesmo ali. Quando faltava neve, o nico modo de conseguirem gua de beber, para eles e 
para os animais, consistia em usarem os machados de pedra para arrancar lascas de gelo do rio congelado e as derreterem.
    Aquilo fez com que Ayla prestasse mais ateno nos animais que vagueavam pelas plancies junto do vale do Rio da Grande Me. Eram as mesmas variedades que tinham 
visto nas estepes ao longo do percurso, mas predominavam as criaturas que gostavam do frio. Ayla sabia que tais animais podiam subsistir alimentando-se da vegetao 
seca, fcil de encontrar nas plancies despojadas de neve, mas se ps a imaginar de que modo encontrariam gua.
    Pensou que talvez os lobos e outros carnvoros provavelmente bebessem o sangue dos animais que caavam, j que vagueavam por um amplo territrio, e podiam encontrar 
locais com neve ou gelo solto. Mas o que dizer dos cavalos e outros herbvoros? Como encontrariam gua numa regio que no inverno se convertia num deserto gelado? 
Em certos pontos havia neve suficiente, mas em geral a regio era nua, coberta apenas de rochas e gelo. No entanto, por mais que uma regio fosse rida, se houvesse 
alguma forragem ela seria habitada por animais.
    Conquanto ainda raros, Ayla viu mais rinocerontes lanudos do que j observara em um nico local, e embora no formassem rebanhos, sempre que avistavam rinocerontes 
em geral viam tambm bois almiscarados. Ambas as espcies preferiam as plancies abertas, frias e batidas pelo vento, mas os rinocerontes gostavam de ervas e carrios, 
enquanto os bois-almiscarados, como capriniformes que eram, mordiscavam os arbustos mais altos. Grandes veados e os gigantescos megacervdeos, de enormes aspas, 
tambm partilhavam a terra congelada, assim como equinos de grossas capas de inverno. Mas se havia animais que se destacavam entre as populaes do vale do curso 
alto do Rio da Grande Me, eram os mamutes.
    Ayla jamais se cansava de observar essas enormes bestas. Embora de vez em quando fossem objeto de caa, eram to destemidas que pareciam quase dceis. Muitas 
vezes permitiam que o homem e a mulher chegassem bem perto deles, no os julgando ameaadores. Se perigo havia, era para os seres humanos. Embora os mamutes lanosos 
no fossem as criaturas mais gigantescas de sua espcie, eram porm os maiores animais que os seres humanos j tinham visto, ou que a maioria deles chegaria a ver. 
Com os plos ainda mais eriados por causa do frio e com as imensas presas recurvas, pareciam ainda maiores, de perto, do que Ayla se recordava.
    Suas presas colossais comeavam, nos filhotes, com colmilhos de trs dedos de comprimento  incisivos superiores ampliados. Depois de um ano, caam e eram substitudos 
por presas permanentes que, a partir da, cresciam continuamente. Embora as presas dos mamutes fossem adornos sociais, importantes em interaes no seio da prpria 
espcie, tinham tambm uma funo mais prtica. Eram usados para quebrar gelo, coisa para a qual os mamutes tinham extraordinria capacidade.
    Da primeira vez que Ayla vira mamutes fazendo isso, estivera observando um grupo de fmeas aproximar-se do rio gelado. Vrias delas usavam as presas, um pouco 
menores e mais retilneas que as dos machos, para arrancar pedaos de gelo presos em buracos de rochas. Ayla a princpio no entendeu o que se passava, at notar 
uma fmea pequena erguer um pedao de gelo com a tromba e met-lo na boca.
     gua!  exclamou Ayla.   assim que conseguem gua, Jondalar. Eu estava pensando em como faziam.
     Tem razo. Nunca pensei muito nisso antes, mas agora acho que Dalanar comentou alguma coisa a respeito. Mas existem muitos ditados sobre os mamutes. O nico 
de que me recordo : "Se para o norte os mamutes vo, no viajar  boa deciso", embora se possa dizer o mesmo com relao aos rinocerontes.
            No entendi esse ditado  disse Ayla.
            Significa que vem por a uma tempestade  respondeu Jondalar  Eles sempre parecem pressentir. Esses grandalhes peludos no gostam muito da neve. Ela 
encobre o alimento deles. Podem usar as presas e as trombas para afastar parte da neve, mas quando ela fica realmente espessa, atolam nela. O pior de tudo  quando 
comea a degelar. Eles se deitam de noite, quando a neve ainda est mole por causa do sol da tarde, e de manh o plo est grudado no cho. No conseguem mover-se. 
Nessa hora  fcil ca-los, mas se no h caadores por perto e a neve no derreter, podem lentamente morrer de fome. Sabe-se de alguns que morreram de frio, principalmente 
filhotes.
            O que isso tem a ver com seguirem para o norte?
            Quanto mais perto se chega do gelo, menos neve. Lembra-se de quando estvamos caando com os Mamuti? A nica gua que havia era a corrente que descia 
da prpria geleira, e isso foi no vero. No inverno, tudo est congelado.
             por isso que h to pouca neve por aqui?
     Sim, essa regio sempre foi fria e seca, principalmente no inverno. Todo mundo diz que  porque as geleiras esto muito perto. Ficam nas montanhas ao sul, 
e o Grande Gelo no est muito distante, no norte. A maior parte da regio entre esses dois pontos  de cabea-chatas... Eu me refiro  regio dos Cls. Ela comea 
um pouco a oeste daqui.  Jondalar notou a expresso de Ayla diante de seu lapso, e ficou embaraado.  De qualquer modo, existe outro ditado a respeito de mamutes 
e de gua, mas no me lembro direito como .  alguma coisa assim: "Se no conseguir achar gua, procure um mamute.
     Isso eu entendo  disse Ayla, lanando a vista para alm dele. Jondalar virou-se para olhar.
    As fmeas haviam subido a corrente e juntado foras com alguns machos. Diversas fmeas estavam trabalhando num banco de gelo estreito, quase vertical, que se 
formara ao longo da margem do rio. Os machos maiores, entre os quais um mais idoso, com riscas de plo grisalho, cujas presas majestosas, ainda que menos teis, 
tinham crescido tanto que se cruzavam na frente, arranhavam enormes blocos de gelo das margens. Depois, levantando-os bem alto com as trombas, os mamutes os atiravam 
ao cho com estrpito, para quebr-los em pedaos mais fceis de usar, tudo isso acompanhado de urros, zurros, coices e gritos. As enormes criaturas pareciam estar-se 
divertindo com aquilo.
    Essa barulhenta atividade era uma coisa que todos os mamutes aprendiam. At mesmo filhotes de apenas dois ou trs anos, que mal tinham perdido os colmilhos, 
j mostravam desgaste nas extremidades externas de suas minsculas presas de cinco centmetros, de tanto arranhar gelo, e as pontas das presas de mamutes de dez 
anos, j com meio metro, mostravam-se lisas de anos de moverem a cabea para cima e para baixo encontra as superfcies verticais. Quando os jovens mamutes chegavam 
aos 25 anos, suas presas j comeavam a crescer para a frente, para cima e para dentro, e mudavam ento o modo de us-las. As superfcies inferiores comeavam a 
revelar algum desgaste, causado por quebrar o gelo e empurrar para o lado a neve que caa sobre as ervas e as plantas secas das estepes. No entanto, essa atividade 
de quebrar gelo podia ser perigosa, pois muitas vezes as presas se quebravam junto com o gelo. Mas mesmo os tocos quebrados muitas vezes tambm se desgastavam, pois 
os animais continuavam a us-los para romper pedaos de gelo.
    Ayla notou que outros animais tinham-se reunido em torno. Os rebanhos de animais lanudos, com suas presas poderosas, quebravam gelo suficiente para si, at mesmo 
para os animais jovens e os idosos, e tambm para uma comunidade de vizinhos. Muitos animais se beneficiavam por seguir nas pegadas dos mamutes em migrao. Os enormes 
animais lanudos no s formavam pilhas de pedaos soltos de gelo no inverno, que eram chupados por outros animais, como no vero s vezes usavam as presas e os ps 
para cavar buracos nos leitos secos de rios, que se enchiam de gua. Os bebedouros assim criados tambm eram usados por outros animais para mitigar a sede.
    Ao acompanharem o rio congelado, a mulher e o homem cavalgavam, e muitas vezes caminhavam, bem perto das margens do Rio da Grande Me. Com to pouca neve, no 
havia nenhum macio manto branco a cobrir a terra, e a vegetao latente expunha sua pardacenta face invernal. Os altos caules dos juncos do vero erguiam-se valentes 
do leito pantanoso congelado, ao passo que fetos e carrios mortos se prostravam junto do gelo amontoado ao longo das margens. Liquens agarravam-se s rochas como 
escaras de contuses, e os musgos haviam se transformado em estiolados tapetes quebradios.
    Os dedos longos e esquelticos de galhos desfolhados estalavam no vento feroz e cortante, embora somente um olho treinado pudesse distinguir se eram de salgueiros, 
btulas ou o qu. As conferas de verde mais escuro  abetos, lanos e pinheiros  eram mais fceis de identificar, e embora as btulas tivessem perdido as agulhas, 
sua forma era reveladora. Quando os dois viajantes subiam colinas um pouco mais altas para caar, viam btulas ans e pinheirinhos dobrados rentes ao cho.
    Pequenos animais de caa constituam a maior parte de suas refeies; a caa grossa em geral exigia mais tempo para abater do que estavam dispostos a perder, 
conquanto no hesitassem em tentar matar um veado quando o viam. A carne congelava depressa, e at Lobo durante algum tempo no precisava caar. Coelhos, lebres 
e um castor ocasional, abundantes nas montanhas, eram o que mais os alimentavam, mas havia tambm animais da estepe, de climas mais continentais, marmotas e roedores 
gigantes, e os viajantes sempre se alegravam ao ver ptrmigas, as gordas aves brancas de ps emplumados.
    A funda de Ayla era sempre usada com destreza; eles preferiam poupar as lanas para caa de maior porte. Era mais fcil achar pedras do que fazer novas lanas 
para substituir as que se perdiam ou quebravam. entretanto, havia dias em que a caa lhes consumia mais tempo do que desejavam, e tudo quanto consumisse tempo deixava 
Jondalar nervoso.
    s vezes suplementavam a dieta, constituda de carne concentrada ou magra, com a casca interior de conferas e outras rvores, em geral transformada numa sopa 
com carne, e ficavam satisfeitos ao encontrar bagas, congeladas mas ainda presas aos arbustos. As bagas de zimbro, particularmente boas com carne, se no usadas 
em excesso, eram as mais comuns; as amoras eram menos comuns, porm abundantes quando encontradas, e sempre mais doces depois de se congelarem; as camarinheiras, 
com sua folhagem espinhenta, tinham pequeninas bagas pretas que muitas vezes persistiam inverno adentro, tal como as uvas-ursinas azuis e outras bagas vermelhas.
    s sopas de carne tambm se acrescentavam gros e sementes, colhidas laboriosamente em ervas secas que ainda tinham as sementeiras embora encontr-las demandasse 
tempo. A maior parte da folhagem das ervas que davam sementes havia muito tinha-se desintegrado, e as plantas se mantinham latentes  espera dos degelos da primavera 
que as despertariam para uma nova vida. Ayla lembrava-se com pesar das frutas e legumes secos que tinham sido destrudos pelos lobos, embora no lamentasse as provises 
que dera aos S'Armunai.
    Huiin e Racer eram quase exclusivamente herbvoros no vero, mas Ayla notou que agora tinham passado a mordiscar pontas de paus, mascando a casca interna de 
rvores, e que chegavam a se alimentar de uma determinada espcie de lquen, tambm apreciada pelas renas. Juntou um pouco desse lquen e preparou para ela e Jondalar. 
Acharam o sabor forte, mas tolervel, e Ayla passou a experimentar maneiras de cozinh-lo.
    Outra fonte de alimentao de inverno eram pequenos roedores como arganazes, ratos e lemingues; no os animais propriamente  em geral Ayla permitia que Lobo 
ficasse com eles, como recompensa por farej-los , mas seus ninhos. Ficava  espreita dos sinais sutis que indicavam uma toca, e depois quebrava a terra gelada 
em volta com um pau. Encontrava os animaizinhos cercados pelas sementes, nozes e bulbos que haviam guardado.
    E Ayla tinha tambm sua bolsa de remdios. Quando se lembrava de todo o dano que fora causado s coisas que tinham deixado no esconderijo, estremecia ao pensar 
no que poderia ter ocorrido se ela tivesse deixado ali a bolsa de remdios. No que ela pudesse ter feito isso, mas o simples fato de pensar na possibilidade lhe 
revoltava o estmago. Era uma coisa to ligada a ela que teria se sentido perdida se no a tivesse consigo. O importante era que os materiais na bolsa de pele de 
lontra, assim como os antigos conhecimentos acumulados por experincia e erro, conhecimentos que lhe haviam sido transmitidos, mantinham os viajantes mais saudveis 
do que se davam conta.
    Por exemplo, Ayla sabia que vrias ervas, cascas e razes podiam ser usadas para tratar e evitar determinadas doenas. Embora ela no as chamasse de doenas 
carenciais, no tivesse um nome para as vitaminas e minerais, em doses vestigiais, que as ervas continham, e nem mesmo soubesse direito como atuavam, carregava muitas 
delas em sua bolsa de remdios. Regularmente preparava, com essas ervas, chs que ambos bebiam.
    Ayla usava tambm a vegetao fcil de encontrar at mesmo no inverno, como as agulhas de plantas sempre-verdes, especialmente os rebentos novos nas pontas dos 
ramos, ricas em vitaminas que preveniam o escorbuto. Regularmente as acrescentava aos chs dirios, sobretudo por apreciarem o sabor crtico e adstringente, muito 
embora ela soubesse que faziam bem e tivesse uma boa ideia de quando e como us-los. Com frequncia havia preparado ch de agulhas para pessoas com gengivas sanguinolentas, 
cujos dentes ficavam soltos depois de longos invernos em que se alimentavam basicamente de carnes secas, por opo ou necessidade.
     medida que avanavam para oeste haviam definido um estilo de caa e coleta que lhes deixava o mximo de tempo possvel para viajar. Embora uma ou outra refeio 
fosse frugal, raramente eliminavam de todo uma refeio, e consumindo to pouca gordura e exercitando-se duro todos os dias, perdiam peso. No falavam muito a respeito, 
mas ambos estavam se cansando da viagem e ansiavam por chegar a seu destino. De dia, alis, mal falavam.
    Cavalgando ou caminhando a p, puxando os cavalos, Ayla e Jondalar muitas vezes seguiam um atrs do outro, bastante perto para escutar um comentrio se feito 
em voz alta, mas no o suficiente para manterem uma conversa. Em resultado disso, ambos dispunham de muito tempo para dedicar a seus prprios pensamentos, sobre 
os quais s vezes conversavam de noite, quando estavam comendo ou deitados, um ao lado do outro, sobre as peles de dormir.
    Ayla muitas vezes pensava nas experincias recentes deles. Estivera refletindo sobre o Acampamento das Trs Irms, comparando os S'Armunai e seus lderes cruis, 
como Attaroa e Brugar, com seus parentes, os Mamuti e seus co-Lderes, cooperativos e amistosos. E ficava a pensar sobre os Zelandonii, a gente do homem a quem 
ela amava. Jondalar tinha tantas boas qualidades que Ayla tinha certeza de que eles eram basicamente pessoas boas; mas considerando os sentimentos deles em relao 
ao Cl, ela ainda se perguntava se a aceitariam. At mesmo S'Armuna fizera referncias indiretas  forte averso que sentiam pelos que chamavam de cabeas-chatas, 
mas Ayla tinha certeza de que nenhum Zelandonii seria um dia to cruel quanto a mulher que fora a lder dos S'Armunai.
            No imagino como Attaroa pde fazer tanta maldade, Jondalar  observou Ayla, ao terminarem a refeio certa noite. No sei como  possvel.
            Em que est pensando?
     Em meu tipo de gente, os Outros. Quando conheci voc, fiquei to feliz por finalmente encontrar uma pessoa como eu. Foi um alvio saber que eu no era a nica 
no mundo. Depois, quando voc se mostrou uma pessoa to maravilhosa, to bom, carinhoso e amigo, imaginei que toda minha gente fosse como voc e isso me fez sentir 
bem  disse ela. Esteve para acrescentar que se sentira assim at ele reagir com tanta m vontade quando ela lhe contou a respeito de sua vida com o Cl, mas mudou 
de ideia ao ver Jondalar sorrir, enrubescido de prazer.
    Ele sentira um assomo de alegria diante das palavras dela, pensando no quanto tambm aquela mulher era maravilhosa.
     Depois, quando encontramos os Mamuti, Talut e o Acampamento Leo  continuou Ayla , tive certeza de que os Outros eram boa gente. Ajudavam-se uns aos outros, 
e todos participavam das decises. Eram cordiais e riam muito, no rejeitavam uma idia s porque nunca a tinham ouvido antes. Havia Frebec,  claro, mas no final 
das contas ele no era to mau. Mesmo aqueles na Reunio de Vero, que ficaram contra mim durante algum tempo por causa do Cl, e at alguns dos Xaramudi... fizeram 
aquilo tudo por medo, e no porque tivessem ms intenes. Mas Attatora era perversa como uma hiena.
            Attatora no passava de uma pessoa  lembrou-lhe Jondalar.
     , mas veja como era influente. S'Armuna usou o conhecimento sagrado que possua para ajudar Attaroa a matar e ferir pessoas, mesmo que depois se arrependesse 
disso, e Epadoa estava disposta a fazer tudo quanto Attaroa quisesse  disse Ayla.
     Tinham motivos para isso. As mulheres tinham sido maltratadas  respondeu Jondalar.
     Eu conheo os motivos. S'Armuna achava que estava fazendo o certo, e creio que Epadoa gostava de caar e amava Attaroa por deixar que o fizesse. Conheo essa 
sensao. Eu tambm adoro caar e me indispus com o Cl e fiz coisas que no devia fazer, s para caar.
     Bem, agora Epadoa pode caar para todo o Acampamento e no acho que ela fosse to m  disse Jondalar.  Ela parecia estar descobrindo o tipo de amor que uma 
me sente. Doban me disse que ela lhe prometeu que nunca mais lhe faria mal e que jamais permitiria que algum lhe fizesse mal  disse Jondalar.  Os sentimentos 
dela por Doban podem ser at mais fortes porque ela lhe fez tanto mal e agora tem oportunidade de compens-lo.
     Epadoa no desejava fazer mal queles rapazes. Contou a S'Armuna que tinha medo de que, se no fizesse o que Attaroa desejava, ela os mataria. Foram esses 
os motivos dela. At Attaroa tinha seus motivos. Houve tanta coisa de ruim na vida dela que se tornou m. No era mais uma pessoa humana, mas nenhum motivo basta 
para desculp-la. Como lhe foi possvel fazer as coisas que fez? At Broud, por pior que fosse, no era to ruim, e ele me odiava. Nunca fez mal a crianas de propsito. 
Eu costumava pensar que minha gente era excelente, mas j no tenho essa certeza  disse ela, com uma expresso triste e desolada.
     Ayla, existe gente boa e gente m, e todo mundo tem aspectos bons e aspectos maus  disse Jondalar. A testa franzida demonstrava preocupao. Percebia que 
ela estava tentando ajustar as novas percepes que juntara, depois de sua mais recente experincia desagradvel, em seu modo de ver as coisas, e ele sabia que isso 
era importante.  Mas a maioria das pessoas  decente e procura ajudar umas s outras. Elas sabem que isso  necessrio, pois afinal nunca se sabe quando se vai 
precisar de auxlio, e em geral as pessoas preferem ser cordiais.
             Mas existem certas pessoas deformadas, como Attaroa  disse Ayla.
              verdade  anuiu o homem, obrigado a concordar.  E existem outras que s do o que tm se obrigadas, e prefeririam no isso. Mas nem por essa razo 
so ms.
     Mas uma pessoa ruim Pode tirar o que existe de pior em pessoas boas, como Attaroa fez com S'Armuna e Epadoa.
     Acho que o mximo que podemos fazer  impedir que as pessoas ms e cruis cometam perversidades em excesso. Talvez devamos nos sentir felizes por no haver 
muita gente como ela. Mas Ayla, no deixe que uma pessoa m estrague a viso que voc tem das pessoas em geral.
     Attaroa no pode fazer com que eu mude de opinio a respeito das pessoas que conheo, e tenho certeza de que voc tem razo em relao  maioria das pessoas, 
Jondalar. Mas ela me tornou mais prudente, mais cautelosa.
     No h mal algum em voc ser um pouco cautelosa, a princpio, mas de as pessoas a oportunidade de mostrar seu lado bom antes de consider-las ms.
    O planalto do lado norte do rio os acompanhava  proporo que prosseguiam na trilha rumo a oeste. rvores deformadas pelo vento, nos topos arredondados e nos 
plats planos do macio, eram silhuetadas contra o cu. O rio voltou a dividir-se em vrios canais numa plancie baixa que formava um recncavo. As fronteiras sul 
e norte do vale mantinham suas diferenas caractersticas, mas o escudo rochoso se mostrava fendido e falhado at grandes profundidades entre o rio e o contraforte 
calcrio da alta montanha meridional. Para o lado oeste avistava-se a ngreme encosta calcria de uma linha de falha. O curso do rio voltou-se para noroeste.
    A extremidade sul da plancie era tambm bordejada por uma crista de falha, causada menos pelo soerguimento do calcrio do que pela depresso do recncavo. Para 
as bandas do sul, o terreno se estendia plano por alguma distancia, antes de elevar-se em direo s montanhas, porm o plato grantico no norte aproximava-se mais 
do rio, at subir abruptamente, bem do outro lado da corrente.
    Acamparam no recncavo. No vale junto ao rio, a casca lisa e cinzenta dos ramos nus de faias apontava entre btulas, abetos, pinheiros larios; a rea era suficientemente 
protegida para permitir o crescimento de algumas arvores decduas latifoliadas. Perto do arvoredo vagueava, um tanto perplexas, uma pequena manada de mamutes, tanto 
fmeas quanto machos. Ayla chegou mais perto para ver o que se passava.
    Havia um mamute no cho, um animal idoso e gigantesco, com as enormes presas cruzadas na frente. Ayla ficou a imaginar se aquele era o mesmo grupo que ela vira 
antes, quebrando gelo. Poderiam haver dois manutes tao velhos na mesma regio? Jondalar caminhava a seu lado.
     Acho que ele est morrendo. Gostaria de poder fazer alguma coisa por ele   disse Ayla.
     E provvel que ele no tenha mais dentes. Quando isso acontece, no se pode fazer coisa alguma, a no ser o que eles esto fazendo. Ficar com ele fazer-lhe 
companhia  disse Jondalar.
      possvel que nenhum de ns possa pedir mais do que isso  disse Ayla.
    Apesar de serem relativamente compactos, cada mamute adulto consumia uma enorme quantidade de comida a cada dia, sobretudo ervas altas e, vez por outra, arbustos. 
Por causa dessa dieta, seus dentes eram essenciais. Tinham tamanha importncia que a durao da vida de um mamute era determinada por seus dentes.
    Um mamute lanudo desenvolvia vrios conjuntos de molares no decorrer de sua vida, que alcanava cerca de setenta anos, em geral seis de cada lado, em cima e 
embaixo. Cada dente pesava aproximadamente trs quilos e meio e estava especialmente adaptado a triturar ervas grosseiras. Sua superfcie era formada por muitas 
cristas extremamente duras, finas e paralelas  chapas de dentina recobertas de esmalte , e tinham coroas maiores e mais cristas do que os dentes de qualquer animal 
de seu gnero, antes ou depois dele. Os mamutes eram essencialmente herbvoros. As tiras de cascas que arrancavam s rvores, principalmente no inverno, bem como 
as folhas, ramagens e arbustos ocasionais, ocupavam uma posio secundria em sua alimentao, constituda basicamente de duras ervas fibrosas.
    Os primeiros molares, os menores, formavam-se perto da frente de cada maxilar, enquanto os demais cresciam atrs deles e se moviam para a frente numa progresso 
constante durante a vida do animal, sendo que somente um ou dois dentes eram usados ao mesmo tempo. Por mais dura que fosse, a superfcie trituradora se desgastava 
ao passar para a frente, e as razes se dissolviam. Por fim, os ltimos fragmentos inteis de dente caam quando os novos passavam a lhes ocupar o lugar.
    Os dentes finais estavam usados por volta dos cinquenta anos de idade, e quando j estavam por desaparecer, o idoso animal j no tinha condies de mascar a 
erva dura. Na primavera, folhas e plantas mais macias podiam ser consumidas, porm em outras estaes elas no existiam. Tomado de desespero, o velho desnutrido 
muitas vezes deixava o rebanho, em busca de pastagens mais verdes, mas s encontrava a morte. A manada sabia quando o fim estava iminente, e no era incomum ver 
os animais compartilhando os ltimos dias do ancio.
    Os outros mamutes protegiam os moribundos tanto quanto os recem-nascidos, e juntavam-se em torno, tentando erguer o companheiro prostrado. Quando tudo terminava, 
enterravam o ancestral morto debaixo de pilhas da terra, ervas, folhas ou neve. Sabia-se que os mamutes enterravam os cadveres de outros animais, at mesmo de homens.
    Ayla e Jondalar, bem como seus companheiros quadrpedes, verificaram que a rota se tornava mais ngreme e mais difcil depois que deixaram para atrs a plancie 
e os mamutes. Estavam se aproximando de uma garganta. Um dos contrafortes do antigo macio setentrional havia- se estendido muito longe em direo ao sul e achava-se 
dividido pelas guas do rio. Os viajantes subiram ainda mais quando o rio se precipitou pelo estreito desfiladeiro, com suas guas demasiado rpidas para se congelarem, 
mas carregando pedaos de gelo em trechos mais tranquilos a oeste. Era estranho ver gua corrente depois de tanto gelo. Diante das muralhas alcantiladas no sul havia 
plats, montes de topos planos, com densos grupos de conferas, os galhos pintalgados de neve. As ramagens finas de arvores e arbustos estavam como que gravadas 
em branco, devido a uma cobertura de chuva congelada, que destacava cada ramo e cada galho, extasiando Ayla com sua beleza invernal.
    A altitude continuava a aumentar, e as plancies entre as cristas nunca eram da mesma altitude que a anterior. O ar era frio e claro, e, mesmo quando o cu se 
mostrava nublado, no caa neve. A nica umidade presente no ar provinha da respirao exalada pelos dois viajantes e seus mimais.
    O rio de gelo se tornava menor a cada vez que passavam por um vale congelado. No extremo ocidental da plancie havia outra garganta. Escalaram a crista rochosa 
e, ao chegarem ao ponto mais elevado, se detiveram, pasmos diante do panorama. Em frente deles, o rio se dividira mais uma vez. No sabiam os viajantes que era a 
ltima vez que ele se dividia nas ramificaes e canais que haviam caracterizado seu progresso pelas plancies pelas quais correra por tanto tempo. A garganta logo 
diante da plancie descrevia uma curva acentuada ao juntar em um s os diversos canais, provocando um remoinho furioso que atirava pedaos de gelo e detritos flutuantes 
em suas profundidades, antes de vomit-los numa corredeira mais  frente, onde as guas logo voltavam a se congelar.
    Pararam no ponto mais alto, olharam para baixo e ficaram a contemplar um pequeno tronco a girar e girar, descendo mais fundo a cada volta.
     Eu no gostaria de cair ali  disse Ayla, com um estremecimento.
     Nem eu  concordou Jondalar.
    O olhar de Ayla fixou-se em outro ponto a distncia.
     De onde vm aquelas nuvens, Jondalar? Est gelando, e os morros esto cobertos de neve.
     H fontes de guas termais por ali, guas aquecidas pelo hlito quente da Doni em pessoa. Muita gente tem medo de chegar perto desses lugares, mas as pessoas 
que quero visitar moram perto de uma dessas fontes termais, ou pelo menos assim me disseram. As fontes termais so sagradas para eles, ainda que algumas delas tenham 
um cheiro nauseabundo. Dizem que usam a gua para curar doenas.
     Quanto tempo levaremos para chegar at essas pessoas que voc conhece? Essas que usam a gua para curar doenas?  perguntou Ayla. Tudo quanto lhe pudesse 
aumentar o cabedal de conhecimentos mdicos lhe despertava o interesse. Alm disso, a comida comeava a escassear, ou no se dispunham a perder tempo  procura de 
alimentos. De qualquer modo, j haviam dormido com fome algumas vezes.
     O aclive do terreno aumentou perceptivelmente depois da ltima plancie fluvial. Agora estavam cercados por montanhas de ambos os lados. A Plataforma de gelo, 
ao sul, aumentava de tamanho  medida que seguiam para oeste. Para os lados do sul, mas ainda na direo geral oeste, dois picos se alteavam bastante acima de todos 
os demais cumes, um mais elevado que o outro, como um casal que vigiasse a prole.
    No ponto em que o planalto se tornou plano, perto de um vau do rio, Jondalar enveredou para o sul, afastando-se do rio, na direo de uma nuvem de vapor que 
subia a distncia. Subiram um morro e l de cima olharam para baixo; do outro lado de uma campina recoberta de neve, via-se um manancial de guas fumegantes, perto 
de uma caverna.
    Vrias pessoas haviam notado que eles chegavam e os fitavam, consternados, demasiado chocadas para se moverem. Um homem, entretanto, brandia uma lana na direo 
deles.

35
___________________________________________________________________________

     Acho melhor apearmos e nos aproximarmos deles a p  disse Jondalar, enquanto observava vrios homens e mulheres, armados de lanas, que se aproximavam.  
A esta altura, eu devia ter me lembrado de que as pessoas sentem medo e desconfiana de quem monta cavalos. Provavelmente deveramos t-los deixado fora da vista 
e chegado a p, e s buscar os animais depois que tivssemos tempo de explicar a situao.
    Desmontaram, e Jondalar lembrou-se de repente, com tristeza, do "irmozinho" Thonolan, com seu sorriso largo e amistoso, caminhando com segurana na direo 
de uma Caverna ou um Acampamento de estranhos. Considerando a recordao um sinal, o homem louro e alto abriu-se num sorriso, acenou, empurrou para trs o capuz
de seu parka, para que pudesse ser visto com mais facilidade, e adiantou-se com as mos estendidas. Procurava demonstrar que vinha em paz, sem nada a esconder.
     Estou  procura de Laduni, dos Losadunai. Eu sou Jondalar, dos Zelandonii. Meu irmo e eu viajamos juntos na direo do leste, numa Jornada, faz alguns anos, 
e Laduni nos pediu que quando voltssemos lhe fizssemos uma visita.
     Eu sou Laduni  falou um homem, com um ligeiro sotaque Zelandonii. Caminhou na direo deles, com a lana em riste, examinando com cuidado o estranho para 
verificar se era mesmo a pessoa que dizia ser.  Jondalar? Dos Zelandonii? Voc  parecido com o homem que conheci.
    Jondalar percebeu o tom de cautela.
            Porque sou eu mesmo! Que bom v-lo de novo, Laduni  disse ele, afvel.  No tinha certeza de que este fosse o lugar certo. Fui at o final do Rio 
da Grande Me, e ainda mais alm. Depois, mais perto de casa, tive dificuldade de encontrar sua Caverna, mas o vapor das fontes termais me ajudou. Trouxe comigo 
uma pessoa que eu gostaria de lhe apresentar.
    O homem mais velho fitou Jondalar, buscando detectar algum sinal de que no fosse o que parecia ser: um homem que ele conhecia e que acabava de chegar de modo 
inusitado. Parecia um pouco mais velho, o que era de esperar, e ainda mais semelhante a Dalanar. Havia visto o velho lascador de slex novamente alguns anos antes, 
quando ele viera numa misso de comrcio. E tambm, suspeitava Laduni, para descobrir se o filho de seu fogo e seu irmo haviam passado por ali. Dalanar vai ficar 
feliz por v-lo, pensou Laduni. Caminhou na direo de Jondalar, segurando a lana com menos hostilidade, mas ainda numa posio em que ela poderia ser arremessada 
facilmente. Lanou um olhar para os dois cavalos invulgarmente dceis, e percebeu ento que quem estava perto deles era uma mulher.
            Esses cavalos no so nada parecidos com os que temos por aqui. Os cavalos do leste so mais dceis? Devem ser mais fceis de caar         disse Laduni.
    De repente o homem se retesou, levou a lana  posio de arremesso e apontou-a para Ayla.
            No se mova, Jondalar!
    Tudo acontecera to depressa que Jondalar no tivera tempo para reagir.
            Laduni! O que est fazendo?
     Vocs foram seguidos por um lobo. Um lobo bastante corajoso para se expor  vista de homens.
     No!  bradou Ayla, atirando-se entre o lobo e o homem com a lana.
     Esse lobo viaja conosco. No o mate!  exclamou Jondalar, e correu para interpor-se entre Laduni e Ayla.
    Ayla ajoelhou-se e envolveu o animal com os braos, segurando-o com firmeza, em parte para proteg-lo, em parte para proteger o homem da lana. Os plos de Lobo
estavam eriados, os lbios repuxados de modo a mostrar os dentes, e um rosnado selvagem lhe saia da garganta.
    Laduni ficou atnito. Adiantara-se para proteger os visitantes, porm estes se comportavam como se ele pretendesse fazer-lhes mal. Dirigiu a Jondalar um olhar
interrogativo.
            Abaixe essa lana, Laduni. Por favor  pediu Jondalar.  O lobo  nosso companheiro, do mesmo modo que os cavalos. J salvou nossas vidas. Afirmo que
ele no far mal a ningum, desde que no o ameacem, ou ameacem a mulher. Sei que parece estranho, mas se me derem uma oportunidade, explicarei tudo.
    Laduni lentamente abaixou a lana, fitando o lobo com cautela. Uma vez afastado o perigo, Ayla acalmou o animal. Depois se levantou e saiu na direo de Jondalar
e Laduni, fazendo um sinal a Lobo para que seguisse a seu lado.
            Por favor, desculpe Lobo por se mostrar agressivo  disse Ayla.  Na verdade, ele gosta das pessoas, depois que as conhece, mas teve uma experincia
ruim com certas pessoas no leste. Isso o tornou mais nervoso diante de estranhos, e agora ele se mostra mais protetor.
    Laduni notou que ela falava Zelandonii muito bem, mas seu sotaque a marcou como estrangeira de imediato. Notara tambm... outra coisa... no tinha certeza. Era 
algo que ele no conseguia definir especificamente. J vira antes muitas mulheres louras e de olhos azuis, mas seus malares, a forma do rosto, alguma coisa lhe dava 
um aspecto estrangeiro tambm. Fosse o que fosse, aquilo em nada diminua o fato de tratar-se de uma mulher de extraordinria beleza. Talvez apenas acrescentasse 
um elemento de mistrio.
    Laduni olhou para Jondalar e sorriu. Ao lembrar-se da ltima visita do homem, no era de admirar que aquele alto e garboso Zeladonii voltasse de uma longa Jornada 
com uma beldade extica; mas ningum poderia ter esperado recordaes viventes de suas aventuras, como cavalos e um lobo. Mal podia esperar para ouvir as histrias 
que eles tinham para contar.
    Jondalar percebera o olhar de apreciao de Laduni ao ver Ayla, e quando o homem sorriu, ele comeou a serenar.
            Aqui est a pessoa que eu queria lhe apresentar  disse Jondalar.  Laduni, caador dos Losadunai, esta  Ayla do Acampamento do Leo dos Mamuti, Eleita 
do Leo da Caverna, Protegida pelo Urso da Caverna e Filha do Fogo do Mamute.
    Ayla erguera as mos, com as palmas para cima, numa saudao de franqueza e amizade, quando Jondalar comeou a apresentao formal.
            Eu o sado, Laduni, Mestre-Caador dos Losadunai  disse ela.
    Laduni ficou a imaginar como poderia ela saber ser ele o chefe das caadas entre seu povo. Jondalar no o dissera. Talvez lhe houvesse dito alguma coisa antes, 
mas ela mostrara ser astuta ao mencionar o fato. Entretanto, era de esperar que ela compreendesse tais coisas. Com tantos ttulos e ligaes, deveria ser uma pessoa 
de alta linhagem entre seu povo, pensou ele. Eu deveria ter adivinhado que qualquer mulher que ele trouxesse consigo seria desse porte, considerando-se que tanto 
a me dele como o homem de sua casa conheceram as responsabilidades do mando. No filho revela-se o sangue da me e o espirito do homem.
    Laduni segurou as mos de Ayla.
     Em nome de Duna, a Grande Me Terra, seja bem-vinda, Ayla do Acampamento do Leo dos Mamuti, Eleita do Leo, Protegida pelo Grande Urso e Filha do Fogo do 
Mamute.
     Agradeo-lhe as boas-vindas  respondeu Ayla, ainda em tom formal.  E se me permite, gostaria de lhe apresentar Lobo, para que ele saiba que tem um novo amigo.
    Laduni franziu a testa, sem saber ao certo se realmente queria conhecer um lobo, mas nas circunstncias no tinha outra opo.
     Lobo, este  Laduni dos Losadunai  disse Ayla, pegando a mo do homem e levando-a perto do focinho do lobo.  Amigo.  Depois de ter cheirado a mo do estranho, 
cujo cheiro se misturava com o de Ayla, Lobo pareceu demonstrar que se tratava de algum que ele deveria aceitar. Farejou os rgos genitais do homem, para consternao 
de Laduni.
            Agora chega, Lobo  disse Ayla, fazendo-lhe um sinal para que voltasse. Depois, para Laduni, acrescentou:  Agora ele sabe que  um amigo, e um homem. 
Se quiser lhe dar as boas-vindas, ele gosta de ser afagado na cabea e coado atrs das orelhas.
    Embora ainda precavido, a ideia de tocar num lobo vivo despertou o interesse de Laduni. Estendeu a mo e tateou o plo spero; vendo que seu soque era aceito, 
afagou a cabea do animal e a seguir deu uma esfregadela atrs de suas orelhas, demonstrando certo interesse. J tocara pele de lobo antes, mas nunca num animal 
vivo.
     Desculpe por ter ameaado seu companheiro. Mas nunca, at hoje, eu tinha visto um lobo acompanhar pessoas por livre e espontnea vontade. Alis, nem cavalos.
      compreensvel  concordou Ayla.  Mais tarde vou lev-lo para conhecer os cavalos. Em geral eles so tmidos diante de estranhos, e precisam de algum tempo 
para se habituar a pessoas novas.
     Todos os animais no leste so to mansos?  quis saber Laduni, insistindo em ter resposta para uma pergunta que seria de interesse para qualquer caador.
    Jondalar sorriu.
            No, os animais so iguais em toda parte. Esses so especiais por causa de Ayla.
    Laduni assentiu, resistindo ao impulso de lhes fazer novas perguntas, sabendo que toda a Caverna gostaria de ouvir as histrias deles.
            Eu lhes dei as boas-vindas e agora os convido a entrar para dividir conosco o calor e o alimento, mas creio que devo ir antes e falar a respeito de 
vocs ao resto da Caverna  avisou.
    Laduni caminhou de volta na direo do grupo reunido diante de uma larga abertura, ao lado de uma parede rochosa. Contou que havia conhecido Jondalar alguns 
anos antes, quando ele estava comeando sua Jornada, e que o convidara a visit-lo quando retornasse. Mencionou o fato de Jondalar ser parente de Dalanar, e frisou 
tratar-se de pessoas, e no de algum tipo de espritos malfazejos, e que eles lhes falariam a respeito dos cavalos e do lobo.
            Devem ter histrias espantosas a narrar  concluiu, sabendo o quanto isso despertaria o interesse de um grupo de pessoas que tinha passado praticamente 
todo o inverno enfiado numa caverna e que comeava a demonstrar tdio.
    A lngua que utilizou no foi o Zelandonii que usara com os viajantes, mas depois de escutar durante algum tempo, Ayla teve certeza de perceber semelhanas. 
Constatou que embora a lngua tivesse entoao e pronncia diferentes, o Losadunai era aparentado ao Zelandonii do mesmo modo que o S'Armunai, e alis tambm o Xaramudi, 
aproximava-se do Mamuti. A lngua chegava a ter alguma coisa do S'Armunai. Ela entendera algumas palavras e captara a essncia de um ou outro comentrio. Dentro 
de mais alguns dias estaria conversando com aquelas pessoas.
        O talento lingustico de Ayla no lhe parecia notvel. Ela no procurava conscientemente aprender lnguas, porm sua aguda percepo de nuances e inflexes 
e sua capacidade de perceber as conexes facilitavam-lhe o aprendizado. Suas aptides lingusticas, inatas, tinham sido realadas pelo fato de perder sua prpria 
lngua quando ainda muito pequena, em meio ao trauma de perder sua gente, e tambm por ter sido obrigada a aprender um modo de comunicao que, conquanto diferente, 
utilizava as mesmas reas cerebrais que a linguagem oral. Sua necessidade de aprender a comunicar-se novamente, ao descobrir que no era capaz de assimilar aquele 
modo novo, lhe dera um incentivo inconsciente, mas profundo, de aprender todo e qualquer idioma desconhecido. Era a combinao de aptido natural e das circunstncias 
que a tornava to hbil.
     Losaduna diz que vocs so bem-vindos ao fogo dos visitantes  disse-lhes Laduni aps sua explicao.
     Precisamos descarregar os animais e cuidar deles primeiro  disse Jondalar.  Esse campo bem diante da caverna parece ter boa pastagem de inverno. Algum se 
importaria se os deixssemos ali?
     Vocs tm autorizao de usar o campo  disse Laduni.  Creio que todos ficaro admirados de ver cavalos to prximos.  No resistiu ao impulso de lanar 
um olhar a Ayla, imaginando o que ela teria feito aos animais. Parecia bvio que ela detinha poder sobre espritos poderosssimos.
     Tenho de pedir mais uma coisa  disse Ayla.  Lobo est acostumado a dormir perto de ns. Ele se sentiria muito infeliz em outro lugar. Se o fato de ele ficar 
conosco desagradar a seu Losaduna, ou  Caverna, podemos armar nossa tenda e dormir do lado de fora.
    Laduni dirigiu-se novamente  sua gente e, depois de uma breve conversa, voltou-se para os visitantes.
     Eles querem que vocs entrem, mas algumas mes temem pelos filhos.
     Compreendo o medo delas. Posso prometer que Lobo no far mal a quem quer que seja, mas se isso no bastar, ficaremos fora.
     Seguiu-se mais algum tempo de conversa, ao fim da qual Laduni disse.
            Eles concordam com que vocs durmam dentro.
    Laduni saiu com eles quando Ayla e Jondalar foram descarregaras as montarias, e ficou to excitado ao conhecer Huiin e Racer quanto ficara diante de Lobo. J 
participara de caadas a cavalos, mas nunca tocara um deles, exceto por acaso, quando chegava bem perto de um animal. Ayla percebeu sua satisfao, e pensou em mais 
tarde sugerir que Laduni cavalgasse Huiin.
    Ao retornarem  caverna, arrastando as coisas no bote, Laduni perguntou a Jondalar sobre seu irmo. Quando percebeu que um esgar de dor perpassava o rosto do 
amigo, antes mesmo que ele respondesse, percebeu que acontecera uma tragdia.
     Thonolan morreu. Foi morto por um leo de caverna.
     Sinto muito. Eu gostava dele  disse Laduni.
     Todos gostavam dele.
     Estava to ansioso por acompanhar o Rio da Grande Me at onde fosse possvel. Chegou at o fim?
     Sim, ele chegou at o extremo do Donau antes de morrer, mas j ento estava desalentado. Havia-se apaixonado por uma mulher, com quem se casou, mas ela morreu 
de parto  disse Jondalar.  Aquilo o modificou, tirou-lhe o nimo. Depois disso, perdeu a vontade de viver.
    Laduni balanou a cabea.
     Que pena! Era uma pessoa to cheia de vida. Filonia ficou pensando nele muito tempo depois de vocs partirem. No parava de esperar que ele regressasse.
     Como est Filonia?  indagou Jondalar, lembrando-se da formosa filha da casa de Laduni.
    O ancio riu.
     Agora est casada, e Duna sorri para ela. Tem dois filhos. Pouco depois que voc e Thonolan partiram, ela descobriu que fora abenoada. Quando correu a notcia 
de que estava grvida, creio que todos os homens Losadunai elegveis acharam um motivo para visitar nossa Caverna.
     Imagino que sim. Ao que me lembro, era uma moa muito bonita. Fez uma Jornada, no foi?
     Sim, com um primo mais velho.
     E tem dois filhos?  perguntou Jondalar.
    Os olhos de Laduni brilharam de satisfao.
     Uma filha da primeira bno... Thonolia. Filonia tinha certeza de que fora gerada pelo esprito de seu irmo. E no faz muito tempo, teve um menino. Ela mora 
na Caverna do companheiro. Tinham l mais espao, mas no fica longe e ns a vemos, regularmente.  Havia prazer e alegria na voz de Laduni.
     Espero que Thonolia seja filha do esprito de Thonolan. Eu gostaria de imaginar que ainda resta um fragmento de seu esprito no mundo - disse Jondalar.
    Poderia aquilo ter acontecido to depressa?, pensou Jondalar. Seu irmo s passara uma noite com ela. Seria seu esprito to potente? Ou, se Ayla tiver razo, 
poderia Thonolan ter feito uma criana comear a crescer dentro de Filonia com a essncia de sua virilidade, naquela noite que passamos com eles? Jondalar lembrava-se 
da mulher com quem ele ficara.
            Como vai Lanalia?  perguntou.
     Muito bem. Est visitando parentes em outra Caverna. Esto tentando arranjar um casamento para ela. H um homem que perdeu a companheira e ficou com trs crianas 
pequenas em seu fogo. Lanalia nunca teve filhos, apesar de sempre os ter desejado. Se ela se agradar dele, ho de casar-se e ela adotar as crianas. Poderia ser 
um acordo muito conveniente, e ela est animada.
            Fico feliz por ela, e lhe desejo muitas felicidades  disse Jondalar, encobrindo seu desapontamento. Esperava que ela houvesse engravidado depois de 
partilhar os Prazeres com ele. Seja o que for, o esprito de um homem ou a essncia de sua virilidade, Thonolan comprovou a fora que tinha, mas, e eu? Sero minha 
essncia ou meu esprito pouco fortes?, cismou Jondalar.
    Ao penetrarem na caverna, Ayla olhou em torno com interesse. J vira muitas moradias dos Outros: abrigos leves ou portteis, usados no vero, ou estruturas permanentes 
mais robustas, capazes de resistir aos rigores do inverno. Algumas eram construdas com ossos de mamute e recobertas de terra ou argila, algumas de madeira e recuadas 
sob uma tapada ou plataforma flutuante. Mas ela nunca vira uma caverna como aquela desde que deixara o Cl. Uma larga abertura dava para sudeste, e seu interior 
era agradvel e espaoso. Brun teria apreciado esta caverna pensou.
    Assim que seus olhos se habituaram  penumbra e ela viu o interior, ficou pasma. Esperava encontrar vrias lareiras em diversos pontos, os fogos de cada famlia. 
Com efeito, havia lareiras familiares no interior da caverna, mas ficavam dentro ou perto das aberturas de estruturas feitas de pele presas a postes. Assemelhavam-se 
a tendas, no de forma cnica, mas abertas no alto, j que prescindiam de proteo contra chuvas e neve dentro da caverna. At onde ela percebia, aquelas tendas 
eram usadas como biombos para vedar o espao interior a olhares casuais. Ayla lembrou-se da regra do Cl que proibia olhar diretamente para o espao de moradia, 
definido por pedras de divisa, do fogo de outra pessoa. Era uma questo de tradio e autocontrole, mas o objetivo, percebia ela, era o mesmo: privacidade.
    Laduni os conduzia na direo de um dos espaos de moradia vedados.
     Sua experincia ruim no foi causada por um bando de malfeitores, foi?
     No. Por qu? Houve problemas?  quis saber Jondalar.  Quando nos conhecemos, voc falou a respeito de um jovem que reunira diversos seguidores. Estavam se 
divertindo com o Cl... com os cabeas-chatas.  Olhou de lado para Ayla, mas sabia que Laduni jamais compreenderia a palavra "Cl".  Estavam espancando os homens, 
e depois obtendo seus Prazeres com as mulheres. Alguma coisa a respeito de altos espritos conduzindo a problemas para todos.
    Ao ouvir a meno a "cabeas-chatas", Ayla apurou os ouvidos, curiosa de saber se havia muita gente do Cl ali por perto.
            Isso, so esses. Charoli e seu bando  respondeu Laduni.  Aquilo pode ter comeado com altos espritos, mas foi muito alm disso.
            Pensei que a essa altura esses rapazes houvessem parado com esse tipo de conduta  disse Jondalar.
     Trata-se de Charoli. Individualmente, creio, no so maus rapazes, mas ele os incentiva. Losaduna faia que ele quer mostrar que  valente, mostrar que  homem, 
porque cresceu sem um homem em seu fogo.
     Muitas mulheres tm criado rapazes sozinhas, rapazes que se converteram em bons homens  disse Jondalar. Estavam to absortos na conversa que tinham parado 
de caminhar e estavam no meio da caverna. As pessoas se reuniam ao redor deles.
     Claro que sim. Mas o companheiro da me dele desapareceu quando Charoli ainda era bebe, e nunca mais ela tomou outro companheiro, Em vez disso, prodigalizava 
toda sua ateno sobre ele, cobrindo-o de mimos quando ele j era crescido, em vez de fazer com que ele aprendesse um ofcio e os deveres de um adulto. Agora compete 
a todos det-lo.
            O que sucedeu?  perguntou Jondalar.
     Uma moa de nossa Caverna estava perto do rio, pondo armadilhas. Acabara de tornar-se moa algumas luas antes, e ainda no havia passado pelos Ritos dos Primeiros 
Prazeres. Estava ansiosa pela cerimnia, que se realizaria na prxima reunio. Charoli e seu bando deram com ela sozinha, e todos eles a pegaram...
     Todos eles? Pegaram-na?  fora?  espantou-se Jondalar.  Uma moa, que ainda no era uma mulher.  inacreditvel!
     Todos eles  disse Laduni, com uma clera fria que era pior do que qualquer indignao.  E ns no vamos tolerar isso! No sei se eles se cansaram das mulheres 
cabeas-chatas, ou que desculpa deram a si prprios, mas isso foi demais. Causaram  moa dor e sangramento. Ela diz que no quer mais saber de homens, nunca mais. 
Tem-se recusado a passar pelos ritos femininos.
     Isso  terrvel, mas no h como culp-la. No  esse o modo de uma moa tomar conhecimento do Dom de Doni  disse Jondalar.
     A me dela est com medo. Acha que se ela deixar de honrar a Me com a cerimnia, nunca ter filhos.
     Talvez tenha razo, mas o que se h de fazer?  perguntou Jondalar.
     A me dela deseja a morte de Charoli, e quer que declaremos uma rixa de sangue contra a Caverna dele  respondeu Laduni.  Ela tem direito  vingana, porm 
uma rixa de sangue pode destruir a todos. Alm disso, no foi a Caverna de Charoli que causou o problema. Foi aquele bando dele, e alguns de seus membros sequer 
so da Caverna de nascimento de Charoli. Enviei uma mensagem a Tomasi, o chefe da caa de l, e lhe passei uma ideia.
            Uma ideia? Qual  seu plano?
            Acredito que seja dever de todos os Losadunai deter Charoli e seu bando. Tenho esperana de que Tomasi se una a mim para tentar convencer todos a repor 
esses jovens sob a superviso das Cavernas. Cheguei at a sugerir que ele permita  me de Madenia tirar sua vingana, em vez de ter de suportar o derramamento de 
sangue de uma rixa com eles. Mas Tomasi  parente da me de Charoli.
            Seria uma deciso bem difcil  disse Jondalar. Notou que Ayla estivera prestando muita ateno.  Alguem sabe onde se esconde o bando de Charoli? No 
 possvel que estejam com alguma pessoa de seu povo. No posso crer que algum da Caverna dos Losadunai desse guarida a tais viles.
            Ao sul daqui existe uma rea erma, com rios subterrneos e muitas cavernas. Dizem que ele se esconde numa das cavernas perto da fronteira dessa regio.
            Poderia ser difcil localiz-los, se existem muitas cavernas.
     Mas no podem ficar ali todo o tempo. Eles tm de obter alimento, e podem ser descobertos e seguidos. Um bom rastreador poderia acha-los mais depressa do que
a um animal, mas necessitamos da cooperao de todas as Cavernas. Assim, no tardaramos em encontr-los.
     O que faro depois de encontr-los?  dessa vez foi Ayla quem fez a pergunta.
     Acredito que to logo todos esses jovens facnoras estejam separados, no levaria muito tempo para que os laos entre eles se rompessem. Cada Caverna pode 
lidar com um ou dois de seus prprios rapazes, como bem entender. Duvido que a maior parte deles queira realmente viver apartada dos Losadunai e no fazer parte 
de uma Caverna. Algum dia ho de querer companheiras, e no h muitas mulheres que se disponham a viver como eles.
            Acho que tem razo  disse Jondalar.
     Sinto muito por essa moa  disse Ayla.  Como  mesmo o nome dela? Madenia?  Sua expresso revelava o quanto estava contristada.
     Eu tambm  aduziu Jondalar.  Gostaria de podermos ficar para ajudar, mas se no cruzarmos a geleira logo, talvez tenhamos de esperar at o prximo inverno.
            Talvez j seja tarde demais para cruzar a geleira neste inverno  disse Laduni.
     Tarde demais? Mas est frio,  inverno. Tudo est congelado. Todas as fendas devem estar cheias de neve.
     Realmente  inverno, mas ele j vai to adiantado que nunca se sabe. Voc poderia conseguir, mas se os ventos foehn vierem mais cedo... e isso poderia acontecer... 
toda a neve h de derreter depressa. A geleira s vezes  traioeira durante o primeiro degelo de primavera. E nas circunstncias, no acho que seja seguro viajar 
pela terra dos cabeas-chatas em direo ao norte. No se tm mostrado muito corteses. O bando de Charoli os antagonizou. At os animais tendem a proteger suas fmeas 
e lutam para isso.
            Eles no so animais  interps Ayla, saltando em defesa deles.         So gente, apenas de um tipo um pouco diferente.
    Laduni calou-se. No queria ofender uma visita, uma hspede. Como aquela mulher era to chegada a animais, talvez considerasse a todos eles como gente. Se um 
lobo a protege, e se ela o trata como a um ser humano, ser de admirar que ela tambm considere os cabeas-chatas humanos?, pensou. Sei que podem ser ardilosos, 
mas no so humanos.
    Vrias pessoas tinham-se reunido em torno deles enquanto conversam. Uma mulherzinha magra, de meia-idade, perguntou, com um sorriso tmido:
            No acha que deve deixar que se instalem, Laduni?
     Estou comeando a imaginar se voc no far com que fiquem aqui falando o dia inteiro  acrescentou a mulher que estava ao lado dele. Era uma mulher rolia, 
um pouquinho mais baixa que o homem, de rosto jovial.
     Desculpem. Vocs tm razo,  claro. Permita-me apresent-los  disse Laduni. Olhou para Ayla primeiro, depois virou-se para o homem.  Losaduna, Aquele que 
Serve  Me para a Caverna da Fonte Termal dos Losadunai, esta  Ayla do Acampamento do Leo dos Mamuti, Eleita do Leo, Protegida pelo Grande Urso e Filha do Fogo 
do Mamute.
     O Fogo do Mamute! Ento voc  tambm Aquela que Serve  Me  disse o homem, com um sorriso surpreso, antes mesmo de saud-la.
     No, eu sou uma Filha do Fogo do Mamute. Mamute estava a me treinar, mas nunca passei pela iniciao  explicou Ayla.
     Mas nasceu para isso! Voc deve ser eleita da Me, tambm juntamente com todo o resto  disse o homem, com evidente satisfao.
            Losaduna, voc ainda no a saudou  repreendeu a mulher rolia.
    O homem ficou perplexo por um instante.
            Ah, creio que no. Sempre essas formalidades! Em nome de Duna, a Grande Me Terra, permita oferecer-lhe as boas-vindas, Ayla dos Mamuti, Eleita do 
Acampamento do Leo e Filha da Caverna do Mamute.
    A mulher a seu lado suspirou e balanou a cabea.
            Ele misturou as coisas, mas se fosse alguma cerimnia pouco conhecida ou uma lenda sobre a me, haveria de lembrar-se de cada pormenor.
    Ayla no pde deixar de sorrir. Jamais havia conhecido um Servidor da Me to pouco afeito aos formalismos da funo. Os que conhecera antes eram pessoas seguras 
de si, fceis de reconhecer, de presena magntica; nada tinham que lembrasse aquele homem distrado e inseguro, desdenhoso de aparncias, de porte agradvel, um 
tanto acanhado. Mas a mulher parecia saber o que ele valia, e Laduni evidentemente o tratava com respeito. Obviamente, Losaduna era mais importante do que parecia.
            Est certo  disse Ayla  mulher.  Na verdade, ele no errou.  Afinal de contas, ela fora eleita pelo Acampamento do Leo, tambm; adotada, no nascida 
ali, pensou Ayla. Depois dirigiu-se ao homem, que lhe segurara as mos e ainda as tinha nas suas.  Sado Aquele que Serve  Grande Me de Todos, e agradeo-lhe 
por sua acolhida, Losaduna.
    O homem sorriu ao ouvir Ayla usar outro dos nomes da Duna, enquanto Laduni se punha a falar.
     Solandia dos Losadunai, nascida na Caverna do Rio do Monte, Companheira do Losaduna, esta  Ayla do Acampamento do Leo dos Mamuti, Eleita do Leo, Protegida 
pelo Grande Urso e Filha do Fogo do Mamute.
     Eu a sado, Ayla dos Mamuti, e a convido a nossas habitaes  disse Solandia. Os ttulos e ligaes completas tinham sido proclamados suficientes vezes. 
A mulher achou desnecessrio repeti-los.
            Obrigada, Solandia .disse Ayla.
    Laduni olhou ento para Jondalar.
            Losaduna, Aquele que Serve  Me para a Caverna da Fonte Termal dos Losadunai, este  Jondalar, Mestre Lascador de Slex da Nona Caverna dos Zelandonii, 
filho de Marthona, no passado chefe da Nona Caverna, irmo de Joharran, chefe da Nona Caverna, nascido no Fogo de Dalanar, chefe e fundador dos Lanzadonii.
    Ayla jamais escutara antes todos os ttulos e afiliaes de Jondalar, e ficou surpresa. Conquanto no lhes entendesse o pleno significado, pareciam importantes. 
Depois de Jondalar repetir a litania e ser formalmente apresentado, foram finalmente conduzidos ao amplo espao de habitao e cerimnia atribudo a Losaduna.
    Lobo, que estivera sentado, quieto, junto da perna de Ayla, emitiu um ligeiro ganido ao chegarem  entrada do espao de moradia. Vira uma criana l dentro, 
mas sua reao assustou Solandia. Ela correu e levantou a criana do cho.
     Tenho quatro filhos. No sei se esse lobo deve ficar aqui  disse, como o medo a lhe esganiar a voz.  Micheri ainda nem sabe andar. Como hei de saber que 
o animal no vai atacar meu filho?
     Lobo no far mal algum  criancinha  disse Ayla.  Ele nasceu com crianas e  louco por elas. Na verdade,  mais gentil com crianas do que com adultos. 
Ele no quis atacar o menino; apenas ficou feliz ao v-lo.
    Ayla tinha feito sinal a Lobo para que se sentasse, mas o animal no conseguia esconder o prazer de ver crianas. Solandia fitou o carnvoro de soslaio. No 
saberia dizer se ele demonstrava alegria ou fome, mas tambm estava curiosa em relao aos visitantes. Uma das melhores vantagens de ser a companheira de Losaduna 
era poder ser a primeira a conversar com os raros visitantes, e ela podia passar mais tempo com eles porque em geral eram instalados no fogo cerimonial.
            Bem, eu disse que ele podia ficar  respondeu ela.
    Ayla conduziu Lobo para o interior, levou-o para um desvo e fez-lhe um sinal para que no sasse dali. Ficou a seu lado, pois sabia que a ordem lhe seria bastante 
penosa. No momento, porm, o simples fato de haver crianas por perto pareceu consol-lo.
    O comportamento do animal tranquilizou Solandia. Depois de lhe servir um ch quente, apresentou os filhos e depois voltou para os fundos da gruta, a fim de preparar 
a refeio que tinha comeado. Esqueceu-se da presena do animal, porm as crianas ficaram fascinadas. Ayla os observava, procurando ser discreta. O mais velho 
dos quatro, Larogi, era um garoto de seus dez anos, calculou. Havia uma menina de aproximadamente sete anos, Dosalia, e uma outra que teria uns quatro, Neladia. 
Embora o beb ainda no andasse, nem por isso se mantinha imvel. Comeara a engatinhar e mostrava-se rpido de gatinhas.
    As crianas mais velhas sentiam medo de Lobo, mas a maior das meninas levantou o beb e o segurou enquanto olhavam o animal. Como depois de algum tempo nada 
acontecesse, ela o ps no cho. Enquanto Jondalar conversava com Losaduna, Ayla comeou a arrumar as coisas deles. Havia peles de dormir extras para os hspedes, 
e Ayla imaginou que teria tempo de limpar as suas enquanto permanecessem ali.
    De repente escutaram como que uma gargalhada de criana pequena. Ayla susteve a respirao e olhou para o canto onde deixara Lobo. Seguiu-se um silncio absoluto 
no resto do espao de moradia, enquanto todos fitavam o beb, com espanto e admirao. Ele rastejara at o canto e estava sentado ao lado do enorme lobo, puxando-lhe 
o plo. Ayla olhou para Solandia e a viu esttica, enquanto seu precioso menininho continuava a cutucar, empurrar e puxar o lobo, que simplesmente abanava a cauda 
e parecia estar-se divertindo.
    Por fim, Ayla foi at l, levantou o garoto e o levou para a me.
     Voc tinha razo!  exclamou Solandia, atarantada.  Esse lobo realmente adora crianas! Se eu no tivesse visto isso com meus prprios olhos, jamais teria 
acreditado!
    No demorou muito para que os outros filhos de Solandia se aproximassem do lobo, que gostava de brincadeiras. Depois de um pequeno incidente com o menino mais 
velho, a que Lobo reagiu pegando a mo do garoto com os dentes e rosnando, mas sem morder, Ayla explicou que tinham de trat-lo com respeito. A reao de Lobo assustou 
o menino o suficiente para que ele prestasse ateno ao aviso de Ayla. Quando saram ao ar livre, todas as crianas da comunidade ficaram a olhar os quatro filhos 
de Solandia e o lobo, tomados de fascnio. Os filhos de Solandia foram alvo de inveja pelo privilgio especial que tinham de conviver com o animal.
    Antes que casse a noite, Ayla saiu para ver as montarias. Ao pr os ps fora da caverna, ouviu Huiin relinchar em saudao, e percebeu que a amiga estivera 
um tanto preocupada. Quando ela relinchou de volta, fazendo com que vrias cabeas se virassem em sua direo, surpresas Racer respondeu com um zurro um pouco mais 
alto. Ayla atravessou o campo, coberto de muita neve perto da caverna, para dedicar aos cavalos alguma ateno e ter certeza de que ambos estavam bem. Huiin ergueu 
a cauda, alerta. Quando a mulher se aproximou, ela baixou a cabea e logo depois a levantou bem alto, descrevendo um crculo no ar com o focinho. Racer, tambm feliz 
por ver Ayla, escoiceou e empinou-se nas patas traseiras.
    Para eles era uma situao nova estar no meio de tanta gente outra vez, e a mulher conhecida lhe trazia tranquilidade. Racer arqueou o pescoo e levou as orelhas 
 frente quando Jondalar apareceu na entrada da caverna, e foi encontrar-se com o dono no meio do campo. Depois de abraar, afagar e conversar com a gua, Ayla resolveu 
que pentearia Huiin no dia seguinte, pois isso seria relaxante para ambas.
    Lideradas pelos quatro filhos de Solartdia, todas as crianas tinham-se juntado e estavam avanando na direo dos cavalos. Os incrveis visitantes permitiram-lhes 
tocar ou acariciar um ou outro dos animais Ayla deixou que algumas montassem Huiin, enquanto muitos adultos assistiam  com um ar de inveja. Ayla tinha inteno de 
deixar os adultos que quisessem tambm montar, mas achou que ainda era cedo demais para isso. Os animais precisavam descansar, e ela no queria que ficassem tensos.
    Com ps feitas de grandes chifres de rena, ela e Jondalar puseram-se a limpar a neve de parte do pasto mais perto da caverna, a fim de facilitar a alimentao 
dos animais. Vrias outras pessoas os ajudaram, fazendo com que o trabalho terminasse depressa, mas o ato de trabalhar na neve trouxe ao esprito de Jondalar uma 
preocupao que ele estivera tentando resolver j havia algum tempo. Como iriam encontrar alimento e forragem, e, mais importante, gua em quantidade suficiente 
para eles prprios, um lobo e dois cavalos enquanto atravessassem uma enorme regio glacial?
    Mais tarde, naquela noite, todos se reuniram no amplo espao cerimonial para ouvir Jondalar e Ayla falarem de suas viagens e suas aventuras. Os Losadunai estavam 
interessados principalmente nos animais. Solandia j comeara a confiar em Lobo, deixando que ele brincasse com os filhos, e at os adultos se distraam ao observar 
o animal junto das crianas. Era difcil acreditar. Ayla no entrou em detalhes com relao ao Cl, ou a respeito da maldio de morte que a obrigara a partir, embora 
desse a entender que haviam surgido divergncias.
    Os Losadunai achavam que o Cl fosse apenas um grupo de pessoas que viviam no extremo leste. Por mais que ela explicasse que o processo de fazer os animais se 
habituarem a pessoas nada tivesse de sobrenatural, ningum lhe dava crdito. A ideia de que uma pessoa comum fosse capaz de domesticar um cavalo selvagem ou um lobo 
era absurda demais. A maioria das pessoas julgava que o perodo em que ela vivera sozinha num vale fora um tempo de provao e abstinncia, cumprido por muitos que 
se sentiam chamados a Servir  Me, e que a facilidade que demonstrava no trato com os animais corroborava a propriedade de sua Vocao. Se ela ainda no era Servidora 
da Me, isso era apenas questo de tempo.
    No entanto, os Losadunai ficaram pesarosos ao saber das dificuldades dos visitantes com Attaroa e os S'Armunai.
     No  de admirar, ento, que recebssemos to poucos visitantes vindos do leste nos ltimos anos. E esto dizendo que um dos homens detidos ali era um Losadunai? 
 perguntou Laduni.
     Isso mesmo. No sei como ele se chamava aqui, mas l o nome dele era Ardemun  respondeu Jondalar.  Havia se machucado e estava aleijado. No podia caminhar 
muito bem, e decerto no seria capaz de fugir, de modo que Attaroa lhe permitia andar pelo Acampamento em liberdade. Foi ele quem libertou os homens.
     Lembro-me de um rapaz que partiu numa Jornada  disse uma mulher.  Naquele tempo eu sabia como ele se chamava. Mas no me lembro mais... Um momento... ele 
tinha um apelido... Ardemun... Ardi... no, Mardi. Ele era chamado de Mardi!
     Voc se refere a Menardi?  perguntou um homem.  Eu me lembro dele das Reunies de Vero. Era chamado de Mardi, e realmente partiu numa Jornada. Ento foi 
isso que lhe aconteceu. Ele tem um irmo que vai gostar de saber que est vivo.
     E bom saber que j se pode viajar para aqueles lados em segurana outra vez. Tiveram sorte em no se encontrar com eles a caminha do leste  observou Laduni.
     Thonolan tinha pressa em chegar o mais longe possvel, seguindo o Rio da Grande Me - explicou Jondalar. - Ele no queria parar e ficamos deste lado do rio. 
Tivemos sorte.
    Quando a reunio se desfez, Ayla sentiu-se feliz por deitar-se num lugar quente e seco, sem ventos, e caiu no sono rapidamente.
    Ayla sorriu para Solandia, que estava sentada ao lado da lareira, embalando Michen. Acordara cedo e resolvera preparar o ch matinal para ela e Jondalar. Procurou 
a pilha de lenha ou de excrementos secos, no sabendo que combustvel eles usavam, porm tudo que viu foi uma pilha pedras castanhas.
     Quero fazer um pouco de ch  disse  O que vocs queimam? Se me disser onde est, vou buscar.
     No  preciso. Existe muito aqui  respondeu Solandia.
    Ayla olhou em torno e, como ainda no viu a lareira ardendo, ficou a imaginar que a mulher no a compreendera.
    Solandia percebeu-lhe o embarao e sorriu. Estendeu a mo e pegou uma das pedras castanhas.  Ns usamos isso, pedra de queimar.
    Ayla pegou a pedra e a examinou com ateno. Viu um claro gro de madeira, mais  evidentemente aquilo no era nem pedra nem madeira. Nunca vira nada de semelhante. 
Era linhita, carvo de pedra, um material a meio caminho entre a turfa e o carvo betuminoso. Jondalar acordara e foi falar com ela. Ayla lhe sorriu e passou-lhe 
a pedra.
     Solandia disse que  isso que eles queimam na lareira  disse, notando a mancha que apedra deixara em sua mo.
    Foi a vez de Jondalar examinar a pedra e assumir uma expresso de pasmo.
     Parece madeira, mas  Pedra. Entretanto, no se trata de uma pedra dura como pedra-de-fogo. Essa aqui deve quebrar-se com facilidade.
     Quebra mesmo  disse Solandia.  A pedra de queimar quebra fcil.
     De onde vem?  indagou Jondalar.
            No sul, na direo das montanhas, existem campos cheios delas. Algumas pessoas ainda usam madeira e fazem fogueiras, mas essa pedra produz mais calor 
e durante mais tempo  explicou a mulher.
    Ayla e Jondalar se entreolharam e entre eles passou uma comunicao de cumplicidade.
     Vou buscar uma  disse Jondalar. Quando ele regressou, Losaduna e o menino mais velho, Larogi, j haviam acordado.  Vocs tm pedras de queimar e ns temos 
uma pedra de fogo, que serve para comear o fogo.
     E foi Ayla quem a descobriu?  perguntou Losaduna. Era mais uma afirmao do que uma pergunta.
     Como descobriu?  quis saber Jondalar.
     Talvez porque foi ele quem descobriu as pedras que queimam  redarguiu Solandia.
     Eram to parecidas com madeira que resolvi tentar queim-las E deu certo  disse Losaduna.
    Jondalar sacudiu a cabea.
            Ayla, por que no mostra a eles?  perguntou, passando-lhe o pedao de pirita e a pederneira, junto com a isca.
    Ayla disps a isca em posio, e depois girou a pedra de um amarelo metlico em torno da mo at senti-la bem ajustada. O sulco na pirita, produzido pelo uso 
contnuo, estava virado para o lado certo. A seguir, pegou o fragmento de pederneira. Seus movimentos eram to hbeis que quase nunca era preciso mais de um golpe 
para produzir uma fasca. Com umas poucas sopradelas, a isca se incendiou. Os presentes emitiram um suspiro coletivo.
            Isso  incrvel  disse Losaduna.
     No mais do que suas pedras de queimar  respondeu Ayla.  Temos algumas de sobra. Vou lhe dar uma, para a Caverna. Talvez possamos fazer uma demonstrao 
durante a Cerimnia.
     Isso! A ocasio seria perfeita, e terei todo prazer de aceitar seu presente para a Caverna  disse Losaduna.  Mas temos de lhe dar alguma coisa em troca.
     Laduni j nos prometeu dar tudo de que precisarmos para ultrapassar a geleira e prosseguir nossa Jornada. Ele tem para comigo uma dvida, muito embora tivesse 
nos atendido de qualquer jeito. Lobos invadiram nosso esconderijo e levaram a comida  disse Jondalar.
     Vocs tencionam cruzar a geleira com os cavalos?  perguntou Losaduna.
            Claro que sim  disse Ayla.
            Como faro para aliment-los? E dois cavalos tm de beber muito mais gua do que duas pessoas. Como conseguiro gua se tudo est congelado?  perguntou 
Aquele que Serve.
    Ayla olhou para Jondalar.
            Estive pensando nisso  respondeu ele.  Creio que poderamos levar um pouco de ervas secas no bote.
            E quem sabe, tambm pedras de queimar? Se conseguirem a achar um lugar para armar uma fogueira em cima do gelo. No teriam de se preocupar com o fato 
de elas se molharem, e seria muito menos peso para carregar  disse Losaduna.
    Jondalar pensou um pouco e depois seu rosto se abriu num sorriso largo e contente.
     Est a a resposta! Podemos coloc-las dentro do bote... que desliza pelo gelo mesmo quando carregado... e acrescentar algumas outras pedras para serem usadas 
como base para um fogo. Estive pensando nisso  h tanto tempo... No tenho como lhe agradecer, Losaduna.
    Por acaso Ayla descobriu, ao escutar algumas pessoas conversando sobre ela, que julgavam seu estranho maneirismo ao falar um sotaque Mamuti, embora Solandia 
acreditasse que se tratava de uma ligeira dificuldade de fala. Por mais que ela tentasse, no conseguia superar a dificuldade que tinha de articular certos sons, 
mas ficou satisfeita ao perceber que mais ningum parecia atentar para aquilo.
    Durante os dias que se seguiram, Ayla conheceu melhor o grupo dos Losadunai que viviam perto da fonte termal  o grupo era chamado "a Caverna", vivesse ou no 
numa delas. Apreciava particularmente as pessoas que a hospedavam em seu espao de moradia, Solandia, Losaduna e as crianas, e percebeu o quanto sentira falta de 
gente amiga que se comportasse de maneira normal. A mulher falava a lngua da gente de Jondalar razoavelmente, misturando algumas palavras Losadunai, mas ela e Ayla 
no tinham dificuldades para se fazerem entender mutuamente.
    Sentiu-se ainda mais atrada pela companheira do Servidor da Me ao descobrir que tinham um interesse comum. Embora fosse Losaduna que devesse entender de plantas,
ervas e remdios, na verdade era Solandia quem acumulara maior soma de conhecimentos. O casal lhe lembrava Iza e Creb, pois Solandia tratava as doenas da Caverna
com uma flora medicinal prtica, deixando o exorcismo de espritos e outras desconhecidas emanaes nocivas a cargo do companheiro. Ayla admirava tambm o interesse 
que Losaduna demonstrava por histrias, lendas, mitos e pelo mundo dos espritos  pelos aspectos intelectuais a que ela tivera o acesso proibido quando vivia com 
o Cl , e comeava a espantar-se com o volume de conhecimentos que ele possua.
    Assim que ele descobriu que ela nutria um genuno interesse pela Grande Me Terra e pelo mundo imaterial dos espritos, e ao se dar conta de sua vvida inteligncia 
e sua extraordinria capacidade de memorizao, Losaduna disps-se a lhe transmitir tudo quanto sabia. Mesmo sem compreend-los plenamente, em breve Ayla recitava 
longos poemas e historias, assim como o contedo e a ordem exata de rituais e cerimnias. Lasaduna era fluente em Zelandonii, embora o falasse com um forte sabor 
Losadunai, nas expresses e na fraseologia, tornando as duas lnguas to Parecidas que a maior parte do ritmo e da mtrica dos versos se mantinha, embora parte das 
rimas se perdesse. Ainda mais fascinantes para eles eram as sutis diferenas e as muitas semelhanas entre a interpretao dele e as tradies dos Mamuti. Losaduna 
queria ficar a par das variaes e das divergncias, e Ayla acabou por se ver no como uma aclita, como fora com Mamute, mas como uma espcie de mestra, explicando 
a cultura oriental, ou ao menos o que ela conhecia.
    Jondalar tambm estava apreciando o clima da caverna, e tomava conscincia do quanto perdera por no conviver com pessoas. Passava muito tempo com Laduni e vrios 
caadores, mas Solandia surpreende-se com o interesse que ele demonstrava pelos filhos dela. Realmente Jondalar gostava de crianas, mas se interessava principalmente 
por observar as relaes entre eles e a me. Sobretudo quando Solandia amamentava o beb, ele se entristecia por Ayla ainda no ter tido um filho, um filho de seu 
esprito, como ele esperava, mas ao menos um filho ou uma filha para o seu fogo.
    O beb de Solandia, Micheri, despertava sentimentos anlogos em Ayla, mas ela continuava a preparar seu ch anticoncepcional a cada manh. As descries da geleira 
que ainda teriam de atravessar eram to aterradoras que ela no queria sequer pensar na possibilidade de ter um filho com Jondalar por enquanto.
    Embora se sentisse grato por isso no ter acontecido enquanto viajavam, Jondalar no se sentia de todo tranquilo. Comeava a se preocupar com o fato de a Grande 
Me Terra no abenoar Ayla com uma gravidez, achando que de algum modo aquilo era culpa sua. Certa tarde ele levou suas apreenses a Losaduna.
     A Me decidir quanto ao tempo certo  disse o homem.  Talvez Ela saiba o quanto as viagens de vocs sero difceis. Entretanto, creio que chegou o momento 
de uma cerimnia em Sua honra. Nessa ocasio, voc poder pedir-Lhe que d um filho a Ayla.
     Talvez voc tenha razo  concordou Jondalar.  Decerto no haver mal nisso.  Riu, desdenhoso.  Uma vez me disseram que eu era um protegido da Me e que 
Ela jamais me recusaria um pedido.  A seguir uma sombra lhe toldou o semblante.  Ainda assim, Thonolan morreu.
     Voc chegou a pedir-lhe que no o deixasse morrer?  perguntou Losaduna.
     Bem... no. Tudo aconteceu to depressa  admitiu Jondalar  Aquele leo tambm me feriu.
     Pense nisso um dia. Tente lembrar-se se voc j lhe pediu alguma coisa, e se Ela atendeu ou rejeitou seu pedido. De qualquer modo, vou conversar com Laduni
e com o conselho a respeito de uma cerimnia em honra da Me  disse Losaduna.  Quero fazer alguma coisa que possa ser de ajuda a Madenia, e uma Cerimnia de Honra
talvez seja a coisa mais acertada. Ela se recusa a sair da cama. No quis nem mesmo levantar-se para ouvir as suas histrias, e Madenia antes gostava tanto de histrias
de viagens!
     Que provao terrvel isso deve ter sido para ela  disse Jondalar, sentindo um arrepio.
     Realmente. Eu esperava que ela j estivesse se recuperando.  bem possvel que um ritual de purificao na Fonte Termal ajude  disse ele, mas era evidente 
que no esperava uma resposta de Jondalar. Sua mente j estava longe dali, pois ele comeava a refletir sobre o ritual. De repente, ergueu os olhos.  Sabe onde 
est Ayla? Acho que vou pedir-lhe que participe do ritual conosco. Com certeza ela ajudaria.
     Losaduna esteve explicando, e estou muito interessada no ritual que estamos planejando  disse Ayla.  Mas no estou to certa com relao  Cerimnia em Honra 
da Me.
      uma cerimnia importante  disse Jondalar, com o cenho franzido.  A maioria das pessoas a espera com ansiedade.  Se Ayla no estivesse interessada no rito, 
teria ele alguma eficcia?
     E possvel que se eu soubesse mais a respeito, tambm me interessasse. Ainda tenho muito que aprender e Losaduna est disposto a me ensinar. Gostaria de ficar 
por aqui mais tempo.
     Mas temos de partir em breve. Se esperarmos muito, chegar a primavera. Vamos ficar para a Cerimnia em Honra da Me, e depois partiremos  disse Jondalar.
     Quase me atrevo a dizer que deveramos ficar por aqui at o prximo inverno. Estou to cansada de viagens  disse Ayla. No entanto, no verbalizou seu pensamento 
completo, que a vinha atormentando: estas pessoas esto dispostas a me aceitar; no sei se a sua gente far o mesmo.
     Tambm estou cansado de viajar, mas assim que transpusermos a geleira, o destino no estar longe. Vamos parar para uma visita a Dalanar e para que ele saiba 
que voltei. Depois, o resto do caminho ser fcil.
    Ayla sacudiu a cabea, concordando, mas ainda com a sensao de que lhe restava um longo caminho a percorrer. Falar sobre a viagem de certo era mais fcil do 
que realiz-la.

36
___________________________________________________________________________

     Voc quer que eu faa alguma coisa?  perguntou Ayla.
     Ainda no sei  disse Losaduna.  Acho que, nessas circunstancias, deveramos ter uma mulher conosco. Madenia sabe que eu sou Aquele que Serve  Me, mas eu 
sou homem, e ela agora tem medo de homens. Acho que seria muito til se ela falasse sobre isso, pois s vezes  mais fcil conversas com um desconhecido com quem 
se simpatiza. As pessoas tm medo de que os conhecidos se lembrem sempre dos seus segredos mais ntimos; alm disso, toda vez que os vem, lembram-se de sua dor 
e de sua raiva.
            H alguma coisa que eu no deva dizer, ou fazer?
            Voc  uma pessoa sensvel e saber por si mesma o que fazer. Voc tambm tem uma rara habilidade para lnguas. Estou realmente impressionado com a 
rapidez com que aprendeu a falar Losadunai, e tambm sou-lhe grato por Madenia  disse Losaduna.
    Esse elogio constrangeu Ayla, que desviou o olhar. Para ela, seu talento no era to surpreendente.
            A lngua parece muito com Zelandonii  comentou.
    Ele percebeu o desconforto de Ayla, e no tocou mais no assunto. Ambos observaram Solandia chegar.
     Est tudo pronto. Vou levar as crianas e preparar este lugar para vocs, para quando tiverem terminado. Ah! Isso me lembrou de uma coisa, Ayla. Voc se importa 
se eu levar Lobo? O nenm se apegou tanto a ele, e ele mantm todos ocupados.  A mulher soltou um riso nervoso.  Quem diria que eu chegaria a pedir a um lobo para 
tomar conta de minhas crianas?
     Acho melhor ele ir com voc  disse Ayla.  Madenia no conhece Lobo.
            Vamos busc-la, ento?  sugeriu Losaduna.
    No caminho para a moradia de Madeina e sua me, Ayla notou que ela era mais alta que o homem. Isso lhe recordou a primeira impresso sobre ele: baixo e tmido. 
Surpreendeu-se ao ver como sua maneira de v-lo mudara. Embora Losaduna fosse baixo e reservado, seu intelecto decidido emprestava-lhe estatura, e sua calma dignidade 
escondia uma sensibilidade profunda, alm de uma forte presena.
    Losaduna arranhou o couro firme, esticado entre estacas finas. A porta de entrada abriu-se para fora e uma mulher mais velha f-los entrar. Sua expresso franziu-se 
quando viu Ayla, a quem lanou um olhar de desagrado.
    A mulher foi logo ao assunto, cheia de amargura e rancor.
     J encontraram aquele homem? Aquele que roubou os meus netos, antes mesmo de terem oportunidade de nascer?
     Achar Charoli no vai devolver seus netos, Verdegia, e eu no estou preocupado com ele, agora. Com Madenia, sim; como vai ela.  inquiriu Losaduna.
     Ela no quer sair da cama e s com muita dificuldade comeu alguma coisa. Nem mesmo falou comigo. Era uma criana muito bonita e estava se transformando numa 
linda mulher. No teria dificuldade para encontrar um companheiro, at que Charoli e seus homens a arruinaram.        Por que a senhora acha que ela est arruinada? 
 perguntou Ayla.
    A mulher encarou Ayla, como se ela fosse imbecil.
     Essa mulher no sabe de nada?  falou, dirigindo-se a Lossduna. Em seguida, voltou-se para Ayla:  Madenia nem chegou a cumprir seus Primeiros Ritos. Ela foi 
estragada, arruinada. Agora, a Me jamais a abenoar.
     No esteja to certa disso. A Me no  to rancorosa  afirmou o homem.  Ela conhece os caminhos de seus filhos e tem meios, outras formas de ajud-los. 
Madenia pode ser purificada, renovada, de maneira que ainda possa ter seus Ritos dos Primeiros Prazeres.
     Isso no vai resolver. Ela no quer saber de nada ligado a homens, nem mesmo os Primeiros Ritos  atalhou Verdegia.  Todos os meus filhos foram viver com 
suas companheiras: todos disseram que no tnhamos lugar em nossa caverna para tantas novas famlias. S restou Madenia, minha nica filha. Desde que meu homem morreu, 
espero v-la trazer um companheiro para c, ter por perto um homem que ajude a manter os filhos que ela teria, meus netos. Agora no terei mais netos morando aqui. 
Tudo por causa... daquele homem  prosseguiu ela, confusa , e ningum est fazendo nada.
     Voc sabe que Laduni est aguardando notcias de Tomasi  explicou Losaduna.
     Tomasi!  Verdegia cuspiu o nome.  Para que serve ele? Foi sua caverna que gerou aquele... aquele homem.
     Voc tem de dar-lhes uma oportunidade. Mas ns no precisamos esperar por eles para ajudar Madenia. Quando ela for purificada e renovada, talvez mude de ideia 
a respeito de seus Primeiros Ritos. Pelo menos, precisamos tentar.
     Voc pode tentar, mas ela no vai se levantar  asseverou a mulher.
     Talvez possamos encoraj-la  argumentou Losaduna.  Onde est ela?
     L, atrs da cortina  respondeu Verdegia, apontando para um espao fechado prximo  parede de pedra.
     Losaduna dirigiu-se para o lugar e puxou a cortina, deixando a luz entrar. A garota, na cama, levantou a mo para tapar a claridade.
            Madenia, levante-se agora  ordenou. Seu tom era firme, porm delicado. Ela desviou o rosto.  Ajude-me, Ayla.
    Juntos, eles a sentaram e depois a puseram em p. Madenia no opunha resistncia, mas tambm no cooperava. Um de cada lado, levaram-na para fora do espao fechado 
e, em seguida, saram da caverna. Embora descala, a menina no parecia sentir o terreno gelado, coberto de neve. Conduziram-na a uma tenda cnica que Ayla no notara 
antes. Escondia-se ao lado da caverna, entre pedras e moitas, e saa vapor pela chamin, no topo. Um forte cheiro de enxofre permeava o ar.
    Assim que entraram, Losaduna empurrou uma cobertura de couro que tapava a passagem e prendeu-a. Encontraram-se ento numa pequena ante-sala, separada do aposento 
principal por pesadas cortinas de couro; pele de mamute, pensou Ayla. Embora no exterior o frio fosse cortante, l dentro estava quente. A tenda, de parede dupla, 
fora erigida em volta de uma fonte aquecida, que proporcionava calor. Entretanto, apesar do vapor, as paredes mostravam-se razoavelmente secas. Embora houvesse alguma 
umidade, que se condensava no alto sob a forma de gotculas e escorria pelas paredes inclinadas at a borda do pano que revestia o cho a maior parte da condensao 
ocorria no lado interno da parede exterior, onde o frio l de fora encontrava-se com o calor de dentro. O ar entre as duas paredes era mais quente, o que mantinha 
o revestimento interno quase seco.
    Losaduna ordenou-lhes que tirassem as roupas; ao ver Madenia permanecer imvel, mandou Ayla despi-la. Quando Ayla comeou a remover as vestimentas de Madenia, 
esta agarrou-se s suas roupas, enquanto fitava, de olhos fixos e arregalados, Aquele que Serve  Me.
     Tente tirar a roupa dela; se ela no deixar, traga-a vestida mesmo  disse Losaduna. Em seguida, desapareceu atrs da pesada cortina deixando escapar um bocado 
de vapor. Assim que o homem saiu, Ayla conseguiu tirar as vestes da jovem; despiu-se, tambm, e conduziu Madenia ao aposento alm da cortina.
    Nuvens de vapor obscureciam o recinto com uma fumaa quente que manchava os contornos e ocultava os detalhes, mas Ayla pde distinguir uma piscina cercada de 
pedras, ao lado de uma fonte quente natural. O buraco que as ligava estava fechado por um batoque de madeira. Do outro lado da piscina, um tronco oco, que trazia 
gua fria de um riacho prximo, fora levantado para impedir o fluxo de chegar  piscina. Quando a densa cortina de vapor clareou por alguns instantes, ela pde ver 
que o interior da tenda era decorado com pinturas de animais, muitas delas representando fmeas grvidas, ao lado de enigmticos tringulos, crculos, trapezides 
e outras figuras geomtricas. A maioria das pinturas fora esmaecida pela condensao da gua.
    Em volta das piscinas, embora sem alcanar a parede da tenda, o cho era recoberto por grossos chumaos de feltro de l de carneiro, que transmitiam aos ps 
descalos uma sensao maravilhosa de maciez e quentura. Suas formas e linhas conduziam  parte mais rasa da piscina,  esquerda. Sob a gua, junto  parede da parte 
mais funda,  direita da piscina,  podiam-se distinguir bancos de pedra. Na parte traseira, sobre uma plataforma elevada de terra, bruxuleavam as luzes de trs lamparinas 
de pedra  tigelas cheias de gordura derretida, em cujo centro flutuava um pavio de alguma substncia aromtica  que cercavam a pequena esttua de uma mulher de 
formas generosas. Ayla reconhecei na figura uma representao da Grande Me Terra.
    No interior de um crculo quase perfeito de pedras redondas, quase idnticas em forma e tamanho, havia uma lareira cuidadosamente construda em frente ao altar 
de terra. Losaduna surgiu no meio da nvoa e pegou um pequeno basto que jazia ao lado de uma das lamparinas. Numa das extremidades, via-se uma bolha de material 
escuro, que Losaduna colocou sobre a chama. Logo ela pegou fogo e, pelo cheiro, Ayla percebeu que a ponta do basto fora mergulhada em piche. Losaduna levou o pequeno 
tio, protegendo a chama com a mo em concha, at a lareira, onde acendeu o fogo. Desprendeu-se ento um aroma forte, mas agradvel, que mascarava o odor de enxofre.
    Sigam-me  ordenou. Em seguida, colocando o p esquerdo sobre um dos chumaos de l entre duas linhas paralelas, comeou a andar em volta da piscina, sobre um 
caminho delineado com preciso. Madenia arrastava os ps atrs dele, sem se importar com o caminho seguido. Ayla, porm, seguiu os passos dele. Completaram o circuito 
da piscina e da fonte quente, pulando a entrada de gua fria e a vala de escoamento. Ao iniciar a segunda volta, Losaduna comeou a cantar em ritmo montono, invocando 
a Me atravs de nomes e ttulos.
     Duna, Grande Me Terra, Grande e Beneficente Provedora, Grande Me de Todos, Me Primeira e Original, Aquela que Abenoa Todas as Mulheres, Me Plena de Compaixo, 
ouve as nossas splicas  o homem repetiu diversas vezes as invocaes, enquanto circundavam a gua pela segunda vez.
    Ao colocar o p esquerdo entre as linhas paralelas da esteira inicial para comear o terceiro circuito, Losaduna pediu:
            Me Compassiva, ouve nossa splica.  Duna, Grande Me Terrestre, uma das Tuas filhas foi ferida, violada. Por isso, deve ser purificada para receber 
Tua bno. Grande e Beneficente Provedora, uma de Tuas filhas precisa de ajuda. Ela precisa ser curada. Renova-a, Grande Me de Todos, faze com que ela conhea 
a alegria de Tuas Ddivas. Ajuda-a, Me Primeira, a conhecer Teus Ritos dos Primeiros Prazeres. Permite, Me Primeira, que ela receba Tua Bno. Me Compassiva, 
ajuda Madenia, filha de Verdegia, filha dos Losadunai, as Crianas da Terra que vivem perto das montanhas.
    O discurso e a cerimnia fascinaram Ayla, que pareceu notar, para sua alegria, alguns sinais de interesse em Madenia. Terminada a terceira volta, Losaduna conduziu-as 
 com os mesmos passos marcados e as mesmas invocaes  ao altar de terra, onde as trs lamparinas iluminavam a imagem da Me. Ao lado de uma das candeias havia 
um objeto em forma de faca, talhado em osso. Era razoavelmente grande e dotado de dois gumes, com ponta arredondada. Losaduna pegou-o e conduziu ambas as Mulheres 
at a lareira.
    Sentaram-se juntos em volta da lareira, voltados para a piscina, Madenia entre ambos.
    O homem pegou de uma pilha prxima algumas pedras marrons de queimar e colocou-as no fogo. Pegou tambm a tigela guardada em um nicho ao lado da plataforma elevada. 
Feito de pedra, o objeto deveria ter inicialmente tido o formato de tigela, mas tora escavado com um martelo de pedra. O fundo estava escurecido. Losaduna encheu 
o recipiente com gua de um pequeno saco que tambm se encontrava no nicho, acrescentou folhas secas que tirara de uma cestinha e colocou a tigela sobre as brasas.
    Em seguida, marcou com a faca de osso uma rea plana e lisa de solo seco, cercada por chumaos de l. De repente, Ayla compreendeu o que era o instrumento de
osso. Os Mamuti haviam usado uma ferramenta semelhante para fazer marcas no barro e registrar resultados do jogo, planejar estratgias de caa e ilustrar com desenhos
as histrias que contavam.  medida que Losaduna traava as marcas, Ayla percebeu que ele estava usando a faca para contar uma histria, mas no daquelas que o visam
apenas entreter. Enquanto contava a histria com a mesma cantoria montona das invocaes iniciais, Losaduna desenhava pssaros para enfatizar alguns trechos. Ayla 
logo notou que a histria era uma recriao alegrica do ataque sofrido por Madenia, em que os personagens eram os pssaros.
    A jovem comeou a reagir, identificando-se com o pssaro fmea a que ele se referia, e subitamente, com um forte soluo, comeou a chorar. Com o lado achatado 
da faca de desenhar, Aquele que Servia  Me apagou toda a cena.
            Acabou! Nunca aconteceu  disse. Em seguida, desenhou apenas o pssaro fmea.  Ela est inteira de novo, assim como era no incio. Com o auxlio da 
Me,  justamente isso que vai acontecer com voc, Madenia. Tudo desaparecer, como se nunca houvesse acontecido.
    Um forte cheiro de hortel comeou a tomar conta da tenda enevoada. Losaduna verificou a gua que esquentava sobre as brasas e dela retirou uma xcara.
            Beba isso  ordenou.
    Surpresa, antes que tivesse tempo para pensar ou objetar, Madenia engoliu o lquido. Ayla e Losaduna tambm beberam. Depois, ele se levantou e conduziu-as  
piscina.
    Losaduna entrou devagar na gua fumegante. Madenia foi atrs e Ayla, sem nada pensar, seguiu-a. Quando, porm, colocou o p na gua, retirou-o imediatamente. 
Que calor! Essa gua est quase no ponto para cozinhar, pensou ela. S depois de muito concentrar a vontade  que conseguiu colocar o p de novo na gua, mas demorou 
um pouco at dar um novo passo. Ayla sempre banhara-se ou nadara nas guas frias dos rios, crregos e piscinas, alguns deles to frios que ela, para entrar, tinha 
de quebrar a pequena camada de gelo que os recobria. Algumas vezes, banhara-se com gua aquecida no fogo, mas jamais entrara antes nas guas de uma fonte termal.
    Embora Losaduna as conduzisse lentamente, para permitir que se acostumassem ao calor, Ayla demorou muito para alcanar os bancos de pedra. No entanto,  medida 
que foi mais para o fundo, sentiu-se invadida por uma suave sensao de aquecimento. Quando sentou-se e a gua atingiu seu queixo, comeou a relaxar. No era to 
ruim, se se acostumasse, pensou. O calor, na verdade, era agradvel.
    Uma vez instalados e acostumados  gua, Losaduna mandou Ayla prender o flego e mergulhar a cabea. Quando ela levantou a cabea, sorrindo, Losaduna disse a 
Madenia que fizesse o mesmo. Aps tambm mergulhar, ele as conduziu para fora da piscina. Dirigiram-se para o vestbulo encortinado, onde ele pegou uma tigela de 
madeira. Dentro do recipiente havia uma matria densa, de um amarelo plido, que parecia espuma grossa. Losaduna colocou a tigela no cho, sobre um piso de pedras 
achatadas. Retirou com a mo um pouco da espuma, espalhou-a pelo corpo; mandou Ayla fazer o mesmo em Madenia e, depois, nela mesma, sem se esquecer dos cabelos.
    O homem entoou uma cano sem palavras enquanto se esfregava com a substncia macia e escorregadia, mas Ayla percebeu na cantoria mais uma sensao de prazer 
que propriamente uma obrigao ritual. Tambm ela sentia-se leve, o que atribua talvez ao ch que tomara.
    Quando esgotaram todo o contedo tigela, Losaduna foi at a piscina e encheu-a de agua; voltou para o piso de pedra e derramou o liquido sobre a cabea para 
retirar a espuma. Repetiu a operao duas vezes; depois fez o mesmo com Ayla e Madenia. A seguir, Aquele que Servia a Mae Levou-as de volta a piscina, cantando a 
mesma melodia que entoara no inicio da abluo.
    Assim que entraram na gua mineral e sentaram-se, quase flutuando, no banco submerso, Ayla sentiu-se totalmente relaxada. A piscina quente lembrava-lhe os agradveis 
banhos Mamuti, mas era, talvez, ainda melhor. Quando Losaduna julgou o tempo suficiente, mergulhou no fundo da piscina e retirou um tampo de madeira. Assim que 
a gua comeou a escorrer, iniciou uma gritaria que, a princpio, chocou Ayla.
     Espritos do mal, desapaream! gua purificadoras da Mae, levem embora todos os vestgios do toque de Charoli e seus homens. Impurezas, vo embora com a agua, 
deixem este lugar. Quando a gua for embora, Madenia estar limpa, purificada. Os poderes da Mae fizeram-na ficar como era antes.  Saram da gua.
    Deixaram a tenda sem pegar as roupa. Sentiam tanto calor que o vento gelado sobre a pele nua transmitia-Ihe uma sensao refrescante. As poucas pessoas com que 
cruzaram pareciam ignora-los, ou viravam a cabea quando passavam. Um sentimento desagradvel apossou-se subitamente de Ayla quando lembrou-se de outra ocasio em 
que as pessoas, embora olhassem-na fixamente, fingiam ignora-la. Mas agora no era como ser amaldioada pelo Cl. Ayla sabia que os moradores do lugar os viam, mas 
tingiam no v-los, mais por cortesia que por animosidade. O passeio te-los estriar com rapidez e quando chegaram ao abrigo cerimonial receberam com prazer os aconchegantes 
cobertores e o fumegante ch de hortel.
    Ayla observou suas mos curvadas em volta da xcara de ch: embora enrugadas, estavam absolutamente limpas! Quando se penteou com um instrumento denteado feito 
de osso, notou que os cabelos rangiam ao serem puxados pelos dedos.
     O que era aquela espuma macia e escorregadia? - perguntou.
     Ela limpa como erva-de-banho, mas  muito mais penetrante.
     E Solandia quem faz  respondeu Losaduna.  Tem algo a ver com  cinza de madeira e gordura, mas voc ter de perguntar a ela.
    Depois de aprontar os cabelos, Ayla comeou a pentear os de Madenia.
            Como voc faz aquela gua ficar to quente?
    O homem sorriu.
             uma ddiva da Me aos Losadunai. H vrias fontes termais nessa regio. Algumas so sempre usadas por todos, outras so mais sagradas. Consideramos 
essas como os centros de onde irradiam-se todas as outras; isso faz com que sejam as mais sagradas.  por esse motivo que nossa Caverna  to respeitada. Tambm 
 isso que torna to difcil a sada das pessoas. A Caverna, porm, est ficando to cheia que um grupo de jovens est pensando em fundar uma nova. H um lugar do 
outro lado do rio, corrente abaixo, onde eles gostariam de fixar-se, mas  um territrio de cabeas-chatas, e eles ainda no decidiram ao certo o que fazer.
    Ayla balanou afirmativamente a cabea: sentia-se to aquecida e relaxada que no queria mover-se. Notou que Madenia relaxara tambm abandonando parte da tenso 
e do alheamento anteriores.
            Que ddiva maravilhosa  aquela gua!  regozijou-se Ayla.
             importante que aprendamos a apreciar todas as ddivas da Me  completou o homem , sobretudo seu Dom de Prazer.
    Madenia retesou-se.
            Esse Dom  uma mentira! No h prazer, s dor!  Era a primeira vez que ela falava.  Por mais que eu implorasse, eles no paravam. Apenas riam, e quando 
um terminava, outro comeava! Eu queria morrer  relembrou com um soluo.
    Ayla levantou-se, dirigiu-se para a moa e a abraou.
     Era a minha primeira vez, e eles no paravam! No paravam  repetia aos gritos.  Nenhum homem jamais me tocar novamente!
     Voc tem o direito de estar revoltada. Voc tem o direito de chorar. O que eles fizeram com voc foi terrvel. Eu sei como voc se sente  disse Ayla.
    A jovem desvencilhou-se dos braos de Ayla e gritou, com a voz cheia de amargura e raiva.
            Como voc pode saber como eu me sinto?
            Eu tambm j passei pela dor e pela humilhao  afirmou Ayla.
    A revelao surpreendeu a jovem, mas Losaduna balanou a cabea, como se houvesse subitamente compreendido algo.
            Madenia  contou Ayla suavemente , quando eu tinha mais ou menos a sua idade, um pouco menos, talvez, mas no muito depois do incio de minhas luas, 
eu tambm fui forada. Era minha primeira vez, e eu no sabia que aquilo era destinado ao Prazer. Para mim, era s dor.
            Mas foi s um homem?  perguntou Madenia.
     S um, mas ele me exigiu diversas vezes depois daquele dia, e eu odiava aquilo!  desabafou Ayla, surpresa com o dio que ainda sentia.
     Muitas vezes? Mesmo aps ser forada pela primeira vez? Por que ningum o obrigou a parar?  indagou Madenia.
     Achavam que ele tinha direito. Julgavam que eu estava errada por sentir tanta raiva e dio e no compreendiam por que eu sentia dor. Comecei a pensar que havia 
algo de errado comigo. Depois de algum tempo, deixei de sentir dor, mas tambm no senti Prazer. Aquilo era para me humilhar, e jamais deixei de sentir dio. No 
entanto... parei de ligar. Ocorreu, ento, algo de maravilhoso: no importa o que ele fizesse, eu pensava em outra coisa, algo alegre, e o ignorava. Quando ele no
conseguiu me fazer sentir mais nada, nem mesmo raiva, penso que se sentiu humilhado e finalmente parou. Mas eu no queria que homem nenhum jamais voltasse a me tocar.
     Nenhum homem jamais me tocar!  garantiu Madenia.
     Nem todos os homens so como Charoli e seu bando, Madenia. Alguns so como Jondalar. Foi ele que me ensinou a alegria e o Prazer do Dom da Me, e eu lhe asseguro, 
 um Dom maravilhoso. D a voc mesma a oportunidade de conhecer um homem como Jondalar e voc tambm descobrir a alegria.
    Madenia balanou a cabea.
            No! No!  terrvel!
            Sei que foi terrvel. Mesmo os melhores Dons podem ser mal utilizados e o bem transformado em mal. Algum dia, porm, voc vai querer ser me, mas nunca 
conseguir ter um filho, Madenia, se no dividir o Dom da Me com um homem  ponderou Ayla.
    Madenia chorava, tinha o rosto encharcado de lgrimas.
            No diga isso. No quero ouvir isso.
            Sei que voc no quer, mas  a verdade. No deixe que Charoli estrague as boas coisas a que voc tem direito. Cumpra seus Primeiros Ritos e ver que 
no tem de ser terrvel. Acabei por aprender, embora sem qualquer cerimnia para festejar. A Me descobriu um modo de me proporcionar essa alegria. Enviou-me Jondalar. 
O Dom  mais do que Prazeres, Madenia, muito mais, quando compartilhado com carinho e amor. Se a dor que senti na primeira vez foi o preo que tive de pagar, pagaria 
com satisfao muitas outras vezes para obter o amor que conheci. Voc tem sofrido tanto que talvez a Me, se voc Lhe der essa oportunidade, tambm lhe traga algum 
especial. Pense nisso, Madenia, no diga no antes de refletr.
    Ayla acordou com uma rara sensao de descanso e frescor. Deu um sorriso lnguido e procurou por Jondalar, mas ele j havia sado. Aps um instante de desapontamento, 
lembrou-se que ele a acordara cedo para lembrar-lhe que iria caar com Laduna e outros do grupo e perguntara se ela queria ir junto. Ayla no aceitou o convite, 
que j havia sido feito na noite anterior, porque tinha outros planos para esse dia. Despediu-se dele e voltou a dormir, desfrutando do agradvel prazer proporcionado 
pelas quentes cobertas de pele.
    Agora, ela decidira levantar. Espreguiou-se e levou as mos aos cabelos, deleitando-se com sua sedosa maciez. Solandia lhe prometera ensinar como preparar a 
espuma que a fizera sentir-se to limpa e com os cabelos to macios.
    O desjejum era o mesmo desde que haviam chegado: sopa de peixe seco, pescado no incio do ano no Rio da Grande Me.
    Jondalar lhe contara que os suprimentos da Caverna estavam baixos, o que fazia os homens irem  caa, embora no fossem a carne e o peixe os alimentos mais desejados. 
Ningum passava fome, nem a comida era escassa: tinham o suficiente. Acontece que j estavam no final do inverno e a variedade era pouca. Todos estavam cansados 
de comer carne e peixe secos. Assim at mesmo a carne fresca seria bem-vinda, mas o que todos, na verdade, queriam, eram verduras, brotos de vegetais e frutas, primeiros 
produtos da primavera. Ayla explorara a rea em volta da caverna, mas os Losadunai haviam colhido tudo durante a estao. Ainda dispunham de um estoque razovel 
de gordura, cujas protenas e calorias garantiam-lhes sade.
    A festa que acompanharia a Cerimnia da Me, no dia seguinte, teria suas limitaes. Ayla j decidira contribuir com o resto do seu sal e com algumas ervas que 
no s condimentariam os alimentos, como ainda os enriqueceriam com as vitaminas e sais minerais to necessrios e desejados por todos. Solandia mostrara-lhe o pequeno 
suprimento de bebidas fermentadas, em sua maior parte cerveja de vidoeiro, que, segundo afirmava, faria com que a ocasio se tornasse festiva.
    A mulher tambm usaria parte do seu estoque de gordura para fazer mais sabo. Quando Ayla expressou a preocupao de que, com isso, estariam gastando comida, 
Solandia disse que Losaduna gostava de usar o sabo nas cerimnias e que as reservas do produto tambm j estavam no fim. Enquanto as demais mulheres cuidavam das 
crianas e preparavam a cerimnia, Ayla saiu com Lobo para ver como estavam Huiin e Racer e passar algum tempo com eles.
    Solandia dirigiu-se  ampla abertura da caverna para avisar Ayla que estava pronta. L chegando, porm, ficou alguns momentos a observar a visitante. Ayla acabara 
de retornar de uma corrida e ria enquanto brincava com os animais. A maneira como a moa brincava com os bichos sugeriu  mulher mais velha que eles pareciam filhos 
de Ayla.
    Alguns adolescentes da Caverna, entre eles dois filhos de Solandia, tambm olhavam e chamavam por Lobo, que, por sua vez, olhava para Ayla com vontade de participar 
dos folguedos, mas esperando permisso. Ao ver a mulher na entrada da caverna, Ayla correu para ela.
     Queria que Lobo entretivesse o nenm  comentou Solandia.  Verdegia e Madenia esto vindo para ajudar, mas a tarefa requer concentrao.
     Me!  disse Dosalia, a filha mais velha, que tambm tentava atrair Lobo.  O nenm sempre brinca com ele.
            Bem, se em vez disso voc quiser tomar conta do nenm...
    A jovem franziu as sobrancelhas; depois sorriu.
            Podemos lev-lo para fora? No est ventando, e eu posso agasalh-lo.
     Acho que sim  concordou Solandia.
    Ayla olhou para o lobo, que a observava com expectativa.
     Tome conta do nenm, Lobo  disse ela, recebendo um latido em resposta.
     Tenho um pouco de gordura de mamute que ganhei no outono passado  comentou Solandia ao se dirigirem para sua morada no interior da caverna.  Ano passado 
tivemos sorte na caa aos mamutes.  por isso que ainda temos tanta gordura. Sem ela, teramos tido um duro inverno. J comecei a derreter a gordura.  Alcanaram 
a entrada no momento em que as crianas, correndo, saam com o mais novo.  No percam os manguitos de Micheri  gritou-lhes.
    Verdegia e Madenia j estavam l.
            Trouxe algumas cinzas  comunicou Verdegia. Madenia apenas sorriu, um pouco hesitante.
    Solandia alegrou-se ao v-la sair da cama e juntar-se s pessoas. Seja l o que fizeram na fonte, parece que ajudou.
            Coloquei algumas pedras de cozinhar no fogo para o ch. Madenia, voc pode fazer um pouco para ns? Assim poderei usar o resto para requentar a gua 
de derreter a gordura.
            Onde coloco essas cinzas?  indagou Verdegia.
            Pode mistur-las s minhas. J comecei a lixivi-las, mas no faz muito tempo.
     Losaduna disse que voc usa gordura e cinzas  comentou Ayla.
     E gua  acrescentou Solandia.
     Parece uma combinao estranha.
     E .
            O que a fez decidir misturar essas coisas? Quero dizer, como voc chegou a isso, na primeira vez?
    Solandia esboou um sorriso.
            Na verdade, foi um acidente. Estvamos caando, e eu tinha acendido um fogo ao ar livre, num buraco que fiz no cho, e estava assando um pedao de carne 
gorda de mamute. De repente, comeou a chover forte. Peguei a carne, espeto e tudo e corri para um abrigo. Assim que a chuva passou, voltamos para a caverna, mas 
eu havia esquecido uma boa tigela de madeira e voltei no dia seguinte para busc-la. O buraco estava cheio de gua, com uma grossa espuma flutuando na superfcie. 
No teria dado importncia  espuma se no tivesse deixado cair nela uma concha, que tive de pegar com a mo. Fui lavar-me no crrego. A espuma lembrava erva-de-banho, 
mas era mais macia e escorregadia. Minhas mos ficaram to limpas! A concha tambm. Toda a gordura havia sado. Voltei  lareira, coloquei a espuma na tigela e 
trouxe para casa.
             fcil de fazer?  perguntou Ayla.
     No, no  mesmo. No que seja difcil, mas requer um pouco de prtica  explicou Solandia.  Na primeira vez, tive sorte. Tudo deve ter sado direito. Desde 
ento, venho trabalhando nisso, mas s vezes d errado.
     Como voc faz? Deve ter aperfeioado alguns mtodos que funcionam na maioria das vezes.
      difcil de explicar. Derreto a gordura cortada e limpa... qualquer tipo de gordura serve, mas cada uma  um pouco diferente. Prefiro a de mamute. Pego, ento, 
cinzas de madeira, misturo-as com gua quente e deixo-as empapar um pouco. Depois fao-as escorrer numa cesta de fundo furado. A mistura que passa  forte e pode 
pinicar ou mesmo queimar a pele, e voc tem de lavar-se imediatamente. E essa substncia forte que se pe na gordura; com um pouco de sorte, obtm-se uma espuma 
suave, capaz de limpar tudo, at couro.
            Mas nem sempre voc tem sorte  atalhou Verdegia.
            No, muitas coisas podem dar errado. s vezes voc mexe, mexe, mexe, e os ingredientes no se misturam. Quando isso acontece,  bom dar mais um pouco 
de calor. s vezes o composto se separa e forma duas camadas, uma muito forte e outra muito gordurosa. Em outras ocasies a mistura produz cogulos. Tambm h casos 
em que a espuma fica muito dura, mas isso no  um problema muito grave porque ela tem uma tendncia natural para endurecer com o passar do tempo.
            Mas s vezes d certo, como na primeira vez  quis saber Ayla.
            Uma coisa que aprendi  que tanto a gordura como o lquido das cinzas tm de ter aproximadamente a mesma temperatura da pele do pulso  ensinou Solandia. 
 Quando voc espalha a mistura nessa regio, no deve senti-la nem quente, nem fria. O lquido das cinzas  um pouco mais difcil de avaliar, porque ele  forte 
e pode queimar, o que obriga a retir-lo imediatamente com gua fria. Quando ele queima muito, j se sabe que  preciso adicionar mais gua. Em geral, a queimadura 
no  grave, mas eu no gostaria que esse lquido casse nos meus olhos: basta chegar perto da fumaa, que eles ardem.
            E pode dar mau cheiro  lembrou Madenia.
     verdade  confirmou Solandia.  Pode cheirar mal.  por isso que em geral fao a mistura l no meio da caverna, embora tenha aqui tudo que preciso.
     Me! Me! Venha rpido!  Neladia, a segunda filha de Solandia, passou correndo e saiu novamente da caverna.
     Que houve? Aconteceu algo com o nenm?  indagou a mulher, enquanto corria atrs da menina. Todos a seguiram e correram para a boca da caverna.
            Vejam!  gritou Dosalia.  O nenm est andando!
    L estava Micheri em p, ao lado do lobo, segurando no plo do animal, com um sorriso largo e satisfeito, dando passos incertos  medida que o animal, lento 
e cuidadoso, deslocava-se para a frente. Todos sorriram, a princpio com alvio, depois com alegria.
     O lobo est sorrindo?  indagou Solandia  Parece-me que sim. Parece estar to contente que sorri.
     Tambm acho que sim  concordou Ayla.  Penso com frequncia que ele sabe sorrir.  No  so para cerimonias, Ayla  disse Losaduna.  Tambm usamos as guas 
quentes para nos banharmos. Se voc quiser levar Jondalar s para fazer um relaxamento, no temos objees. As guas Sagradas da Me so como os demais Dons que 
Ela concede a Seus filhos. Tm por finalidade ser usados, desfrutados e apreciados. Da mesma forma como esse ch que voc fez  concluiu, segurando a xcara.
    Quase todos os moradores,  exceo dos que tinham ido caar, estavam sentados em volta da lareira, numa ampla rea no centro da caverna. Exceto nas ocasies 
especiais, o modo de tomar as refeies variava bastante; uns comiam com as respectivas famlias, outros com amigos. Dessa vez, devido ao interesse pelos visitantes, 
reuniram-se todos para a refeio do meio-dia. O cardpio consistia em uma substanciosa sopa de carne seca de veado, reforada com gordura de mamute. Agora encerravam 
o almoo com um ch que Ayla fizera e que ganhara elogios gerais pelo seu sabor.
     Quando ele voltar, talvez usemos a piscina. Acho que ele apreciaria um banho quente, e eu gostaria de acompanh-lo  confirmou Ayla.
      melhor voc alert-la, Losaduna  disse uma mulher, com um sorriso maroto. A mulher fora-lhe apresentada como a companheira de Laduni.
     Alertar-me de qu, Laronia?  indagou Ayla.
     s vezes voc tem de escolher entre os Dons da Me.
     O que voc quer dizer com isso?
     Ela quer dizer que as guas Sagradas podem ser excessivamente relaxantes  explicou Solandia.
     Ainda no consigo entender  disse Ayla, percebendo que todos falavam sobre o assunto com uma certa dose de humor.
     A imerso na gua quente diminuir a virilidade de Jondalar  falou Verdegia, de maneira mais direta , e ele precisar de algumas horas para recuperar-se. 
Assim, no espere muito dele logo depois de um banho. Alguns homens recusam-se a banhar-se nas guas Sagradas da Me por esse motivo. Temem que sua virilidade seja 
absorvida pelas guas Sagradas e jamais retorne.
            Isso pode acontecer?  perguntou Ayla, olhando para Losaduna.
     No que eu j tenha visto ou ouvido falar  disse o homem.  Pelo contrrio, o oposto  que parece ser verdadeiro. Algum tempo depois, o homem torna-se mais 
ardente, uma vez que est relaxado e sente-se bem.
     Eu me senti maravilhosa depois do banho e dormi muito bem, mas achei que isso se deveu mais do que  gua  ponderou Ayla.  Talvez o ch?
     O homem sorriu.
            Foi um ritual importante. Sempre h mais coisas numa cerimnia.
            Bem, estou pronta para voltar s guas Sagradas, mas acho que esperarei por Jondalar. Voc acha que os caadores chegaro logo?
            Estou certa  garantiu Laronia.  Laduni sabe que h coisas a fazer antes do Festival da Me, amanh. Acho que s foram hoje porque Laduni queria ver 
como funciona a arma de longo alcance de Jondalar. Como ela se chama?
            Arremessador de lanas, e funciona muito bem  respondeu Ayla.  Mas, como tudo, requer prtica. Praticamos bastante ao longo da viagem.
     Voc sabe us-lo?  perguntou Madenia.
     Tenho o meu  confirmou Ayla.  Sempre gostei de caar.
     Por que voc no foi com eles hoje?  quis saber a jovem  Porque eu queria aprender a fazer essa espuma de limpeza. Tambm tinha algumas roupas para lavar 
e consertar  disse Ayla, levantando-se e dirigindo-se para a tenda cerimonial. Sbito, parou.  Tambm tenho algo que gostaria de mostrar-lhes. Algum j viu um 
puxador de linhas?  Ayla observou olhares intrigados e cabeas que balanavam.  Se esperarem um instante, trarei o meu para que vejam.
    Ayla voltou do espao de moradia com sua caixa de costura e algumas roupas que desejava consertar. Cercada por todos, que desejavam conhecer mais uma daquelas 
coisas maravilhosas que os viajantes haviam trazido, tirou da caixa um pequeno cilindro  feito de um osso oco de ave  de onde tirou duas agulhas de marfim. Entregou 
uma delas a Solandia.
    A mulher examinou de perto a pequena haste polida. Uma das pontas era fina, lembrando um furador. Na outra, mais grossa, havia um buraco. Aps raciocinar um 
pouco, formou uma ideia da utilidade do objeto.
     Voc disse que isso era um puxador de linhas?  indagou, estendendo a agulha para Laronia.
     Sim. Vou mostrar-lhes como us-lo  confirmou Ayla, separando um pedao de tendo de um cordo fibroso mais grosso. Molhou e alisou a ponta; em seguida, deixou-a 
secar. A linha de tendo endureceu um pouco e tomou forma. Feito isso, enfiou a linha no buraco da agulha e colocou-a de lado por um momento. Pegou ento uma ferramenta 
de pedra com uma ponta afiada e comeou a abrir buracos prximo  beirada da roupa, cujos pontos haviam-se rompido, alguns deles rasgando o prprio couro. Os novos 
buracos localizavam-se um pouco atrs dos antigos.
    Quando terminou os buracos da nova costura, Ayla instalou-se para demonstrar o novo instrumento. Enfiou a agulha no buraco do couro e puxou-a, conduzindo a linha 
e concluindo a operao com um arremata.
            Oh!  Os espectadores mais prximos, sobretudo as mulheres, soltaram um suspiro de admirao.  Veja isso!  Ela no teve que pegar a linha, puxou-a 
de uma vez atravs do couro.  Posso tentar.
    Ayla passou a roupa de mo em mo, deixando que experimentassem; explicou, demonstrou e contou-lhes como tivera essa ideia e como todos no Acampamento do Leo 
a haviam auxiliado a aperfeioar e fabricar o invento.
             um furador muito bem-feito  comentou Solandia, examinando-o detidamente.
            Foi Wymez, do Acampamento do Leo, quem fabricou. Tambm criou o perfurador do buraco por onde a linha passa  contou Ayla.
     Deve ser uma ferramenta muito difcil de fazer  comentou Losaduna.
     Jondalar diz que Wymez  o nico arteso tao hbil quanto Dalanar, talvez um pouco mais.
      um grande elogio para ele  disse Losaduna.  Todos reconhecem Dalanar como um grande arteso do slex. Sua habilidade  conhecida at neste lado da geleira, 
entre os Losadunai.
            Mas Wymez tambm  um mestre.
    Todos voltaram-se, surpresos, para o lugar de onde partira a voz e viram Jondalar, Laduni e vrios outros entrando na caverna com um cabrito-monts que haviam 
caado.
            Tiveram sorte!  elogiou Verdegia.  Se ningum se importar, gostaria de ficar com a pele. Estou precisando de l de cabrito-monts para fazer a roupa 
de cama do Matrimnio de Madenia.  Verdegia queria antecipar-se a qualquer outro pedido.
            Me!  retrucou Madenia, envergonhada.  Como pode falar de Matrimnio?
            Madenia deve antes cumprir os Primeiros Ritos. S depois  que se poder pensar em Matrimnio  afirmou Losaduna.
     Por mim ela pode ficar com a pele  concordou Laronia , seja qual for o uso que pretenda fazer.  Laronia estava certa que havia um pouco de avareza no pedido 
de Verdegia. No se caava com frequncia o  arisco cabrito-monts. Sua pele era rara e, portanto, valorizada, sobretudo no final do inverno, aps crescer durante 
toda uma estao, tornando-se grossa e densa.
     Tambm no me importo. Verdegia pode ficar com ela  anuiu Solandia.  A carne fresca de cabrito-monts ser uma novidade bem-vinda, e no interessa com quem 
fique a pele. Ser especialmente bom para o Festival da Me.
    Vrios outros aquiesceram, e ningum discordou. Verdegia sorriu e procurou no demonstrar afetao. Ao se adiantar no pedido, assegurara a valiosa pele, como 
esperara.
            A carne fresca de cabrito-monts vai bem com a cebola seca que eu trouxe. Tambm tenho mirtilos.
    Mais uma vez, todos olharam para a entrada da caverna. Ayla viu uma moa desconhecida, com um beb no colo e uma menininha pela mo, seguida por um rapaz.
            Filonia!  entoaram em coro.
    Laronia e Laduni correram em sua direo e os outros foram atrs. A jovem certamente no era uma estranha no lugar. Aps alegres abraos de boas-vindas, Laronia 
pegou o beb e Laduni a menina, que havia corrido para ele. Colocou-a sobre os ombros, de onde ela apreciava a todos com um sorriso feliz.
    Jondalar estava ao lado de Ayla, sorrindo satisfeito com a felicidade da cena.
     Aquela garota poderia ser minha irm  comentou.
     Filonia, veja quem est aqui  disse Laduni, conduzindo at eles a recm-chegada.
     Jondalar?  voc?  exclamou, tomada de surpresa.  No pensei que voltaria. Onde est Thonolan? H algum que eu queria apresentar a ele!
     Sinto muito, Filonia. Ele agora vive no outro mundo  respondeu Jondalar.
     Oh! Sinto muito ouvir isto. Queria que ele conhecesse Thonolia Estou certa que ela  filha do seu esprito.
     Tambm tenho certeza. Ela parece muito com minha irm e ambas nasceram no mesmo fogo. Gostaria que minha me pudesse v-la, mas acho que ela ficar feliz por 
saber que restou algo dele neste mundo, uma criana do seu esprito  disse Jondalar.
     A jovem olhou para Ayla.
            Mas voc no voltou sozinho  comentou.
            No  confirmou Laduni , e espere at ver alguns dos seus companheiros de viagem. Voc no vai acreditar.
            Voc chegou na hora certa. Amanh teremos um Festival da Me informou Laronia.

37
___________________________________________________________________________

    A gente da Caverna das Sagradas Fontes Termais aguardava o Festival em Honra da Me com enorme entusiasmo. No auge do inverno, quando a vida em geral era enfadonha 
e cansativa, a chegada de Ayla e Jondalar provocara suficiente emoo para manter a Caverna estimulada por muito tempo. Sem dvida esse interesse perduraria por 
anos, devido  narrao de histrias sobre os viajantes. A partir do instante em que haviam chegado, montados em cavalos e seguidos pelo Lobo que Gostava de Crianas, 
toda a comunidade se entregara a especulaes. Os viajantes tinham histrias inacreditveis a contar sobre suas aventuras, ideias fascinantes a dividir e ainda instrumentos 
utilssimos, como arremessador de lanas e puxador de fios.
    Agora todos estavam falando sobre a coisa mgica que a mulher lhes mostraria durante a cerimnia, alguma coisa relacionada com o fogo, tal como as pedras de 
queimar. Losaduna fizera meno ao fato durante a refeio da noite. Os visitantes haviam tambm prometido uma demonstrao do arremessador de lanas no campo fronteiro 
 caverna, para que todos vissem suas possibilidades, e Ayla iria demonstrar do que era capaz com uma funda. No entanto, nem mesmo as prometidas demonstraes lhes 
despertavam tanto interesse como o mistrio relacionado com o fogo.
    Ayla descobriu que ser o constante centro das atenes era to exaustivo, de certa forma, como viajar sem descanso. Durante todo o cair da noite, as pessoas 
a haviam atazanado com perguntas ansiosas e lhe pedido opinies sobre assuntos a respeito dos quais ela nada sabia. Quando o sol finalmente se ps, ela estava fatigada 
e no tinha mais vontade de conversar. Logo que escureceu, deixou o grupo reunido em torno do fogo, na rea central da caverna, para ir deitar-se. Lobo foi com ela, 
e Jondalar os seguiu pouco depois, deixando a Caverna livre para mexericar e especular sem a presena deles.
    Na rea de dormir que lhes fora destinada, dentro do espao de moradia e cerimnia de Losaduna, fizeram os preparativos para o dia seguinte, e depois meteram-se 
em suas peles. Jondalar a abraou e cogitou em passar s abordagens preliminares que Ayla considerava ser os seus "sinais" para o amor, mas ela parecia nervosa e 
perturbada, e ele queria se poupar. Nunca se sabia o que esperar de um Festival da Me, e Losaduna dera a entender que talvez fosse conveniente portarem-se com conteno 
e esperarem para honrar a Me depois dos ritos especiais que haviam planejado.
    Jondalar conversara com Aquele que Servia  Me sobre suas apreenses concernentes  sua capacidade de ter filhos nascidos em seu fogo, se a Me julgaria seu 
esprito aceitvel para uma nova vida. Haviam decidido por um ritual privado antes do festival, a fim de apelarem diretamente  Me, em busca de Sua ajuda.
    Ayla permaneceu acordada durante muito tempo depois de ouvir o ressonar do homem a seu lado; sentia-se cansada, mas no conseguia dormir. Mudava de posio com 
frequncia, procurando no despertar Jondalar com seus movimentos. Embora cochilasse, o sono profundo tardava, e seus pensamentos vagueavam por caminhos estranhos, 
enquanto ela oscilava entre ideias conscientes e sonhos ocasionais...
    A campina tinha o verde dos novos rebentos da primavera, alegrado Pelas tonalidades diversas de flores multicoloridas. A distncia, a face escarpada de um rochedo, 
de um branco de marfim, pontilhado de caverna e marcado por riscas negras em torno de amplos patamares, quase fulgia na luz que se precipitava do cu azul de anil. 
Do rio que corria pela base da penedia vinham reflexos de luz, ora danando no rochedo, ora se afastando, traando em geral os contornos da parede rochosa, mas sem 
a acompanhar de modo preciso.
    Mais ou menos no meio do campo que se estendia da plancie que margeava o rio, havia um homem que a olhava, um homem do Cl. Depois ele se virou e caminhou na 
direo do rochedo, apoiando-se num cajado e arrastando um p, mas sem retardar-se. Embora ele nada disses-se, nem fizesse sinal algum, Ayla subiu que o homem desejava 
que o acompanhasse. Correu em sua direo, e quando estavam um junto do outro, ele a olhou com o nico olho que possua. Era um olho castanho e profundo, cheio de 
simpatia e fora. Ayla sabia que a capa de pele do homem encobria o coto de um brao que fora amputado na altura do cotovelo quando ainda menino. Sua av, uma curandeira 
de renome, lhe cortara fora o membro intil e paralisado quando ele gangrenara, depois do ataque de um urso da caverna. Creb havia perdido o olho no mesmo incidente.
    Ao se aproximarem do rochedo, ela notou uma estranha formao no alto de um ressalto. Uma pedra em forma de coluna, um tanto achatada, mais escura do que a matriz 
de calcrio que a sustinha, pendia sobre a beirada do ressalto como se tivesse sido congelada ali, no momento em que comeava a cair. A pedra no s dava a impresso 
de que cairia a qualquer momento, tornando-a intranquila, como Ayla sabia tambm que ela encerrava alguma coisa de importante. Uma coisa de que ela deveria lembrar-se, 
alguma coisa que ela fizera ou que deveria fazer  ou que no deveria fazer.
    Fechou os olhos, procurando recordar-se. Viu a escurido, um negrume denso, aveludado, palpvel, to impenetrvel como s poderia ser uma caverna no recesso 
de uma montanha. Uma minscula chama surgiu na distncia, e ela tateou a parede, seguindo por uma passagem estreita, em sua direo. Ao se aproximar, viu Creb com 
outros mog-urs, e de repente sentiu muito medo. No queria aquela lembrana e rapidamente abriu os olhos.
    Viu-se na margem de um ribeiro que serpenteava na base do rochedo. Olhou para a outra margem e viu Creb a subir com dificuldade, na direo da pedra que estava 
para cair. Ela se colocara s costas dele e agora no sabia como atravessar a corrente para ir ter com o homem. Gritou:
            Creb, sinto muito. Eu no queria seguir voc na caverna.
    O homem virou-se e acenou de novo para ela, demonstrando muita pressa.
            Rpido!  chamou-a, com um sinal, do outro lado da corrente, que se tornara mais larga e mais funda, cheia de gelo.  No espere mais! Venha logo!
    O gelo aumentava, fazendo com que ele se afastasse cada vez mais.
            Espere por mim! Creb, no me deixe aqui!  bradou ela.
     Ayla! Ayla, acorde! Est sonhando de novo  disse Jondalar, sacudindo-a de leve.
    Ela abriu os olhos e sentiu uma enorme sensao de perda e medo. Notou as paredes do espao de moradia, recobertas de peles, e o brilho avermelhado que vinha 
da lareira, enquanto contemplava a silhueta do homem ao seu lado. Estendeu a mo e agarrou-se nele.
            Temos de nos apressar, Jondalar! Temos de sair daqui agora mesmo.
            Vamos fazer isso  concordou Jondalar.  Assim que pudermos. Mas amanh  o dia do Festival da Me, e depois temos de resolver o que precisaremos levar 
para cruzar a geleira.
            Gelo!  exclamou Ayla.  Temos de atravessar um rio de gelo!
            Eu sei  respondeu ele, abraando-a e procurando acalm-la.  Mas temos de planejar como fazer isso com os cavalos e com o Lobo. Vamos precisar de comida 
e de uma maneira de obter gua para todos ns. L o gelo est duro como pedra.
            Creb disse que nos apressssemos. Temos de ir embora!
            Assim que pudermos, Ayla. Prometo. Assim que pudermos  disse Jondalar, sentindo uma acabrunhante ponta de medo. Realmente, tinham de partir e atravessar 
a geleira o mais cedo possvel. Mas no havia como partir antes do Festival da Me.
    Embora pouco contribusse para aquecer o ar enregelante, o sol da tarde se filtrava pelas ramagens, que quebravam os raios coruscantes, mas no bloqueavam a 
cegante luz que vinha do poente. Do lado leste, os picos montanhosos, refletindo o astro reluzente que descia sobre nuvens de fogo, estavam banhadas por um suave 
fulgor rosado que parecia emanar do prprio gelo. A luz da a pouco comearia a sumir, mas Jondalar e Ayla ainda se achavam no campo fora da caverna. Ele assistia 
 demonstrao, como todos os outros.
    Ayla respirou fundo e prendeu a respirao, pois no queria obstruir a viso com a nvoa de seu hlito, enquanto fazia pontaria com cuidado. Sopesou duas pedras 
na mo, depois colocou uma delas na funda, girou-a sobre a cabea e soltou uma das pontas. A seguir, comeando da extremidade que ainda segurava, fez com que ela 
corresse rapidamente por sua mo a fim de pegar de novo a ponta solta, meteu a segunda pedra na funda, girou-a e arremessou. Era capaz de atirar duas pedras mais 
depressa do que algum poderia imaginar.
     Oh! Vejam s!  As pessoas reunidas na entrada da caverna durante as demonstraes de arremesso de lanas e do uso da funda tambm soltaram a respirao, at 
ento contida, e fizeram comentrios de surpresa e admirao.  Ela quebrou as duas bolas de neve do outro lado do campo!
     Achei-a hbil com as lanas, mas  ainda melhor com essa funda  disse algum.
     Ela disse que  preciso treinamento para aprender a arremessar lanas com preciso, mas quanto treinamento ser necessrio para atirar pedras desse jeito? 
 perguntou Larogi.  Acho que usar o arremessador de lanas deve ser mais fcil.
    A demonstrao terminara. Quando a noite j caa, Laduni parou diante das pessoas e anunciou que a festa estava quase pronta.
            Ser servida no fogo central, mas primeiro Losaduna vai dedicar o festival da Me no Fogo Cerimonial, e Ayla vai fazer outra demonstrao. O que ela 
vai lhes mostrar  extraordinrio.
    Enquanto as pessoas, excitadas, comeavam a voltar para a caverna, afastando-se da larga entrada, Ayla observou que Madenia conversava com alguns amigos e ficou 
satisfeita ao ver que ela sorria. Muita gente j comentara sobre a alegria que todos sentiam por v-la participar das atividades do grupo, embora ela ainda se mostrasse 
tmida e reservada Ayla pensou em como as coisas eram diferentes quando as pessoas demonstravam interesse. Ao contrrio da experincia dela prpria, na qual todos 
consideravam que Broud tinha o direito de for-la a qualquer momento que desejasse, e a julgassem excntrica por resistir e odi-lo, Madenia tinha o apoio de sua 
gente. Tomavam seu partido. Sentiam raiva daqueles que a haviam forado, compreendiam o quanto ela sofrera e desejavam corrigir o mal de que ela fora vtima.
    Assim que todos se instalaram no espao do Fogo Cerimonial, Aquele que Servia  Me saiu das sombras e se postou atrs de uma fogueira cercada por um crculo 
de pedras redondas. Levantou um bastonete com ponta de piche, levou-o ao fogo at arder, depois virou-se e caminhou na direo da parede rochosa da caverna.
    Como o corpo dele bloqueava a viso, Ayla no pde perceber o que fazia. Mas quando uma luz brilhante se espalhou em torno dele, compreendeu que ele acendera 
um fogo, com toda certeza uma candeia. Losaduna fez alguns movimentos e comeou a entoar uma litania familiar, a mesma repetio dos vrios nomes da Me que ele 
entoara durante o ritual de purificao de Madenia. Estava invocando o esprito da Me.
    Quando ele recuou e virou-se para os que o observavam, Ayla viu que o fulgor vinha de uma candeia de pedra que ele acendera num nicho na parede. O fogo projetava 
sombras cambiantes, maiores que o tamanho natural, de uma pequenina dunai, e destacava a estatueta, esculpida com muito esmero, de uma mulher de formas exuberantes 
 seios grandes e estmago arredondado, no grvida, mas dotada de reservas de gordura.
     Grande Me Terra, Ancestral Original e Criadora de Toda a Vida, Teus filhos aqui esto para Te prestar homenagem, para agradecer-Te por todos os Teus Dons, 
grandes e pequenos, para honrar-Te  entoou Losaduna, e todos o acompanharam.  Pelas rochas e pelas pedras, pelos ossos da terra, que renunciam a seu esprito para 
nutrir o solo, por tudo isso viemos honrar-Te. Pelo sol que renuncia a seu esprito para nutrir as plantas que crescem, por isso tambm viemos honrar-Te. Pelas plantas 
que crescem e que renunciam a seu esprito para nutrir os animais, viemos aqui para honrar-Te. Pelos animais que renunciam a seu esprito para nutrir os carnvoros, 
estamos aqui para honrar-Te. E por tudo aquilo que renuncia a seu esprito para alimentar, vestir e proteger Teus filhos, aqui viemos para honrar-Te.
    Todos conheciam as palavras. Mesmo Jondalar, como Ayla notou, juntara sua voz  litania, embora pronunciasse as palavras em Zelandonii. Da a pouco ela comeou 
a repetir a parte que se referia a honrar , e embora no conhecesse as palavras restantes, sabia que eram importantes, sabia que jamais as esqueceria.
     Por Teu glorioso filho fulgente que ilumina o dia e por Tua bela companheira luminosa que guarda a noite, aqui viemos para honrar-Te. Por Tuas guas vivificantes 
que enchem os rios e os mares e que formam as chuvas que descem dos cus, viemos aqui para honrar-Te. Por Teu Dom da Vida e por Tua bno s mulheres que geram 
a vida, como Tu fazes, aqui viemos para honrar-Te. Pelos homens, que foram feitos para ajudar as mulheres a prover a nova vida, e cujo esprito Tu utilizas para 
ajudar as mulheres a cri-la, aqui viemos para honrar-Te. E por Teu Dom dos prazeres, que homens e mulheres usufruem entre si, e que abre uma mulher para que ela 
possa dar  luz, aqui viemos para honrar-Te. Grande Me Terra, Teus filhos juntam-se todos nesta noite para honrar-Te.
    Um silncio profundo tomou conta da caverna depois de finda a invocao comunitria. Uma criana comeou a chorar, e o som de seu choro pareceu muito apropriado 
 ocasio.
    Losaduna recuou e foi como se desaparecesse nas sombras. A seguir Solandia ps-se de p, levantou uma cesta que estava perto do Fogo Cerimonial e despejou cinzas 
e terra sobre as chamas da fogueira, extinguindo o fogo cerimonial e mergulhando o ambiente nas trevas. Interjeies de surpresa subiram da multido, e as pessoas 
chegaram-se para a frente, ansiosas. A nica luz vinha da candeia que queimava no nicho; fazia com que as sombras cambiantes da figura da Me parecessem crescer, 
at encher todo o espao. Embora o fogo nunca tivesse sido apagado daquele modo antes, Losaduna percebeu seu efeito.
    Os dois visitantes e as pessoas que viviam no espao do Fogo Cerimonial haviam ensaiado o ritual e sabiam o que fazer. Depois que todos se aquietaram, Ayla entrou 
na rea escurecida, caminhando em direo a outra lareira. Haviam decidido que a pedra-de-fogo seria demonstrada melhor, com muito mais dramaticidade, se Ayla acendesse 
um novo fogo, numa lareira fria, da maneira mais rpida possvel, depois que o fogo cerimonial fosse apagado. Uma isca de musgo seco fora colocada na segunda lareira, 
ao lado de gravetos; havia tambm achas de lenha maiores para queimar. Depois acrescentariam linhita para manter as labaredas.
    Enquanto ensaiavam, haviam descoberto que o vento ajudava a atiar o fogo, particularmente a lufada que penetrava quando a porta de couro do espao cerimonial 
era aberta, e Jondalar estava de p ao seu lado. Ayla ajoelhou-se e, segurando o pedao de pirita numa das mos e o fragmento de pederneira na outra, bateu um contra 
o outro, provocando uma fagulha que podia ser vista com nitidez na rea escura. Bateu os dois pedaos de pedra outra vez, segurando-os num ngulo ligeiramente diferente, 
o que fez com que a fasca saltasse sobre a isca.
    Este foi o sinal para Jondalar, que abriu a porta de entrada. No momento em que sentiu a lufada de ar frio, Ayla abaixou-se sobre a fagulha que crepitava no 
musgo seco e soprou de leve. De repente o musgo ardeu e a chama provocou um coro de exclamaes surpresas e excitadas. Na caverna ensombrecida, a labareda lanou 
um fulgor rubro que iluminou os rostos de todos e pareceu maior do que realmente era.
    As pessoas puseram-se a falar, depressa e atnitas, e aquilo aliviou a tenso que Ayla provocara com tanto mistrio. Da a momentos  para a Caverna foi como 
se apenas um segundo houvesse transcorrido  o fogo j ia alto. Ayla ouviu alguns comentrios.
     Como foi que ela fez isso?
     Como algum pode acender um fogo to depressa?
    Uma segunda fogueira foi acesa, a partir do Fogo Cerimonial. A seguir, Aquele que Servia  Me postou-se entre as duas fogueiras e falou:
     Em geral, as pessoas que no as conhecem no acreditam que pedras queimem, a menos que possamos mostrar uma delas, porm as pedras de queimar so o Dom da 
Grande Me Terra aos Losadunai. Nossos visitantes tambm receberam uma ddiva, uma pedra-de-fogo. Uma pedra capaz de produzir uma fasca geradora de fogo quando 
golpeada com uma pederneira. Ayla e Jondalar se dispem a dar-nos um pedao de pederneira, no apenas para que a usemos, mas tambm para que possamos reconhec-la 
se viermos a encontr-la. Em troca disso, desejam comida suficiente e outras provises que os ajudem a transpor a geleira.
     J lhes prometi isso  disse Laduni.  Tenho uma dvida para com Jondalar e foi isso que ele pediu... e se trata de coisa de pouca monta. De qualquer modo, 
ns lhes ofereceramos o alimento e tudo de que precisassem.  Um murmrio de assentimento correu pela caverna.
    Jondalar sabia que os Losadunai lhes teriam dado alimentos, do mesmo modo que Ayla e ele teriam oferecido  Caverna uma pedra-de-fogo, mas no queria que mais 
tarde eles se arrependessem de lhes haver presenteado provises que poderiam ser valiosas se a primavera tardasse. Queria que todos ali julgassem ter levado a melhor 
e tambm desejava outra coisa. Ficou de p.
            Oferecemos a Losaduna uma pedra-de-fogo para benefcio de todos  disse.  Mas minha dvida de Laduni para comigo parece ser maior do que ele pensa. 
No bastam alimentos e instrumentos para a nossa viagem. No estamos ss. Temos como companheiros dois cavalos e um lobo, e precisamos ajud-los a chegar do outro 
lado da geleira. Precisamos de comida para ns e para eles, porm tambm precisaremos de gua. Se fssemos apenas Ayla e eu, poderamos carregar um saco cheio de 
neve ou gelo sob nossas tnicas, junto da pele, para derretermos uma quantidade de gua suficiente para ns e talvez para Lobo, mas os cavalos bebem muita gua. 
No podemos derreter uma quantidade de gelo suficiente para eles. Vou lhes dizer a verdade. Temos de descobrir um meio de transportar ou derreter gua suficiente 
para conseguirmos chegar ao outro lado da geleira.
    Levantaram-se vrias vozes, com sugestes e propostas, porm Laduni fez com que se calassem.
            Vamos pensar no assunto e nos reuniremos amanh com sugestes. Esta noite  o Festival.
    Jondalar e Ayla j haviam contribudo com emoes e mistrios, que animariam os meses em geral silenciosos de inverno, e que renderiam histrias a serem narradas 
nas Reunies de Vero. Agora havia o presente da pedra-de-fogo e, como bnus, o desafio de solucionarem um problema indito, um fascinante enigma prtico e intelectual 
que lhes daria oportunidade de exercitar a fora da mente. Os viajantes podiam contar com auxlio voluntrio e prestimoso.
    Madenia comparecera ao Fogo Cerimonial para assistir  demonstrao da pedra-de-fogo, e Jondalar no deixou de notar que ela o observara atentamente. Sorrira 
para ela vrias vezes, e a moa reagira desviando o olhar e enrubescendo. Quando a reunio estava para terminar, ele caminhou em sua direo.
            Ol, Madenia. O que achou da pedra-de-fogo?
    Ele sentia a atrao que nutria por moas acanhadas antes de seus Primeiros Ritos, moas que no sabiam o que esperar e que se mostravam um pouco assustadas, 
sobretudo aquelas que ele fora incumbido de introduzir no Dom dos Prazeres da Me. Sempre apreciara mostrar-lhes o Dom da Me durante seus Primeiros Ritos, e tinha 
um modo todo especial de faz-lo, motivo pelo qual era convocado com tanta frequncia. O medo de Madenia tinha fundamento, no era a apreenso amorfa da maioria 
das mocinhas, e para Jondalar teria sido uma satisfao toda especial, um desafio, lev-la a ver o Dom como fonte de alegria e no de sofrimento.
    Jondalar a fitava com seus olhos azuis espantosamente vvidos, e desejou que pudessem permanecer ali tempo suficiente para que participassem dos rituais de vero 
dos Losadunai. Desejava genuinamente ajud-la a superar seus temores, e sentia-se sinceramente atrado por ela, o que trazia  tona todo seu encanto, seu magnetismo 
viril. Aquele homem formoso e sensvel sorriu para Madenia, deixando-a quase sem flego.
    Madenia jamais conhecera uma sensao como aquela. Todo seu corpo sentia-se abrasado, quase em fogo, e ela sentiu uma vontade insopitvel de toc-lo, de que 
ele a tocasse, mas no tinha nenhuma ideia de como lidar com esses sentimentos. Tentou sorrir; depois, embaraada, abriu bem os olhos e espantou-se com sua audcia. 
Recuou e saiu quase a correr na direo de seu espao de moradia. A me a viu ir embora e seguiu-a. Jondalar tinha visto a reao de Madenia antes. No era incomum 
que moas tmidas reagissem daquela forma, e aquilo somente a tornou mais cativante.
            O que fez com essa pobre criana, Jondalar?
    Ele olhou para a mulher que falara, dirigindo-lhe seu sorriso.
    Ou no preciso perguntar? Lembro-me de uma poca em que esse olhar quase me esmagava. Mas seu irmo tambm tinha encantos.
    E a deixou abenoada  disse Jondalar.  Est com muito bom aspecto, Filonia. Feliz.
            Realmente, Thonolan deixou um pedao de seu esprito comigo, e estou feliz. Voc tambm parece feliz. Onde foi que conheceu essa Ayla?
             uma longa histria, mas ela salvou minha vida. Foi tarde demais para Thonolan.
            Soube que um leo o pegou. Que pena.
    Jondalar assentiu e fechou os olhos, perturbado pela dor, sempre presente a uma meno ao irmo.
            Mame!  chamou uma menina. Era Thonolia, de mos dadas com a filha mais velha de Solandia.  Posso comer no fogo de Salia e brincar com o lobo? Ele 
gosta de crianas.
    Filonia olhou para Jondalar com uma expresso apreensiva.
     Lobo no lhe far mal.  verdade que gosta de crianas. Pergunte a Solandia. Ela usa o animal para distrair o beb  respondeu Jondalar.  Lobo foi criado 
na companhia de crianas e Ayla o treinou.  uma mulher extraordinria, principalmente com animais.
     Ento est bem, Thonolia. No acredito que este homem a deixasse fazer alguma coisa que pudesse feri-la. Ele  irmo do homem de quem voc recebeu o nome.
    Houve uma agitao. Procuraram ver do que se tratava, enquanto as meninas saam correndo.
            Quando  que algum vai tomar uma providncia... Esse Charoli! Por quanto tempo uma me tem de esperar?  Era Verdegia queixando-se com Laduni.  Quem 
sabe se no precisamos convocar um Conselho de Mes, j que os homens nada fazem? Tenho certeza de que elas haveriam de compreender o que vai no corao de uma me, 
e logo tomariam uma deciso.
    Losaduna havia-se reunido a Laduni, para lhe dar apoio. A convocao de um Conselho de Mes era, em geral, um recurso supremo. Podia ter srias repercusses 
e s era utilizado quando no se encontrava nenhuma outra maneira de resolver uma situao.
     No sejamos precipitados, Verdegia. O mensageiro que enviamos a Tomasi deve estar de volta a qualquer momento.  claro que podemos esperar um pouco mais. E 
Madenia est muito melhor, voc no acha?
     No tenho tanta certeza. Ela correu para nosso fogo e no quer me dizer o que est havendo. Disse que no foi nada e que no devo me preocupar, mas como?  
disse Verdegia.
     Eu poderia dizer a ela o que est havendo  sussurrou Filonia , mas no tenho certeza de que Verdegia entenderia. Mas ela tem razo. Realmente,  preciso 
fazer alguma coisa com relao a esse Charoli. Todas as Cavernas esto falando sobre ele.
            O que se pode fazer?  perguntou Ayla, juntando-se aos dois.
            No sei  respondeu Filonia, sorrindo para a mulher. Ayla viera ver o filhinho dela e era evidente que sentira prazer em embal-lo.  Mas creio que 
o plano de Laduni  sensato. Ele acha que todas as Cavernas deveriam atuar juntas, para descobrir os rapazes e traz-los de volta. Ele gostaria de ver os membros 
do bando separados uns dos outros, longe da influncia de Charoli.
            Parece mesmo uma boa ideia  concordou Jondalar.
            O problema  a Caverna de Charoli, e se Tomasi, que  parente da me de Charoli, vai concordar com o plano  disse Filonia.  teremos mais condies 
de avaliar quando o mensageiro voltar, mas entendo a posio de Verdegia. Se uma coisa dessas um dia acontecesse a Thonolia...  A mulher balanou a cabea, sem 
encontrar palavras.
            Acho que a maioria das pessoas compreende a sensao de Madenia e de sua me  disse Jondalar.  Em geral as pessoas so decentes, mas basta uma pessoa 
ruim para criar problemas para todas as demais.
    Ayla estava se lembrando de Attaroa e pensando a mesma coisa.
     A vem algum! A vem algum!  Larogi e vrios de seus amigos entraram correndo na caverna gritando a notcia, e Ayla se ps a imaginar o que estariam fazendo 
do lado de fora, no frio e no escuro, Momentos depois, foram seguidos por um homem de meia-idade.
     Rendoli! No poderia ter chegado em melhor hora  disse Laduni, demonstrando um bvio alvio.  Venha, deixe que eu cuido de suas coisas e beba algo quente. 
Voc voltou a tempo de participar do Festival da Me.
     Esse  o mensageiro que Laduni mandou a Tomasi  disse Filonia, surpresa ao v-lo.
            Bem, o que disse ele?  perguntou Verdegia.
            Verdegia!  censurou-a Losaduna.  Espere o homem recuperar o flego. Ele acabou de chegar.
     No tem importncia  disse Rendoli, depondo um saco no cho e aceitando uma taa de ch quente das mos de Solandia.  O bando de Charoli atacou a Caverna 
que vive perto da rea erma onde eles esto escondidos. Roubaram armas e comida, e quase mataram uma mulher que tentou det-los. Ela ainda est muito ferida, mas 
talvez se recupere. Todas as Cavernas esto revoltadas. Quando souberam do caso de Madenia, isso foi o golpe final. Apesar de seu parentesco com a me de Charoli, 
Tomasi est disposto a aliar-se s outras Cavernas para persegui-los e pr fim a essas estripulias. Tomasi convocou uma reunio com o maior nmero possvel de Cavernas... 
e foi por isso que demorei tanto a voltar. Esperei a reunio. A maioria das Cavernas prximas mandou vrias pessoas. Eu tive de tomar algumas decises em nosso nome.
     Tenho certeza de que foram sensatas  respondeu Laduni.  Acho timo voc ter participado. O que acharam de minha sugesto?
     J a haviam tomado, Laduni. Cada Caverna vai mandar rastreadores para localiz-los... e alguns j partiram. Assim que o bando de Charoli for descoberto, a 
maioria dos caadores de cada caverna vai sair atrs deles para traz-los aqui. Ningum suporta mais essa situao. Tomasi quer agarr-los antes da Reunio de Vero. 
 O homem virou-se para Verdegia:  E eles desejam que voc esteja l para fazer uma acusao e pedir desagravo.
    Verdegia mostrou-se quase apaziguada, mas ainda no estava satisfeita com a relutncia de Madenia de participar da cerimnia que a transformaria oficialmente 
em mulher e, com sorte, lhe possibilitaria ter filhos, dar-Ihe netos.
            Irei com todo prazer  disse Verdegia , e se ela no concordar com os Primeiros Ritos, podem ter certeza de que no esquecerei isso.         Tenho 
esperana de que, quando o vero chegar, ela tenha mudado de opinio.
     Tenho notado progressos desde o ritual de purificao. Ela tem sado e conversado mais com as pessoas. Acho que Ayla ajudou  disse Losaduna.
    Depois que Rendoli se dirigiu a seu espao de moradia, Losaduna chamou a ateno de Jondalar e fez-lhe um sinal. O homem alto pediu licena e acompanhou Losaduna 
ao Fogo Cerimonial. Ayla gostaria de segui-los, mas percebeu, pela discrio deles, que queriam ficar a ss.
            Aonde ser que eles vo?  perguntou.
            Acho que se trata de algum tipo de ritual pessoal  respondeu Filonia, o que deixou Ayla ainda mais curiosa.
            Trouxe alguma coisa feita por voc?  indagou Losaduna.
            Fiz uma lmina. No tive tempo de poli-la, mas foi o melhor que pude fazer  respondeu Jondalar, tirando de dentro da tnica um pacotinho envolvido 
em pele. Abriu-o e exibiu uma pequena ponta de pedra, com um fio suficientemente amolado para fazer a barba. Uma extremidade terminava em ponta. A outra tinha um 
prolongamento que poderia ser adaptado a um cabo de madeira.
    Losaduna examinou-a com cuidado.
            Excelente artesanato  comentou.  Tenho certeza de que ser aceitvel.
    Jondalar suspirou, aliviado, embora at ento no houvesse percebido a extenso de seu nervosismo.
            E trouxe alguma coisa dela?
            Isso foi mais difcil. Temos viajado praticamente com o essencial, e ela sabe onde pe todas as suas coisas. Possui alguns objetos guardados, presentes 
de pessoas na maior parte, e eu no quis mexer. Depois me lembrei de que voc disse que no importava que fosse uma coisa pequena, desde que muito pessoal  disse 
Jondalar, pegando um objeto minsculo que estava tambm no pacote de pele, e continuou a explicao.  Ela usa um amuleto, um saquinho enfeitado que contm objetos 
de sua infncia.  uma coisa muito importante para ela, e s o tira do pescoo para nadar ou banhar-se, e mesmo assim, nem sempre. Ela o deixou quando foi s fontes 
quentes sagradas, e eu cortei uma das contas de decorao.
    Losaduna sorriu.
            timo! Est perfeito! Muita habilidade sua. J notei esse amuleto, e sei que  uma coisa muito pessoal dela. Amarre-os um junto do outro e os passe 
para mim.
    Jondalar fez o que ele pedia, mas Losaduna notou uma expresso de dvida em seu rosto.
     No posso lhe dizer onde vou coloc-los, mas Ela h de saber. Agora, preciso lhe explicar certas coisas e fazer algumas perguntas  disse Losaduna.
    Jondalar anuiu.
            Tentarei responder.
            Voc quer que nasa um filho em seu fogo, da mulher Ayla, no  verdade?
            Sim.
            Compreende que um filho nascido para seu fogo pode no ser de seu esprito?
     Sim.
     O que pensa disso? Importa-lhe o esprito que for usado?
            Gostaria que fosse de meu esprito, mas... o esprito pode no ser o certo. Talvez no seja bastante forte ou a Me no o possa usar, ou talvez no 
queira. De qualquer forma, ningum jamais sabe de quem  o esprito, mas se um filho nascesse de Ayla, e para meu fogo, isso seria
o suficiente. Acho que eu mesmo quase me sinto uma me  disse Jondalar, e sua convico era patente.
    Losaduna assentiu.
            Muito bem. Esta noite vamos honrar a Me, de modo que a ocasio  das mais propcias. Voc sabe que as mulheres que mais A honram so as abenoadas 
com mais frequncia. Ayla  uma bela mulher e no ter dificuldade em encontrar um homem, ou homens, com quem partilhar os Prazeres.
    Quando Aquele que Servia  Me viu a expresso de contrariedade do homem alto, percebeu que Jondalar era um daqueles que achavam difcil ver a mulher escolhida 
ficar com outra pessoa, mesmo que fosse somente para uma cerimnia.
            Voc a deve incentivar, Jondalar. Isso honra a Me e  da mxima importncia voc ser sincero ao dizer que deseja que Ayla d um filho a seu fogo. J 
vi isso dar certo antes. Muitas mulheres engravidaram quase pede imediato. A Me ficar muito satisfeita com voc, e talvez Ela at use o seu esprito, sobretudo 
se voc tambm a honrar bem.
    Jondalar fechou os olhos e fez que sim com a cabea, mas Losaduna percebeu que ele rilhava os dentes. No seria fcil para aquele homem.
            Ela nunca participou de um Festival em Honra da Me. E se ela... No quiser uma outra pessoa?  perguntou Jondalar.  Deverei recus-la?
            Voc a deve incentivar a partilhar com outros, mas  claro que a opo  dela. Voc nunca deve recusar uma mulher, se puder, no Festival da Me, mas 
sobretudo, no a que voc escolheu como companheira. Eu no me preocuparia com isso, Jondalar. Muitas mulheres percebem .o esprito da cerimnia e no encontram 
dificuldade para apreciar o Festival  disse Losaduna.  Mas  estranho que Ayla no tenha sido criada no conhecimento da Me. Eu no sabia que h gente que no 
A reconhece.
     As pessoas que a criaram eram... muito estranhas  respondeu Jondalar.
     Com toda certeza  disse Losaduna.  Agora, vamos pedir  Me.
    Pedir  Me. Pedir  Me. As palavras pairaram sobre os pensamentos de Jondalar enquanto se dirigiam ao fundo do espao cerimonial. Lembrou-se, de repente, que 
lhe haviam dito que ele era um dos favoritos da Me, a tal ponto que nenhuma mulher seria capaz de rejeit-lo nem mesmo a Doni em Pessoa. To favorito que se algum 
dia ele pedisse alguma coisa  Me, Ela lhe concederia a merc. Fora tambm advertido de que tivesse cuidado com tal favor; ele poderia receber o que tivesse pedido. 
Naquele momento, desejou ardentemente que isso fosse verdade.
    Pararam diante do nicho onde a candeia ainda ardia.
            Levante a dunai e segure-a  ordenou Aquele que Servia  Me.
    Jondalar levou a mo ao nicho e suavemente pegou a estatueta da Me. Era uma das esculturas mais bem-feitas que j vira. O lavor do corpo era perfeito. A estatueta 
em suas mos parecia ter sido esculpida como cpia de um modelo vivo, uma mulher bem-proporcionada e de porte esbelto. J vira com frequncia mulheres nuas, na vida 
cotidiana normal para saber como eram. Os braos, repousando sobre os seios fartos da estatueta, eram apenas sugeridos, mas ainda assim os dedos eram definidos, 
assim como as pulseiras nos braos. As pernas juntavam-se numa espcie de cavilha que terminava no cho.
    O mais surpreendente era a cabea. A maioria das donii que ele j vira em geral tinham apenas uma espcie de bolha no lugar da cabea, s vezes com o rosto definido 
pela linha do cabelo, mas sem fisionomia clara. Aquela, porm, tinha um penteado complicado, formado por fileiras de anis apertados, que lhe cobriam toda a cabea 
e o rosto. Excetua-da a diferena de forma, no havia diferena alguma entre a parte frontal e a posterior da cabea.
    Olhando com ateno, surpreendeu-se ao ver que a estatueta fora esculpida em calcrio. O marfim, o osso ou a madeira eram muito mais fceis de trabalhar, e a 
figura tinha pormenores to perfeitos e um acabamento de tal forma esmerado que era difcil imaginar que algum a tivesse talhado em pedra. Muitos instrumentos de 
slex devem ter sido gastos para produzir essa maravilha, pensou ele.
    Aquele que Servia  Me estava cantando, percebeu Jondalar. Estivera to absorto em examinar a donii que nem dera conta do som. Entretanto, aprendera o suficiente 
do Losadunai para, prestando ateno, captar alguns dos nomes da Me, e entendeu que Losaduna iniciara o ritual. Esperava que o fato de ter-se distrado apreciando 
as qualidades estticas da escultura no atrapalhasse a essncia espiritual da cerimnia. Conquanto a donii fosse um smbolo da Me e, segundo se acreditava, constitusse 
um possvel lugar de repouso para uma de suas muitas formas espirituais, ele sabia que a figura entalhada no era a Grande Me Terra.
            Agora, pense com clareza no que deseja e, em suas prprias palavras, pea  Me aquilo que voc quer  disse Losaduna.  Segurar a dunai lhe ajudar 
a concentrar todos os seus pensamentos e sentimentos no pedido. No hesite em dizer qualquer coisa que lhe ocorrer. Lembre-se de que aquilo que voc est pedindo 
 agradvel  Me de Todos.
    Jondalar fechou os olhos para pensar, para melhor se concentrar.
             Doni, Grande Me Terra  comeou.  Houve momentos em minha vida em que eu pensei... algumas coisas que Te podem ter desagradado. Eu no pretendia 
ofender-Te, mas... as coisas aconteceram. Houve uma poca em que pensei que jamais encontraria uma mulher que eu
pudesse amar, e julguei que fosse porque Tu estavas zangada com... aquelas coisas.
    Alguma coisa muito ruim deve ter acontecido na vida desse homem. Ele  to bondoso e parece to seguro de si;  difcil acreditar que possa ter sofrido tamanha 
vergonha e preocupao, pensou Losaduna.
            Ento, depois de haver viajado at o fim de Teu rio e de perder... meu irmo, a quem eu amava mais que a tudo, Tu puseste Ayla em minha vida, e finalmente 
descobri o que significava o amor. Sou grato por Ayla. Se no houvesse mais ningum em minha vida, nem famlia, nem amigos, a mim bastaria a presena de Ayla. Mas, 
se for de Teu desejo, Grande Me, eu gostaria... eu anseio... queria mais uma coisa. Quero pedir... um filho. Um filho, nascido de Ayla, nascido para meu fogo, e, 
se possvel, nascido de meu esprito, ou nascido de minha prpria essncia, como Ayla acredita. Se no for possvel, se meu esprito no ... suficiente, ento que 
Ayla tenha o filhinho que ela quiser, e que ele nasa para meu fogo, de modo que seja meu de corao.
    Jondalar comeou a repor a donii no lugar, mas ainda no terminara. Deteve-se e segurou a estatueta com as mos.
            Mais uma coisa. Se algum dia Ayla engravidar com um filho do meu esprito, eu gostaria de saber que se trata de um filho do meu esprito.
    Interessante pedido, pensou Losaduna. Talvez a maioria dos homens gostasse de saber, mas na verdade isso no importa tanto. Por que isso  to importante para 
ele? E o que ele quis dizer com filho de sua essncia... como Ayla acredita? Gostaria de perguntar a ela, mas isto  um ritual privado. No posso dizer a ela o que 
foi dito aqui. Talvez possamos discutir o assunto de um ponto de vista filosfico, algum dia.
    Ayla viu os dois homens saindo do Fogo Cerimonial. Tinha certeza de que haviam feito o que pretendiam, mas o homem mais baixo tinha uma expresso interrogativa 
e algo em sua postura mostrava que estava insatisfeito, ao passo que o mais alto parecia tenso e infeliz, embora resoluto. Aquelas sensaes estranhas a deixaram 
ainda mais curiosa com relao ao que acontecera.
      Espero que ela mude de opinio  Ayla ouviu Losaduna dizer, ao se aproximarem.  Acho que a melhor maneira de ela vir a superar sua terrvel experincia consiste 
em levar adiante seus Primeiros Ritos. Entretanto, teremos de ser muito cuidadosos com relao  pessoa que escolhermos para ela. Gostaria que voc ficasse, Jondalar. 
Ela parece ter-se interessado por voc. Em minha opinio,  bom v-la sentir alguma coisa em relao a um homem.
     Eu gostaria de ajudar, mas no podemos ficar. Temos de parti assim que for possvel, amanh ou depois de amanh, se pudermos.
      claro que voc tem razo. A estao pode mudar a qualquer momento. Preste ateno para ver se algum de vocs se torna irritadio disse Losaduna.
     O Mal-estar  disse Jondalar?
     O que  o Mal-estar?  perguntou Ayla.
     Ele vem com o foehn, que derrete a neve, o vento da primavera  respondeu Losaduna.  O vento chega do sudoeste, quente e seco, com fora suficiente para arrancar 
rvores pelas razes. Derrete a neve to depressa que bancos altos de neve podem desaparecer em um dia, e se ele pegar vocs na geleira  possvel que no consigam 
cruz-la. O gelo pode derreter sob seus ps e atir-los numa fenda, ou pode criar um rio diante do caminho ou abrir um desfiladeiro a seus ps. O vento chega to 
depressa que os espritos malficos que apreciam o frio no conseguem fugir dele. O vento varre-os, arranca-os de lugares escondidos, empurra-os para diante.  por 
isso que os espritos malficos viajam nas primeiras rajadas do derretedor da neve, e em geral chegam antes delas. Eles trazem o Mal-estar. Se souberem o que esperar 
e puderem control-los, eles podem ser um aviso, mas so sutis e no  fcil tirar proveito dos espritos malficos.
     Como se sabe que os espritos malficos chegaram?  perguntou Ayla.
     Como eu disse, prestem ateno se comearem a sentir irritao. Eles podem fazer com que adoeam e, se j estiverem enfermos, podem agravar seu estado, porm 
em geral apenas querem que discutam ou briguem. Algumas pessoas so tomadas de fria, mas todos sabem que isso  provocado pelo Mal-estar, de modo que no lhes  
imputada culpa... a menos que causem graves danos ou ferimentos, e mesmo nesse caso a acusao  atenuada. Mais tarde as pessoas ficam felizes com o derretedor de 
neve, pois ele traz novos cultivos, nova vida, mas ningum quer conhecer o Mal-estar.
     Venham comer!  Era Solandia quem falava, e no a tinham visto chegar.  A pessoas j esto comeando a repetir. Se no se apressarem, vo ficar sem comida.
    Caminharam em direo ao fogo central, atiado por lufadas de ar que vinham da entrada da caverna. Embora no estivessem agasalhados para o frio intenso que 
fazia l fora, a maioria das pessoas usava roupas quentes nas reas abertas da caverna, expostas ao frio e aos ventos. O pernil de cabrito-monts estava vermelho 
no meio, embora o calor do do fogo o estivesse assando um pouco mais; todos acolhiam com satisfao a carne fresca. Havia tambm um grosso caldo de carne, preparado 
com carne-seca, gordura de mamute, pedaos de razes secas e bagas silvestre  quase tudo quanto lhes sobrava de frutos e hortalias. O inverno j cansava a todos, 
e ansiavam pela chegada da primavera.
    No entanto, o frio estava ainda bem presente, e por mais que desejasse a primavera, Jondalar queria, de todo corao, que o inverno se prolongasse um pouquinho 
mais, pelo menos at atravessarem a geleira que os aguardava.

38
___________________________________________________________________________

    Terminada a refeio, Losaduna anunciou que alguma coisa estava sendo oferecida no Fogo Cerimonial. Ayla e Jondalar no compreenderam a palavra, mas dentro em 
pouco ficaram sabendo que se tratava de uma bebida que era servida quente. O gosto era agradvel e vagamente familiar. Ayla julgou que deveria ser um tipo de suco 
de fruta ligeiramente fermentado e ao qual tivessem acrescentado ervas. Surpreendeu-se quando Solandia lhe informou que o principal ingrediente era seiva de vidoeiro, 
embora o suco de fruta fosse apenas parte da receita.
    Verificaram, por fim, que o sabor era ilusrio. A bebida era mais forte do que Ayla pensara; interrogada, Solandia confidenciou que as ervas contribuam, em 
larga medida, para sua potncia. Ayla percebeu ento que o sabor vagamente familiar provinha de losna maior, uma erva poderosa que podia ser perigosa se ingerida 
em excesso ou com demasiada frequncia. Sua deteco fora difcil por causa da asprula, de gosto agradvel, porm forte perfume, e de outras substncias aromticas. 
Ayla ficou a imaginar o que mais haveria na bebida, o que a levou a prov-la e analis-la mais seriamente.
    Perguntou a Solandia a respeito da erva forte, mencionando seus possveis perigos. A mulher explicou que a planta, que ela chamava de absinto, raramente era 
utilizada, salvo naquela bebida, reservada to-somente para os Festivais da Me. Em virtude de sua natureza sagrada, em geral Solandia relutava em revelar os ingredientes 
especficos da bebida, mas as perguntas de Ayla foram to precisas e mostravam tamanho conhecimento botnico que ela no pde deixar de responder. Ayla descobriu 
ento que a mistura no era em absoluto o que parecia ser. O que,  primeira vista, dera a impresso de ser apenas uma bebida simples e suave, de sabor agradvel, 
era na realidade um preparado potente, que se destinava a incentivar o relaxamento, a espontaneidade e a naturalidade desejveis durante o Festival em Honra da Me.
     medida que as pessoas comeavam a chegar ao Fogo Cerimonial, Ayla notou, de incio, uma maior agudez de percepo, resultante dos muitos goles que tomara da 
bebida, mas aquela sensao logo cedeu lugar a uma disposio de esprito langorosa e cordial que a fez esquecer-se da prvia atitude analtica. Notou que Jondalar 
e vrios outros homens conversavam com Madenia e, deixando Solandia abruptamente, caminhou na direo deles. Cada um dos homens percebeu sua aproximao e gostou 
do que viu. Ayla sorriu ao chegar, e Jondalar teve conscincia do enorme amor que aquele sorriso sempre evocava. No seria fcil seguir as recomendaes de Losaduna 
e incentiv-la a entregar-se plenamente ao Festival da Me, mesmo depois do efeito relaxante da bebida que Aquele que Servia  Me lhe oferecera. Jondalar suspirou 
e engoliu o resto do lquido no fundo da taa.
    Filonia e, especialmente seu companheiro, Daraldi, a quem ela fora apresentada antes, estavam entre os que saudaram Ayla com efuso.
     Sua taa est vazia  disse ele, tirando uma concha de um vaso de madeira e enchendo a taa de Ayla.
     Pode servir um pouco mais para mim tambm  disse Jondalar num tom de excessiva cordialidade. Losaduna notou a jovialidade forada, mas achou que os demais 
no prestariam muita ateno. No entanto uma pessoa notou. Ayla olhou para ele, percebeu que sua boca tremia e viu que alguma coisa o incomodava. Notou tambm a 
reao rpida de Losaduna. Alguma coisa estava acontecendo entre aqueles dois, observou, mas a bebida a estava afetando, e resolveu pensar no assunto mais tarde. 
De repente, o som de tambores encheu o recinto.
     As danas vo comear!  avisou Filonia.  Vamos, Jondalar. Vou lhe ensinar os passos.  Pegou-o pela mo e o conduziu ao centro da rea.
            Madenia, v tambm  disse Losaduna.
            Isso mesmo  falou Jondalar.  Venha tambm. Sabe os passos?  Sorriu para ela, e Ayla achou que ele comeava a relaxar.
    Jondalar estivera conversando com Madenia e prestando ateno nela durante todo o dia, e embora ela se sentisse acanhada e silenciosa, sentira uma aguda conscincia 
da presena do homem alto. A cada vez que ele a fitava com os olhos penetrantes, ela sentia o corao disparar. Quando ele a pegou pela mo e conduziu  rea da 
dana, ela sentiu um arrepio de frio e calor ao mesmo tempo, e no poderia ter resistido mesmo que tentasse.
    Por um instante Filonia franziu a testa, mas depois sorriu para a moa.
     Ns duas podemos ensinar os passos a ele  disse, levando-os para a rea de dana.
     Posso lhe mostrar...  comeou Daraldi a dizer a Ayla, no exato momento em que Laduni dizia:  Eu ficaria feliz em...  Sorriram, cada qual tentando deixar 
que o outro falasse.
    Ayla dirigiu um sorriso a ambos.
            Talvez vocs dois me pudessem ensinar os passos  disse.
    Daraldi sacudiu a cabea, concordando, e Laduni dirigiu a ela um sorriso de contentamento, enquanto cada um deles pegava uma das mo dela e a conduzia  rea 
onde os danarinos se reuniam. Enquanto se colocavam em crculo, mostraram aos visitantes os passos bsicos; depois todos se deram as mos ao ouvir o som de uma 
flauta. Ayla surpreendeu-se com o som. No ouvia uma flauta desde que Manem tocara na Reunio de Vero dos Mamuti. Seria possvel que houvesse transcorrido menos 
de um ano desde ento? Parecia ter sido havia tanto tempo, e ela nunca mais o veria.
    Seus olhos se marejaram ao pensar naquilo, mas quando a dana comeou teve pouco tempo para dedicar a recordaes pungentes. No comeo foi fcil seguir o ritmo, 
mas ele se tornou mais vivo e complicado com o prosseguimento da dana. Ayla era, inquestionavelmente, o centro das atenes. Todos os homens a achavam irresistvel. 
Juntavam-se em torno dela, competindo por sua ateno, fazendo insinuaes e at convites explcitos, mal disfarados como brincadeiras. Jondalar namorava Madenia 
com discrio, e tambm Filonia, mais abertamente, mas no deixava de perceber que todos os homens buscavam chamar a ateno de Ayla.
    A dana tornou-se mais complicada, com passos complexos e mudanas de lugar, e Ayla danou com todos. Ria de suas faccias e observaes lbricas, enquanto as 
pessoas se afastavam para encher de novo sua taa, ou casais procuravam desvos escuros. Laduni foi para o meio da rea e executou um enrgico solo de dana. Ao 
fim do bailado, sua companheira juntou-se a ele.
    Ayla sentia sede, e vrias pessoas foram com ela tomar outra bebida. Daraldi caminhava a seu lado.
            Eu tambm quero um pouco mais  disse Madenia.
            Sinto muito, minha querida  disse Losaduna, pondo a mo sobre a taa da moa , mas voc ainda no passou pelos Ritos dos Primeiros Prazeres. Ter 
de tomar ch.  Madenia fechou o rosto e comeou a protestar. Depois saiu para buscar uma taa da bebidas incua que estivera tomando.
    Losaduna no tinha inteno de permitir-lhe nenhum dos privilgios da condio de mulher adulta at ela haver passado pela cerimnia que conferia essa condio, 
e estava fazendo tudo a seu alcance para incentiva-la concordar com o importante ritual. Ao mesmo tempo, estava procurando fazer com que todos soubessem que, apesar 
de sua horrvel experincia, ela fora purificada, restaurada ao estado anterior, e que deveria ser submetida s mesmas restries e tratada com o mesmo cuidado e 
ateno especiais dedicados a qualquer outra moa prestes a se tornar mulher. Sentia que esse era o nico meio de fazer com que ela se recuperasse inteiramente do 
ataque despropositado e do mltiplo estupro que sofrera.
    Ayla e Daraldi foram os ltimos a beber. Depois os outros saram numa outra direo e eles ficaram a ss. Daraldi virou-se para ela.
            Ayla, como voc  bonita.
    Na juventude ela fora sempre a alta feiosa, e por mais que Jondalar lhe dissesse que era bonita, ela sempre julgava que tais palavras se devessem ao amor que 
sentia por ela. No se julgava bela, e o comentrio a surpreendeu.
            No  respondeu, rindo.  No sou bonita.
    Aquela observao deixou Daraldi perplexo. No era o que ele esperara.
            Mas... voc   disse.
    Daraldi passara toda a noite tentando despertar-lhe o interesse, e embora ela se mostrasse amistosa e simptica, e fosse evidente que estivesse gostando da dana, 
movimentando-se com uma sensualidade natural que o estimulava a prosseguir em seus esforos, Daraldi no fora capaz de provocar a fasca que levaria a convites mais 
ousados. Sabia que no era um homem sem atrativos, e aquele era um Festival da Me, mas no conseguia transmitir quela mulher as suas intenes. Por fim, decidiu-se 
por uma abordagem mais direta.
            Ayla  disse, passando a mo em volta da cintura dela. Sentiu-a  retesar-se por um momento, mas persistiu, aproximando-se dela para lhe sussurrar no 
ouvido:  Saiba ou no, voc  uma mulher bonita.
    Ayla virou-se para ele, mas em vez de aproximar-se ainda mais, numa reao carinhosa, recuou. Daraldi ps a mo no outro lado de sua cintura, a fim de pux-la 
para si. Ayla endireitou os ombros, ps as mos nos ombros dele e olhou-o de frente.
    Ayla ainda no compreendera inteiramente o verdadeiro significado do Festival da Me. Julgara tratar-se apenas de uma reunio alegre e festiva, muito embora 
eles falassem a respeito de "honrar" a Me e ela soubesse o significado habitual da expresso. Ao notar que pares, ou mesmo trios, se afastavam para os cantos mais 
escuros em torno das divisrias de couro, comeou a entender melhor o que se passava, mas s ao encarar Daraldi e notar o desejo estampado em seus olhos foi que 
finalmente entendeu o que ele esperava.
    Daraldi a puxou contra si e tentou beij-la. Ayla sentiu-se atrada por ele e reagiu com a mesma paixo. A mo do homem encontrou seu seio, e ele tentou enfi-la 
por baixo da tnica que ela usava. Era um homem atraente e a sensao no era ruim. Ela se sentia tranquila e disposta a ceder, mas queria tempo para pensar. Era 
difcil resistir, seus pensamentos no estavam claros. Nesse momento ela ouviu sons rtmicos.
     Vamos voltar para a dana  disse.
     Por qu? J no so muitos os que danam.
            Quero mostrar uma dana Mamuti  disse ela. Daraldi aquiesceu. Ayla havia correspondido. Ele podia esperar um pouco mais.
    Quando chegaram  rea central, Ayla notou que Jondalar no estava ali. Estava danando com Madenia, segurando-lhe as duas mos e ensinando-lhe um passo de dana 
que aprendera com os Xaramudi. Filonia, Losaduna, Solandia e algumas outras pessoas batiam palmas. O flautista e o rapaz encarregado dos ritmos haviam encontrado 
parceiras.
    Ayla e Daraldi comearam a bater palmas tambm. Os olhares de Ayla e Jondalar se cruzaram, e ela deixou de bater palmas para golpear as coxas, ao modo dos Mamuti. 
Madenia parou para olhar, e depois  se afastou quando Jondalar juntou-se a Ayla num ritmo complicado, tambm batendo as mos nas pernas. Da a pouco estavam-se movimentando 
juntos, dando passos para trs e rodeando um ao outro, olhando-se por cima dos ombros. Quando ficaram frente a frente, deram-se as mos. A partir do momento em que 
seu olhar cruzara com o de Jondalar, Ayla no vira mais ningum seno ele. A simpatia que sentira por Daraldi perdeu-se na reao violenta que ela experimentou diante 
do desejo, da necessidade e do amor que ela viu nos olhos azuis, muito azuis, que a fitavam naquele momento.
    A intensidade do sentimento entre os dois era patente a todos. Losaduna os observou por um instante, e depois sacudiu a cabea imperceptivelmente. Era evidente 
que a Me estava manifestando os Seus desejos. Daraldi balanou os ombros e sorriu para Filonia. Os olhos de Madenia se arregalaram. Sabia que estava assistindo 
a algo raro e maravilhoso.
    Ao pararem de danar, Ayla e Jondalar estavam abraados, esquecidos de todos ao redor. Solandia comeou a bater palmas e da a pouco todos os demais juntaram-se 
a ela no aplauso. O som das palmas finalmente chegou aos ouvidos deles. Afastaram-se um do outro, um pouco constrangidos.
     Acho que ainda restou uma ou duas bebidas  disse Solandia. - Vamos acabar com elas?
     Boa ideia!  exclamou Jondalar, com o brao em torno de Ayla. No estava disposto a sair mais de perto dela.
    Daraldi pegou o grande vaso de madeira para servir o resto da bebida especial, e depois olhou para Filonia. Na verdade, tenho muita sorte, pensou.  uma bela 
mulher e trouxe duas crianas para meu fogo. O fato de estarem realizando um Festival da Me no significava que ele tivesse de honr-La com outra pessoa que no 
sua companheira.
    Jondalar tomou sua bebida de um s gole, deps a taa e, de repente, levantou Ayla no colo e a carregou para seu leito. Ela se sentia estranhamente tonta, tomada 
de felicidade, quase como se tivesse escapado a um destino desagradvel, porm sua alegria no se comparava  de Jondalar. Ele a observara toda a noite, vira como 
todos os homens a queriam, tentara lhe dar todas as oportunidades, como Losaduna aconselhara e tivera certeza de que ela acabaria escolhendo outra pessoa.
    Ele prprio poderia ter sado com outra mulher vrias vezes, mas no faria isso antes de ter certeza de que Ayla sara. Em vez disso, tinha ficado com Madenia, 
pois sabia que ela ainda no estava disponvel a homem algum. Gostou de lhe dar ateno, vendo-a tranquilizar-se, apreciando os comeos da mulher que ela viria a 
ser. No teria censurado Filonia se houvesse sado com algum, e ela tivera muitas oportunidades, mas agradou-lhe que ela tivesse ficado perto dele. Teria achado 
horrvel ficar sozinho se Ayla houvesse escolhido alguma outra pessoa. Conversa-ram sobre muitas coisas. Thonolan e as viagens que tinham feito juntos; os filhos 
dela, principalmente Thonolia; Daraldi e o quanto ela gostava dele... Mas Jondalar no se dispunha a falar muito sobre Ayla.
    Ento, por fim, quando ela viera ter com ele, Jondalar mal pudera acreditar. Deitou-a com todo cuidado nas peles de dormir, olhou para ela e viu amor em seus 
olhos, sentiu um aperto dolorido na garganta, reprimindo as lgrimas. Ele fizera tudo quanto Losaduna dissera, dera a ela todas as oportunidades, chegara mesmo a 
incentiv-la, mas ela viera para ele. Seria aquilo um sinal da Me, a lhe dizer que se Ayla engravidasse, o filho seria de seu esprito?
    Jondalar mudou a posio dos biombos, e quando Ayla comeou a levantar-se e tirar as roupas, ele a empurrou com doura de volta s peles.
            Esta noite  minha. Quero fazer tudo.
    Ayla deitou-se e assentiu com um leve sorriso, com um arrepio de expectativa. Jondalar transps os biombos, trouxe de volta um tio aceso, acendeu uma candeia 
e ajeitou-a num nicho. A luz no era forte, apenas o suficiente para que enxergassem. Jondalar comeou a despi-la, depois parou.
     Acha que conseguiramos chegar at as fontes termais com isso?  perguntou, indicando a candeia.
     Dizem que as guas exaurem um homem, que tornam flcida sua virilidade  disse Ayla.
     Acredite em mim, isso no h de acontecer esta noite  respondeu ele, rindo.
            Nesse caso, acho que poder ser bom  disse ela.
    Vestiram as parkas, pegaram a candeia e em silncio saram. Losaduna imaginou que iriam aliviar-se, mas depois pensou outra coisa e sorriu. As fontes termais 
nunca o haviam debilitado por muito tempo. Apenas lhe exigiam um pouco mais de autocontrole, s vezes. Mas Losaduna no era o nico a v-los sarem da caverna.
    As crianas jamais eram excludas dos Festivais da Me. Observando os adultos, aprendiam aquilo que deveriam conhecer quando crescessem. Ao brincarem, muitas 
vezes imitavam os mais velhos, e antes de serem realmente capazes de atos sexuais srios, meninos subiam em cima de meninas, como faziam os pais, e as meninas simulavam 
dar  luz bonecas, imitando as mes. Logo depois da puberdade, passavam  condio de adultos, com rituais que lhes conferiam tambm responsabilidades de adultos, 
conquanto ainda pudessem passar vrios anos sem escolher companheiros. Os bebs nasciam a seu tempo, quando a Me decidia abenoar uma mulher, mas, surpreendentemente, 
era raro nascerem de mulheres muito jovens. Todos os bebs eram bem-vindos, sustentados e cuidados pela famlia ampliada e pelos ntimos que constituam uma Caverna.
    Madenia observara Festivais da Me desde que se entendia por gente, mas dessa vez a cerimnia ganhara um novo sentido. Ela observara vrios casais  aquilo no 
parecia ferir ningum, no do modo como ela fora ferida, mesmo quando algumas mulheres escolhiam vrios homens , mas estivera particularmente interessada em Ayla 
e Jondalar. Assim que eles deixaram a caverna, ela vestiu a parka e os seguiu.
    O casal encontrou o caminho at a tenda de paredes duplas e entrou na segunda diviso, alegrando-se com o calor fumegante. Olharam em torno e depois colocaram 
a candeia sobre o altar de terra. Tiraram as parkas e sentaram-se nos tapetes almofadados que cobriam o cho.
    Jondalar tirou as botas de Ayla e depois as suas. Beijou-a longamente e com ternura, enquanto desfazia os laos que lhe prendiam a tnica e a roupa de baixo, 
puxando-os por sobre a cabea, e depois abaixou-se para beijar-lhe os seios. Desamarrou-lhe as perneiras revestidas de pele e a roupa de baixo, parando para acariciar-lhe 
o pbis, coberto de plos macios. Depois Jondalar se despiu e tomou-a nos braos, deliciando-se ao sentir-lhe a pele perto da sua, e a quis naquele mesmo instante.
    Conduziu-a  piscina fumegante, mergulharam e depois foram para a rea de banho. Jondalar pegou um punhado de sabo mole da tigela e comeou a esfreg-lo nas 
costas de Ayla e em seus montes gmeos, evitando por ora os rgos genitais. O sabo proporcionava uma sensao de maciez e prazer. Ayla fechou os olhos, sentiu 
as mos dele acarici-la como ele sabia que ela mais gostava, e entregou-se toda quele toque maravilhosamente suave, sentindo cada ponto de seu corpo.
    Jondalar pegou mais um pouco de sabo e passou-o nas pernas dela, sentindo o ligeiro espasmo de Ayla ao lhe esfregar as solas dos ps. Depois virou-a de frente 
mas se deteve a beij-la, explorando suavemente seus lbios e a lngua, sentindo sua reao. Quanto a ele prprio, sua virilidade parecia movimentar-se como que 
animada de vontade prpria, esforando-se por chegar at ela.
    Com outro punhado de sabo, Jondalar comeou a afag-la sob os braos, descendo a espuma escorregadia at os seios cheios e firmes, sentindo os bicos endurecerem 
sob as palmas de suas mos. Como relmpagos, arrepios de prazer correram pelo corpo de Ayla quando Jondalar tocou-lhe os seios, assombrosamente sensveis. Quando 
ele desceu as mos para seu ventre e suas coxas, Ayla emitiu um gemido que foi quase de agonia. Com as mos ainda cheias de sabo, ele encontrou nela a fonte dos 
Prazeres, acariciando-a de leve. Depois pegou uma pequena bacia, encheu-a de gua quente e comeou a despej-la sobre a companheira. Verteu ainda a gua quente sobre 
ela vrias vezes antes de conduzi-la de volta  fonte.
    Sentaram-se nos degraus de pedra e se abraaram com fora, comprimindo pele contra pele, apenas com as cabeas fora da gua. Depois, pegando-a pela mo, Jondalar 
tirou Ayla da fonte mais uma vez. Deitou-a nos tapetes macios e a contemplou por um instante, fulgente e molhada  espera dele.
    Para surpresa de Ayla, Jondalar primeiro abriu-lhe as pernas e correu a lngua por toda a extenso de seu sexo. No sentiu gosto de sal, e surpreendeu-se ao 
perceber que o gosto especial de Ayla desaparecera. Era uma experincia nova, aquela ausncia de sabor, e da a pouco a ouviu gemer e comear a emitir sons roucos. 
Tudo aconteceu de repente, mas percebeu que ela estava pronta. Ayla sentiu que a excitao do companheiro aumentava, chegando ao clmax, e espasmos de prazer a invadiram 
novamente.
    Ayla estendeu os braos para pux-lo contra si, ajudando-o a penetr-la. Lanava o corpo para cima enquanto ele mergulhava nela, e ambos suspiravam, tomados 
de profunda satisfao. Quando ele recuava. Ayla ansiava por t-lo de volta dentro de si. Jondalar sentia a maciez dela engolfar completamente seu membro, e procurava 
controlar-se para prolongar o Prazer. Em dado momento ele recuou um pouco e ela sentiu que estava pronto. Apertou-o com fora contra si, e Jondalar no pde suportar 
mais a tenso, liberando a exploso de Prazer, enquanto ambos proclamavam em unssono o triunfo da alma e da carne.
    Jondalar repousou sobre ela por alguns instantes, pois sabia que Ayla gostava de sentir seu peso sobre ela. Quando, enfim, rolou para o lado, ele a olhou, viu 
seu sorriso lnguido e a beijou. Suas lnguas se enroscaram com suavidade, e Ayla comeou a sentir novamente o fogo da paixo. Jondalar sentiu-lhe a reao e correspondeu. 
Sem o aodamento de antes, ele lhe beijou os lbios, cada um dos olhos, as orelhas, as dobras do pescoo. Desceu os lbios a seus seios, beijando um dos bicos enquanto 
comprimia o outro inverteu a posio at ela pux-lo com fora mais uma vez, desejando-o mais e mais  proporo que aumentava seu prazer.
    Jondalar sentia novamente crescer sua virilidade, e de repente Ayla tomou-lhe o membro na boca, provocando nele espasmos desconhecidos. Jondalar gemia e ao no 
suportar mais saltou sobre ela, lanando-se com fria contra seu corpo, at sentir, maravilhado, o grande Dom do Prazer propiciado pela Me.
    Ambos caram ento de lado, exaustos, langorosamente exaustos. Respiraram fundo, mas no se mexeram, chegando at mesmo a cochilar um pouco. Quando despertaram, 
levantaram-se e banharam-se de novo nas guas tpidas. Quando saram da fonte, descobriram surpresos que algum deixara para eles toalhas de pele, macias, para se 
enxugarem.
    Madenia voltou devagar para a caverna, experimentando sensaes que nunca conhecera. Comovera-se com a paixo de Jondalar, intensa mas controlada, e com as reaes 
de Ayla, que se dispusera a entregar-se inteiramente, a confiar-se ao companheiro sem reservas. O que eles haviam feito juntos em nada se assemelhava  experincia 
pela qual ela passara. Os Prazeres tinham sido intensos e fsicos, mas sem nenhuma brutalidade; no significavam tirar de um para servir  luxria do outro, mas 
dar-se mutuamente, para gratificao recproca. Ayla lhe dissera a verdade. Os Prazeres da Me podiam ser um sentimento prazenteiro, uma celebrao feliz e exultante 
do amor.
    E embora ela no identificasse com exatido o que sentia, estava modificada emocionalmente. Tinha lgrimas nos olhos. Naquele momento, ela quis Jondalar. Oxal 
pudesse ser ele que partilhasse com ela os ritos da feminilidade, conquanto soubesse que isso no era possvel. Mas decidiu, naquele momento, que, se pudesse ter 
algum como ele, concordaria em passar pela cerimnia e aceitar os Ritos dos Primeiros Prazeres na prxima Reunio de Vero. Ningum se mostrava muito animado de 
manh. Ayla preparou a bebida da "manh seguinte", que inventara para tomar depois das celebraes no Acampamento do Leo, embora s dispusesse de ingredientes suficientes 
para as pessoas do Fogo Cerimonial. Verificou com cuidado seu suprimento do ch anticoncepcional que tomava toda manh e concluiu que deveria durar at a primavera, 
quando poderia colher mais. Felizmente, a quantidade que tinha de tomar era pequena.
    Madenia veio ver os visitantes antes do meio-dia. Sorrindo timidamente para Jondalar, anunciou que decidira passar pelos Primeiros Ritos.
     Que notcia maravilhosa, Madenia. No vai se arrepender  disse o homem alto, bonito e gentil. A moa olhou-o com tal expresso de adorao, que ele se curvou 
e beijou-a na face. Depois endireitou o corpo e sorriu para Madenia, que se perdeu em seus extraordinrios olhos azuis, seu corao batia to depressa que ela mal 
conseguia respirar. Naquele momento, mais do que nunca, Madenia desejou que fosse Jondalar o escolhido para seus Ritos dos Primeiros Prazeres. Mas ficou embaraada, 
temerosa de que ele lhe adivinhasse os pensamentos. De repente, saiu correndo.
      uma pena no morarmos mais perto dos Losadunai  disse ele.  Eu gostaria de ajudar essa moa, mas tenho certeza de que ho de encontrar algum.
     Tenho certeza disso, mas s espero que as expectativas dela no sejam altas demais. Eu disse a ela que um dia encontraria uma pessoa como voc, Jondalar, que 
ela sofrera demais e que merecia isso. Espero que isso acontea  disse Ayla.  Mas no existem muitos como voc.
     Todas as mocinhas tm grandes esperanas e expectativas  disse Jondalar.  Mas antes da primeira vez tudo  imaginao.
     Mas ela tem alguma coisa em que basear a imaginao.
     Claro, todas sabem mais ou menos o que esperar, uma vez que sempre conviveram com homens e mulheres.
      mais do que isso, Jondalar. Em sua opinio, quem deixou para ns aquelas toalhas ontem  noite?
     Pensei que fosse Losaduna, ou talvez Solandia.
     Eles foram deitar-se antes de ns; tambm queriam honrar a Me. Eu perguntei a eles. Nem sabiam que tnhamos ido  fonte sagrada... embora Losaduna tenha ficado 
satisfeito com isso.
     Se no foram eles, quem foi ento... Madenia?
     Estou quase convicta de que sim.
    Jondalar franziu a testa, concentrado.
            Temos viajado sozinhos durante tanto tempo que... Eu nunca disse isso antes, mas... Eu me sinto um pouco... No sei... arrependido, acho, de ser to 
impetuoso, to despreocupado quando estamos perto de pessoas. Pensei que estivssemos sozinhos na noite passada. Se eu soubesse que ela estava ali, talvez me tivesse 
portado com... mais comedimento  disse ele.
    Ayla sorriu
            Eu sei.  Verificava, cada vez mais, que ele no gostava de revelar o lado profundamente sensvel de sua natureza, e agradava-lhe que se abrisse com 
ela, com palavras e atos.  Acho que foi bom voc no saber que ela estava ali, tanto por mim quanto por ela.
            Por que por ela?
     Acho que foi isso que a persuadiu a aceitar a cerimnia da iniciao. Ela j vira tantas vezes homens e mulheres compartilharem os prazeres que nem se dava 
ao trabalho de pensar no assunto, at aqueles homens a violentarem. Depois daquilo, ela s pde pensar na dor e no horror de ser usada como uma coisa, por pessoas 
que no a viam como uma mulher.  difcil explicar, Jondalar. Uma coisa dessas faz a pessoa se sentir... terrvel.
     Tenho certeza disso, mas acho que no foi s isso  concordou o homem.   depois das primeiras luas, mas antes de passar pelos Primeiros Ritos, que uma mulher 
se torna mais vulnervel... e mais desejvel. Todo homem  atrado por ela, talvez porque no possa ser tocada. Em qualquer outra poca, uma mulher  livre para 
escolher qualquer homem, ou para no querer nenhum, mas naquele perodo isso  perigoso para ela.
     Lembro-me de que Latie no podia olhar nem para os irmos  disse Ayla.  Mamute explicou isso tudo.
     Talvez no tudo  disse Jondalar.  Compete  moa-mulher demonstrar recato nessa poca, e nem sempre  fcil. Ela  o centro das atenes. Todo homem a deseja, 
principalmente se  novinha, e para ela pode ser difcil resistir. Eles a seguem, tentando de todos os modos convenc-la a ceder. E algumas moas cedem, principalmente 
aquelas que tm de esperar muito tempo pela Reunio de Vero. Mas se ela permite ser aberta sem os rituais apropriados, ela... no  bem considerada. Se descobrem, 
e muitas vezes a Me a abenoa antes dos Primeiros Ritos, mostrando a todos que ela foi aberta... As pessoas podem ser cruis. Elas a culpam e zombam dela.
     Mas por que haveriam de culp-la? Deveriam acusar os homens que no a deixaram em paz  disse Ayla, irritada com a injustia.
     Dizem as pessoas que se ela no for capaz de mostrar comedimento, faltam-lhe as qualidades necessrias para assumir as responsabilidades da Maternidade e da 
Liderana. Ela jamais h de ser escolhida para participar do Conselho das Mes, ou das Irms, seja l qual for o nome que derem ao conselho supremo, de modo que 
perde prestgio, o que a torna menos desejvel como companheira. No que ela perca o prestigio atribudo  sua me ou a seu fogo... Nada daquilo com que nasceu lhe 
 tirado... mas ela nunca ser escolhida por um homem de posio elevada, ou mesmo por um homem que tenha potencial para chegar a essa posio. Acho que isso foi 
o que Madenia mais temeu  disse Jondalar.
     No  de admirar que Verdegia dissesse que ela estava arruinada.  O cenho de Ayla franziu de preocupao.  Jondalar, voc acredita que a gente dela h de 
aceitar o ritual de purificao de Losaduna? Na verdade, depois que uma moa  aberta, nada pode faz-la voltar  condio anterior.
            Creio que sim. No caso dela, no houve falta de recato. Ela foi violentada, e as pessoas esto de tal modo indignadas corn Charoli que usaro isso contra 
ele. Talvez algumas pessoas tenham certas reservas, mas ela tambm encontrar muitos defensores.
    Ayla se manteve em silncio por algum tempo.
            As pessoas so complicadas, no  mesmo? s vezes fico a imaginar se alguma coisa realmente  o que parece ser.
     Acho que vai dar certo, Laduni  disse Jondalar  Realmente acho que vai dar certo! Vou repassar tudo de novo. Vamos usar o bote para transportar ervas secas 
e uma carga suficiente de pedras de queimar para derreter gelo, alm de pedras extras para servirem de base do fogo, e ainda a pele pesada de mamute que sustentar 
as pedras, para que no afundem no gelo quando esquentarem. Podemos carregar comida para ns, e provavelmente Lobo, em cestas e em nossas mochilas.
     Ser uma carga pesada  disse Laduni , mas vocs no tero de ferver a gua... e isso poupar as pedras de queimar. S precisam derreter o gelo o suficiente 
para que os cavalos possam beber. E tambm vocs e o lobo. A gua no ter de ser quente, bastando que no esteja congelada. E no se esqueam de beber o suficiente; 
no tentem poupar gua. Se dispuserem de agasalhos, descansem bastante e bebam gua suficiente. Com isso podero resistir ao frio.
     Acho conveniente fazermos um teste prvio, para vermos do quanto precisaro  disse Laronia.
    Ayla ouviu a sugesto da companheira de Laduni.
             uma boa ideia  concordou.
     Mas Laduni tem razo, a carga ser pesada  acrescentou Laronia.
     Nesse caso temos de examinar nossas coisas e nos livrarmos de tudo quanto pudermos  disse Jondalar.  No precisaremos de muita coisa. Assim que cruzarmos 
a geleira, estaremos perto do Acampamento de Dalanar.
    J estavam reduzidos ao mnimo essencial. Do que mais poderiam descartar-se?, pensou Ayla ao fim da reunio. Madenia caminhou a seu lado, enquanto voltavam. 
A moa-mulher no s se apaixonara por Jondalar coito cultuava Ayla como uma herona, o que a deixava um tanto constrangida. Mas ela gostava de Madenia e lhe perguntou 
se gostaria de ficar em sua companhia um pouco, enquanto ela passava em revista suas coisas.
    Ao comear a desfazer a bagagem e espalhar seus pertences, Ayla tentou lembrar-se de quantas vezes j fizera aquilo antes naquela Jornada. Seria difcil fazer 
escolhas. Tudo tinha para ela algum significado, mas para conseguirem transpor aquela aterradora geleira que tanto preocupava Jondalar desde o comeo, com Huiin 
e Racer, alm de Lobo, ela teria de eliminar o mximo possvel.
    O primeiro pacote que abriu continha um belo traje de camura macia, que Roshario lhe dera. Ergueu-o e depois estendeu a roupa diante de si.
     Ah! Que lindo! As aplicaes costuradas, e o corte... nunca vi uma coisa igual  admirou-se Madenia, incapaz de resistir ao impulso de tocar no vestido.  
E  to macio! Nunca senti uma coisa assim to macia!
    Quem me deu foi uma mulher dos Xaramudi, gente que vive muito longe daqui, perto do fim do Rio da Grande Me, onde ele  realmente um rio enorme. Voc no acreditaria 
se eu lhe dissesse como o Rio da Grande Me fica imenso. Na verdade, os Xaramudi so dois povos. Os Xamudi vivem em terra e caam camuras. Voc conhece esse animal? 
 perguntou Ayla.
    Madenia fez que no.
             um animal monts, parecido com um cabrito, mas menor.
     Ah, eu o conheo, mas ns lhe damos outro nome  respondeu Madenia.
     Os Ramudi so o Povo do Rio e pescam o grande esturjo... um peixe gigantesco. Todos eles conhecem um mtodo especial de curtir a pele da camura, para que 
ela fique macia e flexvel assim  disse.
    Ayla pegou a tnica bordada e pensou nos Xaramudi que conhecera. Aquilo parecia ter sido havia tanto tempo! Ela poderia ter ficado com eles; ainda sentia a 
mesma vontade, e sabia que nunca mais os veria. Achava horrvel ter de deixar o presente de Roshario para trs. Depois viu os olhos brilhantes de Madenia e tomou 
uma deciso.
            Gostaria de ficar com isso, Madenia?
    A moa deu um salto, como se tivesse tocado em alguma coisa em brasa.
            No posso! Foi um presente para voc.
            Mas temos de diminuir nossa carga. Acho que Roshario ficaria feliz se voc o aceitasse, j que gostou tanto. Foi feito para ser um traje matrimonial, 
mas j tenho um.
            Tem certeza?  perguntou Madenia.
    Ayla percebia-lhe a emoo. Madenia ainda no acreditava que estivesse ganhando uma roupa to maravilhosa e diferente.
     Claro que sim. Considere isso seu traje matrimonial, se for apropriado.  um presente para que se lembre de mim.
     No preciso de presente algum para me lembrar de voc  disse Madenia, com os olhos marejados.  Nunca hei de esquec-la. Por sua causa, talvez, um dia, eu 
tenha um Matrimnio, e se isso acontecer, vou usar essa roupa.  Madenia mal podia esperar para mostrar o traje a me, s amigas e a todos os companheiros na Reunio 
de Vero.
    Ayla ficou satisfeita com sua deciso de presente-la.
            Gostaria de ver meu traje de Matrimonio?
     Ah, claro!
    Ayla desembrulhou a tnica que Nezzie fizera para ela quando se decidira a casar-se com Ranec. Era de um amarelo ocre, a mesma cor de seus cabelos. Do lado de 
dentro havia a efgie de um cavalo, junto com dois pedaos de mbar cor de mel. Madenia no conseguia acreditar que Ayla possusse dois trajes de beleza to extica, 
mas to diferentes entre si, mas no disse o que pensava, receosa de que Ayla se sentisse na obrigao de dar-lhe tambm aquele traje.
    Ayla o examinou, tentando decidir o que fazer. Depois balanou a cabea. No, no podia separar-se dele, era sua tnica Matrimonial. Poderia us-la quando tomasse 
Jondalar como companheiro. De certa forma, havia nela tambm uma parte de Ranec. Pegou o cavalinho entalhado em marfim de mamute e o acariciou, distrada. Guardaria 
tambm aquilo. Pensou em Ranec, imaginando por onde andaria ele. Ningum a amara mais que ele, e ela jamais o esqueceria. Poderia t-lo tomado como companheiro e 
ser feliz com ele, se no tivesse amado tanto Jondalar.
    Madenia procurara conter a curiosidade, mas por fim teve de perguntar.
            O que so essas pedras?
            So chamadas de mbar. Quem as deu foi a chefe do Acampamento do Leo.
            Essa efgie representa seu cavalo?
    Ayla sorriu.
            Sim,  uma representao de Huiin. Quem a fez para mim foi um homem de olhos sorridentes e que tinha a pele da cor do plo de Racer. At Jondalar disse 
que nunca conhecera melhor escultor.
            Um homem de pele escura?  perguntou Madenia, incrdula.
    Ayla sorriu. No podia censur-la por duvidar.
            Isso mesmo. Era um Mamuti e chamava-se Ranec. Da primeira vez que o vi, fiquei pasma, olhando para ele. Creio que fui muito mal educada. Disseram-me 
que a me dele era escura como... um pedao de pedra de queimar. Ela vivia muito ao sul daqui, do outro lado de um enorme mar. Um homem Mamuti chamado Wymez fez 
uma longa Jornada. Tomou-a como companheira, e o filho dela nasceu no fogo dele. A mulher morreu enquanto voltavam, de modo que ele chegou em casa somente com o 
menino. A irm do homem o educou.
    Madenia teve um sobressalto de emoo. Julgara que a nica coisa existente para o sul eram montanhas, que continuavam para sempre e sempre. Ayla viajara a lugares 
to distantes e conhecia muitas coisas! Talvez um dia ela prpria fizesse uma Jornada como a de Ayla e conhecesse um homem escuro que esculpisse um cavalo lindo 
para ela, talvez conhecesse cavalos que lhe permitiriam mont-los, um lobo que gostava de crianas e um homem como Jondalar, que montaria os cavalos e faria a longa 
Jornada em sua companhia. Madenia perdeu-se em devaneios, sonhando com a aventura.
    Nunca conhecera uma pessoa como Ayla. Idolatrava a mulher linda, de vida to aventurosa, e esperava poder tornar-se como ela algum dia. Ayla falava com um sotaque 
diferente, o que apenas lhe aumentava o mistrio, e no tinha tambm ela sofrido um ataque e sido forada por um homem quando era menina? Ayla superara o trauma, 
mas compreendia o que outra pessoa sentia. Por causa da simpatia, do amor e da compreenso das pessoas que a cercavam, Madenia comeava a se recuperar do horror 
do incidente. Comeou a imaginar-se, amadurecida e sbia, falando a uma menina que tivesse sido vtima do mesmo ataque, a respeito de sua experincia, para ajud-la 
a vencer as ms lembranas.
    Enquanto Madenia sonhava de olhos abertos, via Ayla pegar um pacote bem embrulhado. A mulher o ergueu mas no o abriu; sabia exatamente o que continha, e no 
pretendia deix-lo para trs.
            O que  isso?  perguntou a moa, enquanto Ayla o punha de lado.
    Ayla pegou novamente o embrulho. Fazia algum tempo que no o via. Olhou em torno para ter certeza de que Jondalar no estava por ali e depois abriu os ns. Dentro 
do pacote havia uma tnica de um branco purssimo, enfeitada com caudas de arminho. Os olhos de Madenia se arregalaram.
      branca como a neve! Nunca vi um couro pintado de branco como esse.
     O preparo de couro branco  um segredo do Fogo da Cegonha. Aprendi a faz-lo com uma velha que aprendera com a me  explicou Ayla.  Ela no tinha ningum 
a quem transmitir esse conhecimento, de modo que quando lhe pedi que me ensinasse, ela concordou.
            Foi voc quem fez isso?  perguntou Madenia.
            Fui eu. Para Jondalar, mas ele no sabe. Vou dar a ele essa roupa quando chegarmos  nossa casa, acho que para nosso Matrimnio.
    Quando Ayla o levantou, outro pacote caiu de seu interior. Madenia podia ver que se tratava de uma tnica masculina. Com exceo das caudas de arminho, a roupa 
no tinha outros enfeites. No havia aplicaes bordadas ou desenhos, conchas ou contas, mas no era preciso. Enfeites teriam estragado o efeito. Em sua simplicidade 
a brancura da cor a tornava assombrosa.
    Ayla abriu o pacote menor. Dentro dele havia a figura estranha de uma mulher, de rosto esculpido. Se no houvesse contemplado maravilha aps maravilha, aquilo 
teria assustado a moa; as dunai nunca tinham rostos. Mas, por algum motivo, era apropriado que a de Ayla o tivesse.
     Jondalar fez para mim. Falou que o esculpira para capturar meu esprito, e para minha cerimnia de feminilidade, a primeira vez que me mostrou o Dom do Prazer 
da Me. No havia mais ningum com quem o compartilharmos, mas nem precisvamos. Jondalar fez com que aquilo fosse uma cerimnia. Mais tarde deu-me essa escultura 
para que eu a guardasse, por que, segundo ele, ela tem muito poder.
     Acredito  respondeu Madenia. No sentia vontade algum de toc-la, mas no duvidava que Ayla fosse capaz de controlar todo o poder que ela encerrasse.
    Ayla percebeu o mal-estar da moa, e voltou a embrulhar a figura. Meteu-a no interior da tnica branca, cuidadosamente dobrada, e envolveu tudo nas peles de 
coelho costuradas, e por fim atou os laos de cordel.
    Outro pacote continha alguns dos presentes que ganhara em sua cerimnia de adoo, ao ser aceita pelos Mamuti. Ficaria com eles. Sua bolsa de remdios a acompanharia, 
 claro, alm das pedras-de-fogo e da pirita e da pederneira, seus instrumentos de costura e as armas de caa. Ayla inspecionou as vasilhas e os objetos de cozinha 
e eliminou tudo que no fosse absolutamente essencial. Teria de esperar Jondalar para tomar uma deciso acerca das tendas, das cordas e outros materiais.
    No momento em que Madenia e ela estavam para sair, Jondalar entrou no espao de moradia. Com outros homens, tinha acabado de voltar com uma carga de carvo marrom, 
e fora ali para separar suas coisas. Vrias outras pessoas o acompanhavam, entre as quais Solandia e as crianas, na companhia de Lobo.
            Para dizer a verdade, hoje em dia eu preciso desse animal e vou sentir falta dele. Mas no creio que vocs pudessem deix-lo conosco  disse ela.
    Ayla fez um sinal a Lobo. Apesar de todo seu carinho pelas crianas, ele a atendeu imediatamente e ficou a seus ps, mirando-a, esperando suas ordens.
            No, Solandia. No creio que isso fosse possvel.
     No pensei que fosse, mas eu tinha de perguntar. Tambm vou sentir falta de voc, como sabe.
     E eu vou sentir saudades de vocs. A parte mais difcil dessa Jornada foi fazer amigos e depois nos separarmos, sabendo que com toda certeza nunca mais nos 
veremos  disse Ayla.
     Laduni  disse Jondalar, carregando um pedao de marfim de mamute que tinha estranhas marcas gravadas.  Talut, o chefe do Acampamento do Leo, preparou este 
mapa da regio que fica no leste e que mostra a primeira parte de nossa Jornada. Eu tinha esperana de conserv-lo como lembrana dele. No  essencial, mas no 
consigo me dispor a jog-lo fora. Quer guard-lo para mim? Quem sabe se um dia no volto para busc-lo?
     Com todo prazer  respondeu Laduni, pegando o mapa de marfim e examinando-o.  Parece interessante. Talvez voc possa explic-lo antes de partir. Espero que 
voc realmente volte, mas se no voltar, talvez algum v para as suas bandas, e eu possa mand-lo para voc.
     Vou deixar tambm algumas ferramentas. Pode ficar com elas ou no. Sempre detesto renunciar a uma acha a que me acostumei, mas tenho certeza de que poderei 
substitu-las assim que alcanar os Lanzadonni. Dalanar sempre possui bons suprimentos. Vou deixar meus martelos de osso e algumas lminas, tambm. Mas vou ficar 
com uma enx e um machado para cortar gelo.
    Depois que chegaram  rea de dormir, Jondalar perguntou:  O que voc vai levar, Ayla?
            Est tudo aqui, no estrado da cama.
    Jondalar viu o misterioso pacote entre as outras coisas.
     Seja o que for, essas coisas devem ser muito valiosas disse.
     Vou lev-las  respondeu ela.        
Madenia sorriu, satisfeita por conhecer o segredo. Aquilo lhe fazia sentir-se importante.  O que  isso?  perguntou ele, apontando outro pacote.
            So presentes do Acampamento do Leo  disse Ayla, abrindo o embrulho para que ele visse as coisas. Jondalar viu a bela ponta de lana que Wymez lhe 
presenteara, e pegou-a para mostr-la a Laduni.
            Veja s isso  disse.
    Era uma lmina grande, maior que sua mo e da largura de sua palma. No entanto, a espessura era menor que a ponta de seu dedo mnimo e tinha as bordas bem afiadas.
     Foi trabalhada nas duas faces  disse Laduni, virando-a ao contrrio.  Mas como ele conseguiu talh-la com essa espessura? Sempre pensei que trabalhar os 
dois lados de uma pedra fosse uma tcnica rudimentar, usada para machados simples e coisas assim, mas isso nada tem de rudimentar.  uma das peas de artesanato 
mais bem-feitas que j vi.
     Foi Wymez quem a fez  respondeu Jondalar.  Eu lhe disse que ele era hbil. Ele esquenta o slex antes de trabalh-lo. Isso altera a qualidade da pedra, facilita 
retirar lascas pequenas, e  por isso que consegue uma espessura to mnima. Mal consigo esperar para mostrar isso a Dalanar.
            Tenho certeza de que ele h de apreciar o trabalho  disse Laduni.
    Jondalar devolveu a pea a Ayla, que a embrulhou com todo o cuidado.
            Acho que devemos levar apenas uma tenda, mais para us-la como quebra-vento  observou ele.
            O que acha de uma pele para o cho?  perguntou Ayla.
            Temos uma carga to grande de rochas e pedras que detesto levar tudo o que no for de necessidade absoluta.
     Mas a geleira... Eu gostaria de ter uma cobertura para o cho.
     Acho que tem razo  disse ele.
     E estas cordas?
     Vamos realmente precisar delas?
     Sugiro que as levem  disse Laduni.  Cordas so coisas da maior utilidade numa geleira.
     Se voc pensa assim, vou seguir seu conselho  aquiesceu Jondalar.
    Haviam arrumado muitas coisas na noite anterior, e passaram o restante da tarde despedindo-se de pessoas a quem se haviam afeioado no pouco de permanncia ali. 
Verdegia fez questo de ir conversar com Ayla.
            Quero lhe agradecer, Ayla.
            No h por que me agradecer. Ns  que temos de agradece a todos aqui.
     Refiro-me ao que voc fez por Madenia. Para ser honesta, no sei o que voc fez ou o que lhe disse, mas voc a modificou. Antes de sua chegada, ela vivia escondida 
pelos cantos, querendo morrer. No conversava comigo, nem queria pensar em se tornar mulher. Pensei que tudo estivesse perdido. Agora, est quase como era antes 
e concordou com os Primeiros Ritos. S espero que nada acontea e que ela no mude de opinio antes do vero.
     Acho que ela vai ficar bem, desde que todos continuem a lhe dar apoio  respondeu Ayla.  Essa foi a maior ajuda, voc sabe.
            Mas ainda quero que Charoli seja punido  disse Verdegia.
            Todos querem isso. Agora que concordaram em ir ao encalo dele, acho que ser castigado. Madenia ser vingada, ter seus Primeiros Ritos e se tornar 
mulher. Voc ainda ter netos, Verdegia.
    De manh, acordaram cedo, terminaram de fazer os ltimos preparativos e voltaram  caverna para uma ltima refeio com os Losadunai. Todos estavam ali para 
se despedir. Losaduna fez Ayla decorar mais alguns poemas tradicionais e quase rompeu em lgrimas quando ela o abraou para se despedir. Ele se afastou depressa, 
para ir ter com Jondalar. Solandia no escondeu a emoo que lhe ia na alma, e disse que estava muito triste por v-los partir. At Lobo parecia saber que nunca 
mais veria as crianas, e o mesmo acontecia com elas. O animal lambeu o rosto do beb, e pela primeira vez Micheri chorou.
    No entanto, ao sarem da caverna, foi Madenia quem os surpreendeu. Havia vestido o magnfico traje com que Ayla a presenteara, e ao abraar-se a ela procurou 
no chorar. Jondalar lhe disse que estava linda, e falava com sinceridade. As roupas lhe emprestavam um ar de beleza incomum e de maturidade, revelando algo da verdadeira 
mulher que um dia ela viria a ser.
    Ao montarem nos cavalos, repousados e ansiosos por partir, olharam mais uma vez as pessoas reunidas na boca da caverna, e era Madenia quem ali se destacava. 
Mas ainda era jovem e, quando acenou, correram-lhe lgrimas pelo rosto.
            Nunca vou esquec-los, a nenhum dos dois  gritou ela, e entrou correndo na caverna.
    Ao se afastarem, de volta ao Rio da Grande Me, que se reduzira a um riacho, Ayla pensou que jamais se esqueceria de Madenia e de sua gente. Jondalar tambm 
emocionou-se ao dizer adeus, mas seus pensamentos estavam fixos nas enormes dificuldades que ainda tinham a arrostar. Sabia que a parte mais difcil da Jornada ainda 
estava pela frente.

39
___________________________________________________________________________

    Jondalar e Ayla rumaram para norte, de volta ao Donau, o Rio da Grande Me que lhes orientara os passos durante uma parte to grande da Jornada. Quando o alcanaram, 
viraram de novo para oeste e continuaram a seguir a corrente na direo de suas nascentes, mas o grande rio mudara de carter. J no era um gigantesco caudal serpenteante,
a rolar com imponente dignidade pelas plancies, recebendo incontveis afluentes enormes volumes de sedimento, para depois quebrar-se em canais e formar lagos.
    Perto de sua fonte, o rio era mais vivo, mais lpido, uma corrente mais rasa que corria aos saltos por seu largo leito rochoso, ao precipitar-se pela encosta 
ngreme. Mas a rota dos viajantes em direo a oeste, margeando o rio cheio de corredeiras, havia-se tornado uma escalada contnua, que os conduzia cada vez mais 
para perto do inevitvel encontro com a espessa camada de gelos eternos que encobriam o amplo planalto da regio que tinham  frente.
    As formas das geleiras acompanhavam os contornos da rea. As que se situavam nas montanhas eram serrilhados picos de gelo, enquanto as do terreno plano se estendiam 
como panquecas, de espessura quase uniforme, soerguendo-se um pouco mais na parte central, deixando para trs bancos de cascalho e abrindo depresses que se tornavam 
lagos e lagoas. Em seu avano mais ousado, o lobo meridional da vasta extenso continental de gelo, cujo nvel mximo era to elevado quanto as montanhas em torno 
deles, deixava de encontrar, apenas por cinco graus de latitude, os contrafortes setentrionais das geleiras montanhosas. O terreno que se estendia entre as duas 
formaes era o mais glido que existia em todo o planeta.
    Ao contrrio das geleiras das montanhas, que lembravam rios congelados a escorrerem morosamente pelas encostas, o gelo eterno no planalto arredondado, quase 
plano  a geleira que tantas apreenses causava a Jondalar, e que ainda os aguardava mais a oeste , era uma verso em miniatura da espessa camada de gelo que se 
espraiava pelas plancies do continente, mais ao norte.
     medida que Ayla e Jondalar avanavam rio acima, ganhavam altitude a cada passo. Faziam a escalada pensando sempre em poupar os cavalos, muitas vezes puxando-os 
pelas rdeas, em vez de mont-los. Ayla se preocupava sobretudo com Huiin, que arrastava a maior parte das pedras de queimar, as pedras que, segundo esperavam, haveriam 
de garantir a sobrevivncia de seus companheiros de viagem quando atravessassem a superfcie gelada, uma regio pela qual os animais nunca se aventuram sozinhos.
    Alm do tren de Huiin, ambas as cavalgaduras transportavam cargas pesadas, embora a carga sobre o dorso da gua fosse menor, para compens-la pelo veculo que 
arrastava. A carga de Racer era to grande que quase se desequilibrava sobre o animal, mas tambm as mochilas homem e da mulher eram enormes. Apenas o lobo estava 
livre de cargas adicionais, e Ayla comeava a prestar ateno em seus movimentos livres, imaginando se tambm ele no poderia carregar uma parte.
     Todo esse esforo para carregar pedras  observou Ayla certa manh, enquanto depunha a mochila no cho.  Algumas pessoas nos considerariam loucos por arrastar 
essa carga de pedra pelas montanhas.
            Muita gente nos considera loucos por viajarmos com dois cavalos e um lobo  contraps Jondalar.  Mas para chegarmos do outro lado da geleira, temos 
de transportar essas pedras. Nossas vidas dependem delas. E h uma coisa que me alegra.
     O qu?
     A facilidade que encontraremos ao chegarmos do outro lado.
    O curso alto do rio atravessava os contrafortes setentrionais da cadeia de montanhas do sul, to imensa que os viajantes mal conseguiam dar-se conta de sua verdadeira 
escala. Os Losadunai viviam numa regio, um pouco ao sul do rio, de montanhas calcrias mais arredondadas, com extensas reas de planaltos relativamente planos. 
Embora desgastados por eras e eras de ventos e guas, os cumes erodidos eram suficientemente altos para ostentar coroas fulgentes de gelo durante todo o ano. Entre 
o rio e as montanhas estendia-se uma paisagem de latente vegetao sobreposta a uma zona de arenitos. Estes, por sua vez, eram recobertos por um leve manto de neve 
invernal que apagava a fronteira mais baixa do gelo eterno, mas o tremeluzir do azul glacial lhe revelava a natureza.
    Mais para sul, rebrilhando ao sol como gigantescos cacos de alabastro, as penedias altaneiras da zona central, quase uma cordilheira separada dentro da colossal 
massa de terra soerguida, sobrepunha-se aos picos mais prximos. Enquanto os viajantes prosseguiam na escalada em direo  cadeia ocidental mais elevada dentro 
da complexa cordilheira, a marcha silenciosa das montanhas centrais acompanhava-lhes o avano, vigiado por um silencioso par de picos serrilhados que se alteavam 
muito mais que os outros.
    Ao norte, do outro lado do rio, o antigo macio cristalino se erguia ingreme, com a superfcie ondulada marcada, aqui e ali, por rochedos coberta por campinas. 
 frente, morros em meia-lua mais altos, alguns cobertos tambm por pequenas coroas de gelo, transpunham o rio congelado, sem nenhuma fronteira a congelar, para 
juntar-se s dobraduras mais jovens da cadeia meridional.
    A neve seca e pulverulenta caa com menos frequncia  medida que a Jornada os levava  parte mais fria do continente, a regio entre a rea mais setentrional 
da geleira montanhosa e amplides mais meridionais dos vastos lenis de gelo, de extenso continental. Nem mesmo o frio das estepes ventosas das plancies orientais 
se igualava, em severidade, ao daquelas paragens. S a moderadora influncia martima do oceano a oeste salvava a regio da desolao dos congelados lenis de gelo.
        Sem o ar aquecido pelo oceano, que resistia ao avano do gelo, a geleira que tencionavam atravessar se haveria ampliado e se tornado inexpugnvel. As influncias 
martimas que davam passagem s estepes e tundras ocidentais tambm mantinham as geleiras distantes da terra dos Zelandonii, poupando-a da grossa camada de gelo 
que cobria outras   regies na mesma latitude.
        Jondalar e Ayla reacostumaram-se com facilidade  rotina de viagem, embora Ayla tivesse a impresso de que viajavam eternamente. Ansiava por chegar ao fim 
da Jornada. Lembranas do inverno muito mais brando no Acampamento do Leo lhe passavam pela mente enquanto avanavam a custo pela monotonia da paisagem hibernal. 
Ela recordava pequenos incidentes com prazer, esquecida da infelicidade que lhe havia toldado a vida na poca em que pensara que Jondalar a deixara de amar.
        Embora toda a gua tivesse de ser derretida, em geral de pedaos de gelo do rio, e no de neve, Ayla concluiu que o frio enregelante trazia alguns benefcios. 
Os afluentes do Rio da Grande Me eram menores, e estavam congelados, o que lhes facilitava atravess-los. Mas invariavelmente se precipitavam pelas aberturas da 
margem direita, por causa dos ventos violentos que zuniam pelos vales dos rios e pelas correntes. Essas rajadas faziam afunilar para ali um ar frgido que descia 
das reas de alta presso das montanhas do sul, aumentando ainda mais a sensao de frio insuportvel.
        Tremendo, apesar das peles grossas, Ayla sentiu-se aliviada quando finalmente cruzaram um largo vale, chegando  barreira protetora de um planalto prximo.
                Tenho tanto frio!  comentou ela, batendo os dentes.  Gostaria que esquentasse um pouco.
        Jondalar teve uma expresso de alarma.
         No queira isso, Ayla!
         Por qu?
                Temos de cruzar a geleira antes que o tempo mude. Um vento quente indica o foehn, o derretedor de neves, que por fim  estao. Nesse caso, teremos 
de seguir para o norte, atravessando terras dos Cl. Isso exigir muito mais tempo, e por causa de todos os problemas que Charoli vem causando, no sei se eles nos 
recebero bem  disse Jondalar.
        Ayla assentiu, com os olhos postos na margem norte do rio. Depois de estud-lo durante algum tempo, disse:
         Eles esto do lado melhor.
         O que a faz pensar assim?
                Mesmo daqui pode-se ver que existem plancies com boas pastagens, e isso traz a presena de animais de caa. Deste lado quase s existem pinheiros... 
isso significa terra arenosa e grama ruim, a no ser em alguns lugares. Este lado deve ser menos rico por causa da proximidade do gelo.
                Talvez voc tenha razo  anuiu Jondalar, pensando na justeza de sua avaliao.  No sei como  no vero. S estive aqui durante o Inverno.
        A observao de Ayla fora correta. Os solos das plancies ao norte do vale do portentoso rio compunham-se basicamente de loess, sobreposto a um escudo de 
calcrio, e eram mais frteis que os do lado sul. Alm disso, as geleiras montanhosas no sul achavam-se mais prximas, o que tornava os invernos mais rudes e refrescava 
os veres, cujo calor mal bastava para derreter as neves acumuladas e a geada superficial do inverno, fazendo-se recuar at a linha da neve do ltimo vero. A maior 
parte das geleiras estava crescendo de novo, devagar, mas o suficiente para assinalar uma modificao do clima reinante, o intervalo ligeiramente mais quente, de 
volta ao frio do passado, e um ltimo avano glacial antes do prolongado degelo que s deixaria gelo nas regies polares.
        Como as rvores estavam meio mortas, muitas vezes Ayla no tinha como identific-las, at provar a ponta de um ramo, um boto de flor ou um pedao da casca 
interna. Nos pontos onde o amieiro dominava, perto do rio, e ao longo dos vales mais baixos de seus afluentes, ela sabia que estariam viajando por florestas pantanosas 
e turfosas, se fosse vero; onde os amieiros se misturavam com salgueiros e choupos, seriam as partes mais midas; e ocasionais freixos, olmos e carpinos, pouco 
mais que arbustos, indicavam terrenos mais secos. O raro carvalho-ano, lutando pela sobrevivncia em nichos mais protegidos, era um indcio dos vastos carvalhais 
que um dia cobririam uma terra mais temperada. As rvores estavam inteiramente ausentes dos solos arenosos das charnecas elevadas, capazes de nutrir apenas urzes, 
tojos, gramas esparsas, musgos e liquens.
        Mesmo naquele clima frgido, prosperavam algumas aves e animais; abundavam espcies das montanhas e das estepes, adaptadas ao frio, e a caa era fcil. S 
de raro em raro tinham os viajantes de lanar mo das provises que lhes haviam sido dadas pelos Losadunai. Alis, desejavam mesmo guard-las para a travessia da 
geleira. Somente quando chegassem ao ermo gelado teriam de alimentar-se dos mantimentos que transportavam.
        Ayla avistou um mocho-das-neves pigmeu e mostrou-o a Jondalar. Ele se tornara mestre em caar tetrazes, que tinham o mesmo gosto da ptrmiga de penas brancas 
de que passara a gostar tanto, principalmente do modo como Ayla a preparava. Sua colorao mista lhe proporcionava melhor camuflagem num ambiente no coberto inteiramente 
pela neve. Jondalar tinha a impresso de que houvera mais neve da ltima vez que passara por ali.
        A regio sofria influncia tanto do leste, continental, quanto do oeste, martimo, o que era revelado pela inusitada mistura de plantas e animais raramente 
vistos juntos. Exemplo disso eram as pequenas criaturas peludas observadas por Ayla, ainda que raramente vissem camundongos, cabaias e hamsters, exceto quando ela 
buscava num ninho os vegetais por eles armazenados. Embora Ayla as vezes pegasse tambm os animais para Lobo, ou, sobretudo se encontrava hamsters gigantes, para 
eles prprios, os animaizinhos mais comumente serviam de alimento a martas, raposas e ao pequenos gatos selvagens.
        Nas plancies elevadas e ao longo dos vales fluviais, era frequente darem com mamutes lanudos, em geral em manadas de fmeas aparentadas, com um ou outro 
macho a lhes fazer companhia, ainda que no inverno muitas vezes se reunissem grupos de machos. Os rinocerontes invariavelmente viviam solitrios, com exceo de 
fmeas com um ou dois filhotes. Nas estaes mais quentes, bisontes, auroques e todas as variedades de veados, desde as espcies gigantes at os anes, eram numerosssimos, 
mas apenas as renas subsistiam no inverno. O carneiro selvagem a camura e o cabrito-monts haviam migrado de seu habitat de vero, reas mais altas, e Jondalar 
nunca vira tantos bois-almiscarados.
        Naquele ano a populao de bois almiscarados parecia ter chegado ao auge de um ciclo. No ano seguinte, com toda probabilidade, se reduziriam a um nmero 
diminuto, mas nesse nterim Ayla e Jondalar comprovavam a utilidade do arremessador de lanas. Quando ameaados, os bois-almiscarados, sobretudo as fmeas, mais 
beligerantes, formavam uma falange cerrada de chifres enristados, dispostos em crculo para proteo dos filhotes e de certas fmeas. Essa ttica era eficaz contra 
a maioria dos predadores, mas no contra o arremessador de lanas.
        Sem precisarem aproximar-se o suficiente para serem ameaados por um ataque repentino, Ayla e Jondalar podiam escolher o animal que desejavam abater, fazendo 
pontaria de uma distncia segura. Era quase fcil demais, mas a pontaria tinha de ser certeira e era necessrio arremessar a lana com fora, para que ela penetrasse 
no couro duro.
        Tendo  sua disposio muitas variedades de animais, era raro que lhes faltasse alimento, e muitas vezes deixavam os pedaos menos saborosos de carne para 
outros carnvoros e rapinantes. No era uma questo de desperdcio, mas de necessidade. A dieta de carne magra e de alto teor proteico muitas vezes os fazia sentirem-se 
insatisfeitos, mesmo quando haviam comido bastante. Cascas de rvores e chs preparados de ramos proporcionavam um alvio limitado.
        Como seres onvoros, os humanos podiam subsistir com uma ampla diversidade de alimentos, mas, embora essenciais, as protenas no eram adequadas, se fossem 
o nico alimento. Viajando no final do inverno, com muito pouca disponibilidade de vegetais, eles precisavam de gorduras para sobreviver, mas o inverno ia to adiantado 
que os animais que caavam j tinham usado a maior parte de suas reservas. Os viajantes escolhiam a carne e as vsceras que continham mais gordura, e deixavam de 
lado as partes mais magras, ou as davam a Lobo. O animal encontrava, ele prprio, abundncia de alimentos nas matas e plancies por que passavam.
        Havia outro animal que habitava a regio, e embora sempre o notassem, nem Jondalar nem Ayla se dispunham a caar cavalos. Seus companheiros de viagem alimentavam-se 
bem, comendo ervas secas, musgo e liquens, e at mesmo ramos pequenos e cascas finas de rvores.
        Ayla e Jondalar seguiam rumo ao oeste, acompanhando o curso do grande rio, e desviando-se ligeiramente para o norte, sempre  vista do macio do outro lado 
do rio. A depresso entre o antigo planalto setentrional e as montanhas do sul tornava-se mais alta na direo de uma paisagem inspita, que aflorava em rochedos. 
Passaram pelo local onde trs corantes juntavam-se para formar o comeo reconhecvel do Rio da Grande Me, depois atravessaram a corrente e seguiram pela margem 
esquerda do curso mdio, a Me Mdia. Aquele rio, segundo haviam dito a Jondalar, era considerado o verdadeiro Rio Me, conquanto qualquer um dos trs pudesse s-lo.
        Alcanar o ponto que era, essencialmente, o comeo do grande rio no representou a experincia emocionante que Ayla esperara. O Rio da Grande Me no brotava 
de um local claramente definido, como o grande mar interior onde ele terminava. No havia um comeo ntido, e at mesmo o limite do territrio setentrional, considerado 
regio dos cabeas-chatas, era incerto, porm Jondalar tinha a impresso de que a rea onde estavam lhe era familiar. Achava ele que estavam perto da margem da geleira, 
embora fizesse algum tempo que viajavam sobre neve e fosse difcil determinar com preciso.
        Ainda era de tarde, mas resolveram comear a procurar um local onde acampar, e seguiram at a margem direita da corrente mais elevada. Decidiram parar um 
pouco adiante, alm do vale de um rio bastante largo que descia do lado norte.
        Ao ver um depsito de cascalho junto ao rio, Ayla parou para pegar vrias pedras lisas e redondas, muito apropriadas para sua funda, e meteu-as na bolsa. 
Talvez pudesse ir caar ptrmigas ou lebres, mais de tarde ou no outro dia.
        As lembranas da breve estada deles com os Losadunai j esmaeciam, substitudas por apreenses com relao  geleira que os esperava, principalmente por 
parte de Jondalar. A p e muito carregados, eles vinham viajando mais devagar do que tinham esperado, e Jondalar temia que o fim do inverno estivesse prximo. A 
chegada da primavera era sempre imprevisvel, mas ele s desejava que naquele ano ela tardasse mais.
        Descarregaram os cavalos e acamparam. Como ainda era cedo, resolveram caar carne fresca. Entraram numa mata rala e encontraram pegadas de veado, o que surpreendeu 
a ambos e deixou Jondalar preocupado. Oxal os veados, que regressavam, no fossem um sinal da iminncia da primavera. Ayla fez um sinal para Lobo e seguiram pela 
mata em fila, encabeada por Jondalar. Ayla caminhava logo atrs, acompanhada por Lobo. Ela no queria que ele se pusesse a correr, espantando a presa.
        Chegaram a um afloramento rochoso que lhes bloqueava a viso. Ayla percebeu que os ombros de Jondalar relaxavam e que ele se tornava menos tenso. Compreendeu 
o porqu quando as pegadas do veado mostraram que ele se havia afastado. Era bvio que alguma coisa o espantara.
        Ambos se imobilizaram ao ouvir o rosnado baixo de Lobo. Ele pressentira alguma coisa, e os viajantes j haviam aprendido a respeitar seus avisos. Ayla tinha 
certeza de ter ouvido barulho de passos do outro da grande pedra, que se projetava da terra e lhes bloqueava o caminho. Ela e Jondalar se entreolharam; o homem tambm 
escutara o barulho. Rastejaram lentamente, olhando em torno da pedra. De repente, soaram gritos, ouviu-se o barulho de uma coisa que caa com fora e, quase ao mesmo 
tempo, um grito de agonia.
        Havia naquele grito alguma coisa que fez correr um arrepio pela espinha de Ayla, um arrepio de reconhecimento.
         Jondalar! Algum est em dificuldade  disse, correndo ao redor da pedra.
         Espere, Ayla! Pode ser perigoso!  disse ele, mas era tarde demais. Com a lana em riste, ele correu para alcan-la.
        Do outro lado da rocha, vrios rapazes estavam lutando com uma pessoa prostrada, que tentava resistir sem muito sucesso. Outros faziam comentrios grosseiros 
a um homem de joelhos, estendido sobre uma pessoa que dois outros tentavam segurar.
                Depressa, Danasi! Ainda precisa de mais ajuda? Esta aqui est resistindo.
         Talvez ele precise de ajuda para achar o que quer.
         Ele nem sabe o que fazer.
         Ento d uma oportunidade a outro.
        Ayla teve um vislumbre de cabelos louros e, com uma indignada sensao de mal-estar, compreendeu que eles estavam segurando uma mulher e o que tentavam fazer. 
Enquanto corria na direo deles, percebeu outra coisa. Talvez fosse a forma de uma perna ou de um brao, ou o som de uma voz, mas de repente ela entendeu que se 
tratava de uma mulher do Cl  uma mulher loura do Cl! Ficou estupefata... mas apenas por um instante.
        Lobo rosnava, ansioso, mas olhava para Ayla e se continha.
                Deve ser o bando de Charoli!  disse Jondalar, alcanando a companheira.
        Ps no cho a mochila de caa e a aljava de lanas, e com algumas passadas largas havia alcanado os trs homens que molestavam a mulher. Agarrou o que estava 
em cima dela pela parka e o puxou com fora. Depois o rodeou e, cerrando o punho, desferiu um murro no homem, que caiu ao cho. Os outros dois, surpresos, largaram 
a mulher e voltaram o ataque contra o estranho. Um deles saltou-lhe s costas, enquanto o outro dava socos em seu rosto e seu peito. O homem desvencilhou-se do que 
lhe pulara s costas, recebeu um golpe forte no ombro e revidou com um violento chute contra a barriga do que estava  sua frente.
        A mulher rolou de lado, recuou para se afastar quando os dois homens atacaram Jondalar e correu na direo do outro grupo de homens que lutavam. Enquanto 
um dos homens se contorcia de dor, Jondalar virou-se para o outro. Ayla viu que o primeiro se levantava.
                Lobo! Ajude Jondalar! Pegue aqueles homens!  gritou, fazendo um sinal para o animal.
        O enorme lobo correu para a refrega, enquanto ela punha a mochila no cho, tirava a funda enrolada no pescoo e procurava pedras na bolsa. Um dos trs homens 
havia cado de novo, e ela viu que um outro, de olhos esbugalhados de terror, levantava o brao para se proteger do imenso lobo que corria em sua direo. O animal 
saltou nas patas traseiras, meteu os dentes no brao de um pesado capote de inverno e arrancou-Ihe a manga, enquanto Jondalar desferia um murro no rosto do terceiro.
        Metendo uma pedra na funda, Ayla desviou a ateno para o outro grupo de homens que lutavam. Um deles erguera um pesado basto de osso com as mos e estava 
pronto para vibrar um golpe mortfero. Rapidamente ela atirou a pedra e viu o homem do basto cair ao cho. Outro homem, que segurava uma lana em posio ameaadora, 
apontando-a para algum no solo, viu o amigo cair, com uma expresso de incredulidade. Balanou a cabea e no viu a segunda pedra vir em sua direo, mas gritou 
de dor quando ela o atingiu. A lana rolou por terra enquanto ele segurava o brao machucado.
        Seis homens tinham estado a lutar com o que estava no cho, mas enfrentando enorme resistncia. A funda de Ayla derrubara dois, e a mulher que fora atacada 
estava batendo num terceiro, que levantava os braos para se defender. Outro, que se aproximara demais do homem que estavam tentando segurar, foi atingido por um 
golpe violento e cambaleou. Ayla tinha ainda duas pedras prontas para atirar. Disparou uma delas, apontada para uma perna, dando ao homem derrubado  o homem do 
Cl, como Ayla percebera  tempo para se recuperar. Embora ainda estivesse sentado, ele agarrou o homem que estava mais perto dele, levantou-o do cho e o atirou 
contra outro homem.
        A mulher do Cl renovou seu ataque encolerizado, finalmente afugentando o homem com que estava lutando. Embora no tivessem o hbito de brigar, as mulheres 
do Cl eram to fortes quanto os homens, em proporo a seu tamanho. E conquanto tivesse preferido ceder a lutar para se defender contra um homem que desejava us-la 
para aliviar suas necessidades, aquela mulher se dispusera a brigar para defender o companheiro ferido.
        No entanto, a nenhum dos rapazes restava disposio para a luta Um deles jazia inconsciente junto da perna do homem do Cl, com um ferimento na cabea, do 
qual escorria um fio de sangue que lhe empapava os cabelos louros sujos e se transformava num hematoma sem cor. Outro esfregava o brao, fitando a mulher que trazia 
a funda j preparada de novo. Os demais se achavam machucados e derrotados, um deles com o olho inchado. Os trs que haviam atacado a mulher estavam acovardados 
no cho, as roupas em frangalhos, com medo de um lobo que os vigiava com os dentes  mostra e um rosnado malvolo na garganta.
        Jondalar, que recebera seu quinho de golpes mas no parecia dar por isso, foi certificar-se de que Ayla estava ilesa, e depois olhou com ateno o homem 
no cho. Compreendeu, de repente, que se tratava de um homem do Cl. Entendera isso num timo, no momento em que chegaram ali, mas s agora se detinha na ideia. 
Por que o homem ainda estava no cho? Jondalar puxou o homem inconsciente para longe dele e rolou-o, colocando-o de barriga para cima. Respirava. E ento ele entendeu 
por que o homem do Cl no se punha de p.
        A razo tornou-se clara. Sua coxa direita estava dobrada num ngulo esquisito, pouco acima do joelho. Jondalar olhou para ele com espanto. Com uma perna 
quebrada, ele estivera resistindo a seis homens! Sabia que os cabeas-chatas eram fortes, mas no imaginara o quanto, nem como eram resolutos. O homem s podia estar 
sofrendo fortes dores, mas no o demonstrava.
        De repente, outro homem, que no participara da luta, apareceu. Olhou em torno, para o bando derrotado, e ergueu as sobrancelhas. Os rapazes pareceram contorcer-se 
de vergonha ante seu desdm. No sabiam explicar o que tinha acontecido. Num dado momento, estavam surrando e se divertindo com os dois cabeas-chatas que haviam 
tido a infelicidade de cruzar o caminho deles; no outro estavam  merc de uma mulher capaz de arremessar pedras, de um homenzarro de punhos duros como pedra e 
do mais gigantesco lobo que j tinham visto! Para no falar dos dois cabeas-chatas.
                O que aconteceu?  perguntou ele.
                Seus homens finalmente levaram uma boa sova  respondeu Ayla.  E logo vai chegar a sua vez.
        A mulher era inteiramente desconhecida. Como sabia que se tratava do bando dele, ou qualquer outra coisa com relao a eles? Falava a sua lngua, mas com 
um sotaque estranho. Quem seria? A mulher do Cl virou a cabea ao escutar a voz de Ayla, e a examinou com ateno, embora ningum o percebesse. O homem do hematoma 
na cabea estava acordando, e Ayla adiantou-se para examin-lo.
                Afaste-se dele  disse o homem, mas a fanfarronada era desmentida pelo medo que ela detectou em sua voz.
        Ayla fez uma pausa, avaliou o homem de alto a baixo e percebeu que ele dissera aquilo para se exibir aos subordinados, e no por que se importasse sinceramente 
com o homem ferido.
        Ayla continuou a examinar o rapaz machucado.
         Ele ter dores de cabea durante alguns dias, mas vai melhorar. Se eu tivesse desejado machuc-lo de verdade, seria diferente. Ele estaria morto, Charoli.
         Como sabe meu nome?  cuspinhou o homem, assustado, mas procurando disfarar. Como sabia aquela estranha quem ele era?
        Ayla deu de ombros.
         Sabemos mais do que seu nome  disse ela.
        Olhou na direo do homem e da mulher do Cl. Para a maioria dos presentes, pareciam impassveis, mas Ayla percebia-lhes o choque e a intranquilidade nas 
sutis mudanas de expresso e postura. Estavam vigiar com cuidado a gente dos Outros, tentando entender aquela estranha reviravolta.
        Por ora, pensou o homem, no corriam perigo de um novo ataque, mas aquele homem grande... Por que os teria ajudado? Ou teria ele alguma segunda inteno? 
Por que um homem dos Outros lutaria com homens de sua prpria espcie para ajud-los? E a mulher? Se realmente era uma mulher. Usava uma arma, que ele entendia, 
melhor do que a maioria dos homens que conhecia. Que tipo de mulher usava armas? Contra homens de sua prpria espcie? Mais inquietante ainda era o lobo, um animal 
que parecia estar ameaando aqueles homens que haviam machucado sua mulher... Sua mulher nova muito especial. Talvez o homem alto tivesse um Totem do Lobo, mas os 
totens eram espritos, e aquele lobo era real. Tudo quanto ele podia fazer era esperar. Aguentar a dor que sentia e esperar.
        Vendo que o homem do Cl lanara um olhar sutil a Lobo, e adivinhando-lhe os temores, Ayla resolveu acabar com todos os receios de uma vez por todas. Assoviou, 
um som claro e imperativo que se assemelhava ao produzido por uma ave, mas nenhuma ave que algum j tivesse ouvido. Todos a fitaram, apreensivos, mas como nada 
aconteceu imediatamente, relaxaram. Cedo demais. Antes que se passasse muito tempo, ouviram o som de cascos e logo dois cavalos dceis, uma gua e um corcel de um 
castanho invulgar, apareceram e se dirigiram diretamente para a mulher.
        Que esquisitice era aquela? Estaria ele morto, no mundo dos espritos?, cismou o homem do Cl.
        Os animais pareceram assustar os rapazes ainda mais que  gente do Cl. Embora o escondessem debaixo de uma capa de sarcasmo e de bravata, animando-se mutuamente 
a cometer atos cada vez mais ousados e degradantes, cada um deles levava dentro de si um n apertado de culpa e medo. Algum dia, tinham certeza, seriam descobertos 
e responsabilizados por seus crimes. Alguns chegavam at a desejar que isso acontecesse, para que tudo terminasse antes que a situao at piorasse, se j no era 
tarde demais.
        Danasi, aquele de quem haviam zombado porque tivera dificuldades para submeter a mulher, conversara sobre isso com alguns companheiros em quem podia confiar. 
As mulheres cabeas-chatas eram uma coisa, mas aquela moa, que nem era ainda mulher, que chorara e lutara. Com efeito, o ataque fora excitante no momento  as mulheres 
naquela fase eram sempre excitantes , mas depois ele sentira vergonha e medo da retribuio da Duna. O que Ela lhes faria?
        E agora, ali estava subitamente uma mulher, uma estranha, com um homem enorme e de cabelos claros  no se sabia que o amante d'Ela era maior e mais claro 
do que os outros homens?  E um lobo! E com cavalos que atendiam a seu chamado. Ela falava de maneira esquisita, devia ter vindo de muito longe, mas sabia a lngua 
deles. De onde ela viera havia lnguas? Seria uma dunai? Um esprito da Me em forma humana? Danasi estremeceu.
         O que quer conosco?  perguntou Charoli.  No estvamos a incomod-la. Apenas nos divertamos um pouco com esses cabea-chatas. O que h de errado em 
a gente se divertir com alguns animais?
        Jondalar notou que Ayla fazia fora para se controlar.
                E Madenia?  perguntou.  Tambm ela era um animal?
        Eles sabiam! Os rapazes se entreolharam e depois olharam para Charoli. O sotaque do homem no era o mesmo dela. Era um Zelandonii Se os Zelandonii sabiam, 
no poderiam esconder-se na terra deles se precisassem, fingindo fazer uma Jornada, como haviam planejado. Quem mais sabia? Havia algum lugar onde pudessem ocultar-se?
                Essas pessoas no so animais  disse Ayla, com uma raiva fria que fez Jondalar olhar para ela. Nunca a vira to irada, mas Ayla estava to controlada 
que ele no teve certeza de que os rapazes o percebiam. Se fossem animais, vocs tentariam for-los? Foram lobos? Foram cavalos? No, vocs esto  procura de 
uma mulher, e nenhuma mulher quer saber de vocs. Essas so as nicas que vocs conseguem encontrar. Mas essas pessoas no so animais.  Ayla olhou para o casal 
do Cl.  Vocs so os animais! Vocs so hienas! Farejando a carnia e cheirando a podrido, cheirando aos animais que so. Ferindo pessoas, violentando mulheres, 
roubando o que no lhes pertence. Vou lhes dizer uma coisa: se no voltarem agora, ho de perder tudo. Vocs no tm famlia, nem Caverna, nem amigos, jamais tero 
uma mulher em seu fogo. Vo passar a vida inteira como hienas, sempre a tirar o que  dos outros, tendo de roubar de sua prpria gente.
                Eles sabem disso tambm!  exclamou um dos homens.
         No diga nada!  gritou Charoli.  Eles no sabem, esto apenas dando palpites.
         Ns sabemos  respondeu Jondalar.  Todo mundo sabe.  No dominava a lngua, mas eles o compreendiam.
         Isso  o que voc diz, mas ns nem o conhecemos  disse Charoli.  Voc no  daqui, no  nem mesmo um Losadunai. Ns no vamos voltar. No precisamos 
de ningum. Temos a nossa prpria Caverna.
          por isso que precisam de roubar comida e forar mulheres?  perguntou Ayla.  Uma Caverna sem mulheres em seus fogos no  Caverna.
         Charoli procurou falar com naturalidade:
         No queremos ouvir bobagens. Pegamos o que quisermos e quando bem entendermos... comida, mulheres. Ningum nos deteve antes, e isso no vai acontecer agora. 
Vamos embora daqui  disse ele, virando-se.
         Charoli!  gritou Jondalar, alcanando-o com poucas passadas.
         O que quer?
         Tenho uma coisa a lhe dar  respondeu o homenzarro.
        A seguir, sem aviso, Jondalar cerrou o punho e desferiu um murro no rosto do rapaz, cuja cabea dobrou-se para trs, enquanto ele era erguido do cho pelo 
golpe atordoante.
                Isso  por Madenia!  disse Jondalar, olhando para o homem prostrado. Depois girou nos calcanhares e se afastou.
        Ayla olhou para o jovem meio inconsciente. Um fio de sangue lhe escorria do canto da boca, mas ela no fez meno de socorr-lo. Dois de seus amigos o ajudaram 
a erguer-se. Ela dirigiu ento a ateno ao bando de rapazes, examinando cada um deles individualmente. Estavam em condies lastimveis, com as roupas esfarrapadas 
e imundas. Seus rostos magros indicavam fome tambm. No era de admirar que tivessem roubado comida. Estavam necessitados de ajuda e de apoio da famlia e dos amigos 
de uma Caverna. Talvez a vida de vagabundagem com o bando de Charoli tivesse comeado a perder o encanto, e eles estivessem dispostos a voltar.
         Esto procurando vocs  disse ela.  Todos concordam que vocs foram longe demais. At Tomasi, que  parente de Charoli. Se voltarem s suas Cavernas 
e aceitarem o castigo, talvez tenham oportunidade de se reunir s suas famlias de novo. Se esperarem ser encontrados, talvez tenham pior sorte.
        Ser por isso que Ela est aqui? Teria Ela vindo para os avisar?, pensou Danasi. Antes que fosse tarde demais? Se voltassem antes de serem descobertos, e 
tentassem ser perdoados, suas Cavernas os aceitariam?
        Depois que o bando de Charoli se afastou, Ayla aproximou-se do casal do Cl. Tinham assistido com assombro  confrontao direta de Ayla e ao golpe de Jondalar 
que derrubara o homem. Os homens do Cl nunca batiam em outros homens do Cl, mas os homens dos Outros eram estranhos. Eram um pouco parecidos com homens, mas no 
agiam como se fossem, principalmente o homem que fora esmurrado. Todos os cls sabiam de sua existncia, e o homem no cho teve de admitir que sentira certa satisfao 
ao ver aquele ser prostrado. Ficara ainda mais feliz ao v-los ir embora.
        Agora desejava que os outros dois tambm partissem. Seus atos tinham sido de tal modo inesperados que ele ficara intranquilo. Tudo que queria era retornar 
a seu Cl, embora no soubesse como faz-lo com uma perna quebrada. O gesto seguinte de Ayla deixou tanto o homem como a mulher aturdidos. At mesmo Jondalar pde 
perceber-lhes a perplexidade. Graciosamente, ela se sentou de pernas cruzadas diante do homem e olhou para o cho com humildade.
        O prprio Jondalar se surpreendeu. Ela fizera aquilo com ele, de vez em quando, em geral quando tinha alguma coisa de importante a lhe dizer, e estava frustrada 
por no encontrar as palavras certas com que se apressar, mas aquela era a primeira vez que a via assumir tal posio em seu contexto apropriado. Era um gesto de 
respeito. Ela estava pedindo permisso para se dirigir a ele, mas o homem alto ficou atnito ao ver Ayla, sempre to independente e capaz, abordar aquele cabea-chata, 
aquele homem do Cl, com tamanha deferncia. Ela tentara explicar-lhe, de certa feita, que se tratava de um gesto de cortesia tradicional, da maneira como eles se 
comunicavam, e no necessariamente aviltante para quem o fazia, mas Jondalar sabia que nenhuma mulher Zelandonii, ou nenhuma outra mulher que ele conhecesse, jamais 
se dirigiria a algum, homem ou mulher, daquela maneira.
        Enquanto Ayla esperava, com pacincia, que o homem lhe batesse no ombro, sequer tinha certeza de que a linguagem gestual daquela gente fosse a mesma do Cl 
que a educara. A distncia entre eles era grande, e aquelas pessoas tinham um ar diferente. Mas ela observara semelhanas nas lnguas faladas, ainda que quanto mais 
separados vivessem os grupos, menos parecidas fossem as lnguas. Ela s podia esperar que a linguagem gestual daquelas pessoas tambm fosse parecida.
        No entender de Ayla, as linguagens gestuais das pessoas, como grande parte de seus conhecimentos e atividades, provinham de suas memrias. Das memrias rcicas, 
aparentadas ao instinto, com que cada criana nascia. Se aquelas pessoas do Cl vinham dos mesmos comeos antigos das que ela conhecera, a linguagem deveria ser 
ao menos parecida.
        Enquanto esperava, nervosa, comeou a imaginar se o homem tinha alguma ideia do que ela estava tentando fazer. A sentiu uma pancadinha no ombro e respirou 
fundo. Fazia muito tempo que no falava  gente do Cl, desde que fora amaldioada... Tinha de esquecer aquilo. No podia permitir que aquelas pessoas soubessem 
que ela estava morta no que dizia respeito ao Cl, pois nesse caso elas as deixariam de enxergar, como se no existisse. Levantou os olhos para o homem, e se estudaram.
        O homem no via nela nenhum sinal do Cl. Era uma mulher dos Outros. No parecia uma daquelas estranhamente deformadas por uma mistura de espritos, como 
muitas que nasciam naquela poca. Mas onde aquela mulher dos Outros aprendera a maneira correta de se dirigir a um homem?
        Ayla no via um rosto do Cl havia muitos anos, e aquele era um verdadeiro rosto clnico, mas diferente dos rostos das pessoas que conhecera. Os cabelos 
e a barba do homem eram de um castanho mais claro e pareciam macios e menos encaracolados. Tambm os olhos eram mais claros, castanhos, mas no eram como os olhos 
profundos, aquosos, quase negros da gente dela. Os traos dele eram mais fortes, mais acentuados. As sobrancelhas mais pesadas, o nariz mais afilado... A testa at 
parecia recuar de modo mais abrupto, a cabea era mais longa. De algum modo ele parecia pertencer mais ao Cl do que as pessoas do Cl dela.
        Ayla comeou a conversar com os gestos e as palavras da lngua cotidiana do Cl de Brun, a lngua do Cl que ela aprendera em criana. Ficou logo claro que 
ele no a compreendia. A seguir o homem produziu alguns sons. Tinham o tom e a qualidade da voz do Cl, um tanto gutural, com as vogais quase engolidas, e ela se 
esforou por entender.
        O homem estava com uma perna quebrada, e ela desejava ajuda-lo mas tambm queria saber mais sobre eles. De certa forma, Ayla se sentia mais  vontade na 
companhia deles do que na dos Outros. Mas para ajud-lo tinha de comunicar-se com ele, fazer com que a compreendesse O homem falou de novo e fez sinais. Ayla achou 
os gestos levemente familiares, mas no conseguiu entend-los. Seria a linguagem de se Cl to diferente que ela no conseguia comunicar-se com os cls daquela regio?
40
___________________________________________________________________________

        Ayla ps-se a imaginar de que maneira conseguiria fazer-se compreender pelo homem, ao mesmo tempo em que olhava para a mulher. Sentada perto dali, ela parecia 
nervosa e perturbada. Depois, lembrando-se da Reunio do Cl, tentou a linguagem antiga, formal e basicamente silenciosa, utilizada por uma pessoa para se dirigir 
ao mundo dos espritos e para se comunicar com cls que usavam uma linguagem cotidiana diferente.
        O homem sacudiu a cabea e fez um gesto. Ayla sentiu um profundo alvio ao constatar que ele a compreendia. Aquela gente provinha dos mesmos comeos que 
o Cl dela! Algum dia, no passado muito distante, aquele homem tivera os mesmos ancestrais de Creb e Iza. Ayla recordou-se de uma estranha viso e compreendeu que 
tambm ela partilhava de razes, ainda mais antigas, com ele, mas sua linhagem divergira, seguindo por um caminho diferente.
        Jondalar assistiu, fascinado, comearem a conversar por meio de sinais. Era difcil acompanhar os rpidos movimentos ondulantes que faziam, o que o fez perceber 
que a linguagem era muito mais complexa e sutil do que ele imaginara. Ao ensinar s pessoas do Acampamento do Leo parte da linguagem de sinais do Cl, para que 
Rydag pudesse comunicar-se com eles pela primeira vez em sua vida  a linguagem formal, mais fcil para os jovens , Ayla lhes mostrara apenas os rudimentos bsicos. 
O rapaz sempre gostara mais de conversar com ela do que com qualquer outra pessoa. Jondalar adivinhara que Rydag podia comunicar-se com ela mais plenamente, mas 
estava agora comeando a entender a amplitude e a profundidade da linguagem.
        Ayla surpreendeu-se quando o homem pulou algumas das formalidades de apresentao. No fixou nomes, lugares ou linhas de parentesco.
         Mulher dos Outros, este homem gostaria de saber onde aprendeu a falar.
         Quando esta mulher era menina, famlia e povo se perderam num terremoto. Esta mulher foi criada por um Cl  explicou ela.
         Este homem no conhece Cl algum que tenha tomado uma criana dos Outros  sinalizou o homem.
         O Cl desta mulher vive muito longe. O homem conhece o rio que os Outros chamam de da Grande Me?
             a fronteira  indicou ele, impaciente.
            O rio percorre uma distncia maior do que muita gente sabe, at um enorme mar, ao leste. O Cl desta mulher vive alm do fim do Rio da Grande Me  
mostrou Ayla.
    O homem pareceu no acreditar, e depois estudou-a. Sabia que, ao contrrio da gente do Cl, cuja linguagem inclua a compreenso de inconscientes movimentos 
e gestos corporais, o que tornava quase impossvel dizer uma coisa e pensar outra, as pessoas dos Outros, que falavam com sons, eram diferentes. Ele no podia ter 
absoluta certeza com relao a ela. No percebia sinais de dissimulao, mas sua histria parecia absurda.
            Esta mulher vem viajando desde o comeo da ltima estao quente  acrescentou Ayla.
    O homem mostrou-se impaciente de novo, e Ayla percebeu que ele sofria dores atrozes.
    O que a mulher quer? Os Outros j foram embora, por que a mulher no vai?  Ele sabia que ela, com certeza, lhe salvara a vida e ajudara sua companheira, o que 
significava que ele lhe devia uma obrigao. Isso os tornava quase parentes. O pensamento era inquietante.
    Esta mulher  Xam. Esta mulher quer examinar a perna do homem  explicou Ayla.
    O homem teve um gesto de desdm.
            A mulher no pode ser Xam. A mulher no  do Cl.
    Ayla no discutiu. Pensou por um momento e decidiu adotar outra atitude.
     Esta mulher quer falar com o homem dos Outros  pediu. O homem assentiu com a cabea. Ayla levantou-se e depois caminhou de costas, antes de virar-se e dirigir-se 
at onde estava Jondalar.
     Consegue comunicar-se bem com ele?  perguntou-lhe Jondalar.  Sei que voc est tentando, mas o Cl com quem voc viveu  de um local muito distante. Fico 
a imaginar se estar tendo sucesso.
     Comecei usando a linguagem cotidiana de meu Cl, mas no conseguimos nos entender. Eu deveria ter imaginado que os sinais e as palavras deles no seriam os 
mesmos, mas quando passei a utilizar a antiga linguagem formal, no tivemos dificuldade em nos comunicar  explicou Ayla.
     Estou entendendo bem? Voc est dizendo que o Cl pode comunicar-se de uma maneira compreensvel por todos eles? No importa onde vivam?  difcil acreditar 
nisso.
     Talvez seja  respondeu ela.  Mas os costumes antigos deles esto em suas memrias.
     Voc est dizendo que eles j nascem sabendo falar dessa maneira? Qualquer beb pode faz-lo?
     No  bem assim. Eles nascem com suas memrias, mas precisam ser "ensinados" a us-las. No sei ao certo como funciona, no tenho as memrias, mas parece que 
se trata mais de "recordar-lhes o que ja sabem. Em geral s  preciso recordar-lhes uma vez e pronto. Foi por isso que alguns deles acharam que eu no era muito 
inteligente. Eu aprendia devagar, at aprender, sozinha, a decorar depressa, e mesmo assim no era fcil. Rydag tinha as memrias, mas no havia ningum que lhe 
ensinasse... a recordar-se delas. Foi por isso que ele no conhecia a linguagem dos sinais, at eu chegar.
            Voc aprendendo devagar! Nunca vi algum aprender uma lngua to depressa  disse Jondalar.
    Ayla deu de ombros.
             diferente. Acho que os Outros tm memria para a linguagem com palavras, mas ns aprendemos a falar os sons das pessoas com quem convivemos. Para 
aprender uma lngua diferente, basta decorar outro conjunto de sons e s vezes outra maneira de junt-los  disse.  Mesmo que vocs no falem com perfeio, conseguem 
se fazer entender uns pelos outros. Para ns, a linguagem dele  mais difcil, mas o problema que estou tendo com ele no  de comunicao. O problema  a obrigao.
            Obrigao? No entendi  disse Jondalar.
            Ele est sofrendo uma dor fortssima, embora no demonstre. Eu quero ajud-lo e examinar sua perna. No sei como eles ho de retornar a seu Cl, mas 
podemos pensar nisso depois. Primeiro, tenho de tratar da perna dele. Ele j est em dvida conosco, e sabe que se compreendo sua lngua, compreendo a obrigao. 
Se ele acreditar que ns lhe salvamos a vida, passa ento a ter uma dvida de parentesco. Ele no quer dever ainda mais  disse Ayla, tentando explicar um relacionamento 
dos mais complexos com palavras simples.
     O que  uma dvida de parentesco?
      uma obrigao...  Ayla tentou imaginar uma maneira de explicar com clareza.  Isso em geral acontece entre caadores de um Cl. Se um homem salva a vida 
de outro, passa a "possuir" um pedao do esprito desse outro. O homem que teria morrido renuncia a um pedao para ser devolvido  existncia. Como um homem no 
deseja que nenhum pedao de seu esprito morra... para viver no mundo do alm antes que ele... se outro homem possui um pedao de seu esprito, ele far qualquer 
coisa a fim de salvar a vida de tal homem. Isto os torna parentes, mais prximos do que irmos.
     Faz sentido  concordou Jondalar, sacudindo a cabea.
     Quando os homens caam juntos  prosseguiu Ayla , tm de ajudar-se mutuamente, e muitas vezes um salva a vida do outro, de forma que um pedao do esprito 
de cada um deles em gera! pertence a cada um dos demais. Isso os torna parentes de uma maneira que transcende a famlia. Os caadores de um Cl podem ser aparentados, 
mas os laos de sangue no podem ser mais fortes que o vnculo que existe entre os caadores, pois no podem gostar mais de um companheiro do que de outro. Todos 
tm dvidas recprocas.
     Isso  muito sbio  disse Jondalar, pensativo.
     Chama-se dvida de parentesco. Este homem no conhece os costumes dos Outros, nem tem em grande conta o pouco que conhece.
            Depois de Charoli e seu bando, como censur-lo?
             muito mais do que isto, Jondalar. Mas ele no est satisfeito por ter uma dvida conosco.
            Ele lhe disse tudo isto?
            No, claro que no, mas a linguagem do Cl envolve mais do que sinais feitos com as mos. Implica tambm a maneira como a pessoa se senta ou fica em 
p, expresses faciais, pequenas coisas, porm tudo tem significado. Eu cresci com um cl. Essas coisas so tanto parte minha quanto dele. Eu sei o que o est incomodando. 
Se ele conseguisse me aceitar como uma Xam do Cl, seria til.
     Que diferena faria?  perguntou Jondalar.
     Significa que j possuo um pedao de seu esprito.
     Mas voc nem o conhece! Como pode possuir um pedao de seu esprito?
     Uma Xam salva vidas. Ela poderia reivindicar um pedao do esprito de cada pessoa que ela salvar, poderia ser "dona" de pedaos de todo mundo, em poucos anos. 
Por isso, quando ela se transforma em Xam, renuncia a um pedao de seu esprito em favor do Cl, e recebe uma parte de cada pessoa do Cl em troca. Assim, por mais 
pessoas que ela salvar, a dvida j est paga.  por isso que uma Xam tem uma condio social inerente  funo.  Ayla pensou um pouco, e disse:  Esta  a primeira 
vez em que estou feliz com o fato de os espritos do Cl no terem sido tomados de volta...  Fez uma pausa.
    Jondalar comeou a falar. Notou ento que ela fitava o vazio e compreendeu que ela olhava para dentro de si.
     ...quando fui amaldioada com a morte  continuou Ayla.  Tenho me preocupado com isso durante muito tempo. Depois que Iza morreu, Creb pegou de volta todos 
os pedaos de espritos, para que no a acompanhassem ao outro mundo. Mas quando Broud fez com que eu fosse amaldioada, ningum os tirou de mim, ainda que para 
o Cl eu esteja morta.
     O que aconteceria se eles soubessem disso?  indagou Jondalar, indicando com um leve movimento de cabea as duas pessoas do Cl, que os observavam.
     Eu deixaria de existir para eles. No me veriam. No permitiriam que eu os visse. Eu poderia colocar-me na frente deles e gritar, e ainda assim no me veriam. 
Julgar-me-iam um esprito mau que estivesse tentando atra-los para o outro mundo  disse Ayla, fechando os olhos e estremecendo.
     Mas por que voc disse que est feliz por ainda ter os pedaos de espritos?  perguntou Jondalar.
     Porque no posso dizer uma coisa e pensar outra. No posso mentir-lhe. Ele saberia. Mas posso abster-me de falar no assunto. Isso  permitido, por cortesia, 
por uma questo de privacidade. No tenho de dizer nada sobre a maldio, muito embora ele, provavelmente, percebesse que eu estava a omitir alguma coisa, mas posso 
dizer que sou uma Xam do Cl, porque isso  verdade. Ainda sou. Ainda possuo os pedaos de espritos.  Ayla franziu a testa, preocupada.  Mas algum dia vou realmente 
morrer, Jondalar. Se eu for para o outro mundo com os pedaos de espritos de todos no Cl, o que lhes acontecer?
            No sei, Ayla.
    Ela deu de ombros, afastando o pensamento.
            Bem, agora tenho de me preocupar com este mundo. Se ele me aceitar como uma Xam do Cl, ento no ter de preocupar-se em ter uma dvida para comigo. 
J  muito ruim para ele ter uma dvida de parentesco com uma pessoa dos Outros, mas pior ainda  ser com uma mulher, sobretudo uma mulher que usa armas.
            Mas voc caava quando vivia com o Cl  lembrou-lhe Jondalar.
            Isso foi uma exceo especial, e apenas porque sobrevivi a uma maldio de morte com durao de um ciclo lunar, por caar e usar uma funda. Brun o permitiu 
porque meu totem do Leo da Caverna me protegia. Considerou isso um teste, e acho que o fato finalmente lhe deu um
motivo para aceitar uma mulher com um totem to forte. Foi ele quem me deu o talism de caada e o nome de Mulher que Caa.
    Ayla tocou a sacolinha de couro que sempre usava em torno do pescoo e lembrou-se da primeira, a bolsinha simples que Iza fizera para ela. Na qualidade de sua 
me, Iza colocara em seu interior o pedao de ocre vermelho quando Ayla foi aceita pelo Cl. Aquele amuleto no se comparava, de modo algum, com a pea enfeitada 
que ela usava agora, e que lhe fora dada na cerimnia de adoo dos Mamuti, mas ainda continha seus smbolos especiais, entre eles aquele pedao de ocre vermelho. 
Estavam ali todos os sinais que seu totem lhe dera, assim como o oval manchado de vermelho, extrado da ponta de uma presa de mamute que era seu talism de caa, 
e a pedra negra, o fragmento de dixido de mangans que encerrava os pedaos de espritos do Cl. Recebera-o ao se tornar a Xam do Cl de Brun.
            Jondalar, acho que ajudaria se voc conversasse com ele. O homem est em dvida. Seus costumes so muito tradicionais, e aconteceram aqui coisas demasiado 
inusitadas. Se ele conversasse com um homem, mesmo que seja um homem dos Outros, e no com uma mulher, isso lhe tranquilizaria o esprito. Lembra-se do sinal para 
um homem saudar outro homem?
    Jondalar fez um movimento, e Ayla assentiu. Sabia que o gesto carecia de elegncia, mas o significado era claro.
            No tente saudar a mulher ainda. Seria de mau gosto, e ele poderia considerar isso um insulto. No  habitual ou correto que um homem converse com mulheres 
sem uma boa razo, sobretudo no caso de estranhos, e mesmo nesse caso voc precisaria da permisso dele. Se so parentes, h menos formalidades, e um amigo ntimo 
poderia at aliviar suas necessidades... dividir Prazeres... com ela, ainda que seja considerado corts pedir a permisso dele antes.
     Pedir permisso a ele, mas no a ela? Por que as mulheres permitem que sejam tratadas como se fossem menos importantes que os homens?
     Elas no encaram a situao assim. Sabem, no fundo, que mulheres e homens tm a mesma importncia, mas os homens e as mulheres do Cl so muito diferentes 
entre si  tentou explicar Ayla.
     Claro que so diferentes. Todos os homens e mulheres so diferentes. .. Para alegria deles.
     No me refiro apenas nesse aspecto. Voc pode fazer tudo de que uma mulher  capaz, Jondalar, exceto ter um filho, e embora voc seja mais forte, posso fazer 
quase tudo que voc. Mas os homens do Cl no podem fazer muitas coisas que as mulheres fazem, do mesmo modo que as mulheres no podem fazer as mesmas coisas que 
os homens. No tm as memrias para isso. Quando aprendi, sozinha, a caar, muitas pessoas ficaram mais surpresas com o fato de eu ter capacidade de aprender a fazer 
aquilo ou mesmo o desejo do que aborrecidas por eu ter contrariado as normas do Cl. Ficaram atnitas, como se voc de repente tivesse dado  luz um filho. Creio 
que as mulheres ficaram mais surpresas do que os homens. A ideia jamais ocorreria a uma mulher do Cl.
     Mas lembro que voc disse que as pessoas do Cl e os Outros so muito parecidos  disse Jondalar.
     E so. Mas, em certos aspectos, so mais diferentes do que voc conseguiria imaginar. Nem eu consigo, e fiz parte deles, durante certo tempo. Est pronto para 
falar com ele?
     Acho que sim  respondeu Jondalar.
    O homem alto e louro caminhou na direo do homem forte, que continuava sentado no cho, com a perna dobrada num ngulo estranho. Ayla o seguiu. Jondalar abaixou-se 
para sentar na frente dele, lanando um olhar a Ayla, que aprovou com a cabea.
    Ele nunca estivera to perto de um cabea-chata adulto, e o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi uma lembrana de Rydag. Olhar para aquele homem deixava ainda 
mais patente que o rapazinho no fazia parte inteiramente do Cl. Ao se recordar do estranho menino, inteligente e doentio, ele compreendeu que os traos de Rydag 
tinham sido bastante modificados em comparao com os daquele homem  abrandados foi a palavra em que pensou. O rosto do homem era grande, tanto comprido como largo, 
e de certa forma pontudo, pois terminava num nariz afilado e saliente. Sua barba de plos finos, que mostrava ter sido aparada havia pouco tempo, no escondia de 
todo sua falta de queixo.
    Os plos faciais misturavam-se a uma massa de densos cabelos macios, castanho-claros, que lhe cobriam a cabea comprida e enorme, cheia e arredondada atrs. 
Mas a pesada fronte do homem ocupava a maior parte da testa, sobretudo porque a linha dos cabelos comeava baixa. Jondalar teve de se conter para no levar a mo 
 sua prpria testa, alta. Entendeu por que eram chamados de cabeas-chatas. Era como se algum houvesse pegado uma cabea que tinha a mesma forma da sua, porm 
um pouco maior e feita de um material malevel como argila mida, e lhe dado uma nova forma, empurrando a testa para baixo e para trs.
    A fronte pesada do homem era acentuada por sobrancelhas hirsutas, e os olhos claros mostravam curiosidade, inteligncia e tambm dor. Jondalar compreendeu o 
motivo por que Ayla desejava ajud-lo.
    Sentiu um certo desajeitamento ao fazer o gesto de saudao, mas se tranquilizou com a expresso de surpresa no rosto do homem, que retribuiu o gesto. No soube 
ao certo o que fazer em seguida. Pensou no que ele prprio faria se estivesse se encontrando com um estranho de outra Caverna ou Acampamento, e tentou lembrar-se 
dos sinais que aprendera com Rydag.
    Sinalizou:
     Este homem se chama...  depois pronunciou seu nome e afiliao principal.  Jondalar dos Zelandonii.
    Os sons eram demasiado meldicos, com excesso de slabas, para que o homem do Cl compreendesse de uma vez s. Ele balanou a cabea, como se tentasse destapar 
os ouvidos. Inclinou a cabea, como se aquilo o ajudasse a escutar melhor, e depois bateu no peito de Jondalar.
    No era difcil entender o que ele pretendia transmitir, pensou Jondalar. Fez de novo os sinais de "Este homem se chama..." e depois disse seu nome, mas apenas 
o primeiro e mais devagar:
     Jondalar.
    O homem fechou os olhos, concentrando-se. Depois os abriu e, respirando fundo, falou em voz alta:
     Dyondar.
    Jondalar sorriu e assentiu. O nome fora pronunciado de modo meio desarticulado, com as vogais um tanto engolidas, mas era compreensvel. E estranhamente familiar. 
Ento lhe ocorreu! Claro! Ayla! As palavras dela ainda tinham aquela mesma articulao, embora menos forte. Estava nisso seu sotaque peculiar. No era de admirar 
que ningum o identificasse. Ela falava com um sotaque do Cl, e ningum sabia que fossem capazes de falar!
    Ayla surpreendeu-se ao ouvir o homem pronunciar o nome de Jondalar to bem. Duvidava que ela prpria o tivesse falado to bem da primeira vez que tentara, e 
ficou a imaginar se aquele homem j tivera contatos anteriores com os Outros. Se tivesse sido escolhido para representar seu povo ou fazer alguma forma de contato 
com os que eram chamados de Outros, isso seria uma indicao de alta estirpe. Maior motivo, pensou, para que ele se preocupasse em no criar laos de parentesco 
com Outros, sobretudo pessoas de posio social desconhecida. O homem no desejaria desvalorizar sua prpria posio, mas uma obrigao era uma obrigao, e, quisessem 
ou no, ele ou a companheira, admiti-lo, precisavam de ajuda. Ayla precisava de achar um meio de persuadi-lo de que ele e Jondalar eram Outros que compreendiam o 
significado da associao e eram dignos dela.
    O homem diante de Jondalar bateu no prprio peito e depois chegou-se para a frente ligeiramente.
     Guban  disse.
    Jondalar teve tanta dificuldade para repetir aquele nome quanto o homem enfrentara com "Jondalar". Mas foi generoso e aceitou a pronncia m de Jondalar, do 
mesmo modo que este aceitara a sua.
    Ayla sentiu-se aliviada. Uma troca de nomes no representava muita coisa, mas era um comeo. Olhou para a mulher, ainda surpresa por ver cabelos mais claros 
que os seus ou de qualquer mulher do Cl. A cabea da mulher era coberta por cachos macios, to claros que eram quase brancos, mas era jovem e muito atraente. Provavelmente
uma segunda mulher em seu fogo. Guban era um homem na flor da idade, e aquela mulher com toda certeza, pertencia a um cl diferente e representava uma aquisio 
das mais valiosas.
    A mulher olhou para Ayla e afastou o olhar, rapidamente. Por qu? pensou Ayla. Percebera preocupao e medo nos olhos da mulher  estudou-a de novo, mas com 
a mesma sutileza que a jovem do Cl usara. Havia um engrossamento na barriga? Sua roupa estava um pouco justa demais nos seios? Est grvida! No era de admirar 
que estivesse preocupada. Um homem cuja perna quebrada fosse malcuidada j no teria a mesma fora de antes. E embora aquele homem pudesse ser de elevada estirpe, 
sem dvida tinha tambm altas responsabilidades. Era imperioso, pensou Ayla, convencer Guban a permitir que ela o ajudasse.
    Os dois homens continuavam sentados um diante do outro. Jondalar no sabia o que fazer e Guban esperava para ver o que ele faria. Por fim, tomado de desespero, 
Jondalar voltou-se para ela.
     Essa mulher  Ayla  disse, usando sinais simples e depois pronunciando-lhe o nome.
    De incio Ayla julgou que ele houvesse cometido uma gafe social, mas ao ver a reao de Guban, decidiu que talvez no. Apresent-la to depressa era indicao 
da alta estima em que a tinha, apropriada para uma Xam. Depois,  medida que ele continuava, ficou a imaginar se Jondalar no teria lido seus pensamentos.
     Ayla  curandeira. Curandeira muito boa. Remdios bons. Quer ajudar Guban.
    Para o homem do Cl, os sinais de Jondalar mais lembravam o balbuciar de uma criancinha. No havia nuances em suas indicaes, nada de sombras sugestivas, graus 
de complexidade, mas a sinceridade era patente. J era surpresa descobrir um homem dos Outros capaz de falar corretamente. A maioria deles tagarelava, resmungava 
ou rosnava como animais. Eram como crianas, por usar sons em excesso: mas, afinal, os Outros no eram considerados muito inteligentes.
    A mulher, por outro lado, mostrava uma surpreendente profundidade de entendimento, com excelente apreenso de nuances. E uma clara e expressiva capacidade de 
falar. Com discrio e bom gosto, traduzira algumas das intenes mais sutis de Dyondar, facilitando a comunicao entre eles sem embaraar a ningum. Por mais difcil 
que fosse acreditar que fora criada por um cl e que viajara uma distncia to grande, expressava-se com tamanha facilidade que quase se podia acreditar que Pertencesse 
ao Cl.
    Guban jamais ouvira falar do Cl a que a mulher se referira, e conhecia muitos, mas a linguagem comum por ela utilizada era inteiramente desconhecida. At a 
linguagem do cl da sua cabelos-amarelos no era to estranha, mas aquela mulher dos Outros conhecia os antigos sinais sagrados e sabia us-los com muita habilidade 
e preciso. Coisa rara numa mulher. Havia a sensao de que ela talvez estivesse omitindo alguma coisa, mas ele no tinha certeza. Era, afinal, uma mulher dos Outros, 
e de qualquer maneira ele no poderia perguntar. As mulheres, sobretudo as Xams, gostavam de guardar algumas coisas para si.
    A dor causada pela perna quebrada latejou e ameaou escapar a seu controle, e ele teve de concentrar-se em suport-la.
    Mas, como poderia ela ser uma Xam? No pertencia ao Cl. No possua memrias para aquilo. Dyondar afirmava que era uma curandeira, e falava de sua habilidade 
com muita convico... E sua perna estava quebrada... Guban estremeceu interiormente, mas rilhou os dentes. Talvez ela fosse mesmo uma curandeira. Os Outros precisariam 
de curandeiros tambm, mas isso no a tornava uma Xam do Cl. A obrigao dele j era grande. Uma dvida de obrigao com aquele homem j seria ruim, mas para com 
uma mulher? E, alm de tudo, uma mulher que usava armas?
    No entanto, o que seria dele e de sua cabelos-amarelos sem a ajuda deles? Sua cabelos-amarelos... E j estava esperando um pequeno. Pensar nela fez com que ele 
amolecesse um pouco por dentro. Sentira uma raiva que nunca conhecera no passado quando aqueles homens saltaram sobre ela, ferindo-a, tentando tom-la. Fora por 
isso que ele saltara do alto da pedra. Levara muito tempo para chegar at l e no podia esperar o mesmo tempo para descer.
    Tinha visto pegadas de veado e subira na pedra para examinar a rea, para ver o que poderia caar, enquanto ela colhia cascas de rvores e fazia incises para 
juntar a seiva que em breve comearia a escorrer. Ela dissera que logo o tempo esquentaria, ainda que alguns dos demais no lhe tivessem dado crdito. Ainda era 
uma estranha, mas disse que tinha as memrias e que sabia. Ele desejara que ela o provasse para os demais, e por isso concordara em lev-la  caa, embora conhecesse 
os perigos... causados por aqueles homens.
    Mas fazia frio, e ele julgara que os evitariam mantendo-se prximos ao gelo. O topo da pedra parecera um bom lugar de onde inspecionar a rea. A dor agonizante 
que sentira ao cair com fora e quebrar a perna o deixara tonto, mas ele no podia sucumbir. Os homens estavam em cima dele, e era preciso lutar, com ou sem dor. 
Sentiu-se feliz ao lembrar como ela correra em sua direo. Ficara surpreso ao v-la bater naqueles homens. Nunca ouvira dizer que uma mulher procedesse assim, nem 
contaria aquilo a quem quer que fosse, mas ficara satisfeito ao ver que ela tentara denodadamente ajud-lo.
    Mudou de posio, controlando as agulhadas de dor. Mas o que menos o afligia era a dor. Havia muito aprendera a resistir  dor. Mais difceis de controlar eram 
outros medos. O que aconteceria se nunca mais ele pudesse caminhar? Uma perna ou um brao quebrados podiam levar muito tempo para sarar, e se os ossos se juntassem 
de maneira errada tortos, desalinhados... E se ele no pudesse mais caar?
    Se no pudesse caar, perderia prestgio. J no seria mais o chefe Prometera ao chefe do Cl de cabelos-amarelos que tomaria conta dela Ela fora uma favorita, 
mas o prestgio dele era alto, e ela quis acompanh-lo. Chegara mesmo a lhe dizer, na privacidade de suas peles de dormir que o desejara.
    Sua primeira mulher no ficara muito satisfeita ao v-lo chegar com uma segunda, jovem e bonita, mas ela era uma boa mulher do Cl. Cuidara bem de seu fogo e 
conservaria a condio de Primeira Mulher. Ele prometeu cuidar dela e das duas filhas. Ele no se importara com isso. Sempre desejara ter um filho homem, mas era 
delicioso ter as filhas de sua companheira em seu fogo, ainda que em breve houvessem de crescer e ir embora.
    Mas se ele no pudesse caar, no teria condies de cuidar de ningum. Tal como um ancio, seria ele que dependeria do resto do Cl. E sua bela cabelos-amarelos, 
que lhe poderia dar um filho homem, como haveria de cuidar dela? A moa no encontraria dificuldade para encontrar um homem que a quisesse, mas ele a perderia.
    No poderia sequer retornar ao Cl se no pudesse andar. Ela teria de ir pedir ajuda, e teriam de voltar ali para busc-lo. Se no conseguisse retornar por seus 
prprios meios, valeria menos aos olhos do Cl; porm muito pior seria se a perna quebrada o fizesse andar devagar, se ele perdesse a aptido para caar ou nunca 
mais pudesse faz-lo.
    Talvez eu deva conversar com essa curandeira dos Outros, pensou, ainda que seja uma mulher e use armas. Deve ser de alta linhagem, pois Dyondar a tem em elevada 
considerao, e tambm a posio dele deve ser magnfica, ou no teria como companheira uma Xam. Tanto quanto o homem, ela contribura para que aqueles homens fugissem... 
ela e o lobo. Por que um lobo os ajudaria? Ele a vira conversar com o animal. O sinal era simples e direto, ela lhe dissera que esperasse ali, junto da rvore perto 
dos cavalos, mas o lobo a compreendera e obedecera. Ainda estava ali,  espera.
    Guban desviou o olhar. Era difcil at mesmo pensar naqueles animais sem sentir um medo profundo de espritos. Que outra coisa atrairia para eles o lobo ou os 
cavalos? Que outra coisa faria com que animais se comportassem de maneira... to pouco animalesca?
    Percebia que sua cabelos-amarelos estava preocupada. Como censura-la? J que Dyondar julgara apropriado identificar sua mulher, talvez ele devesse mencionar 
a sua. No queria que pensassem que a posio social que ela ganhara ao t-lo como companheiro fosse menor que a de Dyondar. Guban fez um gesto muito sutil para 
a mulher, que a tudo vira e observara, mas que, como uma boa mulher do Cl, procurara no chamar a ateno.
            Essa mulher ...  sinalizou. Depois bateu no ombro dela e disse:  Yorga.
    Jondalar teve a impresso de duas andorinhas separadas por um erre rolado. Sequer poderia comear a reproduzir o som. Ayla percebeu sua dificuldade e pensou 
numa maneira de resolver gentilmente a situao. Repetiu o nome da mulher de uma maneira que Jondalar pudesse repetido, mas se dirigiu a ela como mulher.
            Yorga  sinalizou , esta mulher a sada. Esta mulher se chama...  e muito devagar e com cuidado, disse:  Ayla.  A seguir, usando tanto palavras 
como sinais, de modo que Jondalar a entendesse:  O        homem chamado Dyondar deseja tambm saudar a mulher de Guban.
    No seria assim que se procederia no Cl, pensou Guban, mas afinal essas pessoas eram dos Outros, e o procedimento deles no era ofensivo. Teve curiosidade de 
ver o que faria Yorga.
    Ela dirigiu o olhar na direo de Jondalar, muito rapidamente, e depois voltou a olhar para o cho. Guban mudou de posio o suficiente para ela perceber que 
ele estava satisfeito. Ela acusara a existncia de Dyondar, mas nada mais que isso.
    Jondalar foi menos sutil. Jamais estivera to perto de pessoas do Cl... e estava fascinado. Seu olhar durou muito mais tempo. Os traos dela eram semelhantes 
aos de Guban, com modificaes femininas, e ele observara antes que era robusta, mas baixa, da altura de uma menina Estava longe de ser bonita, pelo menos em sua 
opinio. S tinha de bonitos os cabelos macios e cacheados, mas ele entendia por que Guban a julgaria atraente. De repente, notando que Guban o observava, ele fez 
um gesto de cabea e desviou o olhar. O homem do Cl estava furioso. Ele tinha de tomar cuidado.
    A Guban no agradara a ateno que Jondalar dedicara  sua mulher, mas entendeu que no havia em sua maneira falta de respeito voluntria, e a cada momento tornava-se 
mais difcil controlar a dor. Precisava saber mais a respeito daquela curandeira.
            Eu gostaria de falar  sua... curandeira, Dyondar  sinalizou Guban.
    Jondalar entendeu o sentido da comunicao e assentiu. Ayla, que estivera prestando ateno, adiantou-se depressa e sentou-se na posio de respeito diante do 
homem.
            Dyondar disse que a mulher  curandeira. A mulher diz ser uma Xam. Guban gostaria de saber como uma mulher dos Outros pode ser uma Xam do Cl.
    Ayla falava enquanto fazia os sinais, de modo que Jondalar pudesse atender exatamente o que ela estava dizendo a Guban.
     A mulher que me aceitou, que me educou, era uma Xam da maior linhagem. Iza vinha da mais antiga estirpe de Xams. Iza foi como me para esta mulher, treinou 
esta mulher junto com a filha nascida na linhagem  explicou. Percebia que ele estava ctico, mas interessado em ouvir mais.  Iza sabia que esta mulher no possua 
as memrias, como sua verdadeira filha as tinha.
    Guban assentiu. Claro que no.
            Iza fez esta mulher recordar-se, fez esta mulher repetir a Iza muitas vezes, mostrar muitas vezes, at que a Xam teve certeza de que esta mulher no 
perderia as memrias. Esta mulher gostava de praticar, de repetir muitas vezes para aprender os conhecimentos de uma Xam.
    Embora seus gestos continuassem estilizados e formais, as palavras se tornaram mais descontradas  medida em que ela continuava a exposio.
            Iza me disse que achava que esta mulher vinha de uma longa linhagem de Xams tambm, Xams dos Outros. Iza disse que eu pensava como uma Xam, mas me 
ensinou a pensar o xamanismo como uma mulher do Cl. Esta mulher no nasceu com as memrias de uma Xam, mas as memrias de Iza agora so minhas.
    Todos ouviam sua narrativa, fascinados.
            Iza adoeceu, uma doena de tosse que nem ela era capaz de curar, e eu comecei a fazer mais coisas. At o chefe ficou satisfeito quando tratei de uma 
queimadura, porm Iza dava prestgio ao Cl. Mais tarde ela piorou demais, ficando incapacitada de viajar para uma Reunio do Cl, e sua filha verdadeira ainda era 
jovem demais. O chefe e o Mog-ur resolveram ento transformar-me em Xam. Disseram que, como eu tinha as memrias de Iza, era uma Xam de sua linhagem. No comeo 
os outros mog-urs e chefes, presentes na Reunio, no gostaram da ideia, mas por fim tambm me aceitaram.
    Ayla percebia que Guban estava interessado e que desejava acreditar nela, mas ainda nutria dvidas. Tirou a sacola enfeitada que trazia ao pescoo, desfez os 
ns e ps parte de seu contedo na palma da mo. Pegou uma pedrinha preta e estendeu-a para ele.
    Guban sabia do que se tratava. Mesmo um fragmento mnimo daquela pedra era capaz de conter os espritos de toda as pessoas do Cl, e era dada a uma Xam quando 
um pedao de seu esprito era tomado. O amuleto que ela usava era estranho, pensou ele, bem caracterstico do modo como os Outros faziam as coisas, mas at ento 
ele nem sabia que usavam amuletos. Talvez os Outros no fossem to ignorantes e embrutecidos.
    Guban apontou para outro objeto.
            O que  isso?
    Ayla reps os objetos restantes no amuleto.
             meu talism de caa  respondeu.
    Aquilo no podia ser verdade, pensou Guban. Isso comprovava que eia mentia.
            As mulheres do Cl no caam.
            Sei disso, mas eu no nasci no Cl. Fui escolhida por um totem do Cl, que me protegeu e me conduziu ao Cl que se tornou o meu, e meu totem queria 
que eu caasse. Nosso mog-ur encontrou os espritos antigos, que lhe falaram. Fizeram uma cerimnia especial. Passei a ser chamada de Mulher que Caa.
            Qual foi esse totem que a escolheu?
    Para surpresa de Guban, Ayla levantou a tnica, soltou os cordis em torno da cintura da pea de baixo e a baixou o suficiente para exibir a coxa esquerda. Apareciam 
ali, claramente, quatro linhas paralelas, as cicatrizes deixadas pelas garras que lhe haviam marcado a coxa quando ainda menina.
            Meu totem  o Leo da Caverna.
    A mulher do Cl prendeu a respirao. O totem era demasiado forte para uma mulher. Seria difcil ela ter filhos.
    Guban resmungou alguma coisa. O Leo da Caverna era o mais forte dos totens de caa, um totem masculino. Nunca soubera que uma mulher o tivesse, mas no entanto 
aquelas eram as marcas feitas na coxa direita de um menino que o tivesse como totem. Eram gravadas depois que ele abatia uma presa importante e se tornava homem.
            Est na perna esquerda. A marca  feita na perna direita de um homem.
     Eu sou mulher, no homem. O lado da mulher  o esquerdo.
     O mog-ur marcou voc a?
     Quem me marcou foi o prprio Leo da Caverna, quando eu era menina, pouco antes que meu Cl me achasse.
     Isso explica o uso de armas  sinalizou Guban.  Mas e filhos? Esse homem com cabelos da cor dos de Yorga tem um totem suficientemente forte para vencer o 
seu?
    Jondalar se perturbou. Ele prprio j pensara na questo.
            O Leo da Caverna tambm o escolheu, e deixou sua marca. Sei disso porque o Mog-ur me disse que o Leo da Caverna me escolheu e ps as marcas em minha 
perna para demonstr-lo, do mesmo modo que o Urso da Caverna o havia escolhido, e tirou seu olho...
    Guban ergueu o corpo, visivelmente abalado. Deixou de lado a linguagem formal, porm Ayla o compreendeu.
            Mogor Um-Olho! Voc conhece Mogor Um-Olho?
     Eu morei em seu fogo. Ele me criou. Ele e Iza eram irmos de sangue, e depois que o companheiro dela morreu, ele recebeu a ela e aos filhos em seu fogo. Na 
Reunio do Cl ele era chamado de Mog-ur, mas Para os que viviam em seu fogo, era apenas Creb.
     At mesmo em nossas Reunies fala-se de Mogor Um-Olho e de sua poderosa...  Guban ia dizer alguma coisa, mas calou-se. Os homens no deviam falar a respeito 
das cerimnias masculinas esotricas perto de mulheres. Se ela fora ensinada por Mogor Um-Olho, isso explicava tambm sua habilidade com os sinais antigos. E Guban 
realmente se lembrava de que o grande Mogor Um-Olho tinha uma irm que era uma respeitada Xam de linhagem antiga. De repente, foi como se Guban relaxasse, e ele 
permitiu que uma fugaz expresso de dor lhe toldasse o rosto. Respirou fundo e depois olhou para Ayla, que estava sentada de pernas cruzadas, de olhos baixos, na 
posio apropriada a uma mulher do Cl. Ele bateu em seu ombro.
            Respeitada Xam, este homem tem um... pequeno problema  sinalizou Guban na antiga linguagem silenciosa do Cl do Urso da Caverna.  Este homem gostaria 
de pedir  Xam que examine a perna A perna pode estar quebrada.
    Ayla fechou os olhos e soltou a respirao. Conseguira convenc-lo e ele lhe permitia tratar de sua perna. Fez um sinal para Yorga, instruindo-a a preparar um 
lugar onde ele pudesse dormir. O osso fraturado no rompera a pele, e Ayla achou que havia boas possibilidades de ele poder voltar a us-lo perfeitamente. Entretanto, 
para que isso acontecesse, seria preciso endireitar a perna, rep-la no lugar e, depois, fazer uma forma de casca de btula, de modo que ele no pudesse mov-la.
            Juntar os ossos vai doer muito, mas tenho uma coisa que far a perna relaxar. Depois ele vai dormir.  Ayla voltou-se para Jondalar:  Pode transferir 
nosso acampamento para c? Sei que  trabalhoso, por causa de todas aquelas pedras de queimar, mas eu quero armar a tenda para ele. Os dois no tencionavam voltar 
para casa de noite, e ele precisa ser tirado do frio, principalmente quando eu lhe der uma coisa para dormir. Vamos precisar tambm de um pouco de lenha. No quero 
usar as pedras de queimar e vamos precisar de cortar umas lascas. Vou apanhar casca de btula quando Guban dormir, e talvez eu possa fazer-lhe umas muletas. Mais 
tarde ele vai querer se movimentar.
    Jondalar deixou que ela assumisse o comando e sorriu. Achava muito ruim aquela demora e at mesmo um dia parecia tempo excessivo, mas tambm queria ajudar. De 
qualquer maneira, Ayla no iria embora agora. S podia esperar que no perdessem tempo demais.
    Jondalar levou os cavalos para o primeiro acampamento, rearrumou as coisas, voltou para onde estavam e descarregou tudo de novo. Depois conduziu Huiin e Racer 
at uma clareira onde os animais poderiam encontrar capim seco. Havia ali um pouco de feno ainda de p, porm muito mais enterrado debaixo de neve antiga. A clareira 
ficava a certa distncia do novo local do acampamento, de modo que os cavalos incomodariam menos a gente do Cl. Eles pareciam julgar que os animais domesticados 
fossem mais uma manifestao do estranho comportamento dos Outros, porm Ayla notou que tanto Guban como Yorga se mostraram um tanto aliviados com os animais fora 
da vista. Ficou satisfeita por Jondalar ter pensado nisso.
    Assim que ele voltou, Ayla tirou a bolsa de remdios de unia cesta. Apesar de ter resolvido aceitar a ajuda dela, na qualidade de Xam, Guban ficou aliviado 
ao ver sua antiga bolsa de remdios de pele de lontra, funcional e sem enfeites, ao estilo do Cl. Ela fez questo de manter Lobo tambm afastado dali. Estranhamente, 
o animal, embora em geral mostrasse curiosidade pelos amigos de Ayla e Jondalar, no procurou aproximar-se da gente do Cl. Pareceu satisfeito por se manter a distncia, 
vigilante mas no ameaador, e Ayla ficou a imaginar se ele percebia a inquietude que causava.
    Jondalar ajudou Yorga e Ayla a levar Guban para a tenda. O peso do homem era surpreendente, mas afinal se tratava de um caador musculoso, que fora capaz de 
resistir a seis homens de uma vez s. Jondalar percebeu tambm que ele estava sentindo dores lancinantes, embora seu rosto impassvel no o demonstrasse. A recusa 
do homem em admitir a dor fez Jondalar imaginar se ele a sentia verdadeiramente, at Ayla lhe explicar que o estoicismo era uma virtude que os homens do Cl praticavam 
desde a meninice. Aumentou ento o respeito de Jondalar pelo homem. Sua raa nada tinha de fraca.
    Tambm a mulher era espantosamente forte. Era menor que o companheiro, mas no muito. Podia erguer tanto peso quanto Jondalar, quando se dispunha a fazer fora; 
no entanto, ele a vira usar as mos com muita preciso e controle. Era com espanto que ele descobria tanto semelhanas como diferenas entre a gente do Cl e a de 
sua prpria espcie. No poderia precisar com exatido quando foi que aconteceu, mas em dado momento ele se deu conta de que j no questionava, em absoluto, o fato 
de que eram humanos. Eram decerto diferentes, mas com toda segurana eram humanos, e no animais.
    Ayla acabou tendo de usar algumas pedras de queimar para gerar uma temperatura mais alta, a fim de preparar a tisana mais depressa, pondo pedras de queimar quentes 
diretamente na gua, para faz-la ferver. No entanto, Guban resistiu em beber a quantidade que ela julgava necessria, alegando que no gostava da ideia de ter de 
esperar demais para que os efeitos passassem, mas ela ficou a pensar que parte do problema decorria do fato de ele duvidar que ela fosse capaz de preparar a beberagem 
corretamente. Com ajuda de Yorga e Jondalar, ela reduziu a fratura e fez uma tala forte. Quando tudo terminou, Guban finalmente adormeceu.
    Yorga insistiu em preparar a refeio, embora o interesse de Jondalar pelos processos e pelos paladares a embaraasse. De noite,  beira do fogo, ele comeou 
a fazer um par de muletas para Guban, enquanto Ayla conversava com Yorga e lhe explicava como preparar remdios para dores Descreveu o uso das muletas e falou da 
necessidade de almofadas sob os braos. Yorga surpreendia-se a cada instante com o conhecimento que Ayla tinha do Cl, mas j notara antes seu sotaque "clnico". 
Por fim, falou sobre si mesma a Ayla, que traduziu seu relato para Jondalar.
    Yorga desejara colher cascas de rvore e seivas. Guban a acompanhara para proteg-la, porque eram tantas mulheres que tinham sido atacadas pelo bando de Charoli 
que j no tinham permisso de sair sozinhas, o que acarretava problemas para o Cl. Os homens dispunham de menos tempo para caar, j que eram obrigados a acompanhar 
as mulheres. Fora por isso que Guban resolvera escalar o rochedo, a fim de procurar animais que pudesse caar enquanto Yorga colhia as cascas que desejava. Provavelmente 
os homens de Charoli pensaram que ela estivesse sozinha Talvez no a atacassem se tivessem visto Guban, mas quando ele os viu atacarem-na, saltou do alto da rocha 
para defend-la.
     O que me surpreende  que s tenha quebrado uma perna  comentou Jondalar, olhando para o alto.
     Os ossos da gente do Cl so muito fortes  disse Ayla.  E grossos. No quebram com facilidade.
     Aqueles homens no precisavam me maltratar tanto  disse Yorga, com sinais.  Eu teria ficado na posio se eles fizessem o sinal e se eu no tivesse escutado 
o grito de Guban. Foi ento que percebi que acontecera um acidente.
    Yorga prosseguiu a narrativa. Vrios homens tinham saltado sobre Guban, enquanto trs outros tentavam for-la. Quando ele gritou de dor ela percebeu que acontecera 
alguma coisa e tentou fugir dos homens. Foi a que os outros dois a seguraram. De repente, porm, Jondalar estava ali, batendo nos homens dos Outros, enquanto o 
lobo saltava contra eles e os mordia.
    Yorga olhou para Ayla, com ar trocista.
            Seu homem  muito alto e o nariz dele  pequeno demais, mas quando o vi ali, lutando com os outros homens, esta mulher seria capaz de consider-lo uma 
criana.
    Ayla pareceu no entender, mas depois sorriu.
            No entendi direito o que ela disse ou quis dizer  comentou Jondalar.
            Ela fez uma brincadeira.
     Uma brincadeira?  admirou-se ele.  No pensei que fossem capazes de brincadeiras.
     O que ela falou, mais ou menos,  que embora voc seja feio, quando comeou a defend-la, ela teve vontade de beij-lo  disse Ayla, e explicou para Yorga.
    A mulher ficou um pouco sem graa, mas olhou para Jondalar e depois para Ayla.
     Sou grata a seu homem alto. Quem sabe... Se o filho que tenho na barriga for homem e se Guban me permitir sugerir um nome, eu direi a ele que Dyondar no  
um nome ruim.
     Isso no foi brincadeira... Ou foi, Ayla?  disse Jondalar, surpreso.
     No, no creio que tenha sido, mas ela s pode sugerir. E seria um nome inadequado para um menino do Cl, porque  muito esquisito. Mas  possvel que Guban 
concorde. Ele  excepcionalmente aberto a novas ideias, para um homem do Cl. Yorga me contou como se uniram Acho que eles se apaixonaram, o que  muito raro. Em 
geral as unies so planejadas e arrumadas.
     Por que acha que eles se apaixonaram?  perguntou Jondalar. Estava interessado em ouvir uma histria de amor do Cl.
     Yorga  a segunda mulher de Guban. O Cl dela vive muito longe daqui, mas ele viajou at l para dar a notcia de uma grande Reunio do Cl e falar sobre ns, 
os Outros. Por exemplo, sobre o fato de Charoli estar molestando suas mulheres... Eu comentei com ela sobre os planos dos Losadunai de acabar com isso... mas se 
entendi direito, um grupo dos Outros procurou alguns cls para propor comrcio.
     Isso  surpreendente!
      mesmo. O maior problema  de comunicao, mas os homens do Cl, inclusive Guban, no confiam nos Outros. Enquanto Guban visitava o Cl distante, viu Yorga 
e ela o viu. Guban a quis, mas o motivo que ele deu foi o de estabelecer vnculos mais estreitos com alguns dos cls distantes, de modo que pudessem trocar notcias, 
principalmente sobre todas essas novas ideias. E ele a trouxe consigo! Os homens do Cl no procedem assim. A maioria deles teria comunicado sua inteno ao chefe, 
regressado e debatido o assunto com seu prprio Cl. Daria  sua primeira mulher tempo para se habituar  ideia de partilhar seu fogo com outra  disse Ayla.
     A primeira mulher em seu fogo no sabia? Homem corajoso, esse.
            A primeira mulher dele tem duas filhas, e ele quer uma mulher que faa um filho homem. Os homens do Cl atribuem alto valor aos filhos homens de suas 
companheiras, e  claro que Yorga espera que o filho que ela est gerando seja o menino que ele deseja. Teve certa dificuldade para se acostumar ao novo Cl... demoraram 
a aceit-la... e se a perna de Guban no sarar direito e ele baixar na escala social, ela tem medo de que ele a culpe.
            No admira que estivesse to perturbada.
    Ayla absteve-se de dizer a Jondalar que contara a Yorga que estava a caminho da terra de seu homem, que tambm ela se apartara de sua prpria gente. No via 
motivos para aumentar-lhe ainda mais as preocupaes, mas tambm ela temia o modo como a gente dele a receberia.
    Tanto Ayla como Yorga gostariam de poder visitar-se e dividir seus conhecimentos. Julgavam-se quase parentes, j que havia, provavelmente, uma dvida de parentesco 
entre Guban e Jondalar, e Yorga se sentia mais ligada a Ayla, apesar de se conhecerem havia muito pouco tempo, do que se sentia a todas as outras mulheres que conhecera. 
Mas a gente do Cl e a dos Outros no se visitavam.
    Guban acordou no meio da noite, mas ainda meio inconsciente. De manh estava alerta, mas a reao s tenses da vspera o deixara exausto. Quando Jondalar olhou 
para dentro da tenda, de tarde, Guban surpreendeu-se com a satisfao que sentiu ao ver o homem alto, mas no soube o que fazer com as muletas que ele lhe estendia.
            Eu usei a mesma coisa depois que o leo me atacou  explicou Jondalar.  Ajuda a andar.
    Guban ficou interessantssimo e quis experimentar as muletas, mas Ayla no o permitiu. Era cedo demais. Por fim, Guban aquiesceu, mas s depois de anunciar que 
as experimentaria no dia seguinte. De noite, Yorga foi dizer a Ayla que Guban queria conversar com Jondalar sobre assuntos muito importantes e que pedia a ajuda 
dela como tradutora. Ayla pressentiu que era coisa sria, imaginou do que se tratava e conversou com Jondalar de antemo, para que pudesse ajud-lo a compreender 
as possveis dificuldades.
    Guban ainda estava preocupado com vir a ter para com Ayla uma dvida de parentesco, alm da aceitvel troca de espritos de uma Xam, j que ela lhe salvara 
a vida usando uma arma.
            Precisamos convenc-lo de que a dvida  com voc, Jondalar. Se voc lhe disser que  meu companheiro, pode dizer-lhe que, corno  responsvel por mim, 
qualquer dvida de que eu for credora na verdade  devida a voc.
    Jondalar concordou e, depois de algumas formalidades introdutrias, comearam a discusso mais sria.
            Ayla  minha companheira, ela me pertence  disse, enquanto Ayla traduzia, usando toda a amplitude de inflexes. A seguir, para surpresa dela, Jondalar 
acrescentou:  Tambm eu tenho uma obrigao que pesa em meu esprito. Tenho uma dvida de parentesco com o Cl.
    Guban ficou curioso.
            Essa dvida tem pesado muito em meu esprito porque nunca soube como sald-la.
            Fale sobre isso  sinalizou Guban.  Talvez eu possa ajudar.
            Fui atacado por um leo de caverna, como contou Ayla. Marcado, escolhido pelo Leo da Caverna, que  agora meu totem. Foi Ayla quem me encontrou. Eu 
estava perto da morte, e meu irmo, que me acompanhava, j vagava pelo mundo dos espritos.
            Sinto muito.  duro perder um irmo.
    Jondalar apenas assentiu.
            Se Ayla no me houvesse encontrado, tambm eu estaria morto, mas quando Ayla era criana e estava prxima da morte, o Cl a adotou e a criou. Se Ayla 
no houvesse sobrevivido e uma mulher do Cl no lhe houvesse ensinado a curar, eu no estaria vivo. Estaria agora vagando pelo outro mundo. Devo minha vida ao Cl, 
mas no sei como pagar essa dvida... nem a quem.
    Guban sacudiu a cabea, pensativo. Era um problema srio, uma dvida grande.
            Gostaria de fazer uma proposta a Guban  continou Jondalar.  Como Guban tem comigo uma dvida de parentesco, peo-lhe que aceite a minha dvida ao 
Cl em troca.
    O homem do Cl considerou o pedido com gravidade, mas ficara satisfeito. Trocar uma dvida de parentesco era muito mais aceitvel do que simplesmente dever a 
vida a um homem dos Outros e lhe dar um pedao de seu esprito. Por fim, anuiu.
            Guban vai aceitar a troca  respondeu, com muito alvio.
    Guban pegou seu amuleto, preso ao pescoo, e o abriu. Ps o contedo na mo e apanhou um dos objetos, um dente, um dos primeiros molares dele prprio. Embora 
no tivessem cries, seus dentes estavam desgastados de uma maneira muito especial, pois ele os utilizava como ferramenta. O dente em sua mo estava desgastado tambm, 
tanto quanto os permanentes.
            Por favor, aceite isso como sinal de parentesco  disse.
    Jondalar ficou embaraado. No imaginara que haveria uma troca de objetos pessoais, para assinalar a liquidao das dvidas, e no sabia o que dar ao homem do 
Cl. Viajavam com pouqussimas coisas, e ele no tinha quase nada a oferecer. De repente, teve uma ideia.
    Tirou uma bolsa de uma ala do cinturo e despejou o contedo na mo. Havia ali vrias garras e dois dentes caninos de um urso caverncola, o urso que ele matara 
no vero anterior, pouco depois de terem comeado a longa Jornada. Estendeu ao homem um dos dentes.
            Por favor, aceite isso como sinal de parentesco.
    Guban conteve a ansiedade. Um dente de urso caverncola era um smbolo poderoso, apropriado a pessoas de alta estirpe, e a oferta de um deles representava honra 
elevada. Agradava-lhe pensar que aquele homem dos Outros houvesse reconhecido sua posio. Causaria boa impresso quando ele contasse aos demais sobre aquela troca. 
Aceitou o presente e fechou-o na mo, que apertou com fora.
            Muito bem!  disse, como se completasse uma transao. A seguir, fez um pedido:  J que agora somos parentes, talvez devssemos conhecer a localizao 
do Cl um do outro e o territrio que ocupam.
    Jondalar descreveu a localizao genrica de sua terra. A maior parte do territrio do outro lado da geleira era Zelandonii ou assemelhado, e depois descreveu 
especificamente a Nona Caverna dos Zelandonii. Guban descreveu sua rea, e Ayla teve a impresso de que no eram to distantes uma da outra como ela supusera de 
incio.
    O nome de Charoli veio  baila mais tarde. Jondalar falou dos problemas que o rapaz vinha criando para todos e explicou com alguns detalhes o que estavam planejando 
para solucionar aquele problema. Guban considerou a informao importante para os outros cls, e ficou a pensar que talvez a perna quebrada acabasse lhe rendendo 
vantagens excepcionais.
    Guban teria muito o que contar a seu Cl. No somente que at os Outros tinham problemas com o homem e que tencionavam tomar providncias, mas tambm alguns 
dos Outros estavam dispostos a lutar com sua prpria espcie para ajudar a gente do Cl. Havia at mesmo alguns que falavam adequadamente! Uma mulher que sabia comunicar-se 
muito bem, e um homem de capacidade limitada mas til, uma capacidade de certa forma ainda mais valiosa, j que se tratava de um homem e, agora, parente seu. Tais 
contatos com os Outros, bem como as informaes e os dados a respeito deles, poderiam render-lhe ainda mais prestgio, sobretudo se ele voltasse a poder usar bem 
a perna.
    De noite, Ayla aplicou a forma de casca de btula. Guban foi deitar-se com excelente disposio. E sua perna quase no o incomodava.
    Ayla acordou na manh seguinte sentindo enorme inquietao. Tivera outro sonho, muito claro, no qual apareciam cavernas e Creb. Falou sobre ele a Jondalar. Depois 
conversaram sobre o que fariam para devolver Guban  sua gente. Jondalar sugeriu que usassem os cavalos mas estava aflito com a perda de tempo. Ayla achou que Guban 
jamais consentiria. Os cavalos domesticados o perturbavam.
    Quando se levantaram, ajudaram Guban a sair da tenda, e enquanto Ayla e Yorga preparavam uma refeio matinal, Jondalar demonstrou o uso das muletas. Guban insistiu 
em experiment-las, apesar das objees de Ayla, e depois de algum treino, ficou surpreso ao ver como eram eficazes. Podia caminhar sem depositar peso algum sobre 
a perna.
     Yorga, prepare-se para partirmos  disse ele, depois de pr as muletas de lado.  Depois da refeio, iremos embora. Chegou a hora de voltarmos ao Cl.
     Ainda  cedo  respondeu Ayla, usando tambm os gestos do Cl.  Precisa descansar sua perna, pois de outra forma ela no ficar bem curada.
     Minha perna h de descansar enquanto eu andar com isso.  Guban apontou para as muletas.
     Se precisam ir agora, pode montar em um dos cavalos  ofereceu Jondalar.
    Guban sobressaltou-se.
            No! Guban caminha com as prprias pernas. Com a ajuda desses paus de andar. Vamos dividir mais uma refeio com os parentes novos, e depois partimos.
41
___________________________________________________________________________

    Depois da refeio da manh, os dois casais prepararam-se para seguir viagem. Quando terminaram os preparativos, Guban e Yorga simplesmente olharam para Jondalar 
e Ayla por um instante, evitando o lobo e os dois cavalos carregados. Apoiando-se ento nas muletas, Guban comeou a andar. Yorga foi atrs dele.
    No houve despedidas nem agradecimentos, coisas desconhecidas pela gente do Cl. Ao partir, uma pessoa no fazia comentrios (era bvio que estava indo embora), 
e atitudes de ajuda e cortesia eram esperadas com naturalidade, sobretudo quando se tratava de parentes. As obrigaes convencionais no exigiam agradecimento, apenas 
reciprocidade, caso fosse necessrio. Ayla sabia o quanto seria difcil para Guban retribuir a obrigao, se um dia fosse obrigado a isto. Na opinio de Guban, ele 
lhes devia mais do que poderia pagar. Ganhara deles mais do que a vida  a possibilidade de conservar sua posio social e seu prestgio, o que para ele valia mais 
do que simplesmente estar vivo, sobretudo se isso significasse viver aleijado.
     Espero que eles no tenham de andar muito. Percorrer qualquer distncia com muletas no  fcil  disse Jondalar.  Espero que ele consiga chegar.
     Ele h de conseguir  respondeu Ayla , por mais longe que seja. Mesmo sem as muletas, ele voltaria, ainda que tivesse de rastejar. No se preocupe, Jondalar. 
Guban  um homem do Cl. Ele vai conseguir... ou morrer tentando.
    Jondalar ficou pensativo. Viu Ayla puxar Huiin pelo cabresto. Depois, ele pegou o de Racer. Apesar das dificuldades que Guban enfrentaria, ele teve de admitir 
que ficara satisfeito ao Guban recusar-se a voltar para o Cl a cavalo. J houvera retardos excessivos.
    Continuaram a cavalgar por campos abertos at chegarem a uma elevao. Dali contemplaram a regio que haviam atravessado. Pinheiros altos, eretos como sentinelas, 
guardavam as margens do Rio da Grande Me por um longo trecho. Formavam como que uma serpenteante coluna de rvores que se afastava da legio de conferas que avistavam 
l embaixo, e que subia pelos flancos das montanhas ao sul.
    Mais adiante, o terreno, continuamente ascendente, tornou-se plano por uma certa extenso, e um prolongamento do pinheiral, comeando no rio, atravessou um pequeno 
vale. Desmontaram para conduzir os animais pelo arvoredo denso, e logo penetraram num espao penumbroso, de um silncio profundo e fantasmagrico. Troncos escuros 
e retos sustentavam uma ramagem baixa que bloqueava o sol e impedia o crescimento de ervas. Uma camada de agulhas, que se acumulavam havia sculos, abafava o som 
dos cascos dos cavalos.
    Ayla notou um acmulo de cogumelos na base de uma rvore e abaixou-se para examin-los. Estavam congelados. Haviam endurecido depois de uma repentina geada no 
outono, uma geada que no mais cessara. Era como se a poca da colheita tivesse sido capturada e mantida em suspenso, preservada na floresta ainda gelada. Lobo 
encostou o focinho na luva de Ayla. Ao lhe afagar a cabea, ela teve a sensao fugaz de que o pequeno grupo de viajantes eram os nicos seres vivos do planeta.
    Do outro lado do vale, a subida tornou-se ngreme e surgiram abetos prateados, cuja presena era acentuada pelo majestoso verde-escuro das btulas. Os pinheiros 
tornaram-se mais mirrados  medida que aumentava a altitude, e por fim desapareceram, deixando que apenas os abetos e as btulas ladeassem o curso mdio do rio.
    Enquanto viajavam, Jondalar no cessava de pensar na gente do Cl Que haviam conhecido. Nunca mais poderia deixar de pensar neles como Pessoas humanas. Tenho 
de convencer meu irmo. Talvez ele pudesse tentar um contato com o Cl... se ainda for chefe. Ao pararem para descansar e preparar um pouco de ch, Jondalar conversou 
a respeito com Ayla.
     Quando chegarmos, vou conversar com Joharran sobre a gente do Cl. Se outras pessoas comerciam com eles, podemos fazer o mesmo, e meu irmo deve ficar sabendo 
que cls distantes esto se reunindo para debater os problemas que esto tendo conosco. Isso pode terminar em briga, e eu no gostaria de lutar com gente como Guban.
     No creio que haja motivo para pressa. Eles demoraro muito tempo para tomar decises. Para eles, mudar  difcil  disse Ayla.
     E com relao ao comrcio? Voc acha que eles o querero?
            Creio que Guban estaria mais disposto do que a maioria. Est interessado em saber mais sobre ns, e se disps a experimentar as muletas, embora nem 
quisesse ouvir falar nos cavalos. E o fato de trazer uma mulher to diferente, de um cl remoto, tambm mostra seu carter. Ele correu um risco, ainda que ela seja 
bonita.
     Voc a julga bonita?
     Voc no?
     Entendo por que Guban achou  respondeu Jondalar.
            Em minha opinio, o que um homem considera belo depende de sua personalidade  disse Ayla.
      verdade, e eu acho voc linda.
     Ayla sorriu, convencendo-o ainda mais de sua beleza.
      bom saber que voc pensa assim.
            Voc sabe que  verdade. Lembra-se de toda a ateno que lhe dispensaram durante a Cerimnia da Me? Por acaso eu j lhe disse como fiquei contente 
por voc ter escolhido a mim?  perguntou ele, sorrindo ao se lembrar.
    Ayla se lembrou de uma coisa que ele dissera a Guban.
     Bem, eu lhe perteno, no ?  respondeu, e depois riu.   bom voc no saber bem a lngua do Cl. Guban teria percebido que voc no estava dizendo a verdade 
quando falou que eu era sua companheira.
     No, ele no perceberia.  verdade que ainda no passamos pelo Matrimnio, mas em meu corao ns somos companheiros. No foi mentira  disse Jondalar.
    Ayla comoveu-se.
            Eu tambm sinto isso  disse baixinho e de olhos baixos, pois desejava demonstrar deferncia pelas emoes que a dominavam.  Sinto isso desde o vale.
    Jondalar sentiu em si tal arroubo de paixo que pensou que ia explodir. Estendeu os braos e a apertou contra si, sentindo naquele momento, com aquelas poucas 
palavras, que ele se submetera a uma Cerimnia de Casamento. No importava que ele tivesse ou no uma cerimnia reconhecida por sua gente. Ele passaria pela cerimnia, 
para agradar a Ayla, mas no tinha necessidade dela. Tudo de que precisava era lev-la ao destino em segurana.
    Uma sbita rajada de vento enregelou Jondalar, afugentando o calor que ele sentira e deixando-o com uma estranha ambivalncia. Levantou-se e, afastando-se do 
calor da pequena fogueira, respirou fundo. Arquejou ao sentir o hausto de ar gelado e ressecante queimar-lhe os pulmes. Protegeu-se com o capuz de pele e apertou-o 
com fora junto ao rosto, para que o calor de seu corpo aquecesse o ar que respirava. Embora a ltima coisa que ele desejava fosse um vento quente, sabia que aquele 
frio cortante era extremamente perigoso.
    Ao norte da regio onde se achavam, a grande geleira continental prolongara-se na direo sul, como se procurasse incluir as belas montanhas geladas em seu amplexo 
colossal. Eles se encontravam agora na mais frgida rea do planeta, entre os reluzentes pinculos montanhosos e o infindvel gelo setentrional. O inverno ia no 
auge. O prprio ar era ressecado pelas geleiras, que gulosamente usurpavam cada gota de umidade para expandir suas massas inchadas e esmagadoras, acumulando reservas 
para suportar o avano do calor do vero.
    A batalha entre o frio glacial e o calor fundente, pelo controle da Grande Me Terra, chegara quase a um impasse, mas a mar estava mudando, com o triunfo da 
geleira. Ela faria mais um avano, alcanando seu mais distante ponto meridional, antes de ser rechaada para as regies polares. Mesmo ali, porm, estaria apenas 
em compasso de espera.
     proporo que prosseguiam na escalada, cada momento parecia mais frio que o anterior. A crescente altitude os levava inexoravelmente mais perto do encontro 
com o gelo. Era cada vez mais difcil os animais encontrarem alimento. A grama murcha e queimada, junto da corrente slida, estava comprimida contra o solo gelado. 
A nica neve que caa era formada de grnulos duros e secos, soprados pelo vento uivante.
    Avanaram em silncio, mas depois de terem acampado e estarem agasalhados dentro da tenda, conversaram.
            Os cabelos de Yorga so bonitos  disse Ayla, ajeitando-se em suas peles.
            So mesmo  concordou Jondalar, com sincera convico.
     Gostaria que Iza, ou qualquer pessoa do Cl de Brun, os tivesse visto. Sempre achavam meus cabelos muito esquisitos, ainda que Iza sempre dissesse que eram 
o que eu tinha de melhor. Eram claros como os dela, mas agora esto mais escuros.
     Gosto muito da cor de seus cabelos, Ayla, e da maneira como eles caem em ondas quando voc os usa soltos  disse Jondalar, tocando num cacho perto do rosto 
dela.
     Eu no imaginava que gente do Cl vivesse to longe da pennsula.
    Jondalar percebia qu os pensamentos dela no estavam em cabelos ou em nada de pessoal. Ela estava pensando nas pessoas do Cl, tal como ele pensara anteriormente.
            Mas Guban parece ser diferente.  como se... No sei,  difcil explicar. Sua fronte  mais pesada, o nariz  maior, o rosto mais... pontudo. Tudo nele 
parece mais... pronunciado, mais Cl de certa forma. Acho que ele  ainda mais musculoso do que era Brun. Sua pele era quente ao toque, mesmo quando ele estava deitado 
no cho congelado. E o corao dele batia mais rpido.
         Talvez eles tenham se acostumado ao frio. Laduni disse que muitos deles vivem ao norte daqui, onde quase nunca faz calor, mesmo no vero  disse Jondalar.
         Pode ser isto. Mas eles pensam do mesmo modo. O que fez voc dizer a Guban que estava saldando uma dvida de parentesco com o Cl? Foi o melhor argumento 
que voc poderia ter usado.
         No sei direito. Mas foi verdade. Realmente devo a vida ao Cl. Se eles no a tivessem adotado, voc no estaria viva, e por isso nem eu.
         E ao lhe dar aquele dente de urso, voc no poderia ter-lhe oferecido presente melhor. Aprendeu depressa os costumes dele, Jondalar.
         No so to diferentes dos nossos. Os Zelandonii tambm so ciosos de suas obrigaes. Se voc vai para o outro mundo e deixa obrigaes no saldadas, 
seu credor pode ter controle sobre seu esprito. J ouvi dizer que alguns Servidores da Me tentam manter pessoas em dvida, para que possam controlar os espritos 
delas, mas talvez isso no passe de balela. O fato de algum dizer uma coisa no significa que seja verdade  disse o homem.
         Guban acredita que o esprito dele e o seu esto agora entrelaados, nesta vida e na outra. Um pedao de seu esprito estar sempre com ele, do mesmo modo 
que um pedao do esprito dele sempre estar com voc. Era por isso que ele se mostrava to preocupado. Ele perdeu o pedao dele quando voc lhe salvou a vida, mas 
voc lhe deu tambm um pedao, de modo que no h nenhum buraco, nenhum vazio.
         No fui apenas eu quem lhe salvou a vida. Voc fez tanto quanto eu, ou mais.
         Mas eu sou mulher, e uma mulher do Cl no  a mesma coisa que um homem do Cl. No  uma troca equitativa, porque um no pode fazer o que o outro faz. 
No possui as memrias para isso.
         Mas voc consertou a perna dele, para que pudesse voltar.
         Ele teria voltado. No era isso que me preocupava. Eu temia que a perna dele no sarasse direito. Nesse caso ele no poderia caar.
          to ruim no poder caar? Ele no poderia fazer outra coisa? Como aqueles rapazes S'Armunai?
         O prestgio de um homem do Cl depende de sua capacidade de caar, e prestgio significa para ele mais do que a prpria vida. Guban tem responsabilidades. 
Possui duas mulheres em seu fogo. Sua primeira mulher tem duas filhas, e Yorga est grvida. Ele prometeu cuidar de todas elas.
         E se no pudesse?  perguntou Jondalar.  O que aconteceria a elas?
         No passariam fome, pois o Cl as protegeria, mas a condio social delas... o modo como vivem, seus alimentos e suas roupas, o respeito de que gozam... 
depende do prestgio dele. E, alm disso, ele perderia Yorga. Ela  jovem e bonita, outro homem teria prazer em ficar com ela. Mas se ela tiver o filho que Guban 
sempre desejou, ela o levaria consigo.
         O que acontecer quando ele ficar velho demais para caar?
                Um ancio pode abandonar a caa aos poucos, com dignidade. Ir viver com os filhos homens de sua companheira, ou com as filhas, se ainda viverem 
com o mesmo Cl, e no ser um nus para todo o Cl. Zoug aprimorou a pontaria com uma funda, para que pudesse continuar a contribuir, e at os conselhos de Dorv 
ainda eram prezados, embora ele j quase no enxergasse. Mas Guban  um homem na flor da idade e um chefe. Perder tudo isso ao mesmo tempo o deixaria acabrunhado.
        Jondalar assentiu.
         Acho que compreendo. O fato de no poder caar no me incomodaria tanto. Mas eu acharia horrvel se acontecesse alguma coisa que me impedisse de trabalhar 
o slex.  Fez uma pausa reflexiva e disse:  Voc fez muito por ele, Ayla. Mesmo que as mulheres do Cl sejam diferentes, isso no conta alguma coisa? Ele no poderia 
ao menos ter agradecido?
         Guban expressou sua gratido, Jondalar, mas foi uma coisa sutil, como tinha de ser.
         Deve ter sido sutil mesmo. Eu nada vi  respondeu Jondalar, com uma expresso de surpresa.
         Ele se comunicou diretamente a mim, no atravs de voc, e prestou ateno s minhas opinies. Permitiu que a mulher dele se dirigisse a voc, o que representou 
reconhecer-me como igual a ela... J que ele  um homem de elevada condio social, tambm ela . E ele teve voc em alta conta, como sabe. Fez-lhe um elogio.
         Foi.
         Achou seus instrumentos bem-feitos e admirou seu artesanato. No fosse assim, no teria aceitado as muletas ou mesmo seu presente  explicou Ayla.
         O que ele poderia ter feito? Eu tinha aceitado o dente dele. Achei um presente esquisito, mas entendi o significado. Eu teria aceitado o presente dele, 
qualquer que fosse.
         Se ele o julgasse inapropriado, no o teria aceitado, mas aquele sinal foi mais do que um presente. Ele aceitou uma obrigao sria. Se ele no respeitasse 
voc, no teria aceitado o pedao de seu esprito em troca do dele. Guban valoriza demais o esprito dele. Preferiria ficar com um vazio, um buraco, a aceitar um 
pedao de um esprito indigno.
         Tem razo. Essa gente do Cl tem muitas sutilezas, nuances de significado dentro de nuances de significado. No sei se um dia eu seria capaz de distinguir 
tudo isso  disse Jondalar.
         Voc acha os Outros to diferentes? Eu ainda tenho dificuldade de entender todas as nuances dentro de nuances  disse Ayla , mas sua gente  mais tolerante. 
Sua gente faz mais visitas, viaja mais do que os do Cl e est mais acostumada com estranhos. Tenho certeza de que cometi erros, mas acho que sua gente os relevou 
porque sou visitante e porque eles entendem que os costumes de meu povo devem ser diferentes.
         Ayla, minha gente  tambm a sua gente  respondeu Jondalar.
        Ela o contemplou como se de incio no o compreendesse completamente. Depois disse:
         Espero que sim, Jondalar. Espero que sim.
        Os abetos e as btulas raleavam e tornavam-se mais mirrados  medida que os viajantes subiam, mas o caminho deles ao longo do rio os fazia passar por afloramentos 
rochosos e por vales profundos que bloqueavam a viso das montanhas que os cercavam. Numa curva do rio, uma corrente despenhou-se no curso mdio do Rio da Grande 
Me, que se precipitava, ele prprio, de terrenos mais elevados. O ar, capaz de enregelar a medula dos ossos, capturara e imobilizara as guas no ato da queda e 
os fortes ventos secos haviam esculpido nelas formas estranhas e grotescas. Caricaturas de criaturas vivas capturadas pelo gelo, na atitude de comearem um vo rio 
abaixo, pareciam suportar uma espera impaciente, como se soubessem que a virada da estao, que lhes traria a liberdade, no estava distante.
        O homem e a mulher conduziram os animais com cuidado sobre o gelo quebrado, deram a volta at a parte mais alta da cachoeira congelada e a pararam, maravilhados, 
ao contemplarem diante de si a gigantesca geleira. Tinham tido vislumbres dela antes. Agora ela parecia quase ao alcance de suas mos, mas o efeito provocava uma 
iluso de tica. O gelo majestoso, um plat quase plano, estava mais distante do que parecia.
        A corrente congelada ao lado deles no se mexia, porm seus olhos acompanharam-lhe  caminho tortuoso, com suas curvas e voltas, at desaparecer de vista. 
O rio ressurgia mais ao alto, juntamente com vrios canais estreitos que, separados por intervalos regulares, escorriam da face da geleira como um punhado de fitas 
prateadas a enfeitar o imenso gorro glacial. Montanhas distantes e cristas mais prximas emolduravam o planalto com seus cumes speros e afiados, de um branco to 
intenso que seus matizes de azul glacial pareciam apenas refletir o azul profundo do cu.
        Os altos picos gmeos do sul, que durante algum tempo haviam acompanhado suas viagens recentes, j havia muito tinham ficado para trs. Um novo pinculo 
que surgira mais a oeste retrocedia para leste, e os picos da cordilheira meridional que lhes marcara o caminho ainda exibiam suas coroas coruscantes.
        Ao norte havia serras duplas de rochas mais antigas, porm o macio que formara a borda norte do vale fluvial ficara para trs na curva em que o rio voltava 
de seu ponto mais setentrional, antes do lugar onde tinham encontrado o casal do Cl. O rio estava mais prximo do novo planalto de calcrio que passara agora a 
constituir a fronteira norte, enquanto subiam na direo sudoeste, em direo  nascente do rio.
        A vegetao continuava a mudar  proporo que subiam. Os abertos cediam lugar a larios e pinheiros nos solos cidos que recobriam, aqui e ali, o escudo 
rochoso impermevel. Entretanto, no eram como as imponentes sentinelas das elevaes mais baixas. Os viajantes tinham chegado a um trecho da taiga montanhosa, rvores 
enfezadas cujas copas ostentavam uma cobertura de neve e gelo, que pareciam cimentados aos galhos durante a maior parte do ano. Embora as ramagens fossem densas 
em certos locais, qualquer galho valente que se projetasse acima dos outros era rapidamente podado pelo vento e pelo frio, que reduziam todas as rvores a uma mesma 
altura.
        Animaizinhos corriam pelas trilhas que eles prprios haviam marcado debaixo das rvores, mas a caa grossa era obrigada a abrir caminho a fora bruta. Jondalar 
decidiu afastar-se do ribeiro sem nome que vinham acompanhando, um dos muitos que por fim formariam o comeo de um grande rio, e seguir uma trilha de caa atravs 
da mata espessa de conferas ans.
        Ao se aproximarem da linha de vegetao puderam ver que a regio adiante era inteiramente desprovida de rvores. No entanto, a vida  tenaz. Ainda floresciam 
arbustos baixos e ervas, assim como extensos campos de capim, parcialmente soterrados sob um manto de neve.
        Embora muito mais amplas, regies semelhantes existiam nas elevaes baixas dos continentes do norte. Espcies arbreas temperadas conservavam-se em certos 
pontos protegidos e nas latitudes mais baixas, sendo que espcies mais resistentes apareciam nas regies boreais mais ao norte. Ainda mais perto do plo, eram em 
geral ans, e mirradas, isso quando chegavam a existir. Devido s extensas geleiras, os equivalentes das campinas elevadas que cercavam o gelo perptuo das montanhas 
eram as vastas estepes e tundras, onde s sobreviviam, rapidamente, as plantas capazes de completar seus ciclos vitais.
        Acima da linha de vegetao, muitas plantas robustas adaptavam-se  rudeza do ambiente. Conduzindo sua gua, Ayla observava as mudanas com interesse e desejava 
dispor de mais tempo para examinar as diferenas. A regio onde ela crescera ficava muito mais ao sul, e devido  influncia aquecedora do mar interior, a vegetao 
era basicamente do tipo temperado frio. As plantas das elevaes maiores das regies frigidssimas a fascinavam.
        Salgueiros majestosos, que ornamentavam quase todo rio, ribeiro ou riacho capaz de sustentar vestgios de umidade, cresciam como arbustos baixos, enquanto 
btulas e pinheiros altos tornavam-se matos que rastejavam pelo cho. Os mirtilos e arandos espalhavam-se como grossos tapetes, de meio palmo de altura. Ayla imaginava 
se, tal como as bagas que cresciam perto da geleira do norte, eles davam frutos de tamanho natural, porm mais doces e mais silvestres. Embora os esqueletos nus 
de ramos fenecidos comprovassem a presena ali de muitas plantas, ela nem sempre sabia a que variedade pertenciam ou que aspecto assumiam plantas conhecidas. Qual 
seria a aparncia daquelas campinas em estaes mais quentes?
        Por viajarem no auge do inverno, Ayla e Jondalar no viam a beleza primaveril e estival dos planaltos. Nem rosas silvestres nem rododendros coloriam a paisagem 
com exploses rseas; nem o aafro nem a anmona, nem as gencianas azuis e os narcisos amarelos enfrentavam o vento da montanha; no havia prmulas ou violetas 
que brilhassem com policrmico esplendor at o primeiro calor da primavera. No havia campnulas, rapncios, tasneiras, margaridas, lrios, saxfragas, cravos, acnitos 
ou pequeninas edelvais que quebrassem a inspita monotonia dos campos gelados de inverno.
        No entanto, outra viso, esta assustadora, estendia-se diante deles Uma ofuscante fortaleza de gelo rebrilhante lhes fechava o caminho. Fulgia ao sol como 
diamante magnfico, de muitas facetas. Seu branco cristalino faiscava com luminosas sombras azuis que lhes ocultavam as falhas: as fendas, os tneis, as cavernas 
e as cavidades que pontilhavam a gema colossal.
        Haviam alcanado a geleira.
        Ao se aproximarem da crista da montanha primeva que ostentava a coroa plana de gelo, sequer estavam seguros de que a estreita corrente ao lado deles fosse 
ainda o mesmo rio que lhes fizera companhia durante tanto tempo. A diminuta trilha de gelo era indistinguvel dos muitos regatos congelados que esperavam que a primavera 
libertasse seus caudais cascateantes, que se precipitariam pelas rochas cristalinas do planalto.
        O Rio da Grande Me, que haviam acompanhado desde seu largo delta onde ele se atirava ao mar interior, a grande corrente que lhes guiara os passos durante 
uma parte to longa da rdua Jornada, desaparecera. At mesmo a sombra congelada de um riachinho selvagem em breve ficaria para trs. Aos viajantes faltaria a segurana 
consoladora do rio a lhes indicar a rota. Teriam de prosseguir a Jornada calculando s cegas, com somente o sol e as estrelas como guias, e tambm os marcos que 
Jondalar esperava recordar.
        Acima da alta campina, a vegetao era mais intermitente. Apenas algas, liquens e musgos, tpicos das rochas e seixos, logravam sobreviver, a duras penas, 
depois do matagal e tapete e de algumas outras espcies raras. Ayla comeara a alimentar as montarias com parte das ervas que transportavam para eles. Sem os plos 
grossos, nem os cavalos nem o lobo sobreviveriam, mas a natureza os preparara para o frio. Carecendo de plos, os seres humanos haviam feito suas prprias adaptaes. 
Usavam os plos dos animais que caavam. Sem eles, tambm no sobreviveriam. E sem a proteo das peles e do fogo, seus antepassados no teriam jamais se aventurado 
naquelas paragens setentrionais.
        O cabrito-monts e a camura estavam  vontade nas campinas montanhosas, mesmo nas reas mais penhascosas, e tambm frequentavam terrenos mais elevados, 
ainda que em geral no o fizessem quando o inverno ia to adiantado. No entanto, cavalos eram uma anomalia em tais altitudes. Mesmo as encostas mais brandas do macio 
em geral no os estimulavam a uma escalada to ousada, porm Huiin e Racer sabiam onde pisavam.
        De cabea baixa, os animais subiram o aclive, na base do gelo, arrastando suprimentos e as pedras de queimar que significariam a diferena entre a vida e 
a morte para todos eles. Os seres humanos, que os conduziam a locais aonde ordinariamente eles no se disporiam a ir, estavam  procura de um terreno plano para 
armarem a tenda.
        Estavam cansados de lutar contra o frio intenso e o vento cortante, de escalar o terreno ngreme. Era um faina exaustiva. At mesmo Lobo se satisfazia em 
seguir adiante, em vez de correr por ali e explorar a rea.
                Estou to fatigada  disse Ayla, enquanto preparavam o acampamento, tiritando de frio.  Cansada do vento, cansada do frio. Acho que nunca mais 
vou me esquentar. No imaginava que pudesse existir tanto frio.
        Jondalar concordou, mas sabia que o frio que ainda teriam de enfrentar seria bem pior. Viu Ayla olhar de relance para a massa de gelo e depois desviar os 
olhos, como se no a quisesse ver, e suspeitou que ela se preocupava com mais alguma coisa alm do frio.
         Vamos ter mesmo de atravessar todo aquele gelo?  perguntou ela, manifestando enfim seus temores.  Poderemos faz-lo? No sei nem mesmo como vamos chegar 
l em cima.
         No  fcil, mas  possvel  respondeu Jondalar.  Thonolan e eu fizemos. Enquanto ainda est claro, eu gostaria de procurar o melhor meio de levarmos 
os cavalos at l.
         Tenho a impresso de que estamos viajando eternamente. Quanto ainda temos de viajar, Jondalar?
         Ainda falta certo tempo at a Nona Caverna, mas no  demasiado longe, e assim que tivermos ultrapassado o gelo, a distncia  pequena at a Caverna de 
Dalanar. Vamos parar ali durante algum tempo. Ser uma oportunidade de voc conhecer a ele, Jerika e todos... Mal posso esperar para mostrar a Dalanar e Joplaya 
algumas tcnicas de trabalhar o slex que aprendi com Wymez. Mas mesmo que faamos uma visita a eles, estaremos em casa antes do vero.
        Ayla desalentou-se. Vero! Mas ainda estamos no inverno, pensou. Tivesse ela realmente compreendido o quo longa seria a Jornada, talvez no se dispusesse 
com tanta nsia a acompanhar Jondalar at onde ele morava. Poderia ter insistido mais ao tentar persuadi-lo a ficar com os Mamuti.
         Vamos ali dar uma olhada melhor na geleira  props Jondalar  e planejar o melhor meio de chegarmos l em cima. Depois teremos de nos certificar de que
dispomos de tudo quanto ser necessrio para atravessar o gelo.
                Esta noite vamos ter de usar algumas pedras de queimar para fazer uma fogueira  disse Ayla.  Por aqui no h nada que possamos queimar. E vamos
ter de derreter gelo para beber gua... Mas gelo  o que no falta.
        Exceto algumas cavidades sombreadas onde a acumulao era desprezvel, no havia neve alguma na rea onde tinham acampado, tal como na maior parte do caminho 
que tinham percorrido no aclive. Jondalar s estivera ali uma vez, mas toda a rea lhe pareceu mais seca do que antes. E tinha razo. Estavam do lado chuvoso do 
planalto; as poucas neves que chegavam a cair na regio em geral chegavam um pouco mais tarde depois da estao ter comeado a virar. Ele e Thonolan tinham enfrentado 
uma tempestade de neve ao descerem.
        Durante o inverno, o ar mais quente e mido, empurrado pelos ventos oriundos do oceano ocidental, subia pelas encostas at alcanar a ampla rea plana de 
gelo e de alta presso. Exercendo o efeito de um gigantesco funil apontado para o macio, o ar mido se resfriava, condensava-se e se transformava em neve, que caia 
apenas sobre o gelo l embaixo, alimentando as fauces famintas da exigente geleira.
        O gelo que recobria todo o desgastado cume do macio antigo espalhava a precipitao por toda a rea, criando uma superfcie quase plana, exceto na periferia. 
O ar resfriado, a que fora tirada toda a umidade, baixava e escorria pelas encostas, sem trazer neve alguma alm das bordas do gelo.
        Enquanto Ayla e Jondalar caminhavam em torno da base da geleira, em busca do melhor caminho para subir, observaram reas que pareciam ter sido perturbadas 
recentemente, com terra e rochas estranguladas por tenazes do gelo que avanava. A geleira crescia.
        Em muitas reas, a rocha antiga do planalto achava-se exposta na base da geleira. O macio, dobrado e soerguido pela presses descomunais que haviam criado 
as montanhas no sul, fora no passado um bloco slido de granito cristalino, incorporando um planalto semelhante a oeste. As foras que comprimiam a antiga montanha 
inabalvel, formada pelas mais velhas rochas da Terra, tinham deixado sua marca na forma de uma fenda, uma falha que havia rachado o bloco ao meio.
        Bem do outro lado, na direo do oeste, na parte oposta da geleira, a vertente ocidental do macio era ngreme e a ela correspondia uma borda paralela, voltada 
para leste, do outro lado do vale. Ao longo do meio do largo leito da falha, protegido pelas elevadas encostas do macio fendido, passava um rio. No entanto, Jondalar 
tencionava seguir para sudoeste, cortar a geleira em diagonal e descer por um caminho menos abrupto. Desejava atravessar o rio num ponto mais prximo  sua nascente, 
no alto das montanhas do sul, antes que ele contornasse o macio congelado e cruzasse o vale fendido.
         De onde veio isso?  perguntou Ayla, exibindo o objeto em questo. Consistia em dois discos de madeira, ovais, montados numa moldura que os mantinha bem 
juntos, com correias de couro presas s bordas externas. Uma renda delgada corria no sentido longitudinal, no meio dos discos, de cima em baixo, quase dividindo-os 
ao meio.
         Eu o fiz antes de partirmos. Tenho um para voc tambm.  para seus olhos. s vezes o brilho da geleira  to intenso que no se v nada alm da brancura... 
Chamam a isso cegueira das neves. Em geral essa cegueira desaparece depois de algum tempo, mas seus olhos podem ficar muito vermelhos e doloridos. Isso vai proteger 
seus olhos. Ponha-o  disse Jondalar. A seguir, ao v-la sem saber direito como agir, ele acrescentou:  Vou mostrar-lhe como .  Ps na prpria cabea as palas 
esquisitas e atou as tiras de couro atrs da cabea.
         Como vou enxergar?  perguntou Ayla. Mal conseguia divisar-lhe os olhos atrs das longas fendas horizontais, mas prendeu no rosto o par que ele lhe deu. 
 Pode-se ver quase tudo! S que  preciso virar a cabea para enxergar de lado.  Ayla mostrou-se surpresa, e depois sorriu:  Voc est to engraado com esses 
olhes, como se fosse algum esprito estranho... Ou um besouro. Talvez o esprito de um besouro.
         Voc tambm est engraada  respondeu ele, retribuindo o sorriso , mas esses olhos de besouro podem salvar-lhe a vida. A gente tem de saber onde pisa 
no gelo.
         So timos esses forros de l para botas que a me de Madenia nos deu  comentou ela, ao coloc-los num lugar mais  mo, para que pudesse peg-los com 
facilidade.  Mesmo quando molhados, mantm os ps quentes.
         Vai ser bom termos o par extra quando estivermos no gelo  disse Jondalar.
         Eu costumava rechear as coberturas de ps com grama, quando vivia com o Cl.
         Grama?
         Isso mesmo. Ela mantm os ps quentes e seca depressa.
          bom saber disso  respondeu Jondalar, pegando uma bota.  Use as botas com sola de couro de mamute. So quase impermeveis e tm muita resistncia. s 
vezes as lminas de gelo so afiadas. E como as botas so speras, no se escorrega, principalmente na subida. Vejamos, vamos precisar da enx para quebrar gelo. 
 Ps a ferramenta no alto de uma pilha.  E cordas. Alm disso, cordis fortes. Vamos precisar da tenda, de peles de dormir e, naturalmente, comida. Podemos deixar 
aqui alguns utenslios de cozinha? No vamos precisar de muitos no gelo, e poderemos conseguir outros com os Lanzadonii.
         Vamos usar comida pronta. No vou cozinhar, e resolvi usar o panelo de pele, preso  armao que ganhamos de Solandia, para derreter gelo para gua, colocando-o 
diretamente sobre o fogo.  mais depressa assim, pois no precisamos ferver a gua. Apenas derret-la  disse Ayla.
         No se esquea de levar uma lana.
         Por qu? No existem animais no gelo, no ?        
            No, mas voc pode us-la para ter certeza de que o gelo  sua frente est slido. E esta pele de mamute?  indagou Jondalar.  Ns a estamos carregando 
desde que partimos, mas precisamos mesmo dela?  pesada.
             uma boa pele, agora flexvel, e uma boa cobertura impermevel para o bote. Voc disse que neva no gelo.  Para Ayla era doloroso deixarem a pele ali.
            Mas podemos usar a tenda como cobertura.
             verdade... Mas...  Ayla comprimiu os lbios, pensativa. A seguir, notou outra coisa.  Onde voc conseguiu esses archotes?
            Com Laduni. Vamos nos levantar antes da aurora e precisaremos de luz para arrumar as coisas. Quero chegar ao alto do plat antes que o sol esteja muito 
alto, enquanto tudo ainda estiver solidificado  respondeu Jondalar.  Mesmo com todo esse frio, o sol pode derreter o
gelo um pouco e dificultar a ascenso ao topo.
    Foram deitar-se cedo, porm Ayla no conseguia conciliar o sono. Aquela era a geleira de que Jondalar falara desde o comeo.
     O qu... O que foi?  perguntou Ayla, acordando sobressaltada.
     No foi nada. Hora de levantar  respondeu Jondalar, erguendo o archote. Meteu o cabo nos seixos para que ele ficasse de p e estendeu a ela uma taa de ch
fumegante.  Eu fiz fogo. Tome um pouco de ch.
    Ayla sorriu, com expresso feliz. Preparara o ch matinal para ele quase todos os dias da Jornada e ficou satisfeita ao ver que, pelo menos uma vez, ele se levantara 
primeiro e preparara o ch para ela. Na verdade, em nenhum momento ele adormecera. No conseguira. Estava nervoso demais  e preocupado.
    Lobo observava os humanos, com os olhos a refletirem a luz. Percebendo alguma coisa de inusitada, brincava e saltava de um lado para outro. Tambm os cavalos 
estavam agitados, relinchando muito e soprando nuvens de vapor. Usando as pedras de queimar, Ayla derreteu gelo, deu-lhes de beber e alimentou-os com gros. Deu 
a Lobo um pedao da comida de viagem dos Losadunai e tirou outro para ela e Jondalar.  luz do archote, arrumaram a tenda, as peles de dormir e alguns utenslios. 
Deixaram alguma coisa para trs: um recipiente vazio de gros, alguns instrumentos de pedra, mas no ltimo momento Ayla jogou a pele de mamute sobre o carvo, dentro 
do bote.
    Jondalar pegou o archote para iluminar o caminho. Puxando Racer pela corda, comeou a caminhar, mas a luz incomodava. Ele via um pequeno crculo iluminado nas 
proximidades, mas quase nada adiante, mesmo erguendo o archote. Era quase plenilnio, e ele comeou a achar que descobria o caminho com mais facilidade sem o archote. 
Por fim, atirou-o ao cho e prosseguiu o caminho no escuro. Ayla o acompanhou, e da a pouco os olhos de ambos se habituaram. Atrs deles, o archote ainda ardia 
no cho de seixos, enquanto se afastavam.
    A luz de uma lua  qual faltava somente uma fatia mnima para estar inteiramente cheia, o monstruoso bastio de gelo fulgia com uma luz espectral e evanescente. 
O cu, negro, ganhava uma bruma de estrelas, o ar seco estalava de frio. Um ter amorfo exibia uma vida toda prpria.
    Por mais frio que estivesse, o ar enregelante tornava-se ainda mais glido  medida que se aproximavam da muralha de gelo, porm o tremor de Ayla era causado 
pela emoo da expectativa e da ansiedade. Jondalar observava-lhe os olhos brilhantes, a boca ligeiramente aberta enquanto ela sorvia haustos de ar mais fundos e 
mais rpidos. As emoes de Ayla sempre o excitavam, e ele sentiu um calor bem conhecido... Mas balanou a cabea. No havia tempo agora. A geleira estava  espera.
    Jondalar tirou uma longa corda da mochila.
     Temos de nos amarrar um ao outro  disse.
     Os cavalos tambm?
            No. Um de ns pode aguentar o peso do outro, mas se os cavalos escorregarem, ho de nos arrastar juntos.  Por pior que fosse a ideia de perderem Racer 
ou Huiin, era com Ayla que ele mais se preocupava.
    Ayla franziu a testa, mas concordou com um gesto.
    Falavam em sussurros abafados, pois o gelo silencioso lhes amortecia as vozes. No queriam perturbar-lhe o opressivo esplendor ou adverti-lo da iminente investida 
que fariam.
    Jondalar prendeu uma das pontas da corda em torno da cintura e a outra ponta em volta de Ayla, enrolando o restante e metendo o brao no rolo para carreg-lo 
no ombro. Cada um deles pegou a corda do cabresto de um dos animais. Lobo teria de acompanh-los por seus prprios meios.
    Jondalar sentiu um momento de pnico antes de partir. O que imaginara? O que o levara a pensar que poderia atravessar a geleira com Ayla e os cavalos? Deviam
ter optado pelo longo caminho em torno dela. Mesmo que mais demorado, seria mais seguro. Ao menos teriam certeza de chegar ao destino. A seguir, ele pisou no gelo.
    Ao p de uma geleira havia com frequncia uma separao entre o gelo e a terra, que criava um espao cavernoso sob o gelo, ou um ressalto saliente que se estendia 
sobre o cascalho acumulado de aglomerados glaciais. No ponto escolhido por Jondalar para comear, a salincia desmoronara, proporcionando uma ascenso gradual. Estava 
tambm misturada com cascalhos, o que permitia mais segurana. Comeando na borda desmoronada, uma forte acumulao de seixos  uma morena  subia pela encosta gelada 
como uma trilha bem marcada e, a no ser perto do topo, no parecia ngreme demais para eles ou para os animais. Transpor a borda, no alto, poderia ser um problema, 
mas Jondalar no saberia dizer at chegar ali.
    Com Jondalar abrindo a fila, comearam a subir a encosta. Racer relutou por um momento. Embora a houvessem reduzido, a carga que ele levava ainda lhe atrapalhava 
os passos, e a mudana no aclive, de moderado para ngreme, o desequilibrava. Um casco deslizou firmou-se e, com certa hesitao, o jovem animal comeou a subir. 
A seguir foi a vez de Ayla, com Huiin arrastando o tren. No entanto a gua puxara a carga durante tanto tempo, atravessando terrenos to variados, que se acostumara 
a ela, e ao contrrio da grande carga que Racer transportava no lombo, as varas muito espaadas facilitavam o equilbrio.
    Lobo fechava a coluna. Para ele era mais fcil. Seu corpo ficava mais perto do cho, e as patas calosas no o deixavam deslizar. No entanto, ele percebia o perigo 
para os companheiros e os acompanhava como que fechando a retaguarda, vigilante, em busca de perigos invisveis.
    Ao luar claro, os reflexos dos afloramentos serrilhados de gelo tremeluziam, e as superfcies espelhadas das reas planas tinham algo de lquido, como imveis 
lagoas negras. No era difcil ver a morena que escorria, como um rio de areia e seixos em cmara lenta, porm a iluminao noturna obscurecia o tamanho e a perspectiva 
dos objetos e escondia os pormenores.
    Jondalar estabeleceu um ritmo lento e cauteloso, fazendo com que seu cavalo contornasse as obstrues. Ayla mais se preocupava em encontrar o melhor caminho 
para a gua que ela conduzia do que com sua prpria segurana.  medida que a encosta se tornava mais ngreme, os animais, desequilibrados pelo aclive e pela carga, 
esforavam-se por firmar os cascos. Em dado momento, quando um casco deslizou, enquanto Jondalar tentava fazer Racer transpor um trecho mais alcantilado perto do 
topo, o cavalo rinchou e tentou empinar.
     Vamos, Racer  animou-o Jondalar, esticando a corda, como se pudesse pux-lo encosta acima a fora.  J estamos chegando, voc vai conseguir!
    O animal fez um esforo, mas seus cascos deslizaram no gelo traioeiro, sob uma fina camada de neve, e Jondalar sentiu-se arrastado para trs pela corda do cabresto. 
Aliviou um pouco a tenso, e por fim soltou de todo a corda. Havia na carga coisas que ele de modo algum desejaria perder, tal como lhe doeria perder o cavalo, mas 
temia que o animal no conseguisse completar a subida.
    Entretanto, quando os cascos encontraram cascalho, Racer parou de deslizar e, sem ser puxado, ergueu a cabea e saltou para a frente. De repente o garanho estava 
alm da borda, ultrapassando com cuidado uma estreita fenda, a partir da qual o caminho se tornava plano. Enquanto afagava o cavalo e o elogiava, Jondalar notou 
que a cor do cu passara de negro para azul-escuro, com uma tonalidade um pouco mais clara no horizonte oriental.
    Nesse momento, sentiu um puxo na corda. Ayla devia ter escorregado, pensou, e deu-lhe um pouco mais de corda. Devia ter chegado o trecho ngreme. De repente 
a corda comeou a correr por sua mo, at ele sentir um puxo forte na cintura. Ela devia estar segurando na corda do cabresto de Huiin, pensou ele. Ela precisava 
solt-la.
    Jondalar agarrou a corda com as duas mos e gritou:
            Solte, Ayla! A gua vai arrastar voc com ela!
    No entanto, Ayla no o ouviu; ou se ouviu, no compreendeu. Huiin comeara a subir na inclinao, mas seus cascos no se firmavam e ela no parava de deslizar 
para trs. Ayla estava agarrada  corda do cabresto, como se fosse capaz de impedir que a gua casse, mas tambm ela estava deslizando para baixo. Jondalar sentiu 
que ele prprio era perigosamente arrastado para perto da borda. Procurando alguma coisa em que se agarrar, segurou na corda do cabresto de Racer. O garanho relinchou.
    Entretanto, foi o tren que deteve a descida de Huiin. Um dos varais prendeu-se numa fenda e foi detido por tempo suficiente para que a gua se equilibrasse. 
Seus cascos enterraram-se num pedao de neve que lhe deu firmeza, e ela achou cascalho. Ao sentir que o puxo cessava, Jondalar soltou o cabresto de Racer. Apoiando 
o p na rachadura do gelo, Jondalar puxou a corda em torno da cintura.
            D-me um pouco de folga  gritou Ayla, enquanto se firmava na corda do cabresto e Huiin forava o corpo para o alto.
    De repente, milagrosamente, ele viu Ayla surgir na borda e acabou de pux-la. A seguir apareceu Huiin. Com um salto para a frente, ela transps a fenda e suas 
patas se firmaram no gelo plano. Os varais do tren ainda se projetavam no ar e o bote repousava na borda que tinham vencido. Uma risca cor-de-rosa apareceu no cu 
da manh, definindo a fmbria da terra, e Jondalar soltou um suspiro.
    Lobo pulou pela borda de repente e correu para Ayla. Comeou a saltar sobre ela, mas, sentindo-se ainda trmula, a moa lhe fez sinal para que se aquietasse. 
Lobo recuou, olhou para Jondalar e depois para os cavalos. Erguendo a cabea e iniciando com alguns ganidos preliminares, entoou em alto e bom som sua cano lupina.
    Conquanto tivessem transposto uma elevao ngreme e o gelo agora fosse plano, ainda no haviam alcanado a superfcie mais alta da geleira. Havia fendas perto 
da borda, assim como blocos quebrados de gelo dilatado. Jondalar atravessou um outeiro nevado que cobria um banco alm da borda e, finalmente, pisou uma superfcie 
plana do plat gelado. Racer o seguiu, fazendo com que fragmentos de gelo rolassem e saltassem pela borda. O homem manteve a corda bem tesa em volta da cintura, 
enquanto Ayla o acompanhava, imitando-lhe os passos. Lobo corria na frente, enquanto Huiin fechava a fila.
    O cu se colorira inteiro com uma fugaz e passageira tonalidade de azul, enquanto raios coruscantes radiavam, ainda ocultos, sobre o disco da Terra. Ayla lanou 
os olhos para a encosta ngreme e ficou a imaginar como tinham conseguido subir at ali. Do ponto onde estavam, a ascenso parecia impossvel. Depois ela se virou 
para prosseguir e susteve a aspirao.
    O sol nascente assomara sobre o horizonte com uma exploso cegante que iluminava uma cena inacreditvel. A oeste, uma plancie inteiramente nua, de um branco 
deslumbrante, estendia-se diante deles. No alto, o cu tinha um matiz de azul que ela jamais vira no passado. Absorvera o reflexo do vermelho, assim como a tonalidade 
verde-azulada da geleira, mas ainda continuava a ser azul. Mas um azul de um brilho to assombroso que parecia fulgurar com sua prpria luz numa cor indescritvel. 
No horizonte distante, a sudoeste, ele adquiria uma tonalidade nevoenta negro-azulada.
    Enquanto o sol subia a leste, a imagem esmaecida de um crculo quase perfeito que tanto reluzira no cu negro ao despertarem antes do alvorecer descambava no 
extremo oposto do cu, a oeste  uma vaga memria de sua passada glria. No entanto, nada interrompia o esplendor extraterreno do vasto deserto de guas congeladas. 
Nenhuma rvore, rocha, movimento algum de qualquer natureza prejudicava a majestade da superfcie aparentemente ininterrupta.
    Ayla soltou a respirao com um arquejo. No se dera conta de que parara de respirar.
     Jondalar!  esplndido! Por que no me disse? Eu teria percorrido o dobro da distncia s para ver isto  disse, estupefata.
      espetacular  respondeu ele, sorrindo ante a reao dela, mas tambm pasmo.  Entretanto, eu no podia dizer-lhe. Nunca vi um nascer do sol como este antes. 
Nem sempre  assim. As nevascas aqui tambm podem ser inacreditveis. Vamos embora enquanto ainda podemos ver o caminho. O gelo no  to slido como parece, e com 
esse cu limpo e o sol brilhante, no  impossvel que se abra uma fenda ou uma salincia desmorone.
    Partiram pela plancie de gelo, precedidos por suas longas sombras. Antes que o sol houvesse subido muito, j transpiravam sob as roupas pesadas. Ayla comeou 
a tirar a parka de pele externa.
            Tire-a, se quiser  avisou Jondalar , mas mantenha a cabea coberta. Uma pessoa pode se queimar seriamente aqui, e no s por causa do sol. Quando 
o sol incide sobre o gelo, ele tambm pode queimar.
    Pequenos cmulos comearam a formar-se durante a manh. Ao meio-dia, haviam-se encastelado em nuvens imensas. O vento ps-se a soprar de rijo  tarde. Quando 
os viajantes decidiram parar para derreter gelo e neve, Ayla ficou satisfeita por poder vestir de novo a pele externa. O sol se escondera por trs de cmulos-nimbos, 
carregados de umidade, que espargiam uma leve poeira de neve sobre os viajantes. A geleira crescia.
    A geleira de planalto que atravessavam fora gerada nos picos escarpados que ficavam bem mais ao sul. O ar mido, que subia pelas barreiras elevadas, condensava-se 
em gotculas nevoentas, mas era a temperatura que decidia se haveriam de cair como chuva fria ou, percorrendo uma distncia bem menor, em forma de neve. No era 
o congelamento perptuo que produzia as geleiras; em vez disso, um acmulo de neve de um ano para o outro dava origem a geleiras que, com o tempo, se transformavam 
em lenis de gelo que por fim cobriam continentes inteiros. Apesar de alguns dias quentes, invernos frigidssimos em combinao com veres frescos de intensa nebulosidade 
que no chegam a derreter o que sobrou de neve e de gelo ao fim de um inverno  uma temperatura mdia anual mais baixa  modificam a situao geral no sentido de 
uma poca glacial.
    Logo abaixo das agulhas altssimas das montanhas do sul, demasiado ngremes para que nelas a neve se acumulasse, formavam-se pequenas bacias, circos ou anfiteatros 
naturais que se aninhavam de encontro aos picos; e eram esses crculos os beros das geleiras.  medida que os leves flocos de neve, secos e rendilhados, depositavam-se 
nas depresses do alto das montanhas  depresses criadas por minsculas quantidades de gua que congelava em fendas e depois se dilatava, soltando toneladas de 
rochas  a neve se acumulava. Por fim o peso da massa de gua congelada quebrava os delicados flocos em pedaos que se aglutinavam em pequenas bolas de gelo.
    Essa neve granulosa no se formava na superfcie, mas no fundo do circo, e quando mais neve caa, as esferas compactas mais pesadas eram empurradas para cima 
e para fora da borda do bero.  proporo que uma quantidade maior delas se acumulava, as bolas de gelo quase circulares eram comprimidas entre si com tamanha fora, 
pelo peso que sustentavam, que uma frao da energia era liberada como calor. Apenas por um instante, fundiam-se nos muitos pontos de contato e imediatamente recongelavam, 
soldando-se entre si. Ao se aprofundarem as camadas de gelo, a maior presso redispunha a estrutura das molculas em gelo cristalino, slido, mas com uma diferena 
sutil: o gelo flua.
    O gelo glacirio, formado sob tremenda presso, era mais denso. No entanto, nas altitudes inferiores a grande massa de gelo slido escoava como qualquer lquido. 
Bifurcando-se em torno de obstrues como os cumes alcandorados de montanhas, e voltando-se a reunir-se do outro lado  muitas vezes levando consigo uma grande parte 
da rocha e deixando atrs ilhas pontiagudas , uma geleira acompanhava os contornos do terreno, aplainando-o e remoldando-o em seu progresso.
    O rio de gelo slido tinha suas correntes e remoinhos, remansos e corredeiras, mas se movia num outro ritmo, de uma lentido que nada ficava a dever a seu gigantismo. 
Podia levar anos para percorrer um palmo. Todavia, o tempo no importava. Aquele rio slido tinha todo o tempo do mundo. Desde que a temperatura mdia se mantivesse 
abaixo da linha crtica, a geleira se alimentava e crescia.
    Os circos montanhosos no eram seus nicos beros. As geleiras formavam-se tambm em terreno plano, e to logo cobriam uma rea de tamanho suficiente, o efeito 
resfriante espalhava a precipitao da chamin de anticiclone, situada no meio, para as margens extremas. A espessura do gelo mantinha-se quase a mesma em toda a 
extenso.
    As geleiras nunca estavam inteiramente secas. Alguma gua sempre vazava da fuso provocada pela presso. Enchia pequenas cavidades e fendas, e quando esfriava 
e recongelava, dilatava-se em todas as direes O movimento de uma geleira era centrfugo e sua velocidade dependia da inclinao da superfcie, no da inclinao 
do terreno subjacente. Se a inclinao superficial era grande, a gua contida no interior da geleira escoava encosta abaixo mais depressa atravs das frestas no 
gelo e espalhava o gelo  medida que se recongelava. As geleiras cresciam mais depressa quando jovens ou quando prximas a grandes oceanos ou mares ou em montanhas, 
onde os pinculos asseguravam fortes nevascas. Seu crescimento diminua depois que se espalhavam; a vasta superfcie refletia a luz, e o ar sobre seu centro se fazia 
mais frio e mais seco devido  menor quantidade de neve.
    As geleiras das montanhas ao sul haviam-se expandido a partir dos picos elevados, enchendo os vales at a altura de altos desfiladeiros e transbordando alm 
deles. Durante um anterior perodo de avano, as geleiras das montanhas preencheram a funda depresso de uma linha de falha que separava os contrafortes das montanhas 
e o macio antigo. Cobriu o planalto, depois espalhou-se at atingir as velhas montanhas erodidas na franja setentrional. O gelo recuou durante o aquecimento temporrio 
 que j chegava ao fim  e derreteu no vale de falha da plancie, criando um portentoso rio e um longo lago, represado por uma morena, mas a geleira planaltina 
que estavam atravessando continuou congelada.
    Como no podiam acender uma fogueira diretamente sobre o gelo, haviam planejado usar o bote como base para as pedras que tinham levado. Antes, porm, tinham 
de retirar todas as pedras de queimar de dentro do bote redondo. No momento em que Ayla levantou a pesada pele de mamute, ocorreu-lhe que poderiam us-la como base 
para o fogo. O couro ficou um pouco queimado, mas no tinha importncia. Ayla ficou satisfeita por t-lo trazido. Todos, incluindo os cavalos, beberam e comeram.
    Enquanto estavam ali, o sol desapareceu inteiramente por trs de nuvens densas, e antes que retomassem a caminhada, uma neve espessa comeou a cair com fora. 
O vento do norte uivava sobre a imensido gelada, nada sobre o vasto lenol que cobria o macio lhes obstava o avano. Uma nevasca de grandes propores se formava.

42
___________________________________________________________________________

    Ao adensar-se a nevasca, a fora do vento noroeste aumentou subitamente. Atingiu os viajantes com uma rajada de ar frio que os empurrou para a frente como se 
no passassem de um fragmento insignificante da cortina horizontal de gelo que os cercava.
            Acho melhor esperarmos isso passar  gritou Jondalar, para ser ouvido em meio  tormenta.
    Lutaram para armar a tenda, enquanto as rajadas geladas insistiam em virar o pequeno abrigo, arrancar as estacas fincadas no gelo e agitar a cobertura de pele. 
O vento furioso ameaava carregar a pele das mos dos dois seres viventes, que tentavam avanar pelo gelo, ousando apresentar um obstculo  nevasca que sacudia 
a superfcie plana.
     Como vamos prender a tenda?  perguntou Ayla.   sempre ruim assim?
     No me lembro de um vento forte corno este, mas no estou surpreso.
    Os cavalos estavam imveis, de cabea baixa, enfrentando estoicamente a tempestade. Lobo achava-se bem perto deles, cavando um buraco para si.
            Talvez pudssemos fazer um dos cavalos segurar a ponta solta at firmarmos as estacas  sugeriu Ayla.
    Com uma coisa levando a outra, chegaram a uma soluo improvisada, usando os cavalos tanto como prendedores e colunas. Jogaram a pele sobre os dorsos dos dois 
animais, enquanto Ayla convencia Huiin a pisar numa das pontas, passava por baixo, esperando que a gua no mudasse muito de posio, e erguia a pele. Ayla e Jondalar 
lutavam juntos, com o lobo debaixo dos joelhos dobrados deles, quase debaixo dos ventres dos cavalos, sentado em cima da outra ponta da tenda.
    J escurecera quando a tormenta amainou, e tiveram de passar a noite no mesmo lugar, mas antes ajeitaram a tenda. De manh, Ayla ficou intrigada com algumas 
manchas escuras perto da tenda, onde Huiin se colocara. Ficou a imaginar do que se tratava, enquanto se apressavam a desmanchar o acampamento.
    Avanaram mais no segundo dia, apesar de serem obrigados a transpor trechos de gelo quebrado e de percorrerem uma rea onde havia vrias fendas, todas orientadas 
na mesma direo. De tarde sobreveio nova tormenta, embora o vento no fosse to forte como na vspera e terminasse mais depressa, permitindo que eles continuassem 
a Jornada at o cair da noite.
    Ayla notou, quando estavam para interromper a caminhada, que Huiin mancava. Sentiu o corao bater mais rpido e uma onda de medo quando a examinou mais de perto 
e viu manchas vermelhas no gelo. Ergueu a pata da gua e examinou-lhe o casco. Estava machucado, em carne viva, e sangrava.
            Jondalar, veja isto. Os ps dela esto cortados. Qual ter sido a causa disso?
    O homem olhou e depois foi examinar os cascos de Racer, enquanto Ayla inspecionava as outras patas de Huiin. Encontrou o mesmo tipo de leso e franziu a testa.
            Deve ser o gelo  disse ele.  Verifique as patas de Lobo tambm.
    As patas do lobo estavam feridas, porm menos que os cascos dos cavalos.
     Que vamos fazer?  perguntou Ayla.  Esto aleijados, ou estaro em breve.
     Nunca me ocorreu que o gelo pudesse ser afiado a ponto de lhes cortar os cascos  respondeu Jondalar, muito preocupado.  Procurei pensar em tudo, mas no 
me ocorreu isso.  Suas palavras traam remorso.
     Os cascos so duros, mas no so de pedra. Parecem mais unhas. Podem ferir-se. Jondalar, os cavalos no podem continuar. Dentro de mais um dia estaro de tal 
maneira feridos que no podero andar  disse Ayla.  Vamos ter de ajud-los.
     O que podemos fazer?
     Bem, ainda tenho minha bolsa de remdios. Posso tratar dos ferimentos.
     Mas no podemos esperar aqui at sararem. E assim que comearem a andar de novo, voltaro a ferir-se.  O homem calou-se e fechou os olhos. No queria nem 
pensar no que estava pensando, muito menos diz-lo em voz alta, mas s conseguia imaginar uma sada para o dilema.  Ayla, vamos ter de abandon-los  disse, com 
a voz mais calma que conseguiu articular.
     Abandon-los? O que quer dizer com "abandon-los"? No podemos largar Huiin ou Racer aqui. Onde encontrariam gua? E comida? No h nada que possam comer no 
gelo, nem gravetos. Iriam morrer de fome ou de frio. No podemos fazer isso!  exclamou Ayla, transtornada.  No podemos abandon-los assim! No podemos, Jondalar!
     Tem razo, no podemos abandon-los assim. No seria justo. Eles sofreriam demais... No entanto... Temos lanas e o arremessador de lanas...
     No! No!  gritou Ayla.  No permitirei!
     Seria melhor do que deix-los aqui para morrerem lentamente, sofrerem. Cavalos j foram... caados.  o que a maioria das pessoas faz.
     Mas esses animais no so como os outros. Huiin e Racer so amigos. Faz muito tempo que estamos juntos. Eles nos ajudaram. Huiin salvou minha vida. No posso 
abandon-la.
     Sofro com isso tanto quanto voc  disse Jondalar.  Mas o que podemos fazer?  A ideia de matar o garanho, depois de percorrerem juntos uma distncia to 
grande, era quase insuportvel, e ele conhecia os sentimentos de Ayla em relao a Huiin.
     Vamos voltar. Temos de voltar. Voc disse que havia outro caminho!
     J viajamos dois dias neste gelo, e os cavalos esto quase aleijados. Podemos tentar retornar, Ayla, mas no acre dito que eles consigam.  Jondalar no tinha 
certeza de que mesmo Lobo suportaria o regresso. Encheu-se de culpas e remorso.  Sinto muito, Ayla. Foi culpa minha. Foi estupidez minha imaginar que poderamos 
atravessar esta geleira com os cavalos. Devamos ter escolhido o caminho de contorno, mas acho que agora  tarde demais.
    Ayla viu lgrimas em seus olhos. Pouqussimas vezes o vira chorar. Embora no fosse raro que os homens dos Outros chorassem, era do feitio de Jondalar esconder 
essas emoes. De certa forma, aquilo tornou o amor dela mais intenso. Ele se dera, quase completamente, somente a ela, e Ayla o amava, mas no podia renunciar a 
Huiin. A gua era sua amiga, a nica com que ela contava no vale at Jondalar aparecer.
            Temos de fazer alguma coisa, Jondalar!    soluou.
     Mas, o qu?  Nunca se sentira to frustrado diante da impossibilidade de achar uma soluo.
     Bem, no momento  disse Ayla, enxugando as lgrimas que lhe congelavam o rosto , vou tratar dos ferimentos deles. Ao menos isso eu posso fazer.  Abriu a 
bolsa de remdios.  Vamos ter de fazer uma fogueira, esquentar gua. No ser apenas derreter gelo.
    Ayla tirou a pele de mamute de cima das pedras de queimar e estendeu-a no gelo. Notou algumas marcas de fogo na pele macia, mas o fogo no furara o couro. Disps 
as pedras do rio num lugar diferente, perto do meio, como base sobre a qual acender o, fogo. Pelo menos no tinham mais que se preocupar em conservar combustvel. 
Podiam deixar para trs a maior parte.
    Nada falava, pois as palavras no lhe saam da garganta, e Jondalar tambm no achava o que dizer. Todos os planos e preparativos feitos para a travessia da 
geleira... frustrados por uma coisa que nem mesmo fora cogitada! Ayla olhou para a pequena fogueira. Lobo arrastou-se at ela e ganiu, no de dor, mas por perceber 
que alguma coisa ia mal. Ayla examinou-lhe as patas de novo. No estavam to mal. Ele podia controlar melhor onde punha os ps, e cuidadosamente lambia neve e gelo 
quando paravam. Mas Ayla no queria pensar na possibilidade de perder tambm a ele.
    Fazia algum tempo que ela no pensava conscientemente em Dure, embora ele estivesse sempre presente em sua memria, como uma dor fria que ela jamais haveria 
de esquecer. Agora, porm, ps-se a pensar nele. Teria comeado j a caar com o Cl? Teria aprendido a usar uma funda? Uba seria uma boa me para ele, cuidaria 
do menino, faria sua comida, prepararia para ele roupas quentes de inverno. Ayla estremeceu, pensando no frio, e lembrou-se ento das primeiras roupas de inverno 
que Iza fizera para ela. Como tinha gostado do gorro de pele de coelho, que tinha o plo voltado para dentro! Tambm as coberturas de ps para o inverno tinham o 
plo virado para dentro. Lembrou-se da vez que usara um par de coberturas novas, artefatos simples que ela ainda sabia fazer. Eram formadas somente por um pedao 
de couro, arregaado e preso no tornozelo. Depois de certo tempo, ajustavam-se  forma dos ps, embora de incio incomodassem um pouco. Mas at isso era engraado, 
esperar que as coberturas novas se ajustassem direito.
    Ayla se deteve a olhar para o fogo, vendo a gua comear a borbulhar. Alguma coisa a afligia. Era uma coisa importante, tinha certeza. Alguma coisa ligada a...
    De repente, ela prendeu a respirao.
     Jondalar! Ah, Jondalar!
    Ela lhe pareceu nervosa.
     O que h de errado, Ayla?
            De errado, nada. Vai dar certo  gritou ela.  Acabei de me lembrar de uma coisa!
    Jondalar achou o comportamento dela estranho.
            No estou entendendo  disse. Por acaso a ideia de perder os cavalos fora demasiado penosa para ela? Ayla puxou a pesada pele de mamute, atirando uma 
brasa diretamente em cima do couro.
     D-me uma faca, Jondalar. Sua faca mais afiada.
     Minha faca?
     Isso mesmo, sua faca. Vou fazer botas para os cavalos!
     Como vai fazer isso?
            Vou fazer botas para os cavalos, e tambm para Lobo. Com esse couro de mamute!
            Como vai fazer isso?
            Vou cortar crculos de pele. Depois, corto buracos em torno das bordas, passo um cordel por eles e os amarro em volta da perna dos animais. Se o couro 
de mamute impede que o gelo corte nossos ps, vai proteger tambm os cascos deles  explicou Ayla.
    Jondalar pensou por um momento, visualizando o que ela descrevera. Depois sorriu.
     Ayla! Acho que vai dar certo. Pela Grande Me, acho que vai dar certo! Que ideia maravilhosa! Como foi que pensou nisso?
     Era assim que Iza fazia botas para mim.  assim que a gente do Cl faz coberturas para os ps. E tambm para as mos. Estou tentando me lembrar se eram desse 
tipo as que Guban e Yorga usavam. Pode no acreditar, mas depois de algum tempo elas se ajustam  forma de seus ps.
     E haver couro suficiente?
     Creio que sim. Enquanto a fogueira est acesa, vou terminar de preparar esse remdio para os ferimentos, e talvez um pouco de ch para ns. Faz dois dias que 
no tomamos ch e  provvel que no tenhamos outra oportunidade, at termos passado por todo esse gelo. Vamos ter de conservar combustvel, mas acho que uma taa 
de ch viria em boa hora.
     Acho que tem razo!  concordou Jondalar, sorrindo outra vez.
    Ayla examinou com cuidado cada um dos cascos dos cavalos, limpou as partes sujas, aplicou o medicamento e depois prendeu as botas de couro de mamute neles. No 
comeo, os animais tentaram tirar as estranhas coberturas, mas estavam bem presas e logo se habituaram a elas. Ayla pegou o conjunto que preparara para Lobo e prendeu 
as botas nele. O animal tentou mastigadas, procurando livrar-se delas, mas da a pouco tambm ele desistiu.
    Na manh seguinte, diminuram um pouco a carga sobre cada um dos animais. Haviam queimado um pouco do carvo, e o pesado couro de mamute estava agora nas patas 
deles. Ayla descarregou os cavalos quando pararam para descansar, e passou a transportar um pouco mais ela prpria. No entanto, no podia nem pensar em transportar 
a carga que os cavalos robustos eram capazes de levar. Apesar da distncia percorrida, os cascos e patas pareciam muito melhor naquela noite. As patas de Lobo pareciam 
perfeitamente normais, o que representou um enorme alvio para Ayla e Jondalar. As botas tinham ainda uma vantagem inesperada: funcionavam como uma espcie de sapatos 
de neve quando havia neve funda, e com isso os animais, grandes e pesados, no afundavam tanto.
    Com algumas variaes, manteve-se o modelo do primeiro dia. Progrediam mais na parte da manh; de tarde havia sempre neve e vento, com maior ou menor intensidade. 
s vezes conseguiam viajar um pouco mais depois da tormenta, s vezes tinham de ficar onde tinham parado e ali passar a noite. De certa feita, tiveram de esperar 
no acampamento dois dias, mas nenhuma das nevascas foi to feroz quanto a que tinham enfrentado no primeiro dia.
    A superfcie da geleira no era to regular e lisa como parecera naquela primeira alvorada estonteante. Os viajantes encontravam, por vezes, enormes bancos de 
neve, causados por tempestades localizadas. Aqui e ali, onde ventos impetuosos limpavam a superfcie, tinham de superar salincias rugosas ou caam em valas pouco 
profundas, prendendo os ps em buracos e quase torcendo os tornozelos. Rajadas repentinas sopravam sem aviso prvio, os ventos eram quase incessantes e a todo momento 
tinham de preocupar-se com fendas invisveis, recobertas por frgeis camadas de gelo ou bancos de neve.
    Contornavam rachaduras abertas, sobretudo perto do centro, onde o ar seco continha to pouca umidade que as neves no eram pesadas o suficiente para preencher 
as cavidades. E jamais cessava o frio  feroz, cortante, enregelante. O hlito congelava-se no plo de seus capuzes, em torno da boca; uma gota d'gua que casse 
de uma taa congelava-se antes de chegar ao cho. Seus rostos, expostos aos ventos e ao sol crestante, estavam rachados, pelados, enegrecidos. A queimadura pelo 
gelo era urna ameaa constante.
    A exausto comeava a cobrar seu tributo. Suas reaes j se tornavam mais lentas, tal como o raciocnio. Uma tremenda tempestade vespertina continuara noite 
adentro. De manh, Jondalar estava ansioso por prosseguir viagem. Haviam perdido muito mais tempo do que ele planejara. No frio inimaginvel, a gua levava mais 
tempo para esquentar, e o suprimento de pedras de queimar estava diminuindo.
    Ayla procurava alguma coisa na mochila; depois comeou a vasculhar em torno da pele de dormir. No conseguia lembrar-se havia quantos dias estavam na geleira, 
mas achava que j eram excessivos, pensava enquanto procurava.
            Depressa, Ayla! Por que est demorando tanto?  perguntou Jondalar, impaciente.
     No acho meus protetores de olhos.
     Eu lhe avisei que no os perdesse. Quer ficar cega?  explodiu ele.
            No, no quero ficar cega. Por que acha que estou  procura deles?  replicou a moa.
    Jondalar arrancou-lhe a pele das mos e sacudiu-a vigorosamente. Os protetores caram ao cho.
            Da prxima vez, preste ateno neles  disse Jondalar.  Agora, vamos logo.
    Terminaram rapidamente de arrumar as coisas, mas Ayla estava amuada e se recusava a conversar. Ele se aproximou e conferiu os aprestos dela, como em geral fazia. 
Ayla pegou a corda de Huiin e partiu na frente, saindo antes que Jondalar pudesse examinar os atacadores da mochila.
            Pensa que no sei fazer isso? Voc disse que queria ir logo. Por que est perdendo tempo?  gritou ela, por cima do ombro.
    Ele s tentara ser cuidadoso, pensou Jondalar com raiva. Ela nem sabe qual  o caminho. Vamos esperar at comear a rodar em crculos. A ela vir me pedir que 
a ajude, pensou ele, seguindo-a.
    Ayla estava com frio e exausta da marcha sem fim. Avanava resoluta, sem atentar onde pisava. Se ele quer tanto correr, ento vamos correr, pensou. Se algum 
dia sairmos desse gelo, nunca mais quero voltar a ver uma geleira.
    Lobo corria, nervoso, entre Ayla e Jondalar. No estava gostando da sbita mudana de posio. O homem alto sempre ia na frente. O lobo saltou  frente da mulher, 
que caminhava s cegas, desatenta a tudo menos ao frio infernal e a seu amor-prprio ferido. De repente, parou bem diante dela, bloqueando-lhe o caminho.
    Puxando a gua, Ayla contornou-o e continuou. Lobo correu de novo e mais uma vez postou-se  sua frente. Ela no lhe deu ateno. O animal lambeu-lhe as pernas, 
mas ela o empurrou. Correu um breve trecho e depois sentou-se, uivando para chamar-lhe a ateno. Ayla passou por ele sem olhar. Lobo correu na direo de Jondalar, 
estacou e ganiu diante dele, deu alguns saltos na direo de Ayla, ganindo, e depois avanou de novo para o homem.
            Alguma coisa de errado, Lobo?  perguntou Jondalar, notando enfim a agitao do animal.
    De repente, ouviu um som aterrorizante, um estrondo abafado. Ergueu a cabea no momento em que fontes de neve difana encheram o ar.
            No! Ah, no!  gritou Jondalar, tomado de angstia, e correndo. Quando a neve amainou, havia um animal, sozinho, na beira de uma fenda abissal. Lobo 
apontou o focinho para o cu e ps-se a uivar, desolado.
    Jondalar estendeu-se no gelo, na borda da fenda, e olhou para baixo.
            Ayla!  bradou, desesperado.  Ayla!  Sentiu um n no estmago. Sabia que era intil. Ela jamais o escutaria. Estava morta, no fundo de um precipcio 
aberto no gelo.
            Jondalar?
    Ele ouviu uma vozinha fraca e assustada, que vinha de muito longe.
            Ayla?  Sentiu uma onda de esperana e olhou para baixo. L embaixo, bem distante, em p num estreito ressalto de gelo, em torno da parede glacial, 
estava a mulher aterrorizada.  Ayla, no se mexa!  ordenou.  Fique inteiramente imvel. Esse ressalto pode desabar tambm.
    Est viva, pensou ele. Nem posso acreditar.  um milagre. Mas como vou tir-la dali?
    No interior do abismo gelado, Ayla encostava-se na parede, agarrando-se desesperadamente a uma rachadura e a um fragmento saliente, petrificada de medo. Estivera 
avanando com neve at os joelhos, perdida em seus pensamentos. Estava cansada de tudo: cansada do frio, cansada de lutar na neve, cansada da geleira. A caminhada 
na neve lhe esgotara as energias, e ela se achava  beira da exausto fsica e mental. Embora prosseguisse sempre, tinha o pensamento fixo em chegar ao fim da geleira 
angustiante.
    Fora arrancada de seu ensimesmamento por um estalo sonoro. Teve a sensao nauseante de que o gelo slido cedia sob seus ps, e de repente se lembrara de um 
terremoto ocorrido muitos anos antes. Instintivamente, procurara agarrar-se em alguma coisa, mas o gelo e a neve no ofereciam apoio. Sentiu-se caindo, quase a sufocar 
em meio ao desabamento da ponte de neve que rura debaixo de seus ps, e no fazia ideia de como terminara naquele ressalto estreito.
    Olhou para cima, temerosa de mexer-se, com medo de que a mais ligeira mudana de peso soltasse seu precrio apoio. L em cima, o cu se mostrava quase negro, 
e ela julgou ver o bruxuleio de estrelas. Vez por outra, uma fatia ocasional de gelo ou flocos de neve caam lentamente.
    O ressalto onde ela se encontrava era uma extenso saliente de uma superfcie mais antiga, havia eras sepultada por neves mais novas. Prendia-se num mataco 
spero que fora arrancado  rocha quando a neve encheu um vale e transbordou pelas encostas de um outro, adjacente. O rio de gelo, fluindo majestosamente, acumulava 
enormes quantidades de p areia, cascalho e mataces, que se desprendiam da rocha dura e que eram morosamente transportados em direo  corrente mais rpida em 
seu centro. Essas morenas formavam longas fitas de detritos na superfcie,  medida que avanavam. Quando a temperatura por fim se elevava o suficiente para derreter 
as gigantescas geleiras, deixavam marcas de sua passagem em cristas e colinas de rochas heterogneas.
    Enquanto esperava, com medo de mexer-se e procurando manter-se quieta, Ayla escutava leves murmrios e rudos abafados na profunda caverna de gelo. A princpio 
pensou que fosse imaginao sua. No entanto, a massa de gelo no era to slida como parecia na superfcie. Estava continuamente a se reajustar, dilatar, deslocar-se, 
deslizar. O estrondo explosivo de uma nova fenda que se abria ou fechava em um ponto distante, na superfcie ou nas profundezas da geleira, enviava vibraes atravs 
do slido de estranha viscosidade. A grande montanha de gelo achava-se pontilhada de catacumbas: passagens que terminavam de repente, longas galerias que davam voltas, 
desciam ou lanavam-se para o alto; bolses e cavernas que se abriam, convidativas... e depois se fechavam.
    Ayla ps-se a olhar em torno. As nuas paredes de gelo brilhavam com uma tonalidade luminosa, incrivelmente azul, que tinham um matiz de verde. Com um sobressalto, 
lembrou-se de que tinha visto aquela cor antes mas apenas em um lugar. Os olhos de Jondalar eram daquele mesmo azul profundo e assombroso! Voltaria a v-los outra 
vez? Os planos fraturados do imenso cristal de gelo davam-lhe a sensao de misteriosos movimentos fugazes, um pouco alm de sua viso perifrica. Ela percebia que 
se virasse a cabea com suficiente rapidez, veria uma sombra efmera desaparecer nas paredes espelhadas.
    Mas tudo aquilo era iluso, provocada por ngulos e luzes. O cristal de gelo filtrava a maior parte dos raios vermelhos do orbe ardente no cu, deixando o profundo 
verde-azulado, enquanto as bordas e os planos das superfcies matizadas, espelhadas, faziam jogos de refrao e reflexo.
    Ayla olhou para o alto ao sentir um chuveiro de neve. Viu a cabea de Jondalar assomar na borda do precipcio, depois o pedao de corda que descia, como uma 
serpente, em sua direo.
     Ayla, amarre a corda na cintura  gritou ele  e amarre com fora. Avise quando estiver pronta.
    Estava cometendo o mesmo equvoco, pensou Jondalar. Por que ele sempre conferia o que ela fazia, se sabia que Ayla era mais do que capaz de fazer as coisas direito? 
Por que dizer-lhe alguma coisa que era da maior obviedade? Ela sabia que a corda tinha de ser presa com segurana. Fora por isso que ela se aborrecera, saindo na 
frente, e estava agora naquela situao mais do que perigosa... Mas devia ter pensado melhor.
            Estou pronta, Jondalar  gritou ela, depois de passar a corda em torno de si e dar-lhe muitos ns.  Esses ns no vo soltar-se.
            Muito bem. Agora, segure-se na corda. Vamos pux-la para cima.
    Ayla sentiu a corda retesar-se, depois ergu-la do ressalto. Seus ps pendiam no ar e ela se sentia subindo devagar em direo  borda do abismo. Viu o rosto 
de Jondalar e seus belos olhos azuis. Agarrou a mo que ele estendeu para ajud-la a transpor a borda. Da a um instante estava na superfcie de novo, e Jondalar 
a estreitava nos braos. Ela se apertou a ele com fora.
     Pensei que nunca mais a veria  disse ele, beijando-a com ardor.  Desculpe por ter gritado com voc, Ayla. Eu sei que voc sabe arrumar suas coisas.  que 
me preocupo demais.
     No, foi culpa minha. No devia ter sido to negligente com meus protetores de olhos, nem devia ter sado correndo em sua frente. Ainda no conheo bem o gelo.
            Mas eu deixei que voc agisse assim, e devia ter pensado melhor.
            Eu devia ter pensado melhor  disse Ayla ao mesmo tempo. Sorriram um para o outro, achando graa da inadvertente coincidncia de palavras.
    Ayla sentiu um puxo na cintura e viu que a outra ponta da corda estava presa ao garanho. Racer a puxara de dentro do abismo. Ela logo desfez os ns na cintura, 
enquanto Jondalar cuidava do animal. Por fim, ela teve de usar uma faca para cortar a corda. Fizera tantos ns e os apertara tanto  tinham ficado ainda mais apertados 
enquanto o cavalo a arrastava  que era impossvel desfaz-los.
    Contornando a fenda que provocara tamanho desastre, continuaram na marcha pelo gelo, em direo ao sudoeste. Comeavam a preocupar-se seriamente com o suprimento 
de pedras de queimar.
     Quanto tempo ainda falta para chegarmos ao outro lado, Jondalar?  perguntou Ayla de manh, depois de derreter gelo para todos.  No nos sobram muitas pedras.
     Eu sei. Segundo meus planos, j deveramos estar l, mas as tormentas causaram atrasos maiores do que imaginei, e estou preocupado com a possibilidade de o 
tempo virar enquanto ainda estivermos na geleira. Isso pode acontecer muito depressa  respondeu Jondalar, sondando o cu com cuidado.  Acho que a mudana vir 
em breve.
            Por qu?
     Estive pensando naquela discusso boba que tivemos antes de voc cair no precipcio. Lembra-se que todos nos avisaram sobre os espritos maus que so empurrados 
pelo derretedor das neves?
     Foi mesmo!  exclamou Ayla.  Solandia e Verdegia disseram que eles fazem a gente se irritar, e eu estava muito nervosa. Ainda estou. Sinto-me to cansada 
e doente que tenho de me forar para continuar andando. Poderia ser por causa disso?
            Era o que eu estava pensando. Ayla, se isso for verdade, temos de correr. Se o foehn chegar enquanto ainda estivermos na geleira, todos ns podemos 
cair nas fendas  disse ele.
    Da em diante procuraram racionar as pedras castanhas de turfa, bebendo gua mal derretida. Ayla e Jondalar passaram a carregar suas bolsas de gua cheias de 
neve, debaixo das parkas, para que o calor de seus corpos derretesse o suficiente para eles e Lobo. Mas isso no bastava. Seus corpos no eram capazes de derreter 
gelo suficiente para os cavalos, e logo a ltima pedra de queimar foi consumida. Alm disso, acabara tambm o alimento para os animais. Ayla notou que eles mascavam 
gelo, mas isso a deixou preocupada. Tanto a desidratao como o consumo direto de gelo poderia resfri-los, e com isso no manteriam uma temperatura corporal suficiente 
para suportar o frio glacial da geleira.
    Os dois cavalos tinham-se chegado a ela,  procura de gua, depois de terem armado a tenda, mas tudo que Ayla pde fazer foi dar-lhes alguns goles de sua prpria 
gua e quebrar um pouco de gelo para eles. No houvera a habitual tormenta da tarde naquele dia, e tinham caminhado at quase ao cair da noite escura. Tinham percorrido 
uma boa distncia e deviam estar contentes, mas Ayla sentia um estranho mal-estar. Teve dificuldade para dormir naquela noite. Tentou convencer-se de que estava 
apenas preocupada com os animais.
    Jondalar tambm permaneceu acordado por muito tempo. Achava que o horizonte parecia mais prximo, mas tinha medo de que isso fosse fruto de sua ansiedade e no 
quis tocar no assunto. Finalmente adormeceu, mas despertou no meio da noite e deu com Ayla tambm acordada. Levantaram-se ao primeiro raio tnue, e quando partiram 
as estrelas ainda luziam no firmamento.
    No meio da manh, o vento mudara, e Jondalar teve certeza de que seus piores temores estavam para materializar-se. O vento no era quente, apenas menos frio, 
mas soprava do sul.
            Depressa, Ayla! Temos de correr  disse, quase saindo em disparada. Ela assentiu e o acompanhou.
    Ao meio-dia o cu estava claro, e a brisa que lhes roava os rostos era clida, quase um blsamo. A fora do vento cresceu, tornando-se bastante forte para retardar-lhes 
os movimentos quando se apoiavam nele. E seu calor, varrendo a superfcie dura do gelo, era uma carcia mortfera. As rajadas de neve seca logo se tornaram midas 
e compactas, transformando-se depois em chuva. Pequenas poas de gua comearam a formar-se em pequenas depresses. Tornaram-se mais fundas e ganharam um azul vvido 
que parecia irradiar do meio do gelo, mas nem a mulher nem o homem tinham tempo ou disposio para apreciar tal beleza. Agora os cavalos dispunham de gua com fartura, 
mas isso representava um triste consolo.
    Uma nvoa branca comeou a subir, mantendo-se prxima  superfcie. O vento quente do sul a dissipava antes que ela pudesse subir de mais. Jondalar passou a 
usar uma lana comprida para testar o caminho, e estava quase correndo, e Ayla se esforava para acompanh-lo. Desejava poder saltar em cima de Huiin e deixar que 
o animal a levasse, porm um nmero cada vez maior de fendas se abria no gelo. Jondalar tinha quase certeza de que o horizonte estava mais prximo, mas agora o nevoeiro 
baixo tornava as distncias ilusrias.
    Pequenos riachos comearam a formar-se na superfcie do gelo, ligando as poas e tornando a caminhada mais perigosa. Os viajantes espadanavam gua, sentindo 
o frio glido penetrar e depois esguichar das botas. De repente, a poucos passos diante deles, um enorme trecho do que parecia ser gelo slido desabou, expondo um 
abismo hiante. Lobo ganiu e uivou. Os cavalos recuaram, guinchando de medo. Jondalar virou-se e acompanhou a borda da fenda, procurando um caminho.
            Jondalar, no consigo mais continuar. Estou exausta. Tenho de parar  disse Ayla com um soluo, e ps-se a chorar.  Nunca vamos conseguir.
    Jondalar parou, voltou e a consolou.
     Estamos quase chegando, Ayla. Olhe. J podemos ver como a borda est prxima.
     Mas quase camos dentro de um precipcio, e algumas dessas poas se transformaram em lagoas.
            Voc quer ficar aqui?  perguntou ele.
    Ayla respirou fundo.
            No, claro que no  respondeu.  No sei por que estou chorando assim. Se ficarmos aqui, com certeza morreremos.
    Jondalar rodeou a enorme fenda, mas ao se voltarem outra vez para o sul, os ventos tinham-se tornado to fortes como tinham sido os do norte, e eles podiam sentir 
a temperatura subindo. Riachos convertiam-se em torrentes que cruzavam o gelo de um lado para outro e se juntavam em rios. Contornaram mais duas fendas e puderam 
ver o que havia alm da geleira. Percorreram em passadas largas a pequena distncia, e depois puseram-se a olhar para baixo, do alto da borda.
    Haviam atingido o outro lado da geleira.
    Logo debaixo deles esguichava, da parte mais baixa do gelo, uma catadupa de gua leitosa. A distncia, abaixo da linha das neves, havia uma tnue pelcula verde-claro.
     Quer parar aqui e descansar um pouco?  perguntou Jondalar, mas com expresso preocupada.
     Tudo que quero  sair desse gelo. Podemos descansar ao chegarmos quela campina  respondeu Ayla.
     Ela est mais distante do que parece. Aqui no  lugar para se correr ou ser negligente. Vamos nos amarrar uns aos outros, e acho que voc deve descer primeiro. 
Se escorregar, posso suportar seu peso. Escolha o caminho com cuidado. Podemos puxar os cavalos.
     No, no acho que devamos fazer isso. Creio que o melhor  tirarmos seus cabrestos e as cargas, e tambm os varais, e deixarmos que eles mesmos achem o caminho 
de descida.
     Talvez voc tenha razo, Ayla, mas nesse caso teremos de deixar a carga aqui... a menos...
    Ayla viu para onde ele olhava.
     Vamos pr tudo dentro do bote e deixar que ele deslize!  disse ela.
     A no ser uma pequena mochila com alguns objetos de necessidade mais imediata, que podemos carregar  props ele, sorrindo.
     Se prendermos tudo bem e vermos por onde o bote desce, com certeza poderemos ach-lo depois.
     E se ele se quebrar?
     O que poderia quebrar?
            A estrutura  respondeu Jondalar.  Mas mesmo que isso acontea, provavelmente o revestimento de couro h de aguentar a carga.
     E tudo o que estiver dentro dela, no ?
     Com certeza.  Jondalar sorriu.  Acho que  uma boa ideia.
    Depois de rearrumarem a carga dentro do barco de fundo redondo, Jondalar pegou uma pequena mochila com objetos essenciais, enquanto Ayla puxava Huiin. Ainda 
que um pouco assustados, seguiram pela borda  procura de um caminho. Como que para compensar as demoras e os perigos que haviam enfrentado na travessia, logo encontraram 
o declive suave de uma morena, com seu cascalho, que prometia passagem, logo depois de uma subida um pouco mais ngreme de gelo liso. Arrastaram o bote at ali, 
e Ayla soltou o tren. Retiraram os cabrestos e as cordas dos cavalos, mas no as botas de couro de mamute. Ayla examinou-as para ter certeza de que estavam bem 
presas; haviam-se ajustado  forma dos cascos. Depois conduziram os animais at o alto da morena.
    Huiin relinchou, e Ayla a aquietou, falando na linguagem de sinais, sons e palavras inventadas.
            Huiin, voc precisa descer sozinha  disse a mulher.  Ningum est mais capacitada a encontrar o caminho no gelo do que voc.
    Jondalar animou o jovem garanho. A descida seria perigosa, tudo poderia acontecer, mas pelo menos tinham atravessado a geleira com os cavalos. Agora, eles teriam 
de descer por si ss. Lobo andava de um lado para outro, nervoso, tal como fazia quando tinha de saltar num rio.
    Instada por Ayla, Huiin foi a primeira a transpor a borda, pisando com cuidado. Racer a seguiu e logo se distanciou. Ao chegarem a um trecho liso, deslizaram 
um pouco, mas procuraram descer mais depressa para se equilibrar. Estariam l embaixo, em segurana ou no, quando Ayla e Jondalar completassem a descida.
    Lobo gania na beirada da geleira, com o rabo entre as pernas, sem disfarar o medo que sentiu ao ver os cavalos descerem.
     Vamos empurrar o bote para baixo e sair tambm. O caminho  longo e no ser fcil  disse Jondalar.
    Ao empurrarem o bote para a beirada do gelo, Lobo de repente saltou para dentro dele.
     Ele deve estar pensando que vamos atravessar um rio  disse Ayla.  E bem que eu gostaria de flutuar nesse gelo.
    Os dois se entreolharam e comearam a sorrir.
     O que voc acha?  perguntou Jondalar.
     Por que no? Voc disse que o casco aguentaria.
     Mas, e ns?
     Vamos descobrir!
    Mudaram algumas coisas de lugar, para abrir espao, e entraram no bote, com Lobo. Jondalar enviou um pensamento de esperana  Me e, usando um dos varais do 
tren, empurrou o barco para baixo.
     Segure-se!  disse, quando comearam a descer.
    Ganharam velocidade depressa, a princpio numa rota retilnea. Bateram ento num montculo, e o bote saltou e rodopiou. Deram uma guinada para o lado, subiram 
por um leve aclive e viram-se literalmente a voar. Ambos gritaram de emoo e susto. Caram com um solavanco que os fez pular, inclusive o lobo, rodopiaram novamente 
enquanto se seguravam com fora. O lobo tentava agachar-se no fundo do bote e ao mesmo tempo meter o focinho para fora.
    Ayla e Jondalar suportavam como podiam a descida veloz. No tinham controle algum sobre a embarcao que deslizava pela encosta da geleira. Corria para a esquerda 
e a direita, saltava e derrapava, como se tomada de selvagem alegria, mas estava muito carregada, o que a impedia de virar de cabea para baixo. Embora o homem e 
a mulher gritassem involuntariamente, no podiam deixar de rir. Nunca nenhum dos dois tinha passado por experincia to emocionante, mas ela tardava a chegar ao 
fim.
    No haviam pensado em como seria o fim da descida, mas ao se aproximarem do fundo da geleira, Jondalar lembrou-se da habitual fenda que separava o gelo do solo. 
Uma queda violenta no cascalho poderia atir-los para fora do bote, causando-lhes ferimentos ou coisa pior, mas o barulho no lhe causou grande impresso quando 
o escutou pela primeira vez. S ao carem com um baque forte e um espadanar de gua no meio de uma trovejante corredeira de guas turvas foi que ele se deu conta 
de que a descida pelo gelo molhado e escorregadio os levara ao rio de guas derretidas que tinham visto a esguichar do fundo da geleira.
    Foram cair no final das corredeiras com outro espadanar de gua, e logo estavam a flutuar serenamente no meio de um laguinho de leitosas guas esverdeadas. Lobo 
demonstrava felicidade, lambendo-lhes os rostos. Por fim, sentou-se e levantou a cabea num uivo de comemorao.
    Jondalar olhou para a mulher.
     Ayla, ns conseguimos! Conseguimos! Descemos da geleira!
     Foi mesmo, no?  Ayla era toda sorrisos.
     Mas foi uma loucura perigosa  disse ele.  Podamos ter ficado machucados, ou at morrido.
     Pode ter sido perigoso, mas foi divertido  respondeu Ayla, com os olhos brilhando de emoo.
    Diante de seu entusiasmo contagiante, Jondalar teve de sorrir, apesar de sua preocupao em lev-la at o destino em segurana.
     Tem razo. Foi divertido, e bem que merecemos. No acredito que eu venha a querer atravessar uma geleira de novo. Duas vezes na vida basta, mas ser bom poder 
dizer que o fiz. E nunca me esquecerei dessa descida.
     Agora tudo o que temos a fazer  chegar  terra  disse Ayla, apontando para a margem , e depois encontrar Huiin e Racer.
    O sol se punha, e no lusco-fusco era difcil enxergar. A friagem da noite fizera a temperatura cair abaixo de zero outra vez. Podiam ver a segurana confortadora 
da massa escura de terra firme, misturada com trechos de neve, em torno do permetro do lago, mas no sabiam como chegar l. No tinham um remo, e haviam deixado 
o varal do tren em cima da geleira.
    Entretanto, embora o lago parecesse parado, o degelo glacial criava sob a superfcie uma corrente que estava a empurr-los lentamente para a margem. Quando se 
aproximaram dela, ambos saltaram do bote, seguidos pelo lobo, e puxaram a embarcao para terra. Lobo se sacudiu, espalhando gua, mas nem Ayla nem Jondalar o notaram. 
Estavam nos braos um do outro, expressando seu amor e o alvio por terem finalmente alcanado terra firme.
     Ns conseguimos. Estamos quase em casa, Ayla. Estamos quase em casa  disse Jondalar, apertando-a com alegria.
    A neve em torno do lago comeava a recongelar, transformando-se numa camada de gelo duro. Atravessaram o trecho de cascalho quase no escuro e de mos dadas, 
at chegarem a um campo. No havia lenha com que acender uma fogueira, mas no se importaram. Comeram o alimento concentrado que os mantivera na geleira e depois 
beberam gua das bolsas que haviam enchido. A seguir, armaram a tenda e estenderam as peles de dormir, mas antes de se recolherem Ayla lanou um olhar a distncia, 
imaginando onde estariam os cavalos.
    Assoviou, chamando Huiin, e esperou ouvir o barulho de cascos, mas nada aconteceu. Depois de observar as nuvens que rodopiavam no cu, assoviou de novo. Agora 
estava escuro demais para procurar os animais. Aquilo teria de ficar para a manh seguinte. Ayla aninhou-se em suas peles de dormir, ao lado do homem alto, e estendeu 
a mo para afagar o lobo enrodilhado ao lado dela. Pensava nos cavalos ao mergulhar num sono profundo. O homem olhou para a desalinhada cabeleira loura da mulher 
a seu lado, cuja cabea repousava no ombro dele, e mudou de ideia com relao a levantar-se. No havia mais necessidade de pressa, mas a ausncia de preocupaes 
imediatas o deixava desnorteado. Ele precisava lembrar-se continuamente que haviam atravessado a geleira. Caso quisessem, podiam ficar deitados o dia inteiro.
    A geleira ficara agora para trs, e Ayla estava em segurana. Jondalar estremeceu ao lembrar-se de que ela escapara por um triz e apertou-a com mais fora. A 
mulher levantou o corpo no cotovelo e olhou para ele, como tanto gostava de fazer. A luz mortia do interior da tenda suavizava o azul forte de seus olhos, e sua 
testa, sempre franzida de concentrao ou desassossego, estava relaxada agora. Ayla correu um dedo pelas rugas de sua testa, e depois desenhou-lhe os traos.
     Sabe de uma coisa? Antes de eu conhecer voc, ficava a pensar em como seria um homem. No um homem do Cl, mas um homem de minha raa. Nunca consegui. Voc 
 bonito, Jondalar.
    Ele riu.
     Ayla, as mulheres  que so bonitas. Os homens, no.
     Ento, um homem  o qu?
     Voc pode dizer que ele  forte ou valente.
     Voc  forte e valente, mas isso no  a mesma coisa que ser bonito. O que voc diria de um homem que  bonito?
     Acho que "bem-apessoado".  Jondalar ficou um pouco embaraado. Fora qualificado assim muitas vezes.
     Bem-apessoado...  repetiu Ayla.  Gosto mais de "bonito".  uma coisa que eu entendo.
     Jondalar riu de novo, com aquela sua risada surpreendentemente luxuriosa. O calor desinibido do gesto foi inesperado, e Ayla ficou a olhar para ele. Estivera 
to srio durante a viagem! Havia sorrido, mas raramente rira alto.
     Se quer me chamar de bonito, tudo bem  disse ele, puxando-a mais para si.  Como posso objetar que uma mulher bonita me chame de bonito?
    Ayla sentiu os espasmos do riso dele, e comeou tambm a rir.
     Adoro ver voc rindo, Jondalar.
     E eu adoro voc, mulher engraada.
    Ele a abraou quando pararam de rir. Sentindo-lhe o calor e os seios macios e cheios, levou a mo a um deles e se abaixou para beij-la. Ayla meteu a lngua 
em sua boca e percebeu que reagia com um surpreendente desejo por ele. J fazia algum tempo... Durante todo o perodo que haviam passado na geleira, ambos estavam 
sempre to ansiosos e cansados que nunca entravam no clima. E no poderiam faz-lo, mesmo que quisessem.
    Jondalar entendeu a nsia da companheira e tambm seu prprio desejo repentino. Rolou-a de lado enquanto se beijavam. Depois, afastando as peles, beijou-a no 
pescoo e na nuca, a caminho do seio. Envolveu o bico duro com os lbios e o comprimiu.
    Ayla gemeu ao sentir um estremecimento de inacreditvel Prazer correr por todo o corpo, com uma intensidade que a deixou arquejante. Estava pasma com sua prpria 
reao. Ele mal a tocara, e ela j estava pronta, sentia tamanha volpia. No havia passado tanto tempo assim, no era? Comprimiu o corpo contra o dele.
    Jondalar tocou com a mo a sede dos Prazeres entre as coxas dela, sentiu o boto trgido e o massageou. Com alguns gritos, ela atingiu um sbito clmax e estava 
pronta. Desejava-o.
    Jondalar sentiu-lhe o repentino calor molhado. Sua fome era agora igual  dela. Empurrando as peles para o lado, ela se abriu para ele. Jondalar lanou-se com 
ardor a ela.
    Ayla comprimiu-se nele ao ser penetrada profundamente. Jondalar ouviu-lhe os gritos de felicidade. Ela precisara de sua virilidade, e ele encarara a tudo com 
naturalidade. Aquilo era mais do que alegria, mais do que Prazer.
    Estava to pronto quanto ela. Recuou, penetrou-a de novo, somente uma vez mais e, de repente, no havia como retardar mais. Sentiu sua seiva crescer, assomar 
e transbordar. Com alguns movimentos finais, exauriu-se e depois descansou sobre ela.
    Ayla ficou muito quieta, de olhos fechados, sentindo-lhe o peso e aquela sensao maravilhosa. No queria mexer-se. Quando ele enfim se levantou e olhou para 
ela, teve de beij-la. Ayla abriu os olhos.
     Foi maravilhoso, Jondalar  disse, lnguida e satisfeita.
     Foi rpido. Voc estava pronta. Ns dois estvamos. E voc est com um sorriso muito estranho no rosto at agora.
      porque estou muito feliz.
     Eu tambm  disse ele, voltando a beij-la. Depois, rolou para o lado.
    Ficaram ali deitados por algum tempo e adormeceram de novo. Jondalar despertou antes de Ayla, e ps-se a observ-la enquanto ela dormia. O sorriso estranho reapareceu. 
Com que ela estaria sonhando? No pde resistir. Beijou-a de leve e acariciou-lhe o seio. Ela abriu os olhos. Estavam dilatados, grandes e lquidos, cheios de segredos 
profundos.
    Ele beijou cada uma de suas plpebras, mordiscou uma orelha e depois o bico do seio. Ela sorriu quando ele levou a mo  macia colina dos Prazeres e tateou seus 
plos macios e receptivos, fazendo-o desejar que estivessem apenas comeando, em vez de terem terminado havia pouco. De repente ele a abraou com fora, beijou-a 
com voluptuosidade, afagou-lhe o corpo, os seios e as ndegas. No conseguia afastar as mos dela, como se o fato de quase a ter perdido no precipcio criasse uma 
necessidade to profunda quanto aquele abismo que a quisera roubar. No se cansava de toc-la, apert-la, am-la.
     Nunca imaginei que eu me apaixonasse  disse ele, relaxando de novo e afagando preguiosamente sua nuca.  Por que ser que tive de viajar alm do fim do Rio 
da Grande Me para encontrar uma mulher que eu pudesse amar?
    Ele estivera pensando nisso desde o momento em que, despertando, ocorreu-lhe que j estavam quase em casa. Era bom estar daquele lado da geleira, mas estava 
cheio de expectativas, pensando em todos, ansioso por v-los.
     Foi porque meu totem destinou voc a mim. O Leo da Caverna guiou voc.
     Ento, por que a Me fez com que nascssemos to distantes um do outro?
    Ayla levantou a cabea e olhou para ele.
     Estive aprendendo, mas ainda sei muito pouco sobre os desgnios da Grande Me Terra, nem sobre os espritos protetores dos totens do Cl, mas de uma coisa 
eu sei: voc me achou.
     E depois, quase a perdi.  Uma torrente de medo frio apertou-lhe o peito.  Ayla, o que seria de mim se a perdesse?  disse ele, com a voz embargada pela emoo, 
que raramente demonstrava. Rolou de lado, cobrindo o corpo dela com o seu, e enterrou a cabea no pescoo dela, apertando-a com tanta fora que ela mal conseguia 
respirar.  O que seria de mim?
    Ayla comprimiu-se contra ele, desejando que houvesse algum meio de tornar-se parte dele, e foi com gratido que abriu-se de novo para ele ao sentir que novamente 
crescia o desejo de Jondalar. Com uma ansiedade to exigente quanto seu amor, ele a tomou quando ela se ofereceu, dadivosa.
    Tudo terminou ainda mais depressa, e com o espasmo final a tenso da feroz emoo deles fundiu-se num clido ocaso. Quando ele fez meno de se afastar para 
o lado, ela o segurou, por querer prolongar a intensidade do momento.
     Eu no desejaria viver sem voc, Jondalar  disse, retomando a conversa de antes.  Um pedao de mim iria com voc para o mundo dos espritos, eu nunca mais 
seria uma pessoa inteira. Mas tenho sorte. Pense em todas as pessoas que nunca encontram o amor, e naquelas que
amam algum que no pode am-las.
     Como Ranec?
     , como Ranec. Ainda sinto uma dor dentro de mim quando penso nele.
    Jondalar rolou de lado e sentou-se.
     Sinto pena dele. Eu gostava de Ranec... ou poderia ter gostado.  De repente, sentiu-se ansioso por prosseguir a viagem.  Desse jeito, nunca vamos chegar 
 caverna de Dalanar  disse, comeando a enrolar as peles de dormir.  Estou com muita vontade de rev-lo.
     Mas antes temos de encontrar os cavalos  disse Ayla.

43
___________________________________________________________________________

    Ayla levantou-se e saiu da tenda. Uma nvoa pairava perto do solo, e o ar mido lhe gelava a pele nua. Podia escutar o estrondo da cachoeira a distncia, mas 
o vapor se adensava num nevoeiro espesso do outro lado do lago, uma longa e estreita massa de agua esverdeada, tao turva que era quase opaca.
    Peixe algum vivia em tal gua, ela tinha certeza, do mesmo modo que nenhuma vegetao medrava nas margens. O lago era demasiado jovem para sustentar vida. S
havia ah aguas e pedras, alem de uma sensao de tempo antes do tempo, de primrdios antigos, anteriores ao inicio da vida Ayla estremeceu e teve um vislumbre da 
terrvel solido da Grande Me Terra, antes que Ela desse  luz todos os seres viventes.
    Atravessou correndo o trecho de cascalho ate a margem entrou na gua e mergulhou. O lago era glido e cheio de partculas. Ayla desejava banhar-se - isso no 
fora possvel enquanto atravessavam a geleira , mas no naquela gua. No se importava tanto com o frio, mas queria gua clara e doce.
    Voltou para a tenda, a fim de vestir-se e ajudar Jondalar a arrumar as coisas No caminho, olhou atravs da nvoa que envolvia a paisagem dedada e viu a sombra 
de um arvoredo. De repente, sorriu.
     Ento vocs esto a! - disse, emitindo um sonoro assovio.
    Jondalar saiu da tenda num salto. Sorriu tanto quanto Ayla ao ver os cavalos galopando na direo deles. Lobo os seguia, e Ayla achou que ele estava satisfeito 
consigo mesmo. No estivera ali por perto de manh, e provavelmente desempenhara algum papel na volta dos cavalos. Balanou a cabea ao se dar conta de que nunca 
viria a saber.
    Saudaram os animais com abraos, carcias, brincadeiras e palavras de afeto Ao mesmo tempo, Ayla os examinava com cuidado, para ter certeza de que no tinham-se 
ferido. Faltava a bota da pata traseira direita de Huiin e a gua pareceu sentir dor quando Ayla lhe examinou a perna Quem sabe ela teria irrompido pelo gelo na 
borda da geleira e, ao se livrar dele, arrancado a bota e machucado a perna? Era a nica explicao a seu alcance.
    Ayla tirou as outras botas da gua, levantando cada uma das patas para desfazer os ns enquanto Jondalar segurava o animal. Racer conservava ainda suas botas, 
embora Jondalar notasse que j mostravam sinais de desgaste nas bordas. Nem mesmo o couro de mamute durava muito tempo quando usado em cima de cascos.
    Depois de terem juntado todas as coisas e arrastado o bote para mais perto, descobriram que seu fundo estava molhado. Surgira um furo.
     Acho que eu no tentaria mais atravessar um rio com isso  comentou Jondalar. - Acho que devemos deixa-lo por aqui?
     Temos de fazer isso, a no ser que ns mesmos o arrastemos. No temos mais os varais para fazer o tren. Ns os deixamos l em cima quando descemos pelo gelo, 
e no h rvores aqui para fazermos outros.
     Bem, ento est resolvido  disse Jondalar.   bom no termos mais de arrastar pedras, e aliviamos tanto nossa carga que acho que poderamos carregar tudo 
ns mesmos, sem os cavalos.
     Se eles no tivessem voltado, seria isso o que faramos enquanto os procurssemos. Estou feliz por eles terem descoberto a ns.
     Eu tambm estava preocupado  disse Jondalar.
    Enquanto desciam a ngreme encosta sudoeste do antigo macio, caiu uma chuva fina, enchendo buracos de neve suja na floresta de conferas por que passavam. Entretanto, 
uma tonalidade verde de aquarela coloria a terra marrom de uma campina ondulada e tocava de leve as pontas de arbustos prximos. L embaixo, atravs de aberturas 
na bruma, lobrigaram um rio que corria de oeste para norte, forado pelas montanhas circundantes a seguir pelo leito de um vale profundo. Do outro lado do rio, na 
direo do sul, os alcantilados contrafortes alpinos esmaeciam-se numa nvoa prpura, da qual se alteava, espectral, a alta cordilheira, com as encostas cobertas 
de gelo at o meio.
            Voc vai gostar de Dalanar  disse Jondalar, enquanto cavalgavam lado a lado.  Vai gostar de todos os Lanzadonii. A maioria deles eram Zelandonii como 
eu.
            O que o levou a comear uma nova Caverna?
     No sei ao certo. Eu era pequeno quando ele e minha me se separaram, e na verdade s vim a conhec-lo quando fui morar em sua companhia. Foi ele quem ensinou-nos, 
a Joplaya e a mim, a trabalhar a pedra. No acredito que ele tivesse resolvido iniciar uma nova Caverna antes de conhecer Jerika, mas escolheu aquele local porque 
descobriu a mina de slex. As pessoas j falavam a respeito das pedras dos Lanzadonii quando eu era menino  explicou Jondalar.
     Jerika  a companheira dele, e... Joplaya...  prima sua, no  assim?
     Isso mesmo. Prma-primeira. Filha de Jerika, nascida no fogo de Dalanar. Ela tambm  boa artfice de slex, mas nunca lhe diga que falei isso.  muito brincalhona, 
sempre a inventar das suas. Ser que j tem um companheiro? Grande Me! J faz tanto tempo! Vo ficar surpresos ao nos ver.
     Jondalar!  disse Ayla, num sussurro. Ele estacou.  Olhe ali, perto daquelas rvores.  um veado!
    O homem sorriu.
            Vamos peg-lo!  disse, tirando uma lana, enquanto segurava o arremessador e dava um sinal a Racer com os joelhos. Embora seu mtodo de guiar a montaria 
no fosse exatamente igual ao de Ayla, depois de quase um ano de viagens j era to bom cavaleiro quanto ela.
        Ayla fez Huiin virar quase ao mesmo tempo  a gua mostrava-se satisfeita por estar livre enfim do tren  e ajustou a lana no arremessador. Ao perceb-los, 
o veado ps-se a fugir aos saltos, mas saram em sua perseguio, cada qual de um lado dele, e, com a ajuda das lanas, abateram o animal jovem e inexperiente com 
facilidade. Tiraram as partes de que mais gostavam, selecionaram outras para levarem de presente  gente de Dalanar e depois deixaram que Lobo comesse as partes 
restantes.
        Ao cair da tarde, encontraram um ribeiro borbulhante e de bom aspecto. Seguiram-no at chegarem a um campo aberto com algumas rvores e um matagal  margem. 
Resolveram acampar mais cedo e assar um pouco da carne do veado. A chuva cessara e no tinham mais pressa, embora a todo momento tivessem de lembrar isso um ao outro.
        Na manh seguinte, ao sair da tenda, Ayla ficou boquiaberta com o que viu. A paisagem parecia irreal, lembrando um sonho de particular clareza. Parecia impossvel 
que tivessem enfrentado a mais pungente intensidade do inverno poucos dias antes e que agora, de sbito, fosse primavera!
                Jondalar! Ah, Jondalar, venha ver!
        O homem meteu a cabea para fora do abrigo, ainda sonolento, e ela viu seu sorriso se abrir.
        Achavam-se numa pequena elevao, e o chuvisco e a bruma da vspera tinham dado lugar a um sol brilhante e claro. O cu era de um anil profundo, enfeitado 
com montanhosas nuvens brancas. As rvores e arbustos cobriam-se de rebentos verdes e o capim tinha um aspecto to bonito que quase dava vontade de com-lo. Havia 
flores em profuso  junquilhos, lrios, aquilgias, ris e muitas mais. Pssaros de todas as cores e variedades riscavam o ar, chilreando e cantando.
        Ayla reconheceu a maioria deles  tordos, cotovias, pica-paus  e ps-se a cantar junto com as avezinhas. Jondalar levantou-se e saiu da tenda a tempo de 
ver com admirao que ela, pacientemente, brincava com um picano cinzento na mo.
                No sei como voc faz isso  comentou, quando a ave voou.
        Ayla sorriu.
                Vou procurar alguma coisa fresca e deliciosa para comermos hoje de manh  disse.
        Lobo sumira de novo, e Ayla tinha certeza de que ele estava explorando as redondezas ou caando. Tambm para ele a primavera trazia aventuras. Saiu na direo 
dos cavalos, que estavam no meio da campina, apascentando-se das magnficas hastes de erva tenra. Aquela era a estao da fartura, o tempo da abundncia generalizada.
        Durante a maior parte do ano, as amplas plancies que cercavam os quilomtricos lenis de gelo, assim como as campinas das montanhas, apresentavam-se secas 
e frias. Toda a precipitao se restringia a chuvas esparsas ou neve; em geral as geleiras capturavam a maior parte da umidade que circulava pelo ar. Os ventos glaciais 
mantinham ridos os veres, tornavam a terra seca e dura, com poucos pntanos. No inverno, os ventos faziam com que as neves ralas corressem pelo ar, deixando grandes 
trechos do solo gelado despido de neve, mas cobertos de ervas ressecadas  uma pastagem que sustentava os nmeros incontveis de gigantescos herbvoros.
        No entanto, nem todos os prados so iguais. A rica abundncia da; plancies da poca Glacial dependia menos da quantidade da precipitao  desde que fosse 
suficiente  que da poca em que ocorria; a diferena devia-se  combinao de umidade e ventos ressecantes na proporo certa e no momento correto.
        Devido ao ngulo de incidncia dos raios solares, nas latitudes mais baixas o sol comea a aquecer a terra no muito depois do solstcio de inverno. Nos 
locais onde se acumulou neve ou gelo, a maior parte da luz solar, no comeo da primavera, reflete-se de volta ao espao, e o pouco que  absorvido e convertido em 
calor tem de ser utilizado para derreter a cobertura de neve antes que as plantas possam medrar.
        Nos prados antigos, porm, onde os ventos haviam desnudado as plancies, o sol despejava sua energia sobre o solo escuro e recebia clidas boas-vindas. As 
camadas superiores do gelo, ressequidas e duras, comeavam a se aquecer e degelar, e embora ainda fizesse frio, a abastana de energia solar impelia as sementes 
e as razes a preparar-se para germinar. Entretanto, para que florescessem era necessrio gua em forma utilizvel.
        O gelo cintilante resistia aos raios quentes da primavera, refletindo a luz. No entanto, dada a grande quantidade de umidade nos lenis gelados das montanhas, 
no conseguia rechaar de todo as investidas do sol ou suas carcias de ventos tpidos. Os topos das geleiras comeavam a degelar, um pouco de gua escorria pelas 
fissuras e, lentamente, punha-se a formar correntes, depois rios, que levavam o precioso lquido  terra estorricada durante o vero. Mais importantes, porm, eram 
os nevoeiros e as brumas, que faziam evaporar as massas glaciais de gua congelada, j que enchiam os cus com nuvens de chuvas.
        Na primavera, o calor do sol fazia com que a grande mole de gelo emitisse umidade, em vez de captur-la. Quase que pela nica vez durante todo o ano, a chuva 
no caa sobre a geleira, mas na terra sedenta e frtil que a circundava. O vero da poca Glacial podia ser quente, mas era breve; a primavera era longa e mida, 
levando a um explosivo e profuso desenvolvimento vegetal.
        Tambm os animais da poca Glacial cresciam na primavera, quando tudo estava verde e renovado, alm de carregado dos nutrientes de que necessitavam, e exatamente 
na poca propcia. Luxuriante ou seca, a primavera  a poca do ano em que os animais adicionam tamanho aos ossos jovens, a velhas presas ou cornos, quando adquirem 
galhadas novas e maiores ou perdem as densas pelagens de inverno para ganhar outras, novas. Como a primavera comeava cedo e se prolongava bastante, a estao do 
crescimento para os animais tambm era longa, o que lhes proporcionava tamanhos inauditos, bem como imponentes adornos crneos.
        Durante a prolongada primavera, todas as espcies partilhavam indiscriminadamente da fartura herbcea, mas ao fim da estao verdejante enfrentavam uma feroz 
competio entre si pelas ervas e gramas maduras, menos nutritivas ou digerveis. A concorrncia no se manifestava em discrdias quanto a quem comeria primeiro 
ou mais, ou em defender fronteiras. Os animais manadios das plancies no demarcavam territrios. Percorriam, em suas migraes, enormes distncias e eram altamente 
gregrios, buscando sempre a companhia de sua espcie e dividindo os pastos com outros animais adaptados s pradarias abertas.
        No entanto, sempre que mais de uma espcie de animal mostrava hbitos alimentares ou sociais quase idnticos, era invarivel que somente uma delas prevalecesse. 
As demais adquiriam novas maneiras de explorar outro habitat, utilizavam algum outro elemento da alimentao disponvel, migravam para uma nova rea ou morriam. 
As muitas espcies diferentes de animais herbvoros jamais se punham em competio direta pelo mesmo alimento.
        As lutas davam-se sempre entre machos da mesma espcie, e se restringiam  poca de acasalamento, quando muitas vezes a mera exibio de galhadas particularmente 
imponentes ou de um opulento par de presas ou cornos bastava para estabelecer o domnio e o direito de reproduzir-se  razes geneticamente imperiosas para os esplndidos 
ornamentos, estimulados pelo vioso desenvolvimento primaveril.
        Todavia, finda a saciedade da primavera, a vida para os nmades das estepes voltava  rotina, e nunca era fcil. No vero, tinham de manter o espetacular 
crescimento engendrado pela primavera, crescer e acumular gorduras para a estao rigorosa que se avizinhava. O outono constitua, para alguns, o perodo da reproduo; 
para outros, era o tempo de ganhar pelagens grossas e outras medidas protetoras. No entanto, a poca mais difcil era o inverno; nela, tinham de sobreviver.
        O inverno determinava a capacidade demogrfica da terra; decidia quem haveria de viver e quem morreria. O inverno era penoso para os machos, que tinham maior 
tamanho e pesados ornamentos sociais a conservar ou readquirir. O inverno era penoso para as fmeas, que tinham de nutrir no s a si mesmas com uma quantidade essencialmente
igual do alimento disponvel, como tambm a prxima gerao, estivesse a desenvolver-se em seu ventre ou a amamentar-se  ou ambas as coisas. Mas o inverno era particularmente
penoso para os filhotes, que no tinham o tamanho dos adultos para armazenar reservas e consumiam no crescimento o pouco que haviam acumulado. Se fossem capazes 
de sobreviver ao primeiro ano, suas possibilidades se tornavam muito melhores.
        Nas secas e frias pradarias das geleiras, os animais dividiam entre si o fruto da terra complexa e produtiva; e sobreviviam, apesar de sua diversidade, porque 
os hbitos alimentares e sociais de uma espcie no coincidiam com os de outra. At mesmo os carnvoros tinham presas pre-diletas. Entretanto, uma espcie nova  
inventiva e criativa , uma espcie que menos se adaptava ao ambiente do que o modificava, segundo suas convenincias, comeava a impor sua presena.
        Ayla se achava estranhamente quieta quando pararam para descansar perto de outra corrente gorgolejante, dispostos a terminar de consumir a carne de veado 
e as verduras que tinham cozinhado de manh.
         Agora no est muito longe. Thonolan e eu paramos aqui durante a vinda  disse Jondalar.
          emocionante  respondeu ela, mas com apenas uma parte da ateno voltada para a vista emocionante.
                Por que est to calada, Ayla?
                Estive pensando em seus parentes. Isso me fez lembrar que no tenho nenhum parente.
                Mas voc tem! E os Mamuti? Voc no  Ayla dos Mamuti?
         No  a mesma coisa. Sinto saudades deles, e sempre os amarei, mas no foi difcil partir. Foi mais duro da outra vez, quando tive de abandonar Dure.  
Uma expresso de dor lhe toldou o semblante.
         Ayla, sei que deve ter sido difcil deixar um filho.  Tomou-a nos braos.  Isso no o trar de volta, mas a Me pode lhe dar outros filhos... algum dia... 
talvez at filhos do meu esprito.
         Foi como se ela no tivesse escutado.
         Disseram que Dure era deformado, mas no era verdade. Ele pertencia ao Cl, mas era tambm meu. Era parte deles e de mim. No me achavam deformada, apenas 
feia, e eu era mais alta do que qualquer homem do Cl... Grande e feia...
         Ayla, voc no  grande e feia. Voc  bonita e, lembre-se, meus parentes so seus parentes.
        Ela o encarou.
                At voc aparecer, eu no tinha ningum, Jondalar. Agora tenho voc para amar e um dia, talvez, terei um filho seu. Isso me faria feliz  disse 
ela, sorrindo.
        Seu sorriso o aliviou. Mais ainda, a referncia a um filho. Jondalar conferiu a posio do sol.
                No chegaremos  caverna de Dalanar hoje se no nos apressarmos. Vamos, Ayla, os cavalos precisam de uma boa corrida. Vou galopar atrs de voc 
pela campina. No gostaria de passar outra noite na tenda, agora que estamos to perto.
        Lobo saiu correndo da mata, muito enrgico e brincalho. Deu um salto, apoiou as patas no peito de Ayla e a lambeu. Essa  a minha famlia, pensou ela, enquanto 
o agarrava pelo pescoo peludo. Esse esplndido lobo, a gua fiel e paciente, o cavalo corajoso e o homem, esse homem maravilhosamente carinhoso. Em breve ela iria 
conhecer a famlia dele.
        Mergulhou no silncio enquanto arrumava seus poucos pertences. De repente, comeou a tirar coisas de dentro de um outro saco.
         Jondalar, vou tomar um banho nessa corrente e vestir uma tnica limpa e perneiras  disse ela, despindo a tnica de couro que vinha usando.
         Por que no espera at chegarmos l? Voc vai se congelar, Ayla.  provvel que essas guas venham diretamente da geleira.
         No me importo. No quero que sua famlia me veja, pela primeira vez, toda suja e com ar cansado.
        Chegaram a um rio, do mesmo verde leitoso das guas da geleira, e muito cheio, embora o caudal houvesse de engrossar muito mais quando alcanasse seu pleno 
volume de primavera. Viraram para leste, subindo a corrente, at acharem um ponto que pudessem vadear. Depois tomaram o rumo sudeste, subindo um aclive. A tarde 
caa quando chegaram a uma inclinao que se tornava plana perto de uma parede rochosa. Debaixo de uma salincia escondia-se a abertura escura de uma caverna.
        Havia uma jovem sentada no cho, de costas para eles, cercada por lascas e cacos de slex. Segurava um furador, um pedao de pau pontiagudo, com o qual trabalhava 
uma pedra cinza-escuro, concentrando-se no ponto exato e preparando-se para golpear o furador com um pesado malho de osso. To absorta estava em seu trabalho que 
no notou Jondalar, que se colocava em silncio s suas costas.
                Continue treinando, Joplaya. Um dia voc ser to hbil quanto eu  disse ele, rindo.
        O martelo de osso desceu de maneira errada, despedaando a lmina que ela estava para retirar, pois ela girou o corpo de repente, com uma expresso de atnita 
incredulidade.
                Jondalar! Ah, Jondalar! Ser mesmo voc?  exclamou, atirando-se em seus braos. Enlaando-a pela cintura, ele a ergueu e a rodou no ar. A moa 
se agarrava a ele como se nunca fosse larg-lo.  Me! Dalanar! Jondalar voltou! Jondalar voltou!  gritou ela.
        Vrias pessoas saram da caverna, e um homem mais idoso, alto como Jondalar, correu para ele. Lanaram-se um ao outro. Depois de recuarem, abraaram-se de 
novo.
        Ayla fez um sinal a Lobo, que se ps a seu lado enquanto ela retrocedia e olhava, segurando as cordas dos cabrestos dos cavalos.
                Ento voc voltou! Esteve tanto tempo fora que pensei que no voltaria mais  disse o homem.
        Foi ento que, por cima do ombro de Jondalar, o homem mais velho viu algo de inacreditvel. Dois cavalos, que carregavam no lombo cestas e trouxas, com peles 
estendidas sobre eles, e um lobo imenso, parados ao lado de uma mulher alta, que vestia uma parka de pele e perneiras cortadas de maneira inusitada e enfeitadas 
com desenhos desconhecidos. Jogado para trs, o capuz deixava ver uma densa cabeleira loura que lhe caa em torno do rosto em ondas. Havia em sua fisionomia algo 
que a marcava de forma inequvoca como estrangeira, tal como o corte estranho das vestes, porm tudo isso s lhe acentuava a extrema beleza.
         No vejo seu irmo, mas voc no voltou sozinho - disse o homem.
                Thonolan est morto  respondeu Jondalar, fechando os olhos involuntariamente. E eu tambm estaria, se no fosse Ayla.
                Sinto muito ouvir isso. Eu gostava do rapaz. Willomar e sua me ficaro pesarosos. Mas noto que seu gosto em relao as mulheres no mudou. Voc 
sempre mostrou inclinao por belas zelandnias
        Por que ser que ele achou que Ayla  uma Servidora da Me?, pensou Jondalar. Depois olhou para ela cercada pelos animais e, de sbito viu-a como a veria 
o homem mais velho. Sorriu. Caminhou at a beirada da clareira, pegou a corda de Racer e voltou, seguido por Ayla, Huiin e Lobo.
         Dalanar dos Lanzadonii de as boas-vindas a Ayla dos Mamuti  disse.
        Dalanar estendeu as mos, comas palmas viradas para cima, na saudao de franqueza e amizade. Ayla as segurou.
         Em nome de Doni, a Grande Me Terra, eu a Sado, Ayla dos Mamuti  disse Dalanar.
         Eu o sado, Dalanar dos Lanzadonii  respondeu Ayla, com o apropriado formalismo.  Voc fala bem a nossa lngua para algum que veio de to longe. Tenho 
enorme prazer em conhece-la.  Seu formalismo era abrandado pelo sorriso. Ele notara seu modo de falar e o achava dos mais curiosos.
         Jondalar ensinou-me a lngua - disse ela, sem conseguir afastar os olhos do homem. Relanceou um olhar para Jondalar, depois fitou novamente Dalanar, assombrada 
com a semelhana entre ambos.
        Os cabelos longos de Dalanar eram um pouco mais ralos no alto, e a cintura sena um tanto mais grossa, mas ele tinha os mesmos olhos intensamente azuis - 
com algumas rugas nos cantos - e a mesma testa alta, com sulcos um pouco mais profundos. Tambm a voz era igual o mesmo timbre, o mesmo tom. At mesmo realara a 
palavra prazer do mesmo modo, dando-lhe uma sombra de duplo significado. Era fantstico. O calor das mos dele fez passar por ela uma incipiente onda de excitao. 
A semelhana de Dalanar com Jondalar at mesmo confundira seu corpo por um instante.
        Dalanar percebeu sua reao e sorriu como Jondalar, compreendendo a razo e gostando ainda mais dela por isso. Com aquele sotaque estranho, pensou, ela devia 
ser de um lugar muito distante Ao largar-lhe as mos, o lobo aproximou-se dele de repente, sem medo embora o homem no pudesse dizer que sua reao fosse a mesma. 
Lobo meteu a cabea sob a mo de Dalanar, querendo sua ateno, como se o conhecesse. Para sua prpria surpresa, Dalanar deu consigo a afagar o belo animal, como 
se fosse perfeitamente natural brincar com um enorme lobo vivo.
        Jondalar riu.
                Lobo est pensando que voc sou eu. Todo mundo sempre disse que somos parecidos. Daqui a pouco voc vai estar montado em Racer.  Estendeu a corda 
do animal na direo do homem.
                Voc disse "montando em Racer"?  admirou-se Dalanar.
         Isso mesmo. Viajamos montados nesses cavalos durante a maior parte de nossa viagem para c. Dei ao garanho o nome de Racer  explicou Jondalar.  A gua 
de Ayla chama-se Huiin, e essa fera que gostou tanto de voc chama-se Lobo. Em Mamuti quer dizer lobo.
         Como foi que voc arranjou um lobo e cavalos...  comeou Dalanar.
         Dalanar, que modos so esses? No acha que as outras pessoas querem conhec-la e ouvir o que ela tem a contar?
        Ainda ligeiramente aturdida com a espantosa semelhana entre Dalanar e Jondalar, Ayla virou-se para a pessoa que falara... E mais uma vez no pde deixar 
de espantar-se. A mulher no se parecia com ningum que ela j tivesse visto. Os cabelos, repuxados e presos num rolo atrs da cabea, eram de um negro reluzente, 
riscado de cinza nas tmporas. Mas foi o rosto que mais chamou a ateno de Ayla. Era redondo e chato, com malares altos, um nariz diminuto e escuros olhos oblquos. 
O sorriso da mulher contradizia-lhe a voz severa, e Dalanar sorriu ao olhar para ela.
                Jerika!  exclamou Jondalar, sorrindo de alegria.
                Jondalar! Que bom ter voc de volta!  Abraaram-se com bvia afeio.  J que esse urso que  meu homem no tem educao, por que no me apresenta 
 sua companheira? E pode tambm me dizer por que esses animais esto parados a e no saem correndo?
        Ela se interps entre os dois homens, que pareciam gigantes perto dela. Tinham exatamente a mesma altura, e o alto da cabea de Jerika mal chegava ao meio 
do peito deles. No entanto, a mulherzinha tinha gestos rpidos e enrgicos. Lembrava a Ayla uma ave, uma impresso realada por seu porte diminuto.
         Jerika dos Lanzadonii, por favor, sade Ayla dos Mamuti.  ela a responsvel pelo comportamento dos animais  disse Jondalar, sorrindo para a mulherzinha 
com a mesma expresso de Dalanar.  Melhor do que eu, ela pode lhe explicar por que eles no fogem.
         Voc  bem-vinda, Ayla dos Mamuti  disse Jerika, estendendo as mos.  E tambm os animais, se voc puder prometer que eles mantero essa conduta to 
esquisita.  Mirava Lobo enquanto fa lava.
         Eu a sado, Jerika dos Lanzadonii.  Ayla retribuiu-lhe o sorriso. A mulher tinha uma fora surpreendente nas mos. E tambm, percebeu Ayla, um carter 
compatvel com essa fora.  O lobo no far mal a ningum, a menos que algum nos ameace. Ele  gentil, mas muito protetor. Os cavalos ficam um pouco nervosos perto 
de estranhos, e podero empinar se muita gente os rodear, e isso pode ser perigoso. Seria melhor as pessoas se manterem distantes no comeo, at eles conhecerem 
todos melhor.
         Isso faz sentido, mas estou satisfeita por nos ter dito  respondeu Jerika. A seguir, olhou para Ayla com fixidez desconcertante.  Voc veio de muito 
longe. Os Mamuti vivem alm da foz do Donau.
         Conhece a terra dos Caadores de Mamutes?  perguntou Ayla, surpresa.
         Sim, e ainda mais alm, a leste, embora eu no me lembre de tudo. Hochaman gostar de falar com voc sobre isso. Nada lhe agradaria mais do que haver mais 
uma pessoa disposta a escutar suas histrias. Minha me e ele vieram de uma terra perto do Mar Sem Fim, o ponto mais a leste onde h terras. Eu nasci no caminho. 
Vivemos com muitas pessoas, s vezes durante vrios anos. Lembro-me dos Mamuti. Boa gente. timos caadores. Queriam que ficssemos com eles  relatou Jerika.
         Por que no ficaram?
         Hochaman ainda no estava disposto a radicar-se em lugar algum. Seu sonho era viajar at o fim do mundo, at onde ainda houvesse terras. Conhecemos Dalanar 
algum tempo depois que minha me morreu, e decidimos ficar para ajud-lo a explorar a mina de slex. Mas Hochaman viveu o suficiente para realizar seu sonho  disse 
ela, olhando para o companheiro, um homem alto.  Viajou desde o Mar Sem Fim, a leste, at as Grandes guas, a oeste. Dalanar o ajudou a terminar sua Jornada, isso 
h alguns anos, e teve de carreg-lo nas costas a maior parte do caminho. Hochaman derramou lgrimas ao ver o grande mar ocidental, e depois as lavou com gua salgada. 
Agora j no pode caminhar muito, mas ningum fez uma Jornada to longa como Hochaman.
         Ou voc, Jerika  acrescentou Dalanar, com orgulho.  Voc percorreu quase a mesma distncia.
         Hummm.  Jerika deu de ombros.  No foi por deciso minha. Mas estou a censurar Dalanar,  que falo demais.
        Jondalar enlaou a cintura da mulher a quem causara surpresa.
                Gostaria de conhecer sua companheira de viagem  disse ela.
         Desculpe  disse Jondalar.  Ayla dos Mamuti, esta  minha prima, Joplaya dos Lanzadonii.
         Eu a sado, Ayla dos Mamuti  disse a moa, estendendo as mos.
         Eu a sado, Joplaya dos Lanzadonii  disse Ayla. Sentia-se, de repente, constrangida por causa de seu sotaque e satisfeita por ter vestido uma tnica limpa 
debaixo da parka. Joplaya era to alta quanto ela, talvez um pouquinho mais. Tinha os malares pronunciados da me, mas o rosto no era to chato e o nariz era como 
o de Jondalar, apenas mais delicado e bem-feito. As sobrancelhas escuras combinavam-se bem com os longos cabelos pretos, e espessos clios negros emolduravam olhos 
que tinham algo do amendoado dos olhos da me. No entanto, eram luminosamente verdes!
        Joplaya era uma mulher de pasmosa beleza.
         Estou feliz por conhec-la  disse Ayla.  Jondalar tem falado muito a seu respeito.
         Que bom! Ento ele no me esqueceu por completo  respondeu a moa.  Deu um passo atrs, mas Jondalar a abraou de novo.
        Muitas outras pessoas haviam-se reunido ali, e Ayla foi apresentada formalmente a cada um dos membros da Caverna. Todos estavam curiosos em relao  mulher 
que Jondalar tinha trazido, mas as perguntas e os olhares a deixaram embaraada, e Ayla ficou satisfeita quando Joplaya interveio.
         Acho que devemos guardar algumas perguntas para depois. Tenho certeza de que ambos tm muitas histrias a contar, mas devem estar cansados. Venha, Ayla, 
vou lhe mostrar onde poder ficar. Os animais precisam de alguma coisa em especial?
         S tenho de tirar as cargas de cima deles e achar um lugar onde possam pastar. Lobo ficar l dentro conosco, se vocs no objetarem  disse Ayla.
        Percebeu que Jondalar estava entretido numa animada conversa com Joplaya, e ela prpria tirou as cargas dos dorsos dos animais, mas se apressou a levar as 
coisas para dentro da caverna.
         Acho que me lembro de um lugar ideal para os cavalos  disse Jondalar.  Vou lev-los l. Quer manter o cabresto de Huiin? Vou prender Racer com uma corda 
comprida.
         No, acho que no. Ela vai ficar perto de Racer.  Ayla notou que ele estava felicssimo, nem era preciso ter feito aquela pergunta. Mas, por que no? 
Aquelas pessoas eram a sua parentela.  Mas eu vou com voc.
        Caminharam at um pequenino vale, atravessado por um regato. Lobo foi com eles. Depois de ter prendido bem a corda de Racer, Jondalar fez meno de voltar 
 caverna.
         No vai voltar?  perguntou.
         Vou ficar com Huiin um pouco mais  respondeu Ayla.
         Nesse caso, posso carregar suas coisas.
         Por favor.  Ele parecia ansioso por regressar  Caverna, e Ayla no o censurava. Fez um sinal a Lobo para que ficasse com ela. Todos eles, menos Jondalar, 
precisavam de um pouco de tempo para se habituar ao local. Ao voltar, Ayla o procurou e o encontrou conversando com Joplaya. Hesitou em interromper.
         Ayla  disse ele ao v-la , eu estava falando a Joplaya sobre Wymez. Mais tarde voc lhe mostra a ponta de lana que ele lhe deu?
        Ayla assentiu, e Jondalar virou-se de novo para Joplaya.
                Espere s at v-la. Os Mamuti so excelentes caadores de mamutes, e usam nas lanas pontas de slex, e no de osso. A pedra fura melhor o couro 
grosso, sobretudo se as lminas forem finas. Wymez criou uma nova tcnica. A ponta  talhada nas duas faces, mas no como se
fosse um machado grosseiro. Ele esquenta a pedra... e a est a diferena. Com isso ele retira lascas mais delicadas e mais finas. Ele consegue produzir uma ponta 
mais comprida do que minha mo, mas muito estreita e afiadssima. Sem ver, voc no acredita.
        Estavam to prximos um do outro que seus corpos se tocavam enquanto Jondalar explicava animadamente os pormenores da nova tcnica, e a descontrada intimidade 
entre os dois deixou Ayla inquieta. Haviam vivido juntos durante a adolescncia. Que segredos ele contara a ela? Que alegrias e tristezas tinham partilhado? Que 
frustraes e triunfos haviam dividido entre si enquanto aprendiam a difcil arte de talhar o slex? At onde Joplaya o conhecia muito melhor do que ela?
        Antes, ambos tinham sido estranhos para as pessoas que encontravam durante a Jornada. Agora, somente ela era uma estranha.
        Jondalar voltou-se para Ayla.
                Alis, vou l buscar essa ponta. Em qual cesta est?  perguntou, j a caminho.
        Ela lhe disse e sorriu nervosamente para a moa de cabelos escuros depois que ele se foi, mas nenhuma das duas disse uma palavra. Jondalar voltou quase de 
imediato.
                Joplaya, eu pedi a Dalanar que viesse aqui... H muito tempo quero mostrar a ele essa ponta. Espere at voc v-la  disse Jondalar.
        Abriu o pacote e mostrou uma ponta de slex de esmerado lavor, no momento exato em que Dalanar chegava. Ao ver a obra-prima, Dalanar tirou-a da mo de Jondalar 
e examinou-a com ateno.
          inigualvel! Nunca vi um artesanato de tamanha qualidade  exclamou Dalanar.  Veja s isto, Joplaya.  trabalhada nas duas faces, mas  delgadssima, 
pois foram tirados flocos muito finos. Pense no controle, na concentrao que esse trabalho ter exigido. At o toque dessa ponta  diferente. E o brilho! Parece 
quase... oleosa! Onde voc conseguiu isto? No leste o tipo de slex  diferente?
         No,  um novo processo, criado por um Mamuti chamado Wymez.  o nico artfice que j conheci que pode ser comparado a voc, Dalanar. Ele aquece a pedra. 
 isso que lhe d esse brilho, e essa textura. Mas o melhor de tudo  que, depois de aquecida, podem-se remover essas lascas.  Jondalar falava com muita animao.
        Ayla ps-se a observ-lo.
                A pedra quase solta as lascas por si s...  isso que permite esse controle. Vou mostrar como ele fez. No sou to hbil quanto ele... preciso treinar 
para aprimorar a tcnica... mas vocs vo compreender. Quero encontrar alguns bons pedaos de slex enquanto estivermos aqui. Com os cavalos, podemos carregar um 
peso maior, e eu gostaria de levar para casa algumas boas pedras dos Lanzadonii.
         Aqui tambm  sua casa  disse Dalanar, com tranquilidade.  Mas  claro que amanh podemos ir  mina e retirar pedras novas. Eu gostaria de ver como se 
faz isto, mas ser mesmo uma boa ponta de lana? Parece to fina, to bonita, at frgil demais para ser usada numa caada real.
         Eles usam essas pontas de lana para caar mamutes. Realmente, quebram-se com mais facilidade, mas o slex afiado rompe o couro grosso melhor do que uma 
ponta de osso e penetra entre as costelas  disse Jondalar.  Quero tambm mostrar a vocs uma outra coisa. Criei isso quando estava me recuperando do ataque do 
leo da caverna, no vale de Ayla.  um arremessador de lana. Com ele, uma lana atinge uma distncia duas vezes maior. Esperem at ver como isso funciona!
         Acho que esto esperando a gente para a refeio, Jondalar  disse Dalanar, ao notar pessoas que acenavam na boca da caverna.  Todos ho de querer ouvir 
suas histrias. Entre ali, onde voc poder estar  vontade e todo mundo o escutar. Voc nos desperta a curiosidade com esses animais que obedecem s suas ordens 
e com seus comentrios sobre ataques de lees, arremessadores de lanas e novas tcnicas de talhar o slex. Quais outras aventuras e prodgios tem a nos contar?
        Jondalar riu.
                Ns ainda nem comeamos. Voc acreditaria se lhe dissssemos que vimos pedras que produzem fogo e pedras que queimam? Habitaes feitas de ossos 
de mamute, pontas de marfim que puxam fios, e barcos imensos, usados para matar peixes to grandes que seriam necessrios
cinco homens de seu tamanho, um em cima do outro, para ir do focinho at o rabo...
        Ayla jamais vira Jondalar to feliz e descontrado, to solto e desinibido, e percebeu o quanto ele estava feliz por reencontrar sua gente.
        Ele enlaou Ayla e Joplaya enquanto caminhavam na direo da caverna.
                Ainda no escolheu um companheiro, Joplaya?  perguntou.  No vi ningum que parecesse ser seu dono.
        Joplaya riu.  No, estive  sua espera, Jondalar.
         L vem voc com suas brincadeiras  disse Jondalar, rindo. Virou-se para explicar a Ayla.  Primos-irmos no podem ser companheiros, voc sabe.
         Eu j planejei tudo  continuou Joplaya.  Pensei em fugirmos e comear nossa prpria Caverna, como fez Dalanar. Mas  claro que s aceitaramos talhadores 
de slex.  Seu riso pareceu forado, e ela olhou apenas para Jondalar.
         Eu no disse, Ayla?  falou Jondalar, virando-se para ela, mas apertando o brao de Joplaya.  Sempre com brincadeiras. Joplaya no pra de brincar.
        Ayla no teve certeza de haver compreendido a brincadeira.
         Falando srio, Joplaya, voc deve estar prometida.
 Echozar me pediu, mas ainda no resolvi.
 Echozar? Acho que no o conheo. Ele  Zelandonii?
          Lanzadonii. Ligou-se a ns faz alguns anos. Dalanar salvou-lhe a vida, ao encontr-lo quase afogado. Acho que ele ainda est na caverna.  acanhado. 
Quando o conhecer, voc vai entender por qu. Ele parece... bem, ele  diferente. No gosta de conhecer estranhos, diz que no quer ir conosco  Reunio de Vero 
dos Zelandonii. Mas  um doce de pessoa e faria tudo por Dalanar.
         Voc ir  Reunio de Vero este ano? Espero que sim, ao menos para o Matrimnio. Ayla e eu vamos nos tornar companheiros.  Dessa vez ele apertou o brao 
de Ayla.
         No sei  respondeu Joplaya, olhando para o cho. Depois, levantou o olhar para ele.  Sempre soube que voc nunca iria ficar com aquela mulher Marona 
que estava  sua espera no ano em que voc partiu, mas no imaginei que voc trouxesse uma mulher.
        Jondalar enrubesceu ante a meno da mulher que ele prometera tomar como companheira e abandonara, mas no notou que Ayla se retesou no momento em que Joplaya 
saiu correndo em direo a um homem que aparecera na entrada da caverna.
                Jondalar! Aquele homem!  Ele captou o tom de sobressalto em sua voz e olhou para ela. Estava branca como cera.
                O que houve, Ayla?
                Ele se parece com Dure! Ou talvez como meu filho ser quando crescer. Jondalar, aquele homem faz parte do Cl!
        Jondalar olhou com mais ateno. Era verdade. O homem que Joplaya estava chamando na direo deles tinha o aspecto do Cl. Mas, ao se aproximarem, Ayla observou 
uma diferena importante entre aquele homem e os homens do Cl que ela conhecia. Ele era quase de sua altura.
        Quando ele chegou perto, ela fez um movimento com uma das mos. Foi sutil. praticamente imperceptvel a todos os demais, porm os grandes olhos castanhos 
do homem arregalaram-se, surpresos.
         Onde aprendeu isso?  perguntou ele, fazendo o mesmo gesto. Tinha a voz grave, mas clara e articulada. Ele no tinha problema algum para falar, sinal claro 
de que era mestio.
         Fui criada por um Cl. Eles me acharam quando eu era muito pequena. No me lembro de nenhuma outra famlia antes disso.
         Foi criada por um Cl? Eles amaldioaram minha me pelo fato de eu ter nascido  respondeu ele com amargura.  Qual Cl a criou?
         Eu achei mesmo que o sotaque dela no era Mamuti  interps Jerika. Vrias pessoas estavam perto deles.
        Jondalar respirou fundo. Soubera desde o incio que as origens de Ayla viriam  baila mais cedo ou mais tarde.
                Quando eu a conheci, Jerika, ela no sabia nem falar, ao menos com palavras. Mas salvou minha vida quando fui atacado por um leo. Foi adotada pelos 
Mamuti no Fogo dos Mamuti por ser muito versada na arte das curas.
         Ela  Mamute? Aquela que Serve  Me? Onde est a marca? No vejo tatuagem alguma em seu rosto  disse Jerika.
         Ayla aprendeu a ser curandeira com a mulher que a criou, uma Xam da gente que ela chama de Cl... cabeas-chatas... mas  to hbil quanto qualquer Zelandoni. 
O Mamute estava apenas comeando a trein-la para Servir  Me quando partimos. Ela no foi iniciada.  por isso que no tem marca  explicou Jondalar.
         Eu sabia que ela era Zelandoni. Tinha de ser, para controlar animais assim, mas como pde aprender a curar com uma mulher cabea-chata?  exclamou Dalanar. 
 Antes de eu conhecer Echozar, achava que eles eram pouco mais do que animais. Com ele vim a saber que podem falar, de certa forma, e agora voc me informa que 
eles tm curandeiros. Devia ter-me dito isto, Echozar.
         Como iria saber? No sou um cabea-chata.  Echozar pronunciou a palavra como se a cuspisse.  S conheci minha me e Andovan.
        Ayla surpreendeu-se com a raiva em sua voz.
                Disse que sua me foi amaldioada? E no entanto ela sobreviveu, para poder cri-lo? Deve ter sido uma mulher extraordinria.
        Echozar fitou diretamente os olhos azuis-acinzentados da mulher alta e loura. No houve hesitao, nenhum movimento tendente a evitar-Ihe o olhar. Sentiu-se 
estranhamente atrado por aquela mulher a quem nunca vira,  vontade com ela.
                Ela no falava muito sobre o assunto  disse Echozar.  Foi atacada por alguns homens, que mataram seu companheiro quando ele quis defend-la. Era 
irmo do lder do Cl dela, e culparam-na pela morte dele. O lder disse que ela trazia azar. Mais tarde, porm, quando ela soube que estava esperando um filho, 
ele a tomou como uma segunda mulher. Quando nasci, ele disse que meu nascimento s comprovava que ela era portadora de azar. No s provocara a morte de seu companheiro 
como dera  luz uma criana deformada. A seguir ele lhe lanou uma maldio... de morte  disse ele.
        Estava conversando com aquela mulher com mais franqueza do que lhe era habitual, e ele prprio se surpreendeu.
         No sei ao certo o que isso significa... uma maldio de morte  prosseguiu Echozar.  Ela s me contou uma vez, e mesmo assim no pde terminar. Disse 
que todo mundo se afastava dela, como se no a enxergassem. Diziam que ela estava morta, e mesmo quando ela tentava fazer com que a olhassem, era como se ela no 
existisse, como se estivesse morta. Deve ter sido terrvel.
          Foi  disse Ayla, baixinho.   difcil continuar a viver se voc no existe para as pessoas a quem ama.  Seus olhos marejaram ao recordar-se.
            Minha me me pegou e os abandonou, para ir embora e morrer, como esperavam que fizesse, mas Andovan a encontrou. J nessa poca era velho, e vivia sozinho. 
Nunca me contou por que havia deixado sua Caverna, era alguma coisa ligada a um lder cruel...
            Andovan...  interrompeu Ayla.  Ele era S'Armunai?
            Era, acho que era  respondeu Echozan.  Ele no falava muito sobre sua gente.
            Sabemos a respeito desse lder cruel  disse Jondalar com raiva.
            Andovan cuidou de ns  continuou Echozar.  Ensinou-me a caar. Aprendeu a falar a lngua do Cl com minha me, mas ela nunca pronunciava mais do que 
algumas poucas palavras. Aprendi as duas lnguas, e ela me admirava por poder pronunciar os sons dele. Andovan morreu h poucos anos, e depois disso minha me perdeu 
a vontade de viver. A maldio de morte finalmente a levou.
     O que voc fez ento?  perguntou Jondalar.
     Passei a viver sozinho.
     No  fcil  disse Ayla.
            No, no  fcil. Tentei achar algum com quem pudesse viver. Nenhum Cl deixava que eu me aproximasse. Jogavam-me pedras e diziam que eu era deformado 
e azarado. E tambm nenhuma Caverna queria saber de mim. Diziam que eu era uma abominao de espritos misturados, meio-homem e meio-animal. Depois de algum tempo, 
parei de tentar. No queria mais ficar sozinho. Um dia pulei no no do alto de uma pedra. A prxima coisa que vi foi Dalanar olhando para mim. Ele me levou para sua 
Caverna. Agora eu sou Echozar dos Lanzadonii  concluiu com orgulho, lanando um olhar para o homem alto a quem idolatrava.
    Ayla pensou no filho, feliz por ele ter sido aceito em criana e por existirem pessoas que o tinham amado e desejado quando ela fora obrigada a deix-lo.
     Echozar, no odeie a gente de sua me  disse ela.  No so ruins. Mas so to antigos que para eles  difcil mudar. Suas tradies so antiqussimas, e 
no compreendem as coisas novas.
     E eles so gente - disse Jondalar a Dalanar. - Esta foi uma das coisas que aprendi nessa Jornada. Conhecemos um casal, pouco antes de comearmos a travessia 
da geleira... isso  outra historia... Mas esto planejando reunies para tratar de problemas que vm enfrentando com alguns de ns, principalmente com alguns rapazes 
Losadunai. Algum ate os procurou para falar sobre comrcio.
     Cabeas-chatas fazendo reunies? Comrcio? Este mundo esta mudando mais depressa do que posso compreender  disse Dalanar.  At eu conhecer Echozar, no teria 
acreditado em nada disso.
     As pessoas podem cham-los de cabeas-chatas e animais mas voc sabe que sua me foi uma mulher valente, Echozar  disse Ayla, estendendo-lhe as mos. - Eu 
sei o que significa no ter ningum. Agora eu sou Ayla dos Mamuti. Vai me dar as boas-vindas, Echozar dos Lanzadonii?
    Ele lhe tomou as mos, e Ayla sentiu que tremiam.
     Voc  bem-vinda aqui, Ayla dos Mamuti  disse.
    Jondalar deu um passo  frente com as mos estendidas.
     Eu o sado, Echozar dos Lanzadonii  disse.
            Eu lhe dou as boas-vindas, Jondalar dos Zelandonii  disse Echozar , mas voc no precisa de que lhe dem boas-vindas aqui. J ouvi falar do filho 
do fogo de Dalanar. Voc  muito parecido com ele.
    Jondalar riu.
      o que todo mundo diz, mas no acha que o nariz dele  um pouco maior do que o meu?
     Eu no acho. Acho que o seu  maior do que o meu  disse Dalanar, rindo, batendo no ombro do homem mais jovem.  Entre. A comida est esfriando.
    Ayla ficou ali um pouco mais, conversando com Echozar. Quando se virou para entrar, Joplaya a deteve.
            Quero conversar com Ayla, Echozar, mas no entre ainda. Quero falar com voc tambm  disse.
    O homem se afastou rapidamente, para deixar as moas a ss, mas no antes de Ayla perceber a expresso de adorao com que ele fitou Joplaya.
            Ayla, eu...  comeou Joplaya.  Eu... acho que sei por que Jondalar a ama. Eu quero dizer... que desejo felicidades a vocs dois.
    Ayla estudou a moa de cabelos escuros. Percebeu nela uma mudana, como se ela se fechasse dentro de si, uma sensao de resoluta deciso. De repente, Ayla entendeu 
por que se sentira to perturbada com a moa.
     Obrigada, Joplaya. Eu o amo muito. Seria difcil viver sem ele. Perd-lo deixaria dentro de mim um enorme vazio e seria difcil suportar isso.
     , muito difcil de suportar  disse Joplaya, fechando os olhos por um instante.
     Vocs no vo entrar para comer?  perguntou Jondalar, saindo da caverna.
            V voc na frente, Ayla. Primeiro tenho de fazer uma coisa.

44
___________________________________________________________________________

         Echozar deu uma olhada no grande pedao de obsidiana, mas logo desviou a vista. As ondulaes do brilhante vidro negro lhe distorciam a imagem, mas nada 
poderia mud-la e hoje ele no queria ver-se. Vestia-se com uma tnica de pele cujas extremidades eram decoradas com penachos, contas de ossos de ave, plumas e pontudos 
dentes de animais. Nunca trajara algo to fino. Fora Joplaya quem lhe confeccionara a rica vestimenta, destinada  cerimnia de sua adoo oficial na Primeira Caverna 
dos Lanzadonii.
        Ao penetrar no grande espao da caverna, sentiu a maciez do couro, o qual alisou com reverncia, lembrando-se de que tinham sido as mos dela que haviam 
confeccionado aquelas vestes. A lembrana da amada quase o feriu. Amara-a desde o incio. Fora ela quem lhe dirigira a palavra, ouvira-o, instigara-o. Jamais ele
enfrentaria todos esses Zelandonii na Reunio de Vero daquele ano se no fosse por ela, e ao v-la cercada por tantos pretendentes, teve vontade de morrer. Foram 
precisos meses para juntar a coragem necessria para declarar-se: como algum como ele poderia atrever-se a sonhar com tal mulher? A ausncia de uma recusa imediata 
alimentara seus sonhos. O sim, porm, tardava tanto que ele o interpretava como uma forma de dizer no.
        Enfim, no dia em que Ayla e Jondalar chegaram, ela perguntou se ele ainda a queria. Echozar no acreditou. Quer-la? Jamais a quisera tanto na vida. Aguardou 
o momento apropriado para falar a ss com Dalanar. As visitas, porm, no o largavam, e Echozar no queria perturb-las. Tambm tinha receio de perguntar. Apenas 
o medo de perder sua nica oportunidade de ser feliz instilou-lhe a necessria coragem.
        Dalanar respondeu-lhe, ento, que ela era filha de Jerika. Ele precisava, pois, conversar com a me da moa, mas tudo que Dalanar perguntara era se Joplaya 
concordava com o romance e se ele a amava. Se ele a amava? Se a amava? , Me, como a amava!
        Echozar postou-se em meio ao grupo que aguardava com expectativa. Sentiu o corao bater mais rpido ao ver Dalanar levantar-se e caminhar em direo a uma 
lareira situada no meio da caverna, em frente  qual havia a pequena escultura de uma mulher de formas generosas. Retratava os seios grandes, o acentuado estmago 
e as ndegas avantajadas das donii. A cabea, porm, era pouco maior que um boto e as pernas e braos eram apenas sugeridos. Dalanar parou ao lado da lareira e 
voltou-se para o grupo.
         Primeiro, desejo anunciar que este ano iremos novamente  Reunio de Vero dos Zelandonii  comeou Dalanar  e convidamos quem quiser ir conosco. A viagem 
 longa, mas espero convencer um jovem Zelandoni a retornar e viver conosco. No temos nenhum Lanzadon e precisamos ter um Servidor a Me. Estamos crescendo e breve 
haver uma Segunda Caverna. Algum dia, os Lanzadonii tero suas prprias Reunies de Vero. H outra razo para ir. No somente ser santificada a unio de Jondalar 
e Ayla no Matrimnio, como ainda teremos este ano outro motivo para celebrar  disse ele.
        Dalanar pegou o cone de madeira que representava a Grande Me e balanou a cabea. Echozar estava nervoso, embora soubesse que essa era apenas uma cerimnia 
de comunicao, bem mais informal que um Matrimnio, com seus tabus e rituais de purificao. Quando ambos postaram-se  sua frente, Dalanar comeou.
                Echozar, Filho de Mulher abenoada pela Doni, da Primeira Caverna de Lanzadonii, pediste Joplaya, Filha de Jerika, companheira de Dalanar, para 
ser tua companheira. Confirmas isto?
          verdade  disse Echozar, to baixo que mal se podia escutar.
         Joplaya, Filha de Jerika, companheira de Dalanar...
        Embora as palavras no fossem as mesmas, o significado era idntico, e Ayla, soluante, tremeu ao relembrar a cerimnia em que se postara ao lado de um homem 
moreno que a olhava do mesmo modo que Echozar contemplava Joplaya.
                No chore, Ayla, esta  uma ocasio alegre  instou Jondalar, abraando-a com ternura.
        Ayla mal podia falar. Sabia como uma mulher se sente ao lado do homem errado. Para Joplaya no havia, porm, nenhuma esperana, nem mesmo o sonho de que, 
algum dia, o homem que ela amava pudesse desafiar os costumes por seu amor. Ele nem sabia que era to amado, e ela nada podia dizer. Tratava-se de um primo prximo, 
quase um irmo, um amor impossvel e, alm disso, ele amava outra mulher. Ayla sentiu a dor da outra como se fosse sua e soluou ao lado do homem que ambas amavam.
         Estive me lembrando de quando fiquei assim ao lado de Ranec  desabafou ela.
        Jondalar foi tomado por uma viva recordao. Sentiu um aperto no peito e uma dor na garganta. Abraou-a com fora:
                , mulher, assim voc logo me far chorar.
        O homem olhou para Jerika, sentada com inflexvel dignidade, enquanto as lgrimas escorriam-lhe pela face. Por que as mulheres sempre choram nessas ocasies?, 
refletiu.
        Jerika olhou para Jondalar com uma expresso insondvel, depois para Ayla, soluando baixinho em seus braos.
          hora de casar, hora de afastar sonhos impossveis. Nem todas podem ter o homem perfeito  murmurou, voltando-se para a cerimnia.
         ...A Primeira Caverna dos Lanzadonii aceita essa unio?  perguntou Dalanar, levantando os olhos.
                Aceitamos  responderam todos em coro.
                Echozar, Joplaya, vocs prometeram unir-se. Que Doni, Grande Me da Terra, abenoe essa unio  concluiu o lder, tocando com a imagem de madeira 
o alto da cabea de Echozar e o estmago de Joplaya. Em seguida, recolocou a donii na frente da lareira, fincando na terra as pernas em forma de cavilha para que 
a imagem permanecesse em p.
        O casal virou-se para o grupo e comeou a andar lentamente em volta da lareira. No silncio solene, o inefvel ar de melancolia que cercava a linda mulher 
tornava-a ainda mais adorvel.
        O homem ao seu lado era um pouco mais baixo. Seu narigo adunco avanava sobre o forte maxilar sem queixo que se projetava para a frente. A enorme fronte 
saliente destacava-se ainda mais devido s grossas e desalinhadas sobrancelhas que cruzavam a testa de ponta a ponta, numa linha contnua de plos. Os braos eram 
muito musculosos, enquanto o enorme peitoral e o corpo alongado sustentavam-se sobre pernas curtas, peludas e arqueadas. Eram essas caractersticas que o marcavam 
como pertencente ao Cl. Contudo, ele no poderia ser chamado de cabea-chata. Ao contrrio dos demais, no tinha a testa curta e inclinada que terminava num largo 
topo  a aparncia achatada em forma de abbora que lhes valera a designao. Em vez disso, a fronte de Echozar erguia-se acima dos superclios salientes com a mesma 
regularidade e altura encontrada em todos os outros habitantes da caverna.
        Echozar, porm, era incrivelmente feio. A anttese da mulher ao seu lado. Somente seus olhos, grandes e castanhos, no justificavam a afirmao. Estavam 
to cheios de terna adorao pela mulher amada que at abafavam a indescritvel tristeza que pairava na atmosfera por onde Joplaya se movia.
        No entanto, nem mesmo o amor de Echozar conseguia vencer a dor que Ayla sentia por Joplaya. Ela enterrou a cabea no peito de Jondalar para fugir  viso 
que tanto a feria, embora lutasse para dominar a desolao.
        Quando o casal completou a terceira volta, os votos de boa sorte quebraram o silncio. Ayla deteve-se para se recompor. Finalmente, instada por Jondalar, 
aproximaram-se para externar seus votos de felicidade.
         Joplaya, estou contente por voc estar celebrando seu Matrimnio conosco  disse Jondalar, abraando-a. A noiva agarrou-se a ele, que se surpreendeu com 
a intensidade do abrao. Jondalar sentiu uma desconfortvel sensao de que ela se despedia, como se jamais fosse voltar a v-lo.
         No preciso desejar-lhe felicidade, Echozar  afirmou Ayla.  Em vez disso, direi que desejo que voc seja sempre to feliz como est agora.
         Com Joplaya, como poderia ser de outra forma?  respondeu. Num gesto espontneo, Ayla o abraou. Para ela, ele no era feio. Tinha uma confortadora aparncia 
familiar. Ele demorou um pouco para retribuir. Afinal, as mulheres bonitas no o abraavam com frequncia, e ele sentia uma clida afeio por essa mulher loura.
        Ayla voltou-se ento para Joplaya. Ao contemplar aqueles olhos, to verdes quanto os de Jondalar eram azuis, as palavras que pretendia pronunciar prenderam-se 
em sua garganta. Com um choro dolorido abraou Joplaya, que lhe deu tapinhas nas costas, como se fosse Ayla quem necessitasse de consolo.
                Est tudo bem, Ayla  disse Joplaya com uma voz que soava oca, vazia. Seus olhos estavam secos.  Que mais eu poderia fazer? Jamais encontrarei 
um homem que me ame como Echozar. Sei h muito tempo que me casaria com ele. No havia, pois, nenhum motivo para esperar mais.
        Ayla retrocedeu, lutando para controlar as lgrimas que vertia pela mulher que no as podia derramar. Viu Echozar aproximar-se e pousar o brao, timidamente, 
na cintura de Joplaya, como se ainda no conseguisse acreditar que tudo era verdade. Temia acordar e descobrir que aquilo no passara de um sonho. Echozar no sabia 
que tinha apenas o invlucro da mulher amada. Que importava? O exterior era suficiente.
         Bem... no. No vi com meus prprios olhos  desconversou Hochaman  e no posso afirmar que acreditei quando me contaram. Mas se voc  capaz de montar 
num cavalo e ensinar um lobo a segui-lo, por que ento algum no poderia aprender a andar de mamute?
                Onde foi que voc disse que isso aconteceu?  perguntou Dalanar.
         Foi bem ao leste, pouco depois de nossa partida. Deve ter sido um mamute de quatro dedos  explicou Hochaman.
         Um mamute de quatro dedos? Nunca ouvi falar nisso  contestou Jondalar , nem mesmo entre os Mamuti.
         Voc sabe que eles no so os nicos caadores de mamutes  defendeu-se Hochaman.  Alm do mais, no vivem muito longe no leste. Acredite-me, em comparao 
com a distncia a que estou me referindo, eles so nossos vizinhos. Quando se vai bem para o leste, quase perto do Mar Sem Fim, os mamutes tm quatro dedos nas patas 
traseiras. Tambm tendem a ser mais escuros. Alguns deles so quase pretos.
         Bem, se Ayla foi capaz de montar um leo, no duvido que algum haja conseguido montar um mamute. O que voc acha?  perguntou Jondalar, dirigindo-se a 
Ayla.
         Se voc conseguir um filhote suficientemente jovem  ponderou ela , acho que quase todo animal criado no meio das pessoas pode aprender alguma coisa. 
Pelo menos, no ter medo de gente. Os mamutes so inteligentes, podem aprender muitas coisas. J observamos seu modo de quebrar gelo para obter gua. Diversos outros 
animais agem da mesma forma.
         Eles tambm a farejam de longe  emendou Hochaman.  L no leste  bem mais seco, e as pessoas sempre dizem "se sua gua acabar, procure um mamute". Caso 
precisem, so capazes de passar bastante tempo sem gua, mas sempre acabam por encontr-la.
  bom saber disso  comentou Echozar.
 Sim. Especialmente quando se viaja muito  completou Joplaya.
 No pretendo viajar muito  adiantou Echozar.
 Mas vocs iro  Reunio de Vero dos Zelandonii  sugeriu Jondalar.
 Para o nosso Matrimnio, claro  esclareceu Echozar , e gostaria de encontr-los de novo. Seria timo se voc e Ayla morassem aqui.
 Sim. Espero que ambos considerem a oferta  concordou Dalanar.  Voc sabe que esta ser sempre a sua casa, Jondalar, e que ns no possumos um curandeiro,  
exceo de Jerika, que no tem treinamento suficiente. Tambm precisamos de uma lanzadoni e achamos que Ayla seria perfeita para a funo. Voc poderia visitar sua 
me e voltar conosco aps a Reunio de Vero.
 Creia-me, Dalanar, sua oferta muito nos lisonjeia  agradeceu Jondalar , e iremos consider-la.
            Ayla olhou para Joplaya. Ela estava distante, fechada em si mesma. Ayla gostava de Joplaya, mas ambas s conversavam sobre assuntos superficiais. Ayla 
no conseguia superar sua tristeza pelo compromisso de Joplaya, pois ela mesma vivera situao muito semelhante, e sua prpria felicidade transformara-se num lembrete 
do pesar de Joplaya. Por isso, embora houvesse simpatizado com todos, sentia-se alegre por terem de partir pela manh.
            Sentiria uma falta especial de Jerika e Dalanar e de suas inflamadas "discusses". Jerika era uma mulher pequena: quando Dalanar esticava os braos, 
ela podia passar por baixo e ainda sobrava espao. Era, porm, dona de uma vontade indmito. Exercia sobre a Caverna uma liderana to grande quanto ele e discutia 
ferozmente quando sua opinio diferia da dele. Dalanar a escutava com ateno, mas nem sempre concordava. Sua principal preocupao era o bem-estar do seu povo, 
a quem frequentemente submetia as questes polmicas. A maioria das decises, porm, era fruto de sua prpria deliberao, como costuma acontecer com qualquer lder 
natural. Ele nunca dava ordens, apenas impunha respeito.
 No incio Ayla estranhou, mas assim que compreendeu o relacionamento, passou a adorar as discusses, pouco se importando em deixar transparecer o sorriso que lhe 
aflorava aos lbios ao ver uma mulher pouco maior que uma criana manter um acalorado debate com um homem gigantesco. O que mais a surpreendia era como ambos conseguiam 
interromper uma violenta discusso com uma terna palavra de afeto, ou falar sobre outras coisas como se no tivessem acabado de avanar nas respectivas gargantas 
e, em seguida, retomar o combate verbal como se fossem os piores inimigos. Assim que chegavam a uma concluso, tudo era esquecido. Ambos, porm, pareciam gostar 
dos duelos intelectuais e, diferenas fsicas  parte, era uma batalha de iguais. No apenas se amavam, como nutriam profundo respeito mtuo. O tempo esquentava, 
e a primavera explodia em floraes quando Ayla e Jondalar novamente partiram. Dalanar desejou os melhores votos para a Nona Caverna dos Zelandonii e lembrou ao 
casal sua oferta. Ambos haviam sido bem recebidos, mas os sentimentos de Ayla em relao a Joplaya impossibilitavarn-na de viver com os Lanzadonii. Seria extremamente 
penoso para ambas, mas ela no tinha como explicar isso a Jondalar.
 Ele notara uma certa dificuldade no relacionamento entre as duas mulheres, embora elas parecessem gostar uma da outra. Joplaya tambm mostrava-se diferente com 
ele. Mantinha-se distante, sem as brincadeiras e as provocaes de antes. Seu ltimo abrao, porm, o impressionara. Os olhos dela estavam tomados de lgrimas, embora 
ele lhe lembrasse que sua viagem no seria longa e que ambos voltariam a encontrar-se em breve, na Reunio de Vero.
 Jondalar sentira-se aliviado com a calorosa recepo que ambos receberam e iria pensar seriamente na oferta de Dalanar, sobretudo se os Zelandonii no se mostrassem 
muito receptivos com relao a Ayla. Era bom saber que tinham onde ficar, mas no fundo do corao no esquecia que, embora gostasse muito de Dalanar e dos Lanzadonii, 
os Zelandonii eram o seu povo. Era junto deles que Jondalar gostaria de viver com Ayla.
 Quando partiram, Ayla sentiu-se livre de um fardo. Apesar da chuva, ela estava contente por sentir a elevao da temperatura e, quando fazia sol, os dias eram 
bonitos demais para que algum ficasse triste por muito tempo. Ela era uma mulher apaixonada que viajava com seu homem em direo  terra dele, onde construiriam 
um lar. Embora repleta de expectativas e receios, Ayla estava feliz.
    Chegaram a uma regio que Jondalar j conhecia. Cada marco familiar era saudado com excitao e, quase sempre, com um comentrio ou uma histria. Percorreram 
a passagem entre duas cadeias de montanhas e chegaram a um rio que serpenteava e dobrava  direita. Seguiram o rio at a nascente, atravessaram diversos rios caudalosos 
que corriam no sentido norte-sul pelo profundo vale e subiram um grande macio do qual se elevavam vulces, um deles ainda ativo, os demais extintos. Ao cruzarem 
um plat, prximo  nascente de um rio, passaram por algumas fontes termais.
 Estou certo de que aqui comea o rio que passa em frente da Nona Caverna!  exclamou Jondalar, cheio de entusiasmo.  Estamos quase l, Ayla! Poderemos chegar 
em casa antes do cair da tarde.
 So essas as fontes quentes de que voc me falou?  perguntou Ayla.
 Sim. Meu povo chamava-as de guas Curativas da Doni.
 Vamos passar a noite aqui  sugeriu ela.
  Mas j estamos quase l  ponderou Jondalar , quase no fim da nossa viagem, e estou fora h tanto tempo...
          por isso que quero passar a noite aqui.  o fim da nossa viagem. Quero banhar-me na gua quente e passar uma ltima noite a ss com voc, antes de reencontrarmos 
os nossos parentes.
 Jondalar olhou-a e sorriu.
         Voc tem razo. Depois de tanto tempo, que significa uma noite a mais? E  a ltima vez que ficaremos sozinhos, por um bom tempo. Alm disso  deu um sorriso 
maroto , gosto de ficar com voc nas fontes termais.
    Armaram a tenda num local que obviamente j fora usado. Ayla teve a impresso de que os cavalos estavam agitados quando foram soltos para pastar no capim fresco 
do plat, mas ela vira pegadas de potros e de um garanho. Ao recolher os cavalos, encontrou cogumelos novos, flores e brotos de ma silvestre. Voltou para o acampamento 
com a frente de sua tnica parecendo uma cesta, cheia de verduras e outras guloseimas.
         Parece que voc vai dar uma festa  comentou Jondalar.
 No  m ideia. Vi um ninho e vou voltar l para ver se encontro ovos  confirmou Ayla.
 E o que voc acha disso?  indagou ele, exibindo uma truta. Ayla sorriu de satisfao.  Achei que a tinha visto no crrego. Fiz ponta num galho verde e enrosquei 
uma minhoca. O peixe mordeu na mesma hora; parecia que estava esperando por mim.
         Sem dvida, os preparativos para uma festa!
 Mas a festa pode esperar, no pode?  insinuou Jondalar.  Acho que agora prefiro um banho quente.  As intenes expressas pelos olhos azuis despertaram nela 
os mesmos desejos.
 Maravilhosa ideia  respondeu Ayla. Esvaziou a tnica junto ao local do fogo e correu para os braos dele.
    Sentaram-se lado a lado, prximos ao fogo. Sentiam-se repletos, satisfeitos e completamente relaxados, enquanto apreciavam a dana das fagulhas, que desenhavam 
arabescos e desapareciam na noite. Lobo cochilava por perto. Sbito, levantou a cabea e apontou-a, orelhas em p, para o plat escuro. Ouviram um relincho forte, 
porm desconhecido. A gua emitiu um guincho e Racer um relincho lamuriento.
 H um cavalo desconhecido no campo  disse Ayla, levantando-se num pulo. No havia lua, e era difcil enxergar.
 Voc vai se perder l. Deixe-me procurar algo para fazer uma tocha.
 Huiin guinchou de novo, o cavalo desconhecido relinchou e ouviram-se os galopes distanciando-se na noite.
 No d mais  conformou-se Jondalar.  J  muito tarde da noite. Acho que ela se foi. Um cavalo capturou-a outra vez.
 Desta vez acho que ela foi porque quis. Achei-a nervosa, hoje. Deveria ter prestado mais ateno  queixou-se Ayla.  Ela est no cio, Jondalar.  Tenho certeza 
de que era um garanho e acho que Racer foi com eles. Ele ainda  muito jovem, mas estou certa de que h outras guas no cio. Ele foi atrs delas.
 Est muito escuro para procur-los agora, mas conheo essa regio. Podemos seguir os rastros pela manh.
 Da outra vez o garanho a levou, ela voltou por si mesma e depois teve Racer. Acho que agora ela foi comear um outro beb  comentou Ayla, sentando-se perto do 
fogo. Olhou para Jondalar com um sorriso malicioso.  Parece coerente, ns duas grvidas ao mesmo tempo.
    Ele levou algum tempo para perceber o significado da notcia.
 As duas... grvidas... ao mesmo tempo? Ayla! Voc est dizendo que est grvida? Vai ter um beb?
 Sim  respondeu, concordando com a cabea , vou ter um beb seu, Jondalar.
 Um beb meu? Voc vai ter um beb meu? Ayla! Ayla!  Ele a levantou, rodopiou-a pelo ar e beijou-a.  Tem certeza? Quero dizer, tem certeza que vai ter um beb? 
O esprito pode ter vindo de um dos homens da Caverna de Dalanar, ou mesmo dos Losadunai... Est bem, se  isso que a Me quer.
 Passei minha lua sem sangrar e sinto-me grvida. At j senti um pouco de enjoo de manh. Mas nada srio. Acho que o comeamos quando descemos a geleira  avaliou 
Ayla , e o beb  seu, Jondalar, estou certa disso. No pode ser de mais ningum. Comeou com a sua essncia. A essncia da sua masculinidade.
 Meu beb?  repetiu ele com um suave deslumbramento no olhar. Pousou a mo sobre o estmago dela.  Voc est com o meu beb aqui? Eu desejava tanto isso  revelou, 
com o olhar perdido e as plpebras piscando.  Sabe, cheguei at a pedir  Me.
 Voc no me disse que a Me atende a todos os seus pedidos, Jondalar?  Ela sorria pela felicidade dele, e tambm pela sua.  Diga-me, voc pediu menino ou menina?
         S um beb, Ayla, no importa qual.
 Ento voc no se importa se eu desta vez torcer por uma menina?
    Ele balanou a cabea.
 S seu beb e, talvez, meu.
 O problema de seguir cavalos a p  que eles andam bem mais rpido que a gente  reclamou Ayla.
         Mas acho que sei para onde devem estar indo  tranquilizou-a Jondalar , e conheo um atalho para o alto do macio.
         E se eles no estiverem l, onde voc pensa que esto?
 Teremos ento que voltar e seguir a trilha de novo, mas os rastros esto levando  direo certa. No se preocupe, Ayla, vamos encontr-los.
 Temos de encontr-los, Jondalar. Estamos juntas h muito tempo, no posso mais deix-la voltar para o bando.
    Jondalar conduziu-a para um campo abrigado onde os cavalos selvagens costumavam reunir-se. De fato, ao chegarem l viram diversos cavalos, e Ayla no demorou 
muito a reconhecer sua amiga. Desceram a encosta abrupta, at a borda do plano capinzal. Durante a rdua descida, Jondalar observou Ayla com muita ateno, preocupado 
com que ela se esforasse em excesso. L embaixo, ela emitiu um assobio familiar.
    Huiin levantou as orelhas e galopou em direo  mulher, seguida pelo grande garanho claro e por um cavalo marrom, mais novo. O garanho voltou para ameaar 
o jovem pretendente, que fugiu. Embora excitado pela presena de fmeas no cio, ele ainda no tinha condies de enfrentar o garanho, mais forte e experiente. Jondalar 
correu para Racer com a lana na mo, para proteger-se do poderoso animal. O cavalo jovem, porm, distrara a ateno do garanho que, aps persegui-lo, voltou para 
junto da fmea.
    Ayla abraava o pescoo de Huiin quando o garanho chegou e empinou, mostrando todo o seu potencial. A gua afastou-se de Ayla para responder ao chamado. Jondalar 
aproximou-se, com um olhar preocupado, puxando Racer por uma forte corda presa ao cabresto do animal.
            Voc pode tentar botar o cabresto nela  aconselhou Jondalar.
            No. Teremos de acampar por aqui esta noite. Eles esto fazendo um beb, e Huiin deseja um. No quero impedi-la  disse Ayla.
    Jondalar encolheu os ombros em aquiescncia.
     Por que no? No h pressa. Poderemos acampar um pouco aqui.  Sentiu Racer puxar na direo do bando.  Ele quer se juntar aos outros. Voc acha que seria 
seguro deix-lo ir?
     No acho que vo a lugar nenhum. Este campo  bastante amplo e, caso eles saiam, poderemos subir e ver l de cima para onde esto indo. Pode ser bom para ele 
ficar um pouco com os outros cavalos. Talvez aprenda alguma coisa  disse Ayla.
     Acho que voc tem razo  concordou Jondalar, retirando o cabresto e observando Racer galopar pelo campo afora.  Ser que algum dia ele chegar a ser um garanho 
de bando? E compartilhar os Prazeres com todas as fmeas?  E, talvez, fazer crescer novos cavalos dentro delas, pensou.
     Tambm precisamos encontrar um local para acampar e ficar  vontade  sugeriu Ayla  e caar algo para comer. Talvez haja galos silvestres entre os salgueiros 
prximos ao crrego.
     Pena que no haja fontes termais por aqui  lamentou-se Jondalar.   impressionante como um banho quente relaxa.
    Ayla contemplou, de grande altura, uma infinita extenso de gua. Na direo oposta, a grande plancie relvada estendia-a at onde seus olhos podiam alcanar. 
Perto dali, situava-se uma familiar campina que terminava numa parede rochosa, onde se localizava uma caverna cuja entrada se escondia atrs de aveleiros.
    Ayla tinha medo. A neve que caa l fora bloqueava a entrada, mas quando ela afastou os arbustos e saiu, era primavera. As flores cresciam e os pssaros cantavam. 
A vida se renovava por toda parte. O choro robusto de um recm-nascido vinha da caverna.
    Ela seguia algum montanha abaixo, carregando um beb no quadril, dentro de um manto. O homem que a conduzia era manco. Andava com um basto e levava algo num 
manto, cujo volume sobressaa em suas costas. Era Creb, que protegia o recm-nascido. A caminhada parecia no ter fim. Aps percorrer uma longa distncia atravs 
das montanhas e grandes plancies, finalmente alcanaram um vale que abrigava um campo relvado. Os cavalos iam sempre l.
    Creb parou, tirou das costas seu cheio manto e colocou-o no cho. Ela julgou ver um osso branco l dentro, mas um jovem cavalo marrom saiu do manto e correu 
para uma gua clara. Ayla assobiou para o cavalo, mas ele afastou-se a galope junto com um garanho claro. Creb voltou-se e acenou, mas ela no conseguiu compreender 
o sinal. Era uma linguagem corriqueira que ela no conhecia. Ele fez outro sinal.
            Venha, poderemos chegar l antes do anoitecer.
    Ela estava num cumprido tnel dentro de uma caverna. Uma luz bruxuleava l na frente. Era uma abertura para o exterior. Ela andava por um caminho ngreme ao 
longo de uma parede feita de uma rocha branca e cremosa, seguindo um homem que se movimentava a passos largos. Ela conhecia o lugar e se apressava para alcanar 
o homem.
            Espere! Espere por mim. Estou chegando  gritava.
     Ayla! Ayla!  Jondalar sacudia-a.  Voc est tendo um sonho ruim?
            Um sonho estranho, mas no ruim  explicou ela. Ayla levantou-se, sentiu nuseas e deitou-se outra vez, na esperana de que passassem. Jondalar batia 
com a vestimenta de couro no garanho claro, enquanto Lobo latia e acuava para permitissem que Ayla colocasse o cabresto na
cabea de Huiin. Ayla carregava apenas um pequeno fardo. Racer, bem amarrado a uma rvore, levava a maior parte da carga.
    Ayla montou no dorso da gua e f-la galopar, guiando-a pela beirada do grande campo. O garanho, a princpio, perseguiu-as, mas diminuiu o galope  medida que 
se afastaram das demais guas. Finalmente parou, empinou e relinchou, chamando por Huiin. Novamente empinou e voltou para o bando. Diversos garanhes j haviam tentado 
se aproveitar da sua ausncia. Ao se aproximar, empinou outra vez, gritando em desafio.
    Ayla continuou a cavalgar Huiin, mas diminuiu o ritmo do galope. Quando ouviu o barulho de cascos, parou e esperou por Jondalar e Racer, que chegaram seguidos 
por Lobo.
            Se nos apressarmos, poderemos chegar antes do anoitecer  previu Jondalar.
    Ayla e Huiin emparelharam com eles. Ela sentiu uma estranha sensao de que j fizera isso antes.
    Avanaram num ritmo confortvel.
     Acho que, agora, ambas teremos um beb  disse Ayla.  Nosso segundo beb, e ambas tivemos machos da outra vez. Acho isso bom. Poderemos compartilhar esses 
momentos.
    Voc ter muita gente para compartilhar sua gravidez  lembrou Jondalar.
    Estou certa de que voc tem razo, mas vai ser bom compartilh-la tambm com Huiin, uma vez que ambas engravidamos durante esta viagem.  Permaneceram um pouco 
em silncio.  Ela, porm,  bem mais nova do que eu. Estou velha para ter um beb.
            Voc no  to velha assim, Ayla. O velho aqui sou eu.
     Vou completar dezenove anos nessa primavera.  muita idade para ter um beb.
     Sou bem mais velho. J passei dos vinte e trs anos.  muita idade para um homem constituir famlia pela primeira vez. Voc imagina que estive fora por cinco 
anos? Tenho dvidas se algum ainda ir lembrar-se de mim  especulou Jondalar.
      claro que se lembram de voc. Dalanar no teve nenhuma dificuldade, nem Joplaya  tranquilizou-o Ayla. Todos o reconhecero, mas ningum ir me conhecer, 
pensou Ayla.
     Olhe! Est vendo aquela rocha l? Logo depois da curva do rio? Foi onde abati minha primeira caa!  exclamou Jondalar, forando Racer a apressar a marcha. 
 Era um veado enorme. No sei o que mais temia, se a ameaa daqueles grandes cornos ou a vergonha de perd-lo e voltar para casa de mos vazias.
    Ayla sorria, contente com as lembranas dele, mas ela nada tinha a relembrar. Seria de novo uma estranha. Todos a olhariam e perguntariam sobre seu sotaque estrangeiro 
e o lugar de onde viera.
     Certa vez tivemos uma Reunio de Vero aqui  relembrou Jondalar.  Havia fogueiras por toda parte. Foi a minha primeira, depois que me tornei homem. Ah! Como 
me mostrei, tentando aparentar mais idade. Meu maior medo era que nenhuma jovem me convidasse para seus Primeiros Ritos. Acho que me preocupei  toa, pois recebi 
trs convites, o que me deixou ainda mais apavorado!
     H algumas pessoas l na frente observando-nos, Jondalar  alertou Ayla.
      a Dcima Quarta Caverna!  esclareceu ele, acenando. Ningum respondeu aos seus acenos. Em vez disso, desapareceram sob uma profunda salincia.
            Devem ser os cavalos  especulou Ayla.
    Ele franziu as sobrancelhas, depois balanou a cabea.
            Eles iro se acostumar.
    Espero, pensou Ayla, e comigo tambm. A nica coisa familiar por aqui ser Jondalar.
            Ayla! L est!  exclamou Jondalar.  A Nona Caverna dos Zelandonii.
    Ela olhou na direo em que ele apontava e sentiu que empalidecia.
             fcil reconhec-la devido ao afloramento no alto. V, onde parece que uma pedra est prestes a cair? No cair, porm, a menos que desabe todo o resto. 
 Jondalar voltou-se para ela.  Ayla, voc est doente? Est to plida.
    Ela parou.
     J vi este lugar antes, Jondalar.
     Como poderia ter visto? Voc nunca esteve aqui.
    De repente, tudo se juntou. Era a caverna que via em meus sonhos! Aquela que vinha das lembranas de Creb, pensou ela. Agora sei o que ele tentava me dizer em 
meus sonhos.
            Disse-lhe que meu totem queria que voc fosse meu e o enviou para me buscar. Ele queria que voc me levasse para casa, o lugar onde o meu esprito do 
Leo da Caverna ir sentir-se feliz.  isso. Tambm voltei para casa, Jondalar. Sua casa  minha casa  concluiu Ayla.
    Ele sorriu, mas antes, pudesse responder ouviu gritarem seu nome.
            Jondalar! Jondalar!
    Olharam para cima e, num caminho sobre um penhasco saliente, viram uma jovem.
            Me! Venha rpido!  gritou a moa.  Jondalar voltou. Voltou para casa!
    Eu tambm, pensou Ayla.




    FIM
